Poemas neste tema
Justiça e Igualdade
Geir Campos
8a Cantiga de Acordar Mulher
Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 239
Carlos Nogueira Fino
um grito de raiva por timor lorosae
depois de tudo isto é obrigatório que existas
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres
e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem
porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro
906
Gabriela Mistral
Pezinhos
Pezinhos de criança
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!
Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!
O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;
Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.
Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heroicos como sois
perfeitos.
Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!
Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!
O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;
Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.
Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heroicos como sois
perfeitos.
Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!
2 238
Antônio Brasileiro
Tempo
1.
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.
Quero cantar.
2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?
Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.
3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.
4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.
Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.
5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!
Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.
Duras vergastas na cara.
6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.
Escutemos!!
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.
Quero cantar.
2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?
Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.
3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.
4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.
Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.
5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!
Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.
Duras vergastas na cara.
6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.
Escutemos!!
1 029
Antônio Brasileiro
Os Instrumentos e Ofícios
Este poema talvez não seja feito
para seu ouvido
acostumado às delícias
do pôr-do-sol, dos botões de rosa,
das palavras flácidas.
Este poema anda descalço
veste farrapos
xinga nomes horríveis.
Talvez seu ouvido se recuse
a captar coisas
tão ríspidas, não importa.
Ele ecoará com seus trapos
sua rispidez sua
imundícia.
Ecoará bem alto
sobre as calçadas, os edifícios
sobre o mar —
e continuará ecoando em
cada onda nas praias
em cada pedra nas praças
em cada lâmina de faca.
para seu ouvido
acostumado às delícias
do pôr-do-sol, dos botões de rosa,
das palavras flácidas.
Este poema anda descalço
veste farrapos
xinga nomes horríveis.
Talvez seu ouvido se recuse
a captar coisas
tão ríspidas, não importa.
Ele ecoará com seus trapos
sua rispidez sua
imundícia.
Ecoará bem alto
sobre as calçadas, os edifícios
sobre o mar —
e continuará ecoando em
cada onda nas praias
em cada pedra nas praças
em cada lâmina de faca.
925
Carlos Frydman
Anistia Ainda Que Tardia
"LIBERTAS QUE SERA TAMEN"
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 102
Bocage
A lamentável catástrofe de D Inês de Castro
Da triste, bela Inês, inda os clamores
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;
Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:
Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e croa
A malfadada Inês na sepultura.
Andas, Eco chorosa, repetindo;
Inda aos piedosos Céus andas pedindo
Justiça contra os ímpios matadores;
Ouvem-se inda na Fonte dos Amores
De quando em quando as náiades carpindo;
E o Mondego, no caso reflectindo,
Rompe irado a barreira, alaga as flores:
Inda altos hinos o universo entoa
A Pedro, que da morte formosura
Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
Milagre da beleza e da ternura!
Abre, desce, olha, geme, abraça e croa
A malfadada Inês na sepultura.
3 091
Ilka Brunhilde Laurito
Ciranda dos Meninos da Cidade Grande
Senhora Dona Sancha
coberta de ouro e prata
que anjos são esses
que andam rodeando
pelas ruas da cidade
dia e noite noite e dia
padre-nosso! ave-maria!?...
É o anjo-fujão-de-casa
que veio de circo em circo
andando no trem de carga
ou no aéreo porta-mala.
É o anjo-luz-dos-sapatos
(vai graxa negra, patrão?)
ajoelhado aos pés do homem
que é quem lhe deve perdão.
É o anjo-da-guarda-dos-carros
pastor de ovelhas de lata
assobiando na flauta
da sua garganta asmática.
É o anjo-do-amendoim
(nem um pouco afrodisíaco)
fugindo ao rapa do fisco,
ao seu medo e à sua anemia.
(...)
É o anjo-torto-e-raquítico
apodrecendo faminto
e amamentando na esquina
com leite de mãe menina.
É o anjo-dos-restaurantes
catando as migalhas das mesas
onde os problemas do mundo
naufragam em mar de cerveja.
É o anjo-da-rosa-noturna
vendendo aos noivos que riem
o aroma sem cor de seu mundo
e a murcha flor de sua vida.
É o anjo-carregador
chupando a laranja podre
que cai do excessivo cesto
da despesa das patroas.
(...)
É o anjo-rei-dos-mendigos,
filho de mãe postiça
orfão de pai foragido
adotivo do Juizado.
