Poemas neste tema

Liberdade

Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Homem pequenino

Homem pequenino, homem pequenino,
Solta o teu canário que quer voar...
Eu sou o canário que quer voar...
Eu sou o canário, homem pequenino,
Deixa-me escapar.
Estive na tua gaiola, homem pequenino,
Homem pequenino que gaiola me dás.
Digo pequenino porque não me entendes,
Nem me entenderás.
Tampouco te entendo, mas enquanto isso
Abre-me a gaiola que quero escapar;
Homem pequenino, amei-te meia hora.
Não me peças mais.



1 649
Maria Teresa M. Carrilho

Maria Teresa M. Carrilho

A García Lorca

Trágico é
o destino de alguém
que nasceu para ser herói!
Sabias
desde menino
que a liberdade
às vezes, só a ferros,
se constrói!
Falaste e escreveste
e denunciaste
mais que uma fraude.
Lutaste
até ao fim.
E mesmo sujeito à opressão,
não desanimaste
e aliviaste
muita tensão

Contra a Razão
e todas as invioláveis razões
foste tu próprio e sempre
sempre ponto a defender
as silenciadas multidões!

Desvendaste
e ultrapassaste
as fronteiras íntimas do ser
e levado pela ânsia
e vertigem do Tempo
foste mais além
ignorando ditames materiais
pronto a criar
a recriar
e superar
quaisquer amarras existenciais!

Quis o Destino
que fosses herói
e penetrasses na mansão
dos Imortais!
Foste herói
no teu tempo
e em qualquer tempo
de sujeição!

1 045
Márcia Cristina Silva

Márcia Cristina Silva

Viagem vital

Às vezes
é preciso
destravar as portas
abrir todas as janelas
soltar o cinto da insegurança
e decolar...

Para assistir à Terra
de luneta
Comer pipoca
sentada na lua
Escorregar pelas pontas das estrelas
Dançar no ventre das nuvens
Sonhar em outros planetas

Às vezes
é preciso
ficar só
com um papel e uma caneta!

1 075
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Ondas

Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.

Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.

Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.

Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.

No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.

Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...

Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.

Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.

Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.

Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...

1 914
António Emídio

António Emídio

Onírico em Verso

Olhos laser, os daquele cavalo alado
Voava alto, entre nuvens e fugia
Perdido entre vagas ou entre elas achado
Fogoso nas asas, alado de tanta ousadia!

Fugir em branco, sem ouvir ninguém,
O alado ousava, sem luz nem dia,
Corria desenfreado tudo o que sabia
O leme era o sonho num vai e vem...

A rota eram vozes do gritar de alguém
Subir a voar, procurar sem ver,
Ouvir sem querer, tantas vozes e ninguém!

Até que numa vaga se perdeu,
De tão alto que ficou,
Quando o leme se partiu e ele
logo acordou!

616
Angela Santos

Angela Santos

Retrato

De
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é

Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…

a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…

de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.

E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha

E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.

1 002
António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

Alegoria

Fruto tão maduro
Que me apodreceu.
Foi-se a colheita do futuro:
Podeis aproveitar, aves do céu!

Pomar de luto.
Venha outro Outono pra me consolar;
Outro fruto
Que mate a minha fome e sede de cantar.

E não mais espantalhos a suster
A gula natural dos meus sentidos:
Seja, enfim, livre pra morder,
Ainda verde, o que nascer
Destes ramos despidos!

1 704
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Memória do Padre Manuel Antunes, S.J.

Tão nobre espírito
em tão estreita regra
Tão vasta liberdade em tão estreita
Regra
2 067
Angela Santos

Angela Santos

Subtileza

Num
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes

Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado

E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso

Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade

E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.

