Poemas neste tema
Flores e Jardins
Herberto Helder
7
Entre porta e porta — a porta que abre à água e a porta aberta
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
aos roseirais coruscantes
que o ar sustenta: eu vejo
leões. Não são gárgulas: das bocas não jorra a claridade
lavrada. Divididos ao meio pelo
coração. Uns olham por uma porta, outros
olham o mundo por outra porta.
São como pais ou mães, ou são os filhos — crianças nuas: ou dormem
alto, bebem leite, comem carne, ou saem sob as luzes, ou
escutam as canções dificeis. Enquanto no bronze se quebra a linfa
macia. E então atravessam o mundo
entre porta e porta abrasada em arco vertiginoso.
E vêem tudo, e trazem a imagem
universal — e enquanto dormem aos meus pés, estremecem
de medo pelo excesso
da imagem. Um dia serão de pedra. Planto onde é manhã ainda a vara
violenta pela carne dentro
da terra. Essa matéria forte
que palpita com a corrente da seiva através
dos botões. Ardente das mãos
ao cerne, uma
criatura em sangue
e respiração planta-se punho e ponta vibrando. Alimenta-a
quem dorme cheio de imagens
vagarosas. Dança a toda a luz pela noite das ofertas, transforma-se:
leão, estrela, criança louca
à música. Roda em torno da estaca
nas casas de pedra,
estua na sua dança.
A água alaga o trabalho dos membros: como o ouro
espigando, como as agulhas de ouro que tilintam
na canção. O que faço com os dedos: um som
por cima do escuro — e faísca tudo:
zonas crispadas ligando-se uma a uma pelos ecos. E fora,
o sítio de coisas aos cometas, e os mortos
que estão coroados sempre. E o sítio dentro
vivo por si mesmo. Como
de repente em mim sazonam as rosas, como se muda
tudo em tudo: e
vida ou morte; o mundo ou a casa dos leões que rugem
quando vêem diamantes, ou dormem
com tanto peso.
Porque se há uma selva para bichos e paus encarnados de corolas,
se é fora ou dentro que se inunda o bronze, ou se
criança e vara se fundem fincadas até ao centro. Vozes
metem-se pelos tubos. E a pedra plantada crescendo a todo o mundo
ressoa — máquina
da música. Criança ou leão dançando de porta a porta. Unindo,
pelo nervo de imagem em imagem
em chaga, o ouro que espiga
nos mortos e o ouro
que espiga entre as garras. Quando alguém planta a pedra
é para que a pedra cresça. Que na traça das artérias a boca jorre,
desde o coração no meio,
a púrpura agreste. Palavra que empurra a cara
secreta para diante da palavra
como uma cara madura —
1 105
Herberto Helder
I L
Rosas divagadas pelas roseiras, as sombras das rosas
seguram-nas no ar
enquanto espumam batidas à lua, devoradas.
Com a lepra na boca no instante da palavra, oh
sim: memória da criança da terra andando
entre as cores primitivas.
E esperar que a lepra cubra os dedos, escrever: Rosa —
encadeado na rotação do nome.
Ir colher ao último alfabeto
a rosa extremamente escrita.
seguram-nas no ar
enquanto espumam batidas à lua, devoradas.
Com a lepra na boca no instante da palavra, oh
sim: memória da criança da terra andando
entre as cores primitivas.
E esperar que a lepra cubra os dedos, escrever: Rosa —
encadeado na rotação do nome.
Ir colher ao último alfabeto
a rosa extremamente escrita.
1 087
Carlos Drummond de Andrade
A Rosa É Um Jardim
A rosa é um jardim
concentrado
um clarim
de cor, anunciando
a alvorada fogosa
e o tempo iluminado.
concentrado
um clarim
de cor, anunciando
a alvorada fogosa
e o tempo iluminado.
1 405
Herberto Helder
Ii A
Guelras por onde respira toda a luz desabrochada,
rosa,
a primeira.
rosa,
a primeira.
