Poemas neste tema

Guerra e Paz

Castro Alves

Castro Alves

Ao Dous de Julho

(Recitada no Teatro S. João)

É a hora das epopéias,
Das ilíadas reais.
Ruge o vento — do passado
Pelos mares sepulcrais.
É a hora, em que a Eternidade
Dialoga a Imortalidade...
Fala o herói com Jeová! ...
E Deus — nas celestes plagas —
Colhe da glória nas vagas
Os mortos de Pirajá.

Há destes dias augustos
Na tumba dos Briaréus.
Como que Deus baixa à terra
Sem mesmo descer dos céus.
É que essas lousas rasteiras
São — gigantes cordilheiras
Do Senhor aos olhos nus.
É que essas brancas ossadas
São — colunas arrojadas
Dos infinitos azuis.

Sim! Quando o tempo entre os dedos
Quebra um séclo, uma nação ...
Encontra nomes tão grandes.
Que não lhe cabem na mão!...
Heróis! Como o cedro augusto
Campeia rijo e vetusto
Dos séclos ao perpassar,
Vós sois os cedros da História,
A cuja sombra de glória
Vai-se o Brasil abrigar.

E nós, que somos faíscas
Da luz desses arrebóis,
Nós, que somos borboletas — Das crisálidas de avós,
Nós, que entre as bagas dos cantos.
Por entre as gotas dos prantos
Inda os sabemos chorar,
Podemos dizer: "Das campas
Sacudi as frias tampas!
Vinde a Pátria abençoar!. . .

Erguei-vos, santos fantasmas
Vós não tendes que corar...
(Porque eu sei que o filho torpe
Faz o morto soluçar... )
Gemem as sombras dos Gracos,
Dos Catões, dos Espartacos
Vendo seus filhos tão vis...
Dize-o tu, soberbo Mário!
Tu, que ensopas o sudário
Vendo Roma — meretriz? ...

Ai! Que lágrimas candentes
Choram órbitas sem luz! —
Que idéia terá Leônidas
Vendo Esparta nos pauis?!...
Alta noite, quando pena
Sobre Árcole, sobre Iena,
Bonaparte — o rei dos reis —,
Que dor dalma lhe rebenta.
Ao ver suáguia sangrenta
No sabre de Juarez!?...

Porém aqui não há grito,
Nem pranto, nem ai, nem dor...
O presente não desmente
Do seu ninho de condor...
Mãos, que, outrora de crianças
A rir — dentaram as lanças
Dos velhos de Pirajá...,
De homens hoje, as empunhando,
Nas batalhas afiando,
Vão caminho de Humaitá!...

Basta!... Curvai-vos, ó povo!
Ei-los os vultos sem par,
Só de joelhos podemos
Nest’hora augusta fitar
Riachuelo e Cabrito,
Que sobem para o infinito
Como jungidos leões,
Puxando os carros dourados
Dos meteoros largados
Sobre a noite das nações.

2 068
José Craveirinha

José Craveirinha

Menus

Uivam
as suas maldições
as insidiosas hienas
própria sanha.

Rituais
de tão escabrosa gulodice
que até nos esfomeados
aldeões da tragédia
a gula das quizumbas
se baba nas beiças
das catanas,
dos machados.
3 607
Emiliano Perneta

Emiliano Perneta

Canção

Pára um negro cavaleiro
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.

Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.

— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."

— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —

Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?

— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?

"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.

1897


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 941
Roberto Pontes

Roberto Pontes

No Centenário do Cão

In memoriam Adolf Hitler

A merda com que Hitler pintou as paredes da Alemanha
Logo Bertolt Brecht decifrou
E enquanto o "pintor"salpicava seus merdiscos
O poeta transpunha a fronteira de sua pátria
Porque tinha de anunciar aos sete povos do planeta
O grande feito do temível ditador

Um dia Hitler foi coberto de bombas
em seu bunker, em seu próprio jardim
E, mais louco do que Nero
Disparou um tiro de pistola nos seus miolos de excremento

Então, aquela com que pintara as paredes da Alemanha
Escorreu dos muros do Terceiro Reich, o seu império
E cobriu a terra onde sepultaram o seu corpo de merda

