Poemas neste tema

Infância

Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

Angico

Fogão de lenha, carvão de angico.
Bastava abanar e logo saía um café quente
Servido em bule de ágata, em chícara de ágata.

O cigarro era forte, o pigarro também.

Minha meninice na casa do meu avô
Durou uma eternidade.

Naquele tempo eu não tomava café,
Não fumava e não tinha pigarro.
Não sabia sequer que mulher
Rimava com sofrer. Rima?
Mulher rima com quê?

Mas já então eu pressentia:
Naquelas menininhas que me compulsavam
Ao Jogo do Anel havia algo diferente.
Eu era muito pequeno mas já sentia
Que aquelas mãozinhas quentes e fugidias
Tinham um toque muito diferente.

E se uma delas, ela, demorava um pouquinho mais
Suas mãos entre as minhas e me passava o anel,
Para mim era o sinal certo de que entre nós havia
Aquilo que um dia chamar-se-ia
Uma grande paixão.

Porém se nada disso sucedia,
Naquela noite eu acho que ia dormir triste,
Como hoje.

Depois, a mulher deixou de ser inatingível
Para ser apenas inalcançável.

E eu vim a conhecer a mulher
E a saber que nesses seres movediços,
Sedosos, sediços,
Havia um sumidouro.

Afinal, há rima para mulher?
Para homem tem. Serve lobisomem?

1 070
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Notícias

As crianças morrem

Em piscinas
lagoas
no centro da cidade

o corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas

As crianças
elas também nos abandonam

783
Adélia Prado

Adélia Prado

Janela

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em
[você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.
1 497
Martha Medeiros

Martha Medeiros

O contrário do Amor

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.
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Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Noite

O menino viu
sair da boca

da mulher, talvez
sua mãe, uma voz

estrídula e lábil, que
logo desandou,

em cadência
de sonho, a quê?

– A enumerar desas-
tres já ocorridos

e por ocorrer,
a fecundar

harpias, a frisar
as marcas

da passagem
da pantera pelo quarto,

a aturdir relógios,
a enegrecer o sol

e outras mais
de tais proezas.
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Antônio Carlos Secchin

Antônio Carlos Secchin

Nos passos do poeta-viajante, João Cabral de Mello Neto

O jornalista José Castello procura no longo itinerário
percorrido por João Cabral de Melo Neto durante 40
anos a chave para compreender as emoções do homem
arredio e a sua obra, feita de concisão e racionalidade.

