Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Turma Boa, No Fim Das Contas

tenho sempre notícias dos cães velhos,
homens que estão escrevendo há
décadas,
poetas todos,
ainda estão diante de suas
máquinas
escrevendo melhor do que
nunca
tendo superado esposas e guerras e
empregos
e todas as coisas que
acontecem.
de muitos eu não gostava por razões
pessoais
e artísticas...
mas o que eu deixei de ver foi
a persistência deles e
sua capacidade de
aprimoramento.

esses cães velhos
vivendo em quartos enfumaçados
entornando a
garrafa...

eles vergastam as
fitas das máquinas: eles vieram
para
lutar.
1 110
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Saudação a Vinícius de Moraes

Marcus Vinícius
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
À tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais:
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
Esta tetinha)
Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
— Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!
1 457
Herberto Helder

Herberto Helder

Narração de Um Homem Em Maio

Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.

Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.

Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.

São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.

Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.

Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.

Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.


1953-60
1 125
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Resposta a Carlos Drummond de Andrade

À mão que o dispensa deve
O laurel sua virtude.
Grato, mas junto sou rude
De quem Claro Enigma escreve.
1 159
Urhacy Faustino

Urhacy Faustino

exposição de desmotivos ou imposição de motivos

Não há porque amar Dante
se é Rilke quem me seduz.
Não há porque amar Michelangelo
se são Monet, Miró e Van Gogh
que fascinam as meninas
— dos meus olhos.
Não há porque amar Charllote
se é Emily que me tem por horas.
Não há porque explicar a obra de arte.
Muito menos o amor.

780
Herberto Helder

Herberto Helder

9

que fosses escrita com todas as linhas de todas as coisas numa frase de ensino
supremacia, pela
quantidade de brancura fêmea,
pelo enredo luminoso,
com as linhas dos dias concêntricos
rectos e curvos numa só linha
respirada,
unida
1 101
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Quente

há fogo nos dedos e há fogo nos sapatos e há
fogo em atravessar uma sala
há fogo nos olhos do gato e há fogo nas bolas
do gato
e o relógio de pulso rasteja como cobra pela parte de trás da
cômoda
e a geladeira contém 9.000 sonhos congelados e picantes
e enquanto ouço as sinfonias de compositores mortos
sou consumido por uma alegre tristeza
há fogo nas paredes
e as lesmas no jardim só querem amor
e há fogo nas pragas daninhas
estamos ardendo ardendo ardendo
há fogo num copo d’água
os túmulos da Índia sorriem como enamorados filhos da mãe
as fiscais de estacionamento choram sozinhas à uma da manhã nas noites chuvosas
há fogo nas rachaduras das calçadas
e
durante a noite toda enquanto fiquei bebendo e datilografando estes
onze ou doze poemas
a energia elétrica ficou caindo e voltando
tem um vento feroz lá fora
e entre as quedas e as voltas
fiquei sentado aqui no escuro
máquina elétrica (haha) desligada luzes apagadas rádio desligado
bebendo no escuro
acendendo cigarros no escuro
saía fogo dos fósforos
estamos todos ardendo juntos
irmãos e irmãs ardentes
eu gosto eu gosto eu gosto
disso.
1 179
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Poema Bem Bem Bem Tardio

você pensa sobre aquela vez em
Malibu
depois de ter levado a garota alta
pra jantar e beber
vocês saíram e foram até o Fusca
e a embreagem estava
ferrada
(sem cartão de seguradora)
nada ao redor a não ser o
oceano e
40 quilômetros até o
quarto onde você mora
(a mala dela ali
por ter chegado de avião de algum lugar
do Texas)
e você diz pra ela “bem,
quem sabe a gente volta nadando”, e
ela esquece de
sorrir.

e o problema em
escrever estes poemas
quando você chega ao número 7 ou
8 ou 9
já na segunda garrafa perto
das 3 da manhã
tentando acender o seu
cigarro com uma cartela de
selos
depois de já ter botado
fogo na
lixeira
é
que existe ainda um pouco de
aventura e júbilo
em bater à máquina
enquanto o rádio ruge sua
música clássica
mas o conteúdo
começa a
escassear.
1 194
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii B

