Poemas neste tema
Juventude
Joachim Du Bellay
JUDO QUANTO RODEIA A NATUREZA
Tudo quanto rodeia a Natureza,
Quanto mais cedo nasce, menos dura;
Da primavera o manto de verdura
Em breve perde a flórida beleza.
No calor, do trovão são fácil presa
Os frutos que receiam a friúra;
E contra o inverno têm pele mais dura
Os tardos, que do outono são riqueza.
As florinhas de tua mocidade
Breve serão colhidas sem piedade,
Não a virtude, o espírito, a razão.
A esses frutos, em ti tão promissores,
Não dá outono nem verão temores,
Nem o rigor da gélida sazão.
Quanto mais cedo nasce, menos dura;
Da primavera o manto de verdura
Em breve perde a flórida beleza.
No calor, do trovão são fácil presa
Os frutos que receiam a friúra;
E contra o inverno têm pele mais dura
Os tardos, que do outono são riqueza.
As florinhas de tua mocidade
Breve serão colhidas sem piedade,
Não a virtude, o espírito, a razão.
A esses frutos, em ti tão promissores,
Não dá outono nem verão temores,
Nem o rigor da gélida sazão.
1 002
Marcial
IV, 7 - A HILO
Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
1 105
Luiz Nogueira Barros
Viagem
Parto pleno de ventura e na aventura
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
843
Armando Silva Carvalho
O AMOR NAS ESCADAS DO METRO
De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?
Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.
Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.
E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.
Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.
O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.
Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.
São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.
Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?
Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.
Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.
E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.
Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.
O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.
Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.
São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.
Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.
720
Giorgos Seferis
De Solstício de verão - VIII
Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
787
Mauro Mota
Versos ao meu cigarro
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
722
Mauro Mota
Sonambulismo
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
781
Fernando Pessoa
SÃO JOÃO
S. JOÃO
Ó Precursor, fizeste-a bonita!
Não que teu Cristo, encarnação do Bem –
Não seja quem seja o teu Divino Anunciado.
O mal são os que após, sem mística divina
Nem ternura cristã, ou só humana,
Meteram a Jesus na cela da doutrina
Com as algemas do ódio manietado
Para depois manchar de falsa fé
O pobre homem que todo homem é
A cruel multidão negramente infinita
Que tem sido o algoz ou o ladrão
Da ingénua humanidade aflita –
Esses que, aqui mesmo, pelos modos,
Dão ao inferno realização...
Ah, não podiam ser piores, nem
Que a mulher do Diabo, se ele a tem,
Os tivesse parido a todos.
Eu bem sei que houve muito santo e crente,
Muito puro, bondoso e inocente.
Bem sei, bem sei:
Sei-o eu e sabe-o toda a gente.
Mas esses, cuja alma está em Cristo
São só isto –
Qualquer remédio que se dissolvesse
No chá que para isso há,
E cujo gosto nele se perdesse;
O chá fica sabendo só a chá.
Se o remédio faz bem,
Não o sabe ninguém.
Que o chá não presta, não duvida alguém.
Sabemos isso, e sabê-lo-ia antes
De todos nós teu Mestre que viria,
Profeta, Deus e guia dos errantes,
Quão dolorosamente o saberia?
Sei que houve astros no céu da fé vazia.
Sei, mas repara que falso isso soa!
Por mais astros que a noite use brilhantes,
Que Diabo!, a noite não se chama dia.
Ó Precursor! Fizeste-a boa!
Daí, para nós, és de Lisboa,
Não és o precursor de nada.
És um rapaz ainda menino
Que tem por missão boa,
Por missão sorridente e sossegada
Ter ao colo um cordeiro pequenino.
Lá o que esse cordeiro significa
Não tem cheiro
Para o povo, que tem a alma rica
Da emoção que não conhece.
Para ele o cordeiro é um cordeiro,
E o menino sorri e a vida esquece.
O resto são fogueiras
E os saltos dados a gritar
Com um medo exagerado
Feito tudo de maneira
A mostrar
O riso, as pernas e o agrado.
É quente e anónima a aragem,
Tudo é juventude e viço
Num arraial multicolor e vasto.
Bonito serviço
Como homenagem
A quem, ainda com cabeça, foi um casto!
Mas é assim que és
E é assim que serás,
Até que pisem esta terra os pés
Do último fado que o Destino traz.
Então, esperamos, eu e todos,
Ver-te «surgir no céu», como quem vence
Tudo que é realidade ou ilusão
Por o menino ser que lhe pertence,
E os seus bons e santos modos
«Com o cordeirinho na mão»,
Como te viu Catulo Cearense.
Mas, desçamos à terra,
Que, por enquanto, o céu aterra,
Porque antes disso mete a morte.
Há muita coisa desconhecida
Na tua vida.
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída.
Estás, eu bem sei, cansado
Com o que a Igreja se intromete
Com tua vida e o teu divino fado.
(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico.
Eu a julgar-te até católico,
E tu sais-me mação.
Bem, aí é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vário.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Pronto a fazer falar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precário.
Se és mação,
Sou mais do que mação – eu sou templário.
Esqueço-te santo
Deslembro o teu indefinido encanto.
Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.
Ó Precursor, fizeste-a bonita!
Não que teu Cristo, encarnação do Bem –
Não seja quem seja o teu Divino Anunciado.
