Poemas neste tema
Guerra e Paz
Pablo Neruda
Anjo Vyka
Anjo hirsuto da Polônia, Vyka,
tenho que fazer-te estas perguntas:
atravessando toda a vida
de teu país, o resplendor ardente
do ferro dominando em Katowicz,
os trigais que estendem sua ondulada alegria
sobre toda a tua terra, as procissões
de medieval catolicismo, a fumaça
do território do carvão, o ar
de Cracóvia, ar de livro seco,
o Báltico outra vez empurrando suas brancas
asas e ondas entre novas gruas,
o tijolo amassado com o pó
da infinita destruição subindo
outra vez no céu de Varsóvia,
e o metálico aroma dos pinheiros em cima
dos lagos masures, testemunhas transparentes
da carnificina,
e de aldeia em aldeia
sobre a destroçada arquitetura
o homem recobrou a beleza
de tua terra, enchendo com sementes
de sua ressurreição todo o silêncio.
Esta fecundidade inesperada
até ontem, este leite transmitido
de boca em boca como um sinal novo,
e essa terra que canta e se reparte
sem evadir-se como a água, mas
outorgando metais e celeiros,
dize-me, anjo Vyka, tu que acompanhaste
com descuidoso coração meus passos,
que tens, que temos que ocultar,
por que intentam negar estas regiões,
estas colheitas, este mel singelo,
por que intentam apagar esta grandeza
e afastar esta vitória humana?
Foste diariamente o silencioso
anjo amigo de estirpe obscura,
apenas para que o bosque resguardasse
as mínimas porções de seus morangos
para teu companheiro de outros mares,
ou o redondo caracol penetrasse
na minha ternura de naturalista,
e assim entre areias e pinhais ou entre
marítimos de Gdansk ou entre motores
toda tua pátria aberta me mostraste
iluminada como um sorriso.
tenho que fazer-te estas perguntas:
atravessando toda a vida
de teu país, o resplendor ardente
do ferro dominando em Katowicz,
os trigais que estendem sua ondulada alegria
sobre toda a tua terra, as procissões
de medieval catolicismo, a fumaça
do território do carvão, o ar
de Cracóvia, ar de livro seco,
o Báltico outra vez empurrando suas brancas
asas e ondas entre novas gruas,
o tijolo amassado com o pó
da infinita destruição subindo
outra vez no céu de Varsóvia,
e o metálico aroma dos pinheiros em cima
dos lagos masures, testemunhas transparentes
da carnificina,
e de aldeia em aldeia
sobre a destroçada arquitetura
o homem recobrou a beleza
de tua terra, enchendo com sementes
de sua ressurreição todo o silêncio.
Esta fecundidade inesperada
até ontem, este leite transmitido
de boca em boca como um sinal novo,
e essa terra que canta e se reparte
sem evadir-se como a água, mas
outorgando metais e celeiros,
dize-me, anjo Vyka, tu que acompanhaste
com descuidoso coração meus passos,
que tens, que temos que ocultar,
por que intentam negar estas regiões,
estas colheitas, este mel singelo,
por que intentam apagar esta grandeza
e afastar esta vitória humana?
Foste diariamente o silencioso
anjo amigo de estirpe obscura,
apenas para que o bosque resguardasse
as mínimas porções de seus morangos
para teu companheiro de outros mares,
ou o redondo caracol penetrasse
na minha ternura de naturalista,
e assim entre areias e pinhais ou entre
marítimos de Gdansk ou entre motores
toda tua pátria aberta me mostraste
iluminada como um sorriso.
1 131
Pablo Neruda
Anjo, Oh Camarada
Guerreiro solitário, anjo de todas
as latitudes, apareces
talvez nas sombrias cavidades
da mina, quando a repressão e a fadiga
vão dobrar teus braços, e levantas
tuas asas minerais como escudo.
Estão naquela sombra entre os povoados,
quando teu voo organizado cruza
as difíceis terras do espinho,
os aramados negros da morte.
Camarada, te espera o que sucumbe,
te espera o que reserva
sua energia, o que brota do perigo
e o que torna ao perigo. Estás no meio
do tempo tempestuoso, da cólera
com chapéu sovado, semelhante
a todo o mundo, com as asas listas
sob a luz comum de uma pobre jaqueta.
Destes destinos és a unidade.
Sobre a terra inteira estás voando.
Ninguém te reconhece salvo aqueles
que também lêem na noite negra
a radiante escrita de amanhã.
Sem ver-te muitos homens
junto a ti passarão, junto à esquina
em que apoiado ao muro serás rua
ou árvore sem nome no arvoredo humano.
Mas o que vem a ti sabe que existes.
E esse, por trás de teus comuns olhos,
adivinha a espada dos povos.
Ou melhor em plena luz nas regiões
libertadas do Este nos recebes a todos,
não como a desterrados, mas sorridente
para dar-nos
a paz, e o pão, as chaves
da terra.
as latitudes, apareces
talvez nas sombrias cavidades
da mina, quando a repressão e a fadiga
vão dobrar teus braços, e levantas
tuas asas minerais como escudo.
Estão naquela sombra entre os povoados,
quando teu voo organizado cruza
as difíceis terras do espinho,
os aramados negros da morte.
Camarada, te espera o que sucumbe,
te espera o que reserva
sua energia, o que brota do perigo
e o que torna ao perigo. Estás no meio
do tempo tempestuoso, da cólera
com chapéu sovado, semelhante
a todo o mundo, com as asas listas
sob a luz comum de uma pobre jaqueta.
Destes destinos és a unidade.
Sobre a terra inteira estás voando.
Ninguém te reconhece salvo aqueles
que também lêem na noite negra
a radiante escrita de amanhã.
Sem ver-te muitos homens
junto a ti passarão, junto à esquina
em que apoiado ao muro serás rua
ou árvore sem nome no arvoredo humano.
Mas o que vem a ti sabe que existes.
E esse, por trás de teus comuns olhos,
adivinha a espada dos povos.
Ou melhor em plena luz nas regiões
libertadas do Este nos recebes a todos,
não como a desterrados, mas sorridente
para dar-nos
a paz, e o pão, as chaves
da terra.
