Poemas neste tema
Amor não correspondido
D. Dinis
Que Mui Gram Prazer Que Eu Hei, Senhor
Que mui gram prazer que eu hei, senhor,
quand'em vós cuid'e nom cuido no mal
que mi fazedes! Mais direi-vos qual
tenh'eu por gram maravilha, senhor:
de mi viir de vós mal, u Deus nom
pôs mal, de quantas eno mundo som.
E, senhor fremosa, quando cuid'eu
em vós e nom eno mal que mi vem
por vós, tod'aquel temp'eu hei de bem;
mais por gram maravilha per tenh'eu
de mi viir de vós mal, u Deus nom
pôs mal, de quantas eno mundo som.
Ca, senhor, mui gram prazer mi per é
quand'em vós cuid'e nom hei de cuidar
em quanto mal mi fazedes levar;
mais gram maravilha tenh'eu que é
de mi viir de vós mal, u Deus nom
pôs mal, de quantas eno mundo som.
Ca, par Deus, semelha mui sem razom
d'haver eu mal d'u o Deus nom pôs, nom.
quand'em vós cuid'e nom cuido no mal
que mi fazedes! Mais direi-vos qual
tenh'eu por gram maravilha, senhor:
de mi viir de vós mal, u Deus nom
pôs mal, de quantas eno mundo som.
E, senhor fremosa, quando cuid'eu
em vós e nom eno mal que mi vem
por vós, tod'aquel temp'eu hei de bem;
mais por gram maravilha per tenh'eu
de mi viir de vós mal, u Deus nom
pôs mal, de quantas eno mundo som.
Ca, senhor, mui gram prazer mi per é
quand'em vós cuid'e nom hei de cuidar
em quanto mal mi fazedes levar;
mais gram maravilha tenh'eu que é
de mi viir de vós mal, u Deus nom
pôs mal, de quantas eno mundo som.
Ca, par Deus, semelha mui sem razom
d'haver eu mal d'u o Deus nom pôs, nom.
857
D. Dinis
Senhor, Nom Vos Pês Se Me Guisar Deus
Senhor, nom vos pês se me guisar Deus
algũa vez se vos poder veer,
ca bem creede que outro prazer
nunca [d'al] verám estes olhos meus,
senom se mi vós fezéssedes bem,
o que nunca será per nulha rem.
E nom vos pês de vos veer, ca tam
cuitad'ando que querria morrer,
se aos meus olhos podedes creer
que outro prazer nunca d'al verám,
senom se mi vós fezéssedes bem,
o que nunca será per nulha rem.
E se vos vir, pois que já morr'assi,
nom devedes ende pesar haver;
mais [dos] meus olhos vos poss'eu dizer
que nom verám prazer d'al nem de mi,
senom se mi vós fezéssedes bem,
o que nunca será per nulha rem.
Ca d'eu falar em mi fazerdes bem,
como falo, faç'i míngua de sem.
algũa vez se vos poder veer,
ca bem creede que outro prazer
nunca [d'al] verám estes olhos meus,
senom se mi vós fezéssedes bem,
o que nunca será per nulha rem.
E nom vos pês de vos veer, ca tam
cuitad'ando que querria morrer,
se aos meus olhos podedes creer
que outro prazer nunca d'al verám,
senom se mi vós fezéssedes bem,
o que nunca será per nulha rem.
E se vos vir, pois que já morr'assi,
nom devedes ende pesar haver;
mais [dos] meus olhos vos poss'eu dizer
que nom verám prazer d'al nem de mi,
senom se mi vós fezéssedes bem,
o que nunca será per nulha rem.
Ca d'eu falar em mi fazerdes bem,
como falo, faç'i míngua de sem.
