Poemas neste tema

Guerra e Paz

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,

A guerra, que aflige com os seus esquadrões o mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


24/10/1917
1 832
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Potsdamer Platz

Na clareira aberta pelas bombas
Renzo Piano ergueu em memória
da Haus Vaterland um carrocel gigante
com tenda de circo e bazar de luzes:
numa redoma de vidro, a Kaisersaal
lembra uma gruta de anacoreta:
dos restaurantes, como corbelhas
acesas, olha-se o que há vinte anos      
era uma forja: ia-se sobre sucata,
retorcida, oxidada, até plataformas
ver o outro lado: os lustres e lampadários
do café Josty numa galeria decorada
como um retábulo: atravessado pelo muro
e a ronda das sentinelas: viam-se na mira     
das armas automáticas, vigiavam as hordas
de um e do outro lado da muralha
da China e o mundo suspendia-se do mover    
dos seus dedos: numa cápsula de tempo,
sob o gibão listrado, este sonho de cenógrafo:      
no globo da sibila as datas hão-se servir
muito tempo de enigma aos historiadores.
673
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

Uma Residência

Um ano depois de eu nascer,
Berlim era um convés de voo
com naves laterais e galeria
de ventilação, forças aerotransportáveis
e sereia de alarme aéreo.

Imagino Gombrowicz chegando,
espécie de nómada insolente,
com o cinismo prático
e as mil facetas da sua alma dialéctica,      
proscrito uma vez mais,
por decisão unilateral,
para um ano longe da pampa.     
                                                   
A Alemanha era uma arte de decompor em partes   
um direito adquirido com o nascimento,
e a cidade uma protuberância da guerra fria,
purga de ar de que ele podia seguir
as descargas luminosas no alto penhasco
onde o alojaram em Hohenzollerndamm.                     

Tivesse o dom de vaticinar
e saberia que era citado
a depor com o corpo a infância polaca
nos aromas que se libertam       
de aceres e bétulas nas áleas do Tiergarten.     

Uma dissidência terminava assim,
neste retiro verde e sossegado —            
como um castigo corporal
ou qualquer coisa de congénito,
a Europa vinha ao seu encontro      
e a morte com um odor característico
irrompia, longe da confusão e do caos,                    
por entre os néons e a névoa da  pax americana.
705
Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA

(Brecht na Califórnia)

Pede-se-nos complacência     
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável    
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.

Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,                                    
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.

Ei-la reduzida a assistir de longe,     
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.                                             

Trocam currículos e carreiras,      
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras     
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia                 
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).

Vieram para morrer entre os Getas,    
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.

Sabemos como a vida imita os filmes.

Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode            
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,   
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
564
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ODE MARCIAL

ODE MARCIAL

Inúmero rio sem água – só gente e coisas,
Pavorosamente sem água!

Soam tambores longínquos no meu ouvido,
E eu não sei se vejo o rio se ouço os tambores,
Como se não pudesse ouvir e ver ao mesmo tempo!

Helahoho! helahoho!

A máquina de costura da pobre viúva morta à baioneta...
Ela cosia à tarde indeterminadamente...
A mesa onde jogavam os velhos,

Tudo misturado, tudo misturado com corpos, com sangues,
Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror.

Helahoho! Helahoho!

Desenterrei o comboio de lata da criança calcado no meio da estrada,
E chorei como todas as mães do mundo sobre o horror da vida.
Os meus pés panteístas tropeçaram na máquina de costura da viúva que mataram à baioneta
E esse pobre instrumento de paz meteu uma lança no meu coração.

Sim, fui eu o culpado de tudo, fui eu o soldado todos eles
Que matou, violou, queimou e quebrou.
Fui eu e a minha vergonha e o meu remorso com uma sombra disforme
Passeiam por todo o mundo como Ashavero,
Mas atrás dos meus passos soam passos do tamanho do infinito.

E um pavor físico de encontrar Deus faz-me fechar os olhos de repente.

Cristo absurdo da expiação de todos os crimes e de todas as violências,
A minha cruz está dentro de mim, hirta, a escaldar, a quebrar,
E tudo dói na minha alma extensa como um Universo.

