Poemas neste tema

Infância

Felipe Larson

Felipe Larson

CICLO

Nós temos um mundo a descobrir
Mas e daí se nada aprendermos
Mas o que realmente gostei de sentir
É que não estamos perdidos

O mundo gira em torno de ilusões
Que terminam no mesmo ponto
E o sumo da perfeição
Não existe no submundo

A ignorância é a que prevalece
Ditada e escrita já pelos profetas
Que tão cedo o jovem envelhece
E a infância já não é completa

Mas tudo isso poderia mudar
Mas ninguém quer lutar por isso
Não entende o ciclo da vida
Se rompida, como será a vida vivida?

Quem saberá o que é amar
Quem saberá ditar as regras

616
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Crianças No Céu

os garotos aparecem
os garotos escalam o
poste marrom
enquanto os aquecedores borbulham
na Espanha
os garotos escalam o
poste marrom –
Carlos Magno lutou por isto
Il Duce foi arrancado de seu carro
a pele arrancada feito um urso
e enforcado
de cabeça para baixo
por isto –
os meninos escalam
o poste marrom
3 ou 4
deles;
recém nos mudamos para
este prédio,
as pinturas ainda
guardadas, as cartas da
Inglaterra e de Chicago e
Cheyenne e
Nova Orleans,
mas a cerveja já acondicionada
e há 5 laranjas
e 4 peras sobre a mesa
então a vida não é tão
ruim
exceto pelo fato de que alguém quer
$15 para
ligar o gás;
os garotos sobem no poste de telefone
para pular sobre os tetos
azul-esverdeados
das garagens
e eu fico parado e nu
atrás de uma cortina,
fumando um charuto,
e impressionado,
impressionado como ficaria
se
a Virgem Maria
estivesse dançando
lá fora;
e através da janela
para o norte
posso ver 2 homens
alimentando
45 pombos
e os pombos
caminham em círculos separados
de 8 ou 10
como se estivessem atados uns aos outros
por uma corda girante,
e são três horas
da tarde e também
um bom charuto.
Cícero lutou por isto,
Jake LaMotta e
Waslaw Nijinsky,
mas alguém roubou
nosso violão
e eu não tomei minhas
vitaminas
por semanas.
os garotos correm pelos
telhados azul-esverdeados
enquanto ao norte os
pombos voam;
é desesperadoramente
sagrado
e eu exalo
uma fumaça cinzenta e
silenciosa.
então uma mulher num casaco vermelho,
evidentemente uma oficial,
alguma matrona do
aprendizado
decide que
o céu precisa de
limpeza:
Ei!!! garotos
desçam DAÍ
de uma vez!
é um belíssimo
cervo
correndo de um
caçador.
Agrippina lutou por isto,
até mesmo Mithridates,
até mesmo William Hazlitt.
não há nada mais a fazer
agora
senão desempacotar.
629
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando for a Grande Partida,

Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez para fora dos seres e dos sentimentos
E no paquete A Morte (que rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente estrangeiro, de lugar, é o do porto de destino?)
Quando, emigrantes para sempre, fizermos a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e pavoroso mundo tão (...) para os nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)
1 344
Rafael Días Icaza

Rafael Días Icaza

Insônia

Sou naufrago, mãe, e te chamo na noite,
desolado, no firme marchar para a morte,
e de golpe me assalta a ternura infinita
dos primeiros anos. E necessito saber que te achas
perto, que a tua lâmpada vela, pontual, perto de mim.

Necessito teu copo para a má sombra dos pesadelos,
teu apoio de nogueira para o descanso dos sonhos
absurdos teu desencantado sorriso e tuas mãos sobre meus cabelos.
Desolado, desde a má noite, quebro meus punhos em portas infinitas
e chamo, e ninguém me abre.
Mãe: me de a chave de tuas despensas,
sou um homem perdido baixo a chuva cinza:
Ascende o fósforo mais tênue para que eu caminhe

Atravessam a sombra, desde os pórticos da alvorada,
a noiva e seu lenço de açafrão e pérola,
a querida com seus beijos impuros,
todas as esperanças e todos os fracassos,
todos os malabares e os equilíbrios na corda bamba

Volta o homem, desde sua maturidade do seu poderio,
até a comarca em que chorava só baixo a noite imensa,
e voltam a soltar-se os mastins e a derramar-se o vinho dos odres,
e a assinalar com os índices à criança desvalida:
"Vejam aqui ao que come pães do lamento e a angustia."