( João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma José Castello Rocco, 184 páginas R$ 17,50)
A vida de João Cabral é um livro fechado, e que a custo se deixa entreabrir. Vista de fora - o ângulo preferido do poeta - apresenta tantos atrativos quanto a lista telefônica dos habitantes da Antuérpia. Visitá-la por dentro foi a dura tarefa que se impôs José Castello: extrair da pétrea resistência cabralina algum material propício à construção de uma biografia. É notória a aversão do poeta a tudo que se abeira do confessional. Sua obra deseja camuflar a presença do sujeito pela fixação ostensiva em realidades que lhe sejam fisicamente externas. Agrada-lhe deixar fluir a matéria a fim de ocultar-se em suas dobras e quinas - poesia de quem necessita clamar pelo visível para postar-se, invisível, à sua sombra.
Esse "homem sem alma" atraiu seu biógrafo pela miragem (frustrada, como qualquer miragem) de, afinal, esclarecer como foi possível extrair tanta poesia de um manancial de vida tão contido e distante. É sedutora a hipótese de Castello: não, não se trata de um homem sem alma. Seu esforço para sufocá-la demonstraria, pelo avesso, a existência de um mundo informe e subjetivo, cujo desesperado exorcismo a aparente frieza do verso procuraria efetuar. O biógrafo, numa argumentação persuasiva, não se furta à tentação do "psicanalisar" o biografado, chegando mesmo a falar em "cura" do poeta através da matéria concreta, uma vez que o imaterial seria a fonte de sua angústia. "O sintoma que o atormenta (...) é o medo do incontrolável", afirma à página 23. Após um prefácio em que expôs afetos e temores, Castello controla o ímpeto de privilegiar suas próprias oscilações e concede primazia à elaboração de uma espécie de biografia intelectual do poeta. Seu discurso deriva para um tom mais impessoal, reforçado pela estratgica utilização do presente como tempo narrativo. Assim, o relato reveste de certo distanciamento uma série de episódios já em si afastados do caráter espetacular que a expectativa do leitor, em geral, associa à vida dos grandes artistas.
O biografado ideal seria aquele que cedesse ao apelo implícito dos versos de Berceo, escolhidos por João Cabral para epígrafe de "O rio" (1954): "Quero que componhamos eu e tu uma prosa" - amistosa cumplicidade transformada em texto tramado a duas vozes. Provavelmente não terá sido essa a experiência de Castello na maioria dos 20 encontros que teve com Cabral entre março e dezembro de 1991. Diversos depoimentos concedidos à imprensa foram, no juízo do biógrafo, fontes tão fundamentais para a feitura do livro quanto as 30 horas de entrevista que colheu do poeta. José Castello desfaz, com bastante coragem e algum lamento, a imagem de que pudesse ter sido ungido à condição de interlocutor privilegiado, situando-se, antes, como atento ouvinte e leitor, inclusive de outros leitores cabralinos.
No longo prefácio, o autor se dedica a examinar o ambiente de penumbra e desânimo que cerca o poeta, e sua irreprimível vocação centrífuga, na tentativa de desalojar-se do incômodo de si mesmo e de tornar-se apenas um foco de pura percepção do outro, daquilo que lhe é exterior. O primeiro capítulo reconstitui a infância em Pernambuco, os anos de formação do poeta e sua vinda para o Rio de Janeiro. Já nesta quadra surgem nomes da literatura brasileira que ocuparão para sempre lugar privilegiado no círculo de relações de Cabral: Augusto Frederico Schmidt, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e, sobretudo, Vinícius de Moraes, a quem, por mais de uma vez, e por evidentes contrastes (de natureza pessoal e poética), Castello se refere como o "anti-Cabral" por excelência. O segundo capítulo relata a presença avassaladora da Espanha na vida e na obra do poeta, desde os primórdios da experiência em Barcelona a partir de 1947 até um retorno fugaz e algo desencantado em 1994.
Poeta voltou ao Brasil em 1986
João Cabral é definido por José Castello como um homem sob o signo da viagem permanente, "trânsfuga que jamais cessa de fugir", mesmo que a fuga conduza "sempre ao ponto de retorno, pois todo viajante é refém de sua origem"; por aí se pode explicar, em sua obra, a obsessiva analogia Pernambuco/Espanha. O capítulo 3 relata as demais experiências estrangeiras, eventualmente atreladas a reincidências hispânicas, além do retorno compulsório de João Cabral ao Brasil nos anos 50, afastado que fora do Itamaraty sob suspeição de envolvimento com o comunismo. O capítulo seguinte retoma a linha mais interpretativa e menos factual do prefácio, e o epílogo retrata as últimas incursões diplomáticas do poeta, bem como o seu regresso definitivo ao Rio, em 1986. Encerrado o périplo, constatamos que apenas dois lugares, praticamente, não conseguiram despertá-lo para a poesia: o Paraguai e o Rio de Janeiro.
O homem sem alma não traça a vida palpitante de um indivíduo, nem o amplo painel de uma geração. Anti-lírico, João Cabral se quer também antibiografável. Em diversas ocasiões revela desprezo ou antipatia pelo gênero, pelo risco de, nele, a vida sobrepor-se à obra. Paradoxalmente, Cabral nunca se esquivou de conceder entrevistas, que, de certa forma, acabaram por configurar-lhe um nítido perfil. Curiosa tensão entre eximir-se e exibir-se: o poeta expõe-se na prosa da entrevista, e se eclipsa na voz do verso. Como todo criador, Cabral revela o melhor de si naquilo que mais sutilmente resguarda. Na certeira observação do biógrafo, "a verdade, se existe, está na poesia. Jamais fora dela". Por isso, enfatizemos a seriedade e a importância do trabalho realizado por José Castello, mas sem esquecer de levar suas próprias palavras à última consequência: pela poesia, a vida de João Cabral é um livro aberto, e que muito dificilmente se deixará fechar.
Antonio Carlos Secchin é autor de João Cabral: a poesia do menos (Livraria Duas Cidades). Editou os Primeiros poemas de João Cabral (Faculdade de Letras da UFRJ) e organizou os Melhores poemas de João Cabral (Global)
Trechos
1 - Recife
A paisagem nordestina, desenhada em luz lancinante, dissolve rapidamente o luto. O Capibaribe, mesmo sujo, é majestoso. Ao longo de suas águas desfilam areeiros, vacarias, olarias, pescadores e catadores de caranguejos; personagens que povoam as primeiras lembranças de nosso viajante, como figuras pinceladas em uma tela virgem. A visão féerica da seca, que dará o tom de sua obra poética, ainda está distante. A natureza, aqui, é razoável. Comedida, mas generosa, ela abre os espaços de que o homem necessita para viver. A margem do rio está decorada por coqueiros, oitizeiros, mangueiras, sapotizeiros. A miséria fica exposta na fachada dos casebres instáveis e revestidos por lama negra. Há, entre eles, casarões coloniais erguidos com a arrogância de castelos e capelinhas onde a fé toma ares de confeito. E muitos quintais sombrios, armados para o rio e não para a rua, em que a exuberância da natureza se confunde com os dejetos da miséria.
2 Barcelona
Se não está manejando sua prensa, Cabral se concentra em uma só atividade: percorrer Barcelona com a ansiedade própria de um descobridor. O que deseja encontrar? Isso não importa, pois o poeta aceita o que a cidade tiver para lhe oferecer. Devora todos os livros que pode comprar sobre a Catalunha e se entrega a caminhadas de ida e volta pela calle Grandia e pelo paseo de Gracia, onde fica a Livraria Ler, que logo se torna sua favorita. Entre as prateleiras dessa livraria conhece uma figura-chave em sua primeira temporada espanhola: o poeta Joan Edoardo Cirlot é um poeta ligado ao surrealismo, autor de um importante dicionário de símbolos e muito chegado a André Breton, a quem sempre visita em Paris. Por meio dele, Cabral s
1 124
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