1 322
Pablo Neruda
Londres
Na alta noite, Londres,
apenas entrevista,
olhos inumeráveis,
dura secreta sombra,
tendas cheias de cadeiras,
cadeiras e cadeiras, cadeiras.
O céu negro
sentado sobre Londres,
sobre sua névoa negra,
sapatos e sapatos,
rio e rio,
ruas desmoronadas pelos dentes
da miséria cor de ferro,
e sob a imundície
o poeta Eliot
com seu velho fraque
lendo aos vermes.
Perguntaram-me quando
nasci, por que vinha
perturbar o Império.
Tudo era polícia
com livros e matracas.
Perguntaram-me
pelo meu avô e meus tios,
pelos meus pessoalíssimos assuntos.
Eram frias
as jovens facas
sobre as quais
senta-se
senta
senta
a matrona Inglaterra,
sempre sentada
sobre milhões de rasgões,
sobre pobres nações andrajosas,
sentada
sobre seu oceano
de reservado uso pessoal,
oceano
de suor, sangue e lágrimas
de outros povos.
Ali sentada
com suas velhas rendas
tomando chá e ouvindo
os mesmos relatos tontos
de princesas,
coroações
e duques conjugais.
Tudo acontece entre fadas.
Enquanto isso
ronda a morte com chapéu
vitoriano
e esqueleto listrado
pelas enegrecidas bicheiras
dos negros subúrbios.
Enquanto isso
a polícia te interroga:
é a palavra paz a que lhes crava
como uma baioneta.
Esta palavra paz
eles quiseram
enterrá-la,
porém
não podem por ora.
Deitam-lhe sombra em cima,
névoa
de polícia,
amarram-na e a encerram,
a golpeiam,
a salpicam de sangue e martírio,
a interrogam,
deitam-na ao mar profundo
com uma pedra em cada
sílaba,
a queimam com um ferro,
com um sabre
a cortam,
atiram-lhe vinagre, fel, mentira,
a empacotam, enchem-na de cinza, a precipitam.
Mas então
voa
de novo
a pomba:
é a palavra paz com plumas novas,
é o jasmim do mundo
que avança com suas pétalas,
é a estrela do sonho e do trabalho,
a ave branca
de voo imaculado,
a rosa que navega,
o pão de todas as vidas,
a estrela de todos os homens.
apenas entrevista,
olhos inumeráveis,
dura secreta sombra,
tendas cheias de cadeiras,
cadeiras e cadeiras, cadeiras.
O céu negro
sentado sobre Londres,
sobre sua névoa negra,
sapatos e sapatos,
rio e rio,
ruas desmoronadas pelos dentes
da miséria cor de ferro,
e sob a imundície
o poeta Eliot
com seu velho fraque
lendo aos vermes.
Perguntaram-me quando
nasci, por que vinha
perturbar o Império.
Tudo era polícia
com livros e matracas.
Perguntaram-me
pelo meu avô e meus tios,
pelos meus pessoalíssimos assuntos.
Eram frias
as jovens facas
sobre as quais
senta-se
senta
senta
a matrona Inglaterra,
sempre sentada
sobre milhões de rasgões,
sobre pobres nações andrajosas,
sentada
sobre seu oceano
de reservado uso pessoal,
oceano
de suor, sangue e lágrimas
de outros povos.
Ali sentada
com suas velhas rendas
tomando chá e ouvindo
os mesmos relatos tontos
de princesas,
coroações
e duques conjugais.
Tudo acontece entre fadas.
Enquanto isso
ronda a morte com chapéu
vitoriano
e esqueleto listrado
pelas enegrecidas bicheiras
dos negros subúrbios.
Enquanto isso
a polícia te interroga:
é a palavra paz a que lhes crava
como uma baioneta.
Esta palavra paz
eles quiseram
enterrá-la,
porém
não podem por ora.
Deitam-lhe sombra em cima,
névoa
de polícia,
amarram-na e a encerram,
a golpeiam,
a salpicam de sangue e martírio,
a interrogam,
deitam-na ao mar profundo
com uma pedra em cada
sílaba,
a queimam com um ferro,
com um sabre
a cortam,
atiram-lhe vinagre, fel, mentira,
a empacotam, enchem-na de cinza, a precipitam.
Mas então
voa
de novo
a pomba:
é a palavra paz com plumas novas,
é o jasmim do mundo
que avança com suas pétalas,
é a estrela do sonho e do trabalho,
a ave branca
de voo imaculado,
a rosa que navega,
o pão de todas as vidas,
a estrela de todos os homens.
1 035
Pablo Neruda
A Terra Tempestuosa
Amor, amor, agora
furada com teus olhos
a espessura.
É no Vietnam, um acre
olor de luz queimada,
um vento de perfume e sepultura.
Avança
com teus olhos,
abre entre lianas e canaviais
o caminho do raio de teus olhos.
Vejo
os heróis
desgarrados,
de sol a sol, sem noite, sem orvalho,
pequenos capitães
do suor e a pólvora
defendendo a pele emaranhada,
a terra tempestuosa,
as flores da pátria.
Jovens do Vietnam escurecidos
pela selva, pelo silêncio e pela mentira:
eu não mereço o mar,
não mereço
este dia de paz e de jasmins.
Para vós é, para vós,
o tesouro terrestre,
para todos
os que do invasor e de seu fogo
centímetro a centímetro,
com seu sangue e seus ossos,
reconquistam a pátria.
Para eles
a paz do dia e a paz da manhã
que entrelaçadas
num rincão de selva ou de cimento
as teremos conquistado
para todos os homens.
furada com teus olhos
a espessura.
É no Vietnam, um acre
olor de luz queimada,
um vento de perfume e sepultura.
Avança
com teus olhos,
abre entre lianas e canaviais
o caminho do raio de teus olhos.
Vejo
os heróis
desgarrados,
de sol a sol, sem noite, sem orvalho,
pequenos capitães
do suor e a pólvora
defendendo a pele emaranhada,
a terra tempestuosa,
as flores da pátria.
Jovens do Vietnam escurecidos
pela selva, pelo silêncio e pela mentira:
eu não mereço o mar,
não mereço
este dia de paz e de jasmins.
Para vós é, para vós,
o tesouro terrestre,
para todos
os que do invasor e de seu fogo
centímetro a centímetro,
com seu sangue e seus ossos,
reconquistam a pátria.
