Poemas
Guerra e Paz
Poemas neste tema
Gonçalves de Magalhães
Napoleão em Waterloo
Tout na manqué que quand tout avait
réussi.
Napoleão em S. Helena (memorial).
Eis aqui o lugar onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o Sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zenite haviam ambos;
Ambos iguais no brilho; ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!
Waterloo! ... Waterloo! ... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.
O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sangüíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo! ... Waterloo! ... dizendo, passam.
Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que coa ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais, ordens ditava!
O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.
Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,
O sibilo das balas que gemiam.
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.
Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — Águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo!
Assombrando as Nações coas largas asas,
Por que se nivelou aqui cos homens?
Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo,
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.
Pela última vez coa espada em punho,
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio!...
Mas invencível mão lhe toca o peito!
É a mão do Senhor! barreira ingente;
Basta, guerreiro, Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.
Eram poucos, é certo; mas que importa?
Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.
Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos
Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.
Eram os poucos que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!
Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.
Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.
Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte:
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?
Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.
O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!
Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármor,
Onde o raio batia, e recuava!
Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!
Da Liberdade foi o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.
réussi.
Napoleão em S. Helena (memorial).
Eis aqui o lugar onde eclipsou-se
O Meteoro fatal às régias frontes!
E nessa hora em que a glória se obumbrava,
Além o Sol em trevas se envolvia!
Rubro estava o horizonte, e a terra rubra!
Dous astros ao ocaso caminhavam;
Tocado ao seu zenite haviam ambos;
Ambos iguais no brilho; ambos na queda
Tão grandes como em horas de triunfo!
Waterloo! ... Waterloo! ... Lição sublime
Este nome revela à Humanidade!
Um Oceano de pó, de fogo, e fumo
Aqui varreu o exército invencível,
Como a explosão outrora do Vesúvio
Até seus tetos inundou Pompéia.
O pastor que apascenta seu rebanho;
O corvo que sangüíneo pasto busca,
Sobre o leão de granito esvoaçando;
O eco da floresta, e o peregrino
Que indagador visita estes lugares:
Waterloo! ... Waterloo! ... dizendo, passam.
Aqui morreram de Marengo os bravos!
Entretanto esse Herói de mil batalhas,
Que o destino dos Reis nas mãos continha;
Esse Herói, que coa ponta de seu gládio
No mapa das Nações traçava as raias,
Entre seus Marechais, ordens ditava!
O hálito inflamado de seu peito
Sufocava as falanges inimigas,
E a coragem nas suas acendia.
Sim, aqui stava o Gênio das vitórias,
Medindo o campo com seus olhos de águia!
O infernal retintim do embate de armas,
Os trovões dos canhões que ribombavam,
O sibilo das balas que gemiam.
O horror, a confusão, gritos, suspiros,
Eram como uma orquestra a seus ouvidos!
Nada o turbava! — Abóbadas de balas,
Pelo inimigo aos centos disparadas,
A seus pés se curvavam respeitosas,
Quais submissos leões; e nem ousando
Tocá-lo, ao seu ginete os pés lambiam.
Oh! por que não venceu? — Fácil lhe fora!
Foi destino, ou traição? — Águia sublime
Que devassava o céu com vôo altivo
Desde as margens do Sena até ao Nilo!
Assombrando as Nações coas largas asas,
Por que se nivelou aqui cos homens?
Oh! por que não venceu? — O Anjo da glória
O hino da vitória ouviu três vezes;
E três vezes bradou: — É cedo ainda!
A espada lhe gemia na bainha,
E inquieto relinchava o audaz ginete,
Que soía escutar o horror da guerra,
E o fumo respirar de mil bombardas.
Na pugna os esquadrões se encarniçavam;
Roncavam pelos ares os pelouros;
Mil vermelhos fuzis se emaranhavam;
Encruzadas espadas, e as baionetas,
E as lanças faiscavam retinindo,
Ele só impassível como a rocha,
Ou de ferro fundido estátua eqüestre,
Que invisível poder mágico anima,
Via seus batalhões cair feridos,
Como muros de bronze, por cem raios;
E no céu seu destino decifrava.
Pela última vez coa espada em punho,
Rutilante na pugna se arremessa;
Seu braço é tempestade, a espada é raio!...
Mas invencível mão lhe toca o peito!
É a mão do Senhor! barreira ingente;
Basta, guerreiro, Tua glória é minha;
Tua força em mim stá. Tens completado
Tua augusta missão. — És homem; — pára.
Eram poucos, é certo; mas que importa?
Que importa que Grouchy, surdo às trombetas,
Surdo aos trovões da guerra que bradavam:
Grouchy, Grouchy, a nós, eia, ligeiro;
O teu Imperador aqui te aguarda.
Ah! não deixes teus bravos companheiros
Contra a enchente lutar, que mal vencida
Uma após outra em turbilhões se eleva,
Como vagas do Oceano encapelado,
Que furibundas se alçam, lutam, batem
Contra o penedo, e como em pó recuam,
E de novo no pleito se arremessam.
Eram poucos, é certo; e contra os poucos
Armadas as Nações aqui pugnavam!
Mas esses poucos vencedores foram
Em Iena, em Montmirail, em Austerlitz.
Ante eles o Tabor, e os Alpes curvos
Viram passar as águias vencedoras!
E o Reno, e o Manzanar, e o Adige, e o Eufrates
Embalde à sua marcha se opuseram.
Eram os poucos que jamais vencidos
Os dias seus contavam por batalhas,
E de cãs se cobriram nos combates;
O sol do Egito ardente assoberbaram,
A peste em jafa, a sede nos desertos,
A fome, e os gelos dos Moscóvios campos;
Poucos que se não rendem; — mas que morrem!
Oh! que para vencer bastantes eram!
A terra em vão contra eles pleiteara,
Se Deus, que os via, não dissesse: Basta.
Dia fatal, de opróbrio aos vencedores!
Vergonha eterna à geração que insulta
O Leão que magnânimo se entrega.
Ei-lo sentado em cima do rochedo,
Ouvindo o eco fúnebre das ondas,
Que murmuram seu cântico de morte:
Braços cruzados sobre o largo peito,
Qual náufrago escapado da tormenta,
Que as vagas sobre o escolho rejeitaram;
Ou qual marmórea estátua sobre um túmulo.
Que grande idéia ocupa, e turbilhona
Naquela alma tão grande como o mundo?
Ele vê esses Reis, que levantara
Da linha de seus bravos, o traírem.
Ao longe mil pigmeus rivais divisa,
Que mutilam sua obra gigantesca;
Como do Macedônio outrora o Império
Entre si repartiram vis escravos.
Então um riso de ira, e de despeito
Lhe salpica o semblante de piedade.
O grito ainda inocente de seu filho
Soa em seu coração, e de seus olhos
A lágrima primeira se desliza.
E de tantas coroas que ajuntara
Para dotar seu filho, só lhe resta
Esse Nome, que o mundo inteiro sabe!
Ah! tudo ele perdeu! a esposa, o filho,
A pátria, o mundo, e seus fiéis soldados.
Mas firme era sua alma como o mármor,
Onde o raio batia, e recuava!
Jamais, jamais mortal subiu tão alto!
Ele foi o primeiro sobre a terra.
Só, ele brilha sobranceiro a tudo,
Como sobre a coluna de Vendôme
Sua estátua de bronze ao céu se eleva.
Acima dele Deus, — Deus tão-somente!
Da Liberdade foi o mensageiro.
Sua espada, cometa dos tiranos,
Foi o sol, que guiou a Humanidade.
Nós um bem lhe devemos, que gozamos;
E a geração futura agradecida:
NAPOLEÃO, dirá, cheia de assombro.
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José Craveirinha
Torresmos à machimbombo queimado
À partida o machimbombo parecia
um ónibus lotado de gente
em viagem.
Lá para o quilómetro 20 a oeste da Gorongosa
chaparia e respectivo tejadilho ficaram
fuliginoso similar de frigideira
fritando várias doses de torresmos
derivantes fósseis de passageiros
interrompidos antes da terminal.
Sobra este prosaico odor da sintomática
machimbombesca fotocópia de esquife.
O impaciente estardalhaço dos tiros
ainda por cima esfrangalhou o original
um ónibus lotado de gente
em viagem.
Lá para o quilómetro 20 a oeste da Gorongosa
chaparia e respectivo tejadilho ficaram
fuliginoso similar de frigideira
fritando várias doses de torresmos
derivantes fósseis de passageiros
interrompidos antes da terminal.
Sobra este prosaico odor da sintomática
machimbombesca fotocópia de esquife.
O impaciente estardalhaço dos tiros
ainda por cima esfrangalhou o original
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3
José Craveirinha
Terra de Canaã
Não, piloto Israelita.
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
as belas palavras do Cântico dos Cânticos.
E voa mais baixo.
Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.
Voa mais baixo. Desce ainda mais baixo piloto hebreu.
Desce até Eichman. Voa até ao fundo dos ascos.
Acelera até os motores e as bombas de fósforo
contigo oscularem sofregamente o chão sagrado.
Foi para este holocausto que sobreviveste
ao teu genocídio nos tempos da Nazilandia?
Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã?
Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?"
Inútil procurares nos incêndios de Beirute
e nos inocentes corpos mutilados pelos estilhaços ardentes
as belas palavras do Cântico dos Cânticos.
E voa mais baixo.
Desce velozmente mais baixo no teu caça-bombardeiro.
Voa mais baixo. Desce ainda mais baixo piloto hebreu.
Desce até Eichman. Voa até ao fundo dos ascos.
Acelera até os motores e as bombas de fósforo
contigo oscularem sofregamente o chão sagrado.
Foi para este holocausto que sobreviveste
ao teu genocídio nos tempos da Nazilandia?
Achas que é esta a tua ambicionada Terra de Canaã?
Tu achas que assim ganhas a paz na Terra Prometida?"
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3
Basílio da Gama
Canto Primeiro [I
FUMAM ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos, e impuros,
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
O rouco som da irada artilheria.
MUSA, honremos o Herói, que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou a afronta.
Ai tanto custas, ambição de império!
E Vós, por quem o Maranhão pendura
Rotas cadeias, e grilhões pesados,
Herói, e Irmão de Heróis, saudosa, e triste,
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa em tanto
Acostumar ao vôo as novas asas,
Em que um dia vos leve. Desta sorte
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra,
E vai ver de mais perto no ar vazio
O espaço azul, onde não chega o raio.
(...)
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
Lagos de sangue tépidos, e impuros,
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
O rouco som da irada artilheria.
MUSA, honremos o Herói, que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou a afronta.
Ai tanto custas, ambição de império!
E Vós, por quem o Maranhão pendura
Rotas cadeias, e grilhões pesados,
Herói, e Irmão de Heróis, saudosa, e triste,
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa em tanto
Acostumar ao vôo as novas asas,
Em que um dia vos leve. Desta sorte
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra,
E vai ver de mais perto no ar vazio
O espaço azul, onde não chega o raio.
(...)
In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
NOTA: Poema composto de 5 canto
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3
José Craveirinha
Aldeia Queimada
Mas
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
actuam.
É
de cinzas
o vestígio das palhotas.
nas noites
desparasitadas de estrelas
é que as hienas
actuam.
É
de cinzas
o vestígio das palhotas.
4 639
3
Víctor Jara
Te recordo Amanda
Te recordo Amanda, a rua molhada,
Correndo à fábrica, onde trabalhava Manuel...
O sorriso largo, a chuva no cabelo
Não importava nada, ias a encontrar-te com ele...
Com ele, com ele, com ele, com ele...
São cinco minutos,
Soa a sirene, de volta ao trabalho
E tu... caminhando o iluminas todo,
Os cinco minutos te fazem florescer
Te recordo Amanda, a rua molhada,
Correndo à fábrica onde trabalhava Manuel...
O sorriso largo, a chuva no cabelo
Não importava nada, ias a encontrar-te com ele...
Com ele, com ele, com ele, com ele...
Que marchou para a serra,
Que nunca fez dano, que marchou para a serra,
E em cinco minutos ficou destroçado...
Soa a sirene, de volta ao trabalho
Muitos não voltaram...tão pouco Manuel.
Te recordo Amanda, a rua molhada
Correndo à fábrica onde trabalhava Manuel...
Correndo à fábrica, onde trabalhava Manuel...
O sorriso largo, a chuva no cabelo
Não importava nada, ias a encontrar-te com ele...
Com ele, com ele, com ele, com ele...
São cinco minutos,
Soa a sirene, de volta ao trabalho
E tu... caminhando o iluminas todo,
Os cinco minutos te fazem florescer
Te recordo Amanda, a rua molhada,
Correndo à fábrica onde trabalhava Manuel...
O sorriso largo, a chuva no cabelo
Não importava nada, ias a encontrar-te com ele...
Com ele, com ele, com ele, com ele...
Que marchou para a serra,
Que nunca fez dano, que marchou para a serra,
E em cinco minutos ficou destroçado...
Soa a sirene, de volta ao trabalho
Muitos não voltaram...tão pouco Manuel.
Te recordo Amanda, a rua molhada
Correndo à fábrica onde trabalhava Manuel...
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3
Camilo Pessanha
Quando?
Quando se erguerão as seteiras,
Outra vez, do castelo em ruína?
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?
Se ouvirá tocar a rebate,
- Sobre a planície abandonada?
E partiremos ao combate,
De cota, e elmo, e a longa espada?
Quando iremos, tristes e sérios,
Nas prolixas e vãs contendas,
Lançando juras, impropérios,
Pelas divisas e legendas?
E voltaremos, - os antigos,
Os puríssimos lidadores,-
Quantos trabalhos e perigos!
