Poemas neste tema
Infância
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #2
quando éramos meninos
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
atirados pelo gramado
de barriga
no chão
falávamos com frequência
sobre
como
gostaríamos de
morrer
e
todos
concordávamos no
mesmo
ponto:
todos
gostaríamos de morrer
fodendo
(embora
nenhum de nós
já tivesse
fodido com
alguém)
e agora
que
não somos mais
nem um pouco
meninos
pensamos mais
sobre
como
não
morrer
e
embora
estejamos
prontos
quase todos
nós
preferiríamos
morrer
sozinhos
sob os
lençóis
agora
que
quase todos
nós
já fodemos
com as nossas
vidas.
1 328
Herberto Helder
Os Ritmos 3
Uma mulher está sentada junto à sua janela.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
1 038
Herberto Helder
Os Ritmos 5
Estou no fundo da casa, no abismo possível dos oito anos.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
1 048
Herberto Helder
7
Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
1 105
Herberto Helder
I I
Água sombria fechada num lugar luminoso, noite,
e depois tu,
criança orvalhada.
De que é feito o centro do nome diamante,
a pedra diamante com água rasando as bordas.
Nem a ressaca das searas poderosas.
Não sabes onde um cometa se despenha como
se um rio de quartzo por trás de tudo quebrado a meio do escuro,
deslumbrando por ali abaixo.
O teu espaço, clarão a página inteira.
De que é feito.
Criança devorada por toda a luz da terra.
E na suprema faixa cristalográfica onde é mais pesada a água
desabrocha a gárgula: caindo,
a água esmaga-te.
e depois tu,
criança orvalhada.
De que é feito o centro do nome diamante,
a pedra diamante com água rasando as bordas.
Nem a ressaca das searas poderosas.
Não sabes onde um cometa se despenha como
se um rio de quartzo por trás de tudo quebrado a meio do escuro,
deslumbrando por ali abaixo.
O teu espaço, clarão a página inteira.
De que é feito.
Criança devorada por toda a luz da terra.
E na suprema faixa cristalográfica onde é mais pesada a água
desabrocha a gárgula: caindo,
a água esmaga-te.
1 153
Herberto Helder
I K
Porque ela vai morrer.
Cai no sono a água fria, e ferve, no sono de cal a água
fria: ah, a brusca temperatura, a insensatez
das imagens.
O pêlo negro das mães escorrega na sua cara
de criança voltada.
Só ela tão longamente se voltaria
dormindo,
criança
que se desdobra. Dêem um nome à memória, uma
arrumação sonora que se escreva
e ofusque — um nome
para morrer.
Porque a criança atravessa tudo e já toca no centro de si própria.
Cai no sono a água fria, e ferve, no sono de cal a água
fria: ah, a brusca temperatura, a insensatez
das imagens.
O pêlo negro das mães escorrega na sua cara
de criança voltada.
Só ela tão longamente se voltaria
dormindo,
criança
que se desdobra. Dêem um nome à memória, uma
arrumação sonora que se escreva
e ofusque — um nome
para morrer.
Porque a criança atravessa tudo e já toca no centro de si própria.
982
Fernando Pessoa
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 133
Herberto Helder
I L
Rosas divagadas pelas roseiras, as sombras das rosas
seguram-nas no ar
enquanto espumam batidas à lua, devoradas.
Com a lepra na boca no instante da palavra, oh
sim: memória da criança da terra andando
entre as cores primitivas.
E esperar que a lepra cubra os dedos, escrever: Rosa —
encadeado na rotação do nome.
Ir colher ao último alfabeto
a rosa extremamente escrita.
seguram-nas no ar
enquanto espumam batidas à lua, devoradas.
Com a lepra na boca no instante da palavra, oh
sim: memória da criança da terra andando
entre as cores primitivas.
E esperar que a lepra cubra os dedos, escrever: Rosa —
encadeado na rotação do nome.
Ir colher ao último alfabeto
a rosa extremamente escrita.
1 087
Herberto Helder
Os Ritmos 11
O cadáver foi trazido para o rés-do-chão através dos corredores sufocados na penumbra.
Era a mãe agora irreconhecível.
Entrava, horizontal, nos braços e ombros dos homens.
Saía e entrava pelas portas, e atravessava os patamares, e recuava para o quintal.
A aragem que passava sobre os ramos das acácias bateu nos cabelos mortos e o sol desenhou as folhas das árvores no rosto morto.
Depois os homens conseguiram meter o caixão naquele quarto.
Ora o caixão estava sobre uma sábia montagem de caixotes soberbamente ocultos por um pano de veludo negro — rico e pesado.
A mãe tinha um vestido preto, do qual explodia o rosto extraordinariamente limpo.
A mãe não era bela.
Ou antes: era muito bela se, vista em certos momentos capitais, daí partisse para uma sua integridade e permanência futuras.
Porque a mãe era evidentemente bela e grande.
E não é difícil encontrar exemplos.
Ela estava junto da janela, e a mão esquerda acariciava o lóbulo da orelha esquerda.
A cabeça inclinada para o lado esquerdo, auxiliando a mão e a orelha — o gesto.
O vento batia nos cabelos.
Tudo vinha pela esquerda — a luz, o vento e o rumor do dia — enquanto o braço direito caía fora da cadeira, dando volume, peso e densidade ao lado direito.
Como uma réplica.
Ora a mãe era bela e tinha-se posto a crescer.
Crescera até demais, depois da ausência no seu quarto de doente e da viagem morta pelos corredores e escadas.
Enchia agora o quarto.
O cabelo docemente desarrumado fazia voar a cabeça.
Levantava voo subtilmente, com o cabelo desordenado.
Os braços indistintos e negros corriam pelo vestido abaixo.
As mãos eram demasiado brancas.
Um pouco gordas?
Muito bem.
Havia círios enormes nos quatro cantos do catafalco e flores brancas espalhadas à volta daquela mãe morta.
Era uma câmara ardente.
Exactamente a câmara ardente daquela mãe que apodreceria, começando devagar a cheirar mal.
Bem.
Eu andava por ali.
Experimentava olhar para a morte da mãe de todos os lados possíveis.
Primeiro, colocava-me junto aos pés, entre os dois círios cujas chamas se dobravam no vento que vinha da porta aberta.
Os pés da mãe avançavam contra o meu peito, por altura quase dos ombros.
Via aquele território negro que as chamas vergadas e ondulantes faziam palpitar.
Ao fundo desse território que ondulava, cheio de cristas e crateras sombrias, estavam as neves mortas do rosto, e depois os cabelos.
E então eu ia para um dos lados do caixão, e o corpo da mãe atravessava o quarto.
Corria, partindo da cabeça, terrivelmente morto.
E era engolido pela áspera luz que irrompia aos pés, onde a porta rasgava um precipício.
Mudava de posição, e a cabeça ficava tão perto de mim que poderia tocá-la com as minhas mãos de criança inábil.
A cara descia pela testa e passava pelos olhos que, debaixo das pálpebras, não se sabia para onde olhariam.
E o nariz ocultava a boca.
E tudo o mais desaparecia branca e abruptamente no seio negro.
Experimentava outros ângulos, de onde era um ombro que crescia, ou o peito, ou era a cabeça despenhando-se sobre mim, ou então era uma perna negra.
Às vezes as flores, os círios, às vezes os cabelos, ou as mãos dobradas, ou o rosto desconhecido, ou às vezes o rosto momentaneamente muito conhecido.
Que sorria e se deslocava, vivo.
O corpo de uma pessoa estranha, invadindo a casa.
Entravam e saíam pessoas, e eu andava por ali, apropriando-me da morte, talvez a fim de ficar com ela para sempre.
A sala esvaziava-se, e as chamas dos círios curvavam e endireitavam-se — e nenhum, nenhum ruído no meio das sombras móveis.
Mãe, disse eu, e nada mudou, e eu era o filho.
Odiava uma coisa indefinida que, num certo futuro, seria uma como que abstracta injustiça.
E que seria depois o desencontro das pessoas, e a permanência delas dentro do desencontro.
Agora, por mais vezes que murmurasse: mãe — nada mais acontecia, e o sol branco rolava pelo quintal, e havia o ruído subtil das folhas das acácias sob o vento, e a corrida fulminante das lagartixas.
O meu dia talvez estivesse assegurando pela tradição de todos os dias.
O dia lúdico, com o qual todo o meu ser comunicava, a presença da luz, das nuvens e do vento, e de todas as coisas indestrutíveis do mundo.
Então saí do quarto e avancei pelos corredores cheios de cotovelos e atravessei portas e salas.
Lá fora, o sol e as árvores, mas o tempo terrífico já começara, e eu não sabia.
O mar batia nas rochas, era o que eu ouvia, e havia no ar o cheiro à água salgada.
Ouvia o mar que sempre tinha ouvido, e aspirava os mesmos cheiros, e às vezes, no meio de tudo, chegavam-me vozes perdidas.
Pregões, conversas na rua, risos e o barulho de um motor.
Mas a maneira como via a luz e ouvia as vozes era uma última maneira.
As coisas, as imagens, os seres existiam no ar atravessado pelo vento e pela luz — e era tudo uma última maneira.
E começava a memória, intensa mas purificada.
Voltava sobre os meus próprios passos.
Fiquei parado um momento sob o vento e o sol, no meio da tradição dos meus dias.
Fixo na móvel atmosfera de rumores marítimos, barulhos de motores, vento e vozes e risos.
E já sabia tudo.
Era terrível.
Dirigi-me então para as mesmas portas e corredores.
A câmara ardente estava vazia.
E assim como que seco, comprimido pela súbita pressão de um novo saber, eu olhava para tudo, e compreendia.
Um ser desaparecera, deixando pegadas na terra viva.
Eu mesmo desaparecera.
O irrevogável corpo da mãe sentava-se e levantava-se das cadeiras, debruçava-se às janelas.
Enchia a casa com o seu movimento e a sua força silenciosa.
Tinha um olhar, uma voz, um sorriso ardente e uma inteligência.
O tempo tomara isso ao seu cuidado, daquele modo implacável com que trata essas coisas.
Ali continuaria ela a existência truncada, repetindo-se, acabando a meio, voltando ao princípio.
Mas tudo estava morto, e mais pesado, porque estava morto.
Quanto ao corpo, era uma casca rachada.
Levaram-no.
Atravessava agora a cidade de linhas severamente puras, por entre plátanos e casas brancas.
Os automóveis tocavam os claxons, as crianças gritavam de incompreensível alegria, as montras expunham os belos objectos quotidianos e os cães passavam de um lado para o outro das ruas, rápidos, perseguindo a confusa teoria dos cheiros.
O céu era o mais admirável céu de havia muitos anos.
É possível que alguém cantasse dentro das casas.
E isto era extraordinário.
Sim, sim, cantavam.
Quanto ao corpo, levaram-no.
E o catafalco transformara-se num amontoado de caixotes, cujo primitivo equilíbrio se perdera.
A sua repentina inutilidade escapava a todos os estilos humanos.
Havia outra lei.
Era um espaço de terrível beleza.
Um dos círios caíra no chão, e havia flores esmagadas, e os castiçais tinham sido encostados à parede.
Cheirava a cera queimada.
E existia outro cheiro, subtil, ou somente adivinhado.
Talvez não existisse, talvez não.
Mas infiltrava-se como uma delgadíssima agulha através da substância dos outros cheiros.
Um cheiro a cadáver.
As vidraças das janelas eram de um verde de água profunda.
A luz do dia tornava-se verde, podre.
As minhas mãos, atacadas pela luz fria, pareciam corrompidas por uma doença desconhecida e ignóbil.
Eu estava parado no meio dessa luz, cheio de terror.
E era tempo de subir ao andar de cima.
Porque este quarto deveria afundar-se pela terra dentro.
O primeiro andar desenvolvia-se a partir de um grande quarto assente nos rochedos, sobre o mar.
A luz e o cheiro das águas e o vento batiam nesse quarto, e davam-lhe a força de iniciar a casa.
O andar desenvolvia-se em quartos poderosos cuja vitalidade mal permitia a existência dos corredores.
Os corredores moviam-se subtilmente por entre as possantes massas dos quartos, e eram escuros, e encolhiam-se ao pé das portas grossas.
Avançavam até ao quarto dos livros, branco e simples.
Eu andava pela casa, e havia os móveis, roupas, objectos e cheiros.
E outra coisa indefinível: a energia, ou o espírito, ou o génio da casa.
Um dínamo subjacente.
As cortinas estremeciam.
Minhas irmãs riam no meio das cadeiras, nas escadas, por toda a parte.
A mãe lia, mexia nos objectos.
Tudo estava ligado.
Minhas primas encostavam-se aos móveis, e também riam, com as grandes e pesadas cabeleiras tombadas para trás.
A luz acumulava-se nas suas gargantas, e era dolorosamente belo.
Que é que estão a fazer?
Nós, nós? que fazemos? ah, rimos — ora aí está: rimos.
Raparigas, raparigas.
Sim, rimos.
E riam.
Eu compreendia tudo, e despira a roupa para meter-me nu na terra mole, e comera terra, e andara à roda até cair para o lado.
As pessoas calaram-se.
Primeiro foram tirados os reposteiros e as cortinas, depois desapareceram alguns móveis.
Eu passava de um quarto para outro.
O quarto da frente ficou aberto durante muitos dias.
O sol queimava as paredes.
Espalmei a mão contra a parede.
Era uma mão alheia, cruelmente viva.
Tinha uma forma ardente e parecia feita de madeira nova, embebida profundamente de seiva.
Afastei-a da parede, e as eminências da palma e os dedos haviam ficado bem marcados, e cercavam o pó intacto que passava a representar a concha da mão.
Resposta fantástica de uma pequena mão viva.
Uma coisa quente destinada a um qualquer futuro.
Os quartos ficavam cada vez mais vazios.
