Poemas neste tema
Amor não correspondido
Xue Tao
Canção contemplando a primavera
(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
768
Bocage
O poeta asseteado por amor
Ó Céus! Que sinto nalma! Que tormento!
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!
Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: < Contemplar Ursulina um só momento!
>>Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e cum tiro
Puni tua sacrílega loucura:
>>De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.>>
Que repentino frenesi me anseia!
Que veneno a ferver de veia em veia
Me gasta a vida, me desfaz o alento!
Tal era, doce amada, o meu lamento;
Eis que esse deus, que em prantos se recreia,
Me diz: < Contemplar Ursulina um só momento!
>>Insano! Eu bem te vi dentre a luz pura
De seus olhos travessos, e cum tiro
Puni tua sacrílega loucura:
>>De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
À tua linda ingrata algum suspiro.>>
2 162
Gaspara Stampa
No dia
No dia em que no ventre concebido
Foi meu senhor, viu-se dos céus eleito
Para que fosse entre os mortais perfeito
E de virtudes mil ficasse ungido,
Saturno junto aos sábios fê-lo aceito
E jove, dos mais nobres preferido;
Marte na liça o fez mais aguerrido
E Febode elegância encheu-lhe o peito.
Beleza deu-lhe Vênus, e eloqüente
O fez Mercúrio; mas a Lua, ao vê-lo,
Frieza ao coração deu de presente.
Cada qual desses dons mais forte apelo
Faz à chama que em mim crepita ardente;
Menos aquele só, que o fez de gelo.
Foi meu senhor, viu-se dos céus eleito
Para que fosse entre os mortais perfeito
E de virtudes mil ficasse ungido,
Saturno junto aos sábios fê-lo aceito
E jove, dos mais nobres preferido;
Marte na liça o fez mais aguerrido
E Febode elegância encheu-lhe o peito.
Beleza deu-lhe Vênus, e eloqüente
O fez Mercúrio; mas a Lua, ao vê-lo,
Frieza ao coração deu de presente.
Cada qual desses dons mais forte apelo
Faz à chama que em mim crepita ardente;
Menos aquele só, que o fez de gelo.
571
Márcia Fasciotti
Beija-flor
Flor...
Flor que beija
Flor que deseja
O beijo do beija-flor
Que não a beija...
Ele voa
Desaparece, reaparece
E pousa em outra flor
Saudade - dor!!
Esperança perdida nos jardins,
Cravos, rosas
Margaridas e jasmins.
Voe e pouse em outra flor.
Sinta o perfume dela.
Leve seu pólen prá florir outra janela.
Traia todas as flores,
Com beijos de todas as cores...
Mas cumpra com seu dever...
Resgate o que cativou.
Faça renascer,
Desejo - beijo - flor,
Eu, você e o amor...
Beija!!! Flor...
Flor que beija
Flor que deseja
O beijo do beija-flor
Que não a beija...
Ele voa
Desaparece, reaparece
E pousa em outra flor
Saudade - dor!!
Esperança perdida nos jardins,
Cravos, rosas
Margaridas e jasmins.
Voe e pouse em outra flor.
Sinta o perfume dela.
Leve seu pólen prá florir outra janela.
Traia todas as flores,
Com beijos de todas as cores...
Mas cumpra com seu dever...
Resgate o que cativou.
Faça renascer,
Desejo - beijo - flor,
Eu, você e o amor...
Beija!!! Flor...
1 187
Marcela Bueno
Por fim lhe traí
Sentirei no corpo a brisa
Que sopra leve, desapercebida,
Passando suavemente pela vida
Que custei tanto para conseguir...
Assim serei borboleta,
Assim serei sereia,
O que será feito de mim?
Ao voar todas as manhãs
Por campos compenetrados de mistério
Com o rosto sério a me subestimar...
Sentirei por dentro um frio,
Vou querer afundar meu olhar
Na poça mais suja da rua
E ali indagar o pensar:
"Serei a sereia sua?"
Cantarei para seu espelho
Aquelas velhas músicas que lembram
Todos que já lhe esqueceram.
Eu levarei você comigo para o abrigo
Da chuva tola que molha o jardim
E você irá, sem mim,
Para o paraíso
Esta será a estória do Alecrim...
...o menino do mato que nasceu
Sem ser semeado...;
Como o nosso amor.
Sentirei a chuva, enfim
Caindo sobre mim,
Caindo e levando tudo
O que custei para conseguir.
Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.
Por fim, eu lhe traí.
Preferi o vento
À este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...
