Poemas neste tema
Amor não correspondido
Fernando Pessoa
Tua boca me diz sim,
Tua boca me diz sim,
Teus olhos me dizem não.
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão.
Teus olhos me dizem não.
Ai, se gostasses de mim
E sem saber a razão.
1 106
Fernando Pessoa
Compras carapaus ao cento,
Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.
1 235
Fernando Pessoa
Eu voltei-me para trás
Eu voltei-me para trás
Para ver se te voltavas.
Há quem dê favas aos burros,
Mas eles comem as favas.
Para ver se te voltavas.
Há quem dê favas aos burros,
Mas eles comem as favas.
1 215
Fernando Pessoa
O cravo que tu me deste
O cravo que tu me deste
Era de papel rosado.
Mas mais bonito era inda
O amor que me foi negado.
Era de papel rosado.
Mas mais bonito era inda
O amor que me foi negado.
1 383
Leonardo Martinelli
Retrato Cubista (para cdcl)
Não há remédio
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e
o amor através -
além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -
do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -
então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -
esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso
(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e
o amor através -
além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -
do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -
então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -
esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso
(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)
614
Fernando Pessoa
Trazes um lenço apertado
Trazes um lenço apertado
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.
Na cabeça, e um nó atrás.
Mas o que me traz cansado
É o nó que nunca se faz.
1 080
Pedro Amigo de Sevilha
Nom Sei No Mundo Outro Homem Tam Coitado
Nom sei no mundo outro homem tam coitado
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
com'hoj'eu vivo, de quantos eu sei;
e, meus amigos, por Deus, que farei
eu, sem conselho, desaconselhado?
Ca mia senhor nom me quer fazer bem
senom por algo; eu nom lhi dou rem,
nem poss'haver que lhi dê, mal pecado.
E, meus amigos, mal dia foi nado,
pois esta dona sempre tant'amei,
des que a vi, quanto vos eu direi:
quant'eu mais pud'- e nom hei dela grado;
e diz que sempre me terrá em vil
atá que barate um maravedil,
e mais d'um soldo nom hei baratado.
E vej'aqui outros eu, desemparado,
que ham seu bem, que sempr'eu desejei,
por senhos soldos, e gram pesar hei,
por quanto dizem que é mal mercado;
ca, se eu podesse mercar assi
com esta dona, que eu por meu mal vi,
log'eu seria guarid'e cobrado
de quant'afã por ela hei levado.
637
Pedro Amigo de Sevilha
Moitos S'enfingem Que Ham Gaanhado
Moitos s'enfingem que ham gaanhado
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.
Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.
Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.
E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
doas das donas a que amor ham,
e tragem cintas que lhis elas dam;
mais a mim vai moi peor, mal pecado,
com Sancha Díaz, que sempre quix bem:
ca jur'a Deus que nunca mi deu rem
senom um peid', o qual foi sem seu grado.
Ca, se per seu grado foss', al seria;
mais daquesto nunca m'enfingirei,
ca hoje verdadeiramente o sei
que per seu grado nunca mi o daria;
mais, u estava coidando em al,
deu-mi um gram peid'e foi-lhi depois mal,
u s'acordou que mi o dado havia.
Coidando eu que melhor se nembrasse
ela de mim, por quanto a servi,
por aquesto nunca lhi rem pedi
des i, em tal que se mim nom queixasse;
e falando-lh'eu em outra razom,
deu-mi um gram peid', e deu-mi-o em tal som,
como quem s'ende moi mal log'achasse.
E, pois ela de tam rafece dom
se [re]peendeu, bem tenho eu que nom
mi dess'outro, de que m'eu mais pagasse.
507
Fernando Pessoa
Ó loura dos olhos tristes
Ó loura dos olhos tristes
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei-de amar.
Que me não quis escutar...
Quero só saber se existes
Para ver se te hei-de amar.
