Poemas neste tema
Amor não correspondido
Ana Amélia
Mal de Amor
Toda pena de amor, por mais que doa,
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
No próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença
Seca-as depressa uma palavra boa.
A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
Obstáculos não são que Amor não vença,
Amor transforma em luz a treva densa;
Por um sorriso Amor tudo perdoa.
Ai de quem muito amar não sendo amado,
E depois de sofrer tanta amargura,
Pela mão que o feriu não for curado...
Noutra parte há de em vão buscar ventura:
Fica-lhe o coração despedaçado,
Que o mal de Amor só nesse Amor tem cura.
1 321
Vitor L. Mendes
Poemas ao Vento
A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
1 073
Manuel Bandeira
Antônia
Amei Antônia de maneira insensata.
Antônia morava numa casa que para mim não era casa, era um empíreo. Mas os anos foram passando.
Os anos são inexoráveis.
Antônia morreu.
A casa em que Antônia morava foi posta abaixo.
Eu mesmo já não sou aquele que amou Antônia e que Antônia não amou. Aliás, previno, muito humildemente, que isto não é crônica nem poema. E, apenas
Uma nova versão, a mais recente, do tema ubi sunt,
Que dedico, ofereço e consagro
A meu dileto amigo Augusto Meyer.
Antônia morava numa casa que para mim não era casa, era um empíreo. Mas os anos foram passando.
Os anos são inexoráveis.
Antônia morreu.
A casa em que Antônia morava foi posta abaixo.
Eu mesmo já não sou aquele que amou Antônia e que Antônia não amou. Aliás, previno, muito humildemente, que isto não é crônica nem poema. E, apenas
Uma nova versão, a mais recente, do tema ubi sunt,
Que dedico, ofereço e consagro
A meu dileto amigo Augusto Meyer.
1 474
Manuel Bandeira
Rondó de Colombina
De Colombina o infantil borzeguim
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.
Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.
O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores?... — Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...
1913
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.
Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.
O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores?... — Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...
1913
1 129
Luís Vianna
RECEITUÁRIO ARCAICO
Sabes o que é um filtro?
Uma beberagem certa
Para este amor indeciso
Ver se desperta.
Tentei macumbaria,
Reza certa;
Para ver se a magia
Te cerca.
Nada adiantou.
Estais com outro.
Mas eu estou feliz;
Tua felicidade me vale ouro.
06/07/1998
Uma beberagem certa
Para este amor indeciso
Ver se desperta.
Tentei macumbaria,
Reza certa;
Para ver se a magia
Te cerca.
Nada adiantou.
Estais com outro.
Mas eu estou feliz;
Tua felicidade me vale ouro.
06/07/1998
820
Manuel Bandeira
O Amor, a Poesia, As Viagens
Atirei um céu aberto
Na janela do meu bem:
Caí na Lapa — um deserto...
— Pará, capital Belém !...
Na janela do meu bem:
Caí na Lapa — um deserto...
— Pará, capital Belém !...
905
Alfonsina Storni
O rogo
Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia...
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor fazendo versos.
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia...
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor: minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O açoite que sangra aos perversos!
Que está a tarde já sobre minha vida,
E esta paixão ardente e desmedida,
A hei perdido, Senhor fazendo versos.
1 072
Manuel Bandeira
Solau do Desamado
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
Tem pena de meu penar.
Já das assomadas raia
O clarão dilucular,
E o meu olhar se desmaia
Transido de te buscar.
Sai desse ninho de alfaia,
— Céu puro de teu sonhar,
Veste o quimão de cambraia,
Mostra-te ao fulgor lunar.
Dá que uma só vez descaia
Do ermo balcão do solar
Como uma ardente azagaia
O teu fuzilante olhar.
Donzela, deixa tua aia,
Tem pena de meu penar...
Sou mancebo de alta laia:
Não trabalho e sei justar.
