Poemas neste tema
Guerra e Paz
Tobias Pinheiro
A Consciência
BASTA! A dor já se impõe no mundo inteiro,
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
819
Dante Milano
Salmo Perdido
Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Terra de Ninguém.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.89. (Pedra mágica, 1
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Terra de Ninguém.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.89. (Pedra mágica, 1
824
Murillo Mendes
Guernica
Subsiste, Guernica, o exemplo macho,
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
2 624
Vitorino Nemésio
Quando Toda és Terra a Terra
Marga, teu busto tufa,
Dois gomos e véus de ilhal
Palpitam palmo de gente
Nesse tefe-tefe igual
E há qualquer coisa de ardente
Que se endireita e que rufa
Nem tambor a general.
Marga, teu peitinho estringes,
Toca a quebrados na praça
De armas que empunham rapazes
De guarda a uma egípcia esfinge,
E um vento de guerra passa
E o pau da bandeira ringe
Antes de fazer as pazes.
Marga, que deusa de guerra,
A Miosótis se interpôs
Quando toda és terra a terra
Cálice de rododendro
Zango nunca em ti se pôs
Em estames senão tremendo...
Dois gomos e véus de ilhal
Palpitam palmo de gente
Nesse tefe-tefe igual
E há qualquer coisa de ardente
Que se endireita e que rufa
Nem tambor a general.
Marga, teu peitinho estringes,
Toca a quebrados na praça
De armas que empunham rapazes
De guarda a uma egípcia esfinge,
E um vento de guerra passa
E o pau da bandeira ringe
Antes de fazer as pazes.
Marga, que deusa de guerra,
A Miosótis se interpôs
Quando toda és terra a terra
Cálice de rododendro
Zango nunca em ti se pôs
Em estames senão tremendo...
1 281
Sousa Caldas
Ode III - Sobre a Necessidade da Revelação
(...)
Antístrofe 3a.
Ó México! ó cidades desgraçadas
Do novo aflito mundo!
Parece-me que vejo inda ensopadas
Em sangue as vossas casas; furibundo
Voraz fogo nos ares estalando,
Os vossos débeis muros arrasando.
Epodo 3o.
Embora cante a fama
A constante invencível fortaleza
De Colombo imortal, do invicto Gama:
A Européia crueza
Manchou depois a sua nobre empresa.
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Antístrofe 3a.
Ó México! ó cidades desgraçadas
Do novo aflito mundo!
Parece-me que vejo inda ensopadas
Em sangue as vossas casas; furibundo
Voraz fogo nos ares estalando,
Os vossos débeis muros arrasando.
Epodo 3o.
Embora cante a fama
A constante invencível fortaleza
De Colombo imortal, do invicto Gama:
A Européia crueza
Manchou depois a sua nobre empresa.
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
972
Mafalda Veiga
Pedras e Flores
Hoje a vida passa como um barco
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras
Ilha de náufragos esquecida no mar
E o tempo é nada haver sentido tudo
O que por nada ser nos faz mudar
Hoje o mundo é o revés de um sonho
Que um sono mais profundo fez esquecer
Para quê querer das coisas a razão
Se quase nada tem razão de ser
O luar traz silêncios e disparos
E carícias fugazes e horrores
E morre-se num canto de um poema
Por isso e outras coisa dão-se flores
Bebe-se vinho e dorme-se ao relento
E liberta-se o grito que vier
Pra se ouvir longe e perto, e dentro
Conserva-se o silêncio, o que se puder
E alguma vez ainda se acredita
Na força da montanha céu adentro
E na canção do mar por ser bonita
E nas asas que inventa, cores ao vento
Mas hoje voam pássaros sem asas
Na terra desabrocham cores de guerra
E hoje as flores rolam pelo chão
Como se fossem pedras
1 366
Pedro Luís Pereira de Sousa
Terribilis Dea
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplendente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
Quem era? De onde vinha aquela grande imagem,
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu?... do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espectro ressurgir?
Deixai que se levante a grande divindade!...
Seu templo é a terra e o mar; seu culto — a mortandade:
Enche-lhe o peito largo o sopro das paixões...
É a mulher fantasma! uma visão de Dante...
Dos campos de batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!
A deusa do sepulcral A pálida rainha!
A morte é a sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre corte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.
Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espectro;
De raios coroou-se! Ao peso de seu ceptro,
A terra tem arfado em transes infernais!...
Do mundo as gerações têm visto em toda idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais.
No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! Tem risos de amargura
Muda sempre de céu, de rumo, de farol!