1 304
Fernando Pessoa
Baila em teu pulso delgado
Baila em teu pulso delgado
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
Uma pulseira que herdaste...
Se amar alguém é pecado,
És santa, nunca pecaste.
1 329
Rui Queimado
Nostro Senhor Deus! E Por Que Neguei
Nostro Senhor Deus! e por que neguei
a mia senhor, quando a eu veer
podia e lhe podera dizer
muitas coitas que por ela levei?
Ca já eu tal temp'houv'e atendi
outro melhor! E aquele perdi!
E outro tal nunca já cobrarei!
Ca já eu tal temp'houve que morei
u a podia eu mui bem veer
e u a vi mui melhor parecer
de quantas donas vi nem veerei!
E pero nunca lh'ousei dizer rem
de quantas coitas levei por gram bem
que lh'eu queria e quer'e querrei
mentr'eu viver! Mais já nom viverei
senom mui pouco, pois que a veer
eu nom poder; ca já nẽum prazer
de nulha cousa nunca prenderei;
ca nunca Deus quer que eu cuid'em al
senom porque lhe nom diss'o gram mal
e a gram coita que por ela hei.
Mais a que sazom que m'eu acordei
- quando a nom posso per rem veer,
nem quando nom poss'i conselh'haver!
Mais eu, cativo, e que receei?
Ca nom mi havia por end'a matar,
nem ar havia peor a estar
dela do que m'hoj'estou, ben'o sei.
Mais de que podia peor estar?
Pois eu nom vej'aquela que amar
sei mais de mim nem quantas cousas sei!
a mia senhor, quando a eu veer
podia e lhe podera dizer
muitas coitas que por ela levei?
Ca já eu tal temp'houv'e atendi
outro melhor! E aquele perdi!
E outro tal nunca já cobrarei!
Ca já eu tal temp'houve que morei
u a podia eu mui bem veer
e u a vi mui melhor parecer
de quantas donas vi nem veerei!
E pero nunca lh'ousei dizer rem
de quantas coitas levei por gram bem
que lh'eu queria e quer'e querrei
mentr'eu viver! Mais já nom viverei
senom mui pouco, pois que a veer
eu nom poder; ca já nẽum prazer
de nulha cousa nunca prenderei;
ca nunca Deus quer que eu cuid'em al
senom porque lhe nom diss'o gram mal
e a gram coita que por ela hei.
Mais a que sazom que m'eu acordei
- quando a nom posso per rem veer,
nem quando nom poss'i conselh'haver!
Mais eu, cativo, e que receei?
Ca nom mi havia por end'a matar,
nem ar havia peor a estar
dela do que m'hoj'estou, ben'o sei.
Mais de que podia peor estar?
Pois eu nom vej'aquela que amar
sei mais de mim nem quantas cousas sei!
609
Rui Queimado
Senhor, Que Deus Mui Melhor Parecer
Senhor, que Deus mui melhor parecer
fez de quantas outras donas eu vi,
ora soubéssedes quant'eu temi
sempr'o que ora quero cometer:
de vos dizer, senhor, o mui gram bem
que vos quero e quanto mal me vem,
senhor, por vós, que eu por meu mal vi.
E sabe Deus que adur eu vim i
dizer-vos como me vejo morrer
por vós, senhor; mais nom poss'al fazer!
E vel por Deus!, doede-vos de mi,
ca por vós moir', esto sabede bem;
e se quiserdes, mia senhor, por en
nom me devíades leixar morrer.
E já que vos comecei a dizer
bem que vos quero, se vos nom pesar,
senhor fremosa, quero-vos rogar
que vos nom pês, por Deus, de vos veer,
nem de falar vosc'; e faredes bem
e gram mesura e, quant'é meu sem,
tenho que nom há por que vos pesar.
E, mia senhor, por eu vosco falar,
nunca vós i rem podedes perder
e guarredes mim; e se o fazer
quiserdes, quero-vos desenganar,
senhor: todos vo-lo terram por bem.
