Poemas neste tema

Humanidade e Solidariedade

Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Etiópia, Etiópia

Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.

Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
709
Christine Lavant

Christine Lavant

Eu quero partir com os loucos o pão,

Eu quero partir com os loucos o pão,
migalhas diárias do desespero grande,
também o sino em meio ao peito,
ali onde o pombo aninha-se
e tem seu refúgio minúsculo
no ermo sobre as águas.
Residi por anos como pedra
no chão das coisas.
Eu ouvi, porém, o sino
sussurrar teu segredo
nos peixes com asas.
Hei-de aprender a voar e nadar,
deixar o pedregoso sob as pedras,
aconchegar em madrepérola
a melancolia, elevar aflição, ira.
Minhas asas são mais velhas
que tua paciência, minhas asas
vão à frente da coragem
que tomou sobre os ombros o louco.
Eu quero partir com os loucos o pão,
ali no ermo assustador do pombo,
onde o sino triparte o maior desespero
ao som tríplice do teu nome.
691
Sidónio Muralha

Sidónio Muralha

Menina fútil

A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…

– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…

A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …

… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )

Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;

– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…
654
Angela Santos

Angela Santos

Cântico

Sinto-me,
e sou
em todos os lugares,
todos os tempos
Húmus.. matriz, Isis..

anfíbio largando os mares
animal comendo raízes
mão que se abre para colher frutos
corpo ainda não erecto
que se levanta do chão...

Shiva, Kali, incensos orientais....
arca, diluvio, sargaça ardente
no cume de uma montanha,
eco de uma voz longínqua
mandamentos, mar vermelho
de sangue

Esfinge dos desertos
brisa marinha no rosto.
barco fenício sulcando mares,
pórtico grego, ´"Ágora", coluna romana,
crueldade, circo de Nero.
catacumbas, carne rasgada
cruz exposta, agnus dei

Oração de santo monástico
acesa violência de bárbaros,
"Trevas", medieva luz, busca de eremita.

Navio das descobertas, mares e monstros
dentes podres de escorbuto,
Índias longínquas, astrolábio, estrela polar
marinheiro português

Copérnico, Galileu, metódica dúvida
sem método
ardendo na fogueira dos medos Inquisitoriais
Iluminada revolução, igual, fraterna, liberta,
libertária., sanguinária , Bonnapart
fuga de Bach, Sabat "matter"

Redondela, dança de roda ..campo
seara, camponesa tosca
inocente sagração da vida,

10 de Outubro, sol da terra, Tosltoi, Lenine
amanhãs que não cantaram
ruas de neve vestindo
a morte …. ideologias

Cidade Luz , euforia,
Garçonettes,
Gorges de Sande
Wilde, Monet, Picasso, Gaugin
Comte, Nietsche,
infinito crer, vontade,
Homem, Humanidade
Poder

Cruz gamada, fuzil, horror
Estrela de David, rasgando o peito
Auchewitz...trem humano
rosto da desumanidade.
crematório,
vergonha
culpa
dor

Manhã de Fevereiro,
meu grito recém-nascido.
infância, dor, descoberta
trevas ,luz, alvorecer
caminhada, construção, desconstruçãoeu
a caminho de o ser

1 047
Jaroslav Seifert

Jaroslav Seifert

Vi apenas uma vez

Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronômico
e hoje sei o porquê.
O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
por muito tempo esperado
e lábios
que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.
(tradução de Aleksandar Jovanovic)
986
Angela Santos

Angela Santos

Mundo

Tudo
me lembra o imundo
e de beleza é a sede
dos meus olhos
de cada fibra do meu corpo
de cada nervo que me percorre

Tudo me lembra o imundo
e cada gesto, cada rosto
cada palavra
renova a lembrança da náusea

Sacode o meu corpo um leve estertor
e numa sonata de luz
lavo os resquícios
da sujidade humana que trago em mim.