Aqui — pede ao direito a voz forte e serena;
Ali — ruge feroz, feroz como uma hiena...
Assassina na treva ou mata à luz do sol!...
Levanta o gládio nu em nome da verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da liberdade...
E no punho viril derrete-lhe o grilhão!
Como é bela! ... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça e atira com cinismo
A virgem liberdade aos braços da opressão!
É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glória e os cerca de esplendor;
E esses loucos, depois de feitos de gigantes,
A túnica lhe beijam, ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés, na febre desse amor.
quando Átila — o monstro, o tigre-cavaleiro,
Espumando, a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na fronte do selvagem,
Enterrando o aguilhão no flanco do corcel!
Era ela que em Roma erguia-se funesta,
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu!
Vergava com seu braço o braço do destino,
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em doida bacanal depois desfaleceu.
Foi de Carlos o grande a excelsa companheira
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial... e glórias... e troféus;
Quando, no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus!...
Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, no deserto, e em busca do infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Corã...
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente.
Teve medo, afinal, daquela febre ardente...
Lá no meio do mar prendeu esse Titã.
Ela estava a sorrir, serena e triunfante,
Aos pés de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor
Em doidas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror.
Ela estava também — espectro pavoroso —
Do Amazonas a bordo, ao lado de Barroso,
De pólvora cercada, em pé, sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!
Salve, da guerra deusa, arcanjo da batalha!
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate aos infernais clarões!
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos,
O céu é fogo e aço; o ar — pólvora e gritos. . .
E ferve e corre o sangue em quentes borbotões!
Salve, tu! que nos deste o sonho da vingança,
O gládio da justiça o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia,
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte. .
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra ... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
O cabelo revolto... a palidez na fronte...
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplendente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
Quem era? De onde vinha aquela grande imagem,
Que turbara do céu a límpida miragem,
E de luto cobrira a senda do porvir?
De que abismo saiu?... do túmulo? do inferno?
Pode o anjo do mal desafiar o Eterno?
Da fria sepultura o espectro ressurgir?
Deixai que se levante a grande divindade!...
Seu templo é a terra e o mar; seu culto — a mortandade:
Enche-lhe o peito largo o sopro das paixões...
É a mulher fantasma! uma visão de Dante...
Dos campos de batalha a hórrida bacante,
Que mergulha no sangue e ri das maldições!
A deusa do sepulcral A pálida rainha!
A morte é a sua vida. Impávida caminha,
Ora grande, ora vil, nas trevas ou na luz;
A corte que a rodeia é lúgubre corte;
Tem gala e traja luto: é o séquito da morte,
A miséria que chora, a glória que seduz.
Desde que o mal nasceu, nasceu aquele espectro;
De raios coroou-se! Ao peso de seu ceptro,
A terra tem arfado em transes infernais!...
Do mundo as gerações têm visto em toda idade,
Sinistra, aparecer aquela divindade,
Celebrando no sangue as grandes saturnais.
No seu olhar de fogo há raios de loucura...
Tem cantos de prazer! Tem risos de amargura
Muda sempre de céu, de rumo, de farol!
Aqui — pede ao direito a voz forte e serena;
Ali — ruge feroz, feroz como uma hiena...
Assassina na treva ou mata à luz do sol!...
Levanta o gládio nu em nome da verdade,
Acorda em fúria acesa à voz da liberdade...
E no punho viril derrete-lhe o grilhão!
Como é bela! ... Depois... sem fé, sem heroísmo,
Despedaça a justiça e atira com cinismo
A virgem liberdade aos braços da opressão!
É uma deusa fatal! Quer sangue e atira flores!
Abraça, prende, esmaga os seus adoradores,
Embriaga-os de glória e os cerca de esplendor;
E esses loucos, depois de feitos de gigantes,
A túnica lhe beijam, ardentes, delirantes,
E morrem a seus pés, na febre desse amor.
quando Átila — o monstro, o tigre-cavaleiro,
Espumando, a correr, calcava o mundo inteiro,
A deusa o acompanhava, e ria-se... a cruel!
Tinha a face vermelha, ardia de coragem,
Dava beijos de amor na fronte do selvagem,
Enterrando o aguilhão no flanco do corcel!
Era ela que em Roma erguia-se funesta,
O ídolo do povo em sempiterna festa!
O amor de Cipião, de César, de Pompeu!
Vergava com seu braço o braço do destino,
Prendeu nações e reis ao monte Palatino,
E em doida bacanal depois desfaleceu.