990
Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca

motivo

calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça

o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto

por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor

sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo

sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo

1 330
Susana Thénon

Susana Thénon

Ela

Pela madrugada
(ela se deu conta das mãos).
Pela madrugada, apenas.
Ela lembra que nada importa
embora sua sombra siga correndo
em volta da noite.
Algo se deteve em algum momento
algo marchava debilmente
e se deteve em algum momento.
Ela tremeu como um som
congelado entre os lábios de um morto.
Ela se desvaneceu como uma lembrança
evocada até a saciedade.
Ela se dobrou sobre sua respiração
e compreendeu que ainda vivia.
Deu-se conta da liberdade
e a deixou escorrer como uma pequena noite.
Amarrou a angústia ao redor do pescoço
e lembrou sua cor desaparecida.
Ela mordeu às cegas na escuridão
e escutou gritar o silêncio.
E aprendeu a rir
do cheiro antigo que dava adeus a seu sangue.
Pela noite
(ela cortou as mãos).
Pela noite, apenas.
Ela recolhe seu pequeno ocaso.
Ela sonha na ereção da rosa.
809
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Poema

Cumpridos os deveres compridos deixaram
De assediar minhas horas

Doce a liberdade retoma em si minha leveza antiga
1 969
Susana Thénon

Susana Thénon

Não

Me nego a ser possuída
por palavras, por jaulas
por geometrias abjetas.
Me nego a ser
rotulada
violentada
absorvida.
Só eu sei como me destruir
como bater minha cabeça
contra a cabeça do céu,
como cortar minhas mãos e senti-las à noite
crescendo para dentro.
Me nego a receber esta morte
esta dor
estes planos tramados, inconcebíveis
só eu conheço a dor
que leva meu nome
e só eu conheço a casa de minha morte.
998
Castro Alves

Castro Alves

Deusa Incruenta

À IMPRENSA

Ao Grêmio Literário`
ANTÍTESE A "TERRIBILIS DEÁ"

QUANDO ELA se alteou das brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes,
Dos cimos do Peru... às grimpas do Hindustã!!...

Tinha na mão brilhante a trompa bronzeada!
Vestia o longo véu da vestal inspirada!
Era Palas talvez! ... talvez um serafim!...

O albor de Beatriz no imaginar do Dante!. . .
O olhar da Pitonisa em trípode gigante!
Do mundo — Anjo da guarda! enorme querubim!...

Ergueu-se! Olhou de roda os plainos do Universo...
No peito das Nações seu braço longo, imerso
Palpou-lhe o estrepitar do estoso coração!...
— Gênio e santa! — a mulher um grito ergueu profundo,
Abriu braços de mãe — pra acalentar o mundo,
Asas de Serafim — pra abrigar a amplidão.

Rugiram de terror ao ver-lhe o rir sublime...
O sátrapa, o chacal, a tirania, o crime...
O abutre, o antro, o mocho, o erro, a escravidão!
Disse a gruta pra o céu: "Que deusa é esta ingente?"
O espaço respondeu: "É a Diva do Ocidente!...
A consciência do mundo! o Eu da criação!"

E quando Ela surgiu, — os pólos se abraçaram!
O Zênite e o Nadir, — surpresos, se escutaram!
O Norte - ouviu, chorando, o soluçar — do Sul!
O abafado estertor do servo miserando,
Da deusa no clarim gigante reboando,
Clamou da terra — verde... ao firmamento — azul! ...

Uma noite... no chão da Grécia - peregrina,
A Deusa ajoelhou... da poeira divina
O fantasma de Homero então viram surgir!
"Ainda viajar" diz o velho em assombro...
"Quem és? "Eu sou teu guia... Encosta-te ao meu ombro."
— "Então, levas-me longe?" — "Eu levo-te ao porvir!"

No forum colossal da sempiterna Roma
De Cícero a figura apaixonada assoma
E de novo retumba o verbo atroador...
Tem hoje por tribuna imensa — a eternidade,
Por Forum o universo! é plebe — a humanidade!
A seus pés as nações! os séculos — em redor!

Quando a Bastilha vil tremia desraigada
E da mole ao sopé soava a martelada,
A catapulta humana, a voz de Mirabeau!...
Quando aquele ideal Quasímodo do abismo
Se agitava a ulular dos Reis no cataclismo,
— Sineiro que rebate aos séculos tocou!...