Os meus pés desenhavam pistas múltiplas que se corrigiam sobre incompletas pistas anteriores.
Destruíam-se, e fechavam-se em círculos.
A luz vinha pelas janelas abertas, e os quartos eram dolorosamente grandes, e eu compreendia tudo.
(Ouço o meu nome como se viesse de uma região sombria, e através dele escorresse alguma coisa fugidia e densa — mercúrio.
Abro os olhos e vejo a vidraça fria e viva de uma janela sem cortinas, a parede erguida de um quarto, uma velha mala aberta no chão.
Estou numa cidade qualquer, num quarto de hotel.
Ninguém me chamou, não há ninguém.
Que vozes são estas, vozes inexistentes que me chamam?
Que mundo perdido, mas insistente, fabrica vozes para me surpreender, em quartos de pensões, no meio de uma outra busca, outra viagem?
Eu sou um movimento.
Surjo do abismo.
Inclino para o guarda-fatos a minha cara, o espelho põe-me diante de um novo objecto de ciência.
É uma cara espantosa, de louco, uma cabeça primitiva de pássaro inclinado para o seu próprio canto, o seu silêncio.
Uma cabeça queimada.)
Era a mãe agora irreconhecível.
Entrava, horizontal, nos braços e ombros dos homens.
Saía e entrava pelas portas, e atravessava os patamares, e recuava para o quintal.
A aragem que passava sobre os ramos das acácias bateu nos cabelos mortos e o sol desenhou as folhas das árvores no rosto morto.
Depois os homens conseguiram meter o caixão naquele quarto.
Ora o caixão estava sobre uma sábia montagem de caixotes soberbamente ocultos por um pano de veludo negro — rico e pesado.
A mãe tinha um vestido preto, do qual explodia o rosto extraordinariamente limpo.
A mãe não era bela.
Ou antes: era muito bela se, vista em certos momentos capitais, daí partisse para uma sua integridade e permanência futuras.
Porque a mãe era evidentemente bela e grande.
E não é difícil encontrar exemplos.
Ela estava junto da janela, e a mão esquerda acariciava o lóbulo da orelha esquerda.
A cabeça inclinada para o lado esquerdo, auxiliando a mão e a orelha — o gesto.
O vento batia nos cabelos.
Tudo vinha pela esquerda — a luz, o vento e o rumor do dia — enquanto o braço direito caía fora da cadeira, dando volume, peso e densidade ao lado direito.
Como uma réplica.
Ora a mãe era bela e tinha-se posto a crescer.
Crescera até demais, depois da ausência no seu quarto de doente e da viagem morta pelos corredores e escadas.
Enchia agora o quarto.
O cabelo docemente desarrumado fazia voar a cabeça.
Levantava voo subtilmente, com o cabelo desordenado.
Os braços indistintos e negros corriam pelo vestido abaixo.
As mãos eram demasiado brancas.
Um pouco gordas?
Muito bem.
Havia círios enormes nos quatro cantos do catafalco e flores brancas espalhadas à volta daquela mãe morta.
Era uma câmara ardente.
Exactamente a câmara ardente daquela mãe que apodreceria, começando devagar a cheirar mal.
Bem.
Eu andava por ali.
Experimentava olhar para a morte da mãe de todos os lados possíveis.
Primeiro, colocava-me junto aos pés, entre os dois círios cujas chamas se dobravam no vento que vinha da porta aberta.
Os pés da mãe avançavam contra o meu peito, por altura quase dos ombros.
Via aquele território negro que as chamas vergadas e ondulantes faziam palpitar.
Ao fundo desse território que ondulava, cheio de cristas e crateras sombrias, estavam as neves mortas do rosto, e depois os cabelos.
E então eu ia para um dos lados do caixão, e o corpo da mãe atravessava o quarto.
Corria, partindo da cabeça, terrivelmente morto.
E era engolido pela áspera luz que irrompia aos pés, onde a porta rasgava um precipício.
Mudava de posição, e a cabeça ficava tão perto de mim que poderia tocá-la com as minhas mãos de criança inábil.
A cara descia pela testa e passava pelos olhos que, debaixo das pálpebras, não se sabia para onde olhariam.
E o nariz ocultava a boca.
E tudo o mais desaparecia branca e abruptamente no seio negro.
Experimentava outros ângulos, de onde era um ombro que crescia, ou o peito, ou era a cabeça despenhando-se sobre mim, ou então era uma perna negra.
Às vezes as flores, os círios, às vezes os cabelos, ou as mãos dobradas, ou o rosto desconhecido, ou às vezes o rosto momentaneamente muito conhecido.
Que sorria e se deslocava, vivo.
O corpo de uma pessoa estranha, invadindo a casa.
Entravam e saíam pessoas, e eu andava por ali, apropriando-me da morte, talvez a fim de ficar com ela para sempre.
A sala esvaziava-se, e as chamas dos círios curvavam e endireitavam-se — e nenhum, nenhum ruído no meio das sombras móveis.
Mãe, disse eu, e nada mudou, e eu era o filho.
Odiava uma coisa indefinida que, num certo futuro, seria uma como que abstracta injustiça.
E que seria depois o desencontro das pessoas, e a permanência delas dentro do desencontro.
Agora, por mais vezes que murmurasse: mãe — nada mais acontecia, e o sol branco rolava pelo quintal, e havia o ruído subtil das folhas das acácias sob o vento, e a corrida fulminante das lagartixas.
O meu dia talvez estivesse assegurando pela tradição de todos os dias.
O dia lúdico, com o qual todo o meu ser comunicava, a presença da luz, das nuvens e do vento, e de todas as coisas indestrutíveis do mundo.
Então saí do quarto e avancei pelos corredores cheios de cotovelos e atravessei portas e salas.
Lá fora, o sol e as árvores, mas o tempo terrífico já começara, e eu não sabia.
O mar batia nas rochas, era o que eu ouvia, e havia no ar o cheiro à água salgada.
Ouvia o mar que sempre tinha ouvido, e aspirava os mesmos cheiros, e às vezes, no meio de tudo, chegavam-me vozes perdidas.
Pregões, conversas na rua, risos e o barulho de um motor.
Mas a maneira como via a luz e ouvia as vozes era uma última maneira.
As coisas, as imagens, os seres existiam no ar atravessado pelo vento e pela luz — e era tudo uma última maneira.
E começava a memória, intensa mas purificada.
Voltava sobre os meus próprios passos.
Fiquei parado um momento sob o vento e o sol, no meio da tradição dos meus dias.
Fixo na móvel atmosfera de rumores marítimos, barulhos de motores, vento e vozes e risos.
E já sabia tudo.
Era terrível.
Dirigi-me então para as mesmas portas e corredores.
A câmara ardente estava vazia.
E assim como que seco, comprimido pela súbita pressão de um novo saber, eu olhava para tudo, e compreendia.
Um ser desaparecera, deixando pegadas na terra viva.
Eu mesmo desaparecera.
O irrevogável corpo da mãe sentava-se e levantava-se das cadeiras, debruçava-se às janelas.
Enchia a casa com o seu movimento e a sua força silenciosa.
Tinha um olhar, uma voz, um sorriso ardente e uma inteligência.
O tempo tomara isso ao seu cuidado, daquele modo implacável com que trata essas coisas.
Ali continuaria ela a existência truncada, repetindo-se, acabando a meio, voltando ao princípio.
Mas tudo estava morto, e mais pesado, porque estava morto.
Quanto ao corpo, era uma casca rachada.
Levaram-no.
Atravessava agora a cidade de linhas severamente puras, por entre plátanos e casas brancas.
Os automóveis tocavam os claxons, as crianças gritavam de incompreensível alegria, as montras expunham os belos objectos quotidianos e os cães passavam de um lado para o outro das ruas, rápidos, perseguindo a confusa teoria dos cheiros.
O céu era o mais admirável céu de havia muitos anos.
É possível que alguém cantasse dentro das casas.
E isto era extraordinário.
Sim, sim, cantavam.
Quanto ao corpo, levaram-no.
E o catafalco transformara-se num amontoado de caixotes, cujo primitivo equilíbrio se perdera.
A sua repentina inutilidade escapava a todos os estilos humanos.
Havia outra lei.
Era um espaço de terrível beleza.
Um dos círios caíra no chão, e havia flores esmagadas, e os castiçais tinham sido encostados à parede.
Cheirava a cera queimada.
E existia outro cheiro, subtil, ou somente adivinhado.
Talvez não existisse, talvez não.
Mas infiltrava-se como uma delgadíssima agulha através da substância dos outros cheiros.
Um cheiro a cadáver.
As vidraças das janelas eram de um verde de água profunda.
A luz do dia tornava-se verde, podre.
As minhas mãos, atacadas pela luz fria, pareciam corrompidas por uma doença desconhecida e ignóbil.
Eu estava parado no meio dessa luz, cheio de terror.
E era tempo de subir ao andar de cima.
Porque este quarto deveria afundar-se pela terra dentro.
O primeiro andar desenvolvia-se a partir de um grande quarto assente nos rochedos, sobre o mar.
A luz e o cheiro das águas e o vento batiam nesse quarto, e davam-lhe a força de iniciar a casa.
O andar desenvolvia-se em quartos poderosos cuja vitalidade mal permitia a existência dos corredores.
Os corredores moviam-se subtilmente por entre as possantes massas dos quartos, e eram escuros, e encolhiam-se ao pé das portas grossas.
Avançavam até ao quarto dos livros, branco e simples.
Eu andava pela casa, e havia os móveis, roupas, objectos e cheiros.
E outra coisa indefinível: a energia, ou o espírito, ou o génio da casa.
Um dínamo subjacente.
As cortinas estremeciam.
Minhas irmãs riam no meio das cadeiras, nas escadas, por toda a parte.
A mãe lia, mexia nos objectos.
Tudo estava ligado.
Minhas primas encostavam-se aos móveis, e também riam, com as grandes e pesadas cabeleiras tombadas para trás.
A luz acumulava-se nas suas gargantas, e era dolorosamente belo.
Que é que estão a fazer?
Nós, nós? que fazemos? ah, rimos — ora aí está: rimos.
Raparigas, raparigas.
Sim, rimos.
E riam.
Eu compreendia tudo, e despira a roupa para meter-me nu na terra mole, e comera terra, e andara à roda até cair para o lado.
As pessoas calaram-se.
Primeiro foram tirados os reposteiros e as cortinas, depois desapareceram alguns móveis.
Eu passava de um quarto para outro.
O quarto da frente ficou aberto durante muitos dias.
O sol queimava as paredes.
Espalmei a mão contra a parede.
Era uma mão alheia, cruelmente viva.
Tinha uma forma ardente e parecia feita de madeira nova, embebida profundamente de seiva.
Afastei-a da parede, e as eminências da palma e os dedos haviam ficado bem marcados, e cercavam o pó intacto que passava a representar a concha da mão.
Resposta fantástica de uma pequena mão viva.
Uma coisa quente destinada a um qualquer futuro.
Os quartos ficavam cada vez mais vazios.
Os meus pés desenhavam pistas múltiplas que se corrigiam sobre incompletas pistas anteriores.
Destruíam-se, e fechavam-se em círculos.
A luz vinha pelas janelas abertas, e os quartos eram dolorosamente grandes, e eu compreendia tudo.
(Ouço o meu nome como se viesse de uma região sombria, e através dele escorresse alguma coisa fugidia e densa — mercúrio.
Abro os olhos e vejo a vidraça fria e viva de uma janela sem cortinas, a parede erguida de um quarto, uma velha mala aberta no chão.
Estou numa cidade qualquer, num quarto de hotel.
Ninguém me chamou, não há ninguém.
Que vozes são estas, vozes inexistentes que me chamam?
Que mundo perdido, mas insistente, fabrica vozes para me surpreender, em quartos de pensões, no meio de uma outra busca, outra viagem?
Eu sou um movimento.
Surjo do abismo.
Inclino para o guarda-fatos a minha cara, o espelho põe-me diante de um novo objecto de ciência.
É uma cara espantosa, de louco, uma cabeça primitiva de pássaro inclinado para o seu próprio canto, o seu silêncio.
Uma cabeça queimada.)
1 144
Herberto Helder
Os Ritmos 8
O que me exalta nas fotografias é o roubo — aquele roubo abrupto, resguardador, defensivo — às forças expansivas do tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
716
Mário-Henrique Leiria
REBOLA-A-BOLA
Sete crianças
resolveram
ir procurar a bola
que tinham perdido
e não voltara
a correr tiraram
os sapatos
e foram a correr
Sete senhores
resolveram
ficar com aquela bola
que tinham encontrado
e que ali estava
apressados puseram
os chapéus
e seguiram apressados
Sete polícias
obedeceram
a guardar a bola
que tinham esquecido
na infância
disciplinados tiraram
os cacetes
e ficaram disciplinados
Sete crianças
decidiram
voltar a ter
a bola que rebola
e mijar
com alegria e prazer
em sete senhores
em sete polícias
e tirar-lhes
a bola de correr
e tiraram
resolveram
ir procurar a bola
que tinham perdido
e não voltara
a correr tiraram
os sapatos
e foram a correr
Sete senhores
resolveram
ficar com aquela bola
que tinham encontrado
e que ali estava
apressados puseram
os chapéus
e seguiram apressados
Sete polícias
obedeceram
a guardar a bola
que tinham esquecido
na infância
disciplinados tiraram
os cacetes
e ficaram disciplinados
Sete crianças
decidiram
voltar a ter
a bola que rebola
e mijar
com alegria e prazer
em sete senhores
em sete polícias
e tirar-lhes
a bola de correr
e tiraram
649
Herberto Helder
I J
E aparece a criança;
mostra o braço: a água iluminada no ar, o braço
ceifando a água
— tudo tão do perigo da leveza, tão dos elementos
meteorológicos, instáveis,
que só agora a escrita o fixa e fecha
dentro das massas maternais ligadas
no profundo das trevas.
mostra o braço: a água iluminada no ar, o braço
ceifando a água
— tudo tão do perigo da leveza, tão dos elementos
meteorológicos, instáveis,
que só agora a escrita o fixa e fecha
dentro das massas maternais ligadas
no profundo das trevas.