Foi de Carlos o grande a excelsa companheira
Deu-lhe o trono de bronze, a espada aventureira,
E o globo imperial... e glórias... e troféus;
Quando, no escuro val, Rolando, moribundo,
Embocava a trombeta a despertar o mundo,
Erguia o colo a deusa além dos Pireneus!...
Seguiu Napoleão da França até o Egito,
Nos mares, no deserto, e em busca do infinito,
Das terras do Evangelho às terras do Corã...
Dos delírios da Europa aos sonhos do Oriente.
Teve medo, afinal, daquela febre ardente...
Lá no meio do mar prendeu esse Titã.
Ela estava a sorrir, serena e triunfante,
Aos pés de Farragut, o intrépido almirante,
Lá no tope do mastro, enquanto o monitor
Em doidas convulsões, das túmidas entranhas
Vomitava metralha a derribar montanhas,
E do mundo arrancava um grito de terror.
Ela estava também — espectro pavoroso —
Do Amazonas a bordo, ao lado de Barroso,
De pólvora cercada, em pé, sobre o convés...
Quando, à voz do valente, o monstro foi bufando,
Calados os canhões, navios esmagando,
A deusa varonil de amor caiu-lhe aos pés!
Salve, da guerra deusa, arcanjo da batalha!
Que voas no vapor, que ruges na metralha,
Que cantas do combate aos infernais clarões!
Quando arrancas do bronze os cânticos malditos,
O céu é fogo e aço; o ar — pólvora e gritos. . .
E ferve e corre o sangue em quentes borbotões!
Salve, tu! que nos deste o sonho da vingança,
O gládio da justiça o raio da esperança,
E da glória cruenta o mágico esplendor!
É para te saudar que brame a artilharia,
E que repete ao longe a voz da ventania
Das trombetas da morte o hórrido clangor!
Quando ela apareceu no escuro do horizonte,
O cabelo revolto... a palidez na fronte. .
Aos ventos sacudindo o rubro pavilhão,
Resplandente de sol, de sangue fumegante,
O raio iluminou a terra ... nesse instante
Frenética e viril ergueu-se uma nação!
1 821
Perce Polegatto
Todas as Sombras
Não me entendas teu amante suicida
que eu nem mesmo escreverei de nosso amor.
não me abraces esperando que eu te ame,
pois tudo em nós não passa de conflito
e há enigmas além de teu segredo
que chegam de mansinho e me acorrentam.
não, não me tragas mais poesia nos teus olhos!
há ventos estranhos, resíduos vivos,
há um desperdício inútil de sangue nas fronteiras
e hoje eu tenho que morrer,
morrer um pouco.
há sarcófagos ocultos onde ainda repousam princesas,
há terríveis profecias trazendo devastações,
há livros enormes (dentro deles os heróis se sacrificam),
há astrônomos, soldados e palhaços,
há um circo na cidade.
vagam fantasmas de incerto destino,
há névoa no ar.
o pesadelo persegue as pessoas.
mulheres soluçam, sozinhas de sexo.
a fome devora as aldeias.
em outras galáxias, povos inteiros sucumbem
— morrem civilizações e outras nascem
ao tempo em que sonho.
há pontes sombrias
e rios infinitos murmurando um pranto lamacento.
há muralhas, cordilheiras, guerrilheiros,
há missionários perdidos na selva para sempre.
há um velho solitário que conhece os segredos do inverno
e um gênio no fundo de um bar, esquecido.
caem dinastias para sempre,
criam-se potências e tiranos sanguinários,
morrem bravos e covardes por amor,
séculos correm...
há homens cavando uma mina distante,
há fósseis que nos lembram os dilúvios fabulosos
e algas oceânicas em lamas primitivas.
não esperes mais de mim que meu tormento.
há muito me perdi nas águas cristalinas dos teus olhos,
embora nosso beijo no passado
fosse menos violento que as próprias tempestades do universo
em recentes espirais de estrelas jovens.
que eu nem mesmo escreverei de nosso amor.
não me abraces esperando que eu te ame,
pois tudo em nós não passa de conflito
e há enigmas além de teu segredo
que chegam de mansinho e me acorrentam.
não, não me tragas mais poesia nos teus olhos!
há ventos estranhos, resíduos vivos,
há um desperdício inútil de sangue nas fronteiras
e hoje eu tenho que morrer,
morrer um pouco.
há sarcófagos ocultos onde ainda repousam princesas,
há terríveis profecias trazendo devastações,
há livros enormes (dentro deles os heróis se sacrificam),
há astrônomos, soldados e palhaços,
há um circo na cidade.
vagam fantasmas de incerto destino,
há névoa no ar.