879
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Poesia e Libertação em Roberto Pontes

por Pedro Lyra
Um dos temas mais problemáticos da teoria literária contemporânea é a sobrevivência do épico. Dada a natureza por essência histórica deste gênero, creio que o problema não pode ser questionado antes de colocado num determinado tempo. Deste modo, a falência e/ou apogeu do épico se encontram vinculados à existência/inexistência de grandes acontecimentos sociais que, numa certa fase da história humana, ofereçam ou não temas de conteúdo épico.
Por que a Antigüidade e o Renascimento foram tão fecundos neste gênero? Simplesmente: pela ocorrência, nessas épocas, de fatos sociais de grandes implicações humanas no sentido universal. Aplicada a tese ao momento presente, o problema se resolve: não foi o épico que morreu como gênero literário, mas um certo épico de linguagem inadequada ao nosso tempo, um épico de conceituação sedimentada nos limites de uma estética restrita ao ideário clássico – o pomposo e solene épico de Homero, Virgílio, Camões, próprio para as sociedades que o gerararm e consumiram, como só elas poderiam gerá-lo e consumí-lo.
A aparente falência do épico em nossa época se explica por esta evidência: a instabilidade do mundo contemporâneo – este pragmatismo materialesco a que nos atiraram – por um lado nega ao escritor o tempo indispensável para o labor épico (pelo menos, para o labor épico "a la antigua") e, por outro lado, nega também ao leitor essa mesma parcela de tempo necessário para o convívio com os longos poemas que requerem exegese.
Mas o epos está presente em qualquer tempo. E a nossa época é, sem talvez, a mais fecunda de toda a história humana em essência épica: aí estão ainda as radiações atômicas da última guerra mundial e das mais recentes bombas de intimidação e exibição; aí estão as lutas de classe propagando a revolução socialista por todo o globo; aí está o surgimento deste vasto Terceiro Mundo para uma nova realidade mundial; e aí está, por fim, a conquista do espaço, afirmando o domínio do homem sobre o seu universo próximo. Tudo isso, junto ou isolado, se oferece ao poeta contemporâneo como num desafio: um desafio àquele que se proponha a deixar, numa obra de fôlego, uma imagem poética deste tempo desesperado.
Pois bem: um desses temas – o último – acaba de ser tratado, num longo poema, por um jovem poeta cearense: Roberto Pontes, prêmio "Esso–Jornal de Letras" de 1970 (com o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e Tese), no livro-poema Lições de Espaço: Teletipos, Módulos e Quânticas 1 , premiado pela Universidade Federal no mesmo ano.
Com certeza, podemos vincular este poema à corrente vanguardista da poesia brasileira: vanguarda pelo tema, vanguarda pela linguagem. Nisto, cabe notar que Roberto não circunscreveu o fazer vanguardista ao problema da linguagem: sendo vanguarda o que sugere um passo à frente – o que, incorporando um dado novo ao patrimônio preexistente, aponte um rumo a seguir – ele se situa como vanguardista menos numa perspectiva lingüística do que numa perspectiva social.
Trabalhando exclusivamente com a palavra, Roberto Pontes compreende que tem de explorá-la ao máximo, para compensar a ausência da contribuição não-solicitada ao figurativo. Por isso ele está sempre experimentando, reinventando, neologizando a matéria-prima do verbo. As múltiplas tendências, os vários processos, a polivalência usual da palavra – todas as diretivas da vanguarada vocabular foram amalgamadas em Lições de Espaço por um tenaz esforço pessoal crítico-teórico-criativo em torno de poetas e movimentos vanguardistas, donde resultou um poema antes de tudo pesquisa-informação, atualizadas pela unidade de linguagem conseguida do primeiro ao último verso.
Através da simples leitura do poema é possível notar a familiaridade do autor com os experimentalistas da tradição internacional, como Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Maiacovski, ou com os da melhor vertente nacional nacional, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Haroldo de Campos, Mário Chamie. Através dessa convergência de processos, o autor destas lições de espaço integra-se, via experimentalismo com a palavra, na determinante verbal da vanguarda brasileira – na mesma perspectiva em que Guimarães Rosa também é vanguarda, na prosa.
Ele consegue reinventar o épico através de uma inusitada contenção verbal, de uma fala renovada, de um discurso condensado, na melhor terminologia poundiana. Por isso, sendo os seus blocos de verso uma síntese da cultura humana, eles requerem um nível receptor exigente. Mas é exatamente no nível solicitado que se concentra a melhor poesia.
O poema está dividido em três livros.
O primeiro apresenta, em doze pequenos poemas, a problemática do espaço numa perspectiva regional. O espaço é o Nordeste brasileiro. Os poemas vão abrindo, pouco a pouco, um leque de problemas ecológicos, econômicos, antropológicos e sociais de sua sofrida região, ao mesmo tempo em que anatemiza a conivência que os conserva.
O poeta se define diante dos problemas em apenas um texto, apesar de sempre curto, apresentados numa linguagem tão estéril quanto a própria natureza nordestina. Mais que em qualquer outra parte do poema, é neste primeiro livro que se tem a perfeita adequação da linguagem ao tema focalizado: através da aridez da linguagem chega-se a uma idéia da aridez da vida que ela representa.
No poema

