Poemas neste tema
Infância
Edmir Domingues
Canção dos exilados de infância
Exilados de uma terra
que Infância por nome tem
vivemos comendo espera
não sei de que nem de quem.
Murcham-se mastros e velas
morrem convites de além
e de Infância, ai, de Infância
nada a nós jamais nos vem.
Infância dorme na sombra
de um campo molhado e bom
na geografia das cores
nos cantos de leve som,
e é tão distante plantada
que a ela só se vai com
barcos de quilhas de fumo
velas de papel crepom.
País que todos procuram
sem nunca ninguém cansar
cansaço é desesperança
e é sempre bom se esperar,
vestem-se os homens de busca
e seguem rotas de mar
mas há que o mar nunca os leva
jamais a nenhum lugar.
Colecionando horizontes
nas terras mortas de Não
terras de Infância procuram
que nunca mais acharão,
a sombra azul da distância
se derrama pelo chão,
e de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.
Inspira os passos andados
por campo caminho e mar
inusitada evidência
que a ninguém se pode dar,
os que vivem de procura
não têm nada que encontrar
porque os homens sempre sentem
saudades de outro lugar.
Ai, que sempre nos maltratam
as lembranças que nos vêm
dos paraísos perdidos
das terras de mais além.
Se esses países residem
distantes de nós, porém,
somente o clima de Infância
nos poderá fazer bem.
Os povos que Infância buscam
nunca à Infância chegarão,
muda-se o rumo das coisas
nestes campos onde estão,
mas nada morre no entanto
do clima da turbação
porquanto o povo vencido
tem sempre a melhor canção.
Se nada morre no entanto
do clima da turbação,
se aquele povo vencido
tem sempre a melhor canção,
só nos resta esse horizonte
das terras mortas de Não
pois de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.
532
Edmir Domingues
Poema para a filha
Nasce a criança, e o mundo não merece
a dádiva da flor, o mundo amargo
onde as cores antigas se transformam
nessas cores de sombra, as mais escuras.
Mundo de aroma pouco (mas no entanto
de amargura bastante) nos exige
após as danças lubricas que dança
nossa cabeça em sangue, a vida nossa.
Nasce a criança. Nasce, e no princípio
o verbo e já sofrer se tem vagidos,
enquanto dor também se faz no ventre
da frutificação, na madre aberta.
(Dor que só sabe um dia paralelo
havendo o sacrifício prematuro
nas bocas dos fuzis e nas granadas
que em trabalho sem bênção se produzem).
E as bandeiras da infância, penduradas
nas cordas de secar, são sempre brancas,
como branca se pinta a pomba branca,
insígnia dessa paz que é carecida.
Infância que não volta, e que alimenta
toda a vida futura que lhe segue,
e se bem resumida inda é o bastante
para trazer-nos vivos muitos anos.
Seja pois para a filha a infância alegre
assim permitam deuses queiram ventos,
com pássaros trazendo a primavera,
rosas trazendo cores, borboletas.
Para que ame esta vida como a vida
precisa ser amada, ainda que triste,
se há beleza nos campos, nas marinhas,
na imensa paz dos bois que estão pastando.
E se lhe for a infância assim tranquila
como deseja o pai que se lhe seja,
mister se faz que aceite o ensinamento
do pobre pai que, cedo, dá conselho.
Não volte nunca, adulta, à terra antiga
onde viveu na infância as horas doces,
que o tempo faz pequeno o que foi grande,
reduz a nada aquilo que foi tudo,
amesquinha a paisagem, fere e mata
a esperança de glória acalentada,
que se desfaz, fumaça sem sonância
ante os muros de pedra da evidência.
Não volte e viva. E viva amando a vida
apesar das traições que a vida encerra
pensando um mundo grande como aquele
que as paisagens da infância nos ofertam.
a dádiva da flor, o mundo amargo
onde as cores antigas se transformam
nessas cores de sombra, as mais escuras.
Mundo de aroma pouco (mas no entanto
de amargura bastante) nos exige
após as danças lubricas que dança
nossa cabeça em sangue, a vida nossa.
Nasce a criança. Nasce, e no princípio
o verbo e já sofrer se tem vagidos,
enquanto dor também se faz no ventre
da frutificação, na madre aberta.
(Dor que só sabe um dia paralelo
havendo o sacrifício prematuro
nas bocas dos fuzis e nas granadas
que em trabalho sem bênção se produzem).