1 154
Charles Bukowski
Prática
naquela vizinhança da depressão eu tinha dois amigões
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
1 000
Renato Russo
Pais e Filhos
Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora:
É só o vento lá fora
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês ?
Estou com medo
Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Me diz porque é que o céu é azul
Me explica a grande f£ria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Sou uma gota dágua
Sou um grão de areia
Você diz que seus pais não te entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo:
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer ?
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora:
É só o vento lá fora
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês ?
Estou com medo
Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Me diz porque é que o céu é azul
Me explica a grande f£ria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com meus pais
É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar, na verdade não há
Sou uma gota dágua
Sou um grão de areia
Você diz que seus pais não te entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo:
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer ?
2 086
Herberto Helder
1
as imagens de palavras (João Vieira) — as pessoas das imagens das coisas (Manuel de Castro)
Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —
Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —
1 106
Herberto Helder
As Imagens
Ele disse que era uma mancha de esperma, esperma ainda vivo.
Esperma?
A mancha azul, ao meio do quadro, no chão, entre aqueles corpos grandes das mulheres.
Que era esperma?
Disse que era esperma ainda vivo.
Disse que ele próprio tinha esperma nas mãos.
Havia esperma por toda a parte.
Terrível.
Sim, terrível.
Um dia agarrou-me na cabeça, passou os dedos pela minha boca e disse: tens esperma na boca.
Já não sabia que fazer, pois encontrava esperma entre as páginas dos livros, nos bolsos, nos cigarros.
Uma vez atirou fora os cigarros e gritou: porque está aqui esperma, nos cigarros?
Nem se pode fumar.
E depois como foi?
Parece que o esperma invadia tudo.
Descobri que ele não imaginava que o esperma era posto aqui e ali pelas pessoas.
O esperma aparecia simplesmente, existia uma força qualquer, uma extraordinária força corruptora, que atingia tudo.
Mas essa ideia não o repugnava e revoltava, unicamente.
Era, para além disso e mais fundo, uma alegria dolorosa, como se o espírito fosse por fim vencido, na sua orgulhosa pureza, pela carne, pelo sangue, pelas fezes, as unhas, os pêlos, o suor, o odor áspero e invencível do corpo, pelo movimento e acção do corpo, pelo esperma, por tudo aquilo que.
Certo angelismo.
Entendes?
Seria isso?
Ele disse-me que estava impotente, mas que eu poderia salvá-lo.
Terrível.
Sim, é claro que era terrível.
Pediu que eu me despisse, para ver o meu corpo que já não via desde a infância, quando tomávamos banho juntos.
Que éramos irmãos, disse eu.
Fui estúpida.
E despiste-te?
Sim, acabei por me despir, mas já era tarde.
Eu estava nua, num canto do quarto, completamente constrangida, sem saber os gestos, se havia de sorrir, dizer qualquer coisa.
Ele olhava-me friamente.
Com uma espécie de frio terror.
E disse-me: tens o corpo todo sujo de esperma.
Ela diz odeio viagens.
Descia-se da camioneta e começava o ritual, as pessoas negras abanando devagar as cabeças e a saberem demais sobre o que ia acontecer.
Eu não.
Ele diz viajava sempre, todos os meses, todas as semanas.
Ao princípio era pelos corredores, durante o dia inteiro.
Eu sabia tudo acerca de corredores.
Então ela diz atravessava um jardim, doce jardim, atravessava uma casa, doce casa, que tinha cortinas no lugar de portas, e via o quintal surpreendido, cheio de flores, florinhas.
Eu entrava em crença, à falta de indícios do mal.
Mais tarde começou o período das escadas diz ele, eu ainda não conhecia as pessoas.
Não tinham cor.
Ensinaram-me aquilo.
Era uma grande paixão, tinha doze andares, e em cima ficava a torre toda envidraçada à volta.
Explicavam-me a cidade.
Eu estava apaixonado.
Diziam vê a cidade, e como as pessoas não tinham cor senão darem-me as escadas e a torre em cima, eu absorvia com a paixão aquela cidade: telhados, parques, caminhos-de-ferro, mar, colinas, e aquilo distante era uma fortaleza com um nome de santo.
De cada vez que eu acreditei diz ela então construí uma cadeira para me sentar, e veio o inesperado movimento bêbedo da mãe e partiu tudo.
Foi assim que construí muitas cadeiras e que perdi a esperança de me sentar.
Depois diz ele.
Depois diz ela vi-me no espelho.
Diz ele depois foi a época dos túneis.
Viajava por um túnel, e numa ponta havia a porta fechada, na outra a poeira quente.
Uma vez gritei.
Sabia o que era — medo, medo.
As pessoas não existiam.
Senti que tinha de procurar, tinha de viajar cada vez mais, e mais depressa.
Não se sabe se uma pessoa desaparecerá depressa do lugar, não se sabe mesmo se o lugar vai desaparecer.
Vi-me diz ela vi-me no espelho, com o meu corpo à superfície — e achava arriscado tê-lo assim.
Falo no imperfeito, porque elas deslizaram já, estas coisas, e o imperfeito é o bom tempo da narração.
Narrava-se.
Anoitecia-se.
Entravam-me pelo quarto.
Era por causa do corpo.
Andava de uma casa para outra, naquela cidade, é o que posso dizer.
À força de conhecer tanta gente, ganhei uma inteligência muito aguda — inteligia as pessoas.
Inteligia que elas nunca estavam lá.
Uma criança não fala sobre o conhecimento, a profundidade.
Ela pensa.
E pensa isto: são inferiores a mim, estas pessoas que estão e que não estão.
É preciso procurar mais.
Esta ideia devorava-me: havia o espaço todo e o tempo todo para percorrer.
Havia um dínamo.
Não julgues que aumento diz ela que aumento as coisas, o espaço que ocupam é mesmo a mais.
Aprendi a desistir de um modo ainda mais sóbrio, isento, que o sóbrio e isento modo masculino de desistir.
Nunca caí em tentação.
Bem, bem, bem.
Diz ele bem.
Depois diz era no que eu caía sempre.
Caía em toda a espécie de tentações, porque eu era um espião.
Estava a espiar os lugares para ver se apareciam as pessoas, espiava as pessoas, alguma coisa poderia passar-me desapercebida.
Estava louco de atenção.
Tinha medo da minha inteligência.
Ela exercia-se apaixonadamente no vácuo.
Dei passeios, fui ver a levada, era uma água completamente branca onde as pessoas iam contrastar.
Gostei.
Também havia o poço dos afogados, mas era escuro, sobrecarregado de historiazinhas de coração.
O jardim estúpido funcionava.
Em casa agitava-se a mãe.
Agitou-se.
Foi um ser com barulho interior.
Mexeu-se demais.
Mexeu demais: nos telefones, nas revistas, na solidão dos outros.
Olha: começaram a dar-me nomes, esperavam coisas de mim, mas eu só pensava nisto: aniquilar-me na impossível decifração do grande espaço desabitado.
Aprendera a viajar tão furiosamente que só podia desejar disse ele desejar morrer.
Sabes como é a morte de uma criança cheia da ira do conhecimento?
Sabes perguntou ele como é o desejo de morte de uma criança que principiou pela ciência dos corredores, e depois caminhou por aí fora, passando pela visão alta de uma cidade, e andando de pessoas para pessoas, a saber cada vez mais, até ao vazio sabes? perguntou.
Tinha também um ferro esquisito para arranjar o cabelo, a mãe.
Punha o ferro na lenha em brasa e ficava a olhar.
Depois cuspia em cima do ferro, e quando já havia sinais de tudo arder ficava extremamente alegre e ia a correr para o espelho enrolar o cabelo sexual.
Decerto, decerto murmurou ele, havia as irmãs.
Eu descobrira essa coisa espantosa da menstruação, via panos sujos de sangue, havia o odor da menstruação, o segredo.
Vi as irmãs nuas.
Como é possível saber tantas coisas?
Mas ninguém estava próximo.
E é assim: saber coisas é ficar só, sobretudo se se não sabe a idade, que é um conhecimento demasiado tardio, e é o que traz a paz.
Apenas a ciência dos cem anos é que tem em si a paz.
Quando se é criança, não se tem cem anos.
Tu existias por longe das pessoas diz ela, mas nunca percebi bem.
Parece que te viram passar no baldio.
Nunca foste para o lado da levada, mas não te pergunto agora porquê.
Eu era uma pessoa negra sim diz ele, mas era outra a treva, e o que eu sabia era outra coisa, e não abanava a cabeça devagar.
Talvez pensasse em ti, pensaria se estivesse mais livre e não houvesse tantas escadas, tantas mudanças de coisa nenhuma para coisa nenhuma.
Fui ao baldio disse ela.
Fui a toda a parte, a ver se havia saída, mas não.
O baldio tinha as amoras silvestres, e havia umas hastes duras que eu enterrava nas amoras, devagar, como se a haste estivesse a fazer amor com as amoras.
Eu tinha a febre de enterrar hastes em amoras e amoras em hastes, e era uma febre quente como não podes supor.
Ele disse só pensava em ir para a cama com as minhas irmãs.
Dia a dia, acrescentava-se a minha ciência.
Examinava a roupa interior delas, as calças, os panos da menstruação.
Punha-me a ouvi-las urinar.
Uma mulher a urinar.
Às vezes as lágrimas desciam-me dos olhos para a boca, e era o gosto exaltante das lágrimas.
Masturbava-me muito depressa, porque era preciso encher o espaço, encontrar alguém, morrer depressa.
Mas nunca te encontrei, a ti.
Daquela terra percebo eu disse ela, tinha um castelo podre, o céu era íngreme, as casas lisas, é tudo muito bonito, tenho o filme disso.
Tu existias no quarto interior, pegado ao meu, mas eu não te via, e a culpa era tua.
À tua volta estavam as coisas, mas não se pode entrar no lugar delas.
E à volta das coisas estavas tu com o teu delírio: nunca chamaste por mim.
Detestava-te.
Sabia porquê.
Sabia que havias de ir para uma cidade distante.
Sabes, olhei tanto tempo para o relógio, que nem sequer estava certo, e pensei: deixo o tempo passar disse ela.
Eu não via nada, nem ouvia, nem falava disse ele, estava ocupado naquela profundidade vazia de saber tantas coisas ao mesmo tempo.
O meu ofício era aquele grande erro que se tinham esquecido de não pôr lá.
Preparava-me ferozmente para a distracção.
Era preciso ser forte disse ele, e isto quer dizer passar depressa.
Eu já nem olhava, pois sabia que não estava ninguém.
Só havia uma coisa: andar, encher o espaço, mexer as mãos e os pés como se isso fosse respiração.
Não havia quartos ao lado.
E ela disse escondi garrafas.
Nunca cortei com elas os pulsos, para espantá-los.
Soube sempre que ninguém era espantável naquela região.
Parece que nas ilhas, por exemplo, já se não passa assim: se acredita no espanto e se pode correr riscos.
Podia dizer-te mais e mais, mas eras capaz de te assustares.
Ele perguntou medo?
Só tenho o meu disse, o meu terror.
Estou sempre ocupado nisso: chegar ao pé de portas, sair de túneis para o meio da poeira, espreitar para os enigmas, andar depressa pelos labirintos, estudar topografias.
Sim tenho disse ele o amor dos mapas.
Parecem reais.
Foi ali fixada qualquer coisa extremamente móvel, fugidia, inexistente: os lugares, e as pessoas nos lugares, mas isso nem nos mapas vem.
Talvez fosse bom parar, mas talvez eu já não saiba.
Não me lembro de ter estado imóvel.
É por causa do medo: é imóvel.
Amo-te disse ela, chamei-te.
Sim, sim, amo-te, talvez eu tivesse querido ouvir, já não sei, talvez eu queira saber foi o que ele disse, sim.
(Eles estavam deitados, e isto pode perceber-se, pode perceber-se tudo.
Pode perceber-se que ela lhe desabotoou a camisa e esfregou o rosto e a boca no peito dele, e esteve assim muito tempo, e nenhum deles falava.
E ela despiu-o, e depois despiu-se, e esfregou de novo a cara e a boca pelo corpo dele, e encostou o rosto ao sexo dele, e sentia-se só no meio das trevas.
Estava cega.
Beijou-lhe o sexo devagar, e a boca tremia, queria desaparecer, morrer, ou queria amar aquele homem como se isso fosse poder amar de repente o mundo todo, parar, parar.
E apertou entre os lábios o pénis, devorou-o lentamente, enchendo a boca com aquela coisa quente e viva, e isso dava-lhe um sombrio e doce desejo de dormir.
E então ficou imóvel, somente a boca tremia, e isso quase que podia ter um nome: paz.
Que eu seja humilhada pensou ela, humilhada.
E fechou os olhos e abriu-os: a treva, sempre.
Então ergueu a cabeça, subiu na cama até junto ao rosto dele e disse-lhe ao ouvido puta, chama-me puta.
E ele disse puta.
E ela voltou-se e pôs-se de joelhos na cama, dobrada, e disse mete no cu.
E, se fechavam ou abriam os olhos, era a treva.
Para ambos e para sempre.
Amavam o terror, um no outro, cada um o seu terror no outro.
Talvez pudessem morrer.)
Num país estrangeiro, ao norte, cercados pela noite onde a neve palpita friamente.
O ruído chega ao quarto como um vapor ligeiro, indistintamente iluminado.
Falando baixo, enquanto a neve desliza pela janela e um comboio passa, brutal.
Isto ao mesmo tempo que a noite, a neve e o rumor.