o piso não fabula a verdura
engastada na poeira e no salitre
nem mesmo as próprias raízes
desbebidas no lençol de anidro

o solo ingere as forras tessituras
dessangradas dos folículos e folhas
ele suga a sudorência do granito
seus produtos se arrimam na caliça

a terra não concebe o nobre cepo do cedro
cisma a figura inane do xerófito
o gozo estriado dos fibromas
e a indigência epitelial da citra (p.10)

o poeta descreve esse espaço e revela a natureza do solo naquilo que ele pode germinar. Mas esse solo não germina o que pode – "a terra não concebe" – esterilizado pela incipiência da agricultura:

o fazedeiro
de safras

lavra a dor
e lavrador

lavra dores

dá cifras
e não decifra
a grandeza do lavrar (p.22)

uma agricultura desinstrumentalizada, que explora mais o homem ("lavra a dor") do que a terra, num processo onde o sertanejo, ignorante de sua função social ("dá cifras/ e não decifra/ a grandeza do lavrar"), é o forte que, antes de tudo, ainda depende da chuva, preso a um sistema medievalizado que lhe proporciona uma subsistência de conveniência, como na expressiva síntese práxis-concretista destes dois versos-palavra:

salário
solário (p.18)

O segundo livro apresenta, em quarenta poemas de seis versos em média, a configuração do espaço numa perspectiva planetária. O espaço é a Terra. E, para entendê-lo, o poeta ressalta o uso que o homem faz do raciocínio, da inteligência, da sensibilidade e do seu poder de criação. Com o espaço circundante compreendido, vem a apreensão do universo – tônica do segundo livro. E, numa linguagem agora lírica, o poeta tenta uma definição do planeta, apoiado em informações científicas:

o universo
tem seu porte e suporte
em elétrons nêutrons prótons
é urgência ao poema
a fissão da massa atômica
a micro física quântica
os princípia matemática

tem o limite dos cardos
cortantes da metafísica
estrela sistema cosmos
o fascínio da galáxia
o silêncio da palavra
o carpir em abstrato

cem mil milhares de sóis
igual lote de anos-luz
o poeta assim disserta
premissas e teoremas
de sua esfera anilada

entre parábolas e elipses
que vagam por aí em expansão
burila zumbidos de metal (p. 37-40)

Nesse livro, n
1 060
Renata Trocoli

Renata Trocoli

Sem Titulo

A saudade de teus meigos olhos a olhar-me com tanto amor

doe em meu peito com aguda tristeza, meu grande amor.

Tuas macias, delicadas e pequeninas m2os tocavam meu rosto

com tanto carinho e amor que n2o podia deixar-te

um minuto sem meus abraTos e doces palavras de amor.

Quando sent5vamos debaixo das estrelas nas noites mornas

da bela primavera da P0rsia, me abraTavas com tanto medo

e chorava baixinho escondendo teu lindo rostinho delicado em meu

peito, e me fazia jura-te amor eterno.

Este amor que jurei e sinto sempre por ti minha linda princesa.

Sinto saudades de tuas palavras e teu carinho ao ver-me zangado e

preocupado, e como me acalmava com teu belo olhar sobre o meu,

sorrindo com doTura e colocando minha cabeTa em teus delicados

ombros para fazer com que a calma tomasse conta de meu coraT2o.

Por tantos dias fiquei a admirar tua beleza

enquanto dormias um sono tranq ilo e

quantas vezes tocava teus lindos cabelos negros, macios e perfumados

sem ter vontade de fechar os olhos para n2o perder t2o bela vis2o.

Quantas vezes ainda dormi cansado em teus pequeninos braTos

sentindo cada vez mais um amor puro e leal por ti.