Eriçado, feroz, suado, monstruoso,
Magnífico de horror, divino, proceloso...
A Deusa se atirou nos braços do Titão!!
Mas, sentindo que o Deus inteiriçado tomba...

Dos tronos coa madeira — arvora-lhe a hecatomba!
Coas púrpuras dos reis — acende-lhe um clarão!

Seguiu do Childe errante o iate aventureiro...
Beijou-lhe a palidez ao Lord-Forasteiro,
De Veneza, a lasciva — à lânguida Stambul!
E, quando o Lara-Inglês expira, o Pajem louro
É Ela!... E fala... e aponta o firmamento de ouro,
Gulnar lembra a Conrado o seu país de azul!...

Quando a Polônia casta, essa Lucrécia nova,
Para fugir — a um leito, arroja-se a — uma cova...
E mata-se de nojo... aos beijos de um Czar...
Uma atriz funeral surge do negro palco,
Tira à chaga o punhal, descobre o catafalco...
E deixa sobre a Europa... o ferro gotejar!

— Amazona sombria — ela arrebata o Goethe
Na garupa a fumar do tártaro ginete,
Pela noite hibernal dos séculos ao sabá!...
Anjo, às vezes, no céu fatídico revca,
A buzinar de cobre os longos ares troa...
Ergue-se a meio o chão do escuro Josafá!

Salve, Deusa incruenta! Imensa Divindade!
— Barqueira desse mar — chamado a Eternidade! —
Que às margens do Cocito embarcas os heróis...
Em prol da Humanidade a Deus levas o grito.
Tens os olhos — na terra a boca — no infinito!
A meia lua aos pés! Na cabeleira — os sóis!!!

Quando Ela se alteou nas brumas da Alemanha,
Alva, grande, ideal, lavada em luz estranha,
Na destra suspendendo a estrela da manhã...
O espasmo de um fuzil correu nos horizontes ...
Clareou-se o perfil dos alvacentos montes
Dos cimos do Peru às grimpas do Hindostã!!...
..................................................

1 847
Castro Alves

Castro Alves

Saudação a Palmares

Nos altos cerros erguido
Ninho dáguias atrevido,
Salve! — País do bandido!
Salve! — Pátria do jaguar!
Verde serra onde os palmares
— Como indianos cocares —
No azul dos colúmbios ares
Desfraldam-se em mole arfar! ...

Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam...
E as trompas da caça atroam...
E os corvos negros revoam
Sobre o campo abrasador! ...

Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio,
Das liberdades paládio,
Pegaste o punho do gládio,
E olhaste rindo pra o val:
"Descei de cada horizonte...
Senhores! Eis-me de fronte!"
E riste... O riso de um monte!
E a ironia... de um chacal!...

Cantem Eunucos devassos
Dos reis os marmóreos paços;
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir ...
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua!...
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir.

Crioula! o teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Luzidio, firme, duro,
Guardaste pra um nobre amor.
Negra Diana selvagem,
Que escutas sob a ramagem
As vozes — que traz a aragem
Do teu rijo caçador! ...

Salve, Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
— Aos urros da cachoeira —
Sabes bater e lutar...
Salve! — nos cerros erguido —
Ninho, onde em sono atrevido,
Dorme o condor... e o bandido!...
A liberdade... e o jaguar!

2 799
Castro Alves

Castro Alves

O Século

Soldados, do, alto daquelas pirâmides
quarenta séculos vos contemplam!
Napoleão
o século é grande e forte.
V. Hugo
Da mortalha de seus bravos
Fez bandeira a tirania
Oh! armas talvez o povo
Deseus ossos faça um dia
J. Bonifácio

O séc’lo é grande... No espaço
Há um drama de treva e luz.
Como o Cristo — a liberdade
Sangra no poste da Cruz.
Um corvo escuro, anegrado,
Obumbra o manto azulado,
Das asas dáguia dos céus...
Arquejam peitos e frontes...
Nos lábios dos horizontes
Há um riso de luz... É Deus.

