Poemas neste tema

Humanidade e Solidariedade

José Blanc de Portugal

José Blanc de Portugal

Oração Final

Poesia! Sem esperar voltei meu canto que é teu
As coisas de meu Pai que são as pobres criaturas
Caminhando a par de mim pelas ruas da amargura
Disfarçando mais do que eu a certeza que as leis tuas
Nada têm que ver com a minha piedade de evitarem
Cada maior dor seguindo à menos dura.
Deus Pai pudesse eu como Vosso Filho
Como irmão de Cristo, imolar-se só sem perder alguém
— Sem ter que fechar ouvidos ao Espírito Vosso
Cada instante inundando-me de luz! —
Sem vós tudo é impossível.
Sem mim tudo seria igual,
Mas fazei que meus iguais
Não sejam como eu tão miseráveis:
Crendo em Vós, sabendo-vos as provas,
mostro-me pior que os que vos esquecem!

A vossa Lei, a vossa marca não se
apagou de cada poro da minha pele
Dai-me a força de ajudar a todos com
um sopro do teu Ser que bastará
Pra todos e pra mim.

Fico na angústia da vossa perdida Graça.
Perdoai-me! Perdoai como eu devo perdoar!!
Fazei que eu perdoe!
Fazei-nos os Santos que Vos devemos!

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Viriato Gaspar

Viriato Gaspar

Índice

O homem é a matéria do meu canto
qualquer que seja a cor do que ele sente,
e não importa o motivo de seu pranto,
é um homem, meu irmão, e estou doente

de sua dor, e é meu o seu espanto
do mundo e desta hora incongruentes.
na trincheira do verbo me levanto
contra o que contra o homem se intente.

O homem é o objeto e o objetivo
de quanto sei cantar, e o canto é tudo
que pode me explicar porque estou vivo.

às vezes sou ateu, noutras sou crente,
em outras sou rebelde, em algumas mudo,
sou homem, e canto o homem no presente.

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Virgílio Fernandes Almeida

Virgílio Fernandes Almeida

A morena sestrosa e os 60 mais

Olho pela janela da sala e vejo apenas ruas completamente nevadas. Ninguém, nem uma alma viva! Apenas o frio, que ocupa cada pedaço dessa região norte da costa leste dos EUA, chamada de Nova Inglaterra. Do lado de dentro, a lembrança do calor tropical invade todos espaços da sala e do coração. O som toca incessantemente os príncipes da música brasileira: Tom Jobim, João Gilberto, Caetano e Gil. Os versos de Ary Barroso, na voz suave e no violão preciso de João Gilberto, ecoam e repicam na minha cabeça: "Brasil, terra boa e gostosa, da morena sestrosa de olhar indiferente…" Agora, quando preparo o retorno ao Brasil, depois de mais uma longa temporada no exterior, vejo as diferenças culturais entre o nosso país e os EUA pipocarem na minha cabeça.
A revista eletrônica "Slate", que chega no meu computador todo sábado de manhã pela Internet, publicou no início de dezembro uma reportagem intitulada "Os 60 mais". Para a surpresa dos leitores, não estavam ali relacionados as 60 maiores fortunas dos EUA. A lista era no entanto formada pelas 60 maiores doações feitas por pessoas à sociedade americana. Doações destinadas a propiciar avanços nas ciências, nas artes e na cultura. São doações que vão para institutos de pesquisas, universidades, hospitais, museus e bibliotecas principalmente. A lista foi encabeçada pela doação de 100 milhões de dólares, feita por um rico empresário de supermercados do estado de Utah para a criação do Instituto Skaggs (nome do empresário) de pesquisa em biologia química, com o intuito de estudar novos medicamentos. Um doador, que preferiu o anonimato, entregou a Universidade da Califórnia em Los Angeles um cheque de 45 milhões de dólares para a construção de um centro de pesquisa em genética e neurociências. Um casal de Nova York doou ao Museu Metropolitano da cidade quadros de Picasso, Modigliani, Braquer e outros no valor de 60 milhões de dólares. Embora não fazendo juz ao título de homem mais rico dos EUA, Bill Gates, presidente da Microsoft, doou 25 milhões ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Harvard, onde ele foi estudante no início dos anos 70.
Em 1996, as doações dos americanos perfizeram um total de 143,9 bilhões de dólares. Para se ter uma idéia do impacto que essas doações têm no avanço das ciências, da tecnologia e da medicina nos EUA, basta comparar os números acima com o total de gastos em pesquisa feitos pelo Ministério de Ciência e Tecnologia do Brasil em 1994, que foram da ordem de 900 milhões de dólares. Está claro que a sociedade americana não vê o governo como responsável por tudo! Há, por todo os EUA, um forte espírito de comunidade, que nós brasileiros cegamente teimamos em ignorar.
Mas por que tantas doações? Seria apenas generosidade? Claro que não! As razões são várias. Vão desde o caráter filantrópico, até as motivações de natureza moral, religiosa e histórica da sociedade americana. Por exemplo, a revista "Slate" espera que a publicação anual da lista dos "60 mais" acirre o espiríto competitivo entre os ricos americanos, para ver quem vai doar mais no próximo ano. Mas antes de tudo, as doações estão ligadas também à visão e ao pragmatismo do americano. Ou seja, investir naquilo que trará benefícios para a sociedade americana a longo prazo. E os investimentos nas ciências, nas artes, na literatura e na cultura em geral são favas contadas. São indispensáveis para qualquer país que busca uma qualidade de vida e um futuro brilhante para sua população.