Quase mortos e vencedores?
E quando, ó Doce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
Magra figura de vitral
Por quem nós fomos combater.
Outra vez, do castelo em ruína?
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?
Se ouvirá tocar a rebate,
- Sobre a planície abandonada?
E partiremos ao combate,
De cota, e elmo, e a longa espada?
Quando iremos, tristes e sérios,
Nas prolixas e vãs contendas,
Lançando juras, impropérios,
Pelas divisas e legendas?
E voltaremos, - os antigos,
Os puríssimos lidadores,-
Quantos trabalhos e perigos!
Quase mortos e vencedores?
E quando, ó Doce Infanta Real,
Nos sorrirás do belveder?
Magra figura de vitral
Por quem nós fomos combater.
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Hermes Fontes
A Guerra
Todas as puras, máximas conquistas
dos Atletas, dos Sábios, dos Artistas,
todos os vôos para a Perfeição,
todas as lutas imortais da Terra
— esforço ingênuo! sacrifício vão! —
entre os rubros tentáculos da Guerra
as gerações desaparecerão.
Ícaro pôs sua Asa ao serviço da Morte;
ao serviço da Morte, a vela de Jasão
leva de leste a oeste,
leva de sul a norte,
as forças com que excede a cólera celeste
e se iguala ao Relâmpago e ao Trovão:
Último doloroso anátema da Terra!
Último crime, a Guerra!
Último eclipse da Alma e da Razão!
Mata, em dias, a Fome;
a Peste mata, em horas.
Mas, a guerra, em momentos,
desfaz cidades e devasta as floras,
milhares de homens válidos consome,
afronta os céus, arrasa os monumentos,
e vai, de aldeia a aldeia, a todos os países,
enche a Terra, enche o Céu com seu hálito impuro,
revolve a crosta, desce aos báratros do Oceano
e a cinza dos heróis e a dor dos infelizes
espalha no horizonte do Futuro,
para incentivo de ódio ao Coração humano,
para semente negra às guerras porvindouras
que pulverizarão apriscos e lavouras,
templos em esplendor, vales em floração:
Último doloroso anátema da Terra!
Último crime — a Guerra!
Último eclipse da Alma e da Razão!
(...)
Publicado no livro Epopéia da Vida (1917). Poema integrante da série Lutas Malditas.
In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.136-137. (Coleção de lirismo brasileiro
dos Atletas, dos Sábios, dos Artistas,
todos os vôos para a Perfeição,
todas as lutas imortais da Terra
— esforço ingênuo! sacrifício vão! —
entre os rubros tentáculos da Guerra
as gerações desaparecerão.
Ícaro pôs sua Asa ao serviço da Morte;
ao serviço da Morte, a vela de Jasão
leva de leste a oeste,
leva de sul a norte,
as forças com que excede a cólera celeste
e se iguala ao Relâmpago e ao Trovão:
Último doloroso anátema da Terra!
Último crime, a Guerra!
Último eclipse da Alma e da Razão!
Mata, em dias, a Fome;
a Peste mata, em horas.
Mas, a guerra, em momentos,
desfaz cidades e devasta as floras,
milhares de homens válidos consome,
afronta os céus, arrasa os monumentos,
e vai, de aldeia a aldeia, a todos os países,
enche a Terra, enche o Céu com seu hálito impuro,
revolve a crosta, desce aos báratros do Oceano
e a cinza dos heróis e a dor dos infelizes
espalha no horizonte do Futuro,
para incentivo de ódio ao Coração humano,
para semente negra às guerras porvindouras
que pulverizarão apriscos e lavouras,
templos em esplendor, vales em floração:
Último doloroso anátema da Terra!
Último crime — a Guerra!
Último eclipse da Alma e da Razão!
(...)
Publicado no livro Epopéia da Vida (1917). Poema integrante da série Lutas Malditas.
In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.136-137. (Coleção de lirismo brasileiro
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Maria Manuela Margarido
Vós que ocupais a nossa Terra
É preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as arvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragédia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
mascaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?
(Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963)
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as arvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragédia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
mascaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?
(Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963)
2 772
3
Adolfo Casais Monteiro
Eu Falo das Casas e dos Homens
Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!
Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
2 510
3
Vladimir Maiakovski
A Plenos Pulmões
Primeira Introdução ao Poema
Caros
..........camaradas
......................futuros!
Revolvendo
........a merda fóssil
.........................de agora,
......perscrutando
estes dias escuros,
talvez
...............perguntareis
.............................por mim. Ora,
começará
.................vosso homem de ciência,
afagando os porquês
..............num banho de sabença,
conta-se
........que outrora
...............um férvido cantor
a água sem fervura
..........................combateu com fervor
Professor,
..........jogue fora
.................as lentes-bicicleta!
A mim cabe falar
................de mim
.......................de minha era.
Eu – incinerador,
................ eu – sanitarista,
a revolução
....................me convoca e me alista.
Troco pelo “front”
.......... a horticultura airosa
da poesia –
....................fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim
...virgem
.................vargem
..........sombra
...............................alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim."
Estes verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, –
bonifrates encapelados,
......................descabelados vates –
entendê-los,
................ao diabo!,
...........................quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles -
.....................mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
.......................ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
.................se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
...........escarra a tuberculose;
putas e rufiões
.................numa ronda de sífilis.
Também a mim
..........a propaganda
........................cansa,
é tão fácil
........alinhavar
................romanças, –
mas eu
..........me dominava
...................entretanto
e pisava
............a garganta do meu canto.
Escutai,
.............camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
.............dos melífluos enxurros:
por cima
..........dos opúsculos líricos,
eu vos falo
............ como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
...... à Comuna distante,
não como Iessiênin,
.........................guitarriarcaico.
Mas através
..... dos séculos em arco
sobre os poetas
.....................e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
................não como a seta
lírico-amável,
..............que persegue a caça.
Nem como
..........ao numismata
............... a moeda gasta,
nem como a luz
.....................das estrelas decrépitas.
Meu verso
..........com labor
.............. rompe a mole dos anos,
e assoma
.....a olho nu,
................ palpável,
......................bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
.................por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
.............. versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
..........................como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
................mas terrível.
Ao ouvido
.........não diz
................blandícias
.........................minha voz;
lóbulos de donzelas
..........de cachos e bandós
não faço enrubescer
.............................com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
..........– tropas em parada,
e passo em revista
...........................o front das palavras.
Estrofes estacam
............. chumbo-severas,
prontas para o triunfo
..........ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
.............. as maiúsculas
.......... abertas.
Ei-la,
.....a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
......................alerta para a luta.
Rimas em riste,
......sofreando o entusiasmo,
eriça
........suas lanças agudas.
E todo
......este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
.................proletários do planeta,
cada folha
.............até a última letra.
O inimigo
......da colossal
................classe obreira,
é também
meu inimigo
................figadal.
Anos
........de servidão e de miséria
comandavam
...............................nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
..........volume após volume,
janelas
.............de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
........................saberíamos o rumo!
onde combater,
................de que lado,
.......................em que frente.
Dialética,
..........não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
....... ao fragor das batalhas,
quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
.........................que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
.....................– glória –
se arraste
após os gênios,
..............merencória.
Morre,
..........meu verso,
.....................como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
......sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
..........sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
....................entre nós todos, –
o comum monumento:
o socialismo,
.............forjado
........................na refrega
.................................e no fogo.
Vindouros,
..........varejai vossos léxicos:
......................do Letes
.............................brotam letras como lixo –
"tuberculose",
.........."bloqueio",
.............."meretrício".
Por vós,
........geração de saudáveis, –
...................um poeta,
....................com a língua dos cartazes,
lambeu
..........os escarros da tísis.
A cauda dos anos
..............faz-me agora
....................um monstro,
......................fossilcoleante.
Camarada vida,
............vamos,
................para diante,
galopemos
.......pelo qüinqüênio afora.
Os versos
......para mim
...............não deram rublos,
.....................nem mobílias
.................de madeiras caras.
Uma camisa
.......lavada e clara,
.....................e basta, –
..............................para mim é tudo.
Ao Comitê Central
..................do futuro
.......................ofuscante,
.........................sobre a malta
...................dos vates
velhacos e falsários,
.....................apresento
.............................em lugar
do registro partidário
......todos
.................os cem tomos
.....................dos meus livros militantes.
dezembro 1929/janeiro 1930
Do livroMaiakóvski - Poemas (São Paulo: Editora Perspectiva, 1982)
tradução de Haroldo de Campos
2 323
3
João Monge
Timor
Lavam-se os olhos nega-se o beijo
do labirinto escolhe-se o mar
no cais deserto ficam desejos
da terra quente por conquistar
Nobre soldado que vens senhor
por sobre as asas do teu dragão
beijas os corpos no chão queimado
nunca serás o nosso perdão
Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós
Salgas os ventres que não tiveste
ceifando os filhos que não são teus
nobre soldado nunca sonhaste
ver uma espada na mão de Deus
Da cruz se faz uma lança em chamas
que sangra o céu no sol do meio dia
do meio dos corpos a mesma lama
leito final onde o amor nascia
Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós
do labirinto escolhe-se o mar
no cais deserto ficam desejos
da terra quente por conquistar
Nobre soldado que vens senhor
por sobre as asas do teu dragão
beijas os corpos no chão queimado
nunca serás o nosso perdão
Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós
Salgas os ventres que não tiveste
ceifando os filhos que não são teus
nobre soldado nunca sonhaste
ver uma espada na mão de Deus
Da cruz se faz uma lança em chamas
que sangra o céu no sol do meio dia
do meio dos corpos a mesma lama
leito final onde o amor nascia
Ai Timor
calam-se as vozes
dos teus avós
Ai Timor
se outros calam
cantemos nós
1 399
2
Gonçalo Anes Bandarra
Trovas Inéditas do Bandarra
Trovas
Inedìtas de Bandarra
Natural da Villa de Francoza.
* * * * *
Que exestião em poder de Pacheco Comtemporaneo de Bandarra e que
se lhe achàrão depois de sua morte.
* * * * *
Londres.
MDCCCXV.
Introduçaõ.
Com grande satisfação recebérão, todos os Portuguezes, assas Cinceros,
e prudentes, as trovas de Gonçallo Annes Bandarra, impressas em Barcellona
em 1809 sobre a edìção de Nantes de 1644. Juntandose, a esta edição
outras, trovas que nunca se tinhão impreço pella defficuldade que havia
de se naõ acharem.
Ficando porem ainda o ardente dezejo em muitas pessoas de verem
impresso o resto (de que havia notìcia de sua existencia) de todas as
trovas de Bandarra; porquè como este hia profetizando, em diverços tempos
durante a sua vida; igualmente por este motivo, apareciao em diverços
tempos, e lugares, e em poder de algumas pessoas, como se vio (por exemplo)
na edição de Nantes de 1644 naõ se ímpremírão senão, aquellas trovas, por
que não aparecerão as que se impremirão, em Barcelona em 1809 (que fazem a
2ª e 3ª parte desta obra) as quaes são, as que se achárão em poder do
Cardeal Nuno da Cunha, e as que tinha o Comissário do Santo officio
Domingos Furtado de Mendonça: e agora depois que se fez a edição acima
ditta de 1809, se acharão na livraria do Ex^mo Sñr........ (omito o seo
nome por motivos particulares) em manuscrito muito antigo! todas as
profecias de Bandarra, não só as que se achão jà impressas, nas duas
ediçoens que jà dicemos, mas tãobem as trovas de que havia noticia, que
tinhão ficàdo em poder de Pacheco, amigo, e comtemporaneo de Bandarra, que
mereceo a este tanto conceito, que foi digno de responder aquelle às
perguntas que lhe fazia, cujas respostas que Bandarra fez a Pacheco são as
que se achão na edição de Barcelona de 1809 desde paginas 60, até, 66, e
como esta obra estava imcompleta, e pella sua natureza merece muita
reflexão a todas as pessoas discretas e assas prudentes; a rogos destes
pois hé que me determinei a mandar impremir, as trovas que o dito Pacheco
tinha em seo poder, ficando desta sorte completa a edição desta obra toda,
de que hà noticia que Bandarra profetizou, assim como tãobem, completos os
ardentes dezejos de todos os Portuguezes Fieis, Cinceros, e Honrados, como
eu que me prézo de ser hum.--
Leal Portuguez.
Quarta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Os tempos com crueldade
Começar-se hão a mover,
Se me não engana a verdade
Ali perderão seo ser
No meio de certa idade.
2.
Virà gozando de paz
Aquelle pastor valente,
Hum lobo que guerra faz
Moverà toda a gente
Com huma limgua sagaz.
3.
Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomarà,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.
4.
Nelles farà tal destroço
Que serà couza de espanto,
Como bravo Touro em cosso
Logo perde tudo quanto
Tinha como pastor moço.
5.
Jà vejo que se desterra
Este pastor sem ventura,
Da patria rebanho, e terra
A huma larga Sepultura
De huma frondoza serra.
6.
O manço gàdo que em páz
Pella ribeira regia,
Jà desgovernàdo traz
Triste sò sem companhia,
Que hum mào concelho faz.
7.
E logo outro pastor
Do pouco gado que achár,
Serà absoluto Senhor,
E serà em quanto durar
A fortuna, e seo rigor.
8.
Serà pastor estrangeiro
O que reja o manço gado
Que taõ bravo foi primeiro
Mas ai que falta o malhado
Que era o principal Carneiro.
9.
De pois que por tempo largo
Este pastor governar
A este rebanho amargo,
Outra vez hà de tornar
A ter o que tinha o cargo.
10.
