Poemas neste tema
Flores e Jardins
Silva Avarenga
O Jasmineiro
Rondó XI
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Ache Glaura na frescura
Destas penhas encurvadas
Moles heras abraçaras
Com ternura a vegetar.
Ache mil e mil Napéias,
E inda mais e mais Amores,
Do que mostra o campo flores,
Do que areias tem o mar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Branda Ninfa que me escutas
Desse monte cavernoso,
Nem o raio luminoso
Nestas grutas possa entrar.
Hás de ver com dor, e espanto,
Como pálida a Tristeza
Dos seixinhos na aspereza
Faz meu pranto congelar,
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Glaura bela, que resiste
Aos rigores da saudade,
Veja em muda soledade
Sono triste bocejar.
Sobre o musgo em rocha fria
Adormeça ao som das águas,
E sonhando injustas mágoas,
Chegue um dia a suspirar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Com seus olhos Glaura inflame
Os desejos namorados,
Que em abelhas transformados,
Novo enxame cubra o ar.
Vinde, abelhas amorosas,
Sem temer o meu desgosto,
Doce néctar no seu rosto
Entre rosas procurar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Ache Glaura na frescura
Destas penhas encurvadas
Moles heras abraçaras
Com ternura a vegetar.
Ache mil e mil Napéias,
E inda mais e mais Amores,
Do que mostra o campo flores,
Do que areias tem o mar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Branda Ninfa que me escutas
Desse monte cavernoso,
Nem o raio luminoso
Nestas grutas possa entrar.
Hás de ver com dor, e espanto,
Como pálida a Tristeza
Dos seixinhos na aspereza
Faz meu pranto congelar,
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Glaura bela, que resiste
Aos rigores da saudade,
Veja em muda soledade
Sono triste bocejar.
Sobre o musgo em rocha fria
Adormeça ao som das águas,
E sonhando injustas mágoas,
Chegue um dia a suspirar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
Com seus olhos Glaura inflame
Os desejos namorados,
Que em abelhas transformados,
Novo enxame cubra o ar.
Vinde, abelhas amorosas,
Sem temer o meu desgosto,
Doce néctar no seu rosto
Entre rosas procurar.
Venturoso Jasmineiro,
Sobranceiro ao claro Rio,
Já do Estio o ardor se acende,
Ah! defende este lugar.
980
Fernando Fitas
Ave te chamaria
Ave te chamaria(s) se não fosse
haver em teu olhar uma flor ausente
que derramando vai quanto perfume
vestiu o despontar (despertar) das madrugadas
que de afectos cobriram esta casa.
Por isso flor és não só de rosa
mas de aloendro — creio — e madressilva
e de acácia e de trigo e de poejo
p’ra que melhor nos saibam os desejos
que o marulhar de lábios mais incita.
Guardadora de ventos e de rios
e de nascentes e margens e afluentes
que despidos ainda se apresentem
de quanto néctar houvesse ao seu alcance
sem que tivesse sido recolhido.
haver em teu olhar uma flor ausente
que derramando vai quanto perfume
vestiu o despontar (despertar) das madrugadas
que de afectos cobriram esta casa.
Por isso flor és não só de rosa
mas de aloendro — creio — e madressilva
e de acácia e de trigo e de poejo
p’ra que melhor nos saibam os desejos
que o marulhar de lábios mais incita.
Guardadora de ventos e de rios
e de nascentes e margens e afluentes
que despidos ainda se apresentem
de quanto néctar houvesse ao seu alcance
sem que tivesse sido recolhido.
772
Sousa Caldas
Aos Anos de uma Menina
Não creias, gentil Márcia, na pintura
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armara
De cruenta, implacável foice dura.
Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores o pintaram;
E nem ser ele, ao menos, acenaram
Quem desenvolve as graças da figura.
Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:
Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armara
De cruenta, implacável foice dura.
Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores o pintaram;
E nem ser ele, ao menos, acenaram
Quem desenvolve as graças da figura.
Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:
Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.