1 207
Herberto Helder
1
as imagens de palavras (João Vieira) — as pessoas das imagens das coisas (Manuel de Castro)
Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —
Se mexem as mãos memoriais as mães
transmudam
o mundo. Sabem ponto
a ponto forte o quotidiano estelar das matérias: aço, louça
— atrás do ramo
dos ouros a fruta iluminada nos sítios
onde lhe pegam. Elas
sabem como se enxameiam as coisas como vão de umas às outras ou
se intensificam na limalha
por uma risca eléctrica. Eu exponho-me ao seu trabalho
assombroso e aprendo e
purifico. O braço irrompe desde a raiz aos dedos
em acção de rosa. Às luas nos meandros nos laços
vermelhos — o ensino
dos elementos. Vejo tanta seiva escoando-se pelos orifícios
aquela matriz crispada nas partes
virgens, nome
banhado. Depois a linha de células ardendo. Cada criança
arranca-se à criança lustral com as pratas eriçadas na cabeça, a quín
floração trazida acesa. Todo o fenómeno
fêmea
de mover-se no apoio das palavras das coisas.
Com esse romper de rosa pelas unhas.
Elas põem as centelhas nas jarras ao meio das massas
puras: carne,
o pão que ainda fermenta, o açúcar
agudo, tão fria a água
enredada: Nós que desatam com tanto poder tanta
delicadeza. Se a mão apanha os botões de sal entre os idiomas negros
fica viva nas cicatrizes. Toca
na testa da criança primeira: e todas as crianças sucessivas principiam e
aumentam nas rosas transmitidas.
O vagar magnifica. Como no alongamento dos ofícios, atenção, os ritmos
— e se a bebida é tão íntima numa infusa
que
em mente e sede se torna
acto
absoluto, aliança, poesia. A mão que vem da lenta loucura
e carrega com todo o peso terrestre
criança a criança profunda a lembrança
— e o ouro misterioso: a mão
empurra pela brancura fora, entre, até onde? como chegam sombrias
às suas rosas
essas vidas pequenas. Um dia elas mesmas hão-de ser abundantes, erguer
extremamente os dedos, brilhar, doar
como heranças leves
as cicatrizes. São palavras maternas abrem-se
em ferida. Nos espelhos centrais com as pancadas de ar as pessoas
nas palavras assistem à vertigem
da sua imagem:
cabeça contra dedos, a exaltação das rosas —
1 106
Manuel Bandeira
Sob o Céu Todo Estrelado
As estrelas, no céu muito límpido, brilhavam, divinamente distantes.
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.
Petrópolis, 1921
1 766
Herberto Helder
Ii F
Pêras maduras ao longe,
glicínias em declive pelo perfume dentro,
longe como a água nos sonhos,
como: que mês entre todos conteria em si a leveza e o génio?
E tornando complexa a técnica silvestre da terra,
a víbora oblíqua corisca
ao meio
das coisas calmas.
glicínias em declive pelo perfume dentro,
longe como a água nos sonhos,
como: que mês entre todos conteria em si a leveza e o génio?
E tornando complexa a técnica silvestre da terra,
a víbora oblíqua corisca
ao meio
das coisas calmas.
1 055
Herberto Helder
Ii C
Ferro em brasa no flanco de um só dia, um buraco
de perfume: a rosa florescendo
o seu lugar interior.
de perfume: a rosa florescendo
o seu lugar interior.
1 053
Herberto Helder
Elegia Múltipla - V
Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Oh feroz mundo puro,
oh vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que a minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.
Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas?
— Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
como uma canção fria e uma roseira
tão espalhada em mim.
Pode ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente agudeza escoar-se até à maturidade
confluente
de um minuto de verão. — Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de feroz plenitude.
Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida dentro da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.
Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.
— Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.
Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive de sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. E única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.
— Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Oh feroz mundo puro,
oh vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que a minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.
Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas?
— Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
como uma canção fria e uma roseira
tão espalhada em mim.
Pode ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente agudeza escoar-se até à maturidade
confluente
de um minuto de verão. — Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de feroz plenitude.
Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida dentro da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.
Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.
— Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.
Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive de sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. E única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.
— Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
1 064
Carlos Drummond de Andrade
Bordão
Em torno de um bordão organiza-se o espírito.
O bordão, seu poder e sua circunstância.
Nada ocorre de belo, nada ocorre de mal
fora da sonoridade do bordão.
Repetir é viver e criar ressonâncias
constringidas pelo muro de um jardim
que não chega a florir e esparze cicatrizes
de begônias violáceas em hora de sentir.
De sentir ou voltar à pauta do bordão,
e asas presas no sótão ou no campo filmado?
Que se escuta afinal ou não se escuta mais
no pingar repetido, no vácuo prefixado de sempiterno bordão?
O bordão, seu poder e sua circunstância.
Nada ocorre de belo, nada ocorre de mal
fora da sonoridade do bordão.