Que sopra leve, desapercebida,
Passando suavemente pela vida
Que custei tanto para conseguir...
Assim serei borboleta,
Assim serei sereia,
O que será feito de mim?
Ao voar todas as manhãs
Por campos compenetrados de mistério
Com o rosto sério a me subestimar...
Sentirei por dentro um frio,
Vou querer afundar meu olhar
Na poça mais suja da rua
E ali indagar o pensar:
"Serei a sereia sua?"
Cantarei para seu espelho
Aquelas velhas músicas que lembram
Todos que já lhe esqueceram.
Eu levarei você comigo para o abrigo
Da chuva tola que molha o jardim
E você irá, sem mim,
Para o paraíso
Esta será a estória do Alecrim...
...o menino do mato que nasceu
Sem ser semeado...;
Como o nosso amor.
Sentirei a chuva, enfim
Caindo sobre mim,
Caindo e levando tudo
O que custei para conseguir.
Parece divertido ficar aqui lhe esperando,
Você que não chega na hora marcada
E não há nada mais triste,
Inconfundivelmente chato,
Do que amar sem ser amada.
Por fim, eu lhe traí.
Preferi o vento
À este sentimento
Que menti
Ser sincero no momento...
846
Álvares de Azevedo
Perdoa-me, Visão dos meus Amores
Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Se a ti ergui meus olhos suspirando! ...
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flôres!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora...
Sem que última esperança me conforte,
Eu - que outrora vivia! - eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
2 549
Raniere Rodrigues dos Santos
Minha Morena
Tão sublime e doce me olhaste,
Com ternura enfeitiçaste-me.
Ó garota dos cabelos brilhosos,
E olhares negros
E com pele morena me cegaste.
Tua meiguice me fez ver
A pureza do teu ser
Que tão sincero expressou
Uma simples amizade
E decepcionou-me
enlarguecidamente.
Ó Cíntia querida quão perseverante
É o meu amor por ti
Chegando às alturas do pensamento
E o sentimento que tão frágil
Transborda em minha íntima emoção.
Feliz estou por ti,
Que prossegue uma vida amarga.
Triste e alegre, sem objetivo
Foste agarrada a um destino
Crítico e bonito.
Ó sofrimento que machuca,
Peço para que não me corroa,
O ciúme miserável,
És o defeito que menos desejo.
O alegria clamo por ti.
Ó Cíntia querida
Te quero mais que tudo.
O meu desejo que se mostra egoísta
Sente por ti
Ó bela morena como sinto em te amar.
Com ternura enfeitiçaste-me.
Ó garota dos cabelos brilhosos,
E olhares negros
E com pele morena me cegaste.
Tua meiguice me fez ver
A pureza do teu ser
Que tão sincero expressou
Uma simples amizade
E decepcionou-me
enlarguecidamente.
Ó Cíntia querida quão perseverante
É o meu amor por ti
Chegando às alturas do pensamento
E o sentimento que tão frágil
Transborda em minha íntima emoção.
Feliz estou por ti,
Que prossegue uma vida amarga.
Triste e alegre, sem objetivo
Foste agarrada a um destino
Crítico e bonito.
Ó sofrimento que machuca,
Peço para que não me corroa,
O ciúme miserável,
És o defeito que menos desejo.
O alegria clamo por ti.
Ó Cíntia querida
Te quero mais que tudo.
O meu desejo que se mostra egoísta
Sente por ti
Ó bela morena como sinto em te amar.
972
Angela Melim
Um amor impossível
para Márcia
Amanhã
este fogo cresce.
Amanhã, tremor
Amanhã, suspiro.
Insiste
um amor impossível
amanhã.
Insiste,
sim.
Um amor impossível pode ser amanhã.
Amanhã
este fogo cresce.
Amanhã, tremor
Amanhã, suspiro.
Insiste
um amor impossível
amanhã.
Insiste,
sim.
Um amor impossível pode ser amanhã.
1 341
Valéry Larbaud
Noite de Verão
As horas, uma a uma, tempo adentro,
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
Percorrem seu trajeto sem retorno.
A noite na cidade, um templo morno,
Refaz o seu girar que não tem centro.
O amor é um clube chic onde não entro:
Anoto mentalmente seu contorno,
Corrompo a portaria com suborno,
Mas tudo é superfície, não há dentro.
Prosseguem as mulheres, sempre lentas,
Seu adejar de carnes opulentas.
São pernas, coxas, seios como frutas
Penetrando a substância de meu gozo.
E a boca das senhoras absolutas
Eu sorvo, num espasmo silencioso.
