Poemas neste tema

Gratidão

Neide Archanjo

Neide Archanjo

Não estamos perdidos

Não estamos perdidos.
Isto é um milagre. Ter um corpo
uma casa um amigo
manter nas veias o sangue aceso
é um milagre. Saber que houve alguém
que nos acariciou
e nos banhou de lágrimas.


no meio da rua
penso nestas dádivas
antes que a lâmina da morte me atravesse.


Poema integrante da série I - Da Morte.

In: ARCHANJO, Neide. Tudo é sempre agora. Posfácio de Júlio Diniz. São Paulo: Maltese, 1994
1 140
Adélia Prado

Adélia Prado

Contramor

O amor tomava a carne das horas
e sentava-se entre nós.
Era ele mesmo a cadeira, o ar, o tom da voz:
Você gosta mesmo de mim?
Entre pergunta e resposta, vi o dedo,
o meu, este que, dentro de minha mãe,
a expensas dela formou-se
e sem ter aonde ir fica comigo,
serviçal e carente.
Onde estás agora?
Sou-lhe tão grata, mãe,
sinto tanta saudade da senhora...
Fiz-lhe uma pergunta simples, disse o noivo.
Por que esse choro agora?
1 167
Adélia Prado

Adélia Prado

O Tesouro Escondido

Tanto mais perto quanto mais remoto,
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.
1 559
Adélia Prado

Adélia Prado

Mulher Ao Cair da Tarde

Ó Deus,
não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso,
eterno.
1 555
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Presente Vivo

Viver
é conjugação diária
do presente.
Viver
é presentear.
Mais que um jeito de doer
é um modo de doar.
E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.
Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.
926
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Gratidão

Gratidão
é dádiva de Deus,
Em tudo dai graças, Paulo dizia,
Pela salvação que vem dos céus,
Graças a Ele ainda que tardia.

O agradecer não humilha, edifica
Nossas vidas que o mal persegue
E nos cerca de tudo que não vivifica,
Enobrece o homem que a Deus segue.

Graças pela doença, graças pela saúde.
Por fracassos para que Deus nos ajude
Até a vitoria final e júbilo que abraças.

Sejamos humildes, sejamos gratos
Pelas bênçãos, e também pelos ingratos,
Por insignificâncias, ... Em tudo dai graças.
1 794
Emídia Felipe

Emídia Felipe

Os Muros

Deitado
no telhado vejo as estrelas
que as luzes da cidade escondem;
Com os pés no chão vou voando
Viajando só com o pensamento
Esbarrando nos montes de cimento;
A alma já acostumada com o breu;
O corpo já sabe de todas as dores;
A cabeça já cheia de tanta fumaça;
Os olhos já vacinados contra os horrores;
As mãos já grudadas na vidraça;
Olhe pra cima e agradeça;
È difícil buscar o que é bom;
Já basta de tanta maldade;
Pule os muros da cidade;
Vá buscar o que é bom;
Vá atrás do seu pássaro;
Vai menino do mundo;
Vai atrás do que é raro;
Vá buscar o que é bom.

1 049
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Visita

Seja bem-vinda
a minha casa,
Pois de há muito que esperada,

Tão culta amiga!

Mais não demores,
Não fique na porta aí parada.

Adentra!

Anseio pelo vosso abraço,
Mais que ele não lhe seja estranho.

Desculpa-me!

Se não vier com o aperto esperado,
É que me vejo vexado,

Encabulado!

De um certo cheiro que vai nele impregnado,
Do suor do labor de meu trabalho.

Assenta-te!

Não nessa cadeira,
Ela traz uma das pernas amputadas.

Nesta outra.

Que foi especialmente para esta visita reservada,
Fazendo do simples de minha pobre casa,

A minha melhor prata.

Aceita um café, uma água?
É tudo que se tem em toda casa,

E que agrada.

Reparaste na minha modesta morada?
Ela não tem todas as paredes rebocadas.

E como a minha alma.

Mais nela mora dignidade,
Tristeza, saudade e também felicidade.

Trouxeste algo?

Não precisava! Já tenho tudo que me faltava,
Nesta visita a minha casa.
1 060
Adélia Prado

Adélia Prado

Jó Consolado

Desperta, corpo cansado;
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.
1 223
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Campo de Flores

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
1 764
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Os Regressos

No sul da Itália, na ilha,
recém-chegado
da Hungria deslumbrante, da abrupta
Mongólia,
o sol sobre o inverno,
o sol sobre o mar do inverno.
Outra vez,
outra vez comecemos,
amor, de novo façamos
um círculo na estrela.
Seja a luz,
seja a transparência.
Façamos
um círculo no pão.
Seja entre todos os homens
a partilha de todos os bens.
Faça-se a justiça,
faremos.

