Poemas neste tema

Humanidade e Solidariedade

Marcelo Reis

Marcelo Reis

O Homem que Canta

O Homem que Canta

Ouça o homem que canta
Ele está chorando coisas
Tremula a atmosfera
Faz vibrar teu coração

Aquele homem que susurra aos ventos
Presta atenção nele
Que é a verdade que salta de sua boca
Os primeiros sorrisos e as últimas lágrimas

Se tu te arrepiares com a brisa
Não te assustes, é o homem e sua canção
Não te finjas de surdo, ouça a música

Depois de compreender porque o vento sopra
E porque os homens, apesar de tudo, cantam
Serás capaz de te eximir toda a dor

1 143
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

Erram todos – judeus, cristãos,

Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
715
Abul ʿAla Al-Maʿarri

Abul ʿAla Al-Maʿarri

Agora imperam esta fé e esta crença

Agora imperam esta fé e esta crença
Até que por outras sejam vencidas.
Homem, temes só com homens vivas,
Dessarte escolhes viver com lendas.
619
Ghérasim Luca

Ghérasim Luca

18 de novembro de 19..

18 de novembro de 19..
Prezado,
O desmoronamento de certos sólidos, ainda que enganador, permite-lhe planar. Aquilo que lhe parecia um abismo torna-se o próprio espaço da sua espessura.
Graças a você, tomo meu impulso...
Mas parece que toda relação com o próximo não passa de vias de aproximação; no momento decisivo, e por uma exigência recíproca, cada um coloca ao outro as questões essenciais.
Ainda hoje bebemos desses ursos.
:
18 novembre 19..
Monsieur,
L’éffondrement de certains solides, bien que trompeur, vous permet de planer. Ce qui vous paraissait un abîme devient l’espace même de votre épaisseur.
Grace à vous, je prends mon élan...
Mais il paraît que tous les rapports avec le prochain ne sont que voies d’approche; au moment décisif, et par une exigence réciproque, chacun pose à l’autre les questions essentielles.
Nous nous abreuvons encore aujourd’hui à ces ours.
624
Chagas Val

Chagas Val

Poema 10

A vida reinventada
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.

1 290
Milena Azevedo

Milena Azevedo

O povo de Morus

Povo perfeito
com um simples jeito
de viver e uma grande
vontade de aprender.

Leis de fácil acesso,
governantes corretos
e modestos;
lá nunca há protestos.

As mulheres têm direitos
igualitários.
Até na guerra são
solidários.

O jogo, a cobiça, a intolerância
não são sinônimos de bonança.
O respeito mútuo e a religião
do ser absoluto é que faz toda essa união.

785
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Só Não Seja um Mendigo

Um mendigo
Cruza meu caminho
Alguns o ignoram
Outros o amaldiçoam,
em silêncio.
Nenhuma palavra
Parece merecer
Só o desprezo
Basta
Por enfiar suas
Unhas sujas no pão
Que, por sorte,
Conseguiu.
Ou pelo cheiro
Que poucos narizes
Suportariam.
E aquelas, garrafas,
latas, coisas sem valor.
Lixo
O que ele quer?
Dinheiro?
Então Roube.
Quer Felicidade?
Se vire,
E beba álcool, durma
Desapareça.
Só não seja mais
Um mendigo
A cruzar meu caminho.

994
Bernardo de Passos

Bernardo de Passos

Quadras Soltas

Pra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.

Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.

Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.

Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

2 045
Zbigniew Herbert

Zbigniew Herbert

O Sr. Cogito lê o jornal

A primeira página diz
120 soldados mortos

a guerra foi longa
você se acostuma

bem ao lado a notícia
de um crime incrível
e a foto do assassino

o olhar do Sr Cogito
se move indiferente
pela hecatombe de soldados
e mergulha com deleite
no macabro quotidiano

camponês de trinta anos
então maníaco depressivo
matou a própria esposa
e mais duas criancinhas

contam o modo exato
com que foram mortos
a posição dos corpos
e outros detalhes

é inútil tentar achar
120 perdidos num mapa
a distância tão remota
esconde como floresta

não falam à imaginação
há demasiados deles
o zero no fim os transforma
em mera abstração

um tema para refletir:
a aritmética da compaixão.