Arranquei o pobre brinquedo das mãos da criança e bati-lhe.
Os seus olhos assustados do meu filho que talvez terei e que matarão também
Pediram-me sem saber como toda a piedade por todos.

Do quarto da velha arranquei o retrato do filho e rasguei-o,
Ela, cheia de medo, chorou e não fez nada...
Senti de repente que ela era minha mãe e pela espinha abaixo passou-me o sopro de Deus.

Quebrei a máquina de costura da viúva pobre.
Ela chorava a um canto sem pensar na máquina de costura.
Haverá outro mundo onde eu tenha que ter uma filha que enviúve e a quem aconteça isto?

Mandei, capitão, fuzilar os camponeses trémulos,
Deixei violar as filhas de todos os pais atados a árvores,
Agora vi que foi dentro de meu coração que tudo isso se passou,
E tudo escalda e sufoca e eu não me posso mexer sem que tudo seja o mesmo.
Deus tenha piedade de mim que a não tive de ninguém!
2 344
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Novo Gênesis

No primeiro dia
o Demônio criou o universo e tudo o que nele há
e viu que era bom.
No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.
No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.
Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.
1 044
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Pistoia

Como podiam guerrear aqui
entre castelos e vinhedos?
Atirar granadas, estuprar camponesas
como podiam?
Sangue nenhum torna tão fértil a terra
que faça brotar sob essas cruzes
o que morreu, o que morreu
naquela áspera estação.
1 156
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desabar

Desabava
Fugir não adianta     desabava
por toda parte     minas     torres
edif
ícios
princípios
l
e
i
s
muletas
desabando     nem gritar
dava tempo soterrados
novos desabamentos insistiam
sobre peitos em pó
desabadesabadesabadavam
As ruínas formaram
outra cidade em ordem definitiva.
1 672
Angela Santos

Angela Santos

Guerra


nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,

O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar

Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…

E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.

746
Bruno Araújo de Melo

Bruno Araújo de Melo

O Tempo de um Poema

Abro o jornal
E a guerra é a mesma de ontem:
Gente que tem família
Filhos, netos e amor;
Habitantes de uma ilha
Onde todo o medo
Se faz.
Me traz um pouco de café
Que ainda é cedo e tenho um compromisso!
Será que hoje vai chover?
Tomara que aconteça isso.
Estou atrasado...
Por que eles buzinam tanto?
E esse engarrafamento!
Uma batida aconteceu
Lá fora.
Porque a luz veio tão alta?
Vocês pensam que tenho grana?
Depois a gente bate um papo, filha!
Agora o telefone toca...
Esqueço a hora e o relógio.
Esqueço que tudo o que se faz
Termina em nada,
E tiro o paletó,
E folgo a gravata,
E toco os pés no chão.
Não quero me perder
Do que sou,
Do que somos
Puros
Grupos de retirantes.
Numa estrada,
Buscando
O tempo de um poema
Como um vírus de computador.

853
Antônio de Oliveira

Antônio de Oliveira

Soneto

Qual seria maior glória a Trajano,
O vencer, sem triunfar, pois perde a vida,
Ou na estátua triunfar enobrecida
Que póstuma lhe faz o Rei Romano?

Intrincada questão, se não me engano,
Pois gloreia a vitória já adquirida
Tanto, quanto uma estátua alta, e subida
Pode um lustre causar mais soberano.

Mas contudo eu defendo, que a vitória
(Por ser parto feliz da própria espada)
Mais que o triunfo, a Trajano dá mais glória;

Porque a glória da estátua levantada
Dada foi a Trajano: e mais memória
A glória própria tem, que a glória dada.

772
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Encontro com um Poeta

Em certo lugar da Mancha,
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.
A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.
Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.
Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.
A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).
Vi então que a terra batida
do fim da vida do poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas facas de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.
Naquela edição do vento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada,
ganhara gumes de pedra.


Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.155-156. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
2 309
Sérgio Medeiros

Sérgio Medeiros

Tudo para atiçar o riso dos…

Coça-se o passarinho num fio diante do mar
Enquanto avançam recrutas correndo e vociferando
Pela praia iluminada
— o passarinho decerto compara o pelotão que se aproxima com as ondas do mar; e o vê afastar-se
— só diante do mar ele bica com determinação os seus piolhos
768
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

Iniciação à Leitura

meu
primeiro livro
O LIVRO DO BEBÊ
registra em letra de pai
às folhas tantas:
" com pouco menos de seis meses
arrancou a capa da história da raça humana"

a obra, que é de henry thomas
e comigo veio a lume em português
(assim se dizia em 1947)
começa: " foram necessários
quarenta milhões de anos
para que o macaco se transformasse
no homem-macaco"
se soma em soma
cada período aperfeiçoa a arte de matar
da pedrada ao aeroplano

hoje o livro está sem fim
(pouco sobrou do sucessivo manuseio)
nele é guerra mundial em pleno curso
ainda não explodiu a bomba atômica
impossível saber como termina
mas a primeira página também diz:
" o homem é uma criatura estúpida
e seu progresso tem sido muito lento"

graças a deus
o homem
(uma menina)
ainda não podia tudo
só a metáfora de estropiar a raça humana
803
Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

Balada

Era outono quando ele nasceu
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
679
Jean Follain

Jean Follain

Pensamentos de outubro

Como amamos
esse ótimo vinho
que bebemos sozinhos
quando a noite ilumina as colinas com cobre
nenhum caçador mira
as aves de caça na planície
as irmãs de nossos amigos
parecem mais bonitas
há no entanto ameaça de guerra
um inseto pausa
depois segue

:

Pensées d´Octubre
Jean Follain


On aime bien
ce grand vin
que l’on boit solitaire
quand le soir illumine les collines cuivrées
plus un chasseur n’ajuste
les gibiers de la plaine
les soeurs de nos amis
apparaissent les plus belles
il y a pourtant menace de guerre
un insecte s’arrête
puis repart.




718
Dambudzo Marechera

Dambudzo Marechera

Costumava gostar de tomates

Eu me canso do sangue
E da tosse
e mais sangue
Saio bem rápido daquele apê
para algum bar fresco de arruaceiros
e banco o macho com camaradas mais machos
lavando o sangue goela abaixo com Caninha 51
apertando mãos sobre Tsitsi que foi aos ares aos céus
tentando esquecer que não gosto de cozinhar nas panelas
dos mortos
Não gosto de vestir e ficar com cara de idiota metido
em calças e camisas dos mortos
(Eles disseram aí tua mãe e mano passaram aí
disseram que esta é tua herança)
Dali a pouco duro feito pandeiro nem beber consigo
De volta pro apê estirado de costas
engolindo tudo vermelho goela abaixo de volta
Acordei cansado demais pra estourar bolha tão rubra

:

I used to like tomatoes

I get tired of the blood
And the coughing
and more blood
I get out of that flat real fast
to some cool quarrelling bar
and talk big to bigger comrades
washing down the blood with Castle an’ Label
shaking hands about Tsitsi bombed to heaven
trying to forget I don’t like cooking in dead people’s
pots and pans
I don’t like wearing and looking smart-arse in dead
people’s shirts an’ pants
(They said yoh mama an’ bra been for you
said these are your inheritance)
I’m soon tight as a drum can’t drink no more
It’s back at the flat on my back
swallowing it all red back hard down
I woke up too tired to break out so bright red a bubble.

1 076
Dambudzo Marechera

Dambudzo Marechera

Você perguntou o que há de errado com a guerra?

Não há palavras erradas, certo?
Não há árvores erradas, certo?
Não há areia errada, certo?
Eu dormi o mundo de cuecas livres
Sonhei que trepava com todos os menininhos
que são futuros líderes
Fodi todas as menininhas engraçadas feitas
de palha e algodão
Meu rabo anarquista cagou na sociedade
E OLHEM como milhões de moscas
ora voam rumo a seus lábios arreganhados.


* Nota do tradutor: não consegui encontrar referências para a palavra "ghandy". Pensei na possibilidade de ser uma referência ao tecido indiano khadi, e optei pela tradução como "algodão". Sugestões são bem-vindas.