Vida,
me deste
tudo.
Afastaste de mim a solidão,
a solitária lâmpada
e o muro.
Deste-me
amor a mãos-cheias,
batalhas,
alegrias,
tudo.
E a ela me entregaste
apesar de mim.
Fechei os olhos.
Eu não queria vê-la.
Vieste
apesar disso, completa,
completa com todos os dons
e com a ferida que eu mesmo pus
dentro de ti com uma flor sangrenta
que me fez cambalear sem derrubar-me.
1 143
João Filho

João Filho

Quase Gregas - Terceira

A mesa posta, cadeiras,
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
652
Fernando José dos Santos Oliveira

Fernando José dos Santos Oliveira

A Meu Pai

A Meu Pai

O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.

Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?

Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!

Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!

Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.

Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.

Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.

1 098
Tânia Regina

Tânia Regina

Dias das Mães

Vivo pensando em todos os instantes
Nas coisas que você merece
Em troca de tanto amor
Que sempre me oferece

Procuro e não encontro nada
Que eu posso lhe ofertar
Talvez as flores no campo
Ou as estrelas do mar?!?!

Mesmo assim, eu não encontro
Um presente no mundo
Que retribua tanto carinho
Que só você sabe dar....

Mãe
Então resolvi lhe dar
Neste dia tão lindo
Uma porção de beijinhos
Só para ver o seu sorriso
brilhar para todos
neste dia tão bonito....

898
Luiz Carlos Freitas

Luiz Carlos Freitas

Linda Mãe

Se entendesse tudo, e porque existe,
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Alegre como a alma de alguém que insiste,
Em viver, setenta anos, para eu crer,
Consciente de que nem sempre te mereci,
Ter MÃE, é minha LINDA ainda viver !

A cansei, quando ainda pequenino,
Tive sorte ! Não tivestes só as meninas.
Teu sorriso, quando veio um , masculino,
Dependi tanto dessa, LINDA , heroína ,
Que ao impor seu instinto feminino,
Sem preferir, me fez, seu primeiro menino.

Se entendesse tudo, e porque existe,
Mesmo pequeno, não a faria, tanto sofrer,
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Escolhido tendo de ti o que persiste,
Heroína prá setenta anos servir,
Sem nunca, um dos filhos preferir,
Te agradeço, LINDA, por nascer !

Luiz Carlos Freitas , 26 / 10 / 96

1 006
Luiz Pimenta

Luiz Pimenta

Mensagem à Amada e Aos Amigos

Mensagem à Amada e Aos Amigos

Um dia, andando pela vida, colhi e guardei três rosas. Sempre que as revia, tentava me decidir para quem poderia oferecê-las.
Algum tempo depois a própria vida me esclarecia e me ensinava:
- A razão pela qual você está em mim é a sua própria descoberta e aperfeiçoamento. Sozinho, você nunca conseguirá realizar esta tarefa. Vão aparecer pessoas em seu caminho que possuem a MÁGICA do encontro. São elas que vão levá-lo a você mesmo. É difícil reconhecê-las porque junto com elas estão outras que o confundirão com tudo mais que é efêmero.
Procure a MÁGICA. Ao encontrar uma destas pessoas especiais ofereça-lhe uma rosa como símbolo de reconhecimento. A rosa é o símbolo da MÁGICA.
A seguir a vida me perguntou desafiante:
- Nesta altura de seu caminho, existem pessoas a quem você pode oferecer uma destas rosas?
A esta pergunta respondi sem hesitar:
-Sim, existem estas pessoas que com a MÁGICA do amor e da amizade me ajudaram na minha caminhada, tornando-a mais clara, fácil e alegre. Fiquei melhor ao encontrá-las.
Ao ouvir isto, a vida me respondeu:
- São seus tesouros. Cultive bem cada um deles. Pois são muitos os que passam por mim e não conseguem encontrá-los, embora estejam postos no caminho de todos. Quantas são as pessoas que ao colher estas rosas não conseguem oferecer sequer uma delas.
BELO HORIZONTE, AGOSTO 1993

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Leão Moysés Zagury

Leão Moysés Zagury

Momento 2

Momento 2

Momento é brisa
que se forma,
sonhos que vem e que passam
por teus olhos veludíneos.

