Poemas neste tema
Guerra e Paz
Marina Colasanti
CINCO MÁRTIRES E UM CALIFA
Duas cimitarras e cinco
gargantas
cinco cabeças colhidas
no tênue caule dos corpos
cinco frades no Marrocos
e o Miramolim
que olha.
As vestes sobrepostas
se fundem na folhagem
fino fio de sangue borda as papoulas.
Os pés nus nas sandálias
encontram seu caminho.
gargantas
cinco cabeças colhidas
no tênue caule dos corpos
cinco frades no Marrocos
e o Miramolim
que olha.
As vestes sobrepostas
se fundem na folhagem
fino fio de sangue borda as papoulas.
Os pés nus nas sandálias
encontram seu caminho.
1 060
Manuel Sérgio
Com Dedos de Luar
Com dedos de luar duas crianças
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
881
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 117
Marina Colasanti
NAS ASAS DA PANAIR
Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
708
Gerardo Mello Mourão
Quem de vocês matou o uruguaio
"Quem de vocês matou o uruguaio?"
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.
O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".
"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.
As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.
"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."
E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.
os soldados não sabiam
"Quero saber imediatamente quem matou o uruguaio" —
— "Saberá Vossa Senhoria que fui eu, Benedito Antônio da Silva, natural do Crato,
número 39 da 2.a Companhia do 12, praça de 1851, ferido na batalha de Caseros".
"E por que matou?"
— "Vossa Mercê, que é da raça dos Mourões, não há de ignorar que eu também
sou morador daqueles pés-de-serra e por isto matei o gringo; pois saiba
Vossa Mercê que estou sem matar desde a guerra do Rosas e o Senhor seu pai me
encomendou três dúzias. Tá completo".
Sob a pala da barretina agaloada
o General de rosto sereno e triste
sorriu sobre o pátio do quartel de Bastarrica
e mandou os soldados passearem tocando
charanga pelas ruas de Montevidéu.
O Marquês de Herval era galante:
Ordem do Dia sobre a batalha de Tuiuti:
— é de louvar o bizarro comportamento do General Sampaio, da raça dos Mourões —
o primeiro cavalo fora derrubado à bala, o segundo também e o terceiro e o quarto
varados à baioneta
combatia a pé
"Guarde seu cavalo, alferes, eu sou da Infantaria"
"Corra à barraca de Osório e diga que estou perdendo muito sangue, é conveniente
substituir-me, fui ferido duas vezes"
continência do Alferes, mão de súbito no peito:
"e esta é a terceira".
"Maté el general brasilero!"
ainda não — e o paraguaio engoliu com chumbo a última sílaba
na mão o sangue da última tapa de carícia sobre a cabeça de seu alazão
espedaçada à bala
quando outra bala decepa a folha da espada
"soldado, passe-me sua espada"
um olhar para o alferes fanfarrão:
tomara a bandeira do porta-estandarte e no meio do mar de sangue e fumaça gritava
"viva o General Sampaio!"
e nos braços dos guerreiros que rangiam os dentes e choravam
e banhado no sangue dos cavalos fortes como o seu
e banhado em seu sangue o sangue
da raça dos Mourões:
"não corte minha perna, doutor,
um general morto é bizarro ainda
um general coxo é feio".
E belo e triste em seu caixão de zinco
os guerreiros da Argentina e do Uruguai lhe hastearam em funeral as bandeiras do Prata
e sobre o chão do país de Godo, Raul e Efran
vou lavrando a escritura deste canto
e ali também é o país dos Mourões e nosso primo Martin Fierro e Osório,
Marquês de Herval, são testemunhas
Antônio de Sampaio, filho do ferreiro de Monte-Mor-o-Velho,
da estirpe de Francisco e Manuel,
da raça dos Mourões
era um general bizarro.