Às vezes quebra o silêncio
Ronco estrídulo, feroz.
Será o rugir das matas,
Ou da plebe a imensa voz?...
Treme a terra hirta e sombria. . .
São as vascas da agonia
Da liberdade no chão?...
Ou do povo o braço ousado
Que, sob montes calcado,
Abala-os como um Titão?! ...

Ante esse escuro problema
Há muito irônico rir.
Pra nós o vento da esprança
Traz o pólen do porvir.
E enquanto o cepticismo
Mergulha os olhos no abismo,
Que a seus pés raivando tem,
Rasga o moço os nevoeiros,
Pra dos morros altaneiros
Ver o sol que irrompe além.

Toda noite — tem auroras,
Raios — toda a escuridão.
Moços, creiamos, não tarda
A aurora da redenção.
Gemer — é esperar um canto...
Chorar - aguardar que o pranto
Faça-se estrela nos céus.
O mundo é o nauta nas vagas...
Terá do oceano as plagas
Se existem justiça e Deus.

No entanto inda há muita noite
No mapa da criação.
Sangra o abutre — tirano
Muito cadáver — nação.
Desce a Polônia esvaída,
Cataléptica, adormida,
À tumba do Sobieski;
Inda em sonhos busca a espada ...
Os reis passam sem ver nada ...
E o Czar olha e sorri...

Roma inda tem sobre o peito
O pesadelo dos reis!
A Grécia espera chorando
Canaris... Byron talvez!
Napoleão amordaça
A boca da populaça
E olha Jersey com terror;
Como o filho de Sorrento,
Treme ao fitar um momento
O Vesúvio aterrador.

A Hungria é como um cadáver
Ao relento exposto nu;
Nem sequer a abriga a sombra
Do foragido Kossuth.
Aqui — o México ardente,
— Vasto filho independente
Da liberdade e do sol —
Jaz por terra... e lá soluça
Juarez, que se debruça
E diz-lhe: "Espera o arrebol!"

O quadro é negro. Que os fracos
Recuem cheios de horror.
A nós, herdeiros dos Gracos,
Traz a desgraça — valor!
Lutai... Há uma lei sublime
Que diz: "À sombra do crime
Há de a vingança marchar."
Não ouvis do Norte um grito,
Que bate aos pés do infinito,
Que vai Franklin despertar?

É o grito dos Cruzados
Que brada aos moços — "De pé"!
É o sol das liberdades
Que espera por Josué! ...
São bocas de mil escravos
Que transformaram-se em bravos
Ao cinzel da abolição.
E — à voz dos libertadores —
Reptis saltam condores,
A topetar namplidão!...

E vós, arcas do futuro,
Crisálidas do porvir,
Quando vosso braço ousado
Legislações construir,
Levantai um templo novo,
Porém não que esmague o povo,
Mas lhe seja o pedestal.
Que ao menino dê-se a escola,
Ao veterano — uma esmola...
A todos — luz e fanal!

Luz!... sim; que a criança é uma ave,
Cujo porvir tendes vós;
No sol — é uma águia arrojada,
Na sombra — um mocho feroz.
Libertai tribunas, prelos ...
São fracos, mesquinhos elos...
Não calqueis o povo-rei!
Que este mar dalmas e peitos,
Com as vagas de seus direitos,
Virá partir-vos a lei.

Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele — uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus,
Que aos gritos do Niagara
— Sem escravos, — Guanabara
Se eleve ao fulgor dos sóis!
Banhem-se em luz os prostíbulos,
E das lascas dos patíbulos
Erga-se a estátua aos heróis!

Basta!... Eu sei que a mocidade
É o Moisés no Sinai;
Das mãos do Eterno recebe
As tábuas da lei! — Marchai!
Quem cai na luta com glória,
Tomba nos braços da História,
No coração do Brasil!
Moços, do topo dos Andes,
Pirâmides vastas, grandes,
Vos contemplam séclos mil!