É o anjo-do-sexo-triste
herdeiro da tara e sífilis
no seu promíscuo exercício
nos quatro cantos das ruas.
É o anjo-das-negras-nuvens
que saem da boca do vício
puxando o sonho proibido
do ópio que o faz mais livre.
É o anjo-assaltante-franzino,
o corpo atrás do revólver,
matando o ódio do amor
em cada tiro assassino.
Senhora Dona Sancha
dê seu ouro dê sua prata
que estes anjos não são anjos
são os filhos da cidade
— nossos filhos, mãe de asfalto —
rodeando dia e noite noite e dia
sem pai nosso! e sem maria.
1975
Imagem - 00660002
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.36-38. (Sélesis, 13
coberta de ouro e prata
que anjos são esses
que andam rodeando
pelas ruas da cidade
dia e noite noite e dia
padre-nosso! ave-maria!?...
É o anjo-fujão-de-casa
que veio de circo em circo
andando no trem de carga
ou no aéreo porta-mala.
É o anjo-luz-dos-sapatos
(vai graxa negra, patrão?)
ajoelhado aos pés do homem
que é quem lhe deve perdão.
É o anjo-da-guarda-dos-carros
pastor de ovelhas de lata
assobiando na flauta
da sua garganta asmática.
É o anjo-do-amendoim
(nem um pouco afrodisíaco)
fugindo ao rapa do fisco,
ao seu medo e à sua anemia.
(...)
É o anjo-torto-e-raquítico
apodrecendo faminto
e amamentando na esquina
com leite de mãe menina.
É o anjo-dos-restaurantes
catando as migalhas das mesas
onde os problemas do mundo
naufragam em mar de cerveja.
É o anjo-da-rosa-noturna
vendendo aos noivos que riem
o aroma sem cor de seu mundo
e a murcha flor de sua vida.
É o anjo-carregador
chupando a laranja podre
que cai do excessivo cesto
da despesa das patroas.
(...)
É o anjo-rei-dos-mendigos,
filho de mãe postiça
orfão de pai foragido
adotivo do Juizado.
É o anjo-do-sexo-triste
herdeiro da tara e sífilis
no seu promíscuo exercício
nos quatro cantos das ruas.
É o anjo-das-negras-nuvens
que saem da boca do vício
puxando o sonho proibido
do ópio que o faz mais livre.
É o anjo-assaltante-franzino,
o corpo atrás do revólver,
matando o ódio do amor
em cada tiro assassino.
Senhora Dona Sancha
dê seu ouro dê sua prata
que estes anjos não são anjos
são os filhos da cidade
— nossos filhos, mãe de asfalto —
rodeando dia e noite noite e dia
sem pai nosso! e sem maria.
1975
Imagem - 00660002
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.36-38. (Sélesis, 13
1 472
Ilka Brunhilde Laurito
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Proibido colocar cartazes:
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
em chão
parede
poste.
(Em homem:
pode.)
1963
Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.
In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
1 610
Cassiano Ricardo
Morte em Câmara de Gás
1
Tão certa a morte
que inútil marcar-lhe
uma hora exata.
Gosto da lei em ser
exata
não
apenas certa.
Nenhuma razão
pra tanto amor
ao relógio, ao
necrológio.
A data é que lhe põe
(felina) uma gota
de fel em cada
minuto.
E o mata com uma
lentidão de faca.
A justiça, olhos
fechados como os
da noite.
A câmara de gás
talvez
menos vil
se à noite.
Na cela em que o
condenado
dorme
sem data
olhos fechados
como os da justiça.
2
Ao carr'asco
se evitaria
o asco
do seu nome.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.67-68. Poema integrante da série Xilogravuras
Tão certa a morte
que inútil marcar-lhe
uma hora exata.
Gosto da lei em ser
exata
não
apenas certa.
Nenhuma razão
pra tanto amor
ao relógio, ao
necrológio.
A data é que lhe põe
(felina) uma gota
de fel em cada
minuto.
E o mata com uma
lentidão de faca.
A justiça, olhos
fechados como os
da noite.
A câmara de gás
talvez
menos vil
se à noite.
Na cela em que o
condenado
dorme
sem data
olhos fechados
como os da justiça.