o pesadelo persegue as pessoas.
mulheres soluçam, sozinhas de sexo.
a fome devora as aldeias.
em outras galáxias, povos inteiros sucumbem
— morrem civilizações e outras nascem
ao tempo em que sonho.
há pontes sombrias
e rios infinitos murmurando um pranto lamacento.
há muralhas, cordilheiras, guerrilheiros,
há missionários perdidos na selva para sempre.
há um velho solitário que conhece os segredos do inverno
e um gênio no fundo de um bar, esquecido.
caem dinastias para sempre,
criam-se potências e tiranos sanguinários,
morrem bravos e covardes por amor,
séculos correm...
há homens cavando uma mina distante,
há fósseis que nos lembram os dilúvios fabulosos
e algas oceânicas em lamas primitivas.
não esperes mais de mim que meu tormento.
há muito me perdi nas águas cristalinas dos teus olhos,
embora nosso beijo no passado
fosse menos violento que as próprias tempestades do universo
em recentes espirais de estrelas jovens.
364
Jorge Luis Borges
Inscripción sepulcral
Para mi bisabuelo, el colonel Isidoro Suárez
Dilató su valor sobre los Andes.
Contrastó montañas y ejércitos.
La audacia fue costumbre de su espada.
Impuso en la llanura de Junín
término venturoso a la batalla
y a las lanzas del Perú dio sangre española.
Escribió su censo de hazañas
en prosa rígida como clarines belísonos.
Eligió el honroso destierro.
Ahora es un poco de ceniza y de gloria.
"Fervor de Buenos Aires" (1923)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 26 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Dilató su valor sobre los Andes.
Contrastó montañas y ejércitos.
La audacia fue costumbre de su espada.
Impuso en la llanura de Junín
término venturoso a la batalla
y a las lanzas del Perú dio sangre española.
Escribió su censo de hazañas
en prosa rígida como clarines belísonos.
Eligió el honroso destierro.
Ahora es un poco de ceniza y de gloria.
"Fervor de Buenos Aires" (1923)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 26 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 886
J. B. Sayeg
Clangor
Mundo em guerra
poesia quieta.
Os poetas andam
de bicicleta
não em suas pode
rosas máquinas
voadoras.
Vida inquieta
com sider
al all dreams
without lider.
A ciber (n) ética
ser / vindo
o homem a ser.
Vil medo a dúvida
do viver.
Para onde dirigir
o raio do laser?
(de Permissivo Amor, 1978)
poesia quieta.
Os poetas andam
de bicicleta
não em suas pode
rosas máquinas
voadoras.
Vida inquieta
com sider
al all dreams
without lider.
A ciber (n) ética
ser / vindo
o homem a ser.
Vil medo a dúvida
do viver.
Para onde dirigir
o raio do laser?
(de Permissivo Amor, 1978)
1 056
J. B. Sayeg
No Tempo do Forte Verde
Na sala de jantar
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
939
Jorge Luis Borges
A la efigie de un capitán de los ejércitos de Cromwell
No rendirán de Marte las murallas
a este, que salmos del Señor inspiran;
desde otra luz (desde otro siglo) miran
los ojos, que miraron las batallas.
La mano está en los hierros de la espada.
Por la verde región anda la guerra;
detrás de la penumbra está Inglaterra,
y el caballo y la gloria y tu jornada.
Capitán, los afanes son engaños,
vano el arnés y vana la porfía
del hombre, cuyo término es un día;
Todo ha concluido hace ya muchos años.
El hierro que ha de herirte se ha herrumbrado;
estás (como nosotros) condenado.
"El hacedor" (1960)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 126 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
a este, que salmos del Señor inspiran;
desde otra luz (desde otro siglo) miran
los ojos, que miraron las batallas.
La mano está en los hierros de la espada.
Por la verde región anda la guerra;
detrás de la penumbra está Inglaterra,
y el caballo y la gloria y tu jornada.
Capitán, los afanes son engaños,
vano el arnés y vana la porfía
del hombre, cuyo término es un día;
Todo ha concluido hace ya muchos años.
El hierro que ha de herirte se ha herrumbrado;
estás (como nosotros) condenado.
"El hacedor" (1960)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 126 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 524
Jorge Luis Borges
Alusión a la muerte
Lo dejo en el caballo, en esa hora;
crepuscular en que buscó la muerte;
que de todas las horas de su suerte
ésta perdure, amarga y vencedora.
Avanza por el campo la blancura
del caballo y del poncho. La paciente
muerte acecha en los rifles. Tristemente
Francisco Borges va por la llanura.