1 864
Castro Alves

Castro Alves

Ao Romper DAlva

Página feia, que ao futuro narra
Dos homens de hoje a lassidão, a história
Com o pranto escrita, com suor selada
Dos párias misérrimos do mundo! ...
Página feia, que eu não possa altivo
Romper, pisar-te, recalcar, punir-te...
PEDRO CALASANS
Sigo só caminhando serra acima,
E meu cavalo a galopar se anima
Aos bafos da manhã.
A alvorada se eleva do levante,
E, ao mirar na lagoa seu semblante,
Julga ver sua irmã.

As estrelas fugindo aos nenufares,
Mandam rútilas pérolas dos ares
De um desfeito colar.
No horizonte desvendam-se as colinas,
Sacode o véu de sonhos de neblinas
A terra ao despertar.

Tudo é luz, tudo aroma e murmurio.
A barba branca da cascata o rio
Faz orando tremer.
No descampado o cedro curva a frente,
Folhas e prece aos pés do Onipotente
Manda a lufada erguer.

Terra de Santa Cruz, sublime verso
Da epopéia gigante do universo,
Da imensa criação.
Com tuas matas, ciclopes de verdura,
Onde o jaguar, que passa na espessura,
Roja as folhas no chão;

Como és bela, soberba, livre, ousada!
Em tuas cordilheiras assentada
A liberdade está.
A púrpura da bruma, a ventania
Rasga, espedaça o cetro que serguia
Do rijo piquiá.

Livre o tropeiro toca o lote e canta
A lânguida cantiga com que espanta
A saudade, a aflição.
Solto o ponche, o cigarro fumegando
Lembra a serrana bela, que chorando
Deixou lá no sertão.

Livre, como o tufão, corre o vaqueiro
Pelos morros e várzea e tabuleiro
Do intrincado cipó.
Que importa’os dedos da jurema aduncos?
A anta, ao vê-los, oculta-se nos juncos,
Voa a nuvem de pó.

Dentre a flor amarela das encostas
Mostra a testa luzida, as largas costas
No rio o jacaré.
Catadupas sem freios, vastas, grandes,
Sois a palavra livre desses Andes
Que além surgem de pé.

Mas o que vejo? É um sonho!... A barbaria
Erguer-se neste séclo, à luz do dia.
Sem pejo se ostentar.
E a escravidão — nojento crocodilo
Da onda turva expulso lá do Nilo —
Vir aqui se abrigar! ...

Oh! Deus! não ouves dentre a imensa orquesta
Que a natureza virgem manda em festa
Soberba, senhoril,
Um grito que soluça aflito, vivo,
O retinir dos ferros do cativo,
Um som discorde e vil?

Senhor, não deixes que se manche a tela
Onde traçaste a criação mais bela
De tua inspiração.
O sol de tua glória foi toldado...
Teu poema da América manchado,
Manchou-o a escravidão.

Prantos de sangue — vagas escarlates —
Toldam teus rios — lúbricos Eufrates
Dos servos de Sião.
E as palmeiras se torcem torturadas,
Quando escutam dos morros nas quebradas
O grito de aflição.

Oh! ver não posso este labéu maldito!
Quando dos livres ouvirei o grito?
Sim... talvez amanhã.
Galopa, meu cavalo, serra acima!
Arranca-me a este solo. Eia! te anima
Aos bafos da manhã!

2 823
Sukrato

Sukrato

Não me lavem o rosto

Não me lavem os olhos!
Não; já disse não!
Deixai-me ver,
sentir, viver tudo em mim
mas não me lavem os olhos!

Deixai-me crer por mim
aceitar a realidade
mas não me barrem a caminhada
não me lavem os olhos!

Deixai-me sofrer realidade
ao sonhar fraternidade
mas... por favor...
não me lavem os olhos!
746
Castro Alves

Castro Alves

Adeus, Meu Canto

I

Adeus, meu canto! É a hora da partida...
O oceano do povo sencapela.
Filho da tempestade, irmão do raio,
Lança teu grito ao vento da procela.

O inverno envolto em mantos de geada
Cresta a rosa de amor que além se erguera...
Ave de arribação, voa, anuncia
Da liberdade a santa primavera.

É preciso partir, aos horizontes
Mandar o grito errante da vedeta.
Ergue-te, ó luz! — estrela para o povo,
— Para os tiranos — lúgubre cometa.