Haverà novos sinaes
Da parte deste pastor,
Thé os mesmos anímaes
Por seu natural Senhor
Darão suspiros, e ais.
11.
Tornarà a quebràda linha
No Cábo de serta idade,
A encher-se como pinha,
E descubrirà a verdade
Do que encuberto tinha.
12.
Sem pena que damno faça
Tornarà pella ribeira
Pastar o gado na praça,
Por ultima, e derradeira
Dos fados Supréma traça.
13.
Tornarei a recolher
Esta ovelha perdida
A patria que lhe deu ser,
E porei por ella a vida
Sem nunca desfalecer.
14.
Entaõ não me mudarei
Pois conheceis que sou vosso,
Minha ovelha estimarei
Pois de outro modo naõ posso
Alma, e vida lhe darei.
15.
Haverà em triste Cidade
Grande fome peste, e guerra,
Que a Escritura a não erra
Que em tudo falla verdade,
16.
De longas terras virão
Dois Leoens mui asanhádos
Hum de Cruz, e outro não
Vingarão males paçados.
17.
Serão à força da espada
Destruidas mil provincias,
Na Luzitania assollada
Terão fim roubos, e malicias.
18.
Na era de quarenta, é hum
De Janeiro por diante,
Darà fio ao seo montante
Aparelhece cada hum.
19.
O nosso Christianismo
Nossa grande Obrigação,
Não temos mais de Christão,
Do que o nome do Baptismo.
20.
Fazemos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada qual se faça prestes.
21.
Espantozos movimentos
Havemos cedo dever,
E antes de muitos tempos
Ha de isto de acontecer.
22.
Não haverà em Hespanha
Lugar preveligiado,
Tudo serà assollado
Dessa gente de Alemanha.
23.
Todos os lugares planos
Por terra serão prostrados,
Muitos males, muitos damnos
Haverà pellos peceádos.
24.
As Serras se habitarão
E os Oiteiros mais altos,
Muitas Gentes sahirão
Outros andarão em Saltos.
25.
Andarão como pasmados
Chorando pellos caminhos,
De suas terras lançados
De parentes, e vesinhos.
26.
Então não haverà amigos
Nem pay que por filho seja,
O mais seguro abrigo
Serà acolherse à Igreja.
27.
Nesses tempos os meninos
Ainda que innocentes,
Terão tãobem accidentes
Muito fora dos Caminhos.
28.
Haverà peregrinaçoens
Mortes sem conto de dura,
Males fogos devisoens
Só Deos lhe póde dar cura.
29.
Ha de ser Rey quem fôr
Que em Deos está o saber
O bom, o São, o melhor
Só elle o há de escolher.
30.
Por particular enteresse
Tem chegado o mundo a tanto,
Triste do que lhe parece
Que háde bastar falçomanto.
31.
Os póvos hão de alintar
As culpas dos seos Monarchas,
Que sem nenhum estudar
São Letràdos, e Patriarchas.
32.
Nos Ceos haverà sinaes
Na Terra não faltarão,
Tormentos pennas, e ais
Que aos Ceos penetrarão.
33.
E depois do Leão morto
Não sem falta de mistério,
Aportarà neste porto
Outro com maior Império.
34.
Entrarà com companheiro
Na terra dos Luzitannos,
Cada qual bom Cavalleiro
Destruirão os Arriannos.
35.
Tempos traz tempos virão
Que os Grandes serão baixàdos
Os pequennos exaltádos
Povo, e Rey governarão.
36.
E depois de tantos males
Fomes, pestes devisoens,
Cheios os montes, e Valles
De tristes peregrinaçõens.
37.
Tornarà o Redemptor
A olhar por seo rebanho,
E tello ha com muito amanho
Como bom Rey e Senhor.
38.
Escaparà pouca gente
De tão perigoza dança,
Virà tempo de bonança
Quem viver serà contente.
39.
Vejo vir grandes baleias
Pella costa de Biscaya
Gaia gaia da vezinha praya
Que lhe tingem as areias.
40.
Eis là contra a Norúega
Raios, Cavallos, Golfinhos,
Com que preça que navega
Tanta Cópia de Marinhos.
41.
Vejo milhoens de Relampagos
Trovoens que rompem os ceos
Nuvems de mui grandes véos
Coriscos grandes expantos.
42.
Que mancebo tão formozo
Dà Luz a todo o Emisfério,
Rosto mui digno de Império
Forte, fero, e graciozo.
43.
Iá por força toma a Seora
Cercàdo de Leoens bravos,
Oh que unhas dentes quebrádos
Teme, e treme toda a terra.
44.
Mil rapozas vão dìante
Buscando grutas, e côvàs,
A Lebres, Coelhos dão novas
Que fujão de tal semblante.
45.
Descançame a vista vendo
Hirse o tempo já chegando,
E estarse a Alma alegrando
Com o que vejo, e entendo.
46.
Venha embora o Leão forte
De tantos accompanhádo,
Que affirmão, e tem jurado
Que em que lhe custe a morte
O hão de ver coroado.
47.
Que grandes arribaçoens
São Atums, ou são Sardinhos,
Maiores são que Barquinhas
São Náos, boms Galioens.
48.
Parece que seo caminho
Hé direito a Portugal
Ai se eu mal não advinho
Não vão carregar de Sal.
49.
Que rostos, corpos, e armas,
Quanto fogo, e quanto asso,
No rosto gente do Passo
E Soldados nas Bisarmas.
50.
Ora quero-lhe dizer
Esta cà occupàda a Terra,
Mas poderão responder
Se hé gente de paz, ou guerra.
51.
Hé gente que em si encerra
E aquillo que diz não faz,
Diz guerra, ordena páz
Pergoa paz, e faz guerra.
52.
O Seo Rey quer ser Monarcha
E toda a Terra pertende,
Tudo abrange, e tudo abarca
E do díreito não pende.
53.
Vinde cà Rey Soberanno
Quero vos dezenganar,
Lembro-vos que sois humanno
E que tudo hade acabar.
54.
E que na postreira hora
Quando o mal jà estìver feito,
E não possa ser desfeito
Treme olma, e em vão chora.
55.
Lembre vos o que aconteceo
A Tholedo com o pay
Que já cada hum là vay
E não sei qual pa o ceo.
56.
Quereis vòs a Portugal
Sendo elle nome macho
Ajuda mal por que lhe acho
Muita fémea, e pouco Sal.
57.
Se quizerdes por direito
Deixarse há elle torcer,
Mas forçado hé máo geito
Para se deixar vencer.
58.
Vejo vosso damno perto
Hireis perdendo o reynádo
E tão bem tende por certo
Morrerdes desconsolado
59.
Luzitanna hé chamáda
A Dama que dezejaés,
Ella hé dantes despozada
Perseguilla hé por demais
60.
Ainda que em caza tem
De Ulices tantos povos,
Hir-se hão como os porcos
Ante o Leão que vem.
61.
Esta profecìa hè bella
Mui certa e verdadeira,
Quem tiver boa terceira
Gozarà a Sabia Donzella.
Fim da quarta parte.
Quinta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Quando de noite me ponho
A dormir sem me benzer,
Tudo o que háde açuceder
Se me representa em Sonho.
2.
Sempre mandei escrever
Aquillo que me lembrou,
Porque a memoria a postou
De tudo se esquecer.
3.
Nas Trovas que tinha feito
Muito hà que conciderar,
Como o seo tempo chegar
Se vera o meo conceito.
4.
Sempre por thezoiras faço
As minhas contas mui certas,
Portas que hão de estar abertas
Não são boas para o paço.
5.
Eu naõ sou Profeta inteiro
E menos na minha terra,
Mas vejo vir pella Serra
Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.
6.
O Sol pello meio dia
Faz o effeito de Geada,
Vejo partir huma armada
Carregáda de agua fria.
7.
Huma grande tempestade
Com o céo muiclaro, e Serenno,
Farà hum hommem moreno
Com rezão mas sem piedade.
8.
A minha trepeça tem
Trez péz mui bem seguros,
Vejo fabricar hums muros
Mas eu naõ sei para quem.
9.
Quem muitos annos durar
Hade ver couzas indignas.
Tocar-se haõ muitas bozinas
Por hommems peixes do már.
10.
Todo o mundo grita, e berra
Cada qual no seo officio,
Pois antes que hum beneficio,
Querem, peste, fome, e guerra.
11.
Quando furo com a Suvella
Coiro groço, e Macio,
Vejo prender no Rocio
Quaze toda a parentella.
12.
Eu tenho medo da morte
Como couza superior,
O Presbitero maior
Naõ háde tornar à Corte.
13.
Annos hãode vir à terra
Em que por nossos peccados,
Nas cazas fiquem os gados
As gentes vivaõ na Serra.
14.
Sempre como os meos feijoens
Quando vem bem temperados,
Vejo no templo os Copados
No Cural os Cappellaens.
15.
Sou Sapateiro, mas Nobre
Com mui pouco Cabedal,
E tu triste Portugal
Quando mais rico, mais pobre.
16.
O (A) que ponho às avessas
Com a perna atraz levantáda,
Hàde ter a mão armàda
Para degollar Cabeças.
17.
Quando a terra dos Falcoens
Certa erva produzir,
Creio se hàde conceguir
O deitar fóra as Lezoens.
18.
De hum brazeiro mui acezo
Damdolhe o vento ligeiro,
Se hàde formar hum pinheiro
Sem ter medida, nem pezo.
19.
O Carro que vai chiando
Por hir muito carregàdo,
Sim mostra o jugo pezado
Mas naõ tira pezo andando.
20.
A Hortela na Panella
Dizem que lhe dà bom gosto,
Essa mulher de bom rosto
Naõ ouço rusnar bem della.
21.
Hespanha muito medroza
A Europa muito enfadada,
Huma mulher de almofada
Sabe como huma rapoza.
22.
As linhas com que cozia
Jà naõ como as de agora,
Temo que se deite fóra
Quem Souber a Ave Maria.
23.
Na era que eu tenho ditto
Nas Thezoiras levantadas,
Se haõde ver muitas jornàdas
Á custa do Saõ Benito.
24.
Naõ pode haver couza boa
Aonde Habita o mal Francez,
Temo o polho Portuguez
Em poder de huma Leoa.
25.
Quando o Leaõ Hispanhol
Vier quase a Portugal,
Háde ser o nosso mal
Querer luzir como o Sol.
26.
Quando a neve como braza
Todas as plantas queimar,
Dous quintos se haõ de ajuntar
Sem haver jogo na caza.
27.
Em hum lugar mais ameno
Cercados de mares groços,
Vive por peccados nossos
Quem se sustenta com feno.
28.
Sempre vem de monte, a monte
As agoas das enxorradas,
E vejo testas coroadas
Sentadas sobre huma ponte.
29.
Quando tiverem por certo
Perdida toda a esperança,
Portugal terá bonança
Na vinda do Encuberto.
30.
Vejo vir pello mar largo
Como quem vem para dentro,
Hum hommem buscar seo centro
Depois de hum grande lethargo.
31.
Quando me matar S. Jorge
E Marcos me reçuscitar,
Saõ Joaõ me exaltar
Faça todo o mundo alforge.
32.
Os pez da minha trepéça
Conta trez vezes areio,
Ajuntalhe dous, e meio
Dizelhe que apareça.
33.
Naõ podeis fazer queixume
De deixar o vosso lár,
Que se do norte ventar
Do Sul vos virà o lume.
34.
Vejo a grifa parideira
Juntada com huma Serpente,
E vejo que muita gente
Tem disto grande canceira.
35.
Vejo o Leão, e a Serpente
Atraz da gente goleima,
Grita o gallo que ateima
Com o Lobo que tem diante.
36.
Já vejo grande mofina
No porqueiro de Sequem,
Que o gado todo está bem
Com o Ovilheiro de Dina.
37.
Vejo a Lua ensanguentada
Pella virtude do Encuberto,
Se està longe, ou se perto
Assim o diz a toada.
38.
Là vem por sima do már
Hum Cavallo de madeira,
Que farà n'huma poeira
O porco que hàde grunhar.
39.
Vijo pedras ajuntar
Là muito perto da Lua
Vejo subir de huma, e huma
E nellas o Sol entrar.
40.
Vejo pello meo Telhado
No Ceo grande resplendor,
Se hé alegria, ou temer
Esdras o tem declarádo.
41.
Vejo o Almocreve tomar
As Alamanhas antigas,
Vejo nascer das ortigas
A remente là do mar
42.
Là donde o Sol vem nascendo
Hum Dragaõ vejo vir vindo,
A seo Cabo vem correndo
Mais bichos que o vem seguindo.
43.
O primeiro depois do quinto
Filho d'Aguia levantada,
Hade estender sua Espàda
Sobre a Galia faminto.
44.
Vejo sahir as Gaivotas
De dentro do nosso Tejo,
Taõbem parece que vejo
As duas por ellas rotas.
45.
Sonho que rebentaõ fontes
Da terra da Promiçaõ,
E que os Gallos de Siaõ
Vaõ fugindo até os montes.
46.
Naõ canta o Gallo com penna
As aguias charão mofina,
A serpente encrespa a clina
Porque Deos assim o ordenna.
47.
Faremos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada hum se faça prestes.
Fim da quinta parte.
Sexta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Sonhei que via hum fumo,
Com grande força sahir,
E deixando de Subir,
Hum altar vi no escuro:
Formava taõ forte muro.
Que estava o Altar cuberto;
Vi a hostia naõ mui perto,
Do tal Altar arredada:
Huma cára sublimáda,
Em ella vi por mais certo.
2.