Para eles
a paz do dia e a paz da manhã
que entrelaçadas
num rincão de selva ou de cimento
as teremos conquistado
para todos os homens.
1 221
Lucídio Freitas
Teresina Apagou-se
Teresina apagou-se na distância,
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.
E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, uma outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a minha febre, minha dor, minha ânsia...
Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...
Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. Eu eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância
E o minuto melhor da minha vida.
E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, uma outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a minha febre, minha dor, minha ânsia...
Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...
Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. Eu eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...
1 309
Florbela Espanca
Às Mães de Portugal
Ó mães doloridas, celestiais,
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
Misericordiosas,
Ó mães d’olhos benditos, liriais,
Ó mães piedosas
Calai as vossas mágoas, vossas dores!
Longe na crua guerra
Vossos filhos defendem, vencedores,
A nossa linda terra!
E se eles defendem a bandeira
Da terra que adorais,
Onde viram um dia a luz primeira
Ó mães porque chorais?!
Uma lágrima triste, agora é
Cobardia, fraqueza!
Nos campos de batalha cai de pé
A alma portuguesa!
Pela terra de estrelas e tomilhos,
De sol, e de luar;
Deixai ir combater os vossos filhos
Ao longe, heróis do mar!
Dum português bendito, sem igual
Eu sigo o mesmo trilho:
Por cada pedra deste Portugal
Eu arriscava um filho!
Por isso ó mães doridas, pelo leito
De morte, onde ajoelhais,
Esmagai vossa dor dentro do peito,
Ó mães não choreis mais!
A Pátria rouba os filhos, mas é mãe
A mãe de todos nós
Direito de a trair não tem ninguém
Ó mães nem sequer vós!
3 905
Florbela Espanca
À Guerra!
Fala o canhão. Estala o riso da metralha
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria minha, ergues-te a sorrir!
Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heroico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!
Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!
Nun’Álvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: “Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!”
Os clarins muito ao longe tocam a reunir.
O Deus da guerra ri nos campos de batalha
E tu, ó Pátria minha, ergues-te a sorrir!
Vestes alva cota bordada e rosicleres
Desfraldas a bandeira rubra dos combates,
Levas no heroico seio a alma das mulheres
E ergue-se contigo a alma de teus vates!
Levanta-se do túmulo a voz dos teus heróis,
Cintila em tua fronte o brilho desses sóis,
Até o próprio mar t’incita a combater!
Nun’Álvares arranca a espada de glória
E diz-te em voz serena: “Em busca da vitória
Meu belo Portugal, combate até morrer!”
2 239
Charles Bukowski
Os Elefantes do Vietnã
primeiro eles costumavam, ele me contou,
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
1 131
Marcelo Almeida de Oliveira
Só mais um
Mais um dia de concreto;
passos certos de quem tem destino;
olhos vão ao chão entre pés e sombras
que não ouvem a tempestade que ronda
na cabeça dos que são como eu,
ossos, carne e dor,
exalando palavras de amor
neste mundo que já se esqueceu
de quão bonito e perfeito poderia ser.
Mas no momento tenho que parar,
o sofrer agora é fadiga, e me consome.
Só nos braços dela encontro a cura.
Só os beijos dela podem me refazer.
Em passos tristes sigo
ao ver o irmão
que a fome roubou o orgulho;
por ele e por outros eu juro
que em breve retornarei mais forte;
mesmo que ainda me fira, ainda me corte,
deixar meu amor dormindo, no escuro,
depois de tudo...
Da esquina chegam notícias distantes,
do irmão que teve a paz tomada pela guerra;
que nem o silêncio nem a distância me deixem esquecer,
Mesmo depois de ser amado por ela,
muito perto agora, ouço você
me abre a porta e um sorriso
que me esquenta em paz e alegria;
a tempestade se vai salgada em teu colo;
agora sonho, sonho de seria, e será... um dia.
passos certos de quem tem destino;
olhos vão ao chão entre pés e sombras
que não ouvem a tempestade que ronda
na cabeça dos que são como eu,
ossos, carne e dor,
exalando palavras de amor
neste mundo que já se esqueceu
de quão bonito e perfeito poderia ser.
Mas no momento tenho que parar,
o sofrer agora é fadiga, e me consome.
Só nos braços dela encontro a cura.
Só os beijos dela podem me refazer.
Em passos tristes sigo
ao ver o irmão
que a fome roubou o orgulho;
por ele e por outros eu juro
que em breve retornarei mais forte;
mesmo que ainda me fira, ainda me corte,
deixar meu amor dormindo, no escuro,
depois de tudo...
Da esquina chegam notícias distantes,
do irmão que teve a paz tomada pela guerra;
que nem o silêncio nem a distância me deixem esquecer,
Mesmo depois de ser amado por ela,
muito perto agora, ouço você
me abre a porta e um sorriso
que me esquenta em paz e alegria;
a tempestade se vai salgada em teu colo;
agora sonho, sonho de seria, e será... um dia.
768
Charles Bukowski
Realização
ela se disciplinou em
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
raiva
ódio e estratégias
do engodo.
sempre achei que isso iria
passar finalmente
e que ela estava obcecada por
equívocos e maus
conselhos.
sempre achei que iria
passar.
escutei as acusações contra mim
sabendo que algumas delas eram verdadeiras
mas certamente não
tão importantes
a ponto de se tornarem o alvo de
violência, inveja,
vingança.
achei que certamente
passaria.
eu não organizei nenhuma
defesa
achando que a simples
razão
iria salvar a nós
dois
mas sua determinação
se reforçou -
e até mesmo então
eu resumi aquilo como uma teimosa
e excessiva
energia
mas a cada vez que eu cedia
mais espaço era
ocupado.
senhor, eu pensei, é apenas simples
violência
e assim eu conduzi meu cavalo
para fora do estábulo
afiei minhas facas e
comecei um
contra-ataque.
ela finalmente havia achado
um adversário tão bom quanto
poderia ser achado.
sua determinação provocou sua própria
destruição.
ela havia encontrado seu
páreo
eu montei em meu corcel
espada em riste
em riste até para o sol.
ela sempre quis guerra
eu cumpriria seu desejo
e agora dane-se o amor
assim como o amor foi amaldiçoado quando
veio pela primeira vez.
agora minha hesitação
iria embora
para sempre
e o sangue
iria correr
o dela e o meu
assim como ela desejava.
