Poemas neste tema

Amor não correspondido

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na margem verde da estrada

Na margem verde da estrada
Os malmequeres são meus.
Já trago a alma cansada –
Não é disso... é de Deus.

Se Deus me quisesse dá-la
Havia de achar maneira...
A estrada de cá da vala
Tem malmequeres à beira.

Se os quero, colho-os, e tenho
Cuidado com os partir.
Cada um que vejo e apanho
Dá um estalinho ao sair.

São malmequeres aos molhos,
Iguaizinhos para ver.
E nem põe neles os olhos,
Dá a mão pra os receber.

Não é esmola que envergonhe,
Nem coisa dada sem mais.
É pra que a menina os ponha
Onde o peito faz sinais.

Tirei-os do campo ao lado
Para a menina os trazer...
E nem me mostra o agrado
De um olhar para me ver...

É assim a minha sina.
Tirei-os de onde iam bem,
Só para os dar à menina –
E agradeceu-me a ninguém.


31/08/1930
4 243
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

INCIDENTE

Dói-me no coração
Uma dor que me envergonha...
Quê! Esta alma que sonha
O âmbito todo do mundo
Sofre de amor e tortura
Por tão pequena coisa...
Uma mulher curiosa
E o meu tédio profundo?


1931
4 368
Paio Soares de Taveirós

Paio Soares de Taveirós

Cantiga de amor

Como morreu quem nunca amar
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.


Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.


Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.


Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.

Português antigo

Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
     ai mia senhor, assí moir'eu!

Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
     ai mia senhor, assí moir'eu!

Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
     ai mia senhor, assí moir'eu!

Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
     ai mia senhor, assí moir'eu!
3 544
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Aquilo que a gente lembra

Aquilo que a gente lembra
Sem o querer lembrar,
E inerte se desmembra
Como um fumo no ar,
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado

Aquilo que a gente sonha
Sem saber de sonhar,
Aquela boca risonha
Que nunca nos quis beijar,
Aquela vaga ironia
Que uns olhos tiveram um dia
Para a nossa emoção –
Tudo isso nos dá o agrado,
Flores que flores são
Nos jardins do passado

Não sei o que fiz da vida,
Nem o quero saber.
Se a tenho por perdida,
Sei eu o que é perder?
Mas tudo é música se há
Alma onde a alma está,
E há um vago, suave, sono,
Um sonho morno de agrado,
Quando regresso, dono,
Aos jardins do passado.
4 521
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XV - Like a bad suitor desperate and trembling

Like a bad suitor desperate and trembling
From the mixed sense of being not loved and loving,
Who with feared longing half would know, dissembling
With what he'd wish proved what he fears soon proving,
I look with inner eyes afraid to look,
Yet perplexed into looking, at the worth
This verse may have and wonder, of my book,
To what thoughts shall't in alien hearts give birth.
But, as he who doth love, and, loving, hopes,
Yet, hoping, fears, fears to put proof to proof,
And in his mind for possible proofs gropes,
Delaying the true proof, lest the real thing scoff,
I daily live, i'th' fame I dream to see,
But by my thought of others' thought of me.
4 155
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

Soneto de Mágoa e de Esperança

Por que de mim te alongas ou te afastas?
Será que em ti perdi meu gesto e rosto?
As minhas horas todas já são gastas
Em sonhar-te ditosa ou sem desgosto.

És glória, luz e amor. E eu? Sol-posto.
Mas, fugindo de mim, tu me vergastas
E deixas-me ferido, e pobre, exposto
Às vinganças do tempo, iconoclastas.

Para agradar-te, finjo que sou jovem.
Busco enganar-te, a ver se te comovem
As palavras que oferto, de afeição,

A fim de que, qual dádiva, me olhes
Com toda a tua graça e não desfolhes
As pétalas da última ilusão.

1 624
Artur Eduardo Benevides

Artur Eduardo Benevides

De um Tema de Ronsard

Por que, tão bela sendo, me maltratas,
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?

Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.

A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.

Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.

1 258
Eucanaã Ferraz

Eucanaã Ferraz

PEDIDO

Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:

o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije

todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída

da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
783
Ronaldo Cunha Lima

Ronaldo Cunha Lima

Haverei de te amar a vida inteira

Haverei de te amar a vida inteira.
Mesmo unilateral o bem querer,
é forma diferente de se ter,
sem nada se exigir da companheira.