E a conversa interrompe-se, tendo ficado pelo meio uma qualquer palavra, com sentido, essa também, porque todas as palavras eram animadas de uma inspiração capital.
Era tudo terrivelmente importante.
Tudo é importante, enquanto a noite cria o seu labirinto e o quarto se desloca para o coração do labirinto.
Estamos inclinados um para o outro, por dentro, e eu sinto uma vertigem leve, como se soubesse que o chão poderia não ser completamente seguro, e o abismo sempre prometido se fosse revelar.
O amado e temível abismo.
Estamos a pensar nos enigmas.
Na cidade, em nós, em todas as leis.
Naquela anarquia que a nossa força e fraqueza introduziram na ordem, para que se possam criar as novas leis — as outras.
Pensamos nos enigmas, e falamos como de outra coisa, fazendo alguns gestos que parecem possuir apenas a intenção prática, a deslocada intenção, agora que se supõe não haver nenhum acto prático a realizar.
Num país estrangeiro, ao norte.
Colocados rigorosamente nesta situação definitiva de duas pessoas com a carga de uma equação.
Ela diz que eu pareço um morto.
Pareces um morto, diz.
E sorri com uma hostilidade distraída.
Encosto-me à parede, erguendo o corpo sobre os lençóis frios.
Peço um cigarro.
E ela estende-me um, aceso.
Merda.
Pareces um morto.
Um decapitado.
Estou atento e nada se perde: decapitado.
Decapitado?
Sim, diz ela, decapitado e descolhoado.
Sem colhões?
Isso: sem tesão, sem força.
Morto.
E sorria sempre, enquanto eu fumava encostado à parede, sobre os lençóis húmidos.
Ela sentara-se no chão com a cabeça debruçada para a cama, por altura dos meus joelhos.
Perguntei: como é?
Sou uma espécie de puta, eu, e não tenho medo, murmurou levemente.
E a frase quase se perdia no rumor, na luz, na noite, na neve, no estrangeiro.
Eu tinha toda a atenção, e a frase foi essa, essa coisa tremenda e quase errada, quase certa.
Contudo, ela não se prostituíra, não, nem eu tinha medo.
E no entanto eu parara, como morto, e alguém, antes da subversão das leis, poderia dizer que ela se prostituíra.
Não é assim.
Inclinei-me mais, e rocei a mão onde tinha o cigarro pela sua cabeça muito viva.
O fumo descia, subia, metia-se-lhe nos cabelos, e eu estremeci, porque de repente aquilo era belo, embora nós talvez estivéssemos perdidos.
Ouve: eu tinha a mão na tua cabeça, e o fumo do cigarro confundia-se com os cabelos.
Não, não chega.
Havia na sua voz uma espécie de maligna exaltação, porque lhe parecera porventura que eu procurava uma fuga.
Ouve: há uma estranha beleza em tudo isto.
E ela então levantou-se, vestiu o velho casaco grosso e saiu, sem me olhar, sem dizer nada.
Eu estava encostado à parede, fumando ainda, e olhava o fogão de granito preto, vazio e retórico.
Ela tinha saído para a cidade, caminhava pela névoa.
Embebia-se da fria luz do norte, sob a qual os cabelos se tornam húmidos e brilhantes.
Vi o quarto horizontalmente, ao clarão geladíssimo da lâmpada.
Malas, roupas, a mesa com bâtons, pontas de cigarro, um frasco de compota vazio, um livro velho.
Estes quartos forrados de papel.
Via o quarto a direito, sob a luz áspera.
Estou num país, estou só.
Desejava pensar bastante nisto.
Completamente só, com alguma fome acumulada, uma certa angústia para definir uma posição pessoal perante não sei que enigmas, que movimentos do tempo.
Só, até que ela voltasse.
Às vezes um de nós saía, andava misteriosamente pela cidade e voltava com cigarros, pão, queijo, café.
Partilhávamos do que um e outro conseguíamos apanhar.
Havia um silêncio quente e aéreo em volta dos cigarros e do café.
Bebíamos, fumávamos.
Uma noite embebedámo-nos com cerveja.
Pusemo-nos em frente do espelho, inteiramente nus, abraçados, e eu perguntei:
O que nos vai acontecer?
E quando ela entrava com a cara vermelha do frio e o ar delicadamente enigmático de quem vinha do meio das noites, de uma zona indevassável, e fora apanhada de repente pelas luzes fortes.
Sorria, tinha segredos.
Dispunha sobre a mesa o que trazia.
A cidade fecha-se, confunde as pistas, lança neve sobre as pegadas — para que fiquemos isolados.
Tudo contra as virtudes do homem: armadilhas, caminhos, muros, luzes ferozes, e o idioma, a base idiomática da emoção e do pensamento.
Eis um homem e uma mulher, e tremem: estão providos de forças, lutam contra a memória, e têm outra memória.
Eles lutam, e vejam: é um sentido, uma medida, uma arma, uma virtude.
Isto é no norte.
Quer dizer: o homem e a mulher são extremos, despiram muitos vestidos, são implacáveis.
E, dentro da sua justa ferocidade, em frente do norte ascético, possuem uma doçura essencial.
Estão acordados.
Há muitas coisas por cima da cabeça deles.
Vejamos: fome?
Sim.
E cansaço?
Sim.
E doença e frio e medo?
Sim, sim.
E ela voltou mais tarde.
Escuta, disse eu, não tenho medo.
Trazia café e cigarros.
Vamos salvar isto, murmurei.
Mas ela sabia tudo.
Tomámos café, fechando as mãos em volta das chávenas quentes, para desentorpecer os dedos.
Se tivéssemos algum dinheiro, podíamo-nos embebedar.
Ela veio, com a sua maneira solitária e profunda de andar, e o seu movimento entre os objectos assumia uma dignidade extrema.
Então, tocou-me com a ponta dos dedos na cara, e os dedos escorregaram com uma subtileza incrível, passando pelos meus lábios.
Depois a mão caiu e fechou-se.
Escreve o teu livro.
Mas qual era o meu livro?
Para que escreveria eu um livro?
Salva tudo isto.
E a mão estava fechada contra a coxa, fortemente.
Saio, não é?, e aparece sempre algum dinheiro.
Tens a certeza de que eu o não arranjo indo para a cama com homens?
E tu sais, e como arranjas algum dinheiro, às vezes?
Não, não tinha importância.
O assunto era este: para quê?
Decerto: para a gente se livrar de tudo, ser cada vez mais rigorosa com as coisas, salvar aquela fonte cujo sussurro se perde entre todas as vozes.
Não te quero ver morto, não quero morrer, oh não.
Escuta, disse eu, não tenho medo.
Não te impacientes.
Foi a última vez que me decapitaram.
Mas eu abaixo-me sempre, e apanho a cabeça que rolou pelo chão.
Coloco-a, cheia de sangue, sobre os ombros.
É um livro?
Ela girou de novo pelo quarto, lenta, densa, e estava na ponta do quarto, junto ao fogão.
Entre nós, a mesa desordenada, as malas, as chávenas sujas.
Percebes?, perguntou, percebes isto?
Não é um livro.
É um acto onde já nada se disperse, e onde tudo esteja contido com rigor.
Aquela beleza na minha cabeça, percebes?
Não é assim, não.
Há uma forma para as coisas, não uma forma para cada coisa, mas uma forma una e pura de todas elas.
Uma única forma.
Devemos estar completamente juntos, percebes?
E nada mais tem importância.
Não estou morto.
Não, tu respiras.
É preciso atenção.
Quando a cidade for pelos ares.
Eu sei, disse eu, nunca mais morreremos.
Depois, ela começou a despir-se, e eu também, e quando estávamos ambos nus fomos para diante do espelho.
Estamos nus, percebes?
E, apesar de eu ser um homem cansado, apesar da minha memória e solidão, disse que percebia.
E percebia.
A luz vinha pelas nossas costas e, no espelho, parecia que os nossos corpos saltavam para diante, como tremendos anjos brancos, cheios de uma violenta anunciação.
Lá atrás, junto à janela, escorregava a neve, e havia ainda a noite, e todas as coisas difíceis.
Os nossos corpos saltavam na luz.
Éramos fortes como o diabo.
Merda, disse ela, temos de salvar tudo.
Também éramos frágeis, no espelho, e tremíamos por causa da nossa força.
Como se fôssemos demasiado frágeis para a nossa força.
Escuta, disse eu, temos uma lei formidável.
Nós somos os anjos.
Ninguém mais sabia disto, porque eles estavam todos distraídos, com a noite deles, a neve e a cidade.
Se soubessem, matavam-nos.
E então a alegria, a nossa, irrompeu da maior profundidade, e os nossos corpos brilhavam terrivelmente no espelho.
Telefono à noite.
Expectativa confusa e sensível que as noites carregam de uma espécie de pendente anunciação ou insuportável subtileza.
A geografia nocturna dos telefones.
Ia por ali, quase com o vício de ganhar e perder lugares, rejeitando uma cabine em favor de nova hipótese, guiado pela cegueira pontilhada de pequeníssimas estrelas.
Breve intuição, momento de fulgor, uma imaginação gasosa.
Mas evoluí.
A idade, a idade interior, a interioridade — limpou-me da retórica.
E o meu estilo das cabines públicas tornou-se ático e centrípeto.
Talvez eu tenha encontrado o classicismo do meu próprio delírio.
O que digo verdadeiramente é que acabara por me fixar numa só cabine.
Era um telefone na esquina de duas avenidas, quase oculto por uma árvore e rodeado de uma grossa cintura de terra, onde floriam furiosamente ininteligíveis corolas: amarelas, brancas, vermelhas, lilases.
A cabine tinha as vantagens incomunicáveis a outrem, as minhas secretas.
E pequenas vantagens de pormenor, que direi:
Por exemplo:
À altura da minha cabeça faltava-lhe um vidro, e por ali, ao mesmo tempo que telefonava (ou antes, ou depois), ouvia o ruído difuso da cidade.
O rodar dos automóveis.
O barulho dos eléctricos.
Um barco que apitasse no porto.
O rangido das gruas trabalhando nos cais.
Um comboio que entrava ou saía de uma estação.
As telefonias.
A música de um bar cuja porta de repente se abria e logo fechava.
Os risos e as vozes humanas.
As pequenas canções humanas — fúteis, comoventes canções trauteadas por um grupo de duas ou três ou quatro pessoas que passavam.
E quando a cidade era atravessada por um desses espantosos silêncios que por vezes as varam como uma queimadura de gelo, eu inclinava a cabeça, afastava de mim o auscultador, e sentia tudo parado.
Não, a terra não se movia, nem a lua, se acaso estivesse lá em cima, nem as nuvens.
Estava tudo suspenso: era uma profunda, terrível ameaça.
Enlouqueceríamos, todos?
E as plantas, os animais, as coisas — tudo, tudo?
Então levantava-se a brisa ligeiríssima, as flores vibravam de leve, caía uma folha de árvore e raspava na cabine, rangiam algures uns sapatos e alguém falava não sei onde.
De novo os sons, os quentes embora distantes, embora alheios sons.
Mas não era essa a minha tarefa.
Tratava-se dos arredores dela, dos meus próprios subúrbios.
O estilo flutuante, a adolescência ambulatória ao longo da solidão.
E eu sei que as lateralidades arborizadas, floridas, sonoras, silenciosas — eram irrelevantes em volta da seca fatalidade dos telefonemas.
Desejava algo mais vasto e fundo, mais glorioso e impiedoso (conforme), nos seus resultados.
Um telefonema somente.
Aquele que iria ou não aparecer numa noite, num momento, no ocasional cruzamento de imperscrutáveis forças.
Isso — periclitante ordem nova no meio da confusão e acaso das linhas, dos poderes sonolentos, da matéria frágil e indecisa das coisas.
O resto era uma técnica: os telefonemas.
Mete-se uma moeda, sai uma pessoa.
A voz de uma pessoa, apenas?
Bem, teríamos de discutir acerca deste novo tema: as vozes.
Os sons calorosamente organizados para transportar a aflita, doce, inteligente, participadora matéria das pessoas.
Ou o contrário, isto é: outros adjectivos.
As pessoas.
A quem telefonava eu?
A ninguém, a um número.
Por detrás do número, de ninguém — deveria aparecer um dia alguém, segundo a própria base da aventura.
Não, eu não pedia.
Não se pode pedir.
Há regras para todas estas coisas.
E que pediria eu?
Tempo, gentileza, nome, conversa, amor?
Sejamos sensatos.
Não é possível meter uma moeda, ouvir uma voz, e dizer: dê-me tempo, nome, inteligência, amor.
Seria ridículo.
Aliás, eu próprio me veria embaraçado, se a voz dissesse: peça.
Bem, não pedia.
Eu não pedia.
Não se pode dizer: dê-me tempo, nome, inteligência, amor.
Marcava um número ao acaso, com seis algarismos.
Esperava.
Uma voz.
As palavras iniciais não variavam muito.
Está?, quem fala?
Ou: sim.
Ou: alô.
Ou ainda: hum, hum.
E a minha habilidade era extremamente simples, e invariável.
Trocava a ordem de um algarismo ou substituía-o por outro, dentro do contexto do número.
83 46 26 era 83 26 46.
Qualquer coisa como isto.
Não, dizia a voz, aqui fala do 83 46 26.
Foi engano, desculpe.
Não tem importância.
E eu dizia: não?, acha que não tem importância?
Ah, como eu conhecia a zona ainda anódina desse jogo.
Claro que a voz perguntaria, estupefacta: como?
Se acha mesmo que não tem importância?
E a voz: merda.
Ou: é parvo.
Não me chateie, também diziam às vezes.
Ou então desligavam secamente.
Durante um momento, o som do telefone desligado zumbia no meu ouvido, e o velho abismo refazia-se em mim, calmamente tenebroso.