1 064
Mário Dionísio
Bom dia marinheiro
Bom dia marinheiro
há milénios sentado
nesse navio pirata
Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho
O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo
Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça
Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
há milénios sentado
nesse navio pirata
Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho
O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo
Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça
Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
2 008
Jorge Luis Borges
Unas monedas
Génesis, 9.13
El arco del Señor surca la esfera
Y nos bendice. En el gran arco puro
Están las bendiciones del futuro,
Pero también está mi amor, que espera
Mateo, 27.9
La moneda cayó en mi hueca mano.
No pude soportarla, aunque era leve,
Y la dejé caer. Todo fue en vano.
El otro dijo: Aún faltan veintinueve.
Un soldado de Oribe
Bajo la vieja mano, el arco roza
De un modo transversal la firme cuerda.
Muere un sonido. El hombre no recuerda
Que ya otra vez hizo la misma cosa.
"La moneda de hierro" (1975)
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 460 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
El arco del Señor surca la esfera
Y nos bendice. En el gran arco puro
Están las bendiciones del futuro,
Pero también está mi amor, que espera
Mateo, 27.9
La moneda cayó en mi hueca mano.
No pude soportarla, aunque era leve,
Y la dejé caer. Todo fue en vano.
El otro dijo: Aún faltan veintinueve.
Un soldado de Oribe
Bajo la vieja mano, el arco roza
De un modo transversal la firme cuerda.
Muere un sonido. El hombre no recuerda
Que ya otra vez hizo la misma cosa.
"La moneda de hierro" (1975)
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 460 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 244
Charles Bukowski
Mais Um Poema Sobre Um Bêbado e Depois Eu Deixo Vocês Irem Embora
"cara", ele disse sentado nos degraus.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
"seu carro precisa com certeza de uma limpeza e uma cera.
posso fazer por 5 pratas.
tenho a cera, tenho os panos, tenho tudo
que preciso."
eu lhe dei 5 e subi.
quando desci 4 horas mais tarde
ele estava sentado nos degraus, bêbado.
ele me ofereceu uma lata de cerveja.
disse que ia fazer o carro
no dia seguinte.
no dia seguinte ele estava bêbado de novo e
eu lhe emprestei um dólar para uma garrafa de
vinho. o nome dele era Mike.
um veterano da Segunda Guerra Mundial.
sua mulher trabalhava como enfermeira.
no outro dia quando desci ele estava sentado
nos degraus. ele disse,
"sabe, eu estava sentado aqui olhando seu carro
pensando como fazer melhor.
quero fazer bem feito mesmo".
no dia seguinte Mike disse que parecia que estava com jeito de chuva
e com certeza não faria qualquer sentido
lavar e polir um carro quando ia chover.
no dia seguinte estava outra vez com jeito de chuva.
e no outro dia.
depois nunca mais o vi.
vi sua mulher e ela disse,
"levaram Mike para o hospital,
ele está todo inchado, dizem que é de
beber".
"escute", eu lhe disse, "ele falou que ia polir meu
carro. eu lhe dei 5 dólares para polir meu
carro."
eu estava sentado na cozinha deles
bebendo com a mulher dele
quando o telefone tocou.
ela me passou o telefone.
era Mike. "ouça", ele disse, "venha para cá e
me busque. eu não aguento mais este
lugar."
quando cheguei lá
não quiseram me entregar as roupas dele
e assim Mike caminhou até o elevador em seu roupão de
hospital.
seguimos em frente e havia um garoto no
elevador comendo um picolé.
"ninguém tem permissão para sair daqui de roupão",
ele disse.
"você dirige esta coisa, garoto", eu disse,
"nós cuidamos do roupão."
parei na loja de bebidas para 2 engradados de meia dúzia
e então dirigi para casa. bebi com Mike e sua mulher até
as 11 da noite.
então subi.
"onde está Mike?", perguntei para a mulher dele 3 dias
depois.
"Mike morreu", ela disse, "ele se foi."
"sinto muito", eu disse, "sinto muito, mesmo."
choveu por uma semana depois disso e
imaginei que o único jeito de conseguir aqueles 5 de volta
seria ir para a cama com a mulher dele
mas você sabe
ela se mudou uns dois dias
depois
e um cara velho de cabelos brancos
se mudou para lá.
ele era cego de um olho e
tocava trompete.
de jeito nenhum eu faria aquilo
com ele.
assim, tive eu que lavar e polir meu próprio carro.
1 566
Jorge Luis Borges
La suerte de la espada
La espada de aquel Borges no recuerdasus batallas. La azul Montevideo
largamente sitiada por Oribe,
el Ejército Grande, la anhelada
y tan fácil victoria de Caseros,
el intrincado Paraguay, el tiempo,
las dos balas que entraron en el hombre,
el agua maculada por la sangre,
los montoneros en el Entre Ríos,
la jefatura de las tres fronteras,
el caballo y las lanzas del desierto,
San Carlos y Junín, la carga última...
Dios le dio resplandor y estaba ciega.
Dios le dio la epopeya. Estaba muerta.
Quieta como una planta nada supo
de la mano viril ni del estrépito
ni de la trabajada empuñadura
ni del metal marcado por la patria.
Es una cosa más entre las cosas
que olvida la vitrina de un museo,
un símbolo y un humo y una forma
curva y cruel y que ya nadie mira.
Acaso no soy menos ignorante.
"La moneda de hierro" (1976)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 454 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
largamente sitiada por Oribe,
el Ejército Grande, la anhelada
y tan fácil victoria de Caseros,
el intrincado Paraguay, el tiempo,
las dos balas que entraron en el hombre,
el agua maculada por la sangre,
los montoneros en el Entre Ríos,
la jefatura de las tres fronteras,
el caballo y las lanzas del desierto,
San Carlos y Junín, la carga última...
Dios le dio resplandor y estaba ciega.
Dios le dio la epopeya. Estaba muerta.
Quieta como una planta nada supo
de la mano viril ni del estrépito
ni de la trabajada empuñadura
ni del metal marcado por la patria.