Esto que lo cercaba, la metralla,
esto que ve, la pampa desmedida,
es lo que vio y oyó toda la vida.
Está en lo cotidiano, en la batalla.
Alto lo dejo en su épico universo
y casi no tocado por el verso.
"El hacedor" (1960)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 132| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
crepuscular en que buscó la muerte;
que de todas las horas de su suerte
ésta perdure, amarga y vencedora.
Avanza por el campo la blancura
del caballo y del poncho. La paciente
muerte acecha en los rifles. Tristemente
Francisco Borges va por la llanura.
Esto que lo cercaba, la metralla,
esto que ve, la pampa desmedida,
es lo que vio y oyó toda la vida.
Está en lo cotidiano, en la batalla.
Alto lo dejo en su épico universo
y casi no tocado por el verso.
"El hacedor" (1960)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 132| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 158
Carlos Pinhão
A Guerra
Carlos Pinhão é português e contemporêneo
Num ano qualquer,
houve uma batalha qualquer,
numa terra qualquer,
entre um rei qualquer e outro rei
qualquer.
No fim, um anjo qualquer
desceu no campo de batalha,
pegou nos cadáveres do rei qualquer
e do rei qualquer
e perguntou
para um deus qualquer:
- Qual quer?
Num ano qualquer,
houve uma batalha qualquer,
numa terra qualquer,
entre um rei qualquer e outro rei
qualquer.
No fim, um anjo qualquer
desceu no campo de batalha,
pegou nos cadáveres do rei qualquer
e do rei qualquer
e perguntou
para um deus qualquer:
- Qual quer?
1 222
Edgar Allan Poe
Bridal Ballad
The ring is on my hand,
And the wreath is on my brow;
Satin and jewels grand
Are all at my command,
And many a rood of land
And I am happy now.
And my lord he loves me well;
But, when first he breathed his vow,
I felt my bosom swell—
And the voice seemed his who fell
For the words rang as a knell,
In the battle down the dell,
And who is happy now.
But he spoke to re-assure me,
And he kissed my pallid brow,
While a reverie came o'er me,
And to the church-yard bore me,
And I sighed to him before me,
"Oh, I am happy now!"
And thus the words were spoken,
And this the plighted vow,
And, though my faith be broken,
And, though my heart be broken,
Behold the golden token
That proves me happy now!
Would God I could awaken!
For I dream I know not how!
And my soul is sorely shaken
Lest an evil step be taken,—--
Lest the dead who is forsaken
May not be happy now.
1837
And the wreath is on my brow;
Satin and jewels grand
Are all at my command,
And many a rood of land
And I am happy now.
And my lord he loves me well;
But, when first he breathed his vow,
I felt my bosom swell—
And the voice seemed his who fell
For the words rang as a knell,
In the battle down the dell,
And who is happy now.
But he spoke to re-assure me,
And he kissed my pallid brow,
While a reverie came o'er me,
And to the church-yard bore me,
And I sighed to him before me,
"Oh, I am happy now!"
And thus the words were spoken,
And this the plighted vow,
And, though my faith be broken,
And, though my heart be broken,
Behold the golden token
That proves me happy now!
Would God I could awaken!
For I dream I know not how!
And my soul is sorely shaken
Lest an evil step be taken,—--
Lest the dead who is forsaken
May not be happy now.
1837
1 455
Jorge Luis Borges
Poema conjetural
Zumban las balas en la tarde última.
Hay viento y hay cenizas en el viento,
se dispersan el día y la batalla
deforme, y la victoria es de los otros.
Vencen los bárbaros, los gauchos vencen.
Yo, que estudié las leyes y los cánones,
yo, Francisco Narciso de Laprida,
cuya voz declaró la independencia
de estas crueles provincias, derrotado,
de sangre y de sudor manchado el rostro,
sin esperanza ni temor, perdido,
huyo hacia el Sur por arrabales últimos.
Como aquel capitán del Purgatorio
que, huyendo a pie y ensangrentando el llano,
fue cegado y tumbado por la muerte
donde un oscuro río pierde el nombre,
así habré de caer. Hoy es el término.
La noche lateral de los pantanos
me acecha y me demora. Oigo los cascos
de mi caliente muerte que me busca
con jinetes, con belfos y con lanzas.
Yo que anhelé ser otro, ser un hombre
de sentencias, de libros, de dictámenes
a cielo abierto yaceré entre ciénagas;
pero me endiosa el pecho inexplicable
un júbilo secreto. Al fin me encuentro
con mi destino sudamericano.