As exéquias na Corte custaram um conto e quatrocentos
o Maestro Arcângelo Fiorito regeu de graça o coro e a orquestra com
primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, fagotes e oboés e trompas e pistons
e Sua Majestade o Imperador que lhe trouxera o corpo de Buenos Aires
ao meio-dia em ponto na Ilha do Bom Jesus entre os inválidos da Pátria
curva a cabeça em reverência
ao filho dos Mourões:
— "Só no Maranhão foram quarenta e seis combates por Vossa Majestade"
sua Divisão se chamava Encouraçada
bateu o paraguaio a ferro-frio nas sangas dos banhados
encouraçada à dureza de seu olhar a soldadesca
não conhecia o medo
aquele olhar endurecido
ao ódio dos Mourões — seu amor e seu ódio —
e ao seu vigor ergueram-se e deitaram-se
para a vida e para a morte
as coisas e os logares e as pessoas.
"Alferes, a morte é bizarra
guarde este botão de minha farda de lembrança
e cante na hora aquela moda que eu cantei no Tamboril à janela de Maria Veras.
Aquela moda..."
E ao meu canto e à moda antiga
que cantavam os machos à janela das fêmeas
no país dos Mourões
vou lavrando a escritura destas terras que são minhas
até além do Prata e além dos Andes
das Ibiturunas azuis
e um dia
no cartório de Ipueiras, Penedo ou Arapiraca
te farei a doação dessas léguas de sesmaria
do Passo de Camaragibe a Villaguay,
de Crateús, Ipu e São Gonçalo dos Mourões
até Buenos Aires e Santiago do Chile e Guayaquil e Bogotá
nos termos da doação de minha avó Dona Ana Feitosa a Santo Anastácio e
Dona Úrsula Mourão a São Gonçalo
e, te farei sobre essas braças de chão
um templo e uma cama de cedro sob o céu de Deus
à sombra dos plátanos e das carnaubeiras para onde
deitada no meu lombo vens chegando.
970
Marina Colasanti
ATRÁS DO TRONCO
Toda vez que o nome do meu pai
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
1 136
Bernardo Guimarães
A Campanha do Paraguai
HERÓIDES BRASILEIRAS
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
1 534
Fernando Pessoa
Quando os povos da Dalmácia
Quando os povos da Dalmácia
Fizeram guerra aos da Grécia
Saiu muita gente sécia
Da casa do rei da Trácia.
Houve disto grande falácia,
Lá para as bandas da Fenícia,
Porém temendo malícia,
De gente tão pouco sócia,
Lá se foram para a Beócia
Para se curar da icterícia.
Fizeram guerra aos da Grécia
Saiu muita gente sécia
Da casa do rei da Trácia.
Houve disto grande falácia,
Lá para as bandas da Fenícia,
Porém temendo malícia,
De gente tão pouco sócia,
Lá se foram para a Beócia
Para se curar da icterícia.
837
al-Khansa
31.
Filhos de Sulaym! Quando deparardes os homens de Faqas
num lugar estreito e de difícil acesso
Cumprimentai-os com vossos sabres, vossas lanças e uma
saraivada de golpes, na noite negra de alcatrão.
Fazei deles hordas debandadas, à memória de Sakhr, cuja
morte ainda não foi vingada,
E à de nossos cavaleiros, mortos lá embaixo, numa batalha
decidida apenas pelo destino.
Ele enfrentou Rabia no combate, e este lhe mergulhou no
peito
Uma lança reta, de nós flexíveis, de ferro aguçado como a
cabeça de um abutre.
E Rabia, neste mesmo instante, salvou-se, não interrom-
pendo a corrida desvairada.
Um cavalo esbelto e delgado levou-o para longe das lanças
de ferro cortante, como uma águia que abando-
na o ninho
De Khalid nos apoderamos, mas Awf o protegeu e libertou,
por sua própria conta.
Se em relação a Khalid houvessem seguido nosso conselho,
não continuaria ele a infligir tão duro tratamento
aos cavalos, até o fim dos tempos.