Relincham em minha baia
Hacanéias de invejar.
Tenho lacaio e lacaia.
Como um boi ao meu jantar!
Castelã donosa e gaia,
Acode ao meu suspirar
Antes que a luz se me esvaia,
Tem pena de meu penar.
Vou-me ao golfo de Biscaia
Como um bastardo afogar.
Minh'alma blasfema e guaia,
Minh'alma que vais danar,
Dona Olaia, Dona Olaia!
— Meu alaúde de faia,
Soluça mais devagar...
1 407
Carolina Vigna Prado
Angústias de uma espera
Deixei o telefone no máximo na esperança de você ligar.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.
834
Vespasiano Ramos
Ânsia Maldita
Ninguém mais do que tu saberá quanto
Padeço, agora! e, em lágrima, advinha
A minhaalma apagar-se, neste pranto,
Beatriz! Alma em flor! Suave encanto,
Que me salvar, pensei, dos altos, vinha:
O quanto peno, o quanto sofro, enquanto
Imagino que nunca serás minha!
Foram, por ti, as lágrimas que os olhos
Meus derramaram! só por ti, somente
Que minhalma, do Amor contra os escolhos,
Há de, convulsa, soluçar, um dia,
A derradeira lágrima pungente
E o derradeiro grito de agonia!
Padeço, agora! e, em lágrima, advinha
A minhaalma apagar-se, neste pranto,
Beatriz! Alma em flor! Suave encanto,
Que me salvar, pensei, dos altos, vinha:
O quanto peno, o quanto sofro, enquanto
Imagino que nunca serás minha!
Foram, por ti, as lágrimas que os olhos
Meus derramaram! só por ti, somente
Que minhalma, do Amor contra os escolhos,
Há de, convulsa, soluçar, um dia,
A derradeira lágrima pungente
E o derradeiro grito de agonia!
1 417
Manuel Bandeira
Canção
Mandaste a sombra de um beijo
Na brancura de um papel:
Tremi de susto e desejo,
Beijei chorando o papel.
No entanto, deste o teu beijo
A um homem que não amavas!
Esqueceste o meu desejo
Pelo de quem não amavas!
Da sombra daquele beijo
Que farei, se a tua boca
É dessas que sem desejo
Podem beijar outra boca?
Na brancura de um papel:
Tremi de susto e desejo,
Beijei chorando o papel.
No entanto, deste o teu beijo
A um homem que não amavas!
Esqueceste o meu desejo
Pelo de quem não amavas!
Da sombra daquele beijo
Que farei, se a tua boca
É dessas que sem desejo
Podem beijar outra boca?
1 552
D. Dinis
O que vos nunca cuidei a dizer
Os diré, con tristeza, lo que nunca pensé
que os diría, señora,
porque veo que por vos muero,
porque sabéis que nunca os hablé
de cómo me mataba vuestro amor:
porque sabéis bien que de otra señora
yo no sentía ni siento temor.
Todo esto me hizo sentir
el temor que de vos tengo,
y desde ahí por vos dar a entender
que por otra moriría, de ella tengo,
sabéis bien, algo de temor;
y desde hoy, hermosa señora mía,
si me matáis, bien me lo habré buscado.
Y creed que tendré gusto
de que me matéis, pues yo sé con certeza
que en el poco tiempo que he de vivir,
ningún placer obtendré;
y porque estoy seguro de esto,
si me quisierais dar muerte, señora,
por gran misericordia os lo tendré.
1 925
Fernando Pessoa
O pastor amoroso perdeu o cajado,
O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo;
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes,
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
10/07/1930
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu. Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo;
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem, estão presentes,
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.
10/07/1930
2 456
Juan-Eduardo
Vivir es carecer Del gran desastre
brota una luz de amor sin redención,
un color de violetas y de rosas
cayendo en um abismo sin final.
Mi corazón se alarga hacia la muerte,
crece con este nudo de dolor.