O mal são os que após, sem mística divina
Nem ternura cristã, ou só humana,
Meteram a Jesus na cela da doutrina
Com as algemas do ódio manietado
Para depois manchar de falsa fé
O pobre homem que todo homem é
A cruel multidão negramente infinita
Que tem sido o algoz ou o ladrão
Da ingénua humanidade aflita –
Esses que, aqui mesmo, pelos modos,
Dão ao inferno realização...
Ah, não podiam ser piores, nem
Que a mulher do Diabo, se ele a tem,
Os tivesse parido a todos.
Eu bem sei que houve muito santo e crente,
Muito puro, bondoso e inocente.
Bem sei, bem sei:
Sei-o eu e sabe-o toda a gente.
Mas esses, cuja alma está em Cristo
São só isto –
Qualquer remédio que se dissolvesse
No chá que para isso há,
E cujo gosto nele se perdesse;
O chá fica sabendo só a chá.
Se o remédio faz bem,
Não o sabe ninguém.
Que o chá não presta, não duvida alguém.
Sabemos isso, e sabê-lo-ia antes
De todos nós teu Mestre que viria,
Profeta, Deus e guia dos errantes,
Quão dolorosamente o saberia?
Sei que houve astros no céu da fé vazia.
Sei, mas repara que falso isso soa!
Por mais astros que a noite use brilhantes,
Que Diabo!, a noite não se chama dia.
Ó Precursor! Fizeste-a boa!
Daí, para nós, és de Lisboa,
Não és o precursor de nada.
És um rapaz ainda menino
Que tem por missão boa,
Por missão sorridente e sossegada
Ter ao colo um cordeiro pequenino.
Lá o que esse cordeiro significa
Não tem cheiro
Para o povo, que tem a alma rica
Da emoção que não conhece.
Para ele o cordeiro é um cordeiro,
E o menino sorri e a vida esquece.
O resto são fogueiras
E os saltos dados a gritar
Com um medo exagerado
Feito tudo de maneira
A mostrar
O riso, as pernas e o agrado.
É quente e anónima a aragem,
Tudo é juventude e viço
Num arraial multicolor e vasto.
Bonito serviço
Como homenagem
A quem, ainda com cabeça, foi um casto!
Mas é assim que és
E é assim que serás,
Até que pisem esta terra os pés
Do último fado que o Destino traz.
Então, esperamos, eu e todos,
Ver-te «surgir no céu», como quem vence
Tudo que é realidade ou ilusão
Por o menino ser que lhe pertence,
E os seus bons e santos modos
«Com o cordeirinho na mão»,
Como te viu Catulo Cearense.
Mas, desçamos à terra,
Que, por enquanto, o céu aterra,
Porque antes disso mete a morte.
Há muita coisa desconhecida
Na tua vida.
Tens muita sorte
Em ninguém saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Igreja constituída.
Estás, eu bem sei, cansado
Com o que a Igreja se intromete
Com tua vida e o teu divino fado.
(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assinado,
Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambólico.
Eu a julgar-te até católico,
E tu sais-me mação.
Bem, aí é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vário.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Pronto a fazer falar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precário.
Se és mação,
Sou mais do que mação – eu sou templário.
Esqueço-te santo
Deslembro o teu indefinido encanto.
Meu Irmão, dou-te o abraço fraternal.
4 443
Júlio Maria dos Reis Pereira
Desenho de rapariga
Corpo suave,
de traços finos,
modulados trinos
ao entardecer…
A linha esguia
que delimita
e acaricia
o braço de ave
é tão bonita…
Quase mulher…
Quase criança…
Toda pureza…
— Vede
a beleza
como se enlaça
na sua trança!
de traços finos,
modulados trinos
ao entardecer…
A linha esguia
que delimita
e acaricia
o braço de ave
é tão bonita…
Quase mulher…
Quase criança…
Toda pureza…
— Vede
a beleza
como se enlaça
na sua trança!
711
Fernando Pessoa
II - Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.
3 724
Fernando Echevarría
Estar Assim, Assente na Saudade
Estar assim, assente na saudade,
com todo o peso repousando em si,
a prende à luz da sua antiguidade
parando na de aqui.
Concentra-se na sua densidade.
A tarde, à volta, ilustra no perfil
uma penumbra de profundidade
de onde o azul aviva a luz de Abril.
E a juventude adensa-se na tarde.
Agrava, ao lume duma paz antiga,
o modelado meditar. O ar de
estar ao centro de um amor que diga
quanto está perto da sua eternidade
este toque de luz na rapariga.
com todo o peso repousando em si,
a prende à luz da sua antiguidade
parando na de aqui.
Concentra-se na sua densidade.
A tarde, à volta, ilustra no perfil
uma penumbra de profundidade
de onde o azul aviva a luz de Abril.
E a juventude adensa-se na tarde.
Agrava, ao lume duma paz antiga,
o modelado meditar. O ar de
estar ao centro de um amor que diga
quanto está perto da sua eternidade
este toque de luz na rapariga.
766
Castro Alves
Improviso
(À MOCIDADE ACADÊMICA)
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
Moços! A inépcia nos chamou de estúpidos!
Moços! O crime nos cobriu de sangue!
Vós os luzeiros do país, erguei-vos!
Perante a infâmia ninguém fica exangue
Protesto santo se levanta agora,
De mim, de vós, da multidão, do povo;
Somos da classe da justiça e brio,
Não há mais classe ante esse crime novo!