No Espelho

Vi as marcas do tempo em meu rosto.
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.

Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...

Salvador, 08 de janeiro de 1997

942
Sinésio Cabral

Sinésio Cabral

Remembranças

Domingo. Noite calma. Um piston em surdina
me traz evocações. Na varanda ensombrada,
eu mergulho no tempo, e o quadro me fascina:
perdidos na distância, uns longes de alvorada.

Em tomo à mesa, ali, conversas de rotina,
logo após o jantar. Bate-papo e mais nada.
E eu retorno à varanda, o olhar na chuva fina
e o pensamento longe, alma enfim deslumbrada.

Daqui deste edifício, entre instantâneos vários,
suponho ver no mar, e com os mesmos ardis,
nos veleiros de outrora, os antigos corsários.

Recordo, neste ensejo, ilhado em São Luís,
meus Pais, irmãos, Madrinha, a Escola, meus canários...
Taperoá, de antanho, em cenas infantis.

922
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Elegia Quase Uma Ode

Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem.

O verso que mergulha o fundo de minha alma
É simples e fatal, mas não traz carícia...
Lembra-me de ti, poesia criança, de ti
Que te suspendias para o poema como que para um seio no espaço.
Levavas em cada palavra a ânsia
De todo o sofrimento vivido.

Queria dizer coisas simples, bem simples
Que não ferissem teus ouvidos, minha mãe.
Queria falar em Deus, falar docemente em Deus
Para acalentar tua esperança, minha avó.
Queria tornar-me mendigo, ser miserável
Para participar de tua beleza, meu irmão.
Queria, meus amigos... queria, meus inimigos...
Queria...
queria tão exaltadamente, minha amiga!

Mas tu, Poesia
Tu desgraçadamente Poesia
Tu que me afogaste em desespero e me salvaste
E me afogaste de novo e de novo me salvaste e me trouxeste
À borda de abismos irreais em que me lançaste e que depois eram abismos
verdadeiros
Onde vivia a infância corrompida de vermes, a loucura prenhe do Espírito
Santo, e idéias em lágrimas, e castigos e redenções mumificados em sêmen
cru
Tu!
Iluminaste, jovem dançarina, a lâmpada mais triste da memória…

Pobre de mim, tornei-me em homem.
De repente, como a árvore pequena
Que à estação das águas bebe a seiva do húmus farto
Estira o caule e dorme para despertar adulta
Assim, poeta, voltaste para sempre.