Pousava eu próprio o auscultador e, através dos vidros, as ruas e as praças abriam-se como um deserto, e o céu vazio coroava o silêncio de tudo.
Recomeçava os telefonemas.
Não te entregues ao acaso, dizia-me eu.
Mas eu não me entregava ao acaso.
Trabalhava para ele, isso sim, como humildemente se executa o erro e a emenda, quando se pensa na verdade, ou como em silêncio nos aplicamos na treva em favor da nossa pequena e possível luz futura.
E que podemos fazer nós, não é?, senão amarmos no nosso espírito a possibilidade do acaso?
Merece o acaso de um instante, incitava-me eu, merece-o.
E uma noite apareceu a voz.
Reconheci-a logo.
Reconheci-a naquela espécie de desastre que a atravessava, desde o mais breve som.
Era uma voz lenta e como que vazia, onde cada palavra vacilava, destacada por blocos de silêncio.
E era, no entanto, uma voz muito próxima.
Eu dela apenas sabia que atravessava a cidade, por um milagre espantoso, e que caminhava sobre o tempo, nascida de uma amarga sabedoria ou de um pudor doloroso.
Não sei o que dissemos.
Talvez tivéssemos falado de coisas muito simples, ou de alguma coisa sem sentido.
Não sei.
Estávamos muito próximos.
E era nos grandes silêncios, nas duas pontas do fio, sobretudo aí, com certeza, que se formava aquele novo e insólito calor.
Registei o número do telefone e, durante o resto da noite e todo o dia seguinte, ele foi para mim como que o milagre de uma combinação inédita, o sinal de uma ordem concreta por onde eu entrava no equilíbrio universal.
Quando chegou a noite, fui à cabine e liguei.
Durante muito tempo ouvi o sinal.
O som repetia-se, vindo dos confins da ausência.
Cinco, dez minutos — monotonamente o telefone tocava no outro lado, num quarto vazio que eu não sabia como era.
Um quarto que não existia.
E apercebi-me subitamente de que isso estava certo, embora fosse terrível.
E quando desliguei senti, através do vidro partido da cabine, que esse gelado silêncio trespassava o mundo e que tudo ficava suspenso sobre os abismos.
Hoje sei que os telefones não existem.
Bell, que os inventou, era um homem tão rudimentar que ignorava a realidade do que, em vergonhoso calão, chamamos — alma humana.
O silêncio está nas cidades.
A peste nasce do silêncio.
Os olhos luciferinos dos anjos.
Quero dizer: têm uma luz — possuem a qualidade veemente mas fria da espera, da promessa: sim?, da anunciação.
Penso nas estátuas brancas, com seus olhos desprovidos de pupilas.
Colocadas assim nas trevas, essas estátuas ressaltam com uma doçura dolorosa e intempestiva e parecem indicar outro tempo: a luz, ou a treva maior, aquela que nem somos capazes de presumir.
Deste modo é que ela surgira no pórtico, e havia os pequenos e fortes cornos que irrompiam ao cimo da testa, acompanhando com maligna e rápida subtileza o movimento da cabeleira.
Aérea, a cabeleira.
Existia ainda uma boca para todo o silêncio.
Porque se tratava de silêncio, evidentemente.
Era esse o tema — é esse o tema das aparições.
Além do longo vestido, o tema branco — que obliquamente se insinuava, como se insinuam os múltiplos planos — no tema das trevas.
Ah, sim: era o tema branco, e as mãos não traziam nenhum lírio pictórico, a haste comprida, a corola consagrada à alta e luminosa representação do angelismo.
Os braços caíam ao longo do vestido e as mãos estavam coladas às pernas.
Era quase um emblema ambíguo — sê-lo-ia, se o tempo houvesse parado antes, e eu apenas tivesse ali chegado como se chega à história antiga, ao facto de pedra: um monumento, uma capela, um túmulo, a casa do príncipe que criara a concentração dos seus mitos tumultuosos na matéria adormecida.
Porque andava, eu, andava de um lado para outro, na penumbra em que se erguia a sobreposição de cilindros, de diâmetro cada vez menor, conforme se levantava a vista até ao cimo — e no cimo, no último pequeno cilindro, estava um longo mastro nu, sem bandeira de cidade ou nação.
Era difícil pôr-se a imaginar o serviço de todos os pórticos abertos à roda de cada cilindro — não se esperasse, como seria possível, que em cada pórtico surgisse uma árvore assim direita, uma figura, aquela mensagem silenciosa e vibrante — coisa mineral, vegetal: o coração dos dias desabitados.
Uma diferente figura em cada pórtico, ou a proliferação, num momento inflacionista, de imagens todas iguais, como múltiplos avisos, múltiplos sinais da trepidação interior?
Por quantos lados ressuscita a vida enterrada?
É apenas para que se saiba: há muitos pórticos, e em cada pórtico tu próprio podes aparecer, para o primeiro passo em direcção ao teu lugar de trevas ou à cidade de Deus.
Mas ela era só uma e tinha para si um só pórtico, e ali estava, e a sua beleza contraditória e veloz acabava agora mesmo de ferir-me no que eu andava: porque eu andava de cá para lá, à frente do edifício.
Acorda-se, há um dia em que se acorda — e então a gente põe-se a andar.
Vai-se ser repentinamente surpreendido — não ainda pelo resultado do julgamento que decorre lá dentro, no tribunal sobreposto cilindricamente, não ainda isso — mas por aquilo, aquilo que vem antes: o anjo.
E o anjo olha-te como se olhasse o espaço prometido.
O amor do anjo cerca-te como um anel de prata em brasa, e então tu ficas fascinado pela fascinação que fizeste nascer no anjo.
Vês de novo as hastes curvas no cimo da testa, os cabelos alvoroçados de mulher, e os olhos abertos para o teu movimento de criatura que respira o seu pavor e o seu desejo, e a boca que não é para dizer.
Vês ainda as vestes claras que seriam para o vento, para a condição vital onde as desejarias: vestes brancas agitadas pelas ventanias dos lugares do mundo, onde se ri, e canta, e se fica sufocado pela grandeza exaltante dos júbilos, do júbilo.
Vês ainda as vestes disso, mas ali não: ali são brancas sim, mas imóveis, caídas, hieráticas — vês as mãos tombadas: mortas, mortas, mortas.
E então ficas parado — é quando começas a amar.
E pensava: que estou eu a amar?
E eu amava o amor dela, com os cornos em cima e o vestido branco em baixo, longo, e amava o meu amor pelo seu amor, e amava-a a ela, e a mim, e, mais do que a tudo quanto estava e era, àquilo que estaria e seria — não, não sabia como, nem em que tempo, nem onde.
Talvez tivesse sido muito antes — porque: o que é o tempo, e o lugar o que é?
Pergunto: o que é a realidade?
Amava, mergulhava nesta ciência nova — e vi.
Fala-me disso que é teu — poderia eu pedir à figura que agora avançava para mim, e ela estava a responder avançando dessa maneira, na sua fascinação, e ela poderia pedir-me: fala do que é teu, mas eu avançava para ela e não dizia: vou na minha fascinação, mas era isso — porque eu amava e estava a dizer no meu silêncio, e via.
Víamos.
É como se a gente soubesse tudo, quando o pavor, como uma seiva atormentada e fria, sobe e se espalha por cada ramificação da viva árvore interior.
Eu tremia, era um modo agora de conhecer o meu corpo — e ela, sim, ela incorria nessa ciência de conhecer o corpo, tremia: e o nosso amor estava a ser vermos o corpo tremendo, vendo cada um o seu corpo e o corpo do outro.
Depois ela ergueu os braços e estendeu-mos para eu ver que ela tremia, que tinha um corpo já ciente.
Possuíamos o medo de saber assim: porque tremes? — diria ela, e ficaria aterrorizada.
O anjo pressentira a minha noite, o chão negro de onde brotava a vida, e sabia como isso seria mortal.
E, se eu pudesse gritar, gritaria: porque eu também lhe estendera as minhas mãos — amávamo-nos, amávamo-nos — e eu sabia o ser que amava e por quem era amado: a minha própria noite.
Que se amem, e se apavorem um do outro — disse ele, o que deixara tudo acontecer e agora aparecia a um pórtico superior, lá no alto, junto do mastro vazio.
Temem a loucura um do outro — disse ele — e é isso que se amam.
Depressa, depressa.
Era um crime.
Os anjos não tocam violino.
Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos, fica branca de andar encostada à noite, e respira, respira,
sim respira, como uma colina tão nua que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada, ou água cruel aberta
por ti, tubarão crepitando pelo índico, entre geladas barragens de sal em rama, com uma garra no ventre, uma síncope, um mergulho como uma flor
que se não chama negra, nem cujo nome pode ser dito assim: aquilo é a paixão,
mas que, tremendo, se pode pronunciar como beleza este espaço, crime esta paisagem, ou então: a lua dança
como um vestido bêbedo — ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos, e atira fora esse ramo, e aí verás como é que eu me movo:
sim, eu respiro, estou direita, deixa-me passar — aqui vai uma ilha de pés descalços, aqui é um espelho caminhando como a voz por onde entram e saem imagens cambaleantes,
e tu chamas-te então: como eu vi o tempo, era uma maneira cega de haver junquilhos que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos
e viverem como crianças ondulantes, esquecidas do seu texto, num exílio de espanto e beleza brusca, de fazer pensar, súbito, na morte prometida a todas as coisas
que se aproximam demasiado do nosso amor, e é então que tu dizes: há casas desabitadas, eu estou nessas casas
que tremem quando movo as mãos, a minha cabeleira palpita: é o sangue que sobe do coração apavorado e se faz dócil, quando o pente arrefece um a um os cabelos,
e então o meu nome é: pimenta, areia sentada, abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,
ah, deixa-me passar, digo-te baixo como hoje me chamo e como nunca mais me chamarei: loucura,
loucura unida à rítmica matéria das coisas, e se abrires o teu sono, dessa vez única verás o que sou: uma figura
impelida pela vertigem, a inclinação do teu próprio conhecimento sobre a morte iluminada por todos os lados,
depois terei um só nome: revelação, até que os dias arquejantes me sufoquem e, no terror que te atravessa como água dolorosa,
eu seja a tua ilha a prumo, onde habitas, tu próprio uma ilha desabitada,
entre a lua como uma rosa infrene e os peixes frios e selvagens.
Esperma?
A mancha azul, ao meio do quadro, no chão, entre aqueles corpos grandes das mulheres.
Que era esperma?
Disse que era esperma ainda vivo.
Disse que ele próprio tinha esperma nas mãos.
Havia esperma por toda a parte.
Terrível.
Sim, terrível.
Um dia agarrou-me na cabeça, passou os dedos pela minha boca e disse: tens esperma na boca.
Já não sabia que fazer, pois encontrava esperma entre as páginas dos livros, nos bolsos, nos cigarros.
Uma vez atirou fora os cigarros e gritou: porque está aqui esperma, nos cigarros?
Nem se pode fumar.
E depois como foi?
Parece que o esperma invadia tudo.
Descobri que ele não imaginava que o esperma era posto aqui e ali pelas pessoas.
O esperma aparecia simplesmente, existia uma força qualquer, uma extraordinária força corruptora, que atingia tudo.
Mas essa ideia não o repugnava e revoltava, unicamente.
Era, para além disso e mais fundo, uma alegria dolorosa, como se o espírito fosse por fim vencido, na sua orgulhosa pureza, pela carne, pelo sangue, pelas fezes, as unhas, os pêlos, o suor, o odor áspero e invencível do corpo, pelo movimento e acção do corpo, pelo esperma, por tudo aquilo que.
Certo angelismo.
Entendes?
Seria isso?
Ele disse-me que estava impotente, mas que eu poderia salvá-lo.
Terrível.
Sim, é claro que era terrível.
Pediu que eu me despisse, para ver o meu corpo que já não via desde a infância, quando tomávamos banho juntos.
Que éramos irmãos, disse eu.
Fui estúpida.
E despiste-te?
Sim, acabei por me despir, mas já era tarde.
Eu estava nua, num canto do quarto, completamente constrangida, sem saber os gestos, se havia de sorrir, dizer qualquer coisa.
Ele olhava-me friamente.
Com uma espécie de frio terror.
E disse-me: tens o corpo todo sujo de esperma.
Ela diz odeio viagens.
Descia-se da camioneta e começava o ritual, as pessoas negras abanando devagar as cabeças e a saberem demais sobre o que ia acontecer.
Eu não.
Ele diz viajava sempre, todos os meses, todas as semanas.
Ao princípio era pelos corredores, durante o dia inteiro.
Eu sabia tudo acerca de corredores.
Então ela diz atravessava um jardim, doce jardim, atravessava uma casa, doce casa, que tinha cortinas no lugar de portas, e via o quintal surpreendido, cheio de flores, florinhas.
Eu entrava em crença, à falta de indícios do mal.
Mais tarde começou o período das escadas diz ele, eu ainda não conhecia as pessoas.
Não tinham cor.
Ensinaram-me aquilo.
Era uma grande paixão, tinha doze andares, e em cima ficava a torre toda envidraçada à volta.
Explicavam-me a cidade.
Eu estava apaixonado.
Diziam vê a cidade, e como as pessoas não tinham cor senão darem-me as escadas e a torre em cima, eu absorvia com a paixão aquela cidade: telhados, parques, caminhos-de-ferro, mar, colinas, e aquilo distante era uma fortaleza com um nome de santo.
De cada vez que eu acreditei diz ela então construí uma cadeira para me sentar, e veio o inesperado movimento bêbedo da mãe e partiu tudo.
Foi assim que construí muitas cadeiras e que perdi a esperança de me sentar.
Depois diz ele.
Depois diz ela vi-me no espelho.
Diz ele depois foi a época dos túneis.
Viajava por um túnel, e numa ponta havia a porta fechada, na outra a poeira quente.
Uma vez gritei.