Es una cosa más entre las cosas
que olvida la vitrina de un museo,
un símbolo y un humo y una forma
curva y cruel y que ya nadie mira.
Acaso no soy menos ignorante.
"La moneda de hierro" (1976)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 454 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 671
Jorge Luis Borges
Hilario Ascasubi (1807-1875)
Alguna vez hubo una dicha. El hombre
aceptaba el amor y la batalla
con igual regocijo. La canalla
sentimental no había usurpado el nombre
del pueblo. En esa aurora, hoy ultrajada,
vivió Ascasubi y se batió, cantando
entre los gauchos de la patria cuando
los llamó una divisa a la patriada.
Fue muchos hombres. Fue el cantor y el coro;
por el río del tiempo fue Proteo.
Fue soldado en la azul Montevideo
y en California, buscador de oro.
Fue suya la alegría de una espada
en la mañana. Hoy somos noche y nada.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 442 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
aceptaba el amor y la batalla
con igual regocijo. La canalla
sentimental no había usurpado el nombre
del pueblo. En esa aurora, hoy ultrajada,
vivió Ascasubi y se batió, cantando
entre los gauchos de la patria cuando
los llamó una divisa a la patriada.
Fue muchos hombres. Fue el cantor y el coro;
por el río del tiempo fue Proteo.
Fue soldado en la azul Montevideo
y en California, buscador de oro.
Fue suya la alegría de una espada
en la mañana. Hoy somos noche y nada.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 442 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 130
Jorge Luis Borges
Elegía de la patria
De hierro, no de oro, fue la aurora.
La forjaron un puerto y un desierto,
unos cuantos señores y el abierto
ámbito elemental de ayer y ahora.
Vino después la guerra con el godo.
Siempre el valor y siempre la victoria.
El Brasil y el tirano. Aquella historia
desenfrenada. El todo por el todo.
Cifras rojas de los aniversarios,
pompas del mármol, arduos monumentos,
pompas de la palabra, parlamentos,
centenarios y sesquicentenarios,
son la ceniza apenas, la soflama
de los vestigios de esa antigua llama.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 441 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
La forjaron un puerto y un desierto,
unos cuantos señores y el abierto
ámbito elemental de ayer y ahora.
Vino después la guerra con el godo.
Siempre el valor y siempre la victoria.
El Brasil y el tirano. Aquella historia
desenfrenada. El todo por el todo.
Cifras rojas de los aniversarios,
pompas del mármol, arduos monumentos,
pompas de la palabra, parlamentos,
centenarios y sesquicentenarios,
son la ceniza apenas, la soflama
de los vestigios de esa antigua llama.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 441 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 303
Jorge Luis Borges
El conquistador
Cabrera y Carvajal fueron mis nombres.
He apurado la copa hasta las heces.
He muerto y he vivido muchas veces.
Yo soy el Arquetipo. Ellos, los hombres.
De la Cruz y de España fui el errante
Soldado. Por las nunca holladas tierras
De un continente infiel encendí guerras.
En el duro Brasil fui el bandeirante.
Ni Cristo ni mi Rey ni el oro rojo
Fueron el acicate del arrojo
Que puso miedo en la pagana gente.
De mis trabajos fue razón la hermosa
Espada y la contienda procelosa.
No importa lo demás. Yo fui valiente.
"La moneda de Hierro", 1975
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 447 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
He apurado la copa hasta las heces.
He muerto y he vivido muchas veces.
Yo soy el Arquetipo. Ellos, los hombres.
De la Cruz y de España fui el errante
Soldado. Por las nunca holladas tierras
De un continente infiel encendí guerras.
En el duro Brasil fui el bandeirante.
Ni Cristo ni mi Rey ni el oro rojo
Fueron el acicate del arrojo
Que puso miedo en la pagana gente.
De mis trabajos fue razón la hermosa
Espada y la contienda procelosa.
No importa lo demás. Yo fui valiente.
"La moneda de Hierro", 1975
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 447 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 587
Jorge Luis Borges
Hengist quiere hombres (449 A. D.)
Hengist quiere hombres.
Acudirán de los confines de arena que se pierden en largos mares,
de chozas llenas de humo, de tierras pobres, de hondos bosques
de lobos, en cuyo centro indefinido está el Mal.
Los labradores dejarán el arado y los pescadores las redes.
Dejarán sus mujeres y sus hijos, porque el hombre sabe que en
cualquier lugar de la noche puede hallarlas y hacerlos.
Hengist el mercenario quiere hombres.
Los quiere para debelar una isla que todavía no se llama Inglaterra.
Le seguirán sumisos y crueles.
Saben que siempre fue el primero en la batalla de hombres.
Saben que una vez olvidó su deber de venganza y que le dieron
una espada desnuda y que la espada hizo su obra.
Atravesarán a remo los mares, sin brújula y sin mástil.
Traerán espadas y broqueles, yelmos con la forma del jabalí,
conjuros para que se multipliquen las mieses, vagas cosmogonías,
fábulas de los hunos y de los godos.
Conquistarán la tierra, pero nunca entrarán en las ciudades que Roma
abandonó, porque son cosas demasiado complejas para su mente
bárbara.
Hengist los quiere para la victoria, para el squeo, para la corrupción
de la carne y para el olvido.
Hengist los quiere (pero no lo sabe) para la fundación del mayor imperio,
para que canten Shakespeare y Whitman, para que dominen el mar
las naves de Nelson, para que Adán y Eva se alejen, tomados de la
mano y silenciosos, del Paraíso que han perdido.
Hengist los quiere (pero no lo sabrá) para que yo trace estas letras
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 374 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Acudirán de los confines de arena que se pierden en largos mares,
de chozas llenas de humo, de tierras pobres, de hondos bosques
de lobos, en cuyo centro indefinido está el Mal.
Los labradores dejarán el arado y los pescadores las redes.
Dejarán sus mujeres y sus hijos, porque el hombre sabe que en
cualquier lugar de la noche puede hallarlas y hacerlos.
Hengist el mercenario quiere hombres.
Los quiere para debelar una isla que todavía no se llama Inglaterra.
Le seguirán sumisos y crueles.
Saben que siempre fue el primero en la batalla de hombres.
Saben que una vez olvidó su deber de venganza y que le dieron
una espada desnuda y que la espada hizo su obra.