Mãe: um escuro terror, uma certa sensação de culpa
há neste homem cego que empunha as aldravas
das casas sem donos, em seus erros na noite.

389
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ruço

Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.

Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.

Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.

Lá vão os dias de minha infância
— Imagens rotas que se desmancham:

O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:

Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino aquele corvo!

O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!

As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha pra o ar,

João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.

À nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
1 082
Helmut Heissenbüttel

Helmut Heissenbüttel

Minha história bíblica começa com o cheiro do campo

minha história bíblica começa com o cheiro do campo
.......em agosto
meu paleolítico chega apenas até minha própria infância
prosódia dos vagões ferroviários
do correr descontínuo do tempo
ontem foi há três semanas
cachos de dias penduram-se fora no passado
meu desassossego é a vista das águas que são
.......partidas pelos remos das canoas
meu desassossego é o barulho dos dados
.......que rolam sobre a tábua da mesa
Ângulos dobram-se tortos sobre minha cara
696
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Neblina no lago de Como

Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.

Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.

A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.

Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.

Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.

Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 214
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Nenhum como aqueles

Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.

Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra

e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.

Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.

Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 258
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

THE BELLS

Ring, bells, ring - ring out clear!
Perhaps by the vague sentiment that you raise -
I know not why - you remind me of my infancy.
        Ring, bells, ring! Your soul is a tear.
        What does it matter? My childhood's glee -
        You cannot call it back to me.

Ring, bells, ring out your song!
You remind me of some happiness
(Perhaps one that I never felt),
Of what has been, of what lasts not long,
Of what was not but seems now a bliss.
Something of sorrow, something of despair
        Is in me by your melody.
Sing, sing of the past which was fair -
        You cannot call it back to me.

        Though you sing but your set melody,
        Yet ring out wildly, wildly, bells!
Ring out the song that tears out the heart,
        Speaking of what I know not, sing
        To and fro till the soul's deep smart
Calms itself by too much, too deep in the heart.

        In the wordless speech of your own
        Ring out, wild bells, ring out!
        Ye have something of souls left alone;
Ye give me a sorrow, a deep ache of doubt,
        Ununderstood sentiment sad...
Do you sing of my childhood that thus you should moan?
        Then I was unconscious; now I am mad.

Ring out bells! Your sadness that stings
        Has a sob as an inner sound.
        I have in me colossal things.
Ring on! in your music I am drowned.
All in the world has a limit and bound.
        Ring on, desperate and free!
Can ye not of skies and of wings
        Speak loud to my misery?
Speak an ye will; except sorrow and pain
        Ye bring not anything to me.

        Ring out, wild bells, clearly, deep!
Whatever the pain ye sing of may be -
What does it matter? Life, death are one sleep
        Full of dreams of agony.
        All is unreal and we blind.
Ring out your song! I desire to weep
        For all that my life might be.
All that you call or recall to my mind
You cannot bring nor bring back to me.
1 427
Jose Luis Appleyard

Jose Luis Appleyard

O tempo

Já é ontem porém então era sempre
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.

853
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MOMENTS - II

II

Baby came into the world.
In a basket full of flowers
Which a fairy brought, an angel
From the paradisal bowers.
759
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [c]

SAUDAÇÃO

A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.

O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)

Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)

A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 098
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

PASSAGEM DAS HORAS [d]

PASSAGEM DAS HORAS

Passo adiante, nada me toca; sou estrangeiro.
As mulheres que chegam às portas depressa
Viram apenas que eu passei.
Estou sempre do lado de lá da esquina dos que me querem ver,
Inatingível a metais e encrustamentos.

Ó tarde, que reminiscências!
Ontem ainda, criança que se debruçava no poço,
Eu via com alegria meu rosto na água longínqua.
Hoje, homem, vejo meu rosto na água funda do mundo.
Mas se rio é só porque fui outro eu
A criança que viu com alegria seu rosto no fundo do poço.

Sinto-os a todos substância da minha pele. Toco no meu braço e eles estão ali.
Os mortos — eles nunca me deixam!
Nem as pessoas mortas, nem os lugares passados, nem os dias.
E às vezes entre o ruído das máquinas da fábrica
Toca-me levemente uma saudade no braço
E eu viro-me... e eis no quintal da minha casa antiga
A criança que fui ignorando ao sol que eu haveria de ser.