310
Crisódio T. Araújo
Reflexos de Timor
Reflexos de Timor
Reflexos da terra há muito deixada
Por tantos e tantos chorada...
Reflexos de um mar sedento de Paz
Corado do sangue de todo o que jaz...
Reflexos de um grito do Monte
Cansado de tanto sofrer...
Reflexos, Reflexos de Timor...
Reflexos de quem clama a Justiça
De um Mundo sem Lei nem Amor!
Reflexos de um Povo que grita
Liberdade, Liberdade, Viva Timor!
Reflexos da terra há muito deixada
Por tantos e tantos chorada...
Reflexos de um mar sedento de Paz
Corado do sangue de todo o que jaz...
Reflexos de um grito do Monte
Cansado de tanto sofrer...
Reflexos, Reflexos de Timor...
Reflexos de quem clama a Justiça
De um Mundo sem Lei nem Amor!
Reflexos de um Povo que grita
Liberdade, Liberdade, Viva Timor!
1 403
Manuel Bandeira
À Sua Santidade Paulo Vi
Quando em torno de nós raiva o funesto
Desvairo, e na infernal perplexidade
Erramos o caminho da verdade
Nos Santos Evangelhos manifesto,
Baixem as luzes do divino Texto
Pela boca de Vossa Santidade
Para reconduzir a cristandade
Ao aprisco do Pai, ó Paulo VI!
Nest'hora em que de cada continente
Vêm mil gemidos e incessantemente
Em sangue humano o duro chão se empapa,
Falai, falai, que ouvir a vossa isenta
Palavra é ouvir em meio da tormenta
A voz de Deus na voz de um grande Papa.
Desvairo, e na infernal perplexidade
Erramos o caminho da verdade
Nos Santos Evangelhos manifesto,
Baixem as luzes do divino Texto
Pela boca de Vossa Santidade
Para reconduzir a cristandade
Ao aprisco do Pai, ó Paulo VI!
Nest'hora em que de cada continente
Vêm mil gemidos e incessantemente
Em sangue humano o duro chão se empapa,
Falai, falai, que ouvir a vossa isenta
Palavra é ouvir em meio da tormenta
A voz de Deus na voz de um grande Papa.
878
Kenneth Rexroth
Num Cemitério Militar
Estranho, quando vier a Washington
Diga a eles que aqui deitados
Aguardamos suas ordens.
c/ Simônides
ON A MILITARY GRAVEYARD
Stranger, when you come to Washington
Tell them that we lie here
Obedient to their orders.
after Simonides
635
Salette Tavares
Enigma Lua
Esqueceste
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
o touroe o grito
a parede brancae fria
a cabeça decepadaenfunada
vento sangueferido.
Esqueceste
a lâmpada no tetoamarelo
rio de sombracorrido
cavalo eriçadona tábua
no quarto.
Esqueceste
a cova ondeSangue e olhos
enterraste
Esqueceste e alienado nos salões
ficastecheirando orquídeasinodoras
sapatinhos de papaocos
réplicas estéticasà metralha
dos aviões.
Cansado? Inútil? Delinqüente? Vazio?
Quem te poderá julgar?
Eu só sei rasgar enigma
contra razões da terra
olhos que espanto me crava
na lua da tarde que erra.
Presença de transparência
na força que assim me arde
na lua de noite branca
me banho fantasma árvore.
Sombra na sombra lua
enigma junto à janela.
Esqueceste
mas não comigo
esqueceste a lâmpada amarelado abrigo
e as quatro paredesfrias.