(tradução de Dirceu Villa)


.
.
.
921
Teixeira de Melo

Teixeira de Melo

Ao Sol

Não te amo, ó Sol, senão como rascunho
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.

Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!

Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!

Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!

É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.

Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!

Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,

No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.

Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!

1 010
Brasigóis Felício

Brasigóis Felício

Matadouro do Dia

Avisem os tristes da cidade:
darei de beber
de meus olhos naufragados
a quem ficar a meu lado.
Darei de comer
de meu corpo violado
aos nus, aos desesperados.
Venham beber o vinho amargo
da minha bêbada amizade
os que nunca se encontraram.
Voltaremos tristes para casa
(o peso do mundo nos ombros).
Só depois de beber, e ficar puros
esqueceremos as coisas
(seus escuros muros altos).

Venham beber o vinho amaro-amargo
do meu sangue torturado.
No porto inseguro de mim
há pão e fel para todos.
O país é rico e sujo:
amanhã seremos degolados.
Darei de beber
de meu sangue aleijado
aos tristes, aos suicidas
aos pederastas, às prostitutas.
Vamos todos, mutilados
ao matadouro do dia!

1 277
Bráulio de Abreu

Bráulio de Abreu

Semeador

Busca semear, na vida, o próspero e fecundo
Grão do teu sentimento. E verás, algum dia,
A árvore produzir, para a glória do mundo,
Flores e frutos bons, de humildade e alegria.

Vela o sono fugaz do infeliz moribundo,
E esquece a própria dor que tanto te angustia,
Porque o alheio mal é maior, mais profundo,
E o teu destino é encher a mão que está vazia.

Pede a Deus, que te vê da pupila dos astros,
Pelos que vivem sós, pelo destino incerto
Desses que vão e vêm, onde há velas e mastros.

E nunca, em toda a vida, o desamor te vença
Teu dever é florir o mais bruto deserto,
Sem, ao menos, pensar na menor recompensa.

1 890
Carvalho Nogueira

Carvalho Nogueira

História de Trancoso

Cartões, folhinhas vivem repetindo
"Feliz Natal e Próspero Ano Novo"
e à sucessão dos anos vão provando
que estas palavras não têm mais sentido.

São tantas as pessoas deserdadas
nas festas do Ano Novo e de Natal,
que hoje a figura de Papai Noel
devia ser proibida em toda parte.

Se os presentes não chegam para todos,
é pecado mortal a fantasia
do lendário velhinho dos brinquedos.

Pelo menos se diga aos infelizes
que este Papai Noel tão decantado
nunca passou de história de Trancoso.

786
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

NUVENS

NUVENS


No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
Obrigações morais e civis?
Complexidade de deveres, de consequências?
Não, nada...
O dia triste, a pouca vontade para tanto...
Nada...

Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol
(Também estive ao sol, ou supus que estive),
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.
Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em todo o novo...

Não sentem: por isso são deputados e financeiros,
Dançam e são empregados no comércio,
Vão a todos os teatros e conhecem gente...
Não sentem: para que haveriam de sentir?

Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício
Sob o sol, álacre, vivo, contente de sentir-se...
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda
Paro o mesmo destino!
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho,
Vou com ele sem desconhecer...

No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
No dia triste todos os dias...
No dia tão triste...


13/05/1928
2 379
Corrêa da Silva

Corrêa da Silva

Poema do Garoto Anônimo

Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...

Garoto que nasce nos quartos miseráveis dos cortiços
e que fica analfabeto,
por não ter um livro para estudar...

Garoto que não conhece o pai, não sabe o seu nome
e que é filho de uma dessa mulheres pálidas e tristes;
mulheres magras e maltrapilhas;
mulheres que tossem muito
e que têm as mãos calejadas de tanto trabalhar...
Garoto de "cabelo de espeta-goiaba",
camisa de meia listrada
e calça de riscado bem grosso...

Garoto que não tem nem cubos
e nem patins
nem bicicletas
e nem trens de ferro para brincar...
E que esquecido do resto do mundo,
fica, horas inteiras, sentado nas calçadas,
"pixando" castanhas para as "borrocas";
jogando "marta" para dar bolos...

Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...