2
Ao carr'asco
se evitaria
o asco
do seu nome.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.67-68. Poema integrante da série Xilogravuras
2 367
Cassiano Ricardo
Os Subvivos
III
Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.
Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.
E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?
E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.
Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.
E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?
E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
2 718
Maria Suely de Oliveira
São Paulo
São Paulo
Vista do chão
É a civilização
É chiclete
Espaguete
Gilete
Papelão
Página internética
Perdida no espaço
Máquina moderna
Fábrica de miséria
Memória de bagaço
De sangue, suor,
Poeira, aço
E pedaço de pão
É a civilização
Megalópole de vida mutante
Espremida no esperma
Do lixo de luxo
Do espigão
É a civilização
Mercadora de entulho
Mendiga de sonho
Caco de ilusão
É a civilização
De São Paulo
Vista do chão
Vista do chão
É a civilização
É chiclete
Espaguete
Gilete
Papelão
Página internética
Perdida no espaço
Máquina moderna
Fábrica de miséria
Memória de bagaço
De sangue, suor,
Poeira, aço
E pedaço de pão
É a civilização
Megalópole de vida mutante
Espremida no esperma
Do lixo de luxo
Do espigão
É a civilização
Mercadora de entulho
Mendiga de sonho
Caco de ilusão
É a civilização
De São Paulo
Vista do chão
861
Antônio Massa
Não há Vagas
Buscamos vagas
nas casas, nas mágoas
no ofício de Gente
no prato do irmão
Buscamos as vagas
nos muros, na arte
e nos arremates
de vida e de sorte
E na morte
buscamos a paz
e as chagas das vagas
das quais poucas jazem
Mas os senhores da ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno
E, ao menos, poderemos
morrer mais tranqüilos
sem enfrentar filas
nos barrancos, estradas, asilos
nas casas, nas mágoas
no ofício de Gente
no prato do irmão
Buscamos as vagas
nos muros, na arte
e nos arremates
de vida e de sorte
E na morte
buscamos a paz
e as chagas das vagas
das quais poucas jazem
Mas os senhores da ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno
E, ao menos, poderemos
morrer mais tranqüilos
sem enfrentar filas
nos barrancos, estradas, asilos
944
António Afonso Bernardino
Mineiro
Calção feito de remendos,
De borracha a alpercata,
Casaco de saragoça
E um capacete de lata,
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão.
Na jaula cai água forte,
Estremece o coração.
Oito horas sem ver sol,
Oito horas sem ver lua!
Debaixo das rochas negras
É que a vida continua.
O almoço é uma açorda,
Umas sopas e uns feijões,
O minério vai prò estrangeiro,
O pó fica nos pulmões.
A mulher ficou em casa
À espera de ele chegar.
Às vezes cai uma pedra,
Fica a família a chorar.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Perdeu o seu companheiro,
Nem conheceu o patrão.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Já não respira mais pó,
Foi pra dentro dum caixão.
(Aljustrel, 1995)
De borracha a alpercata,
Casaco de saragoça
E um capacete de lata,
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão.
Na jaula cai água forte,
Estremece o coração.
Oito horas sem ver sol,
Oito horas sem ver lua!
Debaixo das rochas negras
É que a vida continua.
O almoço é uma açorda,
Umas sopas e uns feijões,
O minério vai prò estrangeiro,
O pó fica nos pulmões.
A mulher ficou em casa
À espera de ele chegar.
Às vezes cai uma pedra,
Fica a família a chorar.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Perdeu o seu companheiro,
Nem conheceu o patrão.
E lá abala o mineiro
Para debaixo do chão!
Já não respira mais pó,
Foi pra dentro dum caixão.
(Aljustrel, 1995)
1 001
Maria Teresa M. Carrilho
A García Lorca
Trágico é
o destino de alguém
que nasceu para ser herói!
Sabias
desde menino
que a liberdade
às vezes, só a ferros,
se constrói!
Falaste e escreveste
e denunciaste
mais que uma fraude.
Lutaste
até ao fim.
E mesmo sujeito à opressão,
não desanimaste
e aliviaste
muita tensão
Contra a Razão
e todas as invioláveis razões
foste tu próprio e sempre
sempre ponto a defender
as silenciadas multidões!
Desvendaste
e ultrapassaste
as fronteiras íntimas do ser
e levado pela ânsia
e vertigem do Tempo
foste mais além
ignorando ditames materiais
pronto a criar
a recriar
e superar
quaisquer amarras existenciais!