Sim! mesmo em face, da nação, da pátria,
Nós nos erguemos com soberba fé!
A lei sustenta o popular direito,
Nós sustentamos o direito em pé!
3 529
Natália Correia
Nictofagia
Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,
Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tece-las
E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,
Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de junho!
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,
Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tece-las
E na praia de um trilo sem flauta,
Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,
Me estendesses, ó noite florida
Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de junho!
1 815
Pablo Neruda
Passeando Com Laforgue
Direi desta maneira, eu, nós,
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
superficiais, mal-vestidos de profundidades,
por que nunca quisemos ir de braço dado
com este terno Julio, morto sem companhia?
Com um puríssimo superficial
que talvez pudesse ensinar-nos a vida à sua maneira,
a luz à sua maneira,
sem a aspereza hostil do derrotado?
Por que não acompanhamos seu violino
que desfolhou o outono de papel de seu tempo
para uso exclusivo de qualquer um,
de todo o mundo, como deve ser?
Adolescentes éramos, tontos enamorados
do áspero tenor de Sils-María,
esse sim nos agradava,
a irredutível solidão a contracorrente
o extremo dos pássaros águias
que só servem para as moedas,
imperadores, pássaros destinados
ao embalsamento e aos brasões.
Adolescentes de pensões sórdidas,
nutridos com incessantes espaguetes,
migalhas de pão nos bolsos rasgados,
migalhas de Nietzsche nas pobres cabeças:
sem nós se resolvia tudo,
as ruas, as casas e o amor:
fingíamos amar a solidão
como os presidiários sua pena.
Hoje já tarde demais voltei a ver-te,
Jules Laforgue,
gentil amigo, cavalheiro triste,
divertindo-se com tudo quanto eras,
só no parque da Imperatriz
com tua lua portátil
– a condecoração que te impunhas –
tão correto com o entardecer,
tão solidário com a melancolia,
tão generoso com o vasto mundo
que mal conseguiste digerir.
Porque com teu sorriso agonizante
chegaste tarde, suave jovem bem vestido,
para consolar-nos de nossas pobres vidas
quando já te casavas com a morte.
Ai, quanto se perdeu com o desdém
em nossa juventude menosprezante
que só amou a tempestade, a fúria,
quando o frufru que nos descobriste
ou o solo de astro que nos ensinaste
foram uma verdade que não aprendemos:
a beleza do mundo que perdias
para que nós a herdássemos:
a nobre cifra que não deciframos:
tua juventude mortal que queria nos ensinar
batendo na janela com uma folha amarela:
tua lição de adorável professor,
de companheiro puro
tão reticente quanto agonizante.
1 081
Pablo Neruda
Solidão
Viajante, estou só na Rua da Huchette. É manhã.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
1 260
Desconhecido
Poesia da menina tesuda
Já tenho quinze anos
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
4 465
Noel de Arriaga
Rimance
Na esquina daquela rua,
Passaram duas irmãs,
Cada uma transportando
Um cestinho de maçãs.
Mais duas maçãs levavam
De cada lado do peito,
Que como as outras boliam
Ao mais pequeno trejeito.
Teriam dezoito anos
(Ou teriam dezesseis?),
Cabelos loiros caindo
Em desmanchados anéis.
O cestinho das maçãs
Para onde vai bem no sei —
Cheinho, a deitar por fora,
Para o palácio do Rei.
— "Senhor Rei — aqui nos tendes
Sem pecado e sem defeito,
No tabuleiro bolindo
Ao mais pequeno trejeito" ...
Eram verdes as maçãs.
Não se podiam tragar.
Mas os seios enfeitaram
Quatro noites de luar!
Passaram duas irmãs,
Cada uma transportando
Um cestinho de maçãs.
Mais duas maçãs levavam
De cada lado do peito,
Que como as outras boliam
Ao mais pequeno trejeito.
Teriam dezoito anos
(Ou teriam dezesseis?),
Cabelos loiros caindo
Em desmanchados anéis.
O cestinho das maçãs
Para onde vai bem no sei —
Cheinho, a deitar por fora,
Para o palácio do Rei.
— "Senhor Rei — aqui nos tendes
Sem pecado e sem defeito,
No tabuleiro bolindo
Ao mais pequeno trejeito" ...
Eram verdes as maçãs.
Não se podiam tragar.
Mas os seios enfeitaram
Quatro noites de luar!
1 055
Pablo Neruda
Canto VI - América, não invoco o teu nome em vão
I
De cima (1942)
O percorrido, o ar
indefinível, a lua das crateras,
a seca lua derramada
sobre as cicatrizes,
o calcário buraco da túnica rota,
a ramagem de veias congeladas, o pânico do quartzo,
do trigo, da aurora,
as chaves estendidas nas rochas secretas,
a aterradora linha
do sul despedaçado,
o sulfato dormido em sua estatura
de longa geografia,
e as disposições da turquesa
girando em torno da luz cortada,
do acre ramo sem cessar florido,
da espaçosa noite de espessura.
II
Um assassino dorme
A cintura manchada pelo vinho
quando o deus tabernário
pisa os copos rotos e desgrenha
a luz da alva desencadeada:
a rosa umedecida no soluço
da pequena prostituta, o vento dos dias febris
que entra pela janela sem vidraças
onde o vingado dorme com os sapatos postos
em um odor amargo de pistolas,
em um a cor azul de olhos perdidos.