No entanto, era mais belo o tempo em que sonhavas...

Que sonho é minha vida?
A ti direi que és tu, Maria Aparecida!
A vós, no pudor de falar ante a vossa grandeza
Direi que é esquecer todos os sonhos, meus amigos.
Ao mundo, que ama a lenda dos destinos
Direi que é o meu caminho de poeta.
A mim mesmo, hei de chamá-lo inocência, amor, alegria, sofrimento,
morte, serenidade
Hei de chamá-lo assim que sou fraco e mutável
E porque é preciso que eu não minta nunca para poder dormir.
Ah
Devesse eu jamais atender aos apelos do íntimo...

Teus braços longos, coruscantes; teus cabelos de oleosa cor; tuas mãos
musicalíssimas; teus pés que levam a dança prisioneira; teu corpo grave de
graça instantânea; o modo com que olhas o âmago da vida; a tua paz,
angústia paciente; o teu desejo irrevelado; o grande, o infinito inútil
poético! tudo isso seria um sonho a sonhar no teu seio que é tão pequeno...

Ó, quem me dera não sonhar mais nunca
Nada ter de tristezas nem saudades
Ser apenas Moraes sem ser Vinicius!
Ah, pudesse eu jamais, me levantando
Espiar a janela sem paisagem
O céu sem tempo e o tempo sem memória!
Que hei de fazer de mim que sofro tudo
Anjo e demônio, angústias e alegrias
Que peco contra mim e contra Deus!
Às vezes me parece que me olhando
Ele dirá, do seu celeste abrigo:
Fui cruel por demais com esse menino...
No entanto, que outro olhar de piedade
Curará neste mundo as minhas chagas?
Sou fraco e forte, venço a vida: breve
Perco tudo; breve, não posso mais...
Oh, natureza humana, que desgraça!
Se soubesses que força, que loucura
São todos os teus gestos de pureza
Contra uma carne tão alucinada!
Se soubesses o impulso que te impele
Nestas quatro paredes de minha alma
Nem sei o que seria deste pobre
Que te arrasta sem dar um só gemido!
É muito triste se sofrer tão moço
Sabendo que não há nenhum remédio
E se tendo que ver a cada instante
Que é assim mesmo, que mais tarde passa
Que sorrir é questão de paciência
E que a aventura é que governa a vida
Ó ideal misérrimo, te quero:
Sentir-me apenas homem e não poeta!

E escuto... Poeta! triste Poeta!
Não, foi certamente o vento da manhã nas araucárias
Foi o vento... sossega, meu coração; às vezes o vento parece falar...
E escuto... Poeta! pobre Poeta!
Acalma-te, tranqüilidade minha... é um passarinho, só pode ser um
passarinho
Eu nem me importo... e se não for um passarinho, há tantos lamentos nesta
terra...
E escuto... Poeta! sórdido Poeta!
Oh angústia! desta vez... não foi a voz da montanha? Não foi o eco distante
Da minha própria voz inocente?