949
Jerônimo Rodrigues de Castro
Soneto
Clície ao Sol que os seus íntimos amores
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
ingrato desdenhou com aspereza,
amou firme, apurando a sua fineza
no terrível crisol de seus rigores.
Endimião, que os mais finos primores
de amor gozou da nítida Princesa
do etéreo firmamento, a sua beleza
amou também, rendido a seus favores.
A Lua a Endimião buscou constante,
Clície buscou ao Sol, com a evidência
de seguir-lhe o seu curso rutilante.
Assim fica bem clara a conseqüência,
que Clícle mostrou que era mais amante,
que ao Sol amou sem ter correspondência.
920
J. Ribamar Matos
Silêncio
Pouco te importa o meu sofrer insano
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
e que eu viva, afinal, como hoje vivo,
nessa angústia de pássaro cativo,
a andar de desengano em desengano!
Já não tenho ilusões nem mais me engano
com a minha existência sem motivo,
pois não creio em, depois, ver redivivo
o vigor de outros tempos, espartano.
Ver-me-ás, entretanto, silencioso e mudo,
nem um lamento de meu lábio triste
ouvirás nunca mais, depois de tudo!
Calado e triste há de me ver agora,
sem o vigor de quando tu surgiste,
tecendo versos pela vida a fora...
1 016
Castro Alves
EM Que Pensas?
Oh! Pepita, charmante rifle
Mon amour, à quoi penses-tu?
ALF. DE MuswT.
TU PENSAS na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!
No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.
Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores — tuas amigas!
Nas pombas — tuas írmãs!
Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.
Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!
Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!
Na bruma que lá sescoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...
Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.
Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.
Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!
Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...
No livro — que tens no colo!
Nos versos — que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.
Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!
Nos tesouros de ventura
Que a umalma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...
Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!
Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...
Mon amour, à quoi penses-tu?
ALF. DE MuswT.
TU PENSAS na flor que nasce
Menos bela do que tu!
Na borboleta vivace
Beijando teu colo nu!
No raio da lua algente
Que bebe no teu olhar ...
Como um cisne alvinitente
No cálix do nenufar.
Nas orvalhadas cantigas
Destas selvagens manhãs...
Nas flores — tuas amigas!
Nas pombas — tuas írmãs!
Tu pensas, é Fiorentina,
No gênio de teu país...
Que uma harpa soberba afina
Em cada seio de atriz.
Na esteira de luz que arrasta
A glória no louco afã!
Nos diademas da Pasta...
Nas palmas de Malibran!
Pensas nos climas distantes
Que um sol vermelho queimou...
Nesses mares ofegantes
Que o teu navio cortou!
Na bruma que lá sescoa...
Na estrela que morre além...
Na Santa que te abençoa,...
Na Santa que te quer bem!...
Tu pensas n’Arte sagrada,
Nesta severa mulher...
Mais que Débora inspirada...
Mais rutilante que Ester.
Tu pensas em mil quimeras,
Nos orientes do amor.
No vacilar das esferas
Pelas noites de languor.
Nalgum sonho peregrino
Que o teu ideal criou.
Na vassalagem, no hino...
Que a multidão te atirou!
Neste condão que teus dedos
Têm de domar os leões...
No pipilar de uns segredos,
No musgo dos corações...
No livro — que tens no colo!
Nos versos — que tens aos pés!
Nos belos gelos do pólo...
Como teus seios cruéis.
Pensas em tudo que é belo,
Puro, brilhante, ideal...
No teu soberbo cabelo!
No teu dorso escultural!
Nos tesouros de ventura
Que a umalma podias dar;
No alento da boca pura...
Na graça do puro olhar...
Pensas em tudo que é nobre,
Que entorna luz e fulgor!
Nas minas, que o mar encobre!
Nas avarezas do amor!
Pensas em tudo que invade
O seio de um Querubim!...
Deus! Amor! Felicidade!
... Só tu não pensas em mim!...
1 992
Renata Trocoli
Sem Titulo II
Ás vezes a gente se pergunta
o porquê de tanta coisa...
o porquê de amar e não ser amado,
talvez ser mas não saber lidar com ele.
Sofrer profundamente quando a situação
que nos envolve é tão clara,
tudo e todos nos mostram que motivos
não temos para sofrer assim.
Envolver-se com alguém desconhecido,
se entregar, abrir as portas do coração
e perceber que tudo valeu à pena,
que a vida é isso ai, arriscar, amar, envolver,
deixar-se conquistar e sofre para aprender
que tudo na vida vale à pena,
que amar é cair e levantar
e sempre ter força para continuar acreditando nele.
o porquê de tanta coisa...
o porquê de amar e não ser amado,
talvez ser mas não saber lidar com ele.