III
Na costa
Em Santos, entre o odor doce-agudo das bananeiras
que, como um rio de ouro brando, aberto nas costas,
deixa nas margens a estúpida saliva
do paraíso desengonçado,
e um clamor férreo de sombras, de água e locomotiva,
uma corrente de suor e plumas,
algo que baixa e corre do fundo das folhas ardentes
como de um sovaco palpitante:
uma crise de vôos, uma remota
espuma.
IV
Inverno no sul, a cavalo
Eu transpassei a cortiça mil
vezes agredida pelos golpes austrais:
senti o cachaço do cavalo dormir
sob a pedra fria da noite do sul,
tiritar na bússola do monte desfolhado,
ascender na pálida face que começa:
eu conheço o final do galope na névoa,
o farrapo do pobre caminhante:
e para mim não há deus senão a areia escura,
o lombo interminável da pedra e a noite,
o insociável dia
com um advento
de roupa ruim, de alma exterminada.
V
Os crimes
Talvez tu, das noites escuras percorreste
o grito com punhal, a pisada no sangue:
o solitário fio de nossa cruz mil vezes
pisoteada,
as grandes pancadas na porta calada,
o abismo ou o raio que tragou o assassino
quando ladram os cães e a violenta polícia
chega entre os adormecidos
a torcer com força os fios da lágrima
arrancando-os da pálpebra aterrada.
VI
Juventude
Um perfume como uma ácida espada
de cerejas num caminho,
os beijos do açúcar nos dentes,
as gotas vitais resvalando nos dedos,
a doce polpa erótica,
as eiras, os paióis, os incitantes
lugares secretos das casas amplas,
os colchões dormidos no passado, o acre vale verde
olhado de cima, da vidraça escondida:
toda a adolescência molhando-se e ardendo
como uma lâmpada derrubada na chuva.
VII
Os climas
Caem do álamo no outono
as altas flechas, o renovado olvido:
fundem-se os pés em puro cobertor:
o frio das folhas irritadas
é um espesso manancial de ouro,
e um esplendor de espinhos põe perto do céu
os secos candelabros de estatura eriçada,
e um jaguar amarelo, entre as unhas,
cheira uma gota viva.
VIII
Varadero em Cuba
Fulgor de Varadero desde a costa elétrica
quando, despedaçando-se, recebe nas ancas
a Antilha, o maior golpe de vaga-lume e água,
o sem-fim fulgurante do fósforo e a lua,
o intenso cadáver da turquesa morta:
e o pescador escuro retira dos metais
uma cauda eriçada de violetas marinhas.
IX
Os ditadores
Ficou um aroma entre os canaviais:
uma mescla de sangue e corpo, uma penetrante
pétala nauseabunda.
Entre os coqueiros os túmulos estão cheios
de ossos demolidos, de estertores calados.
O delicado sátrapa conversa
com taças, pescoços e cordões de ouro.
O pequeno palácio brilha como um relógio
e os rápidos risos enluvados
atravessam às vezes os corredores
e se reúnem às vozes mortas
e às bocas azuis frescamente enterradas.
O pranto está escondido como uma planta
cuja semente cai sem cessar sobre o chão
e faz crescer sem luz suas grandes folhas cegas.
O ódio se formou escama por escama,
golpe por golpe, ria água terrível do pântano,
como um focinho cheio de lodo e silêncio.
X
América Central
Que lua como uma culatra ensangüentada,
que ramagem de látegos,
que luz atroz de pálpebra arrancada
te fazem gemer sem voz, sem movimento,
rompem teu padecer, sem voz, sem boca,
ó, cintura central, ó, paraíso
de chagas implacáveis.
Noite e dia vejo os martírios,
dia e noite vejo o acorrentado,
o rubro, o negro, o índio
escrevendo com mãos batidas e fosfóricas
nas intermináveis paredes da noite.
XI
Fome no sul
Vejo o soluço no carvão de Lota
e a enrugada sombra do chileno humilhado
picar a amarga veia da entranha, morrer,
viver, nascer na dura cinza
agachados, caídos como se o mundo
entrasse assim e saísse assim
entre pó negro, entre chamas,
e só acontecesse
a tosse no inverno, o passo
de um cavalo na água negra, onde caiu
uma folha de eucalipto como faca morta.
XII
Patagônia
As focas estão parindo
na profundidade das zonas geladas,
nas crepusculares grutas que formam
os últimos focinhos do oceano,
as vacas da Patagônia
se destacam do dia
como um tumulto, como um vapor pesado
que levanta no trio sua quente coluna
para as solidões.
Deserta és, América, como um sino:
cheia por dentro dum canto que não se eleva,
o pastor, o llanero, o pescador
não têm uma mão, nem uma orelha, nem um piano,
nem um rosto perto: a lua os vigia,
a extensão os aumenta, a noite os espreita,
e um velho dia, lento como os outros, nasce.
XIII
Uma rosa
Vejo uma rosa junto à água, uma pequena taça
de pálpebras vermelhas,
sustentada na altura por um som aéreo:
uma luz de folhas verdes toca os mananciais
e transfigura o bosque com solitários seres
de transparentes pés:
o ar está povoado de claras vestimentas
e a árvore estabelece sua magnitude adormecida.