1 076
Lila Ripoll

Lila Ripoll

A Gabriela Mistral

Um nome tão simples,
a força que tem.

Três letras apenas,
três letras pequenas,
não custa dizer.

Joguemos o nome
por onde passarmos
e o nome tão simples
veremos crescer.

(...)

Veremos os homens
de todas as raças
de todas as línguas
na paz se encontrar.

Joguemos o nome
— ó sim, Gabriela —
por onde passarmos
e onde estivermos;

aos mais distraídos,
aos desesperados,
e todos um dia
nos hão de escutar.

(...)

A paz despontando
nos cantos do povo.
No canto dos ventos
a paz a cantar.

(...)

O nome brotando
de todas as bocas,
em todas as línguas,
na terra e no mar.

Três letras apenas,
três letras pequenas,
um nome tão simples,
a força que tem.


Publicado no livro Novos Poemas (1951).

In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.109-11
1 581
Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

Pezinhos

Pezinhos de criança
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!

Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!

O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;

Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.

Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heroicos como sois
perfeitos.

Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!

2 238
Junqueira Freire

Junqueira Freire

O Jesuíta

Era longe — bem longe: e eu vim primeiro
Cindindo as ondas desse mar profundo.
E por amor da Cruz vaguei sozinho
Nas ínvias matas desse novo mundo.

O tamoio gentil ervava as setas,
Quando pelos vergéis, tão seus, me via:
E co'os olhos fosfóricos ardendo
A taquara fatal a mim tendia.

E tendia a taquara, — mas ao ver-me
Quão sem temor e quão inerme estava,
Trocando em doce o seu olhar fogoso,
O arco e a seta pelo chão rojava.

De mim as tribos bárbaras, indômitas,
De mim o verbo do evangelho ouviram.
E ergui a cruz nos píncaros dos montes,
E após o verbo os povos me seguiram!

Eu disse às tribos: — Todas vós sois ricas,
— Que o ouro e a prata o solo vosso esmalta.
Sois ricas tribos, — mas não sois felizes,
Porque uma crença de um só Deus vos falta.

E eu dei às tribos uma crença doce,
Qual uma chuva de maná celeste:
E as tribos foram desde então felizes,
Qual flor pomposa que os jardins reveste.

E quando os reis da terra se esqueceram
Das tribos dadas a seu cetro forte,
Eu levantei-me, e disse aos reis da terra,
— O povo geme: Transmudai-lhe a sorte. —

Eternos templos eu ergui sozinho,
Eternos como a duração da terra.
E sozinho sagrei altares tantos
Ao Deus que aos ímpios c'o trovão aterra.

Eu dei às tribos uma crença doce,
Eu levantei alcáceres eternos.
Deram-me os homens proscrição e morte,
Deram-me em prêmio as fezes dos infernos.


Publicado no livro Inspirações do Claustro (1855).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.1
5 370
Angela Santos

Angela Santos

Humanum

Nada
mais,
além deste humano sentir…

à força de quê
calar a mágoa que nos afoga ?

Humano querer,
simples traço da humanidade,
indelével marca impressa
na verdade de humano
ser.

678
Antônio Brasileiro

Antônio Brasileiro

Tempo

1.
Canto porque em mim
brotam quarenta mundos.

Quero cantar.

2.
Cantar os hímens rotos?
os amigos mortos?
Cantar o suor do rosto? a
dor nos rins?
o imposto de renda? a conta
da luz?

Não, não cantarei
as dores que não sofri.
Cheguei, irmãos, para
cantar os cantos
que sei.

3.
Sei do tédio, sei da mágoa, sei
de algum remorso esparso;
sei da difícil amada,
sei de meus olhos, meus braços.
Mas por demais me cant(s)ei:
agora busco outros cantos.

4.
Não cantarei os Andes de Neruda,
não cantarei Espanha de Picasso,
África de Cesaire, Pernambuco
de João Cabral de Melo Neto.