Adeus, meu canto! Na revolta praça
Ruge o clarim tremendo da batalha.
Águia — talvez as asas te espedacem,
Bandeira — talvez rasgue-te a metralha.

Mas não importa a ti, que no banquete
O manto sibarita não trajaste —,
Que se louros não tens na altiva fronte
Também da orgia a coroa renegaste.

A ti que herdeiro duma raça livre
Tomaste o velho arnês e a cota darmas;
E no ginete que escarvava os vales
A corneta esperaste dos alarmas.

É tempo agora pra quem sonha a glória
E a luta... e a luta, essa fatal fornalha,
Onde referve o bronze das estátuas,
Que a mão dos seclos no futuro talha ...

Parte, pois, solta livre aos quatro ventos
A alma cheia das crenças do poeta!...
Ergue-te ó luz! — estrela para o povo,
Para os tiranos — lúgubre cometa.

Há muita virgem que ao prostíbulo impuro
A mão do algoz arrasta pela trança;
Muita cabeça dancião curvada,
Muito riso afogado de criança.

Dirás à virgem: — Minha irmã, espera:
Eu vejo ao longe a pomba do futuro.
— Meu pai, dirás ao velho, dá-me o fardo
Que atropela-te o passo mal seguro ...

A cada berço levarás a crença.
A cada campa levarás o pranto.
Nos berços nus, nas sepulturas rasas,
— Irmão do pobre — viverás, meu canto.

E pendido através de dois abismos,
Com os pés na terra e a fronte no infinito,
Traze a bênção de Deus ao cativeiro,
Levanta a Deus do cativeiro o grito!

II

Eu sei que ao longe na praça,
Ferve a onda popular,
Que às vezes é pelourinho,
Mas poucas vezes — altar.
Que zombam do bardo atento,
Curvo aos murmúrios do vento
Nas florestas do existir,
Que babam fel e ironia
Sobre o ovo da utopia
Que guarda a ave do porvir.

Eu sei que o ódio, o egoísmo,
A hipocrisia, a ambição,
Almas escuras de grutas,
Onde não desce um clarão,
Peitos surdos às conquistas,
Olhos fechados às vistas,
Vistas fechadas à luz,
Do poeta solitário
Lançam pedras ao calvário,
Lançam blasfêmias à cruz.

Eu sei que a raça impudente
Do escriba, do fariseu,
Que ao Cristo eleva o patíbulo,
A fogueira a Galileu,
É o fumo da chama vasta,
Sombra — que o século arrasta,
Negra, torcida, a seus pés;
Tronco enraizado no inferno,
Que se arqueia escuro, eterno,
Das idades através.

E eles dizem, reclinados
Nos festins de Baltasar:
"Que importuno é esse que canta
Lá no Eufrate a soluçar?
Prende aos ramos do salgueiro
A lira do cativeiro,
Profeta da maldição,
Ou cingindo a augusta fronte
Com as rosas dAnacreonte
Canta o amor e a criação. . ."

Sim! cantar o campo, as selvas,
As tardes, a sombra, a luz;
Soltar sualma com o bando
Das borboletas azuis;
Ouvir o vento que geme,
Sentir a folha que treme,
Como um seio que pulou,
Das matas entre os desvios,
Passar nos antros bravios
Por onde o jaguar passou;

É belo... E já quantas vezes
Não saudei a terra — o céu,
E o Universo — Bíblia imensa
Que Deus no espaço escreveu?1
Que vezes nas cordilheiras,
Ao canto das cachoeiras,
Eu lancei minha canção,
Escutando as ventanias
Vagas, tristes profecias
Gemerem na escuridão?! ...

Já também amei as flores,
As mulheres, o arrebol,
E o sino que chora triste,
Ao morno calor do sol.
Ouvi saudoso a viola,
Que ao sertanejo consola,
Junto à fogueira do lar,
Amei a linda serrana,
Cantando a mole tirana,
Pelas noites de luar!