Repetir é viver e criar ressonâncias
constringidas pelo muro de um jardim
que não chega a florir e esparze cicatrizes
de begônias violáceas em hora de sentir.
De sentir ou voltar à pauta do bordão,
e asas presas no sótão ou no campo filmado?
Que se escuta afinal ou não se escuta mais
no pingar repetido, no vácuo prefixado de sempiterno bordão?
973
Manuel Bandeira
Trovas para Adelmar
A Academia anda triste,
Triste, triste (para mim):
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim.
Falta lá a flor mais gostosa
De se cheirar num jardim,
Pois das brasileiras flores
A mais cheirosa é o jasmim,
Basta um jasmim pequenino
Para encher todo um jardim.
Adelmar, na Academia,
Ês tu, meu caro, o jasmim.
A Academia anda triste...
Nunca a vi tão triste assim!
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim!
Triste, triste (para mim):
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim.
Falta lá a flor mais gostosa
De se cheirar num jardim,
Pois das brasileiras flores
A mais cheirosa é o jasmim,
Basta um jasmim pequenino
Para encher todo um jardim.
Adelmar, na Academia,
Ês tu, meu caro, o jasmim.
A Academia anda triste...
Nunca a vi tão triste assim!
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim!
1 176
Manuel Bandeira
Craveiro, Dá-me Uma Rosa
Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
1 426
Fanny Luíza Dupré
Primavera
De asas multicores
pousam nas flores do campo
frágeis borboletas.
Raios de luar.
Bolhas nas águas do lago.
Saltam rãs e sapos.
pousam nas flores do campo
frágeis borboletas.
Raios de luar.
Bolhas nas águas do lago.
Saltam rãs e sapos.
1 096
Herberto Helder
Que Floresce Uma Só Vez Na Vida, Agaué! Dez Metros
que floresce uma só vez na vida, agaué! dez metros, escarpada, branca, brusca, brava, encarnada,
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
e lava a língua às crianças,
e põe-lhes a fala cantante,
e nunca esperes que se repita no deserto da vida,
não esperes,
não nunca esperes pelo regresso do sistema das maravilhas,
porque morreu do mundo uma só vez prodigiosa,
e adormeces e acordas,
e a espera enche os dias,
e quebram-se o ar e a água,
porque rente à cara respirando do chão quente batem fundo como se água e ar se amarrassem,
abecedária,
desamarrassem,
e o sal e o ouro moído e a escarlata
pousam camada a camada — e
giram logo acima da pulsação da terra para que os colham e recolham
e o sopro unido vem à volta: estrelas, ondas,
trigos às faíscas,
aberturas,
e o teu rosto mortal iluminado e as pequenas artes do triunfo das palavras:
as criaturas, e a sua morte,
e os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e os grandes anéis das estações e os grandes animais,
e a tua morte de alto a baixo e dentro e fora,
a morte floral, dez metros de sangue compacto e espuma extraordinária,
fria fria luz como uma guerra de lâminas,
fria nas rápidas colinas tomadas pelo estio e a primavera,
pelas estações vertiginosas,
agaué! quando a luz as toma uma só vez na vida e as levanta até onde
ninguém respira,
ninguém brilha,
nunca ninguém ressuscita, agaué! e amanhã e ontem e agora,
os campos de trigo e orvalho e alumiação,
e a sua morte
659
Herberto Helder
25
perder o dom, mas quem o perde?
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
1 154
Fernanda Benevides
A Flor das Ruínas
Eis que uma flor despontou nas ruínas
de um templo desmoronado
e te enterneceu.
Era uma rosa pálida
que não queria fenecer
e tímida
gritava para sobreviver...
Transportaste-a ao solo fértil
do teu coração
e ela renasceu rubra
em tuas mãos...
de um templo desmoronado
e te enterneceu.
Era uma rosa pálida
que não queria fenecer
e tímida
gritava para sobreviver...
Transportaste-a ao solo fértil
do teu coração
e ela renasceu rubra
em tuas mãos...
854
Carlos Drummond de Andrade
A Lourdes E Cassiano Ricardo
No jardim cassiano
a florida acácia
de cassa vestida
translúcida
luz de lourdes lua
luaramar
a florida acácia
de cassa vestida
translúcida
luz de lourdes lua
luaramar
1 125
D. Dinis
Ua Pastor Bem Talhada
Ũa pastor bem talhada
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant'eu vi, mui coitada;
e diss': "Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi o meu há errado".
Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores?
Pois m'errastes tam em vão!"
E caeu antr'ũas flores.
Ũa gram peça do dia
jouv'ali, que nom falava,
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss': "Ai Santa Maria!
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, per quant'eu sei, senhora."
"Se me queres dar guarida",
diss'a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m'é esta vida".
Diss[e] el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida,
erged'olho e vee-lo-edes".
cuidava em seu amigo
e estava, bem vos digo,
per quant'eu vi, mui coitada;
e diss': "Oimais nom é nada
de fiar per namorado
nunca molher namorada,
pois que mi o meu há errado".
Ela tragia na mão
um papagai mui fremoso,
cantando mui saboroso,
ca entrava o verão;
e diss': "Amigo loução,
que faria per amores?
Pois m'errastes tam em vão!"
E caeu antr'ũas flores.
Ũa gram peça do dia
jouv'ali, que nom falava,
e a vezes acordava
e a vezes esmorecia;
e diss': "Ai Santa Maria!
que será de mim agora?"
E o papagai dizia:
"Bem, per quant'eu sei, senhora."
"Se me queres dar guarida",
diss'a pastor, "di verdade,
papagai, por caridade,
ca morte m'é esta vida".
Diss[e] el: "Senhor comprida
de bem, e nom vos queixedes,
ca o que vos há servida,
erged'olho e vee-lo-edes".
430
Herberto Helder
3C
Leões de pedra à porta de jardins alerta
— blocos zoológicos, laterais, devorados
por líquenes. Vem-lhes — de gotas, botânicas
vidradas, insectos,
o vento que os embriaga, as coisas plurais
da terra — esse
fluxo e refluxo de potência cega.
Se lhes toco nos flancos, ou nas jubas, ou entre
as patas dianteiras,
sinto dos dedos ao coração a tenebrosa
pancada do sangue.
— Guardo no meu segredo aquele segredo
central,
inseparável.
— blocos zoológicos, laterais, devorados
por líquenes. Vem-lhes — de gotas, botânicas
vidradas, insectos,
o vento que os embriaga, as coisas plurais
da terra — esse
fluxo e refluxo de potência cega.
Se lhes toco nos flancos, ou nas jubas, ou entre
as patas dianteiras,
sinto dos dedos ao coração a tenebrosa
pancada do sangue.
— Guardo no meu segredo aquele segredo
central,
inseparável.
1 015
D. Dinis
Vi Hoj'eu Cantar D'amor
Vi hoj'eu cantar d'amor
em um fremoso virgeu,
ũa fremosa pastor
que, ao parecer seu,
jamais nunca lhi par vi;
e por en dixi-lh'assi:
"Senhor, por vosso vou eu".
Tornou sanhuda entom,
quando m'est'oiu dizer,
e diss': "Ide-vos, varom!
Quem vos foi aqui trajer
para m'irdes destorvar
d'u dig'aqueste cantar
que fez quem sei bem querer?"
"Pois que me mandades ir,"
dixi-lh'eu, "senhor, ir-m'-ei;
mais já vos hei de servir
sempr'e por voss'andarei;
ca voss'amor me forçou,
assi que por vosso vou,
cujo sempr'eu já serei."
Dix'ela: "Nom vos tem prol
esso que dizedes, nem
mi praz de o oir sol,
ant'hei noj'e pesar en;
ca meu coraçom nom é,
nem será, per bõa fé,
senom do que quero bem."
"Nem o meu", dixi-lh'eu "já,
senhor, nom se partirá
de vós, por cujo s'el tem."
"O meu", diss'ela, "será
u foi sempr'e u está,
e de vós nom curo rem."
em um fremoso virgeu,
ũa fremosa pastor
que, ao parecer seu,
jamais nunca lhi par vi;
e por en dixi-lh'assi:
"Senhor, por vosso vou eu".
Tornou sanhuda entom,
quando m'est'oiu dizer,
e diss': "Ide-vos, varom!
Quem vos foi aqui trajer
para m'irdes destorvar
d'u dig'aqueste cantar
que fez quem sei bem querer?"
"Pois que me mandades ir,"
dixi-lh'eu, "senhor, ir-m'-ei;
mais já vos hei de servir
sempr'e por voss'andarei;
ca voss'amor me forçou,
assi que por vosso vou,
cujo sempr'eu já serei."