1 039
António Ramos Rosa
Um Dia Perfeito. Um Ombro…
Um dia perfeito
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
1 038
Renato Russo
Soul Parsifal
Ninguém pode dizer o que sentir
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
1 413
Bernardo Pinto de Almeida
Melancolia
Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
Sobre esta mesa onde a sombra cai
A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.
Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens
Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.
Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa
Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas
Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
656
Herberto Helder
4I
O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada — o canteiro desentranha
outra mão: — A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. — O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada.
Abre a fonte no mármore, sob a forçados dedos
o vento da luz sacode a árvore.
As veias da pedra,
o cinzel faz isto, são as veias dos cavalos
— e por trás das cabeças estelares respiram rosas.
Crianças, que sinistro enlevo, como percorrem
o círculo puro da guerra, entre escudos
e lanças. E algures,
ao meio da primavera lavrada,
dança a rapariga,
desdobra-se — um sopro move-lhe a cara
imovelmente branca. Mas a noite devagar,
de fora, natural, a noite de longe,
devora joelhos e ferraduras, a espuma que a mão
arranca de dentro
— a pálpebra grande do mundo que se vê defronte
da sua obra. Devora, a noite furiosamente externa
entrando,
não só a água suave e a máquina da guerra
e a soberba ondulação do fogo
nas formas,
mas a doce e dolorosa mão que ergueu a fábula.
1 112
Carlos Drummond de Andrade
Um Besouro Em Toda Parte
Besourinho escuro
de casco bronzeado,
por que vens de longe
pousar neste muro?
Novas africanas
trazes para mim?
Cifrada mensagem,
no ar, de Idi Amim?
Contas sofrimento,
cantas liberdade,
luta sempre acesa
ou turvo lamento?
Superfícies alvas,
focos de calor
te fascinam, tonto,
seja como for?
Mas quedas inerte
em minha vidraça.
Nem moves as patas.
Isso te diverte?
Vir de tão remotos
céus para ficar
abobado, alheio
à festa solar?
Turista aprendiz
e desinformado,
o vernal dezembro
não te faz feliz?
Já pelas favelas
um rio de som
desliza e deságua
por sobre o Ano Bom.
Este seu caudal
cria vibração,
e de samba e voz
faz-se carnaval.
Não voas, não bailas
na geral ciranda?
Preferes a sesta
em minha varanda?
A parar começas
os teus movimentos
qual se gasolina
te fugisse às peças?
Caíste em letargo
pensando talvez
que é vão todo esforço
neste, em qualquer mês?
A tantas perguntas
nada me respondes.
Desdenhas, calado,
todas elas juntas.
O doutor ao lado
esclarece então:
“O inseto é quietinho,
mas de muita ação.”
Quem o vê tranquilo
não sabe o poder
que ele manifesta
em voraz estilo.
No imobilismo
em que se comporta,
organiza o plano
de comer a horta.
Não corre, não pula,
mas na hora exata
ferra no jardim
o dente da gula.
Numa noite apenas,
o verdor perece,
já no chão vencido
a vagem fenece.
Adeus, lavourinha,
adeus, meu sustento.
Que me livre o céu
da praga daninha.
São dez, não quarenta,
são mil a pastar,
em silêncio e força,
quanto se plantar.
Só inseticida,
do bravo, e a Feema,
conjugados, podem
ganhar a partida.
Mas cuidado: o mal
é maior ainda
se com esse expurgo
nossa vida finda.
Poluição? Inseto?
Por que risco optar?
Hesito, e um bichinho
vejo lá no teto.
Vejo-o nas cortinas,
vejo-o nas paredes.
Vê-o meu vizinho
na sua Mercedes.
Na blusa do broto
e na sua tanga,
joia, dependura-se
o inseto maroto.
No austero papel
da burocracia,
no prato de arroz,
ele passa o dia.
Na vida da gente,
parado ou roendo,
o escuro bichinho
reina, indiferente.
de casco bronzeado,
por que vens de longe
pousar neste muro?
Novas africanas
trazes para mim?
Cifrada mensagem,
no ar, de Idi Amim?
Contas sofrimento,
cantas liberdade,
luta sempre acesa
ou turvo lamento?
Superfícies alvas,
focos de calor
te fascinam, tonto,
seja como for?