A esta ruinosa tarde me llevaba
el laberinto múltiple de pasos
que mis días tejieron desde un día
de la niñez. Al fin he descubierto
la recóndita clave de mis años,
la suerte de Francisco de Laprida,
la letra que faltaba, la perfecta
forma que supo Dios desde el principio.
En el espejo de esta noche alcanzo
mi insospechado rostro eterno. El círculo
se va a cerrar. Yo aguardo que así sea.
Pisan mis pies la sombra de las lanzas
que me buscan. Las befas de mi muerte,
los jinetes, las crines, los caballos,
se ciernen sobre mí... Ya el primer golpe,
ya el duro hierro que me raja el pecho,
el íntimo cuchillo en la garganta.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 175 e 176 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Hay viento y hay cenizas en el viento,
se dispersan el día y la batalla
deforme, y la victoria es de los otros.
Vencen los bárbaros, los gauchos vencen.
Yo, que estudié las leyes y los cánones,
yo, Francisco Narciso de Laprida,
cuya voz declaró la independencia
de estas crueles provincias, derrotado,
de sangre y de sudor manchado el rostro,
sin esperanza ni temor, perdido,
huyo hacia el Sur por arrabales últimos.
Como aquel capitán del Purgatorio
que, huyendo a pie y ensangrentando el llano,
fue cegado y tumbado por la muerte
donde un oscuro río pierde el nombre,
así habré de caer. Hoy es el término.
La noche lateral de los pantanos
me acecha y me demora. Oigo los cascos
de mi caliente muerte que me busca
con jinetes, con belfos y con lanzas.
Yo que anhelé ser otro, ser un hombre
de sentencias, de libros, de dictámenes
a cielo abierto yaceré entre ciénagas;
pero me endiosa el pecho inexplicable
un júbilo secreto. Al fin me encuentro
con mi destino sudamericano.
A esta ruinosa tarde me llevaba
el laberinto múltiple de pasos
que mis días tejieron desde un día
de la niñez. Al fin he descubierto
la recóndita clave de mis años,
la suerte de Francisco de Laprida,
la letra que faltaba, la perfecta
forma que supo Dios desde el principio.
En el espejo de esta noche alcanzo
mi insospechado rostro eterno. El círculo
se va a cerrar. Yo aguardo que así sea.
Pisan mis pies la sombra de las lanzas
que me buscan. Las befas de mi muerte,
los jinetes, las crines, los caballos,
se ciernen sobre mí... Ya el primer golpe,
ya el duro hierro que me raja el pecho,
el íntimo cuchillo en la garganta.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 175 e 176 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 998
Jorge Luis Borges
El enemigo generoso
Magnus Bardfor, en el año 1102, emprendió la conquista general de los reinos de Irlanda; se dice que la víspera de su muerte recibió este saludo de Muirchertach, rey en Dublin:
Que en tus ejércitos militen el oro y la tempestad, Magnus Bardfor.
Que mañana, en los campos de mi reino, sea feliz tu batalla.
Que tus manos de rey tejan terribles la tela de la espada.
Que sean alimento del cisne rojo ellos que se oponen a tu espada.
Que te sacien de gloria tus muchos dioses, que te sacien de sangre.
Que seas victorioso en la aurora rey que pisas a Irlanda.
Que de tus muchos días ninguno brille como el día de mañana.
Porque ese día será el último. Te lo juro, rey Magnus.
Porque antes que se borre su luz, te venceré y te borraré, Magnus Barfod.
Del Anbang zur Heimskringla
(1893), de H Gering.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 158 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Que en tus ejércitos militen el oro y la tempestad, Magnus Bardfor.
Que mañana, en los campos de mi reino, sea feliz tu batalla.
Que tus manos de rey tejan terribles la tela de la espada.
Que sean alimento del cisne rojo ellos que se oponen a tu espada.
Que te sacien de gloria tus muchos dioses, que te sacien de sangre.
Que seas victorioso en la aurora rey que pisas a Irlanda.
Que de tus muchos días ninguno brille como el día de mañana.
Porque ese día será el último. Te lo juro, rey Magnus.
Porque antes que se borre su luz, te venceré y te borraré, Magnus Barfod.
Del Anbang zur Heimskringla
(1893), de H Gering.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 158 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 996
Jorge Luis Borges
Página para recordar al Coronel Suárez , vencedor en Junín
What do they matter now, the deprivations,
exile, the ignominies of growing old,
the dictator's shadow spreading across the land, the house
in Barrio del Alto, which his brothers sold while he fought,
the pointless days (days one hopes to forget,
days one know are forgettable),
when he had at least his burning hour on horseback
on the plateau of Junín, a stage for the future,
as if that mountain stage itself were the future?