Dix'ela: "Nom vos tem prol
esso que dizedes, nem
mi praz de o oir sol,
ant'hei noj'e pesar en;
ca meu coraçom nom é,
nem será, per bõa fé,
senom do que quero bem."
"Nem o meu", dixi-lh'eu "já,
senhor, nom se partirá
de vós, por cujo s'el tem."
"O meu", diss'ela, "será
u foi sempr'e u está,
e de vós nom curo rem."
471
Herberto Helder
3J
Girassóis percorrem o dia fotosférico,
demorado. Mergulham devagar o peso até ao coração
unido. Pétalas e pálpebras, soletrou-as
conjugalmente
o ouro. Acolhe-os a côncava casa
do sono. Rodaram como bilhas ou amonites ou ancas
pálidas — ao sopro e número
do fogo. Passou a onda abaladora.
E fecham agora os olhos sobre a deslumbrante
chaga das núpcias.
Alto e baixo, pai e filha, ouro e imagem,
transmutaram-se numa só massa exaltada.
—Acame redonda que se fecha
na sua casa madura.
demorado. Mergulham devagar o peso até ao coração
unido. Pétalas e pálpebras, soletrou-as
conjugalmente
o ouro. Acolhe-os a côncava casa
do sono. Rodaram como bilhas ou amonites ou ancas
pálidas — ao sopro e número
do fogo. Passou a onda abaladora.
E fecham agora os olhos sobre a deslumbrante
chaga das núpcias.
Alto e baixo, pai e filha, ouro e imagem,
transmutaram-se numa só massa exaltada.
—Acame redonda que se fecha
na sua casa madura.
989
Silva Avarenga
Madrigal VII
Ó sombra deleitosa,
Onde Glaura se abriga pela sesta,
Enquanto o ardor do Sol os prados cresta,
Ah! defende estes lírios e esta rosa.
E se a Ninfa mimosa
Perguntar quem colheu as lindas flores,
Ó sombra deleitosa,
Dize-lhe que os amores
E a tímida ternura
Do Pastor namorado e sem ventura.
Onde Glaura se abriga pela sesta,
Enquanto o ardor do Sol os prados cresta,
Ah! defende estes lírios e esta rosa.
E se a Ninfa mimosa
Perguntar quem colheu as lindas flores,
Ó sombra deleitosa,
Dize-lhe que os amores
E a tímida ternura
Do Pastor namorado e sem ventura.
901
Silva Avarenga
A Roseira
Rondó LII
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.
Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Quando Glaura me dizia
Que era sua esta roseira,
De esperança lisonjeira
Me senda consolar.
Mas a sorte, que invejosa
Este alívio não consente,
Não há mal que não invente
Rigorosa em maltratar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Da risonha primavera
Esperei os dias belos:
Glaura... oh dor! os teus cabelos
Quem Pudera coroar.
Já não vives oh que mágoa!
E a roseira que foi tua,
Eu a vejo estéril, nua,
Junto d’água desmaiar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
Parca iníqua, atroz, funesta,
Era teu o infausto agouro;
Já levaste o meu tesouro,
Mais não resta que roubar.
Nem às flores permitiste...
Oh! que bárbara impiedade!
Fica só cruel saudade,
Fica o triste suspirar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
De teus ramos a beleza
Era o mimo destes prados;
Move agora, ó ímpios fados!
De tristeza a lamentar.
Horrorosos são meus males;
Tudo encontro em névoa escura;
Vem comigo a desventura
Estes vales assombrar.
Ah! roseira desgraçada,
Dedicada aos meus amores,
Tuas flores mal se abriram,
E caíram de pesar!
1 113
Silva Avarenga
Madrigal XXIX
Não desprezes, ó Glaura, entre estas flores,
Com que os prados matiza a bela Flora,
O jambo, que os Amores
Colheram ao surgir a branca Aurora.
A Dríade suspira, geme e chora
Aflita e desgraçada.
Ela foi despojada... os ais lhe escuto...
Verás neste tributo,
Que por sorte feliz nasceu primeiro,
Ou fruto, que roubou da rosa o cheiro,
Ou rosa transformada em doce fruto.
Com que os prados matiza a bela Flora,
O jambo, que os Amores
Colheram ao surgir a branca Aurora.
A Dríade suspira, geme e chora
Aflita e desgraçada.
Ela foi despojada... os ais lhe escuto...
Verás neste tributo,
Que por sorte feliz nasceu primeiro,
Ou fruto, que roubou da rosa o cheiro,
Ou rosa transformada em doce fruto.
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