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Horácio Dídimo

Horácio Dídimo

Convite

venham todos
conversemos numa comunhão vulgar
sobre as mulheres e o mundo
tiremos o paletó e os sapatos
leiamos os jornais em voz alta
brindemos aos fatos imprevistos
entoemos canções ao velho mar

e que a madrugada nos encontre assim
participando rumorosamente
de uma humanidade sem destino

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Silvaney Paes

Silvaney Paes

Pranto de Natal

Somos aqueles
meninos,
Abrolhados do cio da terra
Insano, promiscuo e profano,
Que comem luz e bebem chuva.
A lama que ocultais da consciência humana.

Não ansiamos por estrela guia,
Nossa realidade é fria e de continua agonia,
Nos recobrimos com a brisa da madrugada
E conhecemos toda ode da galáxia,
Estampada bem no teto de nossa casa.

Nesta noite, haveremos de cear nas latas
Sobre as calçadas, nas sarjetas,
Daquilo que sobejou às vossas mesas,
Para que seja nossa fome sempre farta,
Naquilo que nunca vos causou falta.

Vislumbraremos vossas árvores enfeitadas,
Os vossos mais refinados trajes
E sentireis asco de nossos andrajos,
Mas não poderemos vos tocar
Pois moramos do lado de fora de vossas casas.

Neste Natal... nos vendo deitados nas calçadas,
Havereis de lembrar que possuís alma
E nos trarão agrados e nos farão afagos,
Mas amanhã não será mais Natal...
E voltareis a nos ocultar as faces.

Noutras noites de tenebroso porvir,
Enquanto os vossos brancos linhos
Ainda estiverem provando de caros vinhos,
À noite tecerá seus negros fios,
Para que bebam as calçadas de nosso sangue,
E muitos de nós não poderemos chorar outro Natal.

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Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Humanamente Desumanos

O que será de nós
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós

O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você

Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos

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Herrique Guerra

Herrique Guerra

O Moringue

O sol que queima as folhas das palmeiras
E os pés caminhantes sobre a areia
O sol que traz o vento e afasta o peixe
Ele não esquentará a água do moringue.
Não há sol no canto desta casa
Há sombras dos luandos que fazem as paredes
A areia do chão traz a frescura da terra
Os caniços do luando têm a frescura
Que trouxeram das terras de Cabíri
Quando, de andar nas canoas, voltamos do mar
E a garganta vem a arder como se era sal
A água do moringue sabe-nos como nada mais.

E, a quem nos pede, com o coração alegre,
Nós a oferecemos, nas canecas de esmalte.

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Roberval Pereyr

Roberval Pereyr

A Quem e a Quê

ao que morde o vento
ao que come coca
ao que acorda triste

ao sol de um segredo
ao laço de fita negro
ao deus dócil, inapto

ao coração morno
ao rei de cor púrpura
ao urso sem pólo

ao corpo acossado.
ao Sísifo bêbado
ao cego sisudo.

al curso de los ríos
aos tristes camaradas

à luta de boxe
ao ox no pasto
ao meigo sem pérola

à carne com osso
ao fosso emblemático
à narco-society

ao santo sepulcro
ao lucro ao lucro ao lucro

ao símbolo fálico
ao cálice mítico
ao íntimo desastre

à pequena que come
o fácil chocolate

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Manuel Sérgio

Manuel Sérgio

Senhor

Senhor
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida

Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia

Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus

Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus

Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada

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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Litania dos pobres