Esqueceste
mas não comigo,
1 531
Manuel Bandeira
O Major
O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
1 620
Manoel Messias Santiago
Eu Te Amo e Era Uma Vez um Beijing
Vivo contigo e tento te aprender,
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
356
Zbigniew Herbert
O Sr. Cogito lê o jornal
A primeira página diz
120 soldados mortos
a guerra foi longa
você se acostuma
bem ao lado a notícia
de um crime incrível
e a foto do assassino
o olhar do Sr Cogito
se move indiferente
pela hecatombe de soldados
e mergulha com deleite
no macabro quotidiano
camponês de trinta anos
então maníaco depressivo
matou a própria esposa
e mais duas criancinhas
contam o modo exato
com que foram mortos
a posição dos corpos
e outros detalhes
é inútil tentar achar
120 perdidos num mapa
a distância tão remota
esconde como floresta
não falam à imaginação
há demasiados deles
o zero no fim os transforma
em mera abstração
um tema para refletir:
a aritmética da compaixão.
(tradução de Dirceu Villa)
.
.
.
120 soldados mortos
a guerra foi longa
você se acostuma
bem ao lado a notícia
de um crime incrível
e a foto do assassino
o olhar do Sr Cogito
se move indiferente
pela hecatombe de soldados
e mergulha com deleite
no macabro quotidiano
camponês de trinta anos
então maníaco depressivo
matou a própria esposa
e mais duas criancinhas
contam o modo exato
com que foram mortos
a posição dos corpos
e outros detalhes
é inútil tentar achar
120 perdidos num mapa
a distância tão remota
esconde como floresta
não falam à imaginação
há demasiados deles
o zero no fim os transforma
em mera abstração
um tema para refletir:
a aritmética da compaixão.
(tradução de Dirceu Villa)
.
.
.
920
Zbigniew Herbert
Crônica de uma cidade sitiada
Demasiado velho para pegar em armas e combater como os demais
foi-me generosamente atribuído o cargo inferior de cronista
e registro – sem saber para quem – a história do cerco
tenho de ser rigoroso mas não sei quando teve início a invasão
há duzentos anos em Dezembro Setembro ontem de manhã
aqui todos perdemos a noção do tempo
só nos deixaram este lugar a ligação a este lugar
governamos sobre ruínas de templos de fantasmas de casas e jardins
se perdêssemos as nossas ruínas ficaríamos sem nada
escrevo como posso ao ritmo de semanas sem fim
Segunda-feira: as lojas estão vazias o rato converteu-se em unidade monetária
Terça-feira: o presidente da câmara foi assassinado por desconhecidos
Quarta-feira: rumores de armistício o inimigo pôs a ferros os nossos enviados
não sabemos onde eles os têm presos isto é onde os mataram
Quinta-feira: após uma assembleia tempestuosa a maioria votou contra
a proposta de rendição incondicional apresentada pelos mercadores
Sexta-feira: a investida da peste Sábado: suicidou-se N. N.
o valoroso guerreiro Domingo: não há água repelimos
o ataque até à porta oriental chamada a Porta da Aliança
eu sei que é monótono tudo isto não vai comover ninguém
evito comentários mantenho sob controle as emoções descrevo fatos
parece que só os fatos têm valor nos mercados estrangeiros
com uma espécie de orgulho quero dizer ao mundo
que graças à guerra criamos uma nova raça de crianças
as nossas crianças não gostam de contos de fadas brincam aos tiros
dia e noite sonham com sopa pão ossos
tal como os cães e os gatos
gosto ao entardecer de passear nos limites da cidade
ao longo das fronteiras da nossa incerta liberdade
olho de cima a multidão de soldados com as suas luzes
ouço o rufar dos tambores e os gritos dos bárbaros
é incrível que a cidade continue a resistir
o cerco dura há muito os inimigos atacam-nos à vez
nada os une a não ser a vontade de nos destruírem
os Godos os Tártaros os Suecos as tropas do Imperador regimentos
da Transfiguração do Senhor
quem os pode enumerar
as cores dos estandartes mudam como as duma floresta ao longe
de um delicado amarelo de ave na primavera até ao preto invernal
passando pelo verde
e assim à noitinha libertado dos fatos posso meditar
em longínquos assuntos passados por exemplo nos nossos
aliados de além-mar cuja compaixão é sincera eu sei
enviam-nos sacos de farinha conforto toucinho e bons conselhos
sem sequer se aperceberem que foram os seus pais quem nos traiu
os nossos antigos aliados do tempo do segundo Apocalipse
mas os filhos não têm culpa merecem a nossa gratidão e por isso agradecemos
eles nunca passaram pela eternidade de um cerco
as pessoas marcadas pelo infortúnio estão sempre sozinhas
defensores do Dalai Lama dos Curdos e dos afegãos
no momento em que escrevo estas palavras os partidários do compromisso
ganham uma ligeira vantagem sobre a facção dos destemidos
habituais são as oscilações de ânimo o nosso destino está ainda a ser pesado
os cemitérios tornam-se maiores diminui o número dos defensores
mas a defesa continua e continuará até ao final
e se a Cidade cair e apenas um de nós sobreviver
esse levará dentro de si a Cidade pela estrada do exílio
será ele a Cidade
olhamos para o rosto da fome o rosto do fogo o rosto da morte
e o pior de todos – o rosto da traição
e só os nossos sonhos nunca foram humilhados
(Versão, do inglês, de José Miguel Silva).