XIV
Vida e morte de uma mariposa
Voa a mariposa de Muzo na tormenta:
todos os fios equinociais,
a pasta gelada das esmeraldas,
tudo voa no raio
são sacudidas as últimas conseqüências da aragem
e então uma chuva de estames verdes
o pólen das esmeraldas sobe;
seus grandes veludos de fragrância molhada
caem nas ribas azuis do ciclone,
unem-se aos tombados fermentos terrestres,
regressam à pátria das folhas.
XV
O homem enterrado no pampa
De tango em tango, se conseguisse
riscar o domínio, as pradarias,
se já adormecido
saindo de minha boca o cereal selvagem,
se eu escutasse nas planuras
um trovão de cavalos,
uma furiosa tempestade de patas
passar sobre os meus dedos enterrados,
beijaria sem lábios a semente
e amarraria nela os vestígios
de meus olhos
para ver o galope que amou minha turbulência:
mata-me, vidalita,
mata-me e que minha substância se derrame
como o rouco metal das guitarras.
XVI
Operários marítimos
Em Valparaíso, os operários do mar
me convidaram: eram pequenos e duros,
e seus rostos queimados eram a geografia
do oceano Pacífico: eram uma corrente
por dentro das imensas águas, uma onda muscular,
um ramo de asas marinhas na tormenta.
Era formoso vê-los como pequenos deuses pobres,
semidesnudos, malnutridos, era formoso
vê-los lutar e palpitar com outros homens além do oceano,
com outros homens de outros portos miseráveis, e ouvi-los,
era a mesma linguagem de espanhóis e chineses,
a linguagem de Baltimore e Kronstadt,
e quando cantaram A internacional cantei com eles:
um hino me subia do coração, quis dizer-lhes: “Irmãos”,
mas tive apenas a ternura que se me fazia canto
e que ia com o seu canto de minha boca até o mar.
Eles me reconheciam, me abraçavam com seus poderosos olhares
sem dizer-me nada, olhando-me e cantando.
XVII
Um rio
Quero ir pelo Papalopán
como tantas vezes pelo terroso espelho,
tocando com as unhas a água poderosa:
quero ir a matrizes, à contextura
de suas originais ramagens de cristal:
ir, molhar meu rosto, mergulhar na secreta
confusão do orvalho
a pele, a sede, o sonho.
O sável saindo da água
como um violino de prata,
e na margem as flores atmosféricas
e as asas imóveis
num calor de espaço defendido
por espadas azuis.
XVIII
América
Estou, estou rodeado
por madressilva e páramo, por chacal e centelha,
pelo acorrentado perfume dos lilases:
estou, estou rodeado
por dias, meses, águas que só eu conheço,
por unhas, peixes, meses que só eu estabeleço,
estou, estou rodeado
pela delgada espuma combatente
do litoral povoado de sinos.
A camisa escarlate do vulcão e do índio,
o caminho, que o pé descalço levantou entre as folhas
e os espinhos entre as raízes,
chega a meus pés à noite para que o caminhe.
O escuro sangue como num outono
derramado no solo,
o temível estandarte da morte na selva,
os passos invasores se desfazendo, o grito
dos guerreiros, o crepúsculo das lanças adormecidas,
o sobressaltado sonho dos soldados, os grandes
rios em que a paz do caimão chapinha,
tuas recentes cidades de alcaides imprevistos,
o coro dos pássaros de costume indomável,
no pútrido dia da selva, o fulgor
tutelar do vaga-lume,
quando em teu ventre existo, em tua tarde
de almenaras, em teu descanso, no útero de teu nascimento,
no terremoto, no diabo dos camponeses, na cinza
que cai das nevadas, no espaço,
no espaço puro, circular, inatingível,
na garra sangrenta dos condores, na paz humilhada
da Guatemala, nos negros,
nos cais de Trinidad, na Guayra:
tudo é minha noite, tudo
é meu dia, tudo
é meu ar, tudo
é o que vivo, sofro, levanto e agonizo.
América, nem da noite
nem do dia estão feitas as sílabas que eu canto.
De terra é a matéria apoderada
do fulgor e do pão de minha vitória,
e não é sonho meu sonho porém terra.
Durmo rodeado de espaçosa argila
e por minhas mãos corre quando vivo
um manancial de caudalosas terras.
E não é vinho o que bebo porém terra,
terra escondida, terra de minha boca,
terra de agricultura com orvalho,
vendaval de legumes luminosos,
estirpe cereal, adega de ouro.
XIX
América, não invoco o teu nome em vão
América, não invoco o teu nome em vão.
Quando sujeito ao coração a espada,
quando agüento na alma a goteira,
quando pelas janelas
um novo dia teu me penetra,
sou e estou na luz que me produz,
vivo na sombra que me determina,
durmo e desperto em tua essencial aurora:
doce como as uvas, e terrível,
condutor do açúcar e o castigo,
empapado em esperma de tua espécie,
amamentado em sangue de tua herança.
De cima (1942)
O percorrido, o ar
indefinível, a lua das crateras,
a seca lua derramada
sobre as cicatrizes,
o calcário buraco da túnica rota,
a ramagem de veias congeladas, o pânico do quartzo,
do trigo, da aurora,
as chaves estendidas nas rochas secretas,
a aterradora linha
do sul despedaçado,
o sulfato dormido em sua estatura
de longa geografia,
e as disposições da turquesa
girando em torno da luz cortada,
do acre ramo sem cessar florido,
da espaçosa noite de espessura.