Choro.
Choro atrozmente, como os homens choram.
As lágrimas correm milhões de léguas no meu rosto que o pranto faz
gigantesco.
Ó lágrimas, sois como borboletas dolorosas
V olitais dos meus olhos para os caminhos esquecidos…
Meu pai, minha mãe, socorrei-me!
Poetas, socorrei-me!
Penso que daqui a um minuto estarei sofrendo
Estarei puro, renovado, criança, fazendo desenhos perdidos no ar…
Venham me aconselhar, filósofos, pensadores
Venham me dizer o que é a vida, o que é o conhecimento, o que quer dizer a memória
Escritores russos, alemães, franceses, ingleses, noruegueses
Venham me dar idéias como antigamente, sentimentos como antigamente
Venham me fazer sentir sábio como antigamente!
Hoje me sinto despojado de tudo que não seja música
Poderia assoviar a idéia da morte, fazer uma sonata de toda a tristeza humana
Poderia apanhar todo o pensamento da vida e enforcá-lo na ponta de uma clave de Fá!
Minha Nossa Senhora, dai-me paciência
Meu Santo Antônio, dai-me muita paciência
Meu São Francisco de Assis, dai-me muitíssima paciência!
Se volto os olhos tenho vertigens
Sinto desejos estranhos de mulher grávida
Quero o pedaço de céu que vi há três anos, atrás de uma colina que só eu sei
Quero o perfume que senti não me lembro quando e que era entre sândalo e carne de seio.
Tanto passado me alucina
Tanta saudade me aniquila
Nas tardes, nas manhãs, nas noites da serra.
Meu Deus, que peito grande que eu tenho
Que braços fortes que eu tenho, que ventre esguio que eu tenho!
Para que um peito tão grande
Para que uns braços tão fortes
Para que um ventre tão esguio
Se todo meu ser sofre da solidão que tenho
Na necessidade que tenho de mil carícias constantes da amiga?
Por que eu caminhando
Eu pensando, eu me multiplicando, eu vivendo
Por que eu nos sentimentos alheios
E eu nos meus próprios sentimentos
Por que eu animal livre pastando nos campos
E príncipe tocando o meu alaúde entre as damas do senhor rei meu pai
Por que eu truão nas minhas tragédias
E Amadis de Gaula nas tragédias alheias?
Basta!
Basta, ou dai-me paciência!
Tenho tido muita delicadeza inútil
Tenho me sacrificado muito demais, um mundo de mulheres em excesso tem me vendido
Quero um pouso
Me sinto repelente, impeço os inocentes de me tocarem
Vivo entre as águas torvas da minha imaginação
Anjos, tangei sinos
O anacoreta quer a sua amada
Quer a sua amada vestida de noiva
Quer levá-la para a neblina do seu amor...
Mendelssohn, toca a tua marchinha inocente
Sorriam pajens, operárias curiosas
O poeta vai passar soberbo
Ao seu abraço uma criança fantástica derrama os óleos santos das últimas lágrimas
Ah, não me afogueis em flores, poemas meus, voltai aos livros
Não quero glórias, pompas, adeus!
Solness, voa para a montanha, meu amigo
Começa a construir uma torre bem alta, bem alta...
1 291
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Papai Noel Às Avessas

A Afonso Arinos (sobrinho)

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças.
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.

Fêz a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.
1 400
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Lamento Derradeiro

à meu Pai
Salvador. Tarde de 5 de janeiro.
Brinco, excercendo o ofício da minha infância.
Curta.
Meu pai, nessa hora, junto a mim morria. . .
sem um gemido, como que se fosse feito e prometido.

E eu nem lhe ouvi o lamento derradeiro.
Quando acordei, sonhei que ele dormia,
mas o pranto fraterno desmentia. . .

E saí para ver a Santa natureza.
Em tudo, o mesmo tom cinzento.
Capitalismo selvagem das capitais.
Era só o cinza daquela selva de pedras.
Nem uma nuvem no céu.
Branca.

Mas, pareceu-me entre as estrelas flóreas,
como ti, num carro repleto de glórias,
ver tua alma subindo aos céus.

Por ti, penar é a certeza do amor.
Por ti, suplicar aos pés do Onipotente,
em preces comoventes. . .
e depois, remir meus desejos.

Volta!

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Edmir Domingues

Edmir Domingues

A lenda do boi de ouro

Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.

0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas

Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.

O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.

0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.

Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.

0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
518
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Grande Homem, Pequeno Soldado

Grande homem, pequeno soldado,
vontade de matar nos olhos mansos,
o coração com sede de palavras.. .
Todos os brinquedos de minha filha:
soldado, capitão, ladrão.

Veste a farda e toca o tambor,
toca desesperadamente o clarim.
Atrás da cova está te espiando
meu avô, veterano do Paraguai.

A guerra terminou ontem
mas ainda há batalhas dentro do peito
que estão reclamando heróis.
Olha o guerreiro atrás do toco,
bravamente esmurrando o peito.

As crianças sobem no bigode
do sargento que sonha em pé,
vê uma medalha em cada estrela
e tem ímpetos de aeroplano.

Major, coronel, general,
que sou eu afinal na terra,
estou sempre me destruindo,
espada na cinta, ginete na mão.

Soldado sem experiência,
que lindo campo de papoulas
e você dançando sem dólman
nas pupilas de Chiquinha Gomes,
sem dólman, sem alma, simples
como um disco.