1 428
Alexei Bueno
Ode IX
Só superando encontramos alguma alegria,
Escravos dialéticos de um delírio de opostos,
Só esmagando, só conquistando, nunca por nós mesmos repletos,
Só penetrando nos muros. E quantas cidades tomadas,
Mesmo portão gargalhando e estirando uma língua de fogo,
Gritam vermelhas e ardem nas nossa íris exaustas.
Só pisando subimos,
Só derrotando vencemos,
Só conformando o outro a nós o amor nos alcança,
E tudo isso com sermos, seguramente sermos o outro
Até que nada nos reste de escapatória ou abrigo.
Não somos, não seremos nunca
Como Dionisos, ébrio conquistando a Índia
Entre tambores e tirsos, aclamado das ninfas, dos sátiros,
Um ramo de vinha é o seu chicote, um nariz vermelho a sua espada,
E os conquistados o aplaudem e beijam e vêm engrossar o triunfo
Que Pã conduz na vanguarda, tocando na flauta.
...Mas onde estará ele agora, em que escarpa, em que umbrosa
Solidão de enluarados galhos, rirá ainda o pai da alegria?
Nenhum devoto liba em suas aras, os ecos somente
Veneram-no ainda. De que rirá, que verá que nós nunca veremos,
O desterrado senhor de um plácido pacto entre os homens,
Enquanto nós por aqui, às seis horas da tarde,
Em meio às latas de lixo, descemos em bando às entranhas da terra?
Fulminante é qualquer nossa glória, pisando os caídos,
Que outra alegria além desta e da arte, da prece e do amor nos foi dada?
( — Ouçam, nenhum navio aparecerá.
Que ficará de nós? E no entanto matamos,
Sem pena, sem pranto, por sermos por último a festa dos peixes.)
Pois vejam como ele caminha,
Vejam como ele avança,
O filho de Filipe, o descendente de Hércules, deiforme e invicto,
Vejam como ele marcha
Sobre Darios vencidos e humilhadíssimas púrpuras,
E abraça as muralhas, e salta os desertos, e aplaina as montanhas,
Novo Aquiles sem flecha de Páris que o acerte, humanismo deus
Musculoso e potente em beleza triunfante.
Se nos fosse dado ser isso,
Um Alexandre cada um, varrendo a Terra,
Plena nos seria a vida. Mas a bonança é a nossa inimiga,
A calmaria, não a tempestade, é que nos espera ao varar o oceano,
Nos desfiladeiros minúsculos, com o único perigo do nada,
é que nós marcharemos,
Ainda que borbulhe em nós o canto do deus, e Amor Vencedor,
Durante ou após nosso olhar, pisoteie a disputa dos vermes.
( — E mesmo que venha o navio
Que seremos além de uma sombra na história dos astros?)