E mia senhor, mais vos direi eu en:
muito perdedes vós em me perder.
Ca, mia senhor, havedes vós mui bem
como: que vos nom hei a custar rem
e servir-vos-ei já, mentr'eu viver.
fez de quantas outras donas eu vi,
ora soubéssedes quant'eu temi
sempr'o que ora quero cometer:
de vos dizer, senhor, o mui gram bem
que vos quero e quanto mal me vem,
senhor, por vós, que eu por meu mal vi.
E sabe Deus que adur eu vim i
dizer-vos como me vejo morrer
por vós, senhor; mais nom poss'al fazer!
E vel por Deus!, doede-vos de mi,
ca por vós moir', esto sabede bem;
e se quiserdes, mia senhor, por en
nom me devíades leixar morrer.
E já que vos comecei a dizer
bem que vos quero, se vos nom pesar,
senhor fremosa, quero-vos rogar
que vos nom pês, por Deus, de vos veer,
nem de falar vosc'; e faredes bem
e gram mesura e, quant'é meu sem,
tenho que nom há por que vos pesar.
E, mia senhor, por eu vosco falar,
nunca vós i rem podedes perder
e guarredes mim; e se o fazer
quiserdes, quero-vos desenganar,
senhor: todos vo-lo terram por bem.
E mia senhor, mais vos direi eu en:
muito perdedes vós em me perder.
Ca, mia senhor, havedes vós mui bem
como: que vos nom hei a custar rem
e servir-vos-ei já, mentr'eu viver.
584
Fernando Pessoa
Duas vezes te falei
Duas vezes te falei
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
De que te iria falar.
Quatro vezes te encontrei
Sem palavra p’ra te dar.
1 523
Gilson Nascimento
Beijo injeitado
Cabôca, si tu subesse
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô
Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração
E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.
Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô
Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá
Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê
Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.
O tamãin do meu amô
Tu nunca mais rifugava
Meus beijo, minha fulô
Tu sabe donde eles vem?
Num duvida de eu não!
Vem dum cantim resguardado
Todo de seda forrado
No fundo do coração
E feito pomba-de-bando
Eles de lá vão fugindo
E no sangue margúiando
Devagarim vão subindo.
Pelo sangue trafegando
Me dando febre e tremô
Sem avexame si pranta
Nos beiço-ôi dágua de amô
Mas quando eles se arrelia
Mode tua boca incontrá
Valei-me, Vige Maria!
Tu inventa de rejeitá
Tem dó de eu, meu pecado
Adocica meu sofrê
Vivo cos peito arroxado
De tanto beijo injeitado
É grande o meu padecê
Si hoje tu dé um não
Com a verdade machucado
Me imbrenho por esses mato
À moda boi desgarrado
Mas levo no coração
Cum afeto, cum devoção
Qual jóia de estimação
Todo esses beijo injeitado.
975
Rui Queimado
Agora Viv'eu Como Querria
Agora viv'eu como querria
veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d'al,
com'eu fiz sempre des aquel dia
que eu mia senhor nom pude veer.
Ca se nunca depois ar vi prazer,
Deus nom me valha (que poderia)!
E quem vivess'assi, viveria,
per bõa fé, em gram coita mortal,
ca 'si viv'eu por ũa dona qual
sab'hoje Deus e Santa Maria,
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem; e bem veeria
quem visse mia senhor; e diria,
eu [o] sei bem, por ela, que é tal
como vos eu dig'; e se me nom val
Deus (que mi a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofr'i; e desejaria
muito mia mort', e querria morrer
por mia senhor, a que prazeria;
e por gram coita, em que me viver
vejo por ela, que perderia.
veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d'al,
com'eu fiz sempre des aquel dia
que eu mia senhor nom pude veer.
Ca se nunca depois ar vi prazer,
Deus nom me valha (que poderia)!