Sabia o que era — medo, medo.
As pessoas não existiam.
Senti que tinha de procurar, tinha de viajar cada vez mais, e mais depressa.
Não se sabe se uma pessoa desaparecerá depressa do lugar, não se sabe mesmo se o lugar vai desaparecer.
Vi-me diz ela vi-me no espelho, com o meu corpo à superfície — e achava arriscado tê-lo assim.
Falo no imperfeito, porque elas deslizaram já, estas coisas, e o imperfeito é o bom tempo da narração.
Narrava-se.
Anoitecia-se.
Entravam-me pelo quarto.
Era por causa do corpo.
Andava de uma casa para outra, naquela cidade, é o que posso dizer.
À força de conhecer tanta gente, ganhei uma inteligência muito aguda — inteligia as pessoas.
Inteligia que elas nunca estavam lá.
Uma criança não fala sobre o conhecimento, a profundidade.
Ela pensa.
E pensa isto: são inferiores a mim, estas pessoas que estão e que não estão.
É preciso procurar mais.
Esta ideia devorava-me: havia o espaço todo e o tempo todo para percorrer.
Havia um dínamo.
Não julgues que aumento diz ela que aumento as coisas, o espaço que ocupam é mesmo a mais.
Aprendi a desistir de um modo ainda mais sóbrio, isento, que o sóbrio e isento modo masculino de desistir.
Nunca caí em tentação.
Bem, bem, bem.
Diz ele bem.
Depois diz era no que eu caía sempre.
Caía em toda a espécie de tentações, porque eu era um espião.
Estava a espiar os lugares para ver se apareciam as pessoas, espiava as pessoas, alguma coisa poderia passar-me desapercebida.
Estava louco de atenção.
Tinha medo da minha inteligência.
Ela exercia-se apaixonadamente no vácuo.
Dei passeios, fui ver a levada, era uma água completamente branca onde as pessoas iam contrastar.
Gostei.
Também havia o poço dos afogados, mas era escuro, sobrecarregado de historiazinhas de coração.
O jardim estúpido funcionava.
Em casa agitava-se a mãe.
Agitou-se.
Foi um ser com barulho interior.
Mexeu-se demais.
Mexeu demais: nos telefones, nas revistas, na solidão dos outros.
Olha: começaram a dar-me nomes, esperavam coisas de mim, mas eu só pensava nisto: aniquilar-me na impossível decifração do grande espaço desabitado.
Aprendera a viajar tão furiosamente que só podia desejar disse ele desejar morrer.
Sabes como é a morte de uma criança cheia da ira do conhecimento?
Sabes perguntou ele como é o desejo de morte de uma criança que principiou pela ciência dos corredores, e depois caminhou por aí fora, passando pela visão alta de uma cidade, e andando de pessoas para pessoas, a saber cada vez mais, até ao vazio sabes? perguntou.
Tinha também um ferro esquisito para arranjar o cabelo, a mãe.
Punha o ferro na lenha em brasa e ficava a olhar.
Depois cuspia em cima do ferro, e quando já havia sinais de tudo arder ficava extremamente alegre e ia a correr para o espelho enrolar o cabelo sexual.
Decerto, decerto murmurou ele, havia as irmãs.
Eu descobrira essa coisa espantosa da menstruação, via panos sujos de sangue, havia o odor da menstruação, o segredo.
Vi as irmãs nuas.
Como é possível saber tantas coisas?
Mas ninguém estava próximo.
E é assim: saber coisas é ficar só, sobretudo se se não sabe a idade, que é um conhecimento demasiado tardio, e é o que traz a paz.
Apenas a ciência dos cem anos é que tem em si a paz.
Quando se é criança, não se tem cem anos.
Tu existias por longe das pessoas diz ela, mas nunca percebi bem.
Parece que te viram passar no baldio.
Nunca foste para o lado da levada, mas não te pergunto agora porquê.
Eu era uma pessoa negra sim diz ele, mas era outra a treva, e o que eu sabia era outra coisa, e não abanava a cabeça devagar.
Talvez pensasse em ti, pensaria se estivesse mais livre e não houvesse tantas escadas, tantas mudanças de coisa nenhuma para coisa nenhuma.
Fui ao baldio disse ela.
Fui a toda a parte, a ver se havia saída, mas não.
O baldio tinha as amoras silvestres, e havia umas hastes duras que eu enterrava nas amoras, devagar, como se a haste estivesse a fazer amor com as amoras.
Eu tinha a febre de enterrar hastes em amoras e amoras em hastes, e era uma febre quente como não podes supor.
Ele disse só pensava em ir para a cama com as minhas irmãs.
Dia a dia, acrescentava-se a minha ciência.
Examinava a roupa interior delas, as calças, os panos da menstruação.
Punha-me a ouvi-las urinar.
Uma mulher a urinar.
Às vezes as lágrimas desciam-me dos olhos para a boca, e era o gosto exaltante das lágrimas.
Masturbava-me muito depressa, porque era preciso encher o espaço, encontrar alguém, morrer depressa.
Mas nunca te encontrei, a ti.
Daquela terra percebo eu disse ela, tinha um castelo podre, o céu era íngreme, as casas lisas, é tudo muito bonito, tenho o filme disso.
Tu existias no quarto interior, pegado ao meu, mas eu não te via, e a culpa era tua.
À tua volta estavam as coisas, mas não se pode entrar no lugar delas.
E à volta das coisas estavas tu com o teu delírio: nunca chamaste por mim.
Detestava-te.
Sabia porquê.
Sabia que havias de ir para uma cidade distante.
Sabes, olhei tanto tempo para o relógio, que nem sequer estava certo, e pensei: deixo o tempo passar disse ela.
Eu não via nada, nem ouvia, nem falava disse ele, estava ocupado naquela profundidade vazia de saber tantas coisas ao mesmo tempo.
O meu ofício era aquele grande erro que se tinham esquecido de não pôr lá.
Preparava-me ferozmente para a distracção.
Era preciso ser forte disse ele, e isto quer dizer passar depressa.
Eu já nem olhava, pois sabia que não estava ninguém.
Só havia uma coisa: andar, encher o espaço, mexer as mãos e os pés como se isso fosse respiração.
Não havia quartos ao lado.
E ela disse escondi garrafas.
Nunca cortei com elas os pulsos, para espantá-los.
Soube sempre que ninguém era espantável naquela região.
Parece que nas ilhas, por exemplo, já se não passa assim: se acredita no espanto e se pode correr riscos.
Podia dizer-te mais e mais, mas eras capaz de te assustares.
Ele perguntou medo?
Só tenho o meu disse, o meu terror.
Estou sempre ocupado nisso: chegar ao pé de portas, sair de túneis para o meio da poeira, espreitar para os enigmas, andar depressa pelos labirintos, estudar topografias.
Sim tenho disse ele o amor dos mapas.
Parecem reais.
Foi ali fixada qualquer coisa extremamente móvel, fugidia, inexistente: os lugares, e as pessoas nos lugares, mas isso nem nos mapas vem.
Talvez fosse bom parar, mas talvez eu já não saiba.
Não me lembro de ter estado imóvel.
É por causa do medo: é imóvel.
Amo-te disse ela, chamei-te.
Sim, sim, amo-te, talvez eu tivesse querido ouvir, já não sei, talvez eu queira saber foi o que ele disse, sim.
(Eles estavam deitados, e isto pode perceber-se, pode perceber-se tudo.
Pode perceber-se que ela lhe desabotoou a camisa e esfregou o rosto e a boca no peito dele, e esteve assim muito tempo, e nenhum deles falava.
E ela despiu-o, e depois despiu-se, e esfregou de novo a cara e a boca pelo corpo dele, e encostou o rosto ao sexo dele, e sentia-se só no meio das trevas.
Estava cega.
Beijou-lhe o sexo devagar, e a boca tremia, queria desaparecer, morrer, ou queria amar aquele homem como se isso fosse poder amar de repente o mundo todo, parar, parar.
E apertou entre os lábios o pénis, devorou-o lentamente, enchendo a boca com aquela coisa quente e viva, e isso dava-lhe um sombrio e doce desejo de dormir.
E então ficou imóvel, somente a boca tremia, e isso quase que podia ter um nome: paz.
Que eu seja humilhada pensou ela, humilhada.
E fechou os olhos e abriu-os: a treva, sempre.
Então ergueu a cabeça, subiu na cama até junto ao rosto dele e disse-lhe ao ouvido puta, chama-me puta.
E ele disse puta.
E ela voltou-se e pôs-se de joelhos na cama, dobrada, e disse mete no cu.
E, se fechavam ou abriam os olhos, era a treva.
Para ambos e para sempre.
Amavam o terror, um no outro, cada um o seu terror no outro.
Talvez pudessem morrer.)
Num país estrangeiro, ao norte, cercados pela noite onde a neve palpita friamente.
O ruído chega ao quarto como um vapor ligeiro, indistintamente iluminado.
Falando baixo, enquanto a neve desliza pela janela e um comboio passa, brutal.
Isto ao mesmo tempo que a noite, a neve e o rumor.
E a conversa interrompe-se, tendo ficado pelo meio uma qualquer palavra, com sentido, essa também, porque todas as palavras eram animadas de uma inspiração capital.
Era tudo terrivelmente importante.
Tudo é importante, enquanto a noite cria o seu labirinto e o quarto se desloca para o coração do labirinto.
Estamos inclinados um para o outro, por dentro, e eu sinto uma vertigem leve, como se soubesse que o chão poderia não ser completamente seguro, e o abismo sempre prometido se fosse revelar.
O amado e temível abismo.
Estamos a pensar nos enigmas.
Na cidade, em nós, em todas as leis.
Naquela anarquia que a nossa força e fraqueza introduziram na ordem, para que se possam criar as novas leis — as outras.
Pensamos nos enigmas, e falamos como de outra coisa, fazendo alguns gestos que parecem possuir apenas a intenção prática, a deslocada intenção, agora que se supõe não haver nenhum acto prático a realizar.
Num país estrangeiro, ao norte.
Colocados rigorosamente nesta situação definitiva de duas pessoas com a carga de uma equação.
Ela diz que eu pareço um morto.
Pareces um morto, diz.
E sorri com uma hostilidade distraída.
Encosto-me à parede, erguendo o corpo sobre os lençóis frios.
Peço um cigarro.
E ela estende-me um, aceso.
Merda.
Pareces um morto.
Um decapitado.
Estou atento e nada se perde: decapitado.
Decapitado?
Sim, diz ela, decapitado e descolhoado.
Sem colhões?
Isso: sem tesão, sem força.
Morto.
E sorria sempre, enquanto eu fumava encostado à parede, sobre os lençóis húmidos.
Ela sentara-se no chão com a cabeça debruçada para a cama, por altura dos meus joelhos.
Perguntei: como é?
Sou uma espécie de puta, eu, e não tenho medo, murmurou levemente.
E a frase quase se perdia no rumor, na luz, na noite, na neve, no estrangeiro.
Eu tinha toda a atenção, e a frase foi essa, essa coisa tremenda e quase errada, quase certa.
Contudo, ela não se prostituíra, não, nem eu tinha medo.
E no entanto eu parara, como morto, e alguém, antes da subversão das leis, poderia dizer que ela se prostituíra.
Não é assim.
Inclinei-me mais, e rocei a mão onde tinha o cigarro pela sua cabeça muito viva.
O fumo descia, subia, metia-se-lhe nos cabelos, e eu estremeci, porque de repente aquilo era belo, embora nós talvez estivéssemos perdidos.
Ouve: eu tinha a mão na tua cabeça, e o fumo do cigarro confundia-se com os cabelos.
Não, não chega.
Havia na sua voz uma espécie de maligna exaltação, porque lhe parecera porventura que eu procurava uma fuga.
Ouve: há uma estranha beleza em tudo isto.
E ela então levantou-se, vestiu o velho casaco grosso e saiu, sem me olhar, sem dizer nada.
Eu estava encostado à parede, fumando ainda, e olhava o fogão de granito preto, vazio e retórico.
Ela tinha saído para a cidade, caminhava pela névoa.
Embebia-se da fria luz do norte, sob a qual os cabelos se tornam húmidos e brilhantes.
Vi o quarto horizontalmente, ao clarão geladíssimo da lâmpada.
Malas, roupas, a mesa com bâtons, pontas de cigarro, um frasco de compota vazio, um livro velho.
Estes quartos forrados de papel.
Via o quarto a direito, sob a luz áspera.
Estou num país, estou só.
Desejava pensar bastante nisto.
Completamente só, com alguma fome acumulada, uma certa angústia para definir uma posição pessoal perante não sei que enigmas, que movimentos do tempo.
Só, até que ela voltasse.
Às vezes um de nós saía, andava misteriosamente pela cidade e voltava com cigarros, pão, queijo, café.
Partilhávamos do que um e outro conseguíamos apanhar.
Havia um silêncio quente e aéreo em volta dos cigarros e do café.
Bebíamos, fumávamos.
Uma noite embebedámo-nos com cerveja.
Pusemo-nos em frente do espelho, inteiramente nus, abraçados, e eu perguntei:
O que nos vai acontecer?
E quando ela entrava com a cara vermelha do frio e o ar delicadamente enigmático de quem vinha do meio das noites, de uma zona indevassável, e fora apanhada de repente pelas luzes fortes.
Sorria, tinha segredos.
Dispunha sobre a mesa o que trazia.
A cidade fecha-se, confunde as pistas, lança neve sobre as pegadas — para que fiquemos isolados.
Tudo contra as virtudes do homem: armadilhas, caminhos, muros, luzes ferozes, e o idioma, a base idiomática da emoção e do pensamento.
Eis um homem e uma mulher, e tremem: estão providos de forças, lutam contra a memória, e têm outra memória.
Eles lutam, e vejam: é um sentido, uma medida, uma arma, uma virtude.