Garoto que brinca nas velhas praças,
sob a luz tranqüila das estrelas,
o "Ganzola", o "Leitão Queimado" e o "Boca de Forno"...
Garoto que com os seus "alçapões" e as suas "baladeiras"
é o terror da passarada do Apicum e da Quinta do Barão...

Garoto que às vezes vira pintor
e doido de alegria,
longamente,
arbitrariamente,
desenha com carvão calungas
gozadíssimos
nos muros caiados de novo
ou então risca de giz
os lindos azulejos dos sobradões coloniais...

Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...

Garoto que rouba frutas
dos quintais dos vizinhos e dos tabuleiros dos vendedores,
para matar a fome que o atormenta...

Garoto que, "sem querer", quebra com uma pedrada
a vidraça do bangalô do dr. Fulano de Tal
e depois, guinchando
assobiando
vaiando,
corre,
foge,
desaparece,
mal surge à esquina o primeiro guarda...

Garoto que, nos estribos de todos os bondes,
trepa e salta,
até um dia — coitado! — perder as pernas...

Garoto que não tem medo da lama
e descalço,
molhado,
tremendo de frio,
tira caranguejo
na Camboa do Mato e na Fonte do Bispo...

Eu quero fazer o elogio do garoto anônimo
das ruas da Cidade de São Luís do Maranhão...

759
Renato Rezende

Renato Rezende

Pimentões Perfeitos

Num supermercado de um bairro pobre
vi uma bancada de pimentões amarelos,
ainda bons, saborosos
mas feios, amassados, alguns muito pequenos,
outros tortos,
diferentes dos pimentões plenos e perfeitos
mas encerados
dos Supermercados Eldorado.

Quando olhei para as pessoas notei
que são como os pimentões que comem.


São Paulo, 2 de outubro 1992
983
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota!

Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota!

Santo Deus, que entroncamento esta vida!

Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada,
E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, não só pelo mistério de ficar inexpressivo o orgânico,
Mas de maneira directa, cá do coração.

Como o sol doura as casas dos réprobos!
Poderei odiá-los sem desfazer no sol?

Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído
Por causa dos olhos de criança de uma criança...
2 366
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:

É estar ao lado da escala social.
É não ser adaptável às normas da vida,
Às normas reais ou sentimentais da vida –
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer; operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas
E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter de pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma; sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.
2 707
Renato Rezende

Renato Rezende

As Veias

O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.


Nova York, 2 de março 1996
1 055
Renato Rezende

Renato Rezende

O Elo Perdido

Porque eu sabia que havia um poema escondido ali
li um artigo inteiro no National Geographic
sobre arqueologia.
Na Etiópia, ingleses e nativos
descobriram ainda mais antigos restos de hominídios
que os famosos vestígios de Lucy.
Dentes
e ossos de um indivíduo, que certamente
não se considerava indivíduo, mas vagamente
sentia ser parte indivisível de um todo.
Talvez esse sentimento seja o elo perdido.


Nova York, 3 de março 1996
766
Cida Pedrosa

Cida Pedrosa

fotografia de guerra

o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema

a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema

as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
902
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

17 - No meu prato que mistura de Natureza!

No meu prato que mistura de Natureza
As minhas irmãs as plantas,
As companheiras das fontes, as santas
A quem ninguém reza...

E cortam-se e vêm à nossa mesa
E nos hotéis os hóspedes ruidosos,
Que chegam com correias tendo mantas
Pedem «Salada», descuidosos...

Sem pensar que exigem à Terra-Mãe
A sua frescura e os seus filhos primeiros,
As primeiras verdes palavras que ela tem, –
As primeiras coisas vivas e irisantes
Que Noé viu
Quando as águas desceram e o cimo dos montes
Verde e alagado surgiu
E no ar por onde a pomba apareceu
O arco-íris se esbateu...
1 887
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Abismo

Tenho o coração a cair sobre os cadáveres dos maus e dos vadios. O meu abismo ilumina uma explosão de trabalho humano.



Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 347 (texto que encerra o livro) | Quetzal Editores, 1999

1 008
Renato Rezende

Renato Rezende

No Aeroporto

Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.


São Paulo, abril 1998
712