Me abraTavas com doce saudade e com l5grimas nos olhos

depois de dias de batalha sem ver-me.

E cuidava de mim com tanto carinho e me amava com tanta saudade

que meus dias pareciam um doce sonho que n2o poderia nunca ter fim.

O mais triste meu amor foi perder-te.

Foi perceber que teu amor n2o mais me envolveria o corpo,

que n2o mais teria tua presenTa a cuidar de mim

nas noites de cansaTo ap s uma batalha.

Com uma linda e dolorosa promessa nos despedimos.

Tu me abraTaste chorosa e amedrontada,

e prometemos um amor eterno

por todos os lugares onde pass5ssemos. Aonde estiv0ssemos.

Hoje a saudade de teus doces olhinhos

a olhar-me com amor cegam meus dias.

Mas pelo menos ainda posso sentir teus perfume

e teus abraTos a me envolver...

1 078
Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

No Convés

Onírico senhor de mar e guerra,
no convés a aguardar, a desejar
o dia. A luz do dia azul sirene
do século que abrande outro viver.

Não importam cordames nem cardumes,
água límpida ou fogo que o alaga,
se é verdade ou delírio o que ele enxerga;
em vez de um só corsário, submarinos.

Sabendo haver a paz e muitas guerras
por outros quês, no entanto, desespera:
o que fazer se a sorte em vão o aguarda?

Num segundo de dúvida espumante
não sente que o destino o assinala,
qual outro capitão, o cachalote.

678
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Quântica 1

artefacto futuro
flores flos tet flaus
corolas e cálices
discos i halos
címbalos et cordas
o aço em hélices
turbinas a jato
capaciômetros
and elétrodos
transistores
filamentos
ruídos e chilreares
pssssTTssssPssss
orbinauta
astro magnus mare
tranqüilidade imponderável
pssssTTssssPssss
EEUU versus CCCP
e a pássara em seu compasso
é uma cápsula
que pisca seu percurso
bat bit bat

y soy solo azul

671
Roberto Pontes

Roberto Pontes

O Dia

No dia
um grande estrondo romperá o céu
e não será o trovão trazendo a chuva

No dia
um calor do inferno nos envolverá
e com certeza não será de abraço

No dia
um guarda-chuva nos dará a sombra
dos cogumelos do "País das Maravilhas"

No dia
o fogo nos fará másacaras sobreviventes
e não para princar no carnaval

No dia
o pânico e a morte serão nossos convivas
e o ágape servido será dor e veneno

No dia
e após o dia
a vida irá sumindo lentamente
e cheios de medalhas
os cus dos generais apodrecendo

(In: Alguma Poesia Jornal n. 2 ano II julho/setembro 1985, Rio de Janeiro)

887
Moniz Bandeira

Moniz Bandeira

Canto do Outubro

Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.

Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.

Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.

Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.

quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.

Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.

Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.

E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.

963
Moniz Bandeira

Moniz Bandeira

O Poeta de Hoje

O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.

À dor dos séculos os mortos despertaram.
Incendeiam-se mares, florestas e montanhas,
e marcha pela madrugada o exército dos sem rostos.

O poeta hoje não cantará heróis nem símbolos.
Traz no peito a angústia das máquinas.
Travam-lhe a garganta baionetas sem lua.

Rompe nas suas mãos um sol feito de sangue
e os cavalos da fome puxam o carro da aurora.

O poeta hoje não cantará nem símbolos.

1 115
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Morreram as Videiras na Quinta

I
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.

II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.

III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.

IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.

V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.

VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.

VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.

912
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

África

(uma canção)

Negra paisagem
fere os olhos
de quem pode ver

e o medo guardado
pode a qualquer hora explodir

O palco que encena
os homens sensatos
que fazem a guerra
como quem começa
a viver

e nunca dão trégua
para que se possa
renascer

E rola no espaço
dor estilhaço
pedaços de vida
que a inconsciência
condenou

África continente
negra paz céu azul
explorada e servil

África fome e guerra
condenada e tão bela
irmã do povo Brasil

830
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Principal

aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 067
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

A Estrada é um Matagal

A estrada é um matagal
Gretado
Não leva ninguém mais
Às minhas referencias

Elas restam
Onde persiste
A memória apunhalada dos meus olhos

Mesmo as pedras tumulares
Dos antigos sobados de Emanha

Não bastam para esquecer
As quarenta labaredas dos seus corpos fechados
No aramazém - forno de zinco
Tábuas de loncha e adobes rebocados

De fora disparava a noite
Aos tambores de combustível
Diante da porta e das janelas gradeadas
Armazém transformado em crematório

Os galos em silencio
Ouviam

Outros galos cantavam a metralha.
957
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

GRANDEZA OCULTA

Últimos Sonetos

Estes vão para as guerras inclementes,
os absurdos heróis sanguinolentos,
alvoroçados, tontos e sedentos
do clamor e dos ecos estridentes.