Ora viva seu comandante
com sua cara de barbante
e seu nariz de pedante
levando surras da amante
e gritando: Viva a República.

Mas sobre exércitos e frotas
a mão que distribui brinquedos
vai colorindo novas formas.
1 373
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Uma viagem de volta do país de Caruaru

Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.

Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.

Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.

Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.

Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.

Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.

Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.

Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
728
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Sextina de Aniversário

Bom dia, Manoel Bandeira!
Avozinho de cem anos
hoje é festa da Poesia.
Todos te damos bom dia
que é de todos esta festa
de natal, para o avozinho.

O pai, o mestre, o avozinho,
a imperecível bandeira
de toda esta grande festa.
É o jubileu de cem anos
que acontece neste dia.
Seja louvada a Poesia!

A tua grande poesia
desde a casa do avozinho
no Recife, o claro dia
da verde infância, bandeira
para o restante dos anos.
(Quase nunca anos de festa).

Mas tristeza é também festa
se transmutada em poesia.
(A poesia faz cem anos!).
Do pardal novo o avozinho
tu foste, Manoel Bandeira,
cada noite, cada dia.

Sapos da noite, do dia,
pelos peraus fazem festa.
Pássaros verdes-bandeira
e azulões, trazem poesia,
trinados para o avozinho
que hoje é o dia dos seus anos.

Viverias poucos anos
disseram-te, certo dia.
Pois bem, viraste o Avozinho.
(E a vida tornou-se festa
para os que são da poesia).
Viraste imortal, Bandeira!
746
Maria Helena Nery Garcez

Maria Helena Nery Garcez

Serão

Recitava Os Lusíadas de cor, a mãe,
com a ênfase do nunca dantes declamado.
Marchava descalço, o pai, arengando
o estribilho do serviço militar.
Entre o elevado e o humilde,
dividida,
a gente escutava;
sem saber a qual dos dois secundar.


In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
930
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Cântico

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde - são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o gira
O gira, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.
1 388
Paulo Bomfim

Paulo Bomfim

Redescoberta

Não há idade,
Apenas um rio voluptuoso,
Correndo para trás.
Em suas águas mornas
Ruas antigas deságuam
Com casas, rostos e melodias
Que, no retorno ao tempo,
Se redescobrem.
Nas margens do rio,
Um velho cinema exibe
Um filme sem atores.
As cadeiras estão vazias,
Somente a frisa vive,
Como, se medrosas mãos adolescentes,
Se encontrassem na treva,
Formando molduras douradas.
Na torrente que regressa
O pátio do colégio insula-se
Há frio e solidão
Na merenda infantil.
Além, uma bola bate nos vidros do dia,
E um trem regressa
Com cafezais florindo na fumaça.
Das águas que correm como sangue,
Surge uma casa, e um realejo toca,
E os retratos voltam a viver,
A falar como avós,
A ter os cabelos brancos despenteados
Pelo vento que sopra com mãos de brinquedo.
Depois,
Os lampiões vão-se acendendo
E, em calçadas bruxuleantes,
Os heróis regressam
Com rosas rubras no capacete
E lírios nascendo no caule dos fuzis.
E o rio caminha
Para trás;
Em seu leito
Bolas de vidro colorido
Rolam como seixos;
O menino tacteia-se na noite,
Sente a febre que molda o rosto,
E mergulha no tempo
Para sempre!


Publicado no livro Ramo de Rumos (1961).

In: BOMFIM, Raul. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962. p.152-15
1 520
Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade
623
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Marina

Lembras-te das pescarias
Nas pedras das Três-Marias
Lembras-te, Marina?

Na navalha dos mariscos
Teus pés corriam ariscos
Valente menina!

Crescia na beira-luz
O papo dos baiacus
Que pescávamos

E nas vagas matutinas
Chupávamos tangerinas
E vagávamos...

Tinhas uns peitinhos duros
E teus beicinhos escuros
Flauteavam valsas

Valsas ilhoas! vadio
Eu procurava, no frio
De tuas calças

E te adorava; sentia
Teu cheiro a peixe, bebia
Teu bafo de sal

E quantas vezes, precoce
Em vão, pela tua posse
Não me saí mal...