A água nas torneiras, nos diamantes, nos copos.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos
grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espaço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
se a baforada encrespa o ar quente nas linhas.
1 038
Herberto Helder

Herberto Helder

Do Tamanho da Mão Faço-Lhes o Poema da Minha Vida

do tamanho da mão faço-lhes o poema da minha vida, agudo e espesso,
pois aproveitou do que seria mênstruo,
e crepita agora,
o poema das mães conjuntas quando, ainda analfabetos,
procuramos as putas futuras,
e estremecemos às vezes de sacra folia,
trançados entre as coxas,
debaixo das bocas habilíssimas,
límpidos, loucos,
e são linhas sem tropeço, de osso, nervo, sangue, sopro
^e qual a matéria, e a razão, e a coesão, a força interna do capítulo do
assombro?
dans 1’ivresse,
e então penso: isto é assim:
da exacerbada cantiga das mães a gente tem
o movimento que imita a terra com seus elementos, seus ministérios
do tempo, a aguarrás, o sal grosso, a tinta das rosas
— e é tudo quanto se pode aprender até que a noite venha e desfaça,
a noite amarga
1 018
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Improviso

Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
1 335
Herberto Helder

Herberto Helder

1G

Cada sítio tem um mapa de luas. Há uma criança radial vista
pelas paisagens, crispada através
dos diamantes.
Em cada sítio há uma árvore de diamantes, uma constelação
na fornalha. Abaixa-te,
vara alta, que essa criança de cabeça habituada aos meteoros
delira, põe-te os dedos,
deita um braço de fora, serve
de estrela. Por acto
de sumptuosidade. Há uma palavra com uma rosa
reluzente. Poros frios, nós de bronze:
a madeira está cheia
de respiração. Apedra arrancada ao mundo está cheia
de respiração. E as luas secam pedra
e madeira. E uma imagem da atenção de tudo.
Quando alguém escreve, arde o papel por onde
passa a imagem. E na criança assim escrita dentro
de um saco radioso, a noite contempla-se
a si própria. Trabalha-se nas partes
doces e ocultas
da morte, engrandecendo a mão voltaica
que a escreve em nome — essa última ciência:
unânime,
fundamental,
1 161
Herberto Helder

Herberto Helder

6

pratica-te como contínua abertura,
o mais atento que custe,
com uma volta sobre ti mesma até eu aparecer no outro lado do rosto
quando te olhas,
espera que desapareça o ruído em cada palavra,
e agora só a ela se ouça,
e então aumenta tanto quanto possas se escutas
que me aproximo,
a género de abrasadura mulheril,
a cálculo lírico infundido nas lides de ar e fogo,
edoi lelia doura,
que o mênstruo coza e a seda escume,
à luz que nasce da roupa,
e os substantivos perfeitos respirem uns dos outros na têmpera
e frescor da língua indestrutível,
e então estendo por ti acima o melhor do meu braço,
se é que posso fulgurar,
e enquanto crio, cria-me, e cria-te como começo de mim mesmo,
isto: que unas o avulso,
se te puderes mover como o ar que respiro, ó
irrepetível, inenarrável, inerente
556
Virgílio Martinho

Virgílio Martinho

Viagem Para Dentro

Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.

Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.

Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.

Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.

No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.

Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.

Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.

Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
988
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Dia Vou Escrever Uma Cartilha Para Santos Aleijados Mas Enquanto Isso...

enquanto a Bomba repousa lá nas mãos de uma
espécie cada vez menor
tudo que você quer
é me ver sentado ao seu lado
com pipoca e Dr. Pepper
enquanto aqueles embotados dentes de celuloide
vão mastigando
meus restos mortais.

não me preocupo muito com a
Bomba – os manicômios estão cheios
o bastante
e sempre lembro que
depois de um dos melhores rabos
que jamais peguei
eu fui ao banheiro e
me masturbei – dureza matar um homem
desses com uma
Bomba?

de todo modo, finalmente derrubei
R. Jeffers e Céline do meu
campanário
e lá sento sozinho
com você e
Dostoiévski
enquanto o coração real e o
coração artificial
continuam a
vacilar,
esfomeados.
eu te amo mas
não sei o que
fazer.
1 205
Fabrício Augusto Souza Gomes

Fabrício Augusto Souza Gomes

Parte Da Minha Vida(ou Olhos da Noite)

PARTE DA MINHA VIDA
Passa com o tempo
que me reduz
a um só verso . . .
a uma só rima.