        Ah, sê materna!
        Ah, sê melíflua e taciturna
        Ó noite aonde me esqueço de mim
        Lembrando...
1 752
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Minha Irmã

Depois que a dor, depois que a desventura
Caiu sobre o meu peito angustiado,
Sempre te vi, solícita, a meu lado,
Cheia de amor e cheia de ternura.

É que em teu coração ainda perdura,
Entre doces lembranças conservado,
Aquele afeto simples e sagrado
De nossa infância, ó meiga criatura.

Por isso aqui minh'alma te abençoa:
Tu foste a voz compadecida e boa
Que no meu desalento me susteve.

Por isso eu te amo, e, na miséria minha,
Suplico aos céus que a mão de Deus te leve
E te faça feliz, minha irmãzinha...

Clavadel, 1913
1 283
Mercedez Vasconcellos

Mercedez Vasconcellos

Para o Poeta José Luís Conti

Recolhendo tristezas sem lágrimas, o poeta
percorre distâncias imaginárias e silenciosas
de caminhos que ainda brilham.
Encontra vida nos jardins da existência e se
deixa encantar no encanto das melhores e
saudosas lembranças.
No cheiro do café e do pão quentinhos, existe
parte de uma criança sedenta e feliz, sem
tristezas e grandes saudades, mesmo porque, as
marcas do tempo não chegaram.

881
Moreira Campos

Moreira Campos

Chuva

São as primeiras águas de janeiro.
Banham-se as folhas,
sobe do chão o cheiro de terra molhada,
que me penetra
e repentinamente me transporta.

Há pedaços de infância nesta chuva.
Tento reconstituir o retábulo de azulejo,
traço com traço.
Um azulejo antigo,
de ingenuidade colonial.

O banho sob o jacaré na calçada?
O mergulho no Poço das Pedras?
A fria fuligem vinda da telha-vã
e que caiu na minha rede?
A oração que minha mãe me ensinou
e que o homem esqueceu?

A voz rolada do trovão que amedronta,
porque vinda das origens?
O relâmpago que iluminou o guarda-roupa?
(Minha mãe cobria todos os espelhos).
A manhã que amanheceu lavada como a minha infância,
com asas de insetos na calcada?

Tento viajar no tempo,
reconstituir os desenhos do retábulo.
Inútil.
Só o imponderável.
E esta chuva,
que chora em gotas na vidraça,
como eu me choro.

1 588
Marina Colasanti

Marina Colasanti

PORQUINHOS-DA-INDIA

O porquinho-da-india
foi a primeira namorada
do poeta

No Equador
as indias octavaleñas
criam porquinhos-da-india
na cozinha
para tê-los mais perto
da panela.
1 081
Torquato Neto

Torquato Neto

A Rua

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão

ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
1 951
Manuel Sérgio

Manuel Sérgio

Com Dedos de Luar

Com dedos de luar duas crianças
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada

Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório

Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval

881
Murillo Mendes

Murillo Mendes

O Filho do Século

Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.

1 263
Torquato Neto

Torquato Neto

Deus vos Salve a Casa Santa

um bom menino perdeu-se um dia
entre a cozinha e o corredor
o pai deu ordem a toda família
que o procurasse e ninguém achou
a mãe deu ordem a toda polícia
que o perseguisse e ninguém achou

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz

no apartamento vizinho ao meu
que fica em frente ao elevador
mora uma gente que não se entende
que não entende o que se passou
maria amélia, filha da casa,
passou da idade e não se casou

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz

um trem de ferro sobre o colchão
a porta aberta pra escuridão
a luz mortiça ilumina a mesa
e a brasa acesa queima o porão
os pais conversam na sala e a moça
olha em silêncio pro seu irmão

ó deus vos salve esta casa santa
onde a gente janta com nossos pais
ó deus vos salve essa mesa farta
feijão verdura ternura e paz


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Caetano Velos
1 659
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Àquele tempo a musa pícara

Àquele tempo a musa pícara
ensaiava os tanguinhos brasileiros de Ernesto Nazareth
e oh! que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida
ia colher as pitangas
trepava a tirar as mangas
à sombra das bananeiras
debaixo dos laranjais
livre filho das montanhas
eu ia bem satisfeito
de camisa aberta ao peito
pés descalços, braços nus
correndo pelas campinas
à volta das cachoeiras
atrás das asas ligeiras
das borboletas azuis
e surgia ao salto de um peixe de prata na cachoeira
a garganta respondia ao trom das águas
e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa
aos cangapés e deles súbito
o fauno de sete anos relinchava no barranco
erguendo a saia
da menina aguadeira.

Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio, era botadeira de água
e meu primo Francisco aguardava, dia a dia, seus treze anos chegarem
e um braço na cintura e outro na cabeça onde se erguia a cabaça de água limpa
anunciavam seus dois seios e sobre
suas ancas baiadeiras
já Tereza ensinava
o caminho da Grécia e a rua do alto
onde a grande pedra terminava junto à casa de Antônio Pinho e Olívia
na graça de um cabrito Imóvel ao crepúsculo.

Estrela do mar sobre o lago do ventre
estrela de pelos
pentágono pentélicon pentelhos
pentâmetro
pentateuco do amor!

Tereza, filha de Damiana, puta da beira do rio anunciara
o pentâmetro de ouro da canção
ninho da estrela
e o bulício do pássaro da estrela
preparava a lua e o mel
de tua noite.

De longe venho para a possessão
e da lua e do mel e da noite

Tão minha como as terras, as cabras, as novilhas,
os patacões de prata e os rifles de papo-amarelo e os engenhos
de cana e as raparigas essas terras são minhas
e a mais das escrituras de meu avô Major ou de Manuel Mourão
nos cartórios de Tamboril e Ipueiras
sobre elas hei lavrado a escritura de meu canto.

Doação de minha avó, Dona Ana Feitosa:
"Trezentas braças de terra de comprido e outras trezentas braças de largo,
de uma só banda do rio Acaracu, da parte do sul, onde ela, doadora,
tem sua casa de vivenda, com quarenta vacas situadas neste mesmo logar,
ao Senhor Santo Anastácio, para patrimônio de uma capela que se pretende
erigir neste mencionado logar do Tamboril e nela colocar dito santo".

O Capitão encomendara em Pernambuco uma imagem da Senhora Santana,
que seria a padroeira, e os comerciantes do Recife, por engano, mandaram
Santo Anastácio.

De qualquer forma, o chão de Deus foi tirado de minhas braças de terra
e Santo Anastácio, padroeiro por engano,
tem seu logar ao lado de São Gonçalo dos Mourões,
que essas terras são minhas, desde as dezoito léguas de serra na Serra dos Cocos,
de São Gonçalo dos Mourões, até os limites da Serra Azul e o sertão de Bruxaxá,
Borborema, Paraíba,
onde os vaqueiros encourados furam grotas
testemunha José Joffily
no rastro do boi ensebado
e ainda ali assentamos os currais reiúnos e os engenhos de rapadura e cachaça

até o grande sertão que se abre depois da Canabrava dos Mourões,
ao pé da serra dos Mourões do pé-da-serra e se estende pelo Crateús,
Piauí a oeste, e se dilata do antigo cortume de Nova-Russas dos Mourões,
que ali tinham mulheres ruças e éguas ruças, e vai para o sertão do Tamboril
e atravessa os Inhamuns, onde dorme meu pai e chega ao Tauá e à Mombaça
onde os Feitosa somos senhores do Cococi e de outras terras e onde era a minha avó
do país dos Calabaças.

Nesta estrada que o senhor está vendo, onde não há um pé-de-pau
para se descomer atrás, o Major Galdino, seu avô, derrubou a rifle um caboclo
sem prestância. O Major beirava os oitenta, fez pontaria do alto de
rua burra de sela — uma burra baia — e creio que foi a última façanha dele,
das vinte e seis que se conhecem.

Enviávamos às nossas mulheres rosários de ouro e pulseiras
de ouro
e a orelha sangrenta do inimigo
dentro do porta-orelhas de ouro que hoje está entre as
jóias da prima Sinhá.

São minhas essas terras, as vacas, os mandiocais, as casas-de-farinha e os vaqueiros
e suas orelhas e suas fêmeas:
de trinta e duas delas teve filhos o Coronel José de Barros
Mello, chamado o Cascavel, meu tetravô
e os bastardos do General cobrem as terras que são minhas que hei lavrado
em meu canto e sobre elas vou lavrando a escritura de meu canto desde
as ribeiras do Acaracu, do Potí, do Jatobá, até o Parnaíba, o sertão de Oeiras,
Piauí onde o avô de meu avó foi Capitão-Mor, Governador da Província,
Vítor de Barros Galvão,
até o São Francisco onde canta o poeta do país das Gerais,
onde Penedo ergue seus templos de pedra e a flor de pedra
de seus templos de onde viemos

e onde a formosa filha de Alagoas banha o seio moreno:
naquele tempo
meu avô alagoano, o Coronel Martins Chaves,
deu duas léguas de terra a São Francisco e duas arrobas de ouro e prata
à filha núbil e dois bacamartes de coronha lavrada ao genro Carvalhedo
e sobre o voto a São Francisco e sobre
duas arrobas de ouro e prata e sobre
dois bacamartes de coronha lavrada
das Alagoas ao Ceará foi construída
a raça dos Mourões
in illo tempore.