Atravesarán a remo los mares, sin brújula y sin mástil.
Traerán espadas y broqueles, yelmos con la forma del jabalí,
conjuros para que se multipliquen las mieses, vagas cosmogonías,
fábulas de los hunos y de los godos.
Conquistarán la tierra, pero nunca entrarán en las ciudades que Roma
abandonó, porque son cosas demasiado complejas para su mente
bárbara.
Hengist los quiere para la victoria, para el squeo, para la corrupción
de la carne y para el olvido.
Hengist los quiere (pero no lo sabe) para la fundación del mayor imperio,
para que canten Shakespeare y Whitman, para que dominen el mar
las naves de Nelson, para que Adán y Eva se alejen, tomados de la
mano y silenciosos, del Paraíso que han perdido.
Hengist los quiere (pero no lo sabrá) para que yo trace estas letras
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 374 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 080
Jorge Luis Borges
Brunanburh, 937 A. D.
Nadie a tu lado.
Anoche maté a un hombre en la batalla.
Era animoso y alto, de la clara estirpe de Anlaf.
La espada entró en el pecho, un poco a la izquierda.
Rodó por tierra y fue una cosa,
una cosa del cuervo.
En vano lo esperarás, mujer que no he visto.
No lo traerán las naves que huyeron
sobre el agua amarilla.
En la hora del alba,
tu mano desde el sueño lo buscará.
Tu lecho está frío.
Anoche maté a un hombre en Brunanburh.
Nota del autor: Brunanburgh. Son las palabras de un sajón que se ha batido en la victoria que los reyes de Wessex alcanzaron sobre una coalición de escoceses, daneses y britanos, comandados por Anlaf (Olaf) de Irlanda. En el poema hay ecos de la oda contemporánea que Tennyson tan admirablemente tradujo.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 411 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Anoche maté a un hombre en la batalla.
Era animoso y alto, de la clara estirpe de Anlaf.
La espada entró en el pecho, un poco a la izquierda.
Rodó por tierra y fue una cosa,
una cosa del cuervo.
En vano lo esperarás, mujer que no he visto.
No lo traerán las naves que huyeron
sobre el agua amarilla.
En la hora del alba,
tu mano desde el sueño lo buscará.
Tu lecho está frío.
Anoche maté a un hombre en Brunanburh.
Nota del autor: Brunanburgh. Son las palabras de un sajón que se ha batido en la victoria que los reyes de Wessex alcanzaron sobre una coalición de escoceses, daneses y britanos, comandados por Anlaf (Olaf) de Irlanda. En el poema hay ecos de la oda contemporánea que Tennyson tan admirablemente tradujo.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 411 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 245
Jorge Luis Borges
Quince monedas
A Alicia Jurado
Un poeta oriental
Durante cien otoños he mirado
tu tenue disco.
Durante cien otoños he mirado
tu arco sobre las islas.
Durante cien otoños mis labios
no han sido menos silenciosos.
El desierto
El espacio sin tiempo.
La luna es del color de la arena.
Ahora, precisamente ahora,
mueren los hombres del Metauro y de Tannenberg.
Llueve
¿En qué ayer, en qué patios de Cartago,
cae también la lluvia?
Asterión
El año me tributa mi pasto de hombres
y en la cisterna hay agua.
En mí se anudan los caminos de piedra.
¿De qué puedo quejarme?
En los atardeceres
me pesa un poco la cabeza de toro.
Un poeta menor
La meta es el olvido.
Yo he llegado antes.
Génesis, IV, 8
Fue en el primer desierto.
Dos brazos arrojaron una gran piedra.
No hubo un grito. Hubo sangre.
Hubo por vez primera la muerte.
Ya no recuerdo si fui Abel o Caín.
Nortumbria, 900 A.D.
Que antes del alba lo despojen los lobos;
la espada es el camino más corto.
Miguel de Cervantes
Crueles estrellas y propicias estrellas
presidieron la noche de mi génesis;
debo a las últimas la cárcel
en que soñé el Quijote.
El Oeste
El callejón final con su poniente.
Inauguración de la pampa.
Inauguración de la muerte.
Estancia El Retiro
El tiempo juega un ajedrez sin piezas
en el patio. El crujido de una rama
rasga la noche. Fuera la llanura
leguas de polvo y sueño desparrama.
Sombras los dos, copiamos lo que dictan
otras sombras: Heráclito y Gautama.
El prisionero
Una lima.
La primera de las pesadas puertas de hierro.
Algún día seré libre.
Macbeth
Nuestros actos prosiguen su camino,
que no conoce término.
Maté a mi rey para que Shakespeare
urdiera su tragedia.
Eternidades
La serpiente que ciñe el mar y es el mar,
el repetido remo de Jasón, la joven espada de Sigurd.
Sólo perduran en el tiempo las cosas
que no fueron del tiempo.
E. A. P.
Los sueños que he soñado. El pozo y el péndulo.
El hombre de las multitudes. Ligeia...
Pero también este otro.
El espía
En la pública luz de las batallas
otros dan su vida a la patria
y los recuerda el mármol.
Yo he errado oscuro por ciudades que odio.
Le di otras cosas.
Abjuré de mi honor,
traicioné a quienes me creyeron su amigo,
compré conciencias,
abominé del nombre de la patria,
me resigné a la infamia.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 399, 400, 401 e 402 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Un poeta oriental
Durante cien otoños he mirado
tu tenue disco.
Durante cien otoños he mirado
tu arco sobre las islas.
Durante cien otoños mis labios
no han sido menos silenciosos.
El desierto
El espacio sin tiempo.
La luna es del color de la arena.
Ahora, precisamente ahora,
mueren los hombres del Metauro y de Tannenberg.
Llueve
¿En qué ayer, en qué patios de Cartago,
cae también la lluvia?
Asterión
El año me tributa mi pasto de hombres
y en la cisterna hay agua.
En mí se anudan los caminos de piedra.
¿De qué puedo quejarme?
En los atardeceres
me pesa un poco la cabeza de toro.
Un poeta menor
La meta es el olvido.
Yo he llegado antes.
Génesis, IV, 8
Fue en el primer desierto.
Dos brazos arrojaron una gran piedra.
No hubo un grito. Hubo sangre.
