Poemas neste tema

Infância

Maurício Batarce

Maurício Batarce

Um Rumar

Com pés descalços, olhos de luz
E um sorriso estampado no rosto,
O menino caminhava
Por entre estrepes no solo.
Como querendo chegar
Ao fim do arco-íris,
Mesmo sabendo que não conseguiria,
Andava a passos firmes e cautelosos.
Olhar voltado para o infinito,
O menino ouvia o rumor da brisa
Em sua face rósea.
Mandava beijos para o sol
E prosseguia em sua jornada...
Pouco-a-pouco
Seus pés deixaram de tocar o solo
E milhões de cores
Iluminaram seu voar-andando.
Depois pisou na relva macia,
Ganhou um pote-de-ouro,
Encontrou gnomos
E conviveu com várias fadas.
Nadou no espelho de sua vida
E acabou se encontrando...
A luz de seu olhar
Iluminou o mundo
E com passos de sonho,
Acordou no mundo real.
Sua jornada acabou
E ele chegou em seu fim...

735
Maurício Batarce

Maurício Batarce

Desventuras

Ao longe meus olhos encerram,
Na língua do martírio,
Um sorriso novo ao longo
Do mundo que giro...

Nas vozes loucas,
Em meio à vida,
Recebo um sonho
De despedidas...

Nunca senti a voz da tortura.
Nem uma turva idéia errante.
Sempre busquei nas amarguras,
As faces de minha vida infante...

Música se ouve
E o amor me vem.
Estou só comigo mesmo,
Mas ainda assim tenho alguém...

807
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Meninas de Tamancos

Cirandas jogando tempo
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol

O barulho da memória acorda a alma.

1 134
Ricardo Moraes Ferreira

Ricardo Moraes Ferreira

Soneto e Saudade

Jogai as flores com ternura
Sobre o jazigo de nosso passado
Amei-te com a inocente loucura
Daqueles que morrem sem ter pecado

Corri os verdes campos da esperança
Sob os olhos atentos do destino
De inocente - sorri quando criança
E de pirraça - fugi como um menino

Na fuga audaz passaram-se os anos
E a vida me volta num breve lampejo
Lamúrias cruéis de velhos enganos

Loucura fugaz de um novo desejo
Eu olho prá trás - cadê nossos planos?
As flores, o campo ; só tu que não vejo!

900
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cultura Francesa

Com mestre Emílio aprendi
esse pouco de francês
que deu para ler Jarry.

Murilo, diabo na aula,
tinha gestos impossíveis,
que nem macaco na jaula.

Mestre Emílio, tão severo
não via no último banco
o aluno de moral zero.

Os verbos irregulares
saltavam do meu Halbout,
perdiam-se pelos ares.

Nunca mais os encontrei…
Talvez Brigitte Bardot
me ensinasse o que não sei.
896
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O canário da Menina

Menina na calçada olhava os passarinhos
Seu Lolô, de gravata borboleta, descia a rua:
Vou trazer um canário pra menina.

Na avenida, o bonde passava, a enxurrada passava.
Tempo de manga, tempo de goiaba, tempo de papagaios.
Menina na calçada, seu Lolô descendo a rua.

No amor, a menina bateu asas.
Voou nos rostos. Beijou faces.
Sonhou com o mar. Descobriu o infinito vôo
da gaivota.

Tanto passarinho tantos vôos tanta saudade.

1 086
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Alfredo Duval

Meu santeiro anarquista na varanda
da casinha do Bongue, maquinando
revoluções ao tempo em que modelas
o Menino Jesus, a Santa Virgem
e burrinhos de todas as lapinhas;
aventureiro em roupa de operário,
que me levas à Ponte dos Suspiros
e ao Pátio dos Milagres, no farrancho
de Michel Zevaco, dos Pardaillan,
Buridan, Triboulet (e de Nick Carter),
ouço-te a rouca voz chamar Eurico
de nazarena barba caprichada
e retê-lo a posar horas e horas
para a imagem de Cristo em que se afirme
tua ânsia artesanal de perdurar.
Perdura, no frontispício do Teatro,
a águia que lá fixaste sobre o globo
azul da fama, no total desmaio
do teu, do nosso tempo itabirano?
Quem sabe de teus santos e teus bichos,
de tua capa e espada imaginária,
quando vagões e caminhões desterram
mais que nosso minério, nossa alma?
Eu menino, tu homem: uma aliança
faz-se, no tempo, à custa de gravuras
de semanais fascículos românticos…
1 602
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Hoje tem festa no céu

HOJE TEM FESTA NO CÉU
E OS HOMENS CHORAM NA TERRA

Morreu "mundinho"
filho de Izabel
que brincava às manhãs
com seu barco de papel

HOJE TEM FESTA NO CÉU
E OS HOMENS CHORAM NA TERRA

No céu preparam a chegada
do "mundinho de Izabel"
na terra ficou o barquinho
e o menino foi pro céu
HOJE TEM FESTA NO CÉU

1 105
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Flora Mágica Noturna

A casa de dr. Câmara é encantada.
No jardim cresce a árvore-de-moedas.
As pratinhas reluzem entre folhas.
O menino ergue o braço e fica rico
ao luar.
Dr. Câmara sorri sob os bigodes
de bom padrinho. Sente-se criador
de uma espécie botânica sem par.
A crença do menino agora é dele,
ao luar.
1 075
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Menino de favela

Na favela
à favela
uma vela
vela o menino

pálido
frágil
sem vida

1 142
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

O natal de Raimundo

Raimundo ganhou
presente de Natal

Um incrível carro de bois
movido a pilhas

Leva a boiada Raimundo
Raimundo leva a boiada
E assim ele se diverte
num feliz faz de contas
empurrando um pedaço de madeira
na favela de São Leopoldo

884
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Alma de menino

Luzes brilham nesse labirinto
dizia o menino:
— Vês as estrelas?