E ele continua
Até a Bactriana, a Índia novamente
Sem tirsos, sem vinha, dançando despido, tomado
Da ígnea plenitude de um deus,
Como nós nunca fomos, até que um mosquito,
Invulnerável, divino, o aferroe e destrua
na corrupta cidade de inúmeras portas.
(O esquecimento é a nossa lepra, e assim, no dia final
Um dos quinze falou, um navio passara sem vê-los:
— Gravemos numa tábua nossos nomes, tudo o que sofremos,
E a preguemos no mastro. Assim talvez os homens conheçam
O que nós passamos, nós, os da Medusa. —
Todos os conheceram. Mas um pintor tosquiado,
Unicamente, o soube.)
Não, não é esta a vitória,
Antes com Roxane na beira do rio
Qual Dionisos sábio consolando Ariadne
Na vermelha Naxos.
Não é essa a vitória. Não escutes, bêbado
Com a miragem cósmica, o conselho de Krishna
Ao indeciso Arjuna,
Pois se tudo é guerra,
E o tempo a guerra é infindável, sejamos o vento
Que sussurra entre as armas, sejamos a terra
Que os sequiosos exércitos sonham e que é de ninguém,
E o silêncio imóvel
Entre dois estampidos, que a ambos devora!
Sejamos
No fragor de estandartes, a ave que os roça,
Na orgia do fogo,
A chuva infantil que inesperada desce,
No borbulhar das almas o sono viscoso
Dos caracóis no lodo,
No estampado em pânico das pegadas fugindo
Do chão que as convida
A relva que o cobre.
Pois nosso é o poder e a glória, e do que lacerarmos
No nosso corpo, o que existe, cairá nosso sangue na terra.
Escravos dialéticos de um delírio de opostos,
Só esmagando, só conquistando, nunca por nós mesmos repletos,
Só penetrando nos muros. E quantas cidades tomadas,
Mesmo portão gargalhando e estirando uma língua de fogo,
Gritam vermelhas e ardem nas nossa íris exaustas.
Só pisando subimos,
Só derrotando vencemos,
Só conformando o outro a nós o amor nos alcança,
E tudo isso com sermos, seguramente sermos o outro
Até que nada nos reste de escapatória ou abrigo.
Não somos, não seremos nunca
Como Dionisos, ébrio conquistando a Índia
Entre tambores e tirsos, aclamado das ninfas, dos sátiros,
Um ramo de vinha é o seu chicote, um nariz vermelho a sua espada,
E os conquistados o aplaudem e beijam e vêm engrossar o triunfo
Que Pã conduz na vanguarda, tocando na flauta.
...Mas onde estará ele agora, em que escarpa, em que umbrosa
Solidão de enluarados galhos, rirá ainda o pai da alegria?
Nenhum devoto liba em suas aras, os ecos somente
Veneram-no ainda. De que rirá, que verá que nós nunca veremos,
O desterrado senhor de um plácido pacto entre os homens,
Enquanto nós por aqui, às seis horas da tarde,
Em meio às latas de lixo, descemos em bando às entranhas da terra?
Fulminante é qualquer nossa glória, pisando os caídos,
Que outra alegria além desta e da arte, da prece e do amor nos foi dada?
( — Ouçam, nenhum navio aparecerá.
Que ficará de nós? E no entanto matamos,
Sem pena, sem pranto, por sermos por último a festa dos peixes.)
Pois vejam como ele caminha,
Vejam como ele avança,
O filho de Filipe, o descendente de Hércules, deiforme e invicto,
Vejam como ele marcha
Sobre Darios vencidos e humilhadíssimas púrpuras,
E abraça as muralhas, e salta os desertos, e aplaina as montanhas,
Novo Aquiles sem flecha de Páris que o acerte, humanismo deus
Musculoso e potente em beleza triunfante.