E as bandeiras da infância, penduradas
nas cordas de secar, são sempre brancas,
como branca se pinta a pomba branca,
insígnia dessa paz que é carecida.
Infância que não volta, e que alimenta
toda a vida futura que lhe segue,
e se bem resumida inda é o bastante
para trazer-nos vivos muitos anos.
Seja pois para a filha a infância alegre
assim permitam deuses queiram ventos,
com pássaros trazendo a primavera,
rosas trazendo cores, borboletas.
Para que ame esta vida como a vida
precisa ser amada, ainda que triste,
se há beleza nos campos, nas marinhas,
na imensa paz dos bois que estão pastando.
E se lhe for a infância assim tranquila
como deseja o pai que se lhe seja,
mister se faz que aceite o ensinamento
do pobre pai que, cedo, dá conselho.
Não volte nunca, adulta, à terra antiga
onde viveu na infância as horas doces,
que o tempo faz pequeno o que foi grande,
reduz a nada aquilo que foi tudo,
amesquinha a paisagem, fere e mata
a esperança de glória acalentada,
que se desfaz, fumaça sem sonância
ante os muros de pedra da evidência.
Não volte e viva. E viva amando a vida
apesar das traições que a vida encerra
pensando um mundo grande como aquele
que as paisagens da infância nos ofertam.
590
Edmir Domingues
Que criança é esta?...
Que criança é esta criança
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?
Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?
Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.
Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.
Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.
Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
1 023
Sophia de Mello Breyner Andresen
Estações do Ano
Primeiro vem Janeiro
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas
A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga
O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente
Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas
A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga
O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente
Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada
2 046
Edmir Domingues
Fala às flores e aos ventos
Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
680
Edmir Domingues
Um causo no céu
Um dia destes dias
o manso Padre Eterno
chamou São Pedro e disse:
“Eis façamos um censo
a ver quantos são hoje
os anjinhos do céu”.
Contaram-se os anjinhos
e logo foi notado
que havia muitos deles
negrinhos ou morenos
quando no último censo
quase os anjinhos todos
tinham pálidas jaces,
como restou provado
nas pinturas antigas.
Inquiriu-se o motivo
do causo acontecido
ficando constatado
que nos últimos tempos
crescera o contingente
de anjinhos africanos
hindus e brasileiros.
Vieram logo queixas
contra os ditos anjinhos
nunca porém movidas
por qualquer preconceito.
Mas é que os brasileiros,
incontáveis pelés,
(gastando a eternidade)
jogavam futebol
e quebravam vidraças
das janelas do céu.
Entanto qual a causa
dos anjinhos morenos?
De que morreram tantos
no tempo ultimamente?
Ah! Morreram de fome
dessa doença terrível
que não tem causa orgânica
mas tem causa social.
E o manso Padre Eterno
tomado de ira justa
deu ordens a São Pedro
(as ordens mais severas)
para que os governantes
dos países da fome,
e dos outros países,
industriais da fome,
(não só executivos
como parlamentares),
fossem presto jogados
nas caldeiras do inferno.
o manso Padre Eterno
chamou São Pedro e disse:
“Eis façamos um censo
a ver quantos são hoje
os anjinhos do céu”.
Contaram-se os anjinhos
e logo foi notado
que havia muitos deles
negrinhos ou morenos
quando no último censo
quase os anjinhos todos
tinham pálidas jaces,
como restou provado
nas pinturas antigas.
Inquiriu-se o motivo
do causo acontecido
ficando constatado
que nos últimos tempos
crescera o contingente
de anjinhos africanos
hindus e brasileiros.
Vieram logo queixas
contra os ditos anjinhos
nunca porém movidas
por qualquer preconceito.
Mas é que os brasileiros,
incontáveis pelés,
(gastando a eternidade)
jogavam futebol
e quebravam vidraças
das janelas do céu.
Entanto qual a causa
dos anjinhos morenos?
De que morreram tantos
no tempo ultimamente?
Ah! Morreram de fome
dessa doença terrível
que não tem causa orgânica
mas tem causa social.
E o manso Padre Eterno
tomado de ira justa
deu ordens a São Pedro
(as ordens mais severas)
para que os governantes
dos países da fome,
e dos outros países,
industriais da fome,
(não só executivos
como parlamentares),
fossem presto jogados
nas caldeiras do inferno.