Mas quedas inerte
em minha vidraça.
Nem moves as patas.
Isso te diverte?
Vir de tão remotos
céus para ficar
abobado, alheio
à festa solar?
Turista aprendiz
e desinformado,
o vernal dezembro
não te faz feliz?
Já pelas favelas
um rio de som
desliza e deságua
por sobre o Ano Bom.
Este seu caudal
cria vibração,
e de samba e voz
faz-se carnaval.
Não voas, não bailas
na geral ciranda?
Preferes a sesta
em minha varanda?
A parar começas
os teus movimentos
qual se gasolina
te fugisse às peças?
Caíste em letargo
pensando talvez
que é vão todo esforço
neste, em qualquer mês?
A tantas perguntas
nada me respondes.
Desdenhas, calado,
todas elas juntas.
O doutor ao lado
esclarece então:
“O inseto é quietinho,
mas de muita ação.”
Quem o vê tranquilo
não sabe o poder
que ele manifesta
em voraz estilo.
No imobilismo
em que se comporta,
organiza o plano
de comer a horta.
Não corre, não pula,
mas na hora exata
ferra no jardim
o dente da gula.
Numa noite apenas,
o verdor perece,
já no chão vencido
a vagem fenece.
Adeus, lavourinha,
adeus, meu sustento.
Que me livre o céu
da praga daninha.
São dez, não quarenta,
são mil a pastar,
em silêncio e força,
quanto se plantar.
Só inseticida,
do bravo, e a Feema,
conjugados, podem
ganhar a partida.
Mas cuidado: o mal
é maior ainda
se com esse expurgo
nossa vida finda.
Poluição? Inseto?
Por que risco optar?
Hesito, e um bichinho
vejo lá no teto.
Vejo-o nas cortinas,
vejo-o nas paredes.
Vê-o meu vizinho
na sua Mercedes.
Na blusa do broto
e na sua tanga,
joia, dependura-se
o inseto maroto.
No austero papel
da burocracia,
no prato de arroz,
ele passa o dia.
Na vida da gente,
parado ou roendo,
o escuro bichinho
reina, indiferente.
1 424
Adélia Prado
Graça
O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado
[gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio
[nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos
[e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado
[gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio
[nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos
[e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
1 212
Adélia Prado
Fotografia
Quando minha mãe posou
para este que foi seu único retrato,
mal consentiu em ter as têmporas curvas.
Contudo, há um desejo de beleza no seu rosto
que uma doutrina dura fez contido.
A boca é conspícua,
mas as orelhas se mostram.
O vestido é preto e fechado.
O temor de Deus circunda seu semblante,
como cadeia. Luminosa. Mas cadeia.
Seria um retrato triste
se não visse em seus olhos um jardim.
Não daqui. Mas jardim.
para este que foi seu único retrato,
mal consentiu em ter as têmporas curvas.
Contudo, há um desejo de beleza no seu rosto
que uma doutrina dura fez contido.
A boca é conspícua,
mas as orelhas se mostram.
O vestido é preto e fechado.
O temor de Deus circunda seu semblante,
como cadeia. Luminosa. Mas cadeia.
Seria um retrato triste
se não visse em seus olhos um jardim.
Não daqui. Mas jardim.
1 159
Herberto Helder
4Q
Levanto as mãos e o vento levanta-se nelas.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. Avoz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
Se olhas a serpente nos olhos, sentes como a inocência
é insondável e o terror é um arrepio
lírico. Sabes tudo.
A constelação de corolas está madura contra o granito alto
nas voragens. Rosaceamente.
Atua vida entra em si mesma até ao centro.
Podes fechar os olhos, podes ouvir o que disseste
atrás das vozes
do poema.
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. Avoz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
Se olhas a serpente nos olhos, sentes como a inocência
é insondável e o terror é um arrepio
lírico. Sabes tudo.
A constelação de corolas está madura contra o granito alto
nas voragens. Rosaceamente.
Atua vida entra em si mesma até ao centro.
Podes fechar os olhos, podes ouvir o que disseste
atrás das vozes
do poema.