What is time"s monotony to him, who knew
that fulfillment, that ecstasy, that afternoon?
Thirteen years he served in the Wars of Independence. Then fate took him to Uruguay, to the banks of the Río Negro.
In the dying afternoons he would think
of his moment which had flowered like a rose-
the crimson battle of Junín, the enduring moment
in which the lances crossed, the order of battle,
defeat at first, and in the uproar
(as astonishing to him as to the army)
his voice urging the Peruvians to the attack,
the thrill, the rive, the decisiveness of the charge,
the seething labyrinth of cavalries,
clash of the lances (not a single shot fired),
the Spaniard he ran through with his spear,
the headiness of victory, exhuastion, drowsiness descending,
and men dying in the marshes,
and Bolívar uttering words earmarked no doubt for history,
and the sun in the west by now, and water and wine
tasted as for the first time, and that dead man
whose face the battle had trampled on and obliterated...
His great-grandson is writing these lines,
and a silent voice comes to him out of the past,
out of the blood:
"What does my battle at Junín matter if it is only
a glorious memory, or a date learned by rote
for an examination, or a place in the atlas?
The battle is everlasting and can do without
the pomp of actual armies and of trumpets.
Junín is two civilians cursing a tyrant
on a street corner,
or an unknown man somewhere, dying in prison".
Translated by Alistair Reid
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 180, 181 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
exile, the ignominies of growing old,
the dictator's shadow spreading across the land, the house
in Barrio del Alto, which his brothers sold while he fought,
the pointless days (days one hopes to forget,
days one know are forgettable),
when he had at least his burning hour on horseback
on the plateau of Junín, a stage for the future,
as if that mountain stage itself were the future?
What is time"s monotony to him, who knew
that fulfillment, that ecstasy, that afternoon?
Thirteen years he served in the Wars of Independence. Then fate took him to Uruguay, to the banks of the Río Negro.
In the dying afternoons he would think
of his moment which had flowered like a rose-
the crimson battle of Junín, the enduring moment
in which the lances crossed, the order of battle,
defeat at first, and in the uproar
(as astonishing to him as to the army)
his voice urging the Peruvians to the attack,
the thrill, the rive, the decisiveness of the charge,
the seething labyrinth of cavalries,
clash of the lances (not a single shot fired),
the Spaniard he ran through with his spear,
the headiness of victory, exhuastion, drowsiness descending,
and men dying in the marshes,
and Bolívar uttering words earmarked no doubt for history,
and the sun in the west by now, and water and wine
tasted as for the first time, and that dead man
whose face the battle had trampled on and obliterated...
His great-grandson is writing these lines,
and a silent voice comes to him out of the past,
out of the blood:
"What does my battle at Junín matter if it is only
a glorious memory, or a date learned by rote
for an examination, or a place in the atlas?
The battle is everlasting and can do without
the pomp of actual armies and of trumpets.
Junín is two civilians cursing a tyrant
on a street corner,
or an unknown man somewhere, dying in prison".
Translated by Alistair Reid
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 180, 181 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 489
Murillo Mendes
Tempos sombrios
Servida a sinfonia
poderíamos nos sentar.
Cruel é o azul: de um buquê
de vidas
Surge a guerra.
Panejamento sinistro...
Todos pisam em crianças que
fôram.
poderíamos nos sentar.
Cruel é o azul: de um buquê
de vidas
Surge a guerra.
Panejamento sinistro...
Todos pisam em crianças que
fôram.
609
Pablo Neruda
VII. Tristeza
O homem maldiz de repente a aurora recém-descoberta
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
e rompe as novas bandeiras golpeando o irmão e matando seus filhos:
Assim foi então, assim é agora e assim será, por desgraça.
E não há mais amargo sino no mundo que aquele que anuncia
com a liberdade, a agonia daqueles que o construíram.
Carrera, Rodríguez, O’Higgins, compartilham a glória e o ódio
e um pano de luto ameaça cobrir o destino dos estandartes.
926
Edgar Allan Poe
The Valley of Unrest
Once it smiled a silent dell
Where the people did not dwell;
They had gone unto the wars,
Trusting to the mild-eyed stars,
Nightly, from their azure towers,
To keep watch above the flowers,
In the midst of which all day
The red sunlight lazily lay.
Now each visitor shall confess
The sad valley's restlessness.
Nothing there is motionless-
Nothing save the airs that brood
Over the magic solitude.
Ah, by no wind are stirred those trees
That palpitate like the chill seas
Around the misty Hebrides!