A grande aventura da vida
reside no fato
de deixá-la fluir
naturalmente.

São poetas atraídos
pela singela arte
de escrever
coisas da vida,
do passado,
do presente,
do futuro . . .
coisas do coração.

Apesar de tudo,
não tem explicação.
É complicado traduzir
meus leitores . . .

Agora,
tento escrever
parte da minha vida
Mas não é fácil!
A inspiração quer "rabiscar"
minha percepção!

Erro!
Fracasso!
Se não tento,
não experimento o sucesso!
Desconheço a decepção!

Enfim,
minha angústia
é o elo
que me motiva a escrever . . .

Escrever
esperando que alguém
num mundo distante
ainda se emocione
ao me ler

Para ti, leitor,
Torno-me seu cúmplice.
Aquele misterioso amigo,
que não tem rosto,
nem voz,
tampouco corpo!
Sou um pensamento abstrato
que você cria
pura imaginação!

Não tem jeito!
Não consigo falar
o que penso.
As palavras morrem
e meus lábios,
enquanto minha mente viaja
querendo dizer algo
às pessoas que ainda
se interessem em ler . . .

Mas tudo é questão de tempo!
O tempo que seduz o poeta . . .
. . . é o mesmo que dá o ponto ( final?)
a seus sonhos e inspirações.

Sou vítima de uma relação
extremamante intimista
com você,
que me lê agora.

Quero estar com você
o tempo todo.
Com você,
posso dizer tudo que sou,
tudo que penso,
tudo que acredito!
Posso falar das estrelas!
Do belo e triste brilho delas.
Posso falar do som do mar (que se ouve nas conchas!)
Posso falar de poesia . . .
Posso falar do meu coração

Certa vez,
escrevia sobre o dia
em plena escuridão da noite.
Tornei-me cada vez mais confuso . . .
pois a noite estava adormecida
no fundo de um rio
e não conseguia enxergá-lo!

O rio que guardava a noite
era rebelde, agressivo, inesperado.
Mas sincero.
Ele nasceu em mim
e morreu nos meus olhos.
Era a lágrima
que inundava
de tristeza e alegria
PARTE DA MINHA VIDA.

937
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

WOE SUPREME

A friend said once to me: «All that thou writest,
Surely 'tis fancy, and pretence, and feigned;
Surely the moaning wherewith thou affrightest
The healthy mind is preconceived and strained!

´ln all the songs and tales that thou indictest
Why's there no word that is not hard or pained?
Why in good things and true thou not delightest,
But even in youth by thee joys are disdained?»

Because, dear friend, thought to be mad is sweet
Sometimes, and though at others nameless woe,
Yet never human pain the pain can meet

Of the mad brain that doth its madness know;
Because my science learn'd has made complete
The knowledge of an ill that cannot go.
1 385
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Helena Maria

Helena Maria:
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
1 394
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Guimarães Rosa

Não permita Deus que eu morra
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
1 493
D. Dinis

D. Dinis

Quer'eu Em Maneira de Proençal

Quer'eu em maneira de proençal
fazer agora um cantar d'amor
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.

Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gram valor,
e com tod'est[o] é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sem
e des i nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh'outra foss'igual.

Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui bem e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit'; e por esto nom sei hoj'eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom há, tra'lo seu bem, al.
4 796
Francisco Mallmann

Francisco Mallmann

IV

era então isso o que querias
me dizer ao ouvido fernando
a cantiga de morrer como um homem
viver como um homem querer amá-lo
num mesmo gesto desejar e desconfiar
de tudo o que leva consigo um nome
sei que me enxergas fernando
no entanto sei que não me vês
695
Fábio Roberto Rodrigues Belo

Fábio Roberto Rodrigues Belo

Passaporte

passeport

porque porta passo pra
poder te ver?

que passatempo fará resistir minha
paciência?

faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte

por onde
o pássaro faz
seupercurso?

preciso ter alegria
paraguerrear...

per fas et nefas

persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.

985
Herberto Helder

Herberto Helder

Não, Obrigado, Estou Bem, Nada de Novo,

não, obrigado, estou bem, nada de novo,
socorro só preciso daquele que me salvasse não sei de quê nem como,
foi simples: mandaram-me um livro praticamente sem dedicatória,
descobri que havia sangue nalgumas páginas,
não indicava de onde vinha nem quem o mandava ou até se era eu o
destinatário,
só o endereço e um carimbo secreto,
de que país de que cidade de que língua inexpugnável,
depois do caos e a solidão e o medo et coetera,
estou naturalmente mal obrigado,
e num extremo é sempre possível despenhar-se de algures para nenhures,
logo se vê,
pois tinha sangue páginas afora,
pus-me então a supor que violência era aquela entre tantas violências
de sangue que se conhecem,
e nem de uma única me lembrei, só me lembrava
que o corpo humano tem cinco litros de sangue em média,
muito
muito muito sangue com que alguém tem de se haver,
cinco litros para esbracejar ou afogar-se ou saciar,
tanto sangue para quê?
é o que acontece quando se pensa nas iluminuras das guerras,
para que se dá ou tira tanto sangue,
e das mulheres plenas vai-se ainda extravasando tanto sangue inútil delas,
não, não, estou bem, só que já não percebo nada, ou melhor:
estou mal, obrigado — e o sangue corre e escorre dentro e fora,
e o tema, qual era? digo: de que tratava o livro?
não sei, era numa língua demasiado estrangeira,
provavelmente não tratava de nada,
desconfio mesmo que eram poemas em verso dito livre,
e se existe alguma lógica, dadas as circunstâncias, o que é que se esperava?
e então exultei: porque
as coisas, as pessoas, os livros, os trajectos, as palavras, tudo à volta,
são segredos de um segredo, e só isso os sustenta no vazio do tempo,
e espero estar agora mesmo a escrever,
em verbo arcaico indefectível cerrado,
um êrro absoluto,
um êrro escorchado vivo: vós sois o sal da terra,
vós que escreveis e enviais cartas a cada um e a todos
— a mão do mundo, a música, as cartas derradeiras
e os sobrescritos sem destinatários
1 006
Herberto Helder

Herberto Helder

A Noite Que No Corpo Eu Tanto Tempo Trouxe

a noite que no corpo eu tanto tempo trouxe, setembro, o estio,
pálpebras seladas, unhas, e o sangue por baixo e em cima a faca
com que se talha a mão e a frase um pouco longa sangra,
e consta que no verso e reverso da língua se está mais vivo,
assim o súbito nos abra,
nos puxe, digo eu, aos sorvedouros do sono,
e seus estados e obras,
eu que sou isento, digo, que me devore um buraco ou fora ou dentro,
ou galáctico, ou uma pontada no coração tão de repente,
se alguém se vai embora não sei de onde para onde,
se se murmura: que toda a gente morre de si: ou agora ou
um pouco mais tarde, o que está certo
como qualquer mistério:
água quebrando os dedos até às pontas quando se escreve
de uma ponta à outra sobre as riscas do papel cantante,
mais coisa menos coisa, pequena coisa, ou: riacho frio, sorve-o a areia,
e acaba ali, como esta curta ária aqui tão perto do comêço
de seu esperançoso esperanto tanto quanto
já sabe alguém que aqui se capitula,
e abre este capítulo:
que tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica,
alguma coisa movida a estrangeiro longínquo,
coisa fora do sistema, e mete medo,
e não é a beleza,
não é um rosto que estremeça junto ao nosso rosto,
e o pretexto é sempre este:
orvalho
557