Da infância o tempo fugindo
Tudo mudou-se em redor.
Um dia passa em minhaalma
Das cidades o rumor.
Soa a idéia, soa o malho,
O ciclope do trabalho
Prepara o raio do sol.
Tem o povo — mar violento —
Por armas o pensamento,
A verdade por farol.

E o homem, vaga que nasce
No oceano popular,
Tem que impelir os espíritos,
Tem uma plaga a buscar
Oh! maldição ao poeta
Que foge — falso profeta —
Nos dias de provação!
Que mistura o tosco iambo
Com o tírio ditirambo
Nos poemas daflição! ...

"Trabalhar!" brada na sombra
A voz imensa, de Deus —
"Braços! voltai-vos pra terra,
Frontes voltai-vos pros céus!"

Poeta, sábio, selvagem,
Vós sois a santa equipagem
Da nau da civilização!
Marinheiro, — sobe aos mastros,
Piloto, — estuda nos astros,
Gajeiro, — olha a cerração!"

Uivava a negra tormenta
Na enxárcia, nos mastaréus.
Uivavam nos tombadilhos,
Gritos insontes de réus.
Vi a equipagem medrosa
Da morte à vaga horrorosa
Seu próprio irmão sacudir.
E bradei: — "Meu canto, voa,
Terra ao longe! terra à proa! ...
Vejo a terra do porvir!. . . "

III

Companheiro da noite mal dormida,
Que a mocidade vela sonhadora,
Primeira folha dárvore da vida.
Estrela que anuncia a luz da aurora,
Da harpa do meu amor nota perdida,
Orvalho que do seio se evapora,
É tempo de partir... Voa, meu canto, —
Que tantas vezes orvalhei de pranto.

Tu foste a estrela vésper que alumia
Aos pastores dArcádia nos fraguedos!
Ave que no meu peito se aquecia
Ao murmúrio talvez dos meus segredos.
Mas hoje que sinistra ventania
Muge nas selvas, ruge nos rochedos,
Condor sem rumo, errante, que esvoaça,
Deixo-te entregue ao vento da desgraça.

Quero-te assim; na terra o teu fadário
É ser o irmão do escravo que trabalha,
É chorar junto à cruz do seu calvário,
É bramir do senhor na bacanália...
Se — vivo — seguirás o itinerário,
Mas, se — morto — rolares na mortalha,
Terás, selvagem filho da floresta,
Nos raios e trovões hinos de festa.

Quando a piedosa, errante caravana,
Se perde nos desertos, peregrina,
Buscando na cidade muçulmana,
Do sepulcro de Deus a vasta ruína,
Olha o sol que se esconde na savana
Pensa em Jerusalém, sempre divina,
Morre feliz, deixando sobre a estrada
O marco miliário duma ossada.

Assim, quando essa turba horripilante,
Hipócrita sem fé, bacante impura,
Possa curvar-te a fronte de gigante,
Possa quebrar-te as malhas da armadura,
Tu deixarás na liça o férreo guante
Que há de colher a geração futura...
Mas, não... crê no porvir, na mocidade,
Sol brilhante do céu da liberdade.

Canta, filho da luz da zona ardente,
Destes cerros soberbos, altanados!
Emboca a tuba lúgubre, estridente,
Em que aprendeste a rebramir teus brados.
Levanta das orgias — o presente,
Levanta dos sepulcros — o passado,
Voz de ferro! desperta as almas grandes
Do sul ao norte... do oceano aos Andes!!...

4 877
Luís Represas

Luís Represas

Fizeram os dias assim

Por mais que larguem os braços
Por mais que soltem amarras
E que se tapem as covas

Por mais que rasguem os quadros
Por mais que queimem as leis
E que os costumes esmoreçam

Por mais que arrasem as feras
E que os papões arrefeçam
E que as bruxas se convertam

Por mais que riam as caras
E que ternura se esqueça
Por mais que o amor prevaleça
Vocês
Fizeram os dias assim!

Não nos venham pedir contas
Não venham pôr-nos regras
Sabemos que os nossos dias
Não vão ser gastos assim!