Ah, by no wind those clouds are driven
That rustle through the unquiet Heaven
Uneasily, from morn till even,
Over the violets there that lie
In myriad types of the human eye-
Over the lilies there that wave
And weep above a nameless grave!
They wave: — from out their fragrant tops
Eternal dews come down in drops.
They weep: — from off their delicate stems
Perennial tears descend in gems.
1845
Where the people did not dwell;
They had gone unto the wars,
Trusting to the mild-eyed stars,
Nightly, from their azure towers,
To keep watch above the flowers,
In the midst of which all day
The red sunlight lazily lay.
Now each visitor shall confess
The sad valley's restlessness.
Nothing there is motionless-
Nothing save the airs that brood
Over the magic solitude.
Ah, by no wind are stirred those trees
That palpitate like the chill seas
Around the misty Hebrides!
Ah, by no wind those clouds are driven
That rustle through the unquiet Heaven
Uneasily, from morn till even,
Over the violets there that lie
In myriad types of the human eye-
Over the lilies there that wave
And weep above a nameless grave!
They wave: — from out their fragrant tops
Eternal dews come down in drops.
They weep: — from off their delicate stems
Perennial tears descend in gems.
1845
1 235
Carlos Fernandes
Urbs Mea
Ergue-te, que já vem repontando a alvorada.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
Quem trouxe o fado teu, tarde ou nunca descansa.
Eis-te na guerra, sus, alma tantalizada!
Cavalga o teu corcel, pega na tua lança.
Recomeça de novo a intérmina Cruzada,
Põe no teu amuleto as asas da Esperança;
Beija em face de Deus a cruz da tua espada
E de encontro à legião dos bárbaros avança.
É um assédios Vês: — Mouros por toda parte;
O Reino de Aragão dos teus nobres cuidados
Presa dos Infiéis... Rompe-se o baluarte;
Entra a mourama hostil... Solta ao vento os teus brados
E morre, proclamando o teu Símbolo de Arte,
Na trágica invasão dos muros derrocadas.
960
Mahatma Gandhi
Que diferença faz para os mortos
Que diferença faz para os mortos, orfãos e sem abrigo, se a destruição louca é forjada em nome do totalitarismo ou em nome sagrado da liberdade e democracia?
833
Jorge Luis Borges
El hambre
Madre antigua y atroz de la incestuosa guerra,
borrado sea tu nombre de la faz de la tierra.
Tú que arrojaste al círculo del horizonte abierto
la alta proa del viking, las lanzas del desierto.
En la Torre del Hambre de Ugolino de Pisa
tienes tu monumento y en la estrofa concisa
que nos deja entrever (sólo entrever) los días
últimos y en la sombra que cae las agonías.
Tú que de sus pinares haces que surja el lobo
y que guiaste la mano de Jean Valjean al robo.
Una de tus imágenes es aquel silencioso
dios que devora el orbe sin ira y sin reposo,
el tiempo. Hay otra diosa de tiniebla y de osambre;
su lecho es la vigilia y su pan es el hambre.
Tú que a Chatterton diste la muerte en la bohardilla
entre los falsos códices y la luna amarilla.
Tú que entre el nacimiento del hombre y su agonía
pides en la oración el pan de cada día.
Tú cuya lenta espada roe generaciones
y sobre los testuces lanzas a los leones.
Madre antigua y atroz de la incestuosa guerra,
borrado sea tu nombre de la faz de la tierra.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 233 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
borrado sea tu nombre de la faz de la tierra.
Tú que arrojaste al círculo del horizonte abierto
la alta proa del viking, las lanzas del desierto.
En la Torre del Hambre de Ugolino de Pisa
tienes tu monumento y en la estrofa concisa
que nos deja entrever (sólo entrever) los días
últimos y en la sombra que cae las agonías.
Tú que de sus pinares haces que surja el lobo
y que guiaste la mano de Jean Valjean al robo.
Una de tus imágenes es aquel silencioso
dios que devora el orbe sin ira y sin reposo,
el tiempo. Hay otra diosa de tiniebla y de osambre;
su lecho es la vigilia y su pan es el hambre.
Tú que a Chatterton diste la muerte en la bohardilla
entre los falsos códices y la luna amarilla.
Tú que entre el nacimiento del hombre y su agonía
pides en la oración el pan de cada día.
Tú cuya lenta espada roe generaciones
y sobre los testuces lanzas a los leones.
Madre antigua y atroz de la incestuosa guerra,
borrado sea tu nombre de la faz de la tierra.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 233 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 177