Aqueles para os frívolos e ardentes
prazeres de acres inebriamentos:
vinhos, mulheres, arrebatamentos
de luxúrias carnais, impenitentes.

Mas Tu, que na alma a imensidade fechas,
que abriste com teu Gênio fundas brechas
no mundo vil onde a maldade exulta,

ó delicado espírito de Lendas!
fica nas tuas Graças estupendas,
no sentimento da grandeza oculta!

1 332
Regina Souza Vieira

Regina Souza Vieira

Eis de Repente

..... eis de repente
do Lépi a chuva densa
alturas de Nambunagongo
Silongo de Mandume
Chanas que pisei no leste
Maiombe de lendas infindáveis

O ar livre de poeiras dos escombros
Reabre sonhos escondidos na agonia

A velha da tchimanda
Dá o nome de David
E o da Miete
Aos meninos que encontrou
Na estrada

No Tchinguluma
Ouvem-se as abelhas zumbir
Em torno das cores perto do rio

Também viram no Mufupu
Jeremias a cobrir a casa
Com capim novo da chama

Lukau vinda do norte
Trouxe abacates no pano e ofereceu-os
Olhos brilhantes húmidos felizes

Disseram-me hoje
Há folhas verdes outra vez
Nos ramos da loncha da Emanha
Nas mangueiras do salundo
Vozes falam do milho a germinar
No Huma e na Cativa

Passaram os anos em que a morte
Venceu todas as batalhas

Finalmente agora pouco a pouco
Começa a vida a vencer a guerra.
954
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Definição

Rosa não rosa
eu não rescendo a flor.
Nada mais nada
eu fui tirado
de onde o mundo veio.
Mundo ó mundo

a dor constante
de compreender.
Roda com roda
quero a ciranda
orando pela paz.
Rumo e mais rumo
trunfo e conquista
não canto canção.
Vida vida vida
flor de existência
curta mas bela.
Grito então grito
trago um chicote
inquieto na mão.

(In: Poiésis Literatura. Petrópolis, n. 41, nov. 1996)

913
Castro Alves

Castro Alves

OITAVAS A NAPOLEÃO

(Tradução do espanhol, de LOZANO)

Águia das solidões!... Ninho atrevido
Foram-te as borrascosas tempestades,
Flamígero cometa suspendido
Sobre o céu infinito das idades.
Tu que, no lago intérmino do olvido,
Lançaste tuas régias claridades...
Deus caído do trono dos mais deuses
Quem recebeu teus últimos adeuses?

Não foram as Pirâmides, que ouviram
De teus passos o som e se inclinaram...
Nem as águas do Nilo, que te viram,
E coas ondas teu nome murmuraram...
Não foram as cidades, que brandiram
As torres como facho... te aclararam...
Quem foi? Silêncio!.. trêmulo de medo
Vejo apenas — um mar... vejo — um rochedo...

A terra, o mar, os céus... espaço estreito
Eram pra tua planta de gigante,
Para tecto dos paços teus foi feito
O firmamento colossal, flutuante
Como diadema — os sóis... E como leito
O antártico pólo de diamante...
Teu féretro qual foi?... Titão do Sena,
O penhasco fatal de Santa Helena...

Assassina do Encélado da guerra
Só tu foste, Albion... do mar senhora...
Por quê? Porque um pedaço aí de terra
Foi pedir-te o gigante em negra hora...
E lhe deste um penhasco... Oh! Lá sencerra
Tua lenda mais hórrida... Traidora!
Lá seu espectro envolto, na mortalha
Aos quatro céus a maldição espalha...

Ao leão, que temias, enjaulaste;
E de longe escutando seu rugido,
Tu, senhora do mar... tu desmaiaste!
Pelo punhal traidor ele ferido
Caiu-te aos pés... Então tu respiraste,
Cobarde vencedora do vencido...
Nem mesmo todo o oceano poderia
Lavar este padrão de covardia...