Quis o Destino
que fosses herói
e penetrasses na mansão
dos Imortais!
Foste herói
no teu tempo
e em qualquer tempo
de sujeição!
o destino de alguém
que nasceu para ser herói!
Sabias
desde menino
que a liberdade
às vezes, só a ferros,
se constrói!
Falaste e escreveste
e denunciaste
mais que uma fraude.
Lutaste
até ao fim.
E mesmo sujeito à opressão,
não desanimaste
e aliviaste
muita tensão
Contra a Razão
e todas as invioláveis razões
foste tu próprio e sempre
sempre ponto a defender
as silenciadas multidões!
Desvendaste
e ultrapassaste
as fronteiras íntimas do ser
e levado pela ânsia
e vertigem do Tempo
foste mais além
ignorando ditames materiais
pronto a criar
a recriar
e superar
quaisquer amarras existenciais!
Quis o Destino
que fosses herói
e penetrasses na mansão
dos Imortais!
Foste herói
no teu tempo
e em qualquer tempo
de sujeição!
1 045
Henriqueta Lisboa
Em Sobressalto
As notícias me sobressaltam. Dia a dia
cada vez mais terríveis.
Brotam da terra pelos poros
entram pela janela em silvos ásperos
fazem pilha no chão em letras tortas
caem das nuvens em mortalhas.
E já são outras realidades apostas
ao retoque dos memorandos
às interpretações da ribalta
ao sortilégio da casa dos contos
ao ruminar dos bois — fuga e refúgio.
Em confronto são dúbias
precipitam-se acotovelam-se
em contramarcha se repelem.
Na deturpação do humano
anunciam com alvoroço
através de pinças de fogo
em cartazes de gelo
— o suicídio da multidão em nome de Deus
— o império do vício em nome da Arte
— o sequestro do juiz em prol da Justiça
— o arremesso de touros em via pública
para a alegria dos que se salvam.
Recuso-me a acreditar nas notícias
mas elas se impõem de cátedra
com implacável desfaçatez
talvez para convencer-nos
de que somos todos culpados.
Agem assim como tóxicos
impunemente sorvidos
nas delongas do tédio.
A busca de notícias é um mórbido
caminhar para a cruz
Sem embargo as procuro com empenho
na expectativa tantas vezes vã
de que à noite se mudem
na reparação no contraveneno
das notícias colhidas pela manhã.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
cada vez mais terríveis.
Brotam da terra pelos poros
entram pela janela em silvos ásperos
fazem pilha no chão em letras tortas
caem das nuvens em mortalhas.
E já são outras realidades apostas
ao retoque dos memorandos
às interpretações da ribalta
ao sortilégio da casa dos contos
ao ruminar dos bois — fuga e refúgio.
Em confronto são dúbias
precipitam-se acotovelam-se
em contramarcha se repelem.
Na deturpação do humano
anunciam com alvoroço
através de pinças de fogo
em cartazes de gelo
— o suicídio da multidão em nome de Deus
— o império do vício em nome da Arte
— o sequestro do juiz em prol da Justiça
— o arremesso de touros em via pública
para a alegria dos que se salvam.
Recuso-me a acreditar nas notícias
mas elas se impõem de cátedra
com implacável desfaçatez
talvez para convencer-nos
de que somos todos culpados.
Agem assim como tóxicos
impunemente sorvidos
nas delongas do tédio.
A busca de notícias é um mórbido
caminhar para a cruz
Sem embargo as procuro com empenho
na expectativa tantas vezes vã
de que à noite se mudem
na reparação no contraveneno
das notícias colhidas pela manhã.
Publicado no livro Pousada do Ser (1982).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 243
Álvares de Azevedo
Dinheiro
Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune, adoré; on a consideration,
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand
Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand
Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
2 651
Cristiane Neder
Menores
Os menores fumam maconha
na Praça da Sé,
Já perderam a vergonha
e também a fé.
Tomam leite das prostitutas,
suas mães da noite e do dia,
encantados com o berço da rua
acreditam em uma saída.
Sonham debaixo do frio
com mulheres penduradas em bancas,
e sentem um espaço vazio
de todas serem escravas brancas.
Penduram-se no vidro do meu carro
todas as manhãs,
pedindo um trocado,
me oferecendo balas de hortelã.