1 017
Herberto Helder
4R
Dálias cerebrais de repente. Artesianas, irrigadas
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
pela infiltração
alimentar do sono. Álcoois,
minérios, drogas. Curvam a luz onde se apoiam.
Autónomas
polpas de jóias quando a treva as cerca.
Irrompem do fundo das páginas, continuam se as penso
em alumiação no espaço que as exalta.
Malévola beleza acentuando uma época
fosfórica. Os dedos
que as recebem dos dedos
queimados
queimam-se. Porque tudo se calcina: sono e imagem,
dálias verdadeiras, as palavras,
as pessoas.
Essa dádiva infernal fechada na metáfora.
1 048
José Saramago
12
Um dos resultados da catástrofe foi que de uma hora para a outra os animais domésticos deixaram de o ser
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
A primeira vítima de que houve notícia foi a mulher do governador escolhido pelo ocupante
Quando o macaco amestrado que a divertia nas horas de aborrecimento a crucificou no portão do jardim enquanto as galinhas saíram da capoeira para vir arrancar-lhe à bicada as unhas dos pés
Muitas velhinhas inocentes foram arranhadas por gatos castrados de estimação em memória do atentado sofrido
E numerosas crianças ficaram infelizmente cegas pelos bicos agudos das aves que se atiravam dos ramos e das alturas como pedras
Privadas dos animais domésticos as pessoas dedicaram-se activamente ao cultivo de flores
Destas não há que esperar mal se não for dada excessiva importância ao recente caso de uma rosa carnívora
943
Herberto Helder
5C
Pratiquei a minha arte de roseira: a fria
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
1 118
António Ramos Rosa
Transcrição da Terra
Para um jardim sem flores
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
de que matéria? e espaço
e largos corredores,
à mesa no meio-dia,
mesa de pedra fria
ou de madeira lisa
de algum tronco redondo
ainda verde. E o sol.
*
Só no silêncio: o espaço.
O solo coado: por
alguma árvore? Um corpo
matinal ao lado.
O vento que respira
ou o hálito de mulher,
moça feliz, calada,
e vida e sol e nada.
*
Para um jardim de espaço,
pedra de sol, mas pedra
e áleas quase nuas,
nudez do ar, do espaço.
Compasso aberto e largo,
arquitectura calma,
aberta à terra, às claras,
aos braços e às pernas,
ao tronco que respira
aos olhos que se inundam
ou que inventam o espaço
a partir do olhar
este chão lavado.
Terra de sol, silêncio
de uma cor repousada
— a própria calma animada.
*
As janelas rasgadas
transparentes, pensadas:
os ombros altos, jorros
na suavidade sanguínea.
Mental serenidade,
gravidade sem peso,
o ar em sua casa
alonga-se em carícia
de múltiplas notícias
desdobradas, seguidas
de silêncios sonoros
de terra e gente viva.
*
Tudo é calado alento,
tudo é sombra verde
de um pensar sobre o sono
das relvas espalhadas.
Tudo sobe e se alarga
em sua casa de espaço,
tudo tem massas claras,
compactas, leves, puras.
A casa projectada
é um poema aberto:
oásis branco e recto
sobre um calmo deserto.
*
Abertas salas claras
onde os passos propagam
o futuro nome do ar,
presente por criar.
Presente por abrir
e caminhar por salas
de espaço mais solar
de mais sol e ar.
E cada vez mais salas
quartos de espaço uno,
sussurrantes, lavadas,
da sede de criar.
*
Eis a terra transcrita
no seu surto sonoro:
manhã que se faz pedra
para ouvirmos respirar.
Falamos nestas salas
conscientes de ser pedra
e vidro e terra espessa
no sangue novo e claro.
Eis o rumor tão escuro
e fresco das origens
exalando-se das traves
translúcidas, reais.