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.
São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.
São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.
São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.
As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.
Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.
Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.
Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.
Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.
Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.
Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.
Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.
Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!
Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.
Imagens dos deletérios,
Imponderáveis mistérios.
Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.
Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.
Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!
Ó pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!
Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo...
Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.
Nos areiais e nas serras
Em hostes como as de guerras.
Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.
Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.
Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.
Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.
Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.
Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.
Como torres formidandas
De torturas miserandas.
E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.
E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.
E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.
E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.
Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!
Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.
Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.
Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho...
Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.
Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.
De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.
Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.
Vem nimbadas de magia,
De morna melancolia!
Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.
Balanceadas no letargo
Dos sopros que vem do largo...
Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.
Que como em águas de lagos
Bóiam nelas cisnes vagos...
Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.
E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.
Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.
Que vestes a pompa ardente
Do velho Sonho dolente.
Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.
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Corsino Fortes

Corsino Fortes

De boca concêntrica na rota do sol

Depois da hora zero
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração


E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta

África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda

Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra

*

A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha

partida partidas
E dobra a espinha

como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante

o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente
E muita luta.
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Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Palavras a um habitante de Marte

Será verdade que existes sobre o vermelho planeta,
que, como eu, possuis finas mãos prêensíveis,
boca para o riso, coração de poeta,
e uma alma administrada pelos nervos sutis?

Mas no teu mundo, acaso, se erguem as cidades
como sepulcros tristes? As assolou a espada?
Já tudo tem sido dito? Com o teu planeta acrescentas
a vasta harmonia outra taça vazia?

Se fores como um terrestre, que poderia importar-me
que o teu sinal de vida desça a visitar-me?
Busco uma estirpe nova através da altura.

Corpos bonitos, donos do segredo celeste
da alegria achada. Mas se o teu não é este,
se tudo se repete, cala triste criatura!

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Silvaney Paes

Silvaney Paes

Amor de Amigo

Amigo,
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...

Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.

Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

XXIV

O 4 é 4 para todos?
São iguais todos os setes?

Quando o preso pensa na luz
é a mesma que te ilumina?

Já pensaste de que cor
é o abril dos enfermos?

Que monarquia ocidental
se embandeira com papoulas?
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João Maria Vilanova

João Maria Vilanova

Canção para Joana Maluca

Para eles
eras unicamente a suja
a piolhosa
colhendo beatas
á porta do Nacional

E lestos
enquanto o sol brincava
no ombro alcantilado
das encostas
seus rafeiros te lançavam
de dentro dos quintais.

Joana
eles sabiam tua mão
e a temiam
(tua mão espinho-de-piteira
tua mão ngana-acusadora-mesmo
ah! kikata kikata muene)
até quando
estendida tua mão
pedia.

Na escudela da noite
entre cassuneiras e muxixis
uma pobre escura flor
adormecia...
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Sousa Caldas

Sousa Caldas

Ode ao Homem Selvagem

(...)

Estrofe 4a.

Que Augusta imagem de esplendor subido
Ante mim se figura!
Nu; mas de graça e de valor vestido
O homem natural não teme a dura
Feia mão da Ventura:
No rosto a Liberdade traz pintada
De seus sérios prazeres rodeada.

(...)

Estrofe 5a.

Eu vejo o mole sono sussurrando
Dos olhos pendurar-se
Do frouxo Caraíba que, encostando
Os membros sobre a relva, sem turbar-se,
O Sol vê levantar-se,
E nas ondas, de Tétis entre os braços,
Entregar-se de Amor aos doces laços.

Antístrofe 5a.

Ó Razão, onde habitas?... na morada
Do crime furiosa,
Polida, mas cruel, paramentada
Com as roupas do Vício, ou na ditosa
Cabana virtuosa
Do selvagem grosseiro?... Dize... aonde?
Eu te chamo, ó filósofo! responde.

Epode 5a.

Qual o astro do dia,
Que nas altas montanhas se demora,
Depois que a luz brilhante e criadora,
Nos vales já sombria,
Apenas aparece; assim me prende
O Homem natural, e o Estro acende.

(...)


Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).

In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.398-399. (Textos, 2)

NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
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Amélia Rodrigues

Amélia Rodrigues

Uma Simples Homenagem

Todos pensam que é fácil ser poeta
Fazer das lágrimas, versos
E acumulá-los de amor.
Mas existem os que lutam
Não só por si e por suas criações,
Como pelo engrandecimento dos valores ocultos...
Os que veem e ajudam a crescer beleza,
Em si e na humanidade...
Os que tentam, com os seus poemas,
Desobstruir os caminhos da vida
Deixando desfilar os seus versos
No corredor do coração do mundo.
Dentre estes, Soares Feitosa:
O singular "mensageiro do amor".

