Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Raimundo Bento Sotero

Raimundo Bento Sotero

Sobre o autor :

1992-Medalha de ouro no XIII concurso nacional de poesia.

1993-Destaque especial no XIV concurso nacional de poesia.

1993-Membro da Academia Uruguaiana de Letras.

1994-Destaque especial no XV concurso nacional de poesia.

1994-Medalha cultural da Revista Brasília.

1994-Verbete da Enciclopédia Contemporânea Brasileira.

1994-Convite para uma seleta de poetas na Coréia e na China.

1995-Destaque especial no XVI concurso nacional de poesia.

1995-Medalha cultural É.DAlmeida Vítor.

1996-Colar do mérito cultural.

1997-Medalha Estella Brasiliense

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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Sonetossom

I

Sonetossom é música — sonata —
Suíte da qual desponta o som da giga
Que o Novo a voz imita em voz antiga
E alude a um alaúde em tom de prata.

É canto inverso, divisão, cantata
Que do alto vem, do teto, minha amiga,
Onde a canção das cordas de uma viga,
Uma equação vibrante a mim relata.

Sonetossom é música, retrata,
Em traços de Bourrée e de Alamanda,
Aquilo que comove ou que maltrata.

Inda mais é, amiga, ouça o sentido:
A mímica do fogo em sarabanda,
A voz do tempo, pelo som, perdido.

II

Sonetossom é cor também... também...
Jalne sutil, rude açafrão; dossel
Que do animal, da planta, a cor contém:
Composição de púrpura e pastel.

Como um tapete vai rolando, além:
De sucessivas cores, carrosel.
Às margens dos seus versos entretém,
De cores vegetais, debrum, cairel.

Sonetossom, também, de cor brasil
Tingido está, de índigo, de anil...
Cores que a um povo deu prazer perdido.

Branco de Kaolim; de genipapo
Preto retinto: mínimo farrapo,
De morta luz, bem sei, constituído.


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.193-194. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
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Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Poema

Este poema não tem pretensão nenhuma.
Este poema não quer ser nada.
Não quer dizer nada.
Este poema pode até ser provisório
— apenas enquanto não se pensa em nada —.
Este poema,
nem quer ser poema!
Sei que ele quer explodir,
invariável,
mudo.
Creio apenas que quer
romper os dedos de minhas mãos,
e cair, teimoso,
dando vida,
à uma folha abstrata de papel.
Mas este poema não tem resistência alguma,
como folhas, soltas ao vento,
frio,
sem pecados...

Salvador, 20 de dezembro de 1996

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Natália Correia

Natália Correia

A verdadeira litania para os tempos da revolução

Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todosratos e gatos Mário Cesariny
Mário nós não somos todos burgueses

os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo

não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens!o que direi de mim?

Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém

e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.

Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário

o que nós somos todos é sebastianistas.

de Inéditos(1959/61)

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Eurícledes Formiga

Eurícledes Formiga

Canto de Amor ao Mar

Sempre tua canção, clamor e apelo,
Sabendo a sal e longes na memória,
ao ver-te cavalgado pelos ventos
nas escarpas da noite, em atropelo,
aos chicotes de fogo dos relâmpagos,
ou nas planícies de ouro das manhãs.
Recomponho o perdido itinerário,
respirando teu hálito — salsugem,
nesse meu navegar irrevelado
de minha origem marinheira... escuto
vir da gávea oscilante da lembrança
a voz evocativa de outras terras
aonde me levaram teus caminhos!
Não reclamo apagasses os meus passos
nas areias soando como teclas
em tuas longas e alvas mãos de espumas;
nem choro ser degredo o ter ficado
no alto dos alcantis a contemplar-te,
já que salgas meus olhos embebidos
na poesia verde-azul de tuas águas.
Quantas vezes me deixo submergir
em teu bojo de lendas e perigos
e vou sonhar remotas abordagens
no tombadilho das escunas mortas!
Sinto-te gotejar pelo meu corpo,
nas pálpebras, na pele, transpirando
teu sangue-sal, banhando-me de ti
nas enseadas das reminiscências.
Vem de longe esse vínculo profundo
de arco-íris e de algas que nos liga,
tanta é esta sensação de desaguar-me
em teu mundo abissal e confundir-me
com teus peixes, sargaços e corais,
ora a flutuar sobre ti como os santelmos,
ora a esgrimir os espadins da chuva
no convés de uma nau, como um pirata,
sob o alarido e o aplauso dos trovões!
Vejo-me assim, em honra de outros nautas,
heróis dos oceanos sem bandeiras,
marujos por amor às aventuras,
antepassados imemoriais.
Escuto-lhes a voz nas elegias
aos sóis que em teus abismos se afogaram
e às estrelas cadentes despencadas
do colo azul da noite como pérolas!
Para falar de amor à minha amada,
ponho tua harmonia nos meus versos;
eles recordam pequeninos búzios,
com tua alma cantando em seus recessos!
Não me é dado saber em quantos portos
ancorei minha nave... em suas quilhas
fulgem as tatuagens de saudades
com as transparências do teu ser ignoto!
Sei apenas que a música da vida
nasce contigo e cresce e envolve o mundo
e o coração-aquário do poeta!

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Marina Tsvetaeva

Marina Tsvetaeva

Poetas

Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas… Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio… Porque a roda dos cometas –

É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.

É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde…-
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!