Hubo por vez primera la muerte.
Ya no recuerdo si fui Abel o Caín.
Nortumbria, 900 A.D.
Que antes del alba lo despojen los lobos;
la espada es el camino más corto.
Miguel de Cervantes
Crueles estrellas y propicias estrellas
presidieron la noche de mi génesis;
debo a las últimas la cárcel
en que soñé el Quijote.
El Oeste
El callejón final con su poniente.
Inauguración de la pampa.
Inauguración de la muerte.
Estancia El Retiro
El tiempo juega un ajedrez sin piezas
en el patio. El crujido de una rama
rasga la noche. Fuera la llanura
leguas de polvo y sueño desparrama.
Sombras los dos, copiamos lo que dictan
otras sombras: Heráclito y Gautama.
El prisionero
Una lima.
La primera de las pesadas puertas de hierro.
Algún día seré libre.
Macbeth
Nuestros actos prosiguen su camino,
que no conoce término.
Maté a mi rey para que Shakespeare
urdiera su tragedia.
Eternidades
La serpiente que ciñe el mar y es el mar,
el repetido remo de Jasón, la joven espada de Sigurd.
Sólo perduran en el tiempo las cosas
que no fueron del tiempo.
E. A. P.
Los sueños que he soñado. El pozo y el péndulo.
El hombre de las multitudes. Ligeia...
Pero también este otro.
El espía
En la pública luz de las batallas
otros dan su vida a la patria
y los recuerda el mármol.
Yo he errado oscuro por ciudades que odio.
Le di otras cosas.
Abjuré de mi honor,
traicioné a quienes me creyeron su amigo,
compré conciencias,
abominé del nombre de la patria,
me resigné a la infamia.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 399, 400, 401 e 402 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 039
Jorge Luis Borges
Milonga de los morenos
Alta la voz y animosa
como si cantara flor,
hoy, caballeros, le canto
a la gente de color.
Marfil negro los llamaban
los ingleses y holandeses
que aquí los desembarcaron
al cabo de largos meses.
En el barrio de Retiro
hubo mercado de esclavos;
de buena disposición
y muchos salieron bravos.
De su tierra de leones
se olvidaron como niños
y aquí los aquerenciaron
la costumbre y los cariños.
Cuando la patria nació
una mañana de Mayo,
el gaucho sólo sabía
hacer la guerra a caballo.
Alguien pensó que los negros
no eran ni zurdos ni ajenos
y se formó el Regimiento
de Pardos y de Morenos.
El sufrido regimiento
que llevó el número seis
y del que dijo Ascasubi:
"Más bravo que gallo inglés".
Y así fue que en la otra banda
esa morenada, al grito
de Soler, atropelló
en la carga del Cerrito.
Martín Fierro mató a un negro
y es casi como si hubiera
matado a todos. Sé de uno
que murió por la bandera.
De tarde en tarde en el Sur
me mira un rostro moreno,
trabajado por los años
y a la vez triste y sereno.
¿A qué cielo de tambores
y siestas largas se han ido?
Se los ha llevado el tiempo,
el tiempo, que es el olvido.
"Para las seis cuerdas" (1965)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 281 e 282 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
como si cantara flor,
hoy, caballeros, le canto
a la gente de color.
Marfil negro los llamaban
los ingleses y holandeses
que aquí los desembarcaron
al cabo de largos meses.
En el barrio de Retiro
hubo mercado de esclavos;
de buena disposición
y muchos salieron bravos.
De su tierra de leones
se olvidaron como niños
y aquí los aquerenciaron
la costumbre y los cariños.
Cuando la patria nació
una mañana de Mayo,
el gaucho sólo sabía
hacer la guerra a caballo.
Alguien pensó que los negros
no eran ni zurdos ni ajenos
y se formó el Regimiento
de Pardos y de Morenos.
El sufrido regimiento
que llevó el número seis
y del que dijo Ascasubi:
"Más bravo que gallo inglés".
Y así fue que en la otra banda
esa morenada, al grito
de Soler, atropelló
en la carga del Cerrito.
Martín Fierro mató a un negro
y es casi como si hubiera
matado a todos. Sé de uno
que murió por la bandera.
De tarde en tarde en el Sur
me mira un rostro moreno,
trabajado por los años
y a la vez triste y sereno.
¿A qué cielo de tambores
y siestas largas se han ido?
Se los ha llevado el tiempo,
el tiempo, que es el olvido.
"Para las seis cuerdas" (1965)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 281 e 282 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 962
Jorge Luis Borges
Oda escrita en 1966
Nadie es la patria. Ni siquiera el jinete
que, alto en el alba de una plaza desierta,
rige un corcel de bronce por el tiempo,
ni los otros que miran desde el mármol,
ni los que prodigaron su bélica ceniza
por los campos de América
o dejaron un verso o una hazaña
o la memoria de una vida cabal
en el justo ejercicio de los días.
Nadie es la patria. Ni siquiera los símbolos.
Nadie es la patria. Ni siquiera el tiempo
cargado de batallas, de espadas y de éxodos
y de la lenta población de regiones
que lindan con la aurora y el ocaso,
y de rostros que van envejeciendo
en los espejos que se empañan
y de sufridas agonías anónimas
que duran hasta el alba
y de la telaraña de la lluvia
sobre negros jardines.
La patria, amigos, es un acto perpetuo
como el perpetuo mundo. (Si el Eterno
Espectador dejara de soñarnos
un solo instante, nos fulminaría,
blanco y brusco relámpago, Su olvido.)
Nadie es la patria, pero todos debemos
ser dignos del antiguo juramento
que prestaron aquellos caballeros
de ser lo que ignoraban, argentinos,
de ser lo que serían por el hecho
de haber jurado en esa vieja casa.
Somos el porvenir de esos varones,
la justificación de aquellos muertos;
nuestro deber es la gloriosa carga
que a nuestra sombra legan esas sombras
que debemos salvar.
Nadie es la patria, pero todos lo somos.
Arda en mi pecho y en el vuestro, incesante,
ese límpido fuego misterioso.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 252 e 253 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
que, alto en el alba de una plaza desierta,
rige un corcel de bronce por el tiempo,
ni los otros que miran desde el mármol,
ni los que prodigaron su bélica ceniza
por los campos de América
o dejaron un verso o una hazaña
o la memoria de una vida cabal
en el justo ejercicio de los días.