Pareceme que crescia,
Quem assim o figurava:
Taõbem sonhei me pegava,
Quem mulher me parecia:
E que com voz me dezia,
Anda ver a terra nova,
Pella maõ levou-me à cova,
Levava bello vestido,
Aí nuvems eu fui subido,
Onde vi a gente toda.
3.
Negra, e amolatáda,
Logo à terra baldeando,
A respiraçaõ faltando
Eu daqui já naõ quis nada,
Para a terra de pancada
Me trouxe a tal mulher,
Athé alcancei dizer
Vou segunda vez à terra,
Logo vinha resta era
E tornava a aparecer.
4.
Parecia a meo ver
Nova Igreja figurada,
Por hereges desterráda,
Na quella terra a tremer,
Quem Herege quizer ser
Ficarà negro, ou molato,
E terà todo o máo trato
Por fugir da boa Ley,
No Inferno sua grey
Para tràz darà o Salto.
5.
Taõbem sonhei que a nuvem
Cobria a gram redondeza,
Mui medonha, e espeça
Taõbem raios que destroem,
A quem a falça Ley tem,
E depois vi aclarar
Com hum claraõ singular,
Em dia de huma Senhora
Em fe seguinte boa hora
Seu nascimento sempár.
6.
Em sonhos vi grande armáda
E a Lua, em rosso Tejo,
Ficandolhe o Sol por baixo
De huma Torre armáda,
Moiros tiveraõ entráda
Pella terra de christaõs,
Na Igreja vi estes máos
Hum exercito Francez,
Taõbem entrou desta vez
Accompanhádo dos Máos.
7.
Pella terra veio entrando
Athé se perder de vista,
Com grande préça, e cobiça
Toda a vinhaõ derrotando,
Taõbem os Moiros chegando
Com grande astucia, e préça,
Vinhaõ buscando a Cabeça
A numa Cidade Real
Pouco cuida Portugal,
Em o mal que lhe aconteça.
8.
Parece que estou ouvindo
Nesse mar a gran tormenta
Antes que chegue os Setenta,
Caxas, Ballas, barberinhos
Entaõ hé que virà vindo
O Grande pastor Geral,
Acudir a taõ graõ mal,
Dando às Ovelhas sustento
E taõbem o Sacramento
Viva o nosso Portugal.
9.
Poucos tempos paçaraõ
Segundo as Profecias,
Em os Sinaes destes dias
Outros que cedo viraõ
Huma Gran tribulaçaõ,
Mas ao depois verà
A volta que tudo dà,
Chegando logo a vencer
No mundo todo o poder
Na Igreja ficarà.
10.
Em todas reste tuida
Com maior veneraçaõ,
Só nella tem o Christaõ,
Gloria na eterna vida
Mas ai que a vejo cahida
Que primeiro vem chegando
Os boms largando o mundo,
Outros morrendo à preça
Outros perdem a Cabeça,
Muitos disso vão folgando.
11.
Tanto Sangue pello campo
E tanto morrer na rua,
Tantos deixaõ vida sua
Por guardar o nome Santo,
Nem da mulher o manto
Terà respeito ou favor,
Jà nenhum lhe tem amor
A essa profanna vaidade,
Quando virem a Cidade
Posta no maior horror.
12.
Jà de França serà farto
Quem à França quiz andar
Nunca mais andem trajar,
Tomàra naõ ter o fato:
Paga o povo por ingrato
O desprezo que tem feito,
Da Patria do minho aceito
Dando rédias ao profanno
Teraõ o seo desenganno,
Com o Vestir mais perfeito.
13.
Com Sangue, Boubo, e Deshonra
Com mortes, e Vitupérios,
Fomes doenças, e Guerras,
Querendo acabar a terra
Com mui grande alarido,
Todos ficaraõ com sentido
Com o mal naõ esperado
Serà prezo o Diabo
Porque entaõ tudo hé acabádo
E o morto serà vivo.
14.
Era taõbem logo chega
Que a todos de asento,
Serà fim este tormento,
Quem com bonança navéga
Entaõ armáda mais féra,
Livranos do Inemigo,
Com bom valor, e abrigo
O Beato Saõ Joaõ
Em seo dia nos dà a maõ,
E o Incoberto vivo.
15.
Quem destruir os do Norte
E os Moiros deitar fora,
Matandolhe a gente toda
Em Cacilhas forà côrte
Lá vereis o estandarte
Com as quinas aconado
E emtaõ vereis mostràdo
Em sima o bom Jezus,
E taõbem a Santa Cruz
Para vencer o Diabo.
16.
Veremos o mar vermelho
Sem hir a Jerusalem,
A qui veraõ os que tem
Tomádo o meo concelho,
Em si proprio o espelho,
Muito Sangue em si correndo
Mas quem fôr obedecendo,
Passarà sobre o mar
Sem que precize nadar,
Verà o maior portento.
17.
Em Cassilhas a Bandeira
Com estandarte Real,
Logo Hereges por seo mal,
A morte tem de Carreira
Terà este na Simeira
Hum Christo crucificádo,
Verà o povo malvado
O quaõ cego tem vivido,
Em terem perceguido
E a muitos marterizádo.
18.
O Moiro, Turco, Francez
Naõ poderaõ fugir todos,
Porque muitos seraõ mortos
As maõs do bom portuguez,
Là levarão desta vez
Novas aos seus que contar,
Quando virem em Portugal
O Encuberto declarado,
Castigando todo o estrago
Que elles vieraõ cauzar.
19.
Nenhum remedio lhe sinto
O Naõ vireá melhor fôra,
Venha sem em boa hora
Quem ao lobo faminto,
Lhe ponha em sangue tinto
Por essas ruàs no chaõ,
Bandeiras em confucaõ
Flores, Barretes, e Capas
Deste bom Rey nada escapa,
Viva o Graõ Sebastaõ.
20.
Sonhei que via vencer
As quatro partes do mundo,
E que Portugal a tudo
Hia dando que fazer,
E taõbem fazendo e ver
O Evangelho, e a Cruz
Ao povo falto de luz,
Sacramento eterno dia
Taobem a Virgem Maria
Todos com o bom Jezus.
21.
Sonhei que o Sacramento
Em todo o mundo em redondo,
Já das almas serà dono
Isto maior portento,
Taõbem graõ contentamento,
Em ver os Reys me cauzou
Que na geraçaõ dotou,
Lá de Affonço o primeiro
Thé trinta o derradeiro,
Onde o primeiro acabou.
22.
Por humgrande oppozitor
Depois da linha acabada,
Este farà derrotada,
A Igreja com horror,
Á besta mete pavor
Em trez, e meio de dura
Tanta gente à Sepultura,
O Martir gloríozo
Por fugir do tenebrozo,
A seguir a Virgem pura.
23.
Por mil, e duzentos annos
A Igreja reinarà,
Jà todo o Christaõ serà
Vivendo como irmaõs,
Nem trapaças nem enganos
Debaixo de huma cabeça,
No seo Império, e pastor,
Por Sebastiaõ Senhor
A quem tudo obedeça
Com Zelo, e grande amor.
24.
Este Rey de Deos guardado
Para limpeza do mundo,
De tal sorte porà tudo
Que deos seja venerado,
Em Portugal exaltàdo
De pequeno graõ Senhor,
Os mais todos com Pavor
Logo o haõde coroar,
Por Imperador sempár
Ao depois do Creador.
25.
Sonhei que via descer
Hum Anjo em huma nuvem
Mostrando que jà destroe
Quem Herege quizer ser,
Daqui vem a entender
Pella voz que lhe ouvi
E com furor disse assim,
"Morra o Blasfemador
"De Ley do bom Redemptor,
"O Prencipio desde aqui.
26.
Taõbem a Lua correndo
Sonhei que a via vir
Por trez vezes a cahir,
E Portugal perecendo
A isto o que eu entendo
Que figura muito moiro,
Vindo a buscar o oiro,
E mais riqueza notoria
Fazendo perder a gloria,
A quem delle fez thezoiro.
27.
Quantos destes vaõ roubando
Aì quando virem chegar,
Muitas Náos em este mar
E gente em terra botando
Entaõ ouviraõ o bando,
Mata, fere, e degolla,
Ficando a gente tolla
Tao tolla, como pasmàda
E a terra derrotáda
Perceguida a toda a hora.
28.
Morem, e ficaõ Catholicos,
Hums morrem, outros pelejaõ
Outros depreça despejaõ,
O melhor que guardaõ vivos,
Jà fallaõ Leaes amigos
A imgratidaõ sobeja,
E algums comgrande inveja,
Sò cuidaõ em bem furtar,
Nenhum yuer a tuvar
O Mal que tanto sobeja.
29.
Nenhum vemidio se sente
Sem ter meio de Apellar
Nem na terra, nem no Mar,
Vendo prêza maior gente
O mais alto delinquente,
Naõ ficarà sem castigo
Quem muito prende taobem
Serà prezo, e cativo,
Pezarlhe há de ser vivo
Estando só sem nímguem.
30.
Nas armas pèga a mulher
Taõbem entra em Corcelho,
Entao acode o bom Valho
Sebastiaõ hàde ser,
E tudo em seo poder
Ficarà com graõ limpeza
Ou Magestade, Alteza
Bem livras do Cativeiro
Lobo se torna, em Cordeiro
Em paga da tal Fineza.
31.
Contra graõ Senhor se ergue
Com furia, Asturia, e Manha,
Esparta, forte, Companha,
De seo maior mal lhe serve,
Taõbem quem ajuda perde
Honra, fazenda, e Vida,
Depois de no mar vencida
E na terra maio é risco,
Sepultádo no abismo
De todo serà perdida.
32.
Perde Braga, vence o Porto
E todas seraõ entràdas,
Em o fogo das pancadas
Em Bahia grar dectroço,
De Lagos fica bem pouco
Lisboa já hé Senhora,
De cativa deffençora
Da Ley que haõde guardar,
Os que se querem salvar
E morrer em boa hora.
33.
Viva o grande Portugal
Todos saltaõ de contentes,
Mulheres com seos parentes
Ficaõ livres do graõ mal,
Veja agora cada qual
De que sorte poem a vida,
No levantar da cahida
Tem o vemido na maõ,
Quem cuidar em bom Christaõ
Sua alma serà subida.
34.
E todo o mundo sugeito
A esta naçaõ portugueza,
Por aquella grande Alteza
Que Christo tem em seo peito,
Por lhe ser o mais aceito
Na Fé, Constancia, e Valor,
Peregrimo, e Senhor
Gram trabalhos padecendo,
Em fortaleza padecendo
Em o mundo grão valor.
35.
Em humildade, e esperança
A maior que jà se vio,
Com caridade subio
Ao lugar que logo alcança,
Justiça com temperança
Na prudencia o primeiro,
No castigo o derradeiro
Esperando a Sugeiçaõ,
Logo chega o pagaõ
A ser Christaõ verdadeiro.
36.
Portugal fica mais nobre
Em todo elle o poder,
E taõbem se háde ver
Ficar rico, o que foi pobre,
Aquelle a quem a fé cobre
Firme na Santa Igreja,
Todos lhe teraõ inveja,
Quando virem Portuguezes
Vencendo Turcos, Francezes,
E Moiros, em graõ Peleja.
37.
Dois descendentes que traz
De grande Valor, e Brio,
O Mais velho em Senhoria
Porá a guerra, em Paz,
Veraõ todos o que faz
De boms na Santa Igreja,
A força lhe tem inveja
A Fortuna, e augmento,
Farà pàrto o Sacramento
Onde toda Christaõ seja.
38.
O Pastor mór cedo falta
Seo descendente reinando,
E grande castigo dando
Aos vezinhos de Malta,
Quando Veneza se exalta
De França hé Malográda,
Cauzarà nesta pancáda
Entre os seos naturaes,
Seraõ os castigos taes
Que toda seja arrazáda.
Fim da Sexta Parte.
Inedìtas de Bandarra
Natural da Villa de Francoza.
* * * * *
Que exestião em poder de Pacheco Comtemporaneo de Bandarra e que
se lhe achàrão depois de sua morte.
* * * * *
Londres.
MDCCCXV.
Introduçaõ.
Com grande satisfação recebérão, todos os Portuguezes, assas Cinceros,
e prudentes, as trovas de Gonçallo Annes Bandarra, impressas em Barcellona
em 1809 sobre a edìção de Nantes de 1644. Juntandose, a esta edição
outras, trovas que nunca se tinhão impreço pella defficuldade que havia
de se naõ acharem.
Ficando porem ainda o ardente dezejo em muitas pessoas de verem
impresso o resto (de que havia notìcia de sua existencia) de todas as
trovas de Bandarra; porquè como este hia profetizando, em diverços tempos
durante a sua vida; igualmente por este motivo, apareciao em diverços
tempos, e lugares, e em poder de algumas pessoas, como se vio (por exemplo)
na edição de Nantes de 1644 naõ se ímpremírão senão, aquellas trovas, por
que não aparecerão as que se impremirão, em Barcelona em 1809 (que fazem a
2ª e 3ª parte desta obra) as quaes são, as que se achárão em poder do
Cardeal Nuno da Cunha, e as que tinha o Comissário do Santo officio
Domingos Furtado de Mendonça: e agora depois que se fez a edição acima
ditta de 1809, se acharão na livraria do Ex^mo Sñr........ (omito o seo
nome por motivos particulares) em manuscrito muito antigo! todas as
profecias de Bandarra, não só as que se achão jà impressas, nas duas
ediçoens que jà dicemos, mas tãobem as trovas de que havia noticia, que
tinhão ficàdo em poder de Pacheco, amigo, e comtemporaneo de Bandarra, que
mereceo a este tanto conceito, que foi digno de responder aquelle às
perguntas que lhe fazia, cujas respostas que Bandarra fez a Pacheco são as
que se achão na edição de Barcelona de 1809 desde paginas 60, até, 66, e
como esta obra estava imcompleta, e pella sua natureza merece muita
reflexão a todas as pessoas discretas e assas prudentes; a rogos destes
pois hé que me determinei a mandar impremir, as trovas que o dito Pacheco
tinha em seo poder, ficando desta sorte completa a edição desta obra toda,
de que hà noticia que Bandarra profetizou, assim como tãobem, completos os
ardentes dezejos de todos os Portuguezes Fieis, Cinceros, e Honrados, como
eu que me prézo de ser hum.--
Leal Portuguez.