E a noite sorria
vendo a alegria

Dizia o menino:
— Vês as estrelas?

Sim, eu via
dizia o menino
(eu não via)
logo é dia.

Vês as estrelas
e eu sorria
enquanto esperava
chegar outro dia.

905
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Esperança

O menino
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.

Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.

Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.

946
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Meninos

Meninos do morro
descem do morro
não pedem socorro
se pegam a socos
defendem o osso
da carne em ruínas

emudecem como sopro
do trem da Central que avisa . . .

No céu dos brasis
há meninos louros
negrinhos, caboclos
meninos moços, heróis
do sem fim

Meninos do morro
também há meninas
franzinas, despidas

Tentativa de ser
sopro de vida

943
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Memórias

(a meu pai)

Enquanto eu corria descalço
pisando em estrelas
meu pai numa labuta infinda
enfrentava o sol

Às noites com seu violão
que nunca chegou a dedilhar
espalhava sua poesia no ar
Velho poeta, ninguém como você
soube cantar o amor e a dor dos
seus dias

É pena que o mundo conheça apenas
os escritores feitos
e desconheça a poesia de um lavrador

Os anos foram tantos
os sonhos de menino
perderam-se no barquinho
que num dia de chuva
naveguei

Meu pai hoje velho
resistiu a tudo
e por detrás do muro
vejo o seu vulto

Pensando no menino que se fez homem.

791
Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

Soneto da Fiel Infância

Tudo que em mim foi natural — pobreza,
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa —
Dói na saudade mais que então doía.

Da lamparina do meu qarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.

Altas horas, rezando no seu canto,
Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.

Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.

1 687
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Frio e Só

(COMO SEMPRE)

A criança alegre e divertida
Deixou de acreditar no Pai Natal,
As prendas na sua longa lista não foram recebidas,
E o fiel cão jaz espalmado na estrada.

O espelho mostra algo de errado,
O adolescente espreme da cara a borbulha,
Mas nada muda.
O reflexo não mente, falta algo na sua vida,
Certifica-se que ainda o tem entre as pernas
E deixa a barba crescer...
Não resulta...

Homem sem amigos,
Achados e perdidos,
Gastando tudo o que pode
(Não necessariamente por ordem alfabética)
Em bebida e mulheres.

O velho ainda não sabe o que é a vida,
Chora sobre cabelo caído
Enquanto coça os genitais
(Agora, lamentavelmente, só com função urinária),
Desejando...

A morte...
Autópsia, médicos
Procuram estupefactos no peito frio cadáver
Um músculo há muito atrofiado,
Que nunca bateu...

O nome na sepultura
Por nenhum dos nove filhos bastardos lembrado,
Deixado abandonado para apodrecer
Frio e só...
Como sempre...

852
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Manuel Bandeira

Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar

Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
«As três mulheres do sabonete Araxá»
E minha avó se espantava

Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do «Trem de ferro»
E o «Poema do beco»

Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava

Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado
2 508
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Palácio

Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)
Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito
Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infância — para mim o vermelho
Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a fúria o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia
2 343
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Memórias II

(à minha mãe)

O tempo passou
e eu nem percebi

Minha mãe rega o velho
jardim,
as flores se renovaram
e eu cresci.

É abril como tantos
outros abris de portas escancaradas
para o futuro

Futuro que neste instante
é o meu presente

Meu peito se agigantou
e guarda tudo o que vivi.

Minha mãe rega o jardim,
acompanho seus movimentos pela [vidraça,
e talvez nem perceba
que já brota do meu peito
uma saudade sem fim.

784
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

brasil

Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo

Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil

Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.

Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.

Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.

Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.

Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.

580
Paulo Augusto Rodrigues

Paulo Augusto Rodrigues

Quero

Dores de menino.

Quero colo, carinho, abrigo,
Quero RocknRoll nos ouvidos,
E mais do que sangue nas veias.

E quero bomba, estrela cadente,
Quero guerra, medo e perigo.
Adrenalina e nostalgia.

Quero olhares perdidos achados,
Visões alucinantes existindo,
Horrores, Hiroximas e himens.

Homens de verdade.

Caráter, explosão e facadas.
Mães, pais e defuntos,
Filhos e netos,
Tensões, conflitos e alívios.

Quero tédio no sexo dos outros,
Liberdade de expressão a fórceps.

Quero paz...

De espírito.

784
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

Árvore de Frutos

Cheiras
ao caju da minha infância
e tens a cor do barro vermelho molhado
de antigamente;
há sabor a manga a escorrer-te na boca
e dureza de maboque a saltar-te nos seios.

Misturo-te com a terra vermelha
e com as noites
de histórias antigas
ouvidas há muito.

No teu corpo
sons antigos dos batuques à minha porta,
com que me provocas,
enchem-me o cérebro de fogo incontido.

Amor, és o sonho feito carne
do meu bairro antigo do musseque!
858
Manoel Carlos de Almeida

Manoel Carlos de Almeida

Soneto

Demoro-me na escassa infância
em buscamentos de poesia
Que um severo milagre se proponha
e se abasteça a noite de seu dia.

Guardar-me não será melhor que unir-me
à memória dos olhos e do ouvido.
Existe a solidão de um tempo atado
ao que ouvi sem ter sentido.

Sem proeza ofertei amor exíguo.
Não perguntei às formas exauridas
onde encontrar estojo para o verso.

Conquisto para mim palavras minhas
em que o medo engendrou um grave espanto:
fonte de hermética paisagem.

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