205
Charles Bukowski
Resposta a Um Bilhete Encontrado Na Caixa de Correio
“o amor é como um sino
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
me diga, você já
o escutou na voz dela?”
o amor não é como um sino
isso é poético, verdade,
mas escutei algo na voz dela
que no vômito do meu tormento
que na caveira pousada na janela
arreganhando os dentes amarelos quebrados
me alçou a um clima que raras vezes
conheci –
“aqui, uma flor. eu trago flor.”
escuto algo na voz dela
que nada tem a ver com suados e traiçoeiros
e sangrantes exércitos
que nada tem a ver com o chefe da fábrica com olhos
quebrados
não estou implicando com as suas palavras:
você tem o seu sino
eu tenho isso e talvez você tenha isso também:
“eu trago sapatos. sapato. sapato. aqui um
sapato!”
é mais do que aprender o que é um sapato
é mais do que aprender o que sou ou o que ela
é
é outra coisa
que talvez nós que vivemos há muito tempo já quase
esquecemos
que uma criança venha dos pântanos da minha dor
carregando flores, efetivamente carregando flores,
jesus, isso é quase demais
que me seja permitido ver com olhos e tocar e
rir,
essa besta informada em mim
faz careta no íntimo
mas logo constata que o esforço é grande demais para se esconder
atrás
e essa pequena criatura que me conhece tão bem
rasteja por tudo através e em cima de mim
Lázaro Lázaro
e não sinto vergonha
guerreiro espancado por horas e anos de
desperdício
o amor é como um sino
o amor é como uma montanha púrpura
o amor é como um copo de vinagre
o amor são todas as sepulturas
o amor é uma janela de trem
ela sabe o meu nome.
1 001
Carlos Drummond de Andrade
Portão
O portão fica bocejando, aberto
para os alunos retardatários.
Não há pressa em viver
nem nas ladeiras duras de subir,
quanto mais para estudar a insípida cartilha.
Mas, se o pai do menino é da oposição
à ilustríssima autoridade municipal,
prima da eminentíssima autoridade provincial,
prima por sua vez da sacratíssima
autoridade nacional,
ah, isso não: o vagabundo
ficará mofando lá fora
e leva no boletim uma galáxia de zeros.
A gente aprende muito no portão
fechado.
para os alunos retardatários.
Não há pressa em viver
nem nas ladeiras duras de subir,
quanto mais para estudar a insípida cartilha.
Mas, se o pai do menino é da oposição
à ilustríssima autoridade municipal,
prima da eminentíssima autoridade provincial,
prima por sua vez da sacratíssima
autoridade nacional,
ah, isso não: o vagabundo
ficará mofando lá fora
e leva no boletim uma galáxia de zeros.
A gente aprende muito no portão
fechado.
2 322
Charles Bukowski
O Primeiro Amor
certa vez
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
quanto eu tinha 14 anos
os criadores me trouxeram
meu único sentimento de
chance.
meu pai não gostava
de livros e
minha mãe não gostava
de livros (porque meu pai
não gostava de livros)
sobretudo aqueles que eu trazia
da biblioteca:
D.H. Lawrence
Dostoiévski
Turguêniev
Górki
A. Huxley
Sinclair Lewis
outros.
eu tinha meu próprio quarto
mas às 8 da noite
devíamos estar todos indo dormir:
“Cedo na cama e cedo desperto:
o homem fica saudável, rico e esperto”,
meu pai costumava dizer.
“LUZES DESLIGADAS!”, ele gritava.
então eu pegava o abajur de cabeceira
colocava embaixo das cobertas
e com o calor e a luz escondida
eu continuava lendo:
Ibsen
Shakespeare
Tchékhov
Jeffers
Thurber
Conrad Aiken
outros.
eles me trouxeram chance e esperança e
sentimento num lugar sem chance,
sem esperança, sem sentimento.
eu trabalhei duro.
ficava quente embaixo das cobertas.
às vezes o abajur começava a soltar fumaça
ou os lençóis – começavam a
pegar fogo;
aí eu desligava o abajur,
segurava fora da janela para
esfriar.
sem esses livros
não tenho bem certeza
no que teria dado a minha
vida:
desvario; o
assassinato do pai;
idiotismo; imbecilidade;
insípida desesperança.
quando meu pai gritava
“LUZES DESLIGADAS!”
tenho certeza de que ele temia
a palavra bem escrita
que aparecia com suavidade
e razoabilidade
em nossa melhor e
mais interessante
literatura.
e foi ali
perto de mim
embaixo das cobertas
mais mulher do que mulher
mais homem do que homem.
eu tinha tudo
e
não deixei escapar.