Nem China, vasto amor de Mao,
nem Itabira.
(Em boas mãos prossigam)
Cantar os tempos presentes
— estes áridos tempos —
eu cantarei.

5.
Vietnã, teu nome
jazerá escrito a ferro e pétalas.
Nós venceremos, Vietnã.
Congo, não foi em vão
o grito de Patrice.
Nós venceremos, Congo.
San Domingos Havana Bogotá
Buenos Aires Brasília:
nós venceremos!

Venceremos porque na pele
sentimos — demais — vergastas.
Duras vergastas na carne,
na sombra que se projeta.

Duras vergastas na cara.

6.
E após meu canto, escutarei apenas
— como se escuta passar o vento —
o amor brotando das palmas
de nossas mãos.

Escutemos!!

1 029
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Jean-Jacques Rousseau às Avessas

o amor do próximo universal
ou a lógica do contrato social
é o papo furado triunfal
dos que seguem as lutas sindicais
pelos jornais
os amorosos nada morosos
na hora da comilança
sabem muito bem
como encher a pança


Publicado no livro Isso Não É Aquilo (1982).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 415
Carlos Vogt

Carlos Vogt

Presenças de Vinicius

De tudo à tua ausência, por seres um e múltiplo serei
atento
antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
que, se te espedaças em vão contra o infinito,
recolhem-se os fragmentos no teu canto
que sempre se inicia e é sempre último.

Por seres, pois, quem me foste um dia,
sombra e luz, azul e branco, carnaval e cinzas,
sugestão de amor, verbo, saciedade e fome,
de repente se me afigura o verso, o samba, a namorada,
o bar,

em que sentado à mesa em boa companhia,
conheci o poeta sem jamais ter visto o homem:
o homem com seus sonhos de quem invejo os pares
inveja dos seus deuses de quem desejo as ninfas.

Na roda de cerveja, entre amigos e dilemas,
como um Castro Alves na província ardente de seu co-
ração,

recitei retórico a sina do operário
que erguendo a casa de sua liberdade
construía alheia a própria escravidão;
cantei o amor que tive e que não tive
(e por isso dura)
e porque era sábado
ali me apaixonei pela mulher distante,

leve e etérea como uma estrela longe,
feita não só do mangue de carências longas
e amarguras
mas da pureza vaga e sensual do sangue dos poemas.


In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
995
Ruy Cinatti

Ruy Cinatti

De monte a monta

De monte a monta, o meu grito
soa, soa, como voz
de um eco do infinito
ecoando em todos nós.

Timor cresce como um grito
ecoando em todos nós.

2 365
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Poema da Prece e do Amor Perdido

Aos adolescentes de Israel, Gaza, Cisjordânia e Soweto,
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)

II

Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.

(...)

Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.

III

Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido

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In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
802
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Cartão Postal

Domingo no jardim público pensativo.
Consciências corando ao sol nos bancos,
bebês arquivados em carrinhos alemães
esperam pacientemente o dia em que poderão ler o
[Guarani.
Passam braços e seios com um jeitão
que se Lenine visse não fazia o Soviete.
Marinheiros americanos bêbedos
fazem pipi na estátua de Barroso,
portugueses de bigode e corrente de relógio
abocanham mulatas.

O sol afunda-se no ocaso
como a cabeça daquela menina sardenta
na almofada de ramagens bordadas por Dona Cocota
[Pereira.