Y las negras hogueras del no ser
consumen mis azules construcciones.
Boca de mi esplendor,¿dónde tu forma;
dónde la fundación del sufrimiento?
La vacilante mano de la sombra
me cruza las palabras sobre el pecho.
un color de violetas y de rosas
cayendo en um abismo sin final.
Mi corazón se alarga hacia la muerte,
crece con este nudo de dolor.
Y las negras hogueras del no ser
consumen mis azules construcciones.
Boca de mi esplendor,¿dónde tu forma;
dónde la fundación del sufrimiento?
La vacilante mano de la sombra
me cruza las palabras sobre el pecho.
931
Walt Whitman
Sometimes with One I Love
Sometimes with One I Love
Sometimes with one I love I fill myself with rage for fear I
effuse unreturnd love,
But now I think there is no unreturnd love, the pay is
certain one way or another,
(I loved a certain person ardently and my love was not
returnd,
Yet out of that I have written these songs.)
Sometimes with one I love I fill myself with rage for fear I
effuse unreturnd love,
But now I think there is no unreturnd love, the pay is
certain one way or another,
(I loved a certain person ardently and my love was not
returnd,
Yet out of that I have written these songs.)
1 724
Fernando Pessoa
MEANTIME
MEANTIME
Far away, far away,
Far away from here...
There is no worry after joy
Or away from fear
Far away from here.
Her lips were not very red,
Nor her hair quite gold.
Her hands played with rings.
She did not let me hold
Her hands playing with gold.
She is something past,
Far away from pain.
Joy can touch her not, nor hope
Enter her domain,
Neither love in vain.
Perhaps at some day beyond
Shadows and light
She will think of me and make
All me a delight
All away from sight.
Far away, far away,
Far away from here...
There is no worry after joy
Or away from fear
Far away from here.
Her lips were not very red,
Nor her hair quite gold.
Her hands played with rings.
She did not let me hold
Her hands playing with gold.
She is something past,
Far away from pain.
Joy can touch her not, nor hope
Enter her domain,
Neither love in vain.
Perhaps at some day beyond
Shadows and light
She will think of me and make
All me a delight
All away from sight.
5 000
José Miguel Silva
Dizias que gostavas
Dizias que gostavas de poemas.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei-de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.
Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
São muito bonitos, disseste,
hei-de mostrá-los ao meu namorado.
Nunca mais confiei nos versos
nem no gosto feminil.
1 534
Marcelo Batalha
Dedicação
Fico em casa, aguardo um telefonema
Um cinema, restaurante, saidinha.
Sendo a minha esperança derradeira,
Fico à beira do abismo da vontade.
Como um frade, celibato dedicado,
Mal pensado, por alguém que nem conheço.
Deus, mereço essa mulher tão sonhada ?
Mas que nada ! Nunca olhou para mim...
Vago, enfim, com a fome do carinho
No meu ninho, recolhido e insaciável
E, o que é provável, à espera de ninguém
O meu bem não tem nome, fico à míngua.
Minha língua se transforma em muita tinta :
No que pinta à mente, boto forma e cor.
E o amor que novamente respiro, e onde navego,
Deixa-me cego aos desígnios da razão.
Uma paixão me arrasa, me inspira ;
É minha lira, o poema revelado.
Coitado de quem nunca a descobriu !
Jamais sentiu seu coração em brasa...
Um cinema, restaurante, saidinha.
Sendo a minha esperança derradeira,
Fico à beira do abismo da vontade.
Como um frade, celibato dedicado,
Mal pensado, por alguém que nem conheço.
Deus, mereço essa mulher tão sonhada ?
Mas que nada ! Nunca olhou para mim...
Vago, enfim, com a fome do carinho
No meu ninho, recolhido e insaciável
E, o que é provável, à espera de ninguém
O meu bem não tem nome, fico à míngua.