760
Edmir Domingues
O Último poema
Tenho estado tão cansado
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
quero dormir para sempre.
Caminhos muitos andei
os pés feridos nas pedras.
Mas havia as cores vivas
das flores nas pradarias,
havia o canto dos pássaros
entre as folhas do arvoredo
havia o doce perfume
das rosas, pelos caminhos.
Mas agora estou cansado.
Os pés sem forças antigas,
os olhos já muito gastos
não vêem as cores de outrora,
os ouvidos insensíveis
da velhice contundente
não ouvem cantos de pássaros,
os sentidos corroídos
já não sentem, como dantes,
o perfume das roseiras.
Tanta vez estive à morte
e tanta vez desmorri.
Mas quero dormir agora.
O mundo não mudou nada,
o mundo eterno e contínuo,
mas eu mudei, não encontro
o menino do Passado.
Moriturus te salutat.
Se eu amo o sono das noites
por que, então, não amaria
o Grande Sono da Morte?
1987.
762
Carlos Drummond de Andrade
A Rua Em Mim
Rua do Areão, e vou submergindo
na pirâmide fofa ardente, areia
cobrindo olhos dedos pensamento e tudo.
Rua dos Monjolos, e me desfaço milho
pilado lancinante em água.
Rua do Cascalho, arrastam meus despojos
feridos sempremente. Rua Major Laje,
salvai, parente velho, este menino
desintegrado.
Rua do Matadouro, eu vi que sem remédio.
Rua Marginal, é sempre ao lado ao longe o amor.
Ao longe e sem passagem na Ladeira Estreita.
Rua Tiradentes, aprende e cala a boca.
Travessa da Fonte do Caixão, e tudo acaba?
Rua da Piedade, Rua da Esperança,
Rua da Água Santa, e ao úmido milagre
me purifico, e vida.
na pirâmide fofa ardente, areia
cobrindo olhos dedos pensamento e tudo.
Rua dos Monjolos, e me desfaço milho
pilado lancinante em água.
Rua do Cascalho, arrastam meus despojos
feridos sempremente. Rua Major Laje,
salvai, parente velho, este menino
desintegrado.
Rua do Matadouro, eu vi que sem remédio.
Rua Marginal, é sempre ao lado ao longe o amor.
Ao longe e sem passagem na Ladeira Estreita.
Rua Tiradentes, aprende e cala a boca.
Travessa da Fonte do Caixão, e tudo acaba?
Rua da Piedade, Rua da Esperança,
Rua da Água Santa, e ao úmido milagre
me purifico, e vida.
1 258
Fernando Pessoa
Em tempos quis o mundo inteiro.
Em tempos quis o mundo inteiro.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
Era criança e havia amar.
Hoje sou lúcido e estrangeiro.
(Acabarei por não pensar.)
A quem o mundo não bastava,
(Porque depois não bastaria)
E a alma era um céu, e havia lava
Dos vulcões do que eu não sabia,
Basta hoje o dia não ser feio,
Haver brisa que em sombras flui,
Nem se perder de todo o enleio
De ter sido quem nunca fui.
1 409
Fernando Pessoa
Como uma criança, antes de a ensinarem a ser grande,
Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.
1 379
Fernando Pessoa
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda.
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
1 626
Carlos Drummond de Andrade
Coisas de Maio
Era um límpido azul, vero azul-gaio,
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?
Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…
O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.
Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?
Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…
O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.
Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
1 264
Mário-Henrique Leiria
Viver com a crueldade
Viver com a crueldade
Da criança que
Tira os olhos ao pássaro
Um desconhecido movendo-se
constantemente
No deserto
Em que cada pegada deixa
Bem marcada na areia
A imagem dessa
Outra existência em que a morte e a
Memória
Ainda nada significam
Mais alto
Muito mais alto talvez
Que a claridade
Do voo das aves que
Partem para o desconhecido
O próprio corpo nada mais é
Do que a sombra
Bem simples por sinal
Dos braços que nos rodeiam
Por erro nosso ou dos outros
Já não existe
A persistência do que
Foi perdido
E as mãos que sentimos
Bem presas seguras aptas
Essas
Todos sabemos
Que podem ainda cada vez mais
Esmagar com cuidado com extremo
cuidado
Dilacerar suavemente
Nos olhos está o amor
Da criança que
Tira os olhos ao pássaro
Um desconhecido movendo-se
constantemente
No deserto
Em que cada pegada deixa
Bem marcada na areia
A imagem dessa
Outra existência em que a morte e a
Memória
Ainda nada significam
Mais alto
Muito mais alto talvez
Que a claridade
Do voo das aves que
Partem para o desconhecido
O próprio corpo nada mais é
Do que a sombra
Bem simples por sinal
Dos braços que nos rodeiam
Por erro nosso ou dos outros
Já não existe
A persistência do que
Foi perdido
E as mãos que sentimos
Bem presas seguras aptas
Essas
Todos sabemos
Que podem ainda cada vez mais
Esmagar com cuidado com extremo
cuidado
Dilacerar suavemente
Nos olhos está o amor
595
Luís Miguel Nava
Borrasca
Estalara-lhe de tal forma o eu que o próprio nome era uma ferida, através da qual a carne supurava. Das perdidas manhãs de sol da sua infância, de que lhe restavam agora escassos farrapos presos às raízes, libertava-se por vezes um clarão, desesperado apelo em direcção à realidade, rasgando-o dos olhos aos ouvidos.