Sofrer profundamente quando a situação
que nos envolve é tão clara,
tudo e todos nos mostram que motivos
não temos para sofrer assim.
Envolver-se com alguém desconhecido,
se entregar, abrir as portas do coração
e perceber que tudo valeu à pena,
que a vida é isso ai, arriscar, amar, envolver,
deixar-se conquistar e sofre para aprender
que tudo na vida vale à pena,
que amar é cair e levantar
e sempre ter força para continuar acreditando nele.
753
Rita de Cássia
Deserto
Contemplo vaga imensidão ao meu redor
E tão sozinha encontro-me aqui, novamente
Simples e sempre andarilha deste deserto
Esta mesma, que você não quis, e somente...
Só e mente sempre são as minhas imagens,
Visíveis nesta poeira bege e infinita;
Nesta poesia tão amargamente escrita
Para que então, assim lesse a minha miragem
Ah... Que mensagem tão inutilmente dita,
Só porque os seus ouvidos não me escutarão
E tão simplesmente pelos seus olhos vistas,
Pois dentre os caminhos perdidos, vagarão...
E talvez, palavras que não foram escritas
Eram a chave-mestra do seu coração...
E tão sozinha encontro-me aqui, novamente
Simples e sempre andarilha deste deserto
Esta mesma, que você não quis, e somente...
Só e mente sempre são as minhas imagens,
Visíveis nesta poeira bege e infinita;
Nesta poesia tão amargamente escrita
Para que então, assim lesse a minha miragem
Ah... Que mensagem tão inutilmente dita,
Só porque os seus ouvidos não me escutarão
E tão simplesmente pelos seus olhos vistas,
Pois dentre os caminhos perdidos, vagarão...
E talvez, palavras que não foram escritas
Eram a chave-mestra do seu coração...
531
Ricardo Moraes Ferreira
Vidas Passadas
Como o índio de um velho poema
Me atirei como um selvagem
Através de uma nova miragem
Eu recaio num velho dilema
Herdei da pouca coragem
A pena triste de não ser amado
Perdi os sonhos que deixei na margem
Só restam dores do meu passado
Algumas cinzas de cartas antigas
Lágrimas pelo tempo enxugadas
Nenhuma saudade das velhas brigas
Novos amores nas tuas pegadas
Restos da vida - tu já nem te ligas
Velhos amores são vidas passadas
Me atirei como um selvagem
Através de uma nova miragem
Eu recaio num velho dilema
Herdei da pouca coragem
A pena triste de não ser amado
Perdi os sonhos que deixei na margem
Só restam dores do meu passado
Algumas cinzas de cartas antigas
Lágrimas pelo tempo enxugadas
Nenhuma saudade das velhas brigas
Novos amores nas tuas pegadas
Restos da vida - tu já nem te ligas
Velhos amores são vidas passadas
1 014
Manuel Botelho de Oliveira
Comparações no Rigor de Anarda
Quando Anarda me desdenha
afetos de um coração,
é diamante Anarda? não,
não diamante, porque é penha:
penha não, porque se empenha,
qual áspid seu rigor forte;
áspid não, que tem por sorte
ser qual tigre na crueza:
tigre não, que na fereza
tem todo o império da Morte.
afetos de um coração,
é diamante Anarda? não,
não diamante, porque é penha:
penha não, porque se empenha,
qual áspid seu rigor forte;
áspid não, que tem por sorte
ser qual tigre na crueza:
tigre não, que na fereza
tem todo o império da Morte.
1 887
Florbela Espanca
Versos
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...
Versos!... Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!... Sei eu lá também que são...
Sei lá! Sei lá!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...
Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!...
2 510
Florbela Espanca
Quem Sabe?!...
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!
Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.
Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
......................................................................
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!
5 314
Castro Alves
O HÓSPEDE
Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando tu fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga
Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...
"Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.
"Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.
"Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!
"Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.
"Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.
"Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!
"Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.
"Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?
"A choça do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos? ...
"Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?
"Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serranal. . ."
—————
No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...
E te esqueces de mim quando tu fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga
Onde vais, estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...
"Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.
"Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.
"Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!
"Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.
"Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.
"Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!
"Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.
"Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?
"A choça do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos? ...
"Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?
"Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serranal. . ."
—————
No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...
1 907
Nelson Castelo Branco Eulálio
A cerimônia da insistência
Não consigo perdoar nem a ti nem a vida
Por negarem-me a oportunidade
De descobrir em teu corpo
Todo o mistério do universo...