:

Did you ask what´s wrong with war?

There are no wrong words, right?
There are no wrong trees, right?
There is no wrong sand, right?
I’ve slept the world in freely
underwear
Dreamed I buggered all the little boys
who are future leaders
Fucked all the funny little girls made of
thatch and ghandy
My anarchist arse has shat on society
And LOOK millions of open flies
are homing in on your wide-open lips.

677
Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

San Martino del Carso

Valloncello dell'Albero Isolato, 27 de agosto de 1916


Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro

De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto

No coração porém
nenhuma cruz me falta

É o meu coração
a região mais destroçada

(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)


:



Valloncello dell'Albero Isolato il 27 agosto 1916

Di queste case
non è rimasto
che qualche
brandello di muro

Di tanti
che mi corrispondevano
non è rimasto
neppure tanto

Ma nel cuore
nessuna croce manca

È il mio cuore
il paese più straziato



1 612
Angela Santos

Angela Santos

Cântico

Sinto-me,
e sou
em todos os lugares,
todos os tempos
Húmus.. matriz, Isis..

anfíbio largando os mares
animal comendo raízes
mão que se abre para colher frutos
corpo ainda não erecto
que se levanta do chão...

Shiva, Kali, incensos orientais....
arca, diluvio, sargaça ardente
no cume de uma montanha,
eco de uma voz longínqua
mandamentos, mar vermelho
de sangue

Esfinge dos desertos
brisa marinha no rosto.
barco fenício sulcando mares,
pórtico grego, ´"Ágora", coluna romana,
crueldade, circo de Nero.
catacumbas, carne rasgada
cruz exposta, agnus dei

Oração de santo monástico
acesa violência de bárbaros,
"Trevas", medieva luz, busca de eremita.

Navio das descobertas, mares e monstros
dentes podres de escorbuto,
Índias longínquas, astrolábio, estrela polar
marinheiro português

Copérnico, Galileu, metódica dúvida
sem método
ardendo na fogueira dos medos Inquisitoriais
Iluminada revolução, igual, fraterna, liberta,
libertária., sanguinária , Bonnapart
fuga de Bach, Sabat "matter"

Redondela, dança de roda ..campo
seara, camponesa tosca
inocente sagração da vida,

10 de Outubro, sol da terra, Tosltoi, Lenine
amanhãs que não cantaram
ruas de neve vestindo
a morte …. ideologias

Cidade Luz , euforia,
Garçonettes,
Gorges de Sande
Wilde, Monet, Picasso, Gaugin
Comte, Nietsche,
infinito crer, vontade,
Homem, Humanidade
Poder

Cruz gamada, fuzil, horror
Estrela de David, rasgando o peito
Auchewitz...trem humano
rosto da desumanidade.
crematório,
vergonha
culpa
dor

Manhã de Fevereiro,
meu grito recém-nascido.
infância, dor, descoberta
trevas ,luz, alvorecer
caminhada, construção, desconstruçãoeu
a caminho de o ser

1 047
Geir Campos

Geir Campos

Lamento pela Ilha Fernando de Noronha

Amei-te sempre como a um cão de guarda
simplório e manso na calçada azul
de minha pátria pouco afeita à guerra:
se vai passando alguma nau ligeira
ou ligeiro avião, teu leve sono
quase vigília as pálpebras descerra
— tal o cachorro atento, ao pé do dono —
mas reconhece o amigo e a mesma paz
pousa na cruz dos rumos cardinais...

Querem-te entanto por mastim nervoso
com intranquilas orelhas de arame
girando sobre a rosa dos caminhos:
desconfiarás, servindo a gente estranha,
do azul celeste e desse azul mais fundo
que há séculos de séculos te banha.

Já te imagino triste bicho acuado
no mapa e no binóculo, adivinho
tua pétrea epiderme aberta ao berne
da guerra e seus petrechos e pretextos:
se algum dos teus se aproximar à antiga,
já te escuto ladrar "são inimigos"...

Assim te ensinam e hás de aprender bem,
pois esse é um dom que os mercenários têm.


Publicado no livro Operário do canto (1959).