1 105
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pavão

A caminho do refeitório, admiramos pela vidraça
o leque vertical do pavão
com toda a sua pompa
solitária no jardim.
De que vale esse luxo, se está preso
entre dois blocos do edifício?
O pavão é, como nós, interno do colégio.
1 311
Renata Pallottini

Renata Pallottini

Corintiano

Não posso sair de casa
há polícias na rua
não posso ir para o trabalho
meu trabalho está cercado
não posso falar em liberdade
é proibido.

Posso apenas dormir
comer um pouco beber
e gritar "gol".
Mesmo assim só quando o meu time ganha.


Poema integrante da série Canas.

In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
1 444
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Recusa

Não entendo, não engulo este latim:
Perinde ac cadaver.
“Você tem que obedecer como um cadáver.”

Cadáver obedece?
Tanto vale morrer como viver?
Para isso nos chamam, nos modelam?

Bem faz Padre Filippo:
cansado de obedecer, vai dar o fora
para viver no mundo largo
a fascinante experiência de só receber ordens
do seu tumultuoso coração.
1 131
Luiz Angélico da Costa

Luiz Angélico da Costa

Manifesto

Não sou herói nem bandido:
meu alazão viaja sobre trilhos;
minha arma é uma marmita
na mão direita (onde uma roseira)...
na esquerda, meu coração
(transpassado de espinhos).
Mas por que,
para que vou assinar manifestos?
Não me compram feijão,
não vou tirar meu filho da prisão...
Futebol é assim mesmo,
vamos sair para outra —
— enquanto há portas abertas
pra sair.

Afinal,
talvez sair seja melhor
ainda... Ainda que mal pergunte,
quem vai ouvir teus lamentos?
Quem vai ler teus pensamentos?
Quem te vai estender a outra mão?
(ou a outra face?)
E...
— mesmo supondo que vão —
como saber o que estará por trás
dess’outra mão que não se estende,
nem se abre sequer?
Ora, vamos e venhamos
e fiquemos onde estamos
até que saibamos onde,
para onde
vão-nos querer levar.
Eu, por mim,
(não prefiro):
só me resta aguardar
o momento
certo,
direis, perdeste o senso
e eu vos direi, no entanto,
que se a mim me perseguem,
se dos meus ouço o lamento...
(oh, meu proscrito irmão,
que por amor de nós
já reverteste ao pó
e nem lembrança és mais!)

Se,
para ser esse Homem
que idealizastes,
tanto esperar
e sofrer tanto
me é preciso
e nem a bíblica mansidão
me basta,
(mil perdões, ingênuo Kipling):
vosso Homem imperial
não posso ser,
ó Senhor Rudyard!
Nem vosso Superman,
ó Mister Presidente!
Serei, pois, tão somente
esta miniatura
que é tão pequena mas só fita os Andes...
e não vou assinar manifestos, não, senhor!

Pois se...se...se...se...se...se...
ó Cigarra Boêmia,
(si vis pacem, para bellum),
se o preço da liberdade
é a eterna vigilância
para gregos e troianos
— do Centro-Sul maravilha
ou do Nordeste boêmio
com Sudene ou sem Sudene
(esse lado sucedâneo!) —
nossa terra tem palmeiras
onde canta o sabiá;
tem também o mico sapiens
e o galinho garnisé,
mas também o carcará!

E...
pra não dizer que não falei
do milagre (o milagre é nosso!)
as aves que lá gorjeiam
só gorjeiam como lá...
lá-lá-lá... blá-blá-blá-blá!
Ah! não permitas, Deus, que morram
sem que voltem para cá!...
Mas se um dia,
um belo dia,
claro dia em negra noite
vier um dia a se fechar...
(pobre de mim!)
eu,
que nem Raimundo
(triste mundo!)
jamais me poderei chamar,
deixo pra lá meu lenço, meu boné
(e agora, José?)
e meus perdidos documentos todos
e vou ao menos
lançar pedras de fogo
contra o vento.

Bem...eu sou eu.
E vocês?
Eu, hein?!...
Engraçado!...Parece
que acabei de escrever
um manifesto

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