Tu não és tão culpada!... Aonde estava
A França tão potente e tão temida?...
Oh! por que o não salvou?... se o contemplava
Lá dos gelos dos Alpes — soerguida!?...
E ele que a fez tão grande?... Ela folgava!...
Enquanto ao longe do colosso a vida,
Como um vulcão antigo e moribundo
Lento expirava nesse mar profundo.

2 011
Pablo Neruda

Pablo Neruda

XIX - Os homens

Voltamos apressados a esperar nomeações,
exasperantes publicações, discussões amargas,
fermentos, guerras, enfermidades, música
que nos ataca e nos golpeia sem trégua,
entramos novamente em nossos batalhões,
ainda que todos se unissem para declarar-nos mortos,
aqui estamos outra vez com nosso falso sorriso,
falamos, exasperados ante o possível olvido,
enquanto lá na ilha sem palmeiras,
lá onde se recortam os narizes de pedra
como triângulos traçados em pleno céu e sal,
ali, no minúsculo umbigo dos mares,
deixamos esquecida a última pureza,
o espaço, o assombro daquelas companhias
que levantam sua pedra desnuda, sua verdade,
sem que ninguém se atreva a amá-las, a conviver com elas,
e essa é minha covardia, aqui dou o testemunho:
não me senti capaz senão de transitórios
edifícios, e nesta capital sem paredes
feita de luz, de sal, de pedra e pensamento,
como todos olhei e abandonei assustado
a límpida claridade da mitologia,
as estátuas rodeadas pelo silêncio azul.
540
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Henri Martin

Henri Martin escuta
o rumor
que fazem o medo e o sangue.
 
Em sua prisão de França
ouve
as bandeiras do bosque.
Os seus morrem
inutilmente,
apodrecem, se os carregam
escaravelhos cor de estanho.
Caem
filhos da França
lá longe.
Por quê?
Henri Martin se opôs
à carnificina
sem glória,
e agora
com um traje listrado,
com um número nas costas,
trabalha encarcerado
a radiante
honra da França.
Para desembarcar com aguaceiro
quente, entre as moscas,
tanques e pústulas,
maldições, desgraças,
para desembarcar
rapazes
nascidos da rosa
da França,
filhos
do jasmim e as uvas,
para matá-los,
para condecorá-los
e assassiná-los,
o governinho
da França
deve crucificar a honra,
encarcerá-la,
pôr-lhe traje listrado,
numerá-lo,
deve industrializar sua estrumeira
para vendê-la
aos cowboys de Washington,
deve romper os ossos
da antiga
honra nunca extinta.
Por isso
Henri Martin,
radiante,
indomável
através das barras
que aprisionam
os olhos tricolores
de seu povo,
olha
como cai
o sangue nos pântanos,
lá longe,
sem glória,
sob as asas tórridas,
e os escaravelhos
com suas pequenas
bocas de estanho
carreando
às úmidas tocas,
homens,
fragmentos de rapazes,
a força e a doçura
da França
sacrificada
para que os cowboys
da Filadélfia
dancem com a suavíssima senhora
do embaixador da França.
 
Henri Martin: o trevo
do pasto matutino,
as coisas mais humildes,
o banco
do carpinteiro,
a flor azul sem nome
entre as pedras,
o terrível
vento sulfúrico
de Chuquicamata na noite,
os homens
amontoados
nas minas,
o pão,
o guerrilheiro
de nossa dolorosa,
materna, infortunada,
heróica
Grécia de hoje.
 
tudo
 
o simples, o que sem aprender e sem sabê-lo
canta em todas as terras e os rios,
 
tudo
 
te saúda,
Henri Martin, honra
de quanto existe, irmão
da claridade e do sonho,
irmão
da retidão e do dia,
irmão
de toda a esperança,
marinheiro.
 
Eu passo e vejo o mundo.
Ali estive,
ali onde estiveste.
Conheço
o sangue e a morte.
Por isso, porque és
o irmão da vida,
Henri Martin, honra
da França, folha
da mais alta azinheira,
loureiro das campinas,
herói
da paz e da pureza,
te saúdo
com a simplicidade
da areia e a neve
de minha pátria distante.
 
1 167
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os Deuses do Rio

Ovídio e Garcilaso desterrados
ontem em tuas ribeiras,
Romênia, te coroem,
te coroem e cantem.
Águas leve teu rio fecundando
as vidas e a areia,
povoe o amor tuas casas e teus bosques,
com cachos se cubram
teus braços e tuas faces.
 