II
Um assassino dorme
A cintura manchada pelo vinho
quando o deus tabernário
pisa os copos rotos e desgrenha
a luz da alva desencadeada:
a rosa umedecida no soluço
da pequena prostituta, o vento dos dias febris
que entra pela janela sem vidraças
onde o vingado dorme com os sapatos postos
em um odor amargo de pistolas,
em um a cor azul de olhos perdidos.
III
Na costa
Em Santos, entre o odor doce-agudo das bananeiras
que, como um rio de ouro brando, aberto nas costas,
deixa nas margens a estúpida saliva
do paraíso desengonçado,
e um clamor férreo de sombras, de água e locomotiva,
uma corrente de suor e plumas,
algo que baixa e corre do fundo das folhas ardentes
como de um sovaco palpitante:
uma crise de vôos, uma remota
espuma.
IV
Inverno no sul, a cavalo
Eu transpassei a cortiça mil
vezes agredida pelos golpes austrais:
senti o cachaço do cavalo dormir
sob a pedra fria da noite do sul,
tiritar na bússola do monte desfolhado,
ascender na pálida face que começa:
eu conheço o final do galope na névoa,
o farrapo do pobre caminhante:
e para mim não há deus senão a areia escura,
o lombo interminável da pedra e a noite,
o insociável dia
com um advento
de roupa ruim, de alma exterminada.
V
Os crimes
Talvez tu, das noites escuras percorreste
o grito com punhal, a pisada no sangue:
o solitário fio de nossa cruz mil vezes
pisoteada,
as grandes pancadas na porta calada,
o abismo ou o raio que tragou o assassino
quando ladram os cães e a violenta polícia
chega entre os adormecidos
a torcer com força os fios da lágrima
arrancando-os da pálpebra aterrada.
VI
Juventude
Um perfume como uma ácida espada
de cerejas num caminho,
os beijos do açúcar nos dentes,
as gotas vitais resvalando nos dedos,
a doce polpa erótica,
as eiras, os paióis, os incitantes
lugares secretos das casas amplas,
os colchões dormidos no passado, o acre vale verde
olhado de cima, da vidraça escondida:
toda a adolescência molhando-se e ardendo
como uma lâmpada derrubada na chuva.
VII
Os climas
Caem do álamo no outono
as altas flechas, o renovado olvido:
fundem-se os pés em puro cobertor:
o frio das folhas irritadas
é um espesso manancial de ouro,
e um esplendor de espinhos põe perto do céu
os secos candelabros de estatura eriçada,
e um jaguar amarelo, entre as unhas,
cheira uma gota viva.
VIII
Varadero em Cuba
Fulgor de Varadero desde a costa elétrica
quando, despedaçando-se, recebe nas ancas
a Antilha, o maior golpe de vaga-lume e água,
o sem-fim fulgurante do fósforo e a lua,
o intenso cadáver da turquesa morta:
e o pescador escuro retira dos metais
uma cauda eriçada de violetas marinhas.
IX
Os ditadores
Ficou um aroma entre os canaviais:
uma mescla de sangue e corpo, uma penetrante
pétala nauseabunda.
Entre os coqueiros os túmulos estão cheios
de ossos demolidos, de estertores calados.
O delicado sátrapa conversa
com taças, pescoços e cordões de ouro.
O pequeno palácio brilha como um relógio
e os rápidos risos enluvados
atravessam às vezes os corredores
e se reúnem às vozes mortas
e às bocas azuis frescamente enterradas.
O pranto está escondido como uma planta
cuja semente cai sem cessar sobre o chão
e faz crescer sem luz suas grandes folhas cegas.
O ódio se formou escama por escama,
golpe por golpe, ria água terrível do pântano,
como um focinho cheio de lodo e silêncio.
X
América Central
Que lua como uma culatra ensangüentada,
que ramagem de látegos,
que luz atroz de pálpebra arrancada
te fazem gemer sem voz, sem movimento,
rompem teu padecer, sem voz, sem boca,
ó, cintura central, ó, paraíso
de chagas implacáveis.
Noite e dia vejo os martírios,
dia e noite vejo o acorrentado,
o rubro, o negro, o índio
escrevendo com mãos batidas e fosfóricas
nas intermináveis paredes da noite.
XI
Fome no sul
Vejo o soluço no carvão de Lota
e a enrugada sombra do chileno humilhado
picar a amarga veia da entranha, morrer,
viver, nascer na dura cinza
agachados, caídos como se o mundo
entrasse assim e saísse assim
entre pó negro, entre chamas,
e só acontecesse
a tosse no inverno, o passo
de um cavalo na água negra, onde caiu
uma folha de eucalipto como faca morta.
XII
Patagônia
As focas estão parindo
na profundidade das zonas geladas,
nas crepusculares grutas que formam
os últimos focinhos do oceano,
as vacas da Patagônia
se destacam do dia
como um tumulto, como um vapor pesado
que levanta no trio sua quente coluna
para as solidões.
Deserta és, América, como um sino:
cheia por dentro dum canto que não se eleva,
o pastor, o llanero, o pescador
não têm uma mão, nem uma orelha, nem um piano,
nem um rosto perto: a lua os vigia,
a extensão os aumenta, a noite os espreita,
e um velho dia, lento como os outros, nasce.