Quem quer que lhe tivesse concebido os ossos, era então visível o objectivo de os fazer florir. Deles brotaria a pele, o céu, a encenação da glória. Tudo isso mais não eram, entretanto, do que imagens em apuros, imagens atacadas por memórias em conflito com o presente, ou mesmo com o passado onde pareciam radicar, e que, esbeiçando-se nos bordos, davam lugar a que o esquecimento sobre elas actuasse como uma espécie de ácido sulfúrico.
De cada vez que o invadia, a enxurrada da memória ascendia-lhe assim a um tal nível da consciência que os seus próprios ossos, deixando de ser pontos fixos e estáveis aos quais ele se pudesse segurar, vinham, desmantelados, boiar à superfície das águas borrascosas, de mistura com entranhas donde só a alma parecia não se ter desalojado ainda, como que as inflando e conservando à tona entre a gordura e o tumulto das lembranças.
1 218
Antônio Olinto
VI
Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
686
José Saramago
Retrato do Poeta Quando Jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Onde brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Onde brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
1 381
Antônio Olinto
Infância
Num retrospecto
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.
587
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
As alegrias no Maracanã
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
1 028
Fernando Pessoa
Ó minha menina loura,
Ó minha menina loura,
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
Ó minha loura menina,
Dize a quem te vê agora
Que já foste pequenina...
1 581
Carlos Drummond de Andrade
Reportagem Matinal
Subo a Santa Teresa
para ouvir o sino
que na praia não se faz escutar.
(O rumor das ondas o abafa
ou só se escuta no seio do mar?)
Vai comigo o Poeta
relatando a paisagem
de muros intatos.
(Mais depressa morrem os homens
do que as casas de Paula Matos.)
— Neste convento minha prima
vive. Em total recolhimento.
A manhã, nos altos pagos,
tem a claridade primeira.
Velhas coisas se inauguram
continuamente, na luz, novas.
Conhecer-se tão mal o Rio.
Conhecer-se tão pouco o ar.
Conhecer-se nada de tudo.
Eis que ouço a batida nítida
no azul rasgado ao meio
perto
longe
no tempo
em mim.
Quando a palavra já não vale
e os encantamentos se perderam,
resta um sino.
Quando não este, o antigo sineiro
desce o roído degrau da torre
para nunca mais tocar,
resta, pensativo, no adro verde,
o menino escutando o sino.
12/04/1963
para ouvir o sino
que na praia não se faz escutar.
(O rumor das ondas o abafa
ou só se escuta no seio do mar?)
Vai comigo o Poeta
relatando a paisagem
de muros intatos.
(Mais depressa morrem os homens
do que as casas de Paula Matos.)
— Neste convento minha prima
vive. Em total recolhimento.
A manhã, nos altos pagos,
tem a claridade primeira.
Velhas coisas se inauguram
continuamente, na luz, novas.
Conhecer-se tão mal o Rio.
Conhecer-se tão pouco o ar.
Conhecer-se nada de tudo.
Eis que ouço a batida nítida
no azul rasgado ao meio
perto
longe
no tempo
em mim.
Quando a palavra já não vale
e os encantamentos se perderam,
resta um sino.
Quando não este, o antigo sineiro
desce o roído degrau da torre
para nunca mais tocar,
resta, pensativo, no adro verde,
o menino escutando o sino.
12/04/1963
1 139
Nuno Júdice
Lição
É no verão que se aprende a poesia,
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 23 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 23 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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