Não só ao homem
livre
de tuas novas cidades e campinas
celebro.
Não só aos trabalhos criadores
de escolas e de usinas
eu dedico meu canto.
Não só aos canais
abertos na rocha e na terra
para que andem repartindo espigas
as águas do Danúbio
eu minha lira consagro,
senão a ti, Romênia,
a teu nobre sabor de terra e vinho,
a teu pão generoso
repartido em teu povo,
o aroma de pinheiros e mimosas
que o vento te faz dádiva.
Eu canto
na pele de tuas uvas,
no brilho dos olhos
que dali se juntam aos meus
como dois raios negros,
tuas danças antigas
que hoje brilham na luz que conquistaste
como flores ou fogo,
na amizade de todos,
na mão serena do Partido,
na alegria
da paz romena,
tua lembrança inumerável
que canta como um rio.
 
Romênia,
hoje lá das areias de minha pátria
eu te escrevo esta carta.
Recebe-a, Romênia.
Leva borrifos do Pacífico,
leva vozes e beijos,
leva neve de altíssimas montanhas,
leva cantos e lutas
de meu povo.
 
Honra e amor, Romênia,
sobem em ti como duas vinhas novas.
 
A inteligência fita com teus olhos.
Em tua boca sorriem os cachos.
 
1 317
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Mais de Uma França

Transparente
é a terra:
bolha de água e ferro,
taça verde
de oceanos, campinas,
distâncias,
ondas de quartzo e cobre
nela se aquietaram.
O carvão no fundo
de corredores cegos
repousa sua energia.
Frutas e cereais
como o manto
de um antigo monarca
a cobrem com estrelas
amarelas:
 
desbordante é a taça
da terra:
 
toda a luz e toda
a sombra a acendem
e apagam,
ásperas, com espinhos
do inverno,
doce, cheia de todas
as doçuras:
planeta, guardas algo
mais vivente
e elétrico
que todos os metais:
 
é o homem
o pequeninho
ser que treme,
cai e levanta
a fronte mais ferida
e com o braço recém-arranhado
empunha os relâmpagos.
 
Vejo
os bosques calorosos,
a selva
em Laos,
insetos como folhas,
leopardos
de força silenciosa
e cintura fosfórica,
as grandes árvores trançadas
na antiga terra,
os monumentos úmidos
com seus narizes quebrados
e os olhos por onde
irrompem as ramagens.
Nada disto
nos interessa:
atende;
espera,
olha!
Aqui está o que amas:
 
Um pequeno
homem livre
com um rifle,
esperando.
É ele,
o guerrilheiro do Cambodja.
Espera
o mecânico passo
do invasor blindado.
Não pensa
na febre que espreita,
na serpente
de elétrico veneno:
só espera
o soldado
estrangeiro.
Ali na selva
as folhas
são sua pátria,
cada som de ave
ou água,
cada vôo
de borboleta ou pálpebra,
é sua pátria.
A pátria é uma folhagem
e em sua sombra
o homem,
o homem pequeninho,
defendendo
cada uma
de suas folhas.
Vietnam do outro lado.
Há rios pardos, trêmulos
de vidas e mensagens
que vão de terra a terra.
Os franceses
das cidades
ouvem o cochicho
da folhagem.
Por que deixaram
a frutal primavera
da França?
Disseram-lhes
que trariam
a cultura
e desde então
as metralhadoras
e o napalm
de Eisenhower,
a ruína e o incêndio,
desembarcam
com eles, os franceses.
 
Os netos
de Victor Hugo
não trazem
livros
mas
terríveis balas,
dores,
sangue.
 
Por isso
lá de Saigon se eleva
um negro
murmúrio
de fumaça e medo
que atravessa a terra
e cai
sobre a França,
sobre certas pequenas
casas pobres
cai
o medo da Indochina.
 
A morte,
uma notícia
com um nome de luto,
chega
como uma águia negra
das alturas da Ásia
e entra
na primavera
matutina da França
com uma sombra rápida
de garras.
 
1 192
Pablo Neruda

Pablo Neruda

O Anjo da Poesia

União Soviética, floresces
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
 
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
 
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
 
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
 
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
 
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
 
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
 
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
 
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
 
Ali por fim a paz me resguardava.
 
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
 
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
 
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