Quarta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Os tempos com crueldade
Começar-se hão a mover,
Se me não engana a verdade
Ali perderão seo ser
No meio de certa idade.
2.
Virà gozando de paz
Aquelle pastor valente,
Hum lobo que guerra faz
Moverà toda a gente
Com huma limgua sagaz.
3.
Logo nas mãos o pastor
Seu cajado tomarà,
Sem mostrar nenhum temor
Contra os lobos que achará
Revestidos de rigor.
4.
Nelles farà tal destroço
Que serà couza de espanto,
Como bravo Touro em cosso
Logo perde tudo quanto
Tinha como pastor moço.
5.
Jà vejo que se desterra
Este pastor sem ventura,
Da patria rebanho, e terra
A huma larga Sepultura
De huma frondoza serra.
6.
O manço gàdo que em páz
Pella ribeira regia,
Jà desgovernàdo traz
Triste sò sem companhia,
Que hum mào concelho faz.
7.
E logo outro pastor
Do pouco gado que achár,
Serà absoluto Senhor,
E serà em quanto durar
A fortuna, e seo rigor.
8.
Serà pastor estrangeiro
O que reja o manço gado
Que taõ bravo foi primeiro
Mas ai que falta o malhado
Que era o principal Carneiro.
9.
De pois que por tempo largo
Este pastor governar
A este rebanho amargo,
Outra vez hà de tornar
A ter o que tinha o cargo.
10.
Haverà novos sinaes
Da parte deste pastor,
Thé os mesmos anímaes
Por seu natural Senhor
Darão suspiros, e ais.
11.
Tornarà a quebràda linha
No Cábo de serta idade,
A encher-se como pinha,
E descubrirà a verdade
Do que encuberto tinha.
12.
Sem pena que damno faça
Tornarà pella ribeira
Pastar o gado na praça,
Por ultima, e derradeira
Dos fados Supréma traça.
13.
Tornarei a recolher
Esta ovelha perdida
A patria que lhe deu ser,
E porei por ella a vida
Sem nunca desfalecer.
14.
Entaõ não me mudarei
Pois conheceis que sou vosso,
Minha ovelha estimarei
Pois de outro modo naõ posso
Alma, e vida lhe darei.
15.
Haverà em triste Cidade
Grande fome peste, e guerra,
Que a Escritura a não erra
Que em tudo falla verdade,
16.
De longas terras virão
Dois Leoens mui asanhádos
Hum de Cruz, e outro não
Vingarão males paçados.
17.
Serão à força da espada
Destruidas mil provincias,
Na Luzitania assollada
Terão fim roubos, e malicias.
18.
Na era de quarenta, é hum
De Janeiro por diante,
Darà fio ao seo montante
Aparelhece cada hum.
19.
O nosso Christianismo
Nossa grande Obrigação,
Não temos mais de Christão,
Do que o nome do Baptismo.
20.
Fazemos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada qual se faça prestes.
21.
Espantozos movimentos
Havemos cedo dever,
E antes de muitos tempos
Ha de isto de acontecer.
22.
Não haverà em Hespanha
Lugar preveligiado,
Tudo serà assollado
Dessa gente de Alemanha.
23.
Todos os lugares planos
Por terra serão prostrados,
Muitos males, muitos damnos
Haverà pellos peceádos.
24.
As Serras se habitarão
E os Oiteiros mais altos,
Muitas Gentes sahirão
Outros andarão em Saltos.
25.
Andarão como pasmados
Chorando pellos caminhos,
De suas terras lançados
De parentes, e vesinhos.
26.
Então não haverà amigos
Nem pay que por filho seja,
O mais seguro abrigo
Serà acolherse à Igreja.
27.
Nesses tempos os meninos
Ainda que innocentes,
Terão tãobem accidentes
Muito fora dos Caminhos.
28.
Haverà peregrinaçoens
Mortes sem conto de dura,
Males fogos devisoens
Só Deos lhe póde dar cura.
29.
Ha de ser Rey quem fôr
Que em Deos está o saber
O bom, o São, o melhor
Só elle o há de escolher.
30.
Por particular enteresse
Tem chegado o mundo a tanto,
Triste do que lhe parece
Que háde bastar falçomanto.
31.
Os póvos hão de alintar
As culpas dos seos Monarchas,
Que sem nenhum estudar
São Letràdos, e Patriarchas.
32.
Nos Ceos haverà sinaes
Na Terra não faltarão,
Tormentos pennas, e ais
Que aos Ceos penetrarão.
33.
E depois do Leão morto
Não sem falta de mistério,
Aportarà neste porto
Outro com maior Império.
34.
Entrarà com companheiro
Na terra dos Luzitannos,
Cada qual bom Cavalleiro
Destruirão os Arriannos.
35.
Tempos traz tempos virão
Que os Grandes serão baixàdos
Os pequennos exaltádos
Povo, e Rey governarão.
36.
E depois de tantos males
Fomes, pestes devisoens,
Cheios os montes, e Valles
De tristes peregrinaçõens.
37.
Tornarà o Redemptor
A olhar por seo rebanho,
E tello ha com muito amanho
Como bom Rey e Senhor.
38.
Escaparà pouca gente
De tão perigoza dança,
Virà tempo de bonança
Quem viver serà contente.
39.
Vejo vir grandes baleias
Pella costa de Biscaya
Gaia gaia da vezinha praya
Que lhe tingem as areias.
40.
Eis là contra a Norúega
Raios, Cavallos, Golfinhos,
Com que preça que navega
Tanta Cópia de Marinhos.
41.
Vejo milhoens de Relampagos
Trovoens que rompem os ceos
Nuvems de mui grandes véos
Coriscos grandes expantos.
42.
Que mancebo tão formozo
Dà Luz a todo o Emisfério,
Rosto mui digno de Império
Forte, fero, e graciozo.
43.
Iá por força toma a Seora
Cercàdo de Leoens bravos,
Oh que unhas dentes quebrádos
Teme, e treme toda a terra.
44.
Mil rapozas vão dìante
Buscando grutas, e côvàs,
A Lebres, Coelhos dão novas
Que fujão de tal semblante.
45.
Descançame a vista vendo
Hirse o tempo já chegando,
E estarse a Alma alegrando
Com o que vejo, e entendo.
46.
Venha embora o Leão forte
De tantos accompanhádo,
Que affirmão, e tem jurado
Que em que lhe custe a morte
O hão de ver coroado.
47.
Que grandes arribaçoens
São Atums, ou são Sardinhos,
Maiores são que Barquinhas
São Náos, boms Galioens.
48.
Parece que seo caminho
Hé direito a Portugal
Ai se eu mal não advinho
Não vão carregar de Sal.
49.
Que rostos, corpos, e armas,
Quanto fogo, e quanto asso,
No rosto gente do Passo
E Soldados nas Bisarmas.
50.
Ora quero-lhe dizer
Esta cà occupàda a Terra,
Mas poderão responder
Se hé gente de paz, ou guerra.
51.
Hé gente que em si encerra
E aquillo que diz não faz,
Diz guerra, ordena páz
Pergoa paz, e faz guerra.
52.
O Seo Rey quer ser Monarcha
E toda a Terra pertende,
Tudo abrange, e tudo abarca
E do díreito não pende.
53.
Vinde cà Rey Soberanno
Quero vos dezenganar,
Lembro-vos que sois humanno
E que tudo hade acabar.
54.
E que na postreira hora
Quando o mal jà estìver feito,
E não possa ser desfeito
Treme olma, e em vão chora.
55.
Lembre vos o que aconteceo
A Tholedo com o pay
Que já cada hum là vay
E não sei qual pa o ceo.
56.
Quereis vòs a Portugal
Sendo elle nome macho
Ajuda mal por que lhe acho
Muita fémea, e pouco Sal.
57.
Se quizerdes por direito
Deixarse há elle torcer,
Mas forçado hé máo geito
Para se deixar vencer.
58.
Vejo vosso damno perto
Hireis perdendo o reynádo
E tão bem tende por certo
Morrerdes desconsolado
59.
Luzitanna hé chamáda
A Dama que dezejaés,
Ella hé dantes despozada
Perseguilla hé por demais
60.
Ainda que em caza tem
De Ulices tantos povos,
Hir-se hão como os porcos
Ante o Leão que vem.
61.
Esta profecìa hè bella
Mui certa e verdadeira,
Quem tiver boa terceira
Gozarà a Sabia Donzella.
Fim da quarta parte.
Quinta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Quando de noite me ponho
A dormir sem me benzer,
Tudo o que háde açuceder
Se me representa em Sonho.
2.
Sempre mandei escrever
Aquillo que me lembrou,
Porque a memoria a postou
De tudo se esquecer.
3.
Nas Trovas que tinha feito
Muito hà que conciderar,
Como o seo tempo chegar
Se vera o meo conceito.
4.
Sempre por thezoiras faço
As minhas contas mui certas,
Portas que hão de estar abertas
Não são boas para o paço.
5.
Eu naõ sou Profeta inteiro
E menos na minha terra,
Mas vejo vir pella Serra
Atraz de hum Lobo hum Cordeiro.
6.
O Sol pello meio dia
Faz o effeito de Geada,
Vejo partir huma armada
Carregáda de agua fria.
7.
Huma grande tempestade
Com o céo muiclaro, e Serenno,
Farà hum hommem moreno
Com rezão mas sem piedade.
8.
A minha trepeça tem
Trez péz mui bem seguros,
Vejo fabricar hums muros
Mas eu naõ sei para quem.
9.
Quem muitos annos durar
Hade ver couzas indignas.
Tocar-se haõ muitas bozinas
Por hommems peixes do már.
10.
Todo o mundo grita, e berra
Cada qual no seo officio,
Pois antes que hum beneficio,
Querem, peste, fome, e guerra.
11.
Quando furo com a Suvella
Coiro groço, e Macio,
Vejo prender no Rocio
Quaze toda a parentella.
12.
Eu tenho medo da morte
Como couza superior,
O Presbitero maior
Naõ háde tornar à Corte.
13.
Annos hãode vir à terra
Em que por nossos peccados,
Nas cazas fiquem os gados
As gentes vivaõ na Serra.
14.
Sempre como os meos feijoens
Quando vem bem temperados,
Vejo no templo os Copados
No Cural os Cappellaens.
15.
Sou Sapateiro, mas Nobre
Com mui pouco Cabedal,
E tu triste Portugal
Quando mais rico, mais pobre.
16.
O (A) que ponho às avessas
Com a perna atraz levantáda,
Hàde ter a mão armàda
Para degollar Cabeças.
17.
Quando a terra dos Falcoens
Certa erva produzir,
Creio se hàde conceguir
O deitar fóra as Lezoens.
18.
De hum brazeiro mui acezo
Damdolhe o vento ligeiro,
Se hàde formar hum pinheiro
Sem ter medida, nem pezo.
19.
O Carro que vai chiando
Por hir muito carregàdo,
Sim mostra o jugo pezado
Mas naõ tira pezo andando.
20.
A Hortela na Panella
Dizem que lhe dà bom gosto,
Essa mulher de bom rosto
Naõ ouço rusnar bem della.
21.
Hespanha muito medroza
A Europa muito enfadada,
Huma mulher de almofada
Sabe como huma rapoza.
22.
As linhas com que cozia
Jà naõ como as de agora,
Temo que se deite fóra
Quem Souber a Ave Maria.
23.
Na era que eu tenho ditto
Nas Thezoiras levantadas,
Se haõde ver muitas jornàdas
Á custa do Saõ Benito.
24.
Naõ pode haver couza boa
Aonde Habita o mal Francez,
Temo o polho Portuguez
Em poder de huma Leoa.
25.
Quando o Leaõ Hispanhol
Vier quase a Portugal,
Háde ser o nosso mal
Querer luzir como o Sol.
26.
Quando a neve como braza
Todas as plantas queimar,
Dous quintos se haõ de ajuntar
Sem haver jogo na caza.
27.
Em hum lugar mais ameno
Cercados de mares groços,
Vive por peccados nossos
Quem se sustenta com feno.
28.
Sempre vem de monte, a monte
As agoas das enxorradas,
E vejo testas coroadas
Sentadas sobre huma ponte.
29.
Quando tiverem por certo
Perdida toda a esperança,
Portugal terá bonança
Na vinda do Encuberto.
30.
Vejo vir pello mar largo
Como quem vem para dentro,
Hum hommem buscar seo centro
Depois de hum grande lethargo.
31.
Quando me matar S. Jorge
E Marcos me reçuscitar,
Saõ Joaõ me exaltar
Faça todo o mundo alforge.
32.
Os pez da minha trepéça
Conta trez vezes areio,
Ajuntalhe dous, e meio
Dizelhe que apareça.
33.
Naõ podeis fazer queixume
De deixar o vosso lár,
Que se do norte ventar
Do Sul vos virà o lume.
34.