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Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Canto de um povo

Ontem chorei
lágrimas?
Não. Já não as derramo.

Ontem cantei
e até uma rosa plantei
(poeta que sou)
não floresceu.

Eu tinha em mente
uma canção
que apesar de
não ser algo novo,
falasse do povo.

A canção seria a mesma,
mas o cantor
seria o próprio povo.

Mas as portas fecharam
os lábios calaram
e eu fiquei só
com a canção e
a minha dor.

Eu vi a multidão
Eu vi o amor
diluído em dor.

E a canção
que pensei
calou-se em meu peito
em forma de pranto.

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Antoniella Devanier

Antoniella Devanier

Femininas

Sombras doces, que escondem vidas
Doces onças, que ferem as grades
Pacatas visões, que encontram ninas
Minhas onças femininas, num harém.

Desferem garras e golpeiam memórias.
Ana Cristina Cesar que revive estórias,
Marias que alimentam filhos livres,
Adélia Prado e suas novas glórias.

Aleluias, minhas meninas-tigres
Meio-onças que revivem lidas
ao lado de seus machos heróis,
em batalhas ocultas e diárias.

Não olvidem dessas sombras doces
Que acompanham tigres ou outras onças.
Apenas, amem a labuta de seus olhos,
são ternas retinas, femininas.

889 1
Helena Ortiz

Helena Ortiz

Prioridade para o social em tempos de FHC

Enquanto uns
sorriem e freqüentam os salões
do exterior
no interior os excluídos
ao relento cerram bocas.
Enquanto uns
dormem em suites, almofadas
e relaxam em hotéis
do exterior,
gentes se fundem às terras
que não possuem
e escutam seus escuros.
Enquanto uns
comem iguarias requintadas
e se entregam aos prazeres
mundanos,
o homem pobre
reparte a gororoba e sonha a horta
riso de horta.
Enquanto uns
levam filhos e netos
com direito a saberes exclusivos
no exterior
o homem destinado a nada
a mulher destinada a nenhuma
enterram em caixotinhos
os anjinhos vitimados
aos leões.

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Joaquim Pessoa

Joaquim Pessoa

Europa Acidental

Europa acidental
Aqui nem, mal nem bem
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
É porque a gente nasce
De um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
É natural (naturalmente)
Que haja gente também
Gente que é gente de bem
E gente que é apenas gente.

Europa acidental.

O mal
É Ter na nossa frente
Um mar de sal.
Um mar de gente
Que de repente
(é assim mesmo: de repente)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.
1 893 1
Honório Armond

Honório Armond

Palavras a Um Crente

— "Que vem a ser o Bem?" — perguntas. Digo
que nunca, até hoje, francamente, eu pude
entre o joio do mal achar o trigo.
O pecado é irmão-gêmeo da virtude...

Chamas a todos - Meu fraterno amigo!
A tua alma ingênua, meu irmão, se ilude...
Faze como eu que, há muito, já não sigo
fogos-fátuos brilhando na palude...

Leva este mundo tal como é... Mascara
as tuas emoções, o ódio, a alegria,
cerra o teu coração, aguça o olhar,

que hás de ver entre a turba ingrata e ignara
o Mal, que de virtude se fazia,
rir-se de gozo ao ver alguém chorar...

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Angela Melim

Angela Melim

No peito

O pivete de óculos escuros
a comerciária
de pé inchado e sapato alto
o bacana de cordão de ouro
a madame mandona chorosa avoada
as varizes tortas da lavadeira
a carne branquela e sarapintada
dentro das bermudas dos aposentados;
suor azedo de ternos puídos
bijuteria
peitos caídos
o olho parado da empregada doméstica
a carapinha esticada;
chinelos de dedo
pés derramados
dedos que faltam nas mãos dos operários
bocas sem dentes
e mães sem fim
de unhas escalavradas
a reproduzir toda cidade do Brasil
atravessam
meu peito
e as avenidas presidente Vargas.
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Virgínia Schall

Virgínia Schall

Evocação feminina

(Dedico este poema às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles,
Henriqueta Lisboa (in memoria) e especialmente à poeta e amiga
Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres
poetas de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos
séculos.)

Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras

E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.

Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes

Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias

Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.

O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?

Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas

Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!



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