Esta é a bengala de seu avô e esta de toledana
é de meu padrinho Padre Feitosa
e com ela, mais seu avô, mais o velho Alexandre Mourão,
mais oitocentos parentes e cabras das Ipueiras, mais quinhentos do Tamboril
invadimos Crateús para tirar da cadeia nosso primo, o Coronel Giló,
e defender os nossos primos Correia Lima, que estavam se acabando na
política de baixo
e os Correia Lima não podiam se acabar antes de Emília,
a mais bela de seus país.

Naquele tempo
a beleza das mulheres nos fez valentes
e Antônio raptou Maria Veras
e de Alexandre um dia sem esperar foi descoberto e
custou caro — conta ele — o belo amor
e do Piauí ao Maranhão a Pernambueo o sangue de Manuel, de Sinhôsinho,
do Cascavel foi derramado
por amor das mulheres
e por ela e por todas elas, por três, por duas e por uma delas aguardo
militarmente el tiempo
e sirvo o dia e a noite a coice darmas
con el florete de la aventura manchado de sangre no olvidada
e estou de partida e não me parto
e me muero porque no muero
e não quero morrer e sobrevivo

entre os que tombaram à esquerda e à direita
para comer a erva tenra em sua mão
e carregá-lo no lombo e à sombra do plátano
ensinar ao seu ventre a prenhez dos Mourões
ensinar ao seu ventre a prenhez e a dor e o sangue dos Mourões
e a alegria da ressurreição
a alegria dos rapazes e raparigas de Atenas.

1 180
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

O Capitão me olhou no fundo da rede

O Capitão me olhou no fundo da rede — contam —
foi ao cartório de Manuel Guilhermino e disse:
— "Compadre, registre meu neto na folha número um de seu livro,
mande comprar um livro novo,
vai ser o maior homem das Ipueiras
tenho cinco terças de prata e ele vai estudar na Europa".
Depois, veio a seca do dezenove e o Capitão, que se salvara no quinze,
mandando o gado para o Piauí
viu morrerem seus últimos garrotes, secarem suas últimas canas
noblesse oblige — a honra dos senhores — trabalho é coisa de escravos
a honra dos senhores e o futuro dos netos se guardava
testemunha Cynobelino
na barriga das novilhas e na garapa da cana caiana
e o Capitão, deitado em sua rede de varandas azuis e brancas
— rede do Acarati —
comeu com dignidade as cinco terças de prata e
o neto não foi estudar na Europa
e um dia à beira
da límpida cacimba à ribanceira de seu rio
perfumava o corpo trigueiro com as folhas do mofumbo à sombra
das oiticicas e pendiam sobre
sua boca primitiva
dois seios brancos entre axilas de ouro
dois olhos verdes em seus olhos mergulhados
e sua voz ariana murmurava:
"venho estudar no espanto de teus olhos
na pureza de tua fronte na dor
de tua face na alegria
de teu sexo ingênuo
e na Ásia e na África e na América
do fervor de teu sangue o sangue que te dei." E eram
talismã e tônico e retorno
à adolescência e à rosa de teu ventre.

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Marina Colasanti

Marina Colasanti

RÉDEAS NAS MÃOS

Nos corredores da minha infância
mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Postadas
na nascente e na foz
do negro rio que liga
copa e sala
empunham pelas pontas
branco linho
e puxam e sacodem
num estalar de vela em tempestade.
Como se domam éguas
a poder de pulso
assim domam-se as fibras.
Logo se aquieta o linho
doce o freio na boca
manso o dorso no escuro
e elas deitam um lado sobre o outro
em todo o comprimento.
Só então
duelantes
escolhendo as armas
as duas avançam
com medidos passos
erguem as mãos
e selam
branco a branco
as quatro pontas

Dobrado está o lençol
no seu silêncio.
Que amanhã
sobre a cama
se desdobra.
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