Isto é no norte.
Quer dizer: o homem e a mulher são extremos, despiram muitos vestidos, são implacáveis.
E, dentro da sua justa ferocidade, em frente do norte ascético, possuem uma doçura essencial.
Estão acordados.
Há muitas coisas por cima da cabeça deles.
Vejamos: fome?
Sim.
E cansaço?
Sim.
E doença e frio e medo?
Sim, sim.
E ela voltou mais tarde.
Escuta, disse eu, não tenho medo.
Trazia café e cigarros.
Vamos salvar isto, murmurei.
Mas ela sabia tudo.
Tomámos café, fechando as mãos em volta das chávenas quentes, para desentorpecer os dedos.
Se tivéssemos algum dinheiro, podíamo-nos embebedar.
Ela veio, com a sua maneira solitária e profunda de andar, e o seu movimento entre os objectos assumia uma dignidade extrema.
Então, tocou-me com a ponta dos dedos na cara, e os dedos escorregaram com uma subtileza incrível, passando pelos meus lábios.
Depois a mão caiu e fechou-se.
Escreve o teu livro.
Mas qual era o meu livro?
Para que escreveria eu um livro?
Salva tudo isto.
E a mão estava fechada contra a coxa, fortemente.
Saio, não é?, e aparece sempre algum dinheiro.
Tens a certeza de que eu o não arranjo indo para a cama com homens?
E tu sais, e como arranjas algum dinheiro, às vezes?
Não, não tinha importância.
O assunto era este: para quê?
Decerto: para a gente se livrar de tudo, ser cada vez mais rigorosa com as coisas, salvar aquela fonte cujo sussurro se perde entre todas as vozes.
Não te quero ver morto, não quero morrer, oh não.
Escuta, disse eu, não tenho medo.
Não te impacientes.
Foi a última vez que me decapitaram.
Mas eu abaixo-me sempre, e apanho a cabeça que rolou pelo chão.
Coloco-a, cheia de sangue, sobre os ombros.
É um livro?
Ela girou de novo pelo quarto, lenta, densa, e estava na ponta do quarto, junto ao fogão.
Entre nós, a mesa desordenada, as malas, as chávenas sujas.
Percebes?, perguntou, percebes isto?
Não é um livro.
É um acto onde já nada se disperse, e onde tudo esteja contido com rigor.
Aquela beleza na minha cabeça, percebes?
Não é assim, não.
Há uma forma para as coisas, não uma forma para cada coisa, mas uma forma una e pura de todas elas.
Uma única forma.
Devemos estar completamente juntos, percebes?
E nada mais tem importância.
Não estou morto.
Não, tu respiras.
É preciso atenção.
Quando a cidade for pelos ares.
Eu sei, disse eu, nunca mais morreremos.
Depois, ela começou a despir-se, e eu também, e quando estávamos ambos nus fomos para diante do espelho.
Estamos nus, percebes?
E, apesar de eu ser um homem cansado, apesar da minha memória e solidão, disse que percebia.
E percebia.
A luz vinha pelas nossas costas e, no espelho, parecia que os nossos corpos saltavam para diante, como tremendos anjos brancos, cheios de uma violenta anunciação.
Lá atrás, junto à janela, escorregava a neve, e havia ainda a noite, e todas as coisas difíceis.
Os nossos corpos saltavam na luz.
Éramos fortes como o diabo.
Merda, disse ela, temos de salvar tudo.
Também éramos frágeis, no espelho, e tremíamos por causa da nossa força.
Como se fôssemos demasiado frágeis para a nossa força.
Escuta, disse eu, temos uma lei formidável.
Nós somos os anjos.
Ninguém mais sabia disto, porque eles estavam todos distraídos, com a noite deles, a neve e a cidade.
Se soubessem, matavam-nos.
E então a alegria, a nossa, irrompeu da maior profundidade, e os nossos corpos brilhavam terrivelmente no espelho.
Telefono à noite.
Expectativa confusa e sensível que as noites carregam de uma espécie de pendente anunciação ou insuportável subtileza.
A geografia nocturna dos telefones.
Ia por ali, quase com o vício de ganhar e perder lugares, rejeitando uma cabine em favor de nova hipótese, guiado pela cegueira pontilhada de pequeníssimas estrelas.
Breve intuição, momento de fulgor, uma imaginação gasosa.
Mas evoluí.
A idade, a idade interior, a interioridade — limpou-me da retórica.
E o meu estilo das cabines públicas tornou-se ático e centrípeto.
Talvez eu tenha encontrado o classicismo do meu próprio delírio.
O que digo verdadeiramente é que acabara por me fixar numa só cabine.
Era um telefone na esquina de duas avenidas, quase oculto por uma árvore e rodeado de uma grossa cintura de terra, onde floriam furiosamente ininteligíveis corolas: amarelas, brancas, vermelhas, lilases.
A cabine tinha as vantagens incomunicáveis a outrem, as minhas secretas.
E pequenas vantagens de pormenor, que direi:
Por exemplo:
À altura da minha cabeça faltava-lhe um vidro, e por ali, ao mesmo tempo que telefonava (ou antes, ou depois), ouvia o ruído difuso da cidade.
O rodar dos automóveis.
O barulho dos eléctricos.
Um barco que apitasse no porto.
O rangido das gruas trabalhando nos cais.
Um comboio que entrava ou saía de uma estação.
As telefonias.
A música de um bar cuja porta de repente se abria e logo fechava.
Os risos e as vozes humanas.
As pequenas canções humanas — fúteis, comoventes canções trauteadas por um grupo de duas ou três ou quatro pessoas que passavam.
E quando a cidade era atravessada por um desses espantosos silêncios que por vezes as varam como uma queimadura de gelo, eu inclinava a cabeça, afastava de mim o auscultador, e sentia tudo parado.
Não, a terra não se movia, nem a lua, se acaso estivesse lá em cima, nem as nuvens.
Estava tudo suspenso: era uma profunda, terrível ameaça.
Enlouqueceríamos, todos?
E as plantas, os animais, as coisas — tudo, tudo?
Então levantava-se a brisa ligeiríssima, as flores vibravam de leve, caía uma folha de árvore e raspava na cabine, rangiam algures uns sapatos e alguém falava não sei onde.
De novo os sons, os quentes embora distantes, embora alheios sons.
Mas não era essa a minha tarefa.
Tratava-se dos arredores dela, dos meus próprios subúrbios.
O estilo flutuante, a adolescência ambulatória ao longo da solidão.
E eu sei que as lateralidades arborizadas, floridas, sonoras, silenciosas — eram irrelevantes em volta da seca fatalidade dos telefonemas.
Desejava algo mais vasto e fundo, mais glorioso e impiedoso (conforme), nos seus resultados.
Um telefonema somente.
Aquele que iria ou não aparecer numa noite, num momento, no ocasional cruzamento de imperscrutáveis forças.
Isso — periclitante ordem nova no meio da confusão e acaso das linhas, dos poderes sonolentos, da matéria frágil e indecisa das coisas.
O resto era uma técnica: os telefonemas.
Mete-se uma moeda, sai uma pessoa.
A voz de uma pessoa, apenas?
Bem, teríamos de discutir acerca deste novo tema: as vozes.
Os sons calorosamente organizados para transportar a aflita, doce, inteligente, participadora matéria das pessoas.
Ou o contrário, isto é: outros adjectivos.
As pessoas.
A quem telefonava eu?
A ninguém, a um número.
Por detrás do número, de ninguém — deveria aparecer um dia alguém, segundo a própria base da aventura.
Não, eu não pedia.
Não se pode pedir.
Há regras para todas estas coisas.
E que pediria eu?
Tempo, gentileza, nome, conversa, amor?
Sejamos sensatos.
Não é possível meter uma moeda, ouvir uma voz, e dizer: dê-me tempo, nome, inteligência, amor.
Seria ridículo.
Aliás, eu próprio me veria embaraçado, se a voz dissesse: peça.
Bem, não pedia.
Eu não pedia.
Não se pode dizer: dê-me tempo, nome, inteligência, amor.
Marcava um número ao acaso, com seis algarismos.
Esperava.
Uma voz.
As palavras iniciais não variavam muito.
Está?, quem fala?
Ou: sim.
Ou: alô.
Ou ainda: hum, hum.
E a minha habilidade era extremamente simples, e invariável.
Trocava a ordem de um algarismo ou substituía-o por outro, dentro do contexto do número.
83 46 26 era 83 26 46.
Qualquer coisa como isto.
Não, dizia a voz, aqui fala do 83 46 26.
Foi engano, desculpe.
Não tem importância.
E eu dizia: não?, acha que não tem importância?
Ah, como eu conhecia a zona ainda anódina desse jogo.
Claro que a voz perguntaria, estupefacta: como?
Se acha mesmo que não tem importância?
E a voz: merda.
Ou: é parvo.
Não me chateie, também diziam às vezes.
Ou então desligavam secamente.
Durante um momento, o som do telefone desligado zumbia no meu ouvido, e o velho abismo refazia-se em mim, calmamente tenebroso.
Pousava eu próprio o auscultador e, através dos vidros, as ruas e as praças abriam-se como um deserto, e o céu vazio coroava o silêncio de tudo.
Recomeçava os telefonemas.
Não te entregues ao acaso, dizia-me eu.
Mas eu não me entregava ao acaso.
Trabalhava para ele, isso sim, como humildemente se executa o erro e a emenda, quando se pensa na verdade, ou como em silêncio nos aplicamos na treva em favor da nossa pequena e possível luz futura.
E que podemos fazer nós, não é?, senão amarmos no nosso espírito a possibilidade do acaso?
Merece o acaso de um instante, incitava-me eu, merece-o.
E uma noite apareceu a voz.
Reconheci-a logo.
Reconheci-a naquela espécie de desastre que a atravessava, desde o mais breve som.
Era uma voz lenta e como que vazia, onde cada palavra vacilava, destacada por blocos de silêncio.
E era, no entanto, uma voz muito próxima.
Eu dela apenas sabia que atravessava a cidade, por um milagre espantoso, e que caminhava sobre o tempo, nascida de uma amarga sabedoria ou de um pudor doloroso.
Não sei o que dissemos.
Talvez tivéssemos falado de coisas muito simples, ou de alguma coisa sem sentido.
Não sei.
Estávamos muito próximos.
E era nos grandes silêncios, nas duas pontas do fio, sobretudo aí, com certeza, que se formava aquele novo e insólito calor.
Registei o número do telefone e, durante o resto da noite e todo o dia seguinte, ele foi para mim como que o milagre de uma combinação inédita, o sinal de uma ordem concreta por onde eu entrava no equilíbrio universal.
Quando chegou a noite, fui à cabine e liguei.
Durante muito tempo ouvi o sinal.
O som repetia-se, vindo dos confins da ausência.
Cinco, dez minutos — monotonamente o telefone tocava no outro lado, num quarto vazio que eu não sabia como era.
Um quarto que não existia.
E apercebi-me subitamente de que isso estava certo, embora fosse terrível.
E quando desliguei senti, através do vidro partido da cabine, que esse gelado silêncio trespassava o mundo e que tudo ficava suspenso sobre os abismos.
Hoje sei que os telefones não existem.
Bell, que os inventou, era um homem tão rudimentar que ignorava a realidade do que, em vergonhoso calão, chamamos — alma humana.
O silêncio está nas cidades.
A peste nasce do silêncio.
Os olhos luciferinos dos anjos.
Quero dizer: têm uma luz — possuem a qualidade veemente mas fria da espera, da promessa: sim?, da anunciação.
Penso nas estátuas brancas, com seus olhos desprovidos de pupilas.
Colocadas assim nas trevas, essas estátuas ressaltam com uma doçura dolorosa e intempestiva e parecem indicar outro tempo: a luz, ou a treva maior, aquela que nem somos capazes de presumir.
Deste modo é que ela surgira no pórtico, e havia os pequenos e fortes cornos que irrompiam ao cimo da testa, acompanhando com maligna e rápida subtileza o movimento da cabeleira.
Aérea, a cabeleira.
Existia ainda uma boca para todo o silêncio.
Porque se tratava de silêncio, evidentemente.
Era esse o tema — é esse o tema das aparições.
Além do longo vestido, o tema branco — que obliquamente se insinuava, como se insinuam os múltiplos planos — no tema das trevas.
Ah, sim: era o tema branco, e as mãos não traziam nenhum lírio pictórico, a haste comprida, a corola consagrada à alta e luminosa representação do angelismo.
Os braços caíam ao longo do vestido e as mãos estavam coladas às pernas.
Era quase um emblema ambíguo — sê-lo-ia, se o tempo houvesse parado antes, e eu apenas tivesse ali chegado como se chega à história antiga, ao facto de pedra: um monumento, uma capela, um túmulo, a casa do príncipe que criara a concentração dos seus mitos tumultuosos na matéria adormecida.
Porque andava, eu, andava de um lado para outro, na penumbra em que se erguia a sobreposição de cilindros, de diâmetro cada vez menor, conforme se levantava a vista até ao cimo — e no cimo, no último pequeno cilindro, estava um longo mastro nu, sem bandeira de cidade ou nação.
Era difícil pôr-se a imaginar o serviço de todos os pórticos abertos à roda de cada cilindro — não se esperasse, como seria possível, que em cada pórtico surgisse uma árvore assim direita, uma figura, aquela mensagem silenciosa e vibrante — coisa mineral, vegetal: o coração dos dias desabitados.
Uma diferente figura em cada pórtico, ou a proliferação, num momento inflacionista, de imagens todas iguais, como múltiplos avisos, múltiplos sinais da trepidação interior?
Por quantos lados ressuscita a vida enterrada?
É apenas para que se saiba: há muitos pórticos, e em cada pórtico tu próprio podes aparecer, para o primeiro passo em direcção ao teu lugar de trevas ou à cidade de Deus.