XIII
Uma rosa
Vejo uma rosa junto à água, uma pequena taça
de pálpebras vermelhas,
sustentada na altura por um som aéreo:
uma luz de folhas verdes toca os mananciais
e transfigura o bosque com solitários seres
de transparentes pés:
o ar está povoado de claras vestimentas
e a árvore estabelece sua magnitude adormecida.
XIV
Vida e morte de uma mariposa
Voa a mariposa de Muzo na tormenta:
todos os fios equinociais,
a pasta gelada das esmeraldas,
tudo voa no raio
são sacudidas as últimas conseqüências da aragem
e então uma chuva de estames verdes
o pólen das esmeraldas sobe;
seus grandes veludos de fragrância molhada
caem nas ribas azuis do ciclone,
unem-se aos tombados fermentos terrestres,
regressam à pátria das folhas.
XV
O homem enterrado no pampa
De tango em tango, se conseguisse
riscar o domínio, as pradarias,
se já adormecido
saindo de minha boca o cereal selvagem,
se eu escutasse nas planuras
um trovão de cavalos,
uma furiosa tempestade de patas
passar sobre os meus dedos enterrados,
beijaria sem lábios a semente
e amarraria nela os vestígios
de meus olhos
para ver o galope que amou minha turbulência:
mata-me, vidalita,
mata-me e que minha substância se derrame
como o rouco metal das guitarras.
XVI
Operários marítimos
Em Valparaíso, os operários do mar
me convidaram: eram pequenos e duros,
e seus rostos queimados eram a geografia
do oceano Pacífico: eram uma corrente
por dentro das imensas águas, uma onda muscular,
um ramo de asas marinhas na tormenta.
Era formoso vê-los como pequenos deuses pobres,
semidesnudos, malnutridos, era formoso
vê-los lutar e palpitar com outros homens além do oceano,
com outros homens de outros portos miseráveis, e ouvi-los,
era a mesma linguagem de espanhóis e chineses,
a linguagem de Baltimore e Kronstadt,
e quando cantaram A internacional cantei com eles:
um hino me subia do coração, quis dizer-lhes: “Irmãos”,
mas tive apenas a ternura que se me fazia canto
e que ia com o seu canto de minha boca até o mar.
Eles me reconheciam, me abraçavam com seus poderosos olhares
sem dizer-me nada, olhando-me e cantando.
XVII
Um rio
Quero ir pelo Papalopán
como tantas vezes pelo terroso espelho,
tocando com as unhas a água poderosa:
quero ir a matrizes, à contextura
de suas originais ramagens de cristal:
ir, molhar meu rosto, mergulhar na secreta
confusão do orvalho
a pele, a sede, o sonho.
O sável saindo da água
como um violino de prata,
e na margem as flores atmosféricas
e as asas imóveis
num calor de espaço defendido
por espadas azuis.
XVIII
América
Estou, estou rodeado
por madressilva e páramo, por chacal e centelha,
pelo acorrentado perfume dos lilases:
estou, estou rodeado
por dias, meses, águas que só eu conheço,
por unhas, peixes, meses que só eu estabeleço,
estou, estou rodeado
pela delgada espuma combatente
do litoral povoado de sinos.
A camisa escarlate do vulcão e do índio,
o caminho, que o pé descalço levantou entre as folhas
e os espinhos entre as raízes,
chega a meus pés à noite para que o caminhe.
O escuro sangue como num outono
derramado no solo,
o temível estandarte da morte na selva,
os passos invasores se desfazendo, o grito
dos guerreiros, o crepúsculo das lanças adormecidas,
o sobressaltado sonho dos soldados, os grandes
rios em que a paz do caimão chapinha,
tuas recentes cidades de alcaides imprevistos,
o coro dos pássaros de costume indomável,
no pútrido dia da selva, o fulgor
tutelar do vaga-lume,
quando em teu ventre existo, em tua tarde
de almenaras, em teu descanso, no útero de teu nascimento,
no terremoto, no diabo dos camponeses, na cinza
que cai das nevadas, no espaço,
no espaço puro, circular, inatingível,
na garra sangrenta dos condores, na paz humilhada
da Guatemala, nos negros,
nos cais de Trinidad, na Guayra:
tudo é minha noite, tudo
é meu dia, tudo
é meu ar, tudo
é o que vivo, sofro, levanto e agonizo.
América, nem da noite
nem do dia estão feitas as sílabas que eu canto.
De terra é a matéria apoderada
do fulgor e do pão de minha vitória,
e não é sonho meu sonho porém terra.
Durmo rodeado de espaçosa argila
e por minhas mãos corre quando vivo
um manancial de caudalosas terras.
E não é vinho o que bebo porém terra,
terra escondida, terra de minha boca,
terra de agricultura com orvalho,
vendaval de legumes luminosos,
estirpe cereal, adega de ouro.
XIX
América, não invoco o teu nome em vão
América, não invoco o teu nome em vão.
Quando sujeito ao coração a espada,
quando agüento na alma a goteira,
quando pelas janelas
um novo dia teu me penetra,
sou e estou na luz que me produz,
vivo na sombra que me determina,
durmo e desperto em tua essencial aurora:
doce como as uvas, e terrível,
condutor do açúcar e o castigo,
empapado em esperma de tua espécie,
amamentado em sangue de tua herança.