In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 128
Bertran de Born

Bertran de Born

30

1
Eu quero a primavera, o ardor
que folhas traz e faz florir;
e quero escutar o estentor
das aves, quando retinir
seu canto na ramagem;
e quero ver ainda mais
no prado as tendas colossais;
e acho uma bela imagem,
se vejo armados entre iguais
os cavaleiros e os metais.
2
Adoro quando o explorador
atiça o povo p"ra fugir,
e adoro ver em tal clamor
os homens d"arma a perseguir,
e adoro ter miragem
do forte em cercos marciais,
ou das muralhas terminais,
e as hostes noutra margem
que passam a fossa voraz
e uma paliçada por trás.
3
Também adoro se o senhor
for o primeiro a invadir
montado, armado, sem temor,
que assim nos outros faz surgir
valente vassalagem.
Se a batalha se refaz,
prepare-se cada rapaz
para a longa viagem:
ninguém é louvado jamais -
somente entre golpes mortais.
4
Maças, gládios, elmos de cor
e escudos logo a se partir
veremos, e até o sol se por
vassalos iremos ferir,
fugirão sem fardagem,
co"odono morto, os animais.
Ena batalha, o homem vivaz
só pense na carnagem
e em degolar todos os mais,
pois antes morto que incapaz.
5
Ah, para mim não há sabor
em comer, beber, ou dormir,
igual ao de ouvir o clamor
de duas linhas e o zunir
dos corcéis na pilhagem
e homens gritando "Atrás! Atrás!"
e vê-los na fossa voraz,
junto ao rés da relvagem,
e ver as flâmulas fatais
varando o arnês que se desfaz.
6
O Amor quer bom cavalgador
que ame as armas e o servir,
gentil na fala, grão doador,
que saiba o que dizer e agir,
em qualquer estalagem,
pelo poder de que é capaz.
Um companheiro como apraz,
cortês em sua linguagem.
A dama que acaso o compraz
não tem pecados cardeais.
7
Ó grã condessa, és a melhor
(todos estão a repetir),
e tua nobreza é a maior
do mundo, pelo que eu ouvi.
Beatriz de alta linhagem,
senhora no que diz e faz
ó fonte do bem mais primaz,
belíssima ancoragem:
o teu valor é tão veraz,
que sobre todas sobressais.
8
Virgem de alta linhagem
e da beleza mais tenaz,
amado eu amo forte e audaz:
ela me dá coragem -
não temo a perda que me traz
nem mesmo o pulha mais mendaz.
9
Barões, é mais vantagem
hipotecar vossos currais
do que se a guerra renegais.
10
Papiol, eis a viagem,
ao Senhor Sim-e-Não irás
dizer que muito estão em paz
293
Leonel Neves

Leonel Neves

LEMBRANÇA DA SEGUNDA GRANDE GUERRA

Uma manhã chegou a guerra. Do Japão.
Veio e aqui ficou talvez dois ou três anos.
De japoneses havia uma divisão;
julgo que só trezentos, dos australianos.

Como eram poucos, eram bons. Os outros, não:
mataram-me vizinhos, o meu pai, dois manos.
O meu homem fugiu e ajudou no Subão
dois loiros a afogar cem dos mais desumanos.

Naquela noite, entrou-me em casa uma baioneta.
Um soldado amarelo e súbito agarrou-me
- eu estava sozinha - e deitou-me depressa.

Deixei-o possuir-me, silenciosa e quieta;
e, quando adormeceu, sem perguntar-me o nome,
peguei numa catana e cortei-lhe a cabeça.

427
Carlos Nogueira Fino

Carlos Nogueira Fino

um grito de raiva por timor lorosae

depois de tudo isto é obrigatório que existas
deus
para que sejas tu a julgar os assassinos que vão ficar impunes
envelhecendo anonimamente por toda a indonésia
até cairem podres

e os que dão ao diabo o benefício da dúvida
e tempo adicional à morte
para que o silêncio desça imperturbável sobre os mártires
e os rios de sangue se evaporem

porque os mandantes
esses já os consome apesar da tua contumaz ausência
terem compreendido que não são humanos
e lhes queima as entranhas o veneno de não ter futuro

905