Mas ela era só uma e tinha para si um só pórtico, e ali estava, e a sua beleza contraditória e veloz acabava agora mesmo de ferir-me no que eu andava: porque eu andava de cá para lá, à frente do edifício.
Acorda-se, há um dia em que se acorda — e então a gente põe-se a andar.
Vai-se ser repentinamente surpreendido — não ainda pelo resultado do julgamento que decorre lá dentro, no tribunal sobreposto cilindricamente, não ainda isso — mas por aquilo, aquilo que vem antes: o anjo.
E o anjo olha-te como se olhasse o espaço prometido.
O amor do anjo cerca-te como um anel de prata em brasa, e então tu ficas fascinado pela fascinação que fizeste nascer no anjo.
Vês de novo as hastes curvas no cimo da testa, os cabelos alvoroçados de mulher, e os olhos abertos para o teu movimento de criatura que respira o seu pavor e o seu desejo, e a boca que não é para dizer.
Vês ainda as vestes claras que seriam para o vento, para a condição vital onde as desejarias: vestes brancas agitadas pelas ventanias dos lugares do mundo, onde se ri, e canta, e se fica sufocado pela grandeza exaltante dos júbilos, do júbilo.
Vês ainda as vestes disso, mas ali não: ali são brancas sim, mas imóveis, caídas, hieráticas — vês as mãos tombadas: mortas, mortas, mortas.
E então ficas parado — é quando começas a amar.
E pensava: que estou eu a amar?
E eu amava o amor dela, com os cornos em cima e o vestido branco em baixo, longo, e amava o meu amor pelo seu amor, e amava-a a ela, e a mim, e, mais do que a tudo quanto estava e era, àquilo que estaria e seria — não, não sabia como, nem em que tempo, nem onde.
Talvez tivesse sido muito antes — porque: o que é o tempo, e o lugar o que é?
Pergunto: o que é a realidade?
Amava, mergulhava nesta ciência nova — e vi.
Fala-me disso que é teu — poderia eu pedir à figura que agora avançava para mim, e ela estava a responder avançando dessa maneira, na sua fascinação, e ela poderia pedir-me: fala do que é teu, mas eu avançava para ela e não dizia: vou na minha fascinação, mas era isso — porque eu amava e estava a dizer no meu silêncio, e via.
Víamos.
É como se a gente soubesse tudo, quando o pavor, como uma seiva atormentada e fria, sobe e se espalha por cada ramificação da viva árvore interior.
Eu tremia, era um modo agora de conhecer o meu corpo — e ela, sim, ela incorria nessa ciência de conhecer o corpo, tremia: e o nosso amor estava a ser vermos o corpo tremendo, vendo cada um o seu corpo e o corpo do outro.
Depois ela ergueu os braços e estendeu-mos para eu ver que ela tremia, que tinha um corpo já ciente.
Possuíamos o medo de saber assim: porque tremes? — diria ela, e ficaria aterrorizada.
O anjo pressentira a minha noite, o chão negro de onde brotava a vida, e sabia como isso seria mortal.
E, se eu pudesse gritar, gritaria: porque eu também lhe estendera as minhas mãos — amávamo-nos, amávamo-nos — e eu sabia o ser que amava e por quem era amado: a minha própria noite.
Que se amem, e se apavorem um do outro — disse ele, o que deixara tudo acontecer e agora aparecia a um pórtico superior, lá no alto, junto do mastro vazio.
Temem a loucura um do outro — disse ele — e é isso que se amam.
Depressa, depressa.
Era um crime.
Os anjos não tocam violino.
Vem das estampas de ouro, o sono encurva-lhe os cabelos, fica branca de andar encostada à noite, e respira, respira,
sim respira, como uma colina tão nua que os pulmões fossem uma renda de prata atormentada, ou água cruel aberta
por ti, tubarão crepitando pelo índico, entre geladas barragens de sal em rama, com uma garra no ventre, uma síncope, um mergulho como uma flor
que se não chama negra, nem cujo nome pode ser dito assim: aquilo é a paixão,
mas que, tremendo, se pode pronunciar como beleza este espaço, crime esta paisagem, ou então: a lua dança
como um vestido bêbedo — ata lenços de um branco que desfaleça nos dedos, e atira fora esse ramo, e aí verás como é que eu me movo:
sim, eu respiro, estou direita, deixa-me passar — aqui vai uma ilha de pés descalços, aqui é um espelho caminhando como a voz por onde entram e saem imagens cambaleantes,
e tu chamas-te então: como eu vi o tempo, era uma maneira cega de haver junquilhos que giravam até se arrancarem dos terrenos nocturnos
e viverem como crianças ondulantes, esquecidas do seu texto, num exílio de espanto e beleza brusca, de fazer pensar, súbito, na morte prometida a todas as coisas
que se aproximam demasiado do nosso amor, e é então que tu dizes: há casas desabitadas, eu estou nessas casas
que tremem quando movo as mãos, a minha cabeleira palpita: é o sangue que sobe do coração apavorado e se faz dócil, quando o pente arrefece um a um os cabelos,
e então o meu nome é: pimenta, areia sentada, abertura da luz para onde saltam laranjas que pulsam,
ah, deixa-me passar, digo-te baixo como hoje me chamo e como nunca mais me chamarei: loucura,
loucura unida à rítmica matéria das coisas, e se abrires o teu sono, dessa vez única verás o que sou: uma figura
impelida pela vertigem, a inclinação do teu próprio conhecimento sobre a morte iluminada por todos os lados,
depois terei um só nome: revelação, até que os dias arquejantes me sufoquem e, no terror que te atravessa como água dolorosa,
eu seja a tua ilha a prumo, onde habitas, tu próprio uma ilha desabitada,
entre a lua como uma rosa infrene e os peixes frios e selvagens.
1 290
Manuel Bandeira
Na Rua do Sabão
Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe — pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.
Ele, foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar — nas águas puras do mar alto.
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe — pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas municipais.
Ele, foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar — nas águas puras do mar alto.
1 781
Herberto Helder
As Palavras 2
A pessoa escolhe a parte mais fria, e dispõe absolutamente a camélia ou a viva madeira da viola.
Tu sentas-te ao meio.
Fechas as janelas para que trema a treva sentada na cadeira.
Devagar move a mão, mais devagar a ciência.
E toma o espelho: que é veloz o terror.
Inclina o coração para o pássaro com a árvore, e a cor com o pássaro, e o canto com a cor.
Por cima, a luz com a crina espalhada em forma de rosa.
O frio lençol chega à sua brancura, o espelho chega à imagem.
A flor tropeça na roseira como, digo eu, como o sangue se infiltra no sono, e ninguém sabe.
Cravo agora e candeia, como a lua com as patas se empoleira no espaldar da cadeira.
Como tu mesmo avanças para o espelho feroz, respirando — e a sinistra imagem canta abaixo do pássaro, acima da ciência.
Como um lençol na cara, e a mão na lembrança.
Tão lenta como uma tábua ao sol — seca, dolorosa.
E o espanto que é criança a entrar na infância, e dá uma volta, e sai por uma estampa de ouro — a tristeza.
Talvez estar — maçã colocada num perpétuo silêncio.
Vivendo uma cor desesperada, um odor de mês cortado ao meio.
E o espaço que isto cria — um equilíbrio de lâmpada, uma lâmina alta.
Mas tu entras por um lado, e mexes os braços — voas, cantas abruptamente.
E estás então no outro lado — livre e morto.
Ressuscitarás inclinado, como todas as coisas.
És simples, e à noite apareces, ó árvore de cal, tábua a prumo — inodora, branca.
Tu sentas-te ao meio.
Fechas as janelas para que trema a treva sentada na cadeira.
Devagar move a mão, mais devagar a ciência.
E toma o espelho: que é veloz o terror.
Inclina o coração para o pássaro com a árvore, e a cor com o pássaro, e o canto com a cor.
Por cima, a luz com a crina espalhada em forma de rosa.
O frio lençol chega à sua brancura, o espelho chega à imagem.
A flor tropeça na roseira como, digo eu, como o sangue se infiltra no sono, e ninguém sabe.
Cravo agora e candeia, como a lua com as patas se empoleira no espaldar da cadeira.
Como tu mesmo avanças para o espelho feroz, respirando — e a sinistra imagem canta abaixo do pássaro, acima da ciência.
Como um lençol na cara, e a mão na lembrança.
Tão lenta como uma tábua ao sol — seca, dolorosa.
E o espanto que é criança a entrar na infância, e dá uma volta, e sai por uma estampa de ouro — a tristeza.
Talvez estar — maçã colocada num perpétuo silêncio.
Vivendo uma cor desesperada, um odor de mês cortado ao meio.
E o espaço que isto cria — um equilíbrio de lâmpada, uma lâmina alta.
Mas tu entras por um lado, e mexes os braços — voas, cantas abruptamente.
E estás então no outro lado — livre e morto.
Ressuscitarás inclinado, como todas as coisas.
És simples, e à noite apareces, ó árvore de cal, tábua a prumo — inodora, branca.
640
Mário-Henrique Leiria
CANÇÃO DA MANHÃ
como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
como os rios que te correm entre os olhos
como as esmeraldas que formam as asas dos teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar
assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste
assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes
Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti
e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre
803
Charles Bukowski
Máquina Mágica
eu gostava dos discos velhos que
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
arranhavam
conforme a agulha deslizava por
sulcos bastante
gastos
você ouvia a voz
saindo do
alto-falante
como se houvesse uma pessoa
dentro daquela
caixa
de mogno
mas você só escutava enquanto
seus pais não estavam
em casa.
e se você não desse corda
na vitrola
ela desacelerava gradualmente e
parava.
era melhor nos fins de
tarde
e os discos falavam
de
amor.
amor, amor, amor.
alguns dos discos tinham
lindos rótulos
roxos,
outros eram laranja, verdes,
amarelos, vermelhos, azuis.
a vitrola tinha pertencido ao
meu avô
e ele tinha escutado aqueles
mesmos
discos.
e agora eu era um garoto
e
os escutava.
e nada em que eu conseguisse pensar
na minha vida naquele tempo
parecia ser melhor do que ouvir
aquela
vitrola
quando meus pais não estavam
em casa.
1 105
Herberto Helder
Fonte - Vi
Estás verdadeiramente deitada. É impossível gritar sobre esse abismo
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. As vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.
No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.
Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. E um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração ias águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.
Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.
Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
— talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas.
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. As vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.
No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.
Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. E um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração ias águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.
Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.
Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
— talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas.
639
Renato Russo
O Reggae
Ainda me lembro aos três anos de idade
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei
Então gritaram: - Cresça e apareça !
Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia o jornal da tv
E aprendi a roubar prá vencer
Nada era como eu imaginava
Nem as pessoas que eu tanto amava
Mas, e daí, mesmo assim
Vou ver se tiro o melhor prá mim
Me ajuda se eu quiser
Me faz o que eu pedir
Não faz o que eu fizer
Mas não me deixe aqui
Ninguém me perguntou se eu estava pronto
E eu fiquei completamente tonto
Procurando descobrir a verdade
No meio das mentiras da cidade
Tentava ver o que existia de errado
Quantas crianças Deus já tinha matado
Beberam o meu sangue e não me deixam viver
Têm o meu destino pronto e não me deixam escolher
Vêm falar de liberdade prá depois me prender
Pedem identidade prá depois me bater
Tiram todas as minhas armas
Como posso me defender ?
Vocês venceram esta batalha
Quanto à guerra,
Vamos ver
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram para ter paciência
Falhei
Então gritaram: - Cresça e apareça !
Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia o jornal da tv
E aprendi a roubar prá vencer
Nada era como eu imaginava
Nem as pessoas que eu tanto amava
Mas, e daí, mesmo assim
Vou ver se tiro o melhor prá mim
Me ajuda se eu quiser
Me faz o que eu pedir
Não faz o que eu fizer
Mas não me deixe aqui
Ninguém me perguntou se eu estava pronto
E eu fiquei completamente tonto
Procurando descobrir a verdade
No meio das mentiras da cidade
Tentava ver o que existia de errado
Quantas crianças Deus já tinha matado
Beberam o meu sangue e não me deixam viver
Têm o meu destino pronto e não me deixam escolher
Vêm falar de liberdade prá depois me prender
Pedem identidade prá depois me bater
Tiram todas as minhas armas
Como posso me defender ?
Vocês venceram esta batalha
Quanto à guerra,
Vamos ver
1 089
Herberto Helder
1C
Criança à beira do ar. Caminha pelas cores prodigiosas, iluminações
da água, esmeraldas
exasperadas, as púrpuras. E entra na clareira. Passa,
toda. Está coberta de pólen.
A convulsão de uma jóia quando roda
abruptamente acesa. A cicatriz no tórax é uma
arborescência
a sangue e ouro. Nela se embebedam os enxames das imagens
estelares, vermelhas,
extremas.
Os favos no escuro enlouquecem a infância.
Nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre
o teorema perfeito
e terrível.
da água, esmeraldas
exasperadas, as púrpuras. E entra na clareira. Passa,
toda. Está coberta de pólen.
A convulsão de uma jóia quando roda
abruptamente acesa. A cicatriz no tórax é uma
arborescência
a sangue e ouro. Nela se embebedam os enxames das imagens
estelares, vermelhas,
extremas.
Os favos no escuro enlouquecem a infância.
Nas suas casas profundas Deus aguarda que se demonstre
o teorema perfeito
e terrível.
1 005
Herberto Helder
Elegia Múltipla - Vi
São claras as crianças como candeias sem vento,
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.
Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
— Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.
Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
— É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.
Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras —
cantando, pensando, dormindo loucamente.
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes — enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite — extremas e únicas.
— E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.
Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
— Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.
Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
— É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.
Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras —
cantando, pensando, dormindo loucamente.
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes — enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite — extremas e únicas.
— E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.
1 050