Publicado no livro Poemas (1930). Poema integrante da série O Jogador de Diabolô.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1959

NOTA: Referência ao romance O GUARANI de José de Alenca
3 606
António Quadros

António Quadros

Ode ao Cristo

das Janelas Verdes

Quem te pintou triste e secreto,
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Quem te pintou saudoso,
Talvez do Céu, talvez do Homem,
Talvez da criação antes da prova,
Quem te pintou assim, sereno e encoberto,
Imagem nova
Que um povo a ti votado
Um dia descobriu?
Ninguém conhece o mestre que te viu
Enigmático, silencioso,
Um Deus, dir-se-ia, envergonhado,
Mais que humilhado,
Vexado
Porque a palavra se cumpriu,
Porque na hora precisa
Os seus irmãos eleitos
O julgaram,
O feriram,
O mataram
E porque ao longo deste tempo interminável,
Após a crucifixão,
Após a ressurreição
O julgamento prossegue,
A tortura, o crime,
A traição,
O deicídio constantemente perpetrado
Ao sabor da existência quotidiana.
Ninguém conhece o pintor, o iniciado,
O sabedor do mistério
Que é o longo movimento necessário
Do nosso universo imaginário,
Onde tudo é signo e símbolo,
Onde o olhar de Jesus, encoberto,
Ensina a suprema perfeição
De um Deus capaz de amar
E de chorar,
De um Deus assassinado capaz de ressurgir
E de voltar
Sem parábolas, sem cifras, sem véus
Na plenitude da final revelação.

Ah, não, bizantinos sonhadores,
Não estetas da Itália,
Da França,
Mestres da Flandria,
Da fria Inglaterra,
Da férrea Germânia,
Não pintores da Espanha,
Vossa não podia ser a exata imagem
Que um português criou e jaz sepulta
No Museu das janelas Verdes, em Lisboa!
De Ti, sábio Jesus,
Promotor do movimento necessário,
Homem secreto do futuro cumprido,
De Ti fizeram um diáfano celeste
De ouro ornado e neste mundo perdido,
Um reflexo do maravilhoso céu sonhado,
Entre nós caído
Para que místicamente o contemplássemos...
De Ti fizeram um Orfeu ou um Apolo,
Querendo idealizar-te à helênica medida,
A finita estrutura
Do sedutor, estético humanismo...
De Ti fizeram um racional justiceiro,
Um implacável profeta, um missionário
Da Lei divina,
Um Rei,
Um General,
Um Papa,
De Ti fizeram ainda um comerciante de almas
Demasiado carnal,
Demasiado terreno em cenas burguesas,
Em habituais paisagens holandesas,
De Ti fizeram um transcendente imperador
Que pela vontade e nela inteligência
Os homens foi capaz, de dominar...
De Ti fizeram um humano angustiado,
Primeiro Ator do teatro do mundo,
Aflito protagonisa de tragédia...
Mas Tu não choras, ó Cristo,
Pelo Teu padecimento,
Não sais fora de Ti em esgares de sofrimento,
Não és o magro asceta castelhano,
O torturado místico envolto em sombras,
O cadaveroso deformado!

Sofres, sereno,
Sofres, saudoso,
Sofres, sábio e santo
Mas não por Ti,
Se sofres é por nós, sempre e hoje,
Nos no longo, interminável tempo,
Nós em guerras, em doenças, em horrores,
Nós, infiéis de geração em geração,
Nós perdidos,
Nós esquecidos,
Nós, livres, libertos, todavia,
Senhores da invocação, da decisão,
Senhores da graça luminosa
Ou do erro gasto e repetido.
Sofres secreto
E o teu olhar de fogo ficará oculto
Até que à pureza humana o possas desvelar.
Este é o povo das grandes, longas quedas
E também das grandes, fundas intuições,
Este é o povo que em Cristo vê o Messias revelado
E também o Messias encoberto de porvir,
Este é o povo que ama o Deus menino
Porque até na maturidade do Cristo renascido
Descobre a virtualidade infinita, irrevelada,
O imenso Ser, para lá de toda a imagem,
O Espírito sem limites que a infância anuncia
E que jamais, num conceito, num olhar,
Jamais numa verdade humana se detém.
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Ó Cristo encoberto e final,
Vem,
Traz até nós o que ainda não somos,
Ensina-nos a sermos o para que nos criastes,
Em nome do nosso apelo,
Em nome do nosso sonho,
Em nome do nosso almejar-te e conceber-te
Tu e Outro,
Patente e todavia encoberto
Como no Ecce Homo das Janelas Verdes,
Em nome do desejo de total superação
Que subsiste no coração de todos os humanos,
De todos sem exceção,
Vem
E consagra a matéria deste mundo,
O que em nós pesa e obsta
A luz imensa do Teu Espírito,
Que todos pressentimos,
Todos sem exceção,
Ainda quando três vezes Te negamos.