Vejo a grifa parideira
Juntada com huma Serpente,
E vejo que muita gente
Tem disto grande canceira.
35.
Vejo o Leão, e a Serpente
Atraz da gente goleima,
Grita o gallo que ateima
Com o Lobo que tem diante.
36.
Já vejo grande mofina
No porqueiro de Sequem,
Que o gado todo está bem
Com o Ovilheiro de Dina.
37.
Vejo a Lua ensanguentada
Pella virtude do Encuberto,
Se està longe, ou se perto
Assim o diz a toada.
38.
Là vem por sima do már
Hum Cavallo de madeira,
Que farà n'huma poeira
O porco que hàde grunhar.
39.
Vijo pedras ajuntar
Là muito perto da Lua
Vejo subir de huma, e huma
E nellas o Sol entrar.
40.
Vejo pello meo Telhado
No Ceo grande resplendor,
Se hé alegria, ou temer
Esdras o tem declarádo.
41.
Vejo o Almocreve tomar
As Alamanhas antigas,
Vejo nascer das ortigas
A remente là do mar
42.
Là donde o Sol vem nascendo
Hum Dragaõ vejo vir vindo,
A seo Cabo vem correndo
Mais bichos que o vem seguindo.
43.
O primeiro depois do quinto
Filho d'Aguia levantada,
Hade estender sua Espàda
Sobre a Galia faminto.
44.
Vejo sahir as Gaivotas
De dentro do nosso Tejo,
Taõbem parece que vejo
As duas por ellas rotas.
45.
Sonho que rebentaõ fontes
Da terra da Promiçaõ,
E que os Gallos de Siaõ
Vaõ fugindo até os montes.
46.
Naõ canta o Gallo com penna
As aguias charão mofina,
A serpente encrespa a clina
Porque Deos assim o ordenna.
47.
Faremos dos dias noites
Vivendo como agrestes,
Haverà castigo, e açoutes
Cada hum se faça prestes.
Fim da quinta parte.
Sexta parte das Trovas de Bandarra.
1.
Sonhei que via hum fumo,
Com grande força sahir,
E deixando de Subir,
Hum altar vi no escuro:
Formava taõ forte muro.
Que estava o Altar cuberto;
Vi a hostia naõ mui perto,
Do tal Altar arredada:
Huma cára sublimáda,
Em ella vi por mais certo.
2.
Pareceme que crescia,
Quem assim o figurava:
Taõbem sonhei me pegava,
Quem mulher me parecia:
E que com voz me dezia,
Anda ver a terra nova,
Pella maõ levou-me à cova,
Levava bello vestido,
Aí nuvems eu fui subido,
Onde vi a gente toda.
3.
Negra, e amolatáda,
Logo à terra baldeando,
A respiraçaõ faltando
Eu daqui já naõ quis nada,
Para a terra de pancada
Me trouxe a tal mulher,
Athé alcancei dizer
Vou segunda vez à terra,
Logo vinha resta era
E tornava a aparecer.
4.
Parecia a meo ver
Nova Igreja figurada,
Por hereges desterráda,
Na quella terra a tremer,
Quem Herege quizer ser
Ficarà negro, ou molato,
E terà todo o máo trato
Por fugir da boa Ley,
No Inferno sua grey
Para tràz darà o Salto.
5.
Taõbem sonhei que a nuvem
Cobria a gram redondeza,
Mui medonha, e espeça
Taõbem raios que destroem,
A quem a falça Ley tem,
E depois vi aclarar
Com hum claraõ singular,
Em dia de huma Senhora
Em fe seguinte boa hora
Seu nascimento sempár.
6.
Em sonhos vi grande armáda
E a Lua, em rosso Tejo,
Ficandolhe o Sol por baixo
De huma Torre armáda,
Moiros tiveraõ entráda
Pella terra de christaõs,
Na Igreja vi estes máos
Hum exercito Francez,
Taõbem entrou desta vez
Accompanhádo dos Máos.
7.
Pella terra veio entrando
Athé se perder de vista,
Com grande préça, e cobiça
Toda a vinhaõ derrotando,
Taõbem os Moiros chegando
Com grande astucia, e préça,
Vinhaõ buscando a Cabeça
A numa Cidade Real
Pouco cuida Portugal,
Em o mal que lhe aconteça.
8.
Parece que estou ouvindo
Nesse mar a gran tormenta
Antes que chegue os Setenta,
Caxas, Ballas, barberinhos
Entaõ hé que virà vindo
O Grande pastor Geral,
Acudir a taõ graõ mal,
Dando às Ovelhas sustento
E taõbem o Sacramento
Viva o nosso Portugal.
9.
Poucos tempos paçaraõ
Segundo as Profecias,
Em os Sinaes destes dias
Outros que cedo viraõ
Huma Gran tribulaçaõ,
Mas ao depois verà
A volta que tudo dà,
Chegando logo a vencer
No mundo todo o poder
Na Igreja ficarà.
10.
Em todas reste tuida
Com maior veneraçaõ,
Só nella tem o Christaõ,
Gloria na eterna vida
Mas ai que a vejo cahida
Que primeiro vem chegando
Os boms largando o mundo,
Outros morrendo à preça
Outros perdem a Cabeça,
Muitos disso vão folgando.
11.
Tanto Sangue pello campo
E tanto morrer na rua,
Tantos deixaõ vida sua
Por guardar o nome Santo,
Nem da mulher o manto
Terà respeito ou favor,
Jà nenhum lhe tem amor
A essa profanna vaidade,
Quando virem a Cidade
Posta no maior horror.
12.
Jà de França serà farto
Quem à França quiz andar
Nunca mais andem trajar,
Tomàra naõ ter o fato:
Paga o povo por ingrato
O desprezo que tem feito,
Da Patria do minho aceito
Dando rédias ao profanno
Teraõ o seo desenganno,
Com o Vestir mais perfeito.
13.
Com Sangue, Boubo, e Deshonra
Com mortes, e Vitupérios,
Fomes doenças, e Guerras,
Querendo acabar a terra
Com mui grande alarido,
Todos ficaraõ com sentido
Com o mal naõ esperado
Serà prezo o Diabo
Porque entaõ tudo hé acabádo
E o morto serà vivo.
14.
Era taõbem logo chega
Que a todos de asento,
Serà fim este tormento,
Quem com bonança navéga
Entaõ armáda mais féra,
Livranos do Inemigo,
Com bom valor, e abrigo
O Beato Saõ Joaõ
Em seo dia nos dà a maõ,
E o Incoberto vivo.
15.
Quem destruir os do Norte
E os Moiros deitar fora,
Matandolhe a gente toda
Em Cacilhas forà côrte
Lá vereis o estandarte
Com as quinas aconado
E emtaõ vereis mostràdo
Em sima o bom Jezus,
E taõbem a Santa Cruz
Para vencer o Diabo.
16.
Veremos o mar vermelho
Sem hir a Jerusalem,
A qui veraõ os que tem
Tomádo o meo concelho,
Em si proprio o espelho,
Muito Sangue em si correndo
Mas quem fôr obedecendo,
Passarà sobre o mar
Sem que precize nadar,
Verà o maior portento.
17.
Em Cassilhas a Bandeira
Com estandarte Real,
Logo Hereges por seo mal,
A morte tem de Carreira
Terà este na Simeira
Hum Christo crucificádo,
Verà o povo malvado
O quaõ cego tem vivido,
Em terem perceguido
E a muitos marterizádo.
18.
O Moiro, Turco, Francez
Naõ poderaõ fugir todos,
Porque muitos seraõ mortos
As maõs do bom portuguez,
Là levarão desta vez
Novas aos seus que contar,
Quando virem em Portugal
O Encuberto declarado,
Castigando todo o estrago
Que elles vieraõ cauzar.
19.
Nenhum remedio lhe sinto
O Naõ vireá melhor fôra,
Venha sem em boa hora
Quem ao lobo faminto,
Lhe ponha em sangue tinto
Por essas ruàs no chaõ,
Bandeiras em confucaõ
Flores, Barretes, e Capas
Deste bom Rey nada escapa,
Viva o Graõ Sebastaõ.
20.
Sonhei que via vencer
As quatro partes do mundo,
E que Portugal a tudo
Hia dando que fazer,
E taõbem fazendo e ver
O Evangelho, e a Cruz
Ao povo falto de luz,
Sacramento eterno dia
Taobem a Virgem Maria
Todos com o bom Jezus.
21.
Sonhei que o Sacramento
Em todo o mundo em redondo,
Já das almas serà dono
Isto maior portento,
Taõbem graõ contentamento,
Em ver os Reys me cauzou
Que na geraçaõ dotou,
Lá de Affonço o primeiro
Thé trinta o derradeiro,
Onde o primeiro acabou.
22.
Por humgrande oppozitor
Depois da linha acabada,
Este farà derrotada,
A Igreja com horror,
Á besta mete pavor
Em trez, e meio de dura
Tanta gente à Sepultura,
O Martir gloríozo
Por fugir do tenebrozo,
A seguir a Virgem pura.
23.
Por mil, e duzentos annos
A Igreja reinarà,
Jà todo o Christaõ serà
Vivendo como irmaõs,
Nem trapaças nem enganos
Debaixo de huma cabeça,
No seo Império, e pastor,
Por Sebastiaõ Senhor
A quem tudo obedeça
Com Zelo, e grande amor.
24.
Este Rey de Deos guardado
Para limpeza do mundo,
De tal sorte porà tudo
Que deos seja venerado,
Em Portugal exaltàdo
De pequeno graõ Senhor,
Os mais todos com Pavor
Logo o haõde coroar,
Por Imperador sempár
Ao depois do Creador.
25.
Sonhei que via descer
Hum Anjo em huma nuvem
Mostrando que jà destroe
Quem Herege quizer ser,
Daqui vem a entender
Pella voz que lhe ouvi
E com furor disse assim,
"Morra o Blasfemador
"De Ley do bom Redemptor,
"O Prencipio desde aqui.
26.
Taõbem a Lua correndo
Sonhei que a via vir
Por trez vezes a cahir,
E Portugal perecendo
A isto o que eu entendo
Que figura muito moiro,
Vindo a buscar o oiro,
E mais riqueza notoria
Fazendo perder a gloria,
A quem delle fez thezoiro.
27.
Quantos destes vaõ roubando
Aì quando virem chegar,
Muitas Náos em este mar
E gente em terra botando
Entaõ ouviraõ o bando,
Mata, fere, e degolla,
Ficando a gente tolla
Tao tolla, como pasmàda
E a terra derrotáda
Perceguida a toda a hora.
28.
Morem, e ficaõ Catholicos,
Hums morrem, outros pelejaõ
Outros depreça despejaõ,
O melhor que guardaõ vivos,
Jà fallaõ Leaes amigos
A imgratidaõ sobeja,
E algums comgrande inveja,
Sò cuidaõ em bem furtar,
Nenhum yuer a tuvar
O Mal que tanto sobeja.
29.
Nenhum vemidio se sente
Sem ter meio de Apellar
Nem na terra, nem no Mar,
Vendo prêza maior gente
O mais alto delinquente,
Naõ ficarà sem castigo
Quem muito prende taobem
Serà prezo, e cativo,
Pezarlhe há de ser vivo
Estando só sem nímguem.
30.
Nas armas pèga a mulher
Taõbem entra em Corcelho,
Entao acode o bom Valho
Sebastiaõ hàde ser,
E tudo em seo poder
Ficarà com graõ limpeza
Ou Magestade, Alteza
Bem livras do Cativeiro
Lobo se torna, em Cordeiro
Em paga da tal Fineza.
31.
Contra graõ Senhor se ergue
Com furia, Asturia, e Manha,
Esparta, forte, Companha,
De seo maior mal lhe serve,
Taõbem quem ajuda perde
Honra, fazenda, e Vida,
Depois de no mar vencida
E na terra maio é risco,
Sepultádo no abismo
De todo serà perdida.
32.
Perde Braga, vence o Porto
E todas seraõ entràdas,
Em o fogo das pancadas
Em Bahia grar dectroço,
De Lagos fica bem pouco
Lisboa já hé Senhora,
De cativa deffençora
Da Ley que haõde guardar,
Os que se querem salvar
E morrer em boa hora.
33.
Viva o grande Portugal
Todos saltaõ de contentes,
Mulheres com seos parentes
Ficaõ livres do graõ mal,
Veja agora cada qual
De que sorte poem a vida,
No levantar da cahida
Tem o vemido na maõ,
Quem cuidar em bom Christaõ
Sua alma serà subida.
34.
E todo o mundo sugeito
A esta naçaõ portugueza,
Por aquella grande Alteza
Que Christo tem em seo peito,
Por lhe ser o mais aceito
Na Fé, Constancia, e Valor,
Peregrimo, e Senhor
Gram trabalhos padecendo,
Em fortaleza padecendo
Em o mundo grão valor.
35.
Em humildade, e esperança
A maior que jà se vio,
Com caridade subio
Ao lugar que logo alcança,
Justiça com temperança
Na prudencia o primeiro,
No castigo o derradeiro
Esperando a Sugeiçaõ,
Logo chega o pagaõ
A ser Christaõ verdadeiro.
36.
Portugal fica mais nobre
Em todo elle o poder,
E taõbem se háde ver
Ficar rico, o que foi pobre,
Aquelle a quem a fé cobre
Firme na Santa Igreja,
Todos lhe teraõ inveja,
Quando virem Portuguezes
Vencendo Turcos, Francezes,
E Moiros, em graõ Peleja.
37.