1 519
Dílson Catarino
Sombra Calada
Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
791
Audre Lorde
Fogo pendente
Tenho quatorze anos
e minha pele me traiu
o menino que não posso viver sem
ainda chupa o dedo
em segredo
me pergunto por que meus joelhos
estão sempre tão cinzentos
e se eu morrer
antes de amanhecer
mama está no quarto
com a porta fechada.
Eu preciso aprender a dançar
a tempo para a próxima festa
meu quarto é pequeno demais pra mim
considere se eu morro antes da formatura
eles cantarão melodias tristonhas
mas ao fim
dirão a verdade sobre mim
Não há nada que eu queira fazer
e coisas demais
que precisam ser feitas
mama está no quarto
com a porta fechada.
Ninguém nem para pra pensar
no meu lado nisso
Eu devia ter entrado pro Time de Matemática
minhas notas eram melhores que as dele
por que eu tenho que ser
aquela
que usa aparelho?
não tenho nada para vestir amanhã
será que viverei o suficiente
para crescer
e mama está no quarto
com a porta fechada.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Hanging Fire
Audre Lorde
I am fourteen
and my skin has betrayed me
the boy I cannot live without
still sucks his thumb
in secret
how come my knees are
always so ashy
what if I die
before morning
and momma's in the bedroom
with the door closed.
I have to learn how to dance
in time for the next party
my room is too small for me
suppose I die before graduation
they will sing sad melodies
but finally
tell the truth about me
There is nothing I want to do
and too much
that has to be done
and momma's in the bedroom
with the door closed.
Nobody even stops to think
about my side of it
I should have been on Math Team
my marks were better than his
why do I have to be
the one
wearing braces
I have nothing to wear tomorrow
will I live long enough
to grow up
and momma's in the bedroom
with the door closed.
e minha pele me traiu
o menino que não posso viver sem
ainda chupa o dedo
em segredo
me pergunto por que meus joelhos
estão sempre tão cinzentos
e se eu morrer
antes de amanhecer
mama está no quarto
com a porta fechada.
Eu preciso aprender a dançar
a tempo para a próxima festa
meu quarto é pequeno demais pra mim
considere se eu morro antes da formatura
eles cantarão melodias tristonhas
mas ao fim
dirão a verdade sobre mim
Não há nada que eu queira fazer
e coisas demais
que precisam ser feitas
mama está no quarto
com a porta fechada.
Ninguém nem para pra pensar
no meu lado nisso
Eu devia ter entrado pro Time de Matemática
minhas notas eram melhores que as dele
por que eu tenho que ser
aquela
que usa aparelho?
não tenho nada para vestir amanhã
será que viverei o suficiente
para crescer
e mama está no quarto
com a porta fechada.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Hanging Fire
Audre Lorde
I am fourteen
and my skin has betrayed me
the boy I cannot live without
still sucks his thumb
in secret
how come my knees are
always so ashy
what if I die
before morning
and momma's in the bedroom
with the door closed.
I have to learn how to dance
in time for the next party
my room is too small for me
suppose I die before graduation
they will sing sad melodies
but finally
tell the truth about me
There is nothing I want to do
and too much
that has to be done
and momma's in the bedroom
with the door closed.
Nobody even stops to think
about my side of it
I should have been on Math Team
my marks were better than his
why do I have to be
the one
wearing braces
I have nothing to wear tomorrow
will I live long enough
to grow up
and momma's in the bedroom
with the door closed.
1 186
Raimundo Correia
O Vinho de Hebe
Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...
A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...
E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.
Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...
A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...
E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.
Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.4
4 920
Gregório de Matos
Descreve a Vida Escolástica
Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato,
Cabelo penteado, bom topete.
Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete.
A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante.
Cartinhas de trocado para a Freira,
Comer boi, ser Quixote com as Damas,
Pouco estudo, isto é ser estudante.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
6 210
Paulo Silva Ribeiro
Idiotinhas
Idiotinhas
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
844
Paulo F. Cunha
AIDS
Essa nova geração de vivos-mortos
antecipando ,em vida . a decomposição
de seus corpos e mentes transfigurados ,
perambulam sem como nem porque
pelo deslize do instinto ou sentimento .
Chacoteados , excluídos , isolados ,
pagam promissórias não aceitas ,
mesmo que , ao fim , executados
por misteriosos tribunais nunca escatológicos ,
sejam a luz e a sombra de si mesmos .
Aprendem , na carne , a eterna culpa
quem fez como todos , sem desculpa ,
e por sorteio ilógico escolhidos para exemplo
de todos que apenas vivem o seu tempo
e ao temor e prevenção não se recolhem
antecipando ,em vida . a decomposição
de seus corpos e mentes transfigurados ,
perambulam sem como nem porque
pelo deslize do instinto ou sentimento .
Chacoteados , excluídos , isolados ,
pagam promissórias não aceitas ,
mesmo que , ao fim , executados
por misteriosos tribunais nunca escatológicos ,
sejam a luz e a sombra de si mesmos .
Aprendem , na carne , a eterna culpa
quem fez como todos , sem desculpa ,
e por sorteio ilógico escolhidos para exemplo
de todos que apenas vivem o seu tempo
e ao temor e prevenção não se recolhem
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