E quem vivess'assi, viveria,
per bõa fé, em gram coita mortal,
ca 'si viv'eu por ũa dona qual
sab'hoje Deus e Santa Maria,
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem; e bem veeria
quem visse mia senhor; e diria,
eu [o] sei bem, por ela, que é tal
como vos eu dig'; e se me nom val
Deus (que mi a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofr'i; e desejaria
muito mia mort', e querria morrer
por mia senhor, a que prazeria;
e por gram coita, em que me viver
vejo por ela, que perderia.
583
Rui Queimado
Fiz Meu Cantar E Loei Mia Senhor
Fiz meu cantar e loei mia senhor,
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
mais de quantas outras donas eu vi;
e se por est'ham queixume de mi
as outras donas, ou mi ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal por en:
ca bem assi faz a mim mia senhor,
a mais fremosa dona nem melhor
de quantas hoj'eu sei, per bõa fé.
E vejam que farám, ca já 'si é.
E se me por aquest'ham desamor,
hajam de seu quen'as lo', e entom
nunca lhes por en façam se mal nom:
ca nom faz a mim a minha melhor!
E se m'eu hei, de mi a loar, sabor,
nom ham por en por que se mi assanhar,
mais ar hajam de seu quen'as loar
e a quem hajam por en desamor,
com'a mim faz aquela que eu já
loarei sempr'e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nẽum sabor.
Ca se m'algum bem quisesse fazer,
já que que[r] m'en fezera entender,
des quant'há que a filhei por senhor.
572
Rui Queimado
De Mia Senhor Direi-Vos Que Mi Avém
De mia senhor direi-vos que mi avém:
porque a vejo mui bem parecer,
tal bem lhe quer'onde cuid'a morrer.
E pero que lhe quero tam gram bem,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia!
Ca lhe quero tam gram bem que perdi
já o dormir; e, de pram, perderei
o sem mui cedo com coita que hei.
E pero que tod'aquesto perç'i,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse...mais nom poderia!
Ca lhe quero bem tam de coraçom
que sei mui bem que, se m'ela nom val,
que morrerei cedo, nom há i al.
E com tod'esto, si Deus me perdom,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia,
per nulha rem, par Santa Maria!
Ca, se podesse, log'eu querria!
porque a vejo mui bem parecer,
tal bem lhe quer'onde cuid'a morrer.
E pero que lhe quero tam gram bem,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia!
Ca lhe quero tam gram bem que perdi
já o dormir; e, de pram, perderei
o sem mui cedo com coita que hei.
E pero que tod'aquesto perç'i,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse...mais nom poderia!
Ca lhe quero bem tam de coraçom
que sei mui bem que, se m'ela nom val,
que morrerei cedo, nom há i al.
E com tod'esto, si Deus me perdom,
ainda lh'eu mui melhor querria
se podesse... mais nom poderia,
per nulha rem, par Santa Maria!
Ca, se podesse, log'eu querria!
747
Rui Queimado
Pois Que Eu Ora Morto For
Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
439
Fernando Pessoa
Eu bem sei que me desdenhas
Eu bem sei que me desdenhas
Mas gosto que seja assim,
Que o desdém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim.
Mas gosto que seja assim,
Que o desdém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim.
1 262
Rui Queimado
O Meu Amig', Ai Amiga
O meu amig', ai amiga,
a que muita prol buscastes
quando me por el rogastes,
pero vos outra vez diga
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
El verrá, ben'o sabiades,
dizer-vos que é coitado;
mais sol nom seja pensado,
pero o morrer vejades,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
Quanto quiser, tanto more
meu amigo em outra terra
e ande comigo a guerra;
mais, pero ante vós chore,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
a que muita prol buscastes
quando me por el rogastes,
pero vos outra vez diga
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
El verrá, ben'o sabiades,
dizer-vos que é coitado;
mais sol nom seja pensado,
pero o morrer vejades,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
Quanto quiser, tanto more
meu amigo em outra terra
e ande comigo a guerra;
mais, pero ante vós chore,
que me vós por el roguedes,
nunca me por el roguedes.