759
Fernando Pessoa
Quem lavra julga que lavra
Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
1 184
D. Dinis
Senhor Fremosa E do Mui Loução
Senhor fremosa e do mui loução
coraçom, e querede-vos doer
de mi, pecador, que vos sei querer
melhor ca mi! Pero sõo certão
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem
qual maior poss'e o mais encoberto
que eu poss'; e sei de Brancafrol
que lhi nom houve Flores tal amor
qual vos eu hei; e pero sõo certo
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem
qual maior poss'; e o mui namorado
Tristam sei bem que nom amou Iseu
quant'eu vos amo, esta certo sei eu;
e com tod'esto sei, mao pecado!,
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem
qual maior poss'e tod'aquest'avém
a mim, coitad'e que perdi o sem.
coraçom, e querede-vos doer
de mi, pecador, que vos sei querer
melhor ca mi! Pero sõo certão
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem
qual maior poss'e o mais encoberto
que eu poss'; e sei de Brancafrol
que lhi nom houve Flores tal amor
qual vos eu hei; e pero sõo certo
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem
qual maior poss'; e o mui namorado
Tristam sei bem que nom amou Iseu
quant'eu vos amo, esta certo sei eu;
e com tod'esto sei, mao pecado!,
que mi queredes peior doutra rem;
pero, senhor, quero-vos eu tal bem
qual maior poss'e tod'aquest'avém
a mim, coitad'e que perdi o sem.
749
D. Dinis
Quix Bem, Amigos, E Quer'e Querrei
Quix bem, amigos, e quer'e querrei
ũa molher que me quis e quer mal
e querrá; mais nom vos direi eu qual
é a molher; mais tanto vos direi:
quix bem e quer'e querrei tal molher
que me quis mal sempr'e querrá e quer.
Quis e querrei e quero mui gram bem
a quem mi quis mal e quer e querrá,
mais nunca homem per mi saberá
quem é; pero direi-vos ũa rem:
quix bem e quer'e querrei tal molher
que me quis mal sempr'e querrá e quer.
Quix e querrei e quero bem querer
a quem me quis e quer, per bõa fé,
mal, e querrá; mais nom direi quem é;
mais pero tanto vos quero dizer:
quix bem e quer'e querrei tal molher
que me quis mal sempr'e querrá e quer.
ũa molher que me quis e quer mal
e querrá; mais nom vos direi eu qual
é a molher; mais tanto vos direi:
quix bem e quer'e querrei tal molher
que me quis mal sempr'e querrá e quer.
Quis e querrei e quero mui gram bem
a quem mi quis mal e quer e querrá,
mais nunca homem per mi saberá
quem é; pero direi-vos ũa rem:
quix bem e quer'e querrei tal molher
que me quis mal sempr'e querrá e quer.
Quix e querrei e quero bem querer
a quem me quis e quer, per bõa fé,
mal, e querrá; mais nom direi quem é;
mais pero tanto vos quero dizer:
quix bem e quer'e querrei tal molher
que me quis mal sempr'e querrá e quer.
727
D. Dinis
Senhor, Hoj'houvess'eu Vagar
Senhor, hoj'houvess'eu vagar
e Deus me dess'end'o poder
que vos eu podesse contar
o gram mal que mi faz sofrer
esse vosso bom parecer,
senhor, a que El nom fez par.
Ca se vos podess'i falar,
cuidaria muit'a perder
da gram coita e do pesar
com que m'hoj'eu vejo morrer;
ca me nom pod'escaecer
esta coita que nom há par.
Ca me vos fez Deus tant'amar,
er fez-vos tam muito valer,
que nom poss'hoj'em mi osmar,
senhor, como possa viver,
pois me nom queredes tolher
esta coita que nom há par.
e Deus me dess'end'o poder
que vos eu podesse contar
o gram mal que mi faz sofrer
esse vosso bom parecer,
senhor, a que El nom fez par.
Ca se vos podess'i falar,
cuidaria muit'a perder
da gram coita e do pesar
com que m'hoj'eu vejo morrer;
ca me nom pod'escaecer
esta coita que nom há par.
Ca me vos fez Deus tant'amar,
er fez-vos tam muito valer,
que nom poss'hoj'em mi osmar,
senhor, como possa viver,
pois me nom queredes tolher
esta coita que nom há par.
317
Fernando Pessoa
Tens um livro que não lês,
Tens um livro que não lês,
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
Tens uma flor que desfolhas;
Tens um coração aos pés
E para ele não olhas.
1 794
Fernando Pessoa
Nunca dizes se gostaste
Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste.
O que pensaste não sei.