Dois descendentes que traz
De grande Valor, e Brio,
O Mais velho em Senhoria
Porá a guerra, em Paz,
Veraõ todos o que faz
De boms na Santa Igreja,
A força lhe tem inveja
A Fortuna, e augmento,
Farà pàrto o Sacramento
Onde toda Christaõ seja.
38.
O Pastor mór cedo falta
Seo descendente reinando,
E grande castigo dando
Aos vezinhos de Malta,
Quando Veneza se exalta
De França hé Malográda,
Cauzarà nesta pancáda
Entre os seos naturaes,
Seraõ os castigos taes
Que toda seja arrazáda.
Fim da Sexta Parte.
4 265
2
Lobo da Costa
AQUELE RANCHINHO (Ranchinho do Sertão)
Tu me perguntas a história
daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos,
coberto por negros ramos
de pessegueiro maninho;
aquele rancho de palha,
aquele triste ranchinho!...
Ai foi um drama de sangue
que aqui se deu...pois não vês!
Repara para as janelas...
o fogo passou por elas!
- Há quantos anos! - Há três.
Contou-me o velho moleiro
há pouco menos de um mês.
Ali morava um velhinho
e mais, um anjo de amor;
criança bela morena
mais formosa que a açucena...
Maria, - a pálida flor,
cujo perfume recende
ainda aos pés do Senhor.
Maria e Vito se amaram
iam seus fados unir,
quando a trombeta da guerra
plangente ecoou na serra
convocando a reunir:
Parte o audaz cavalariano,
porém antes de partir...
Porém antes...entre beijos
juraram constância enfim:
"Se eu morrer numa batalha,
nesta casinha de palha
tu viverás só por mim!..."
A moça beijou-lhe a fronte
e respondeu-lhe: "Pois sim."
Os anos voam! Há tempo
que ela não ri como sói...
chora a triste sertaneja,
quando por fim lhe negreja
uma notícia que dói!
Morrera Vito em combate...
morrera como um herói.
Vestiu luto a pobrezinha,
o velho também vestiu...
Cede por fim a ternura,
e pouco a pouco a tristura
no peito se lhe extinguiu;
se ele morreu foi destino
foi a sorte que o feriu!
Depois correu pela riba
uma nova singular:
Que a bela flor do posteiro
c'o filho de um fazendeiro
já de pronto ia casar;
causou abalo a notícia,
sem que ousassem duvidar.
Uma noite a tempestade
batia pelos cipós,
gemia o vento nos montes
e as águas frias das fontes
desciam com rouca voz...
e no rancho do posteiro
dois noivos dormiam sós.
De repente pela encosta
um cavaleiro desceu;
molhado o poncho brilhava
ao resplendor da saraiva
que resvalava do céu...
era um vulto negro...negro...
trazia enorme chapéu!
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio se abre
a porta de par em par!
Sobre o leito precipita-se
o camponês sem temor!
No punho a adaga flutua
e nas mãos aperta a sua
primeira sombra de amor!
Uma luta então se trava,
sendo Vito o vencedor.
"Pérfida! brada o gaúcho,
Vês o teu noivo? Morreu!
Morrerás também ingrata!"
E a fria adaga de prata
bem nos ares suspendeu.
Baixou a mão e três vezes
no alvo seio a embebeu.
No outro dia os destroços
de um rancho via-se então.
O incêndio levara tudo
e fora cúmplice mudo,
fora cúmplice o trovão!
- Aí tens a história que pedes
do ranchinho do sertão.
Poema escrito em Pelotas, sua terra natal, no ano de 1875 e dedicado (como ele mesmo comentou) ao inspirado poeta riograndense Bernardo Taveira.
daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos,
coberto por negros ramos
de pessegueiro maninho;
aquele rancho de palha,
aquele triste ranchinho!...
Ai foi um drama de sangue
que aqui se deu...pois não vês!
Repara para as janelas...
o fogo passou por elas!
- Há quantos anos! - Há três.
Contou-me o velho moleiro
há pouco menos de um mês.
Ali morava um velhinho
e mais, um anjo de amor;
criança bela morena
mais formosa que a açucena...
Maria, - a pálida flor,
cujo perfume recende
ainda aos pés do Senhor.
Maria e Vito se amaram
iam seus fados unir,
quando a trombeta da guerra
plangente ecoou na serra
convocando a reunir:
Parte o audaz cavalariano,
porém antes de partir...
Porém antes...entre beijos
juraram constância enfim:
"Se eu morrer numa batalha,
nesta casinha de palha
tu viverás só por mim!..."
A moça beijou-lhe a fronte
e respondeu-lhe: "Pois sim."
Os anos voam! Há tempo
que ela não ri como sói...
chora a triste sertaneja,
quando por fim lhe negreja
uma notícia que dói!
Morrera Vito em combate...
morrera como um herói.
Vestiu luto a pobrezinha,
o velho também vestiu...
Cede por fim a ternura,
e pouco a pouco a tristura
no peito se lhe extinguiu;
se ele morreu foi destino
foi a sorte que o feriu!
Depois correu pela riba
uma nova singular:
Que a bela flor do posteiro
c'o filho de um fazendeiro
já de pronto ia casar;
causou abalo a notícia,
sem que ousassem duvidar.
Uma noite a tempestade
batia pelos cipós,
gemia o vento nos montes
e as águas frias das fontes
desciam com rouca voz...
e no rancho do posteiro
dois noivos dormiam sós.
De repente pela encosta
um cavaleiro desceu;
molhado o poncho brilhava
ao resplendor da saraiva
que resvalava do céu...
era um vulto negro...negro...
trazia enorme chapéu!
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio se abre
a porta de par em par!
Sobre o leito precipita-se
o camponês sem temor!
No punho a adaga flutua
e nas mãos aperta a sua
primeira sombra de amor!
Uma luta então se trava,
sendo Vito o vencedor.
"Pérfida! brada o gaúcho,
Vês o teu noivo? Morreu!
Morrerás também ingrata!"
E a fria adaga de prata
bem nos ares suspendeu.
Baixou a mão e três vezes
no alvo seio a embebeu.
No outro dia os destroços
de um rancho via-se então.
O incêndio levara tudo
e fora cúmplice mudo,
fora cúmplice o trovão!
- Aí tens a história que pedes
do ranchinho do sertão.
Poema escrito em Pelotas, sua terra natal, no ano de 1875 e dedicado (como ele mesmo comentou) ao inspirado poeta riograndense Bernardo Taveira.
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2
Rui Knopfli
Testamento
Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.
Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.
Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.
Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,
pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.
Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.
Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.
Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,
pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.
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2
Castro Alves
QUEM DÁ AOS POBRES, EMPRESTA A DEUS
Eu, Que a pobreza de meus pobres cantos
Dei aos heróis -- aos miseráveis grandes -- ,
Eu, que sou cego, -- mas só peço luzes...
Que sou pequeno, -- mas só fito os Andes....
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande nada dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão...
Duas grandezas neste instante cruzam-se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!...
Uma -- é um livro laureado em luzes...
Outra -- uma espada, onde os lauréis se enlaçam.
Nem cora o livro de ombrear coto sabre...
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão...
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
-- Mulher fecunda, que não cria escravos -- ,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
Parti -- soldados, mas voltei-me -- bravos!
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram -- foi no chão da história...
Se tropeçaram -- foi na eternidade...
Se naufragaram -- foi no mar da glória...
E hoje o que resta dos heróis gigantes?...
Aqui -- os filhos que vos pedem pão...
Além -- a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa -- fulminado cedro --
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece...
E grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai -- a esmola, e colhereis -- a prece!.
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
-- O rir do infante, -- o descansar do morto..
O berço -- é a barca, que encalhou na vida,
A cova -- é a barca do sidéreo porto...
E vós dissestes para o berço -- Avante! --
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as ancoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos -- os rebentos novos -- !
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um bravo! altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão!...
Dei aos heróis -- aos miseráveis grandes -- ,
Eu, que sou cego, -- mas só peço luzes...
Que sou pequeno, -- mas só fito os Andes....
Canto nesthora, como o bardo antigo
Das priscas eras, que bem longe vão,
O grande nada dos heróis, que dormem
Do vasto pampa no funéreo chão...
Duas grandezas neste instante cruzam-se!
Duas realezas hoje aqui se abraçam!...
Uma -- é um livro laureado em luzes...
Outra -- uma espada, onde os lauréis se enlaçam.
Nem cora o livro de ombrear coto sabre...
Nem cora o sabre de chamá-lo irmão...
Quando em loureiros se biparte o gládio
Do vasto pampa no funéreo chão.
E foram grandes teus heróis, ó pátria,
-- Mulher fecunda, que não cria escravos -- ,
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
Parti -- soldados, mas voltei-me -- bravos!
E qual Moema desgrenhada, altiva,
Eis tua prole, que se arroja então,
De um mar de glórias apartando as vagas
Do vasto pampa no funéreo chão.
E esses Leandros do Helesponto novo
Se resvalaram -- foi no chão da história...
Se tropeçaram -- foi na eternidade...
Se naufragaram -- foi no mar da glória...
E hoje o que resta dos heróis gigantes?...
Aqui -- os filhos que vos pedem pão...
Além -- a ossada, que branqueia a lua,
Do vasto pampa no funéreo chão.
Ai! quantas vezes a criança loura
Seu pai procura pequenina e nua,
E vai, brincando coo vetusto sabre,
Sentar-se à espera no portal da rua...
Mísera mãe, sobre teu peito aquece
Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa -- fulminado cedro --
Do vasto pampa no funéreo chão.
Mas, já que as águias lá no sul tombaram
E os filhos dáguias o Poder esquece...
E grande, é nobre, é gigantesco, é santo!...
Lançai -- a esmola, e colhereis -- a prece!.
Oh! dai a esmola... que do infante lindo
Por entre os dedos da pequena mão,
Ela transborda... e vai cair nas tumbas
Do vasto pampa no funéreo chão.
Há duas cousas neste mundo santas:
-- O rir do infante, -- o descansar do morto..
O berço -- é a barca, que encalhou na vida,
A cova -- é a barca do sidéreo porto...
E vós dissestes para o berço -- Avante! --
Enquanto os nautas, que ao Eterno vão,
Os ossos deixam, qual na praia as ancoras,
Do vasto pampa no funéreo chão.
É santo o laço, em quhoje aqui sestreitam
De heróicos troncos -- os rebentos novos -- !
É que são gêmeos dos heróis os filhos,
Inda que filhos de diversos povos!
Sim! me parece que nesthora augusta
Os mortos saltam da feral mansão...
E um bravo! altivo de além-mar partindo
Rola do pampa no funéreo chão!...
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Moreira Campos
Registro Civil
Quando nasci,
minha mãe não
deixou que meu pai me registrasse.
Temia que o governo
(mandão como ele é),
de posse de meu nome
e minha data,
me convocasse para o exército
e para a guerra,
remota naquele tempo,
mas hoje tão freqüente, minha mãe.
Espécie de sonegação,
não de imposto,
que os bens de minha mãe
vinham só do coração.
Claro que depois,
quando moço me fiz,
o registro me deu trabalho grande,
com custas, testemunhas e cartório.
De qualquer modo,
restou-me o carinho dessa proteção.
minha mãe não
deixou que meu pai me registrasse.
Temia que o governo
(mandão como ele é),
de posse de meu nome
e minha data,
me convocasse para o exército
e para a guerra,
remota naquele tempo,
mas hoje tão freqüente, minha mãe.
Espécie de sonegação,
não de imposto,
que os bens de minha mãe
vinham só do coração.
Claro que depois,
quando moço me fiz,
o registro me deu trabalho grande,
com custas, testemunhas e cartório.
De qualquer modo,
restou-me o carinho dessa proteção.
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William Blake
O Preço da Experiência
Das Canções da experiência
(Tradução de Orlando Ferreira)
Qual é o preço da experiência? Os homens a compram com uma canção?
Adquirem sabedoria dançando nas ruas? Não, ela é comprada pelo preço
De tudo que um homem possui, sua casa, sua esposa, seus filhos.
A sabedoria é vendida num mercado sombrio onde ninguém vem comprar,
E no campo infecundo que o fazendeiro ara em vão por seu pão.
É fácil triunfar sob o sol do verão
E na colheita cantar na carroça cheia de grão.
É fácil falar de prudência aos aflitos,
Falar das leis da prudência ao andarilho sem teto,
Ouvir o grito faminto do corvo na estação invernal
Quando o sangue vermelho mistura-se ao vinho e ao tutano do cordeiro
É tão fácil sorrir diante da ira da natureza
Ouvir o uivo do cão diante da porta no inverno, e o boi a mugir no matadouro;
Ver um deus em cada brisa e uma bênção em cada tempestade.
Ouvir o som do amor no raio que arrasa a casa do inimigo;
Rejubilar-se diante do praga que cobre seu campo, e da doença que ceifa seus filhos,
Enquanto nossas oliveiras e nosso vinho cantam e riem diante da porta, e nossos
/filhos nos trazem frutas e flores.
Então o lamento e a dor estão quase esquecidos, bem como o escravo que gira omoinho,
E o cativo acorrentado, o pobre prisioneiro, e o soldado no campo de batalha
Quando os ossos rompidos deixam-no gemendo à espera da morte feliz.
É fácil rejubilar-se sob a tenda da prosperidade:
Eu poderia cantar e me rejubilar deste modo: mas eu não sou assim.
1797
(Tradução de Orlando Ferreira)
Qual é o preço da experiência? Os homens a compram com uma canção?
Adquirem sabedoria dançando nas ruas? Não, ela é comprada pelo preço
De tudo que um homem possui, sua casa, sua esposa, seus filhos.