Haverei de te amar a vida inteira,
(não precisa aceitar, basta saber),
pois amor que faz bem e dá prazer
a gente vive de qualquer maneira.

Eu viverei de sonhos e utopias,
realizando as minhas fantasias,
tornando cada qual mais verdadeira.

Eu te farei presente em meus instantes.
Supondo que seremos sempre amantes,
haverei de te amar a vida inteira.

1 835
Ona Gaia

Ona Gaia

Você me Pede

Você me pede pra falar de Eros

E eu nem aí pros seus Boleros.
942
Carla Bianca

Carla Bianca

Alheio

Sofro,
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.

934
Madi

Madi

Querer

Querer

Dê-me uma pista,
dê-me um sinal,
aponte-me o caminho
ou então me ensine
o que devo fazer
pra você me querer

642
Madi

Madi

Vitrines

Vitrines

Tudo que vejo nas vitrines
se parece com você

Prendas simples ou sofisticadas
ambas têm a sua cara

Tudo é mais do que perfeito
e sob medida parece que foi feito

Namoro as vitrines,
mas não encontro nelas o que mais quero
Você e o seu amor não estão à venda

693
Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto

Disparidade

Derrete-se o gelo.
Porém se resfria a água:
Ela fria, eu ardo...


In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 341
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Meu País

As pequenas cidades intensas
Onde o tempo não é dissolvido mas dura
E cada instante ressoa nas paredes da esquina
E o rosto loiro de Laura aflora na janela desencontrada
E o apaixonado de testa obstinada como a de um toiro
Em vão a procura onde ela nunca está
— É aqui que ao passarmos a nossa garganta se aperta
Enquanto um homem alto e magro
Baixando a direito o chapéu largo e escuro
De cima a baixo se descobre
Ao transpor o limiar sagrado da casa
1 493
Jáder de Carvalho

Jáder de Carvalho

Trova

Meu olhar é um lampião,
vertendo, em luz dolorida,
toda uma velha paixão
na esquina da tua vida.

611
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Le regret d'Héraclite

Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca
aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 159 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 625
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

Song

I saw thee on thy bridal day —
When a burning blush came o'er thee,
Though happiness around thee lay,
The world all love before thee:

And in thine eye a kindling light
(Whatever it might be)
Was all on Earth my aching sight
Of Loveliness could see.

That blush, perhaps, was maiden shame —
As such it well may pass —
Though its glow hath raised a fiercer flame
In the breast of him, alas!

Who saw thee on that bridal day,
When that deep blush would come o'er thee,
Though happiness around thee lay,
The world all love before thee.


1845

1 219
Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

Em branco

Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.
É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.
1 524
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Elle est si belle,

Elle est si belle,
La petite rebelle,
Ce joyau de jeunesse;
Elle est si belle
Que mon coeur s’en blesse.
Oh, quelle tristesse,
Quel amour sans cris
Car celle
Qui est si belle
Est toujours la femme d’autrui.

Oh qu’importe
Qu’elle le soit déjà
Ou que mon destin ne comporte
Que ne l’avoir obtenu pas?
Ne pas l’avoir ou la perdre
C’est le même amour sans cris
Dans ce coeur meurtri.
Oh, elle,
Celle
Qui est si belle,
Est toujours la femme d’autrui.
1 493
Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

Cantiga [Deixa que eu te fale, deixa

Deixa que eu te fale, deixa
Que o meu verso dolorido
Vá murmurar-te uma queixa
No ouvido.

Eu te amo tanto... Perdoa!
Por mais que a recalco e esmago-a,
Foge, abre as asas e voa
A mágoa

Já bastante me atormento
De amar e não ser amado;
E calar é sofrimento
Dobrado.

Os amores infelizes
— Tristes roseiras sem rosas —
São como aquelas raízes
Teimosas

Que um vaso estreito encarcera
E que, num sonho constante,
Aspiram à primavera
Distante:

Crescem, a terra solapam,
E, do vaso que partiram,
Por entre as frinchas escapam,
Respiram...

Assim o amor sem ventura
— Raiz na terra escondida —
Abafa, anseia, procura
Saída...

Sei que debalde te estendo
A mão, a mão de mendigo:
Ouves sorrindo o que eu digo
Gemendo;

Bem sei... E se em voz magoada
Assim te digo que te amo,
Eu que nada espero, e nada
Reclamo,

É que demais me atormento
De amar e não ser amado,
E calar é sofrimento
Dobrado.


In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 1912. Poema integrante da série Avulsas
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