Os menores
não foram crianças,
sempre foram maiores
desde a infância.
na Praça da Sé,
Já perderam a vergonha
e também a fé.
Tomam leite das prostitutas,
suas mães da noite e do dia,
encantados com o berço da rua
acreditam em uma saída.
Sonham debaixo do frio
com mulheres penduradas em bancas,
e sentem um espaço vazio
de todas serem escravas brancas.
Penduram-se no vidro do meu carro
todas as manhãs,
pedindo um trocado,
me oferecendo balas de hortelã.
Os menores
não foram crianças,
sempre foram maiores
desde a infância.
904
Raniere Rodrigues dos Santos
O Indesejável
Não fui ao martírio,
Mas sei o horror
Que é a guerra.
Gente chora,
Gente grita,
Gente enlouquece,
Gente se vê no inferno.
A guerra,
Não traz alegria.
Só traumas.
Gente paralítica,
Gente cega,
Gente muda,
Gente sem vida.
Lutar por petróleo
Que todos
Um pouco desfrutam.
Gente egoísta,
Gente horrorosa,
Gente burra,
Gente diabólica.
Lutar pela paz
Que todos Precisam.
Gente boa,
Gente amorosa,
Gente simples, Gente de Deus.
Mas sei o horror
Que é a guerra.
Gente chora,
Gente grita,
Gente enlouquece,
Gente se vê no inferno.
A guerra,
Não traz alegria.
Só traumas.
Gente paralítica,
Gente cega,
Gente muda,
Gente sem vida.
Lutar por petróleo
Que todos
Um pouco desfrutam.
Gente egoísta,
Gente horrorosa,
Gente burra,
Gente diabólica.
Lutar pela paz
Que todos Precisam.
Gente boa,
Gente amorosa,
Gente simples, Gente de Deus.
856
Luís Guimarães Júnior
Londres
Como um gigante suarento, dorme
Nos pardos mantos d'uma névoa estranha,
A Cidade opulenta em cuja entranha
Rasteja a fome como um verme enorme.
Dos lampeões à dúbia claridade,
Passam, repassam vultos cautelosos:
Este procura no mistério os gozos,
Procura aquele um pão, na realidade.
Contra o cais solitário o rio escuro
Geme convulso e espuma,—e novamente
Volta a gemer, de encontro ao velho muro;
Retine o oiro:—vela a Indústria ingente,
Cresce a miséria, e aumenta o vício impuro...
Oh milionária Londres indigente!
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Nos pardos mantos d'uma névoa estranha,
A Cidade opulenta em cuja entranha
Rasteja a fome como um verme enorme.
Dos lampeões à dúbia claridade,
Passam, repassam vultos cautelosos:
Este procura no mistério os gozos,
Procura aquele um pão, na realidade.
Contra o cais solitário o rio escuro
Geme convulso e espuma,—e novamente
Volta a gemer, de encontro ao velho muro;
Retine o oiro:—vela a Indústria ingente,
Cresce a miséria, e aumenta o vício impuro...
Oh milionária Londres indigente!
Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 833
Leila Mícollis
Engorda
Ilusões para os aflitos
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.
para a mulher, segurança,
para a casa, samambaias;
consolo para os doentes,
conselhos aos desgarrados,
aos leitos de amor, cambraias.
Sorvete para as crianças,
esmolas para os famintos,
para os turistas as praias;
para os homens, futebol,
televisão para todos
e alface para as cobaias.
978
Mário Donizete Massari
Estação
Perdi o trem,
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
974
Mário Donizete Massari
Moeda
A moeda
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
1 028
Carlos Nejar
Mora Judicial
Demorou o processo
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
no armário do século.
Nenhum juiz sentenciava
esta causa
de perdas civis.
Aos poucos
o fogo do feito
extinguiu-se:
os interesses
mudaram os fechos,
as trancas da porta.
Mudaram
de casa e de horta.
Uma ninhada de codornizes
se alojou no processo
entre boninas e raízes.
Na justiça
só a flor do tempo
vinga.
Não há migrações de pássaros,
apesar de serem terras arrendadas
ao céu, ao sol, à chuva.
E o homem
obtém do litígio
a derrubada de árvores.
Nunca
a derrubada do mal
— sua guerra púnica.
Publicado no livro O poço do calabouço (1977).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.145-14
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