1 450
Fernando Pessoa
O vaso que dei àquela
O vaso que dei àquela
Que não sabe quem lho deu
Há-de ser posto à janela
Sem ninguém saber que é meu.
Que não sabe quem lho deu
Há-de ser posto à janela
Sem ninguém saber que é meu.
1 433
Fernando Pessoa
Tive uma flor para dar
Tive uma flor para dar
A quem não ousei dizer
Que lhe queria falar,
E a flor teve que morrer.
A quem não ousei dizer
Que lhe queria falar,
E a flor teve que morrer.
1 746
Fernando Pessoa
Teus olhos tristes, parados,
Teus olhos tristes, parados,
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
Coisa nenhuma a fitar...
Ah meu amor, meu amor,
Se eu fora nenhum lugar!
1 155
Fernando Pessoa
Escuta-me piedosamente.
Escuta-me piedosamente.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quase carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho de mim tanta pena
Queria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim mas da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
Não vale a pena amar-me não,
Mas o que o meu coração sente -
Ah, quero que te passe rente
À ideia do teu coração...
Quero que julgues que podias
Se quisesses, amar-me. Só
Saber isso consolaria
Minha alma erma de alegria...
Ter a certeza do teu dó!...
Teu dó, o teu quase carinho...
Qualquer sentimento por mim...
Que não me deixasse sozinho...
Eu posso construir um ninho,
Com o pouco que me vem de ti...
Eu tenho de mim tanta pena
Queria ao menos que tu também
Viesses ter pena serena
Não de mim mas da minha pena,
Essa pena que ninguém tem.
1 303
Adélia Prado
Caderno de Desenho
Quem verazmente se importa
de que esteja tão abatida com as respostas do oráculo?
Ele me ama? perguntei.
Por quatro vezes respondeu silêncio, conflito,
infortúnio e outra vez silêncio.
Terá Vosso amor, ó Deus, tanta beleza,
Vós que não tendes mãos, nem pés,
nem aquele nariz perfeito
por quem ardo até a última estrela?
Se Jonathan me amasse...
Mas quem me ama é João
e amo Jonathan desde os 12 anos,
desde a única boa lembrança de irmã Guida
que ensinava desenho,
as formas escapando de conselhos, doutrinas,
mais antigas que o pai, a mãe,
mais antigas que o avô,
reclamando de mim uma providência,
para que perdurassem, ficassem ali comigo no caderno.
Eu desenhava mal entusiasmadamente,
furando o papel com o lápis,
querendo expulsar de mim, hoje sei
— e queria mais não saber —,
aquela beleza mortal.
Eu lutava com o Anjo,
com o Mensageiro que nunca mais me deixou.
Que nome tem o que não morre?
O nome de Deus é qualquer,
pois, quando nada responde,
ainda assim uma alegria poreja.
de que esteja tão abatida com as respostas do oráculo?
Ele me ama? perguntei.
Por quatro vezes respondeu silêncio, conflito,
infortúnio e outra vez silêncio.
Terá Vosso amor, ó Deus, tanta beleza,
Vós que não tendes mãos, nem pés,
nem aquele nariz perfeito
por quem ardo até a última estrela?
Se Jonathan me amasse...
Mas quem me ama é João
e amo Jonathan desde os 12 anos,
desde a única boa lembrança de irmã Guida
que ensinava desenho,
as formas escapando de conselhos, doutrinas,
mais antigas que o pai, a mãe,
mais antigas que o avô,
reclamando de mim uma providência,
para que perdurassem, ficassem ali comigo no caderno.
Eu desenhava mal entusiasmadamente,
furando o papel com o lápis,
querendo expulsar de mim, hoje sei
— e queria mais não saber —,
aquela beleza mortal.
Eu lutava com o Anjo,
com o Mensageiro que nunca mais me deixou.
Que nome tem o que não morre?
O nome de Deus é qualquer,
pois, quando nada responde,
ainda assim uma alegria poreja.
1 511
Adélia Prado
O Destino do Alvissareiro
O poeta sofre o ridículo
de passear na cidade
com a coroa de louros.
Salve, ‘cantor das multidões’!
Assim o saúda o tolo,
com picardia e desdém.