Nadie es la patria. Ni siquiera los símbolos.
Nadie es la patria. Ni siquiera el tiempo
cargado de batallas, de espadas y de éxodos
y de la lenta población de regiones
que lindan con la aurora y el ocaso,
y de rostros que van envejeciendo
en los espejos que se empañan
y de sufridas agonías anónimas
que duran hasta el alba
y de la telaraña de la lluvia
sobre negros jardines.
La patria, amigos, es un acto perpetuo
como el perpetuo mundo. (Si el Eterno
Espectador dejara de soñarnos
un solo instante, nos fulminaría,
blanco y brusco relámpago, Su olvido.)
Nadie es la patria, pero todos debemos
ser dignos del antiguo juramento
que prestaron aquellos caballeros
de ser lo que ignoraban, argentinos,
de ser lo que serían por el hecho
de haber jurado en esa vieja casa.
Somos el porvenir de esos varones,
la justificación de aquellos muertos;
nuestro deber es la gloriosa carga
que a nuestra sombra legan esas sombras
que debemos salvar.
Nadie es la patria, pero todos lo somos.
Arda en mi pecho y en el vuestro, incesante,
ese límpido fuego misterioso.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 252 e 253 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 116
Jorge Luis Borges
Milonga para los orientales
Milonga que este porteño
dedica a los orientales,
agradeciendo memorias
de tardes y de ceibales.
El sabor de lo oriental
con estas palabras pinto;
es el sabor de lo que es
igual y un poco distinto.
Milonga de tantas cosas
que se van quedando lejos;
la quinta con mirador
y el zócalo de azulejos.
En tu banda sale el sol
apagando la farola
del Cerro y dando alegría
a la arena y a la ola.
Milonga de los troperos
que hartos de tierra y camino
pitaban tabaco negro
en el Paso del Molino.
Milonga del primer tango
que se quebró, nos da igual,
en las casas de Junín
o en las casas de Yerbal.
Como los tientos de un lazo
se entrevera nuestra historia,
esa historia de a caballo
que huele a sangre y a gloria.
Milonga de aquel gauchaje
que arremetió con denuedo
en la pampa, que es pareja,
o en la Cuchilla de Haedo.
¿Quién dirá de quienes fueron
esas lanzas enemigas
que irá desgastando el tiempo,
si de Ramírez o Artigas?
Para pelear como hermanos
era buena cualquier cancha;
que lo digan los que vieron
su último sol en Cagancha.
Hombro a hombro o pecho a pecho,
cuántas veces combatimos.
¡Cuántas veces nos corrieron,
cuántas veces los corrimos!
Milonga del olvidado
que muere y que no se queja;
milonga de la garganta
tajeada de oreja a oreja.
Milonga del domador
de potros de casco duro
y de la plata que alegra
el apero del oscuro.
Milonga de la milonga
a la sombra del ombú,
milonga del otro Hernández
que se batió en Paysandú.
Milonga para que el tiempo
vaya borrando fronteras;
por algo tienen los mismos
colores las dos banderas.
"Para las seis cuerdas" (1965)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 283, 284 e 285 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
dedica a los orientales,
agradeciendo memorias
de tardes y de ceibales.
El sabor de lo oriental
con estas palabras pinto;
es el sabor de lo que es
igual y un poco distinto.
Milonga de tantas cosas
que se van quedando lejos;
la quinta con mirador
y el zócalo de azulejos.
En tu banda sale el sol
apagando la farola
del Cerro y dando alegría
a la arena y a la ola.
Milonga de los troperos
que hartos de tierra y camino
pitaban tabaco negro
en el Paso del Molino.
Milonga del primer tango
que se quebró, nos da igual,
en las casas de Junín
o en las casas de Yerbal.
Como los tientos de un lazo
se entrevera nuestra historia,
esa historia de a caballo
que huele a sangre y a gloria.
Milonga de aquel gauchaje
que arremetió con denuedo
en la pampa, que es pareja,
o en la Cuchilla de Haedo.
¿Quién dirá de quienes fueron
esas lanzas enemigas
que irá desgastando el tiempo,
si de Ramírez o Artigas?
Para pelear como hermanos
era buena cualquier cancha;
que lo digan los que vieron
su último sol en Cagancha.
Hombro a hombro o pecho a pecho,
cuántas veces combatimos.
¡Cuántas veces nos corrieron,
cuántas veces los corrimos!
Milonga del olvidado
que muere y que no se queja;
milonga de la garganta
tajeada de oreja a oreja.
Milonga del domador
de potros de casco duro
y de la plata que alegra
el apero del oscuro.
Milonga de la milonga
a la sombra del ombú,
milonga del otro Hernández
que se batió en Paysandú.
Milonga para que el tiempo
vaya borrando fronteras;
por algo tienen los mismos
colores las dos banderas.
"Para las seis cuerdas" (1965)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 283, 284 e 285 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 869
Jorge Luis Borges
Un soldado de Lee (1862)
Lo ha alcanzado una bala en la ribera
de una clara corriente cuyo nombre
ignora. Cae de boca. (Es verdadera
la historia y más de un hombre fue aquel hombre).
El aire de oro mueve las ociosas
hojas de los pinares. La paciente
hormiga escala el rostro indiferente.
Sube el sol. Ya han cambiado muchas cosas
y cambiarán sin término hasta cierto
día del porvenir en que te canto
a ti que, sin la dádiva del llanto,
caíste como cae un hombre muerto.
No hay un mármol que guarde tu memoria;
seis pies de tierra son tu oscura gloria.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 256 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
de una clara corriente cuyo nombre
ignora. Cae de boca. (Es verdadera
la historia y más de un hombre fue aquel hombre).
El aire de oro mueve las ociosas
hojas de los pinares. La paciente
hormiga escala el rostro indiferente.
Sube el sol. Ya han cambiado muchas cosas
y cambiarán sin término hasta cierto
día del porvenir en que te canto
a ti que, sin la dádiva del llanto,
caíste como cae un hombre muerto.
No hay un mármol que guarde tu memoria;
seis pies de tierra son tu oscura gloria.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 256 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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