Deixavas-me dessa luta
Uma adstringência de fruta
De suor, de alga

Mas sempre te libertavas
Com doidas dentadas bravas
Menina fidalga!

Foste minha companheira
Foste minha derradeira
Única aventura?

Que nas outras criaturas
Não vi mais meninas puras
Menina pura.
1 256
Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

há uma criança profunda

há uma criança profunda e implacável sempre que as fibras do teu corpo de areia se desenrolam em nascentes sibilas e tristes. como a floresta em dias de bruma e em noites de colher pérolas índicas. tudo se abre e fecha como elemento supremo das marés. é a velocidade da vida. poderosa e absolutamente mínima. há uma criança veloz dentro dos teus olhos de monge. predominância do fogo.___________desmesura de naufrágios em cada partitura.
626
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Beira-Mar

Mitológica luz da beira-mar
A maré alta sete vezes cresce
Sete vezes decresce o seu inchar
E a métrica de um verso a determina
Crianças brincam nas ondas pequeninas
E com elas em brandíssimo espraiar
Em volutas e crinas brinca o mar
Outubro de 1997
1 418
Mário António

Mário António

Rua de Maianga

Rua da Maianga
que traz o nome de um qualquer missionário
mas para nos somente
a rua da Maianga

Rua da Maianga ás duas horas da tarde
lembrança das minhas idas para a escola
e depois para o liceu
Rua da Maianga dos meus surdos rancores
que sentiste os meus passos alterados
e os ardores da minha mocidade
e a ânsia dos meus choros desabalados!

Rua da Maiaga ás seis horas e meia
apito do comboio estremecendo os muros
Rua antiga de pedra incerta
que feriu meus pezitos de criança
e onde depois o alcatrão veio lembrar
velocidades aos carros
e foi luto na minha infãncia passada!

(Nene foi levado pró hospital
meus olhos encontraram Nene morto
meu companheiro de infância de olhos vivos
seu corpo morto numa pedra fria!)

Rua da Maianga a qualquer hora do dia
as mesmas caras nos muros
(As caras da minha infância
nos muros inacabados!)
as mocas nas janelas fingindo costurar
a velha gorda faladeira
e a pequena moeda na mão do menino
e a goiaba chamando dos cestos
á porta das casas!
(Tão parecido comigo esse menino!)

Rua da Maianga a qualquer hora
o liso alcatrão e as suas casas
as eternas mocas de muro
Rua da Maianga me lembrando
meu passado inutilmente belo
inutilmente cheio de saudade!
1 798
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

Cemitério da Infância

Semana da criança, 1953

No cemitério da Infância
Era manhã quando entrei,
Das plantas que vi florindo
De tantas me deslumbrei...
Era manhã reluzindo
Quando ao meu país cheguei,
Dos rostos que vi sorrindo
De poucos me lembrarei.

Vinha de largas distâncias
No meu cavalo veloz,
Pela noite, sobre a noite,
Na pesquisa de arrebóis;

E ouvia, sinistramente,
Longínqua, esquecida voz...
Galos cantavam, cantavam.
— Auroras de girassóis.

Por esses aléns de serras,
Pelas léguas de verão,
Quantos passos repetidos
Trilhados no mesmo chão;
Pelas margens das estradas:
Rosário, cruz, coração...
Mulheres rezando as lágrimas,
Passando as gotas na mão.

Aqui caíram as asas
Dos anjos. Rudes caminhos
Adornam covas pequenas
De urtiga branca e de espinhos;
Mais perto cheguei meus passos,
Mais e demais, de mansinho:
As almas do chão revoaram:
Um bando de passarinhos.

Oh! aflições pequeninas
Em corações de brinquedos;
Em sono se desfolharam
Tuas roseiras de medo...
Teus choros trazem relentos:
Ternuras de manhã cedo;
Oh! Cemitério da Infância
Abre a luz do teu segredo.

Carne, cinza, terra, adubo
Guardam mistérios mortais;
Meninos, depois adultos:
Os grandes canaviais...

— Crescem bagas nos arbustos,
Como riquezas reais,
Pasta o gado nas planuras
Dos vastos campos gerais.


Publicado no livro Signo estrelado (1960). Poema integrante da série Elegias.

In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.78-8
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