621
Rui Queimado
Pois Minha Senhor Me Manda
Pois minha senhor me manda
que nom vá u ela ´stiver,
quero-lho eu por en fazer,
pois mo ela 'ssi demanda.
Mais nom me pod'ela tolher por en
que lh'eu nom queira gram bem.
Por quanto eu dela vejo,
minha senhor me defende,
que nom vá u ela entende
que eu filho gram desejo.
Mais nom pod'ela por ende o meu
coraçom partir do seu.
E por quant'eu dela entendo,
que nom quer que a mais veja,
bem me praz que assi seja:
mais vai-se meu mal sabendo;
e meus olhos me querem matar
quando lha nom vou mostrar.
que nom vá u ela ´stiver,
quero-lho eu por en fazer,
pois mo ela 'ssi demanda.
Mais nom me pod'ela tolher por en
que lh'eu nom queira gram bem.
Por quanto eu dela vejo,
minha senhor me defende,
que nom vá u ela entende
que eu filho gram desejo.
Mais nom pod'ela por ende o meu
coraçom partir do seu.
E por quant'eu dela entendo,
que nom quer que a mais veja,
bem me praz que assi seja:
mais vai-se meu mal sabendo;
e meus olhos me querem matar
quando lha nom vou mostrar.
522
Fernando Pessoa
Quando me deste os bons-dias
Quando me deste os bons-dias
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
Deste-mos como a qualquer.
Mais vale não dizer nada
Do que assim nada dizer.
879
Fernando Pessoa
Viraste-me a cara quando
Viraste-me a cara quando
Ia a dizer-te, à chegada,
Que, se voltasses a cara,
Que eu não me importava nada.
Ia a dizer-te, à chegada,
Que, se voltasses a cara,
Que eu não me importava nada.
1 590
Fernão Garcia Esgaravunha
Senhor Fremosa, Convém-Mi a Rogar
Senhor fremosa, convém-mi a rogar
por vosso mal, enquant'eu vivo for,
a Deus, ca faz-me tanto mal Amor,
que eu já sempr'assi lh'hei de rogar:
que El cofonda vós e vosso sem
e mim, senhor, porque vos quero bem,
e o Amor, que me vos faz amar.
E [por] vosso sem, que em mi errar
vos faz tam muito, serei rogador
a Deus assi: que confonda, senhor,
el muit'e vós e mim, em que errar
vos el faz tanto. E al mi ar convém
de lhe rogar: que ar cofonda quem
me nom leixa convosco mais morar.
E os meus olhos, a que vos mostrar
fui eu, por que viv'hoje na maior
coita do mundo, ca nom hei sabor
de nulha rem, u vo-lhes eu mostrar
nom poss'; e Deus cofonda mi por en,
e vós, senhor, e eles e quem tem
em coraçom de me vosco mezcrar.
por vosso mal, enquant'eu vivo for,
a Deus, ca faz-me tanto mal Amor,
que eu já sempr'assi lh'hei de rogar:
que El cofonda vós e vosso sem
e mim, senhor, porque vos quero bem,
e o Amor, que me vos faz amar.
E [por] vosso sem, que em mi errar
vos faz tam muito, serei rogador
a Deus assi: que confonda, senhor,
el muit'e vós e mim, em que errar
vos el faz tanto. E al mi ar convém
de lhe rogar: que ar cofonda quem
me nom leixa convosco mais morar.
E os meus olhos, a que vos mostrar
fui eu, por que viv'hoje na maior
coita do mundo, ca nom hei sabor
de nulha rem, u vo-lhes eu mostrar
nom poss'; e Deus cofonda mi por en,
e vós, senhor, e eles e quem tem
em coraçom de me vosco mezcrar.
466