Ó Cristo próximo e distante,
Ó Cristo saudoso,
Misterioso,
Vem...
Conhecemos a dor,
Tarda-nos o amor,
Vem conosco no termos merecido
O império de paz que no mundo cindido
Entre gente próxima edificamos,
Vem conosco no olharmos ao espelho dos teus olhos desvelados.
A nossa clara imagem descoberta,
Vem conosco, Irmão,
Na alegria de cantar aos quatro ventos,
Nos cinco continentes, nas terras e nos céus,
Ecce Homo! Enfim, enfim, o Homem!

1 186
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Ciranda dos Meninos da Cidade Grande

Senhora Dona Sancha
coberta de ouro e prata
que anjos são esses
que andam rodeando
pelas ruas da cidade
dia e noite noite e dia
padre-nosso! ave-maria!?...

É o anjo-fujão-de-casa
que veio de circo em circo
andando no trem de carga
ou no aéreo porta-mala.

É o anjo-luz-dos-sapatos
(vai graxa negra, patrão?)
ajoelhado aos pés do homem
que é quem lhe deve perdão.

É o anjo-da-guarda-dos-carros
pastor de ovelhas de lata
assobiando na flauta
da sua garganta asmática.

É o anjo-do-amendoim
(nem um pouco afrodisíaco)
fugindo ao rapa do fisco,
ao seu medo e à sua anemia.

(...)

É o anjo-torto-e-raquítico
apodrecendo faminto
e amamentando na esquina
com leite de mãe menina.

É o anjo-dos-restaurantes
catando as migalhas das mesas
onde os problemas do mundo
naufragam em mar de cerveja.

É o anjo-da-rosa-noturna
vendendo aos noivos que riem
o aroma sem cor de seu mundo
e a murcha flor de sua vida.

É o anjo-carregador
chupando a laranja podre
que cai do excessivo cesto
da despesa das patroas.

(...)

É o anjo-rei-dos-mendigos,
filho de mãe postiça
orfão de pai foragido
adotivo do Juizado.

É o anjo-do-sexo-triste
herdeiro da tara e sífilis
no seu promíscuo exercício
nos quatro cantos das ruas.

É o anjo-das-negras-nuvens
que saem da boca do vício
puxando o sonho proibido
do ópio que o faz mais livre.

É o anjo-assaltante-franzino,
o corpo atrás do revólver,
matando o ódio do amor
em cada tiro assassino.

Senhora Dona Sancha
dê seu ouro dê sua prata
que estes anjos não são anjos
são os filhos da cidade
— nossos filhos, mãe de asfalto —
rodeando dia e noite noite e dia
sem pai nosso! e sem maria.

1975

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Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.36-38. (Sélesis, 13
1 472
Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

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Proibido colocar cartazes:
em chão
parede
poste.

(Em homem:
pode.)

1963


Poema integrante da série Inéditos, 1971/1977.

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.31. (Sélesis, 13
1 610
Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

Os Subvivos

III

Na sobremesa
os convivas
alheios à fome
de quem ficou
sob a mesa.

Não os seduzem
os subvivos.
Os subnutridos
do subsolo.
Os subjugados
do subsolo.
Todos os súditos
do subsolo.

E os que sub/irão
ao solo
pra exigir seu
lugar ao sol,
na feroz luta
entre os vivos
e os subvivos?

E os que sob
a mesa
só roeram os
ossos
que sobraram
da sobremesa?