A sabedoria é vendida num mercado sombrio onde ninguém vem comprar,
E no campo infecundo que o fazendeiro ara em vão por seu pão.
É fácil triunfar sob o sol do verão
E na colheita cantar na carroça cheia de grão.
É fácil falar de prudência aos aflitos,
Falar das leis da prudência ao andarilho sem teto,
Ouvir o grito faminto do corvo na estação invernal
Quando o sangue vermelho mistura-se ao vinho e ao tutano do cordeiro
É tão fácil sorrir diante da ira da natureza
Ouvir o uivo do cão diante da porta no inverno, e o boi a mugir no matadouro;
Ver um deus em cada brisa e uma bênção em cada tempestade.
Ouvir o som do amor no raio que arrasa a casa do inimigo;
Rejubilar-se diante do praga que cobre seu campo, e da doença que ceifa seus filhos,
Enquanto nossas oliveiras e nosso vinho cantam e riem diante da porta, e nossos
/filhos nos trazem frutas e flores.
Então o lamento e a dor estão quase esquecidos, bem como o escravo que gira omoinho,
E o cativo acorrentado, o pobre prisioneiro, e o soldado no campo de batalha
Quando os ossos rompidos deixam-no gemendo à espera da morte feliz.
É fácil rejubilar-se sob a tenda da prosperidade:
Eu poderia cantar e me rejubilar deste modo: mas eu não sou assim.
1797
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2
Marta Gonçalves
Poema da Alemanha
Os mortos dos campos da Alemanha crescem
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
lírios em suas sepulturas de raízes.
OS mortos dos campos da Alemanha escreveram
a história dos homens taciturnos.
Os mortos dos campos da Alemanha enferrujam
a alma aflita de quatro gerações.
Nas madrugadas de chuva os mortos dos campos
da Alemanha lustram as botas dos velhos soldados.
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Geir Campos
Oração Recoordenada
Pai nosso,
que estais no céu,
se ainda há céu
na altura a que o engenho leva
o bicho da terra
em guerra.
Venha a nós
vosso reino,
mas não seja
imposto da vida
a vida.
E o pão difícil
que nem todos têm,
dai-nos,
e a força de o repartir bem.
Amém.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
que estais no céu,
se ainda há céu
na altura a que o engenho leva
o bicho da terra
em guerra.
Venha a nós
vosso reino,
mas não seja
imposto da vida
a vida.
E o pão difícil
que nem todos têm,
dai-nos,
e a força de o repartir bem.
Amém.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
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Lindolf Bell
A Bomba
A vida esplende no subsolo.
Todas as mães foram derrotadas.
Os meninos cultivam silêncios
O mundo confere medalhas.
A bomba é um brinquedo muito mais difícil.
Muito mais difícil mesmo.
A bomba é um gorjeio mutilado.
A bomba não sabe fazer.
A bomba tem o mundo nas mãos.
A bomba é o não-brinquedo.
A bomba é uma gargalhada,
tubo de ensaio,
flor recolhida,
o não-homem.
A bomba,
a bomba-alimento-comum,
a bomba-alucinação,
a bomba-adeptos,
a bomba-hóspede de um hotel relativo
com a fachada escrita: MUNDO.
A bomba é um brinquedo muito mais difícil.
Muito mais difícil mesmo.
Poema integrante da série Arrebentação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
Todas as mães foram derrotadas.
Os meninos cultivam silêncios
O mundo confere medalhas.
A bomba é um brinquedo muito mais difícil.
Muito mais difícil mesmo.
A bomba é um gorjeio mutilado.
A bomba não sabe fazer.
A bomba tem o mundo nas mãos.
A bomba é o não-brinquedo.
A bomba é uma gargalhada,
tubo de ensaio,
flor recolhida,
o não-homem.
A bomba,
a bomba-alimento-comum,
a bomba-alucinação,
a bomba-adeptos,
a bomba-hóspede de um hotel relativo
com a fachada escrita: MUNDO.
A bomba é um brinquedo muito mais difícil.
Muito mais difícil mesmo.
Poema integrante da série Arrebentação.
In: BELL, Lindolf. Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973. São Paulo: Quíron, 1974. (Sélesis, 3)
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Francesco Petrarca
ITALIA MIA
Itália minha, se o falar não vale
Dessas chagas mortais
Que o belo corpo assim te dilaceram-
Praz-me que meus suspiros sejam quais
Tibre, Arno e Pó esperam.
Que, grave e triste, aqui, eu me não cale.
Reitor celeste: ao mal
Vieste piedoso combater na terra:
Volta, Senhor, a teu país dilecto.
Perfeito que és, completo,
Vê por quão leves causas crua guerra.
E os peitos a quem cerra
Marte soberbo e fero,
Abre-os, ó Pai, desfeitos em doçura,
Ao som de quanto é vero
Em minha voz que só de Ti se apura.
E vós, a quem fortuna o freio há dado
De terras tão formosas,
De que a piedade em vós se vai delindo:
A que vem cá tanto estrangeiro armado?
Porque é que o verde prado
De sangue bárbaro se vai tingindo?
Derros vos iludindo,
Sois como cegos, pois que amor contais
Que existe, ou lealdade, em venais peitos.
Ao imigo sujeitos
Mais estareis quanto o comprardes mais.
Ó águas diluviais
Colhidas em deserto
Para inundar os nossos campos breves!
Quem poderá estar certo
Ao dar a mão a quem tem pés tão leves?
Bem próvida a natura quando alteou
Entre nós e os tudescos
Dos fortes Alpes o limite duro.
Mas a vontade estulta em gigantescos
Esforços se empenhou
E trouxe-os como sarna ao corpo puro
Ou dentro ao mesmo muro
Feras selvagens e a virtuosa grei
Que delas, por melhor, será dolente:
Sendo isto procedente
Dessas, ó dor maior, tribos sem lei,
Às quais, como direi, Mário rasgou o flanco
Qual a memória inda não stá exangue:
Quando, no último arranco,
Águas bebiam que já eram sangue.
César eu calo, que sangrento o verde
Pelas encostas fez
Das veias dels por nosso ferro abertas.
Ora não sei de que astro a rispidez
Perante o céu nos perde,
Se não são culpas vossas mais que certas,
Vontades tão despertas
Para gastar do mundo a parte bela.
De quem será juízo ou é pecado,
Se o povo desgraçado
É quem de aflito por vós paga aquela
Gente que nos flagela,
E detestável mais,
Que as almas vende a troco de áureo peso.
Eu falo pra que ouçais,
Não por ódio de alguém, ou por desprezo.
Que mais necessitais que alguém vos prove
Os bárbaros enganos
Que alçando os dedos com a morte brinquem?
Pior é a tortura do que o são os danos.
E o vosso sangue chove
Mais amplamente em ódios que vos trinquem.
No madrugar se afinquem
Os vossos pensamentos: vereis claro
Quem será caro a quem se tem por vil.
Nosso sangue gentil
É derramado por um esforço ignaro.
Fazeis ídolo raro
De um nome sem sentido:
Que o furor desta gente só repousa
No seu pensar perdido:
Pecado é nosso e não natural cousa.
Esta terra não é que andei primeiro?
Não é este o meu ninho
Em que criado fui tão docemente?
Pátria não é da fé e do carinho,
A madre em cujo seio
Dorme quem me gerou, foi meu parente?
Por Deus, que a vossa mente
Disto se mova, e pios contempleis
As lágrimas do povo doloroso
Que só de vós repouso
Ainda espera: e quanto vos mostreis
Que para el viveis, logo contra o furor
Das armas tomará em fúria absorto,
Pois que o antigo valor
No coração da Itália não está morto.
Mirai, senhors, como o tempo voa
E foge a doce vida
E a morte espreita já por sobre o ombro.
Estais ora aqui: pensai nessa partida,
Quando alma nua aproa,
E solitária, ao duvidoso assombro.
Cruzando neste combro
Deveis depor no val ódios malignos,
Os ars contrários à vida serena;
E se o tempo em dar pena
Aos outros vós gastais que a actos mais dignos
Ou das mãos ou dos signos, O vosso ser se entregue
E a mais honesto estudo se converta. Que a vida aqui sossegue
E que a celeste estrada seja aberta.
Canção, tuas razões
Discretamente e com cautela digas,
Pois que te hás-de ir por entre altiva gente que é presa por demente
De usanças miseráveis, tão antigas, Do vero sempre imigas. Entrega teus apelos
Aos animosos poucos que o bem praz. E, se puders movê-los,
A eles grita, como eu grito: Paz!
(Tradução de Jorge de Sena)
Dessas chagas mortais
Que o belo corpo assim te dilaceram-
Praz-me que meus suspiros sejam quais
Tibre, Arno e Pó esperam.
Que, grave e triste, aqui, eu me não cale.
Reitor celeste: ao mal
Vieste piedoso combater na terra:
Volta, Senhor, a teu país dilecto.
Perfeito que és, completo,
Vê por quão leves causas crua guerra.
E os peitos a quem cerra
Marte soberbo e fero,
Abre-os, ó Pai, desfeitos em doçura,
Ao som de quanto é vero
Em minha voz que só de Ti se apura.
E vós, a quem fortuna o freio há dado
De terras tão formosas,
De que a piedade em vós se vai delindo:
A que vem cá tanto estrangeiro armado?
Porque é que o verde prado
De sangue bárbaro se vai tingindo?
Derros vos iludindo,
Sois como cegos, pois que amor contais
Que existe, ou lealdade, em venais peitos.
Ao imigo sujeitos
Mais estareis quanto o comprardes mais.
Ó águas diluviais
Colhidas em deserto
Para inundar os nossos campos breves!
Quem poderá estar certo
Ao dar a mão a quem tem pés tão leves?
Bem próvida a natura quando alteou
Entre nós e os tudescos
Dos fortes Alpes o limite duro.
Mas a vontade estulta em gigantescos
Esforços se empenhou
E trouxe-os como sarna ao corpo puro
Ou dentro ao mesmo muro
Feras selvagens e a virtuosa grei
Que delas, por melhor, será dolente:
Sendo isto procedente
Dessas, ó dor maior, tribos sem lei,
Às quais, como direi, Mário rasgou o flanco
Qual a memória inda não stá exangue:
Quando, no último arranco,
Águas bebiam que já eram sangue.
César eu calo, que sangrento o verde
Pelas encostas fez
Das veias dels por nosso ferro abertas.
Ora não sei de que astro a rispidez
Perante o céu nos perde,
Se não são culpas vossas mais que certas,
Vontades tão despertas
Para gastar do mundo a parte bela.
De quem será juízo ou é pecado,
Se o povo desgraçado
É quem de aflito por vós paga aquela
Gente que nos flagela,
E detestável mais,
Que as almas vende a troco de áureo peso.
Eu falo pra que ouçais,
Não por ódio de alguém, ou por desprezo.
Que mais necessitais que alguém vos prove
Os bárbaros enganos
Que alçando os dedos com a morte brinquem?
Pior é a tortura do que o são os danos.
E o vosso sangue chove
Mais amplamente em ódios que vos trinquem.
No madrugar se afinquem
Os vossos pensamentos: vereis claro
Quem será caro a quem se tem por vil.
Nosso sangue gentil
É derramado por um esforço ignaro.
Fazeis ídolo raro
De um nome sem sentido:
Que o furor desta gente só repousa
No seu pensar perdido:
Pecado é nosso e não natural cousa.
Esta terra não é que andei primeiro?
Não é este o meu ninho
Em que criado fui tão docemente?
Pátria não é da fé e do carinho,
A madre em cujo seio
Dorme quem me gerou, foi meu parente?
Por Deus, que a vossa mente
Disto se mova, e pios contempleis
As lágrimas do povo doloroso
Que só de vós repouso
Ainda espera: e quanto vos mostreis
Que para el viveis, logo contra o furor
Das armas tomará em fúria absorto,
Pois que o antigo valor
No coração da Itália não está morto.
Mirai, senhors, como o tempo voa
E foge a doce vida
E a morte espreita já por sobre o ombro.
Estais ora aqui: pensai nessa partida,
Quando alma nua aproa,
E solitária, ao duvidoso assombro.
Cruzando neste combro
Deveis depor no val ódios malignos,
Os ars contrários à vida serena;
E se o tempo em dar pena
Aos outros vós gastais que a actos mais dignos
Ou das mãos ou dos signos, O vosso ser se entregue
E a mais honesto estudo se converta. Que a vida aqui sossegue
E que a celeste estrada seja aberta.
Canção, tuas razões
Discretamente e com cautela digas,
Pois que te hás-de ir por entre altiva gente que é presa por demente
De usanças miseráveis, tão antigas, Do vero sempre imigas. Entrega teus apelos
Aos animosos poucos que o bem praz. E, se puders movê-los,
A eles grita, como eu grito: Paz!
(Tradução de Jorge de Sena)
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Carlos Drummond de Andrade
Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
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Janice Japiassu
O Discurso e o Deserto
Com o acre mel do deserto
De ouro veste-se o nome
Pronunciado na guerra.
O sol fecunda as espadas
Retesa o arco certeiro
E o sete nasce da pedra
No silêncio alumioso
Da noite mal-assombrada
Mistura o grito viçoso
Eis a palavra afiada
Nos pastos da solidão
Dentro do silêncio limpo
Voz de toda precisão
De ouro veste-se o nome
Pronunciado na guerra.
O sol fecunda as espadas
Retesa o arco certeiro
E o sete nasce da pedra
No silêncio alumioso
Da noite mal-assombrada
Mistura o grito viçoso
Eis a palavra afiada
Nos pastos da solidão
Dentro do silêncio limpo
Voz de toda precisão
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