Se nos fosse dado ser isso,
Um Alexandre cada um, varrendo a Terra,
Plena nos seria a vida. Mas a bonança é a nossa inimiga,
A calmaria, não a tempestade, é que nos espera ao varar o oceano,
Nos desfiladeiros minúsculos, com o único perigo do nada,
é que nós marcharemos,
Ainda que borbulhe em nós o canto do deus, e Amor Vencedor,
Durante ou após nosso olhar, pisoteie a disputa dos vermes.
( — E mesmo que venha o navio
Que seremos além de uma sombra na história dos astros?)
E ele continua
Até a Bactriana, a Índia novamente
Sem tirsos, sem vinha, dançando despido, tomado
Da ígnea plenitude de um deus,
Como nós nunca fomos, até que um mosquito,
Invulnerável, divino, o aferroe e destrua
na corrupta cidade de inúmeras portas.
(O esquecimento é a nossa lepra, e assim, no dia final
Um dos quinze falou, um navio passara sem vê-los:
— Gravemos numa tábua nossos nomes, tudo o que sofremos,
E a preguemos no mastro. Assim talvez os homens conheçam
O que nós passamos, nós, os da Medusa. —
Todos os conheceram. Mas um pintor tosquiado,
Unicamente, o soube.)
Não, não é esta a vitória,
Antes com Roxane na beira do rio
Qual Dionisos sábio consolando Ariadne
Na vermelha Naxos.
Não é essa a vitória. Não escutes, bêbado
Com a miragem cósmica, o conselho de Krishna
Ao indeciso Arjuna,
Pois se tudo é guerra,
E o tempo a guerra é infindável, sejamos o vento
Que sussurra entre as armas, sejamos a terra
Que os sequiosos exércitos sonham e que é de ninguém,
E o silêncio imóvel
Entre dois estampidos, que a ambos devora!
Sejamos
No fragor de estandartes, a ave que os roça,
Na orgia do fogo,
A chuva infantil que inesperada desce,
No borbulhar das almas o sono viscoso
Dos caracóis no lodo,
No estampado em pânico das pegadas fugindo
Do chão que as convida
A relva que o cobre.
Pois nosso é o poder e a glória, e do que lacerarmos
No nosso corpo, o que existe, cairá nosso sangue na terra.
1 275
Casimiro de Brito
46
A guerra dos homens não inibiu
As cores do arco-íris: O mundo está pois
No seu caminho, no campo raso onde respiram
Os insetos silenciosos da morte. Os homens
Deslizam insaciáveis com o desejo
Virado para o céu. O corpo está pois
No bom caminho: A boca na terra
De quem vive apenas
Este momento.
As cores do arco-íris: O mundo está pois
No seu caminho, no campo raso onde respiram
Os insetos silenciosos da morte. Os homens
Deslizam insaciáveis com o desejo
Virado para o céu. O corpo está pois
No bom caminho: A boca na terra
De quem vive apenas
Este momento.
1 692
João Mello
Esta é a Cidade
Esta é a cidade. Quem caminha
sorvendo seus odores coloridos?
Caleidóscopicos sons
inebriam os músculos
como doces agulhas
Quem sente o calor do chão
luz de vidro e água
intensa e rumorosa como
um afago?
As crianças percorrema cidade
atrás do tiroteiro
como aves barulhentas. A rota
desta guerra
elas sempre a conheceram
Há uma farra em cada esquina
onde tambores renovados
fazem explodir toda alegria antiga
A liberdade é uma visível linha
de fogo nos olhos dos homens.
sorvendo seus odores coloridos?
Caleidóscopicos sons
inebriam os músculos
como doces agulhas
Quem sente o calor do chão
luz de vidro e água
intensa e rumorosa como
um afago?
As crianças percorrema cidade
atrás do tiroteiro
como aves barulhentas. A rota
desta guerra
elas sempre a conheceram
Há uma farra em cada esquina
onde tambores renovados
fazem explodir toda alegria antiga
A liberdade é uma visível linha
de fogo nos olhos dos homens.