1 164
Marco Lucchesi
Orquídeas
Orquídeas
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
resplandecem
no quintal
a geometria
de fogo
de suas pétalas
e a forma
do silêncio
em que se apóiam
trago
o coração perdido
e os olhos tersos
da breve epifania
toda flor
desponta
no seio do silêncio
e ao seio
do silêncio
acorre e se dissolve
lembro
de Hardy
indo ao
fundo
silêncio
dos gregos
teoremas
cheios
do frescor e da beleza
de quando foram descobertos
dois mil anos
e sequer
uma ruga
em seu puro semblante
(Euclides
e a infinidade
dos números primos
Pitágoras
e a raiz quadrada
irracional de dois)
os desenhos
do matemático
e do poeta devem
ser belos
flores
teoremas
desmaiam
em súbitos
jardins
orquídeas
e bromélias
florescem
em crepúsculos
fugazes
- a beleza é a primeira prova
da matemática
751
Adélia Prado
Solo de Clarineta
As pétalas da flor-seca, a sempre-viva,
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.
do que mais gosto em flor.
Do seu grego existir de boniteza,
sua certa alegria.
É preciso ter morrido uma vez e desejado
o que sobre as lápides está escrito
de repouso e descanso, pra amar seu duro odor
de retrato longínquo, seu humano conter-se.
As severas.
1 527
António Ramos Rosa
À Felicidade Viva
Qual é a cor que dou à pedra imóvel
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!
Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!
Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!
550
Eustáquio Gorgone
O Rodeio - 3
Gradil de madeira,
gradil de madeira.
Uma donzela com focinho
de rosas
quebrando a vidraça.
Por desespero e fatuidade
os animais choram
dentro das moringas.
Ela tem lenços e miniaturas,
ela tem lenços e miniaturas.
Mas nada, nada, nada enxuga
seu crescente sofrimento.
E o sol vai passando
com sua viseira de luz.
Ela não conhece corcundas,
ela não conhece corcundas
cheias de orquídeas.
Tudo para ela é cinzento.
Debalde doidos amores
esperam o seu sorriso.
gradil de madeira.
Uma donzela com focinho
de rosas
quebrando a vidraça.
Por desespero e fatuidade
os animais choram
dentro das moringas.
Ela tem lenços e miniaturas,
ela tem lenços e miniaturas.
Mas nada, nada, nada enxuga
seu crescente sofrimento.
E o sol vai passando
com sua viseira de luz.
Ela não conhece corcundas,
ela não conhece corcundas
cheias de orquídeas.
Tudo para ela é cinzento.
Debalde doidos amores
esperam o seu sorriso.
779
Herberto Helder
Lugar - Iii
As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
1 338
Nuno Júdice
Debaixo das bétulas
Na hora amarela do bosque, apanham
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
flores, passando o tempo. Esperam-nas
em casa; mas elas não pensam nisso,
falando uma com a outra, e sabendo que
o almoço pode esperar, enquanto enchem
os bolsos de pétalas perdidas. Um pássaro, com a
melancolia do fim da tarde, começa a cantar; e
elas nem o ouvem, entretidas com a primavera
que nasce debaixo delas, e que insistem em
apanhar, para a levarem para casa. «A mesa
vai ficar bonita com estas flores.» Oh, as
suas vozes enchendo o campo! Dir-se-ia uma
cena de ninfas, só faltando os faunos para
lhes saltarem às costas, obrigando-as a
esvaziar os bolsos, e a devolverem à terra
as suas flores. Mas os passos que ouviram
dissipam-se na distância; e impõem uma
à outra o silêncio, para que se cansem
de as esperar e se vão embora, e em casa
deixem de pensar nelas, como se já não fossem
deste mundo. «Que importa?», pensam. E a noite
cai, sem que dêem por nada.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 93 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
994
Eleonora Marsiaj
Haicai
agitação da mente
Na água turva
movimento incessante
Limpidez enfim
primavera
Pingos cantantes
Tapete azulado
Flor d’ipê-roxo
Na água turva
movimento incessante
Limpidez enfim
primavera
Pingos cantantes
Tapete azulado
Flor d’ipê-roxo
1 148
Adélia Prado
Anímico
Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoado de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asa, é boca, é bico,
é grão de poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoado de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asa, é boca, é bico,
é grão de poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.
1 794
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Terceiro Poema
Quem é que sobe do deserto como uma coluna de fumo,
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
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