Minha língua se transforma em muita tinta :
No que pinta à mente, boto forma e cor.
E o amor que novamente respiro, e onde navego,
Deixa-me cego aos desígnios da razão.
Uma paixão me arrasa, me inspira ;
É minha lira, o poema revelado.
Coitado de quem nunca a descobriu !
Jamais sentiu seu coração em brasa...
869
Renato Rezende
O Outro Em Mim
Presta atenção: a vida inteira
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
esperando que um dia alguém nos dê a mão.
Na juventude, para mim, era uma sombra feminina
que eu levava para todos os cantos, e amava.
Eu amava estonteantemente aquela menina.
Nunca veio, nunca virá, meu próprio espelho.
Estamos essencialmente sós neste mundo. Mas não tão
sós a ponto de poder fazer de cada momento
um momento sem qualquer desejo,
puro e pleno.
(ROMPER TODOS OS ESPELHOS)
731
José Miguel Silva
O Atalante - Jean Vigo (1934)
No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que falavas do filme.
Sou tão estúpido.
1 443
Bastos Portela
Maldita
A uma fidalga egoísta
Passas... E, ao ver-te, a multidão murmura,Numa febril agitação: - "É ela!Como é divina! E que ideal canduraO seu olhar dulcíssimo revela!...
E dizem outros: - "Haverá donzelaQue seja assim tão divinal e pura,Ou que tenha - tão simples e singela! -O mesmo encanto e a mesma formosura?!"
Todos te exalçam, meu amor... Entanto,Ninguém dirá que te maldigo tantoE que no peito, infelizmente, encerro
O desespero atroz de um desvairadoQue luta, em vão, aflito e apaixonado,Para vencer teu coração de ferro!
Passas... E, ao ver-te, a multidão murmura,Numa febril agitação: - "É ela!Como é divina! E que ideal canduraO seu olhar dulcíssimo revela!...
E dizem outros: - "Haverá donzelaQue seja assim tão divinal e pura,Ou que tenha - tão simples e singela! -O mesmo encanto e a mesma formosura?!"
Todos te exalçam, meu amor... Entanto,Ninguém dirá que te maldigo tantoE que no peito, infelizmente, encerro
O desespero atroz de um desvairadoQue luta, em vão, aflito e apaixonado,Para vencer teu coração de ferro!
980
Marcelo Batalha
Rainha
Suas pernas
que assombram, santas cruzadas
que desvendam curvas tão amadas
Me convocam
Me amordaçam
Me derretem por inteiro, em vão
Seus lábios
que entoam o sons de maior beleza
que tremem, à toa, por incerteza
Me desejam
Me cortejam
Me ferem, longe dos meus
Seus olhos
que brilham, pelos meus, na multidão
que vigiam, com rigor, meu pobre coração
Me provocam
Me paralisam
Me remetem às grandes loucuras
Como podem pertencer a outrém ?
Quem pode desejá-la com tal ardor ?
Rainha, estrela do meu tormento
Sem você não sou ninguém
Ouve agora esse meu lamento
Mal conheço a face do amor...
que assombram, santas cruzadas
que desvendam curvas tão amadas
Me convocam
Me amordaçam
Me derretem por inteiro, em vão
Seus lábios
que entoam o sons de maior beleza
que tremem, à toa, por incerteza
Me desejam
Me cortejam
Me ferem, longe dos meus
Seus olhos
que brilham, pelos meus, na multidão
que vigiam, com rigor, meu pobre coração
Me provocam
Me paralisam
Me remetem às grandes loucuras
Como podem pertencer a outrém ?
Quem pode desejá-la com tal ardor ?
Rainha, estrela do meu tormento
Sem você não sou ninguém
Ouve agora esse meu lamento
Mal conheço a face do amor...
822
Arthur Fortes
Esfinge
Fico-me só, horas mais horas, triste,
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
748
Lois Pereiro
Luz e sombras de amor resucitado
Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
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