1 172
Alexandre Guarnieri
Mágoa no sal
enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
629
Rui Knopfli
Certidão de óbito
Um tempo de lanças nuas
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.
Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.
espera por nós, riso
cruel de maxilas em riste.
Entanto a vida desabrocha
tenra e tépida,
fruto e flor na ânsia secular
de quem tanto esperou em vão.
Para nós, todavia,
o tempo é de lanças impiedosas,
de lâminas em cuja brancura
se adivinha já um indício
do nosso sangue. Deste tempo
sobrou-nos a acerado das lanças:
este o quinhão ácido que nos coube
e que mastigamos resignadamente.
Entanto, num levedar de ternura,
frágil e muito bela, a vida desponta
na negra polpa de outros dedos.
Para nós, o prémio do aço,
a estrela da pólvora, a comenda do fogo.
Para nós a consolação do sorriso triste
e da amargura sabida. Falamo-nos
e nas palavras mais comuns
há rituais de depedida. Falamos
e as palavras que dizemos
dizem adeus.
1 969
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
902
Cláudio Aguiar
Balada dos Últimos Arcanjos
Arcanjos vão às águas do Jordão
buscar pedras perdidas no seu leito,
enquanto o cão ao olho leva a mão
e seus filhotes cantam: "Oh, bem feito".
Se as águas brilham fortes no verão,
imagens nelas surgem flutuando
nos espelhos das ondas, deslizando,
até que a noite venha a luz cegar.
Só, acordada, a mente vai pensando
no sonho que mais tarde irá sonhar.
Papiro, pergaminho, papelão,
eis o que fica no lodo da terra,
trazido ao dia qual aluvião
se cava a mão e logo os desenterra.
Iluminado arcanjo que se encerra
no leve curso d’água fugidia,
salta desnudo pela margem fria,
alma ou fantasma, dádiva do mundo,
desfigurada e rápida alquimia,
dos que não chegam mais além do fundo.
Desembestado o húmus temporão,
incontinenti, avança e não emperra
diante dos olhares dos que vão
cedo ao combate da planície à serra,
a paz ferindo, loas dando à guerra.
Não pára o tempo e a pedra o pó gerando,
o micro gene ao vento joga e ferra
a semente na sombra, a germinar
nas horas quentes, vidas transformando,
milhões de vozes na torre a falar.
As correntes do rio, qual trovão,
nas cachoeiras vão trombeteando,
milhões de ícones a verberar
o som das eras, voz anunciando,
final estrondo, que o bit vai dar.
buscar pedras perdidas no seu leito,
enquanto o cão ao olho leva a mão
e seus filhotes cantam: "Oh, bem feito".
Se as águas brilham fortes no verão,
imagens nelas surgem flutuando
nos espelhos das ondas, deslizando,
até que a noite venha a luz cegar.
Só, acordada, a mente vai pensando
no sonho que mais tarde irá sonhar.
Papiro, pergaminho, papelão,
eis o que fica no lodo da terra,
trazido ao dia qual aluvião
se cava a mão e logo os desenterra.
Iluminado arcanjo que se encerra
no leve curso d’água fugidia,
salta desnudo pela margem fria,
alma ou fantasma, dádiva do mundo,
desfigurada e rápida alquimia,
dos que não chegam mais além do fundo.
Desembestado o húmus temporão,
incontinenti, avança e não emperra
diante dos olhares dos que vão
cedo ao combate da planície à serra,
a paz ferindo, loas dando à guerra.
Não pára o tempo e a pedra o pó gerando,
o micro gene ao vento joga e ferra
a semente na sombra, a germinar
nas horas quentes, vidas transformando,
milhões de vozes na torre a falar.
As correntes do rio, qual trovão,
nas cachoeiras vão trombeteando,
milhões de ícones a verberar
o som das eras, voz anunciando,
final estrondo, que o bit vai dar.
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