Cada sopro de vida,
representa a existência
do porvir.

Gotas de tempo
formando o anjo
que inspira a flor,
que exala perfume
— realidade
te agradeço !

791
Olga Tokarczuk

Olga Tokarczuk

Gratidão

Não pense que não sou grata por tuas pequenas 
gentilezas.
Gosto de pequenas gentilezas.
De fato as prefiro à gentileza mais 
substancial, que está sempre a te cravar os olhos,
feito um grande animal sobre o tapete
até que tua vida inteira se reduza
a nada além de levantar manhã após manhã 
embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.
887
Artemídoro Alves de Oliveira

Artemídoro Alves de Oliveira

Caminhada

Segue o teu caminho, sem temores.
Não te detenhas, não te voltes, não vaciles.
No amanhã que te espera, encontrarás abrigo
e haverá trégua na luta que tu travas.
Segue adiante, sem lamentos vãos
e atenta para o rumo que escolheste.
Esquece os males todos já sofridos
e semeia em tua esteira o bem que tu puderes.
Não aguardes, do favor que tu fizeres,
o gesto da gratidão que não virá.
Ama por amor ao amor e segue avante!
Procura agradecer o bem que te fizerem,
porque não podes e não deves ser indiferente
à mão que te ampara, à mão que te conforta.

932
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Iv - a Terra

Amarelo, amarelo continua sendo
o cachorro que por trás do outono circula
fazendo entre as folhas circunferências de ouro,
ladrando para os dias desconhecidos.
Assim vereis o imprevisto de certas situações:
junto ao explorador das terríveis fronteiras
que abrem o infinito, eis aqui o predileto,
o animal perdido do outono.
O que pode mudar de terra a tempo, de sabor a estibordo,
de luz velocidade a circunstância terrestre?
Quem adivinhará a semente na sombra
se como cabeleiras as mesmas frondes
deixam cair orvalho sobre as mesmas ferraduras,
sobre as cabeças que o amor reúne,
sobre as cinzas de corações mortos?
Este mesmo planeta, o tapete de mil anos,
pode florescer mas não aceita a morte nem o repouso:
as cíclicas fechaduras da fertilidade
se abrem em cada primavera para as chaves do sol
e ressoam os frutos fazendo-se cascata,
sobe e desce o fulgor da terra para a boca
e o humano agradece a bondade de seu reino.


Louvada seja a velha terra cor de excremento,
suas cavidades, seus ovários sacrossantos,
as adegas da sabedoria que encerraram
cobre, petróleo, ímãs, ferragens, pureza,
o relâmpago que parecia descer desde o inferno
foi entesourado pela antiga mãe das raízes
e cada dia saiu o pão para nos saudar
sem se importar com o sangue e a morte que nós homens vestimos,
a maldita progênie que faz a luz do mundo.
1 264
Olegário Mariano

Olegário Mariano

O Enamorado das Rosas

Toda manhã, ao sol, cabelo ao vento,
Ouvindo a água da fonte que murmura,
Rego as minhas roseiras com ternura,
Que água lhes dando, dou-lhes força e alento.

Cada um tem um suave movimento
Quando a chamar minha atenção procura
E mal desabrochada na espessura,
Manda-me um gesto de agradecimento.

Se cultivei amores às mancheias,
Culpa não cabe às minhas mãos piedosas
Que eles passassem para mãos alheias.

Hoje, esquecendo ingratidões mesquinhas,
Alimento a ilusão de que essas rosas,
Ao menos essas rosas, sejam minhas.

1 362
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Obrigado, Violinos

Obrigado, violinos, por este dia
de quatro cordas.
É puro o som do céu,
a voz azul do ar.
1 338
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Tarde - LXIV

De tanto amor minha vida se tingiu de violeta
e fui de rumo em rumo como as aves cegas
até chegar a tua janela, amiga minha:
tu sentiste um rumor de coração quebrado


e ali da escuridão me levantei a teu peito,
sem ser e sem saber fui à torre do trigo,
surgi para viver entre tuas mãos,
me levantei do mar a tua alegria.


Ninguém pode contar o que te devo, é lúcido
o que te devo, amor, e é como uma raiz
natal de Araucânia, o que te devo, amada.


É sem dúvida estrelado tudo o que te devo,
o que te devo é como o poço de uma zona silvestre
onde guardou o tempo relâmpagos errantes.
1 220
Iranildo Sampaio

Iranildo Sampaio

Teoria da Última Ladeira

Nada tenho a dizer.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.

850