Amém, ele responde, amém, amém,
desespero impossível,
amor não correspondido,
ainda assim, amém,
cruz sobre terra plantada.
Eis que os ossos são brancos,
eis que são belos também,
eis que este anúncio me mata
e esta grande dor me confina,
mas ainda que o mundo acabe
esta canção não termina.
de passear na cidade
com a coroa de louros.
Salve, ‘cantor das multidões’!
Assim o saúda o tolo,
com picardia e desdém.
Amém, ele responde, amém, amém,
desespero impossível,
amor não correspondido,
ainda assim, amém,
cruz sobre terra plantada.
Eis que os ossos são brancos,
eis que são belos também,
eis que este anúncio me mata
e esta grande dor me confina,
mas ainda que o mundo acabe
esta canção não termina.
1 171
Florbela Espanca
O Teu Livro
Li o teu livro, Amor, sofregamente;
Li-o, e nele em vão me procurei!
No teu livro d’amor não me encontrei,
Tendo lá encontrado toda a gente.
Um livro é a nossa alma, nunca mente!
Um livro somos nós, eu bem o sei...
E se em teus lindos versos não me achei
E que a tua alma nem sequer me sente!
As rosas do teu livro! As tuas rosas!
Rubros beijos de bocas mentirosas,
Desfolhaste-as por todas as mulheres!
Mas deixa, meu Amor, mesmo pisadas,
As tuas lindas rosas desfolhadas,
Eu apanho-as do-chão, se tu quiseres...
Li-o, e nele em vão me procurei!
No teu livro d’amor não me encontrei,
Tendo lá encontrado toda a gente.
Um livro é a nossa alma, nunca mente!
Um livro somos nós, eu bem o sei...
E se em teus lindos versos não me achei
E que a tua alma nem sequer me sente!
As rosas do teu livro! As tuas rosas!
Rubros beijos de bocas mentirosas,
Desfolhaste-as por todas as mulheres!
Mas deixa, meu Amor, mesmo pisadas,
As tuas lindas rosas desfolhadas,
Eu apanho-as do-chão, se tu quiseres...
1 548
Jorge Luis Borges
Elegía [1]
Oh destino el de Borges,
haber navegado por los diversos mares del mundo
o por el único y solitario mar de nombres diversos,
haber sido una parte de Edimburgo, de Zurich, de las dos Córdobas,
de Colombia y de Texas,
haber regresado, al cabo de cambiantes generaciones,
a las antiguas tierras de su estirpe,
a Andalucía, a Portugal y a aquellos condados
donde el sajón guerreó con el danés y mezclaron sus sangres,
haber errado por el rojo y tranquilo laberinto de Londres,
haber envejecido en tantos espejos,
haber buscado en vano la mirada de mármol de las estatuas,
haber examinado litografías, enciclopedias, atlas,
haber visto las cosas que ven los hombres,
la muerte, el torpe amanecer, la llanura
y las delicadas estrellas,
y no haber visto nada o casi nada
sino el rostro de una muchacha de Buenos Aires,
un rostro que no quiere que lo recuerde.
Oh destino de Borges,
tal vez no más extraño que el tuyo.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 246 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
haber navegado por los diversos mares del mundo
o por el único y solitario mar de nombres diversos,
haber sido una parte de Edimburgo, de Zurich, de las dos Córdobas,
de Colombia y de Texas,
haber regresado, al cabo de cambiantes generaciones,
a las antiguas tierras de su estirpe,
a Andalucía, a Portugal y a aquellos condados
donde el sajón guerreó con el danés y mezclaron sus sangres,
haber errado por el rojo y tranquilo laberinto de Londres,
haber envejecido en tantos espejos,
haber buscado en vano la mirada de mármol de las estatuas,
haber examinado litografías, enciclopedias, atlas,
haber visto las cosas que ven los hombres,
la muerte, el torpe amanecer, la llanura
y las delicadas estrellas,
y no haber visto nada o casi nada
sino el rostro de una muchacha de Buenos Aires,
un rostro que no quiere que lo recuerde.