Por que não pude beijar teus seios
Fontes de amor e vida?
Por que não pude beijar tua alma
Pela janela da tua feminilidade?
Por que não pude sentir por dentro
O mais recôndito do teu corpo
Mesmo que fosse por entre fios de látex?
Negar a realização do amor que nos bate à porta
É crime de lesa-natureza...
E tu serás cobrada por essa recusa
Quando perceberes que as efêmeras paixões
Que hoje te animam o ser
São apenas pálidos reflexos
Do que podias Ter e recusaste.
Por causa de tua negativa
As estrelas se quedaram silentes;
A lua ficou triste, encabulada;
O sol amanheceu constrangido.
Toda a natureza sentiu-se negada
Pela simples volição de uma mortal!
Que poder é esse que o Homem tem
De negar o Ser, de recusar-se a criar?
Que poder é esse que te foi dado
De negares a realização do amor?
Já pensaste que tu poderás querer
(e não Ter)
justamente o amor que te foi oferecido
e que tu simplesmente recusaste?
A tua recusa constrangeu todo o Olimpo
Aliás, dos deuses gregos aos romanos
De Eros a Afrodite...
Deixaste desconcertado o Cupido
Profanaste o altar de Vênus.
Mas podes crer que Zeus
Que jamais permitiu tanta soberba
De uma simples mortal (embora linda)
Vai cunhar em etéreas plagas
A sentença que encimará tua imagem de mulher
E a de todas iguais a ti:
"Aqui jaz, neste corpo de mulher
o amor estéril que não se pode realizar..."
E esta será tua sina: Ensinar a todas as mulheres
Que ao amor não se pode nada negar.
Por negarem-me a oportunidade
De descobrir em teu corpo
Todo o mistério do universo...
Por que não pude beijar teus seios
Fontes de amor e vida?
Por que não pude beijar tua alma
Pela janela da tua feminilidade?
Por que não pude sentir por dentro
O mais recôndito do teu corpo
Mesmo que fosse por entre fios de látex?
Negar a realização do amor que nos bate à porta
É crime de lesa-natureza...
E tu serás cobrada por essa recusa
Quando perceberes que as efêmeras paixões
Que hoje te animam o ser
São apenas pálidos reflexos
Do que podias Ter e recusaste.
Por causa de tua negativa
As estrelas se quedaram silentes;
A lua ficou triste, encabulada;
O sol amanheceu constrangido.
Toda a natureza sentiu-se negada
Pela simples volição de uma mortal!
Que poder é esse que o Homem tem
De negar o Ser, de recusar-se a criar?
Que poder é esse que te foi dado
De negares a realização do amor?
Já pensaste que tu poderás querer
(e não Ter)
justamente o amor que te foi oferecido
e que tu simplesmente recusaste?
A tua recusa constrangeu todo o Olimpo
Aliás, dos deuses gregos aos romanos
De Eros a Afrodite...
Deixaste desconcertado o Cupido
Profanaste o altar de Vênus.
Mas podes crer que Zeus
Que jamais permitiu tanta soberba
De uma simples mortal (embora linda)
Vai cunhar em etéreas plagas
A sentença que encimará tua imagem de mulher
E a de todas iguais a ti:
"Aqui jaz, neste corpo de mulher
o amor estéril que não se pode realizar..."
E esta será tua sina: Ensinar a todas as mulheres
Que ao amor não se pode nada negar.
927
Florbela Espanca
Á sua, que foi
Á sua, que foi, é e será sempre,
da sua que nunca foi, Não é nem será
Bela
da sua que nunca foi, Não é nem será
Bela
906
Fernando Pessoa
A esmola que te vi dar
A esmola que te vi dar
Não me deu crença nem fé,
Pois a que estou a esperar
Não é esmola que se dê.
Não me deu crença nem fé,
Pois a que estou a esperar
Não é esmola que se dê.
1 464
Fernando Pessoa
Ris-te de mim? Não me importo.
Ris-te de mim? Não me importo.
Rir não faz mal a ninguém.
Teu rir é tão engraçado
Que, quando faz mal, faz bem.
Rir não faz mal a ninguém.
Teu rir é tão engraçado
Que, quando faz mal, faz bem.
1 464
Fernando Pessoa
Moreninha, moreninha,
Moreninha, moreninha,
Com olhos pretos a rir.
Sei que nunca serás minha,
Mas quero ver-te sorrir.
Com olhos pretos a rir.
Sei que nunca serás minha,
Mas quero ver-te sorrir.
1 117