8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)

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Décio Pignatari

Décio Pignatari

Cloaca

                   beba    coca   cola
                   babe               cola
                   beba    coca
                   babe    cola   caco
                   caco
                   cola
                                c l o a c a
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Renato Russo

Renato Russo

Monte Castelo

Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece
Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É um não contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É um estar-se preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É um ter com quem nos mata a lealdade
Tão contrário a si é o mesmo amor
Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem
Agora vejo em parte
Mas veremos face a face
É só o amor, é só amor
Que conhece o que é verdade
Ainda que eu falasse a língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria

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Renato Russo

Renato Russo

O Livro Dos Dias

Ausente o encanto
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre ao meu lado
Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomaste como bênção
Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho, força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores

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Emílio de Menezes

Emílio de Menezes

Na Glorificação de Bilac

Como é bom elogiar quando nasce o elogio
De um entusiasmo assim, de uma emoção sincera:
Corre sobre o papel a tinta como um rio
A correr na caudal que o declive acelera!

Os vocábulos vêm espontâneos a fio,
Como os sorrisos sãos que um são deleite gera!
Rebenta o aplauso em nos, vigoroso e sadio
Como rebenta a flor em plena primavera!

Eis porque sou feliz em ver glorificado
Fora da inveja hostil, do despeito perverso
O prosador querido, o poeta muito amado!

..............................................

Da arte, no sangue real tens o teu estro imerso
Porém, não basta, Mestre! um simples principado
— A quem é rei, na prosa e imperador no verso!

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Angela Santos

Angela Santos

Uníssono

Um coro de
mil vozes
em uníssono
na minha voz se faz ouvir
eco de outras vozes devolvido
as vozes que um dia acolhi.

São tantas as vozes
no insondável silencio
todas a uma só vez escuto
e o imperceptível murmúrio
é ladainha a lembrar
Babel na dispersão.

No coro de mil vozes
distingo a minha
buscando sempre na inquietação
poder chegar atempo a quem a oiça
do alto da claridade que alcançou

E quando a voz antiga
de manso chega
a voz que oiço em mim
de longe vinda
descubro ser a minha
a voz que grita, no murmúrio
de mil vozes que a habita

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Manuel António Pina

Manuel António Pina

Calo-me

Calo-me quando escrevo
assim as palavras falam mais alto e mais baixo
Nada no poema é impossível e tudo é possível
mas não arranjo maneira de entrar no poema
e de sair de mim e por isso a minha voz é profunda e rouca
e por isso me calo ( e como me calarei?)
no entanto ninguém é tão falador como eu
nem há palavras que não cheguem para não dizer nada.

e vós também: não me faleis de nada ou falai-me
porque não sabeis o que dizeis


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2001
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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

A voz solitária do homem

Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhes é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono
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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Génese

Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é, céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", pág. 17 | Quetzal Editores, 1988

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Romã

Tirei os bagos, um a um,
de dentro da romã. Juntei-os
no prato do poema, e construí com eles
a tua imagem para que
a pudesse morder como se ama,
até ouvir o teu riso perguntar-me: «Que
fazes?», enquanto libertavas
os seios de dentro
da camisa, para que a luz os mordesse
como se morde a romã.
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Luiza Neto Jorge

Luiza Neto Jorge

O poema ensina a cair

O poema ensina a cair

sobre vários solos

desde perder o chão repentino sob os pés

como se perde os sentidos numa

queda de amor,ao encontro

do cabo onde a terra abate e

a fecunda ausência excede

até à queda vinda

da lenta volúpia de cair,

quando a face antige o solo

numa curva delgada subtil

uma vénia a ninguém de especial

ou especialmente a nós uma homenagem

póstuma.

de O Seu Tempo a Seu Tempo

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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Os Versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte
nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

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Al Berto

Al Berto

LÁPIDE, DE «CARTA DA ÁRVORE TRISTE»

a contínua solidão torna-se claridade
iridiscência lume
que incendeia o coração daquele cujo ofício
é escrever e olhar o mundo a partir da treva
humildemente
foi este o trabalho que te predestinaram
viver e morrer nesse simulacro de inferno

meu deus! tinha de escolher a melhor maneira de arder
até que de mim nada restasse senão osso
e meia dúzia se sílabas sujas
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Al Berto

Al Berto

Notas para o diário

deus tem que ser substituído rapidamente por poemas,
sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abis-
mo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-
ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lis-
boa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.
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António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Poesia

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças
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Ruy Belo

Ruy Belo

A primeira palavra

Acompanhando a recente curvatura da terra
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera.
Foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
a superfície do tempo.


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
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Angela Santos

Angela Santos

Strip-Tease

Escancaro
para o mundo
o dentro de mim
em puras exibições de strip-tease da alma

Desnudo-me pelo avesso
adornado de sedas, rendas e cetins
e o avesso se contorce nas palavras
ao jeito de dançarina, comerciando prazer

Vislumbro plateias ávidas,
pupilas inchadas, linguas humidas avermelhadas
exibindo-se ante o languido
arquejar de minha alma

O dentro de mim realiza o sortilegio
o secreto desejo que me habita,
dispo-me inteira pelo avesso
e na nudez primordial da chegada
ofereço-me a visão da minha própria luxuria.

Nas palavras que são corpo, dor, prazer
no palco branco de uma página vazia
nos fluídos de tinta, que rasgam meu ser
na energia pura de clarões que me atravessa
atinjo o êxtase pelo avesso de mim.

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Retrato

Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: e o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.

Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 43 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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Rui Knopfli

Rui Knopfli

O ladrão de versos

Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.



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