In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.119. Poema integrante da série Diavirá
2 718
Antônio Massa

Antônio Massa

Instruções para se Encerar um Homem

É necessário que o homem
- aquele desnecessário infeliz -
seja varrido
cuidadosamente
dos pés a cabeça
e lhe sejam guardados
seu egoísmo
orgulho
cinismo
apanhados no caminho
numa caixa acima de sua nuca

deve-se então ir ao cume
e encerá-lo
da cabeça à barriga,
começando no seu bom senso
e seguindo pela sua astúcia
no estômago
deve-se erguer a esperança
a qual você encontrará sendo digerida
pelo racionalismo natural, porém idiota.
prosseguir até os pés
encerando muito bem sua humildade
encontrada nos joelhos
espera-se que seque
e segue-se polindo
dos pés à cabeça
todo o homem
ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
é quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem
perfeito

895
Antônio Massa

Antônio Massa

Não há Vagas

Buscamos vagas
nas casas, nas mágoas
no ofício de Gente
no prato do irmão

Buscamos as vagas
nos muros, na arte
e nos arremates
de vida e de sorte

E na morte
buscamos a paz
e as chagas das vagas
das quais poucas jazem

Mas os senhores da ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno

E, ao menos, poderemos
morrer mais tranqüilos
sem enfrentar filas
nos barrancos, estradas, asilos

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Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Depois da Opção

Um reposteiro o mais espesso
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção

Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.

A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram

mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.


Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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Germano Machado

Germano Machado

A poética de Antônio Massa

Mosaico é termo relativo ao grande profeta e legislador do Antigo Testamento — Moisés, um grande líder e condutor, figura destacada no pensamento universal e de seu povo. O livro do jovem Antônio Massa tem algo desse mosaísmo, pois jovem embora, seus poemas indicam força e até madureza imprópria. Os poemas Cartesianos, Brasil, Hino Independente, Anjo Torto; Morte em Solstício; Fundo; Tarifa, Inverno Materialista e tantos outros movem-nos um fio condutor de criatividade e de pensamento. Prelúdio às Faces do Poema lembra o sentido drummondiano, no conjunto, dentro do temperamento aberto. Em Galeria Técnica, Antônio Massa como que atinge um barroco moderno e, mesmo com o espaço curto, cito-lhe este versete final: "Proibido a estranha / entrada das pessoas / na estranha entrada / desprovida de entalhes / proibidos, proibitivos / e tão cultuados / das galerias imersas / nas entranhas da vida / Proibido a vida / das pessoas que entraram".
Antônio Massa significa para o CEPA uma expressão renovadora nos 45 anos desta entidade que vem de 51. À quase noite, boca larga da boca que se vai espreguiçando, de um dia deste ano, aparece, conversa comigo e Alexandro J. Santos. Li algumas poesias suas, achei-as fortes e maturas para um rapaz. Está conosco e, com outros, espero (verbo que mais uso com freqüência, talvez obsedante) venha a ser/fazer a Geração de Fim de Século diante do Terceiro Milênio de um CEPA que sobreviva a seu fundador. O que me deixa vangloriado é que, aos setenta anos, ainda, nessa monomania da minha existência, que é o CEPA, tenho forças Juvenis (não riam) para sonhar e ver, nos que me aparecem, os apóstolos de uma idéia-ideal. Ingênuo? Sim, poeta, alienado do poderio da máquina e da fabricação de máquinas humanas, junto-me a esses moços, como Antônio Massa, que ainda ousam poetar.
Termino com um poema-lição, italiano e latino-americano, lição para este mundo agora: "Eu nasci / Está no papel / Eleitor / Está no papel /Identidade / Duas vias Ambas no papel / Minha vida Plastificada / Minha Pessoa Resumida a 3x4 / Minha revolta Autenticada 6.586.598-71 / Está no papel e em todos os papéis / homens carimbados / buscando papel de gente". Não surge aurora em um Poema assim tão humanístico e vital?

Germano Machado

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