Oh destino de Borges,
tal vez no más extraño que el tuyo.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 246 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 227
Francisco Pereira do Lago Barreto
Soneto
Em cuidados de afeto desvelada,
Clície o Amante adora mais luzido,
e quanto este mais dela distraído,
tanto ela em seu amor mais inflamada.
Ama Endimião a Ninfa mais nevada
em delíquios de amor adormecido
e porque só então correspondido
por isso a mágoa então mais afinada.
Vê Clície desprezados seus amores
perde Endimião no sono a vista, e tino
para gozar da Lua altos favores.
Qualquer se ostenta amante peregrino,
pois apostar finezas com rigores
é fineza a maior de um amor fino.
Clície o Amante adora mais luzido,
e quanto este mais dela distraído,
tanto ela em seu amor mais inflamada.
Ama Endimião a Ninfa mais nevada
em delíquios de amor adormecido
e porque só então correspondido
por isso a mágoa então mais afinada.
Vê Clície desprezados seus amores
perde Endimião no sono a vista, e tino
para gozar da Lua altos favores.
Qualquer se ostenta amante peregrino,
pois apostar finezas com rigores
é fineza a maior de um amor fino.
888
Reinaldo Ferreira
Na tarde erramos
Na tarde erramos,
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.
Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.
Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.
Discreto calo,
Pra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.
Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Sòmente em mim
Pensasses.
1 835
Gilberto Diener
Rio bagagem
Agreste, agreste canção
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
978
Jerónimo Baía
Madrigal a uma crueldade formosa
A minha bela ingrata
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos reluzentes
(Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito),
Celestial safiro;
Os beiços são rubins, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns a formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos reluzentes
(Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito),
Celestial safiro;
Os beiços são rubins, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns a formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?
2 104
Marcial
EPIGRAMAS
I, 24 - A COTA
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
1 082
Juan Ramón Jiménez
PAVILHÃO
Muros altos de teu corpo.
Não havia entrada em teu horto.
(Que onda de asas ascendia!
Oh o que ali se passaria!)
Céu claro ou turvo, que importa?
Não havia entrada em tua glória.
(Que aroma às vezes subia!
Oh em teus vergéis que haveria?)
Tornaste a ficar fechada.
Não havia em tua alma entrada!
Não havia entrada em teu horto.
(Que onda de asas ascendia!
Oh o que ali se passaria!)
Céu claro ou turvo, que importa?
Não havia entrada em tua glória.
(Que aroma às vezes subia!
Oh em teus vergéis que haveria?)
Tornaste a ficar fechada.
Não havia em tua alma entrada!
2 541
Marcial
IV, 82 - ACERCA DE FÁBULA
Porque o epigrama, Fábula, meu lesse,
Em que me queixo que ninguém se nega
Rogada até três vezes repeliu
Do amante as preces. Fábula, promete:
Negar é justo, trinegar não é.
Em que me queixo que ninguém se nega
Rogada até três vezes repeliu
Do amante as preces. Fábula, promete:
Negar é justo, trinegar não é.
1 108
Luiz Lopes Sobrinho
Ciúmes
Não é que o amor que nos meus olhos vista,
Tão cheio de ternura, ardendo em chamas,
Que inda implora, aos céus, num pranto triste,
O teu amor, ao ver que me não amas,
Já se tenha acabado! Ainda existe!
Desgraçado de mim... Tu mais me inflamas,
Com tua indiferença, pois partiste,
Deixando o meu amor, envolto em tramas!
E se hoje, acabrunhado, ando fugindo
De tua doce presença — agora amarga,
Pela tristeza que me vai ferindo,
É só porque, já não suporto ver-te
Passar, da vida, pela estrada larga
Unida àquele que me fez perder-te!
Tão cheio de ternura, ardendo em chamas,
Que inda implora, aos céus, num pranto triste,
O teu amor, ao ver que me não amas,
Já se tenha acabado! Ainda existe!
Desgraçado de mim... Tu mais me inflamas,
Com tua indiferença, pois partiste,
Deixando o meu amor, envolto em tramas!
E se hoje, acabrunhado, ando fugindo
De tua doce presença — agora amarga,
Pela tristeza que me vai ferindo,
É só porque, já não suporto ver-te
Passar, da vida, pela estrada larga
Unida àquele que me fez perder-te!
851