Poemas neste tema
Flores e Jardins
Oscar Rosas
Visão
Tanto brilhava a luz da Lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
1 045
Pablo Neruda
LXIII
Como conciliar com os pássaros
a tradução de seus idiomas?
Como digo à tartaruga
que eu a ganho em lentidão?
Como pergunto à pulga
as cifras de seu campeonato?
E aos cravos que dizer
agradecendo sua fragrância?
a tradução de seus idiomas?
Como digo à tartaruga
que eu a ganho em lentidão?
Como pergunto à pulga
as cifras de seu campeonato?
E aos cravos que dizer
agradecendo sua fragrância?
810
Geraldo Carneiro
à flor da língua
uma palavra não é uma flor
uma flor é sue perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestigio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra não: é só floriléfio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor
uma flor é sue perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestigio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra não: é só floriléfio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor
1 141
Herberto Sales
Im Afraid of
Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
não mais te ver cavalgar sobre a relva úmida
em galope elástico e branco,
num ondular de ancas
brancas
de lua com maciez de jacintas.
Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
perder-me também
(irremediavelmente)
numa infecunda solidão floral:
sem o mel da polpa que o fruto oculta,
sem o pólen da rosa escarlate.
e de, perdendo-te,
não mais te ver cavalgar sobre a relva úmida
em galope elástico e branco,
num ondular de ancas
brancas
de lua com maciez de jacintas.
Tenho medo de perder-te
e de, perdendo-te,
perder-me também
(irremediavelmente)
numa infecunda solidão floral:
sem o mel da polpa que o fruto oculta,
sem o pólen da rosa escarlate.
1 071
Yu Xuanji
Para Feiqing em uma noite de inverno
Baixa poema invoco-te à luz da lanterna
à noite insone renego o frio das cobertas
Folhas ocupam o pátio como ao vento a dor
Entre as cortinas em gaze a lua declina
Triste a seguir a estrada uma estranha até o fim
em florescer e murchar conhece-se a flor
mesmo desconhecido seu pouso entre os plátanos
Encerra a tarde um arco os pardais em alarde
1 010
Augusto Frederico Schmidt
Pequena Igreja
Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!
Publicado no livro Estrela solitária (1940).
In: SCHMIDT, Augusto Frederico. Poesias completas, 1928/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 476
Orides Fontela
Poemetos
a) manhã
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.
b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.
c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.
d) lua
Integralidade.
Fixidez.
e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.
f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.
g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.
h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...
i) vaso
mas incomunicante.
j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.
Publicado no livro Helianto (1973).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
Ninguém ainda. As rosas me saúdam
e eu saúdo o silêncio
das rosas.
b) ausência
Aqui ninguém
e nuvens.
c) ave
Asas suspensas em
instanteluz.
d) lua
Integralidade.
Fixidez.
e) Narciso
A flor a água a face
a flor a água
a flor.
f) primavera
Da não-espera
acontecem as
flores.
g) lago
Tensão
fria
da água: paz - em - ser.
h) espera
As janelas abertas.
A porta apenas encostada...
i) vaso
mas incomunicante.
j) fim
A ausência das rosas. O caminho
Já sem ninguém, para o silêncio.
Publicado no livro Helianto (1973).
In: FONTELA, Orides. Trevo, 1969/1988. Il. Mira Schendel. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 769
Audre Lorde
Encarando
chove há cinco dias
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
.
.
sem parar
o mundo é
uma poça redonda
de água nublada
onde pequenas ilhas
estão só começando
a encarar
um menino pequeno
está liberando água
do seu canteiro
quando eu pergunto por quê
ele me diz
que sementes novas que nunca viram o sol
esquecem-se
e afogam-se fácil
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Coping
Audre Lorde
It has rained for five days
running
the world is
a round puddle
of sunless water
where small islands
are only beginning
to cope
a young boy
in my garden
is bailing out water
from his flower patch
when I ask him why
he tells me
young seeds that have not seen sun
forget
and drown easily.
.
.
.
1 021
Afrânio Peixoto
Arte de Resumir
O ipê florido,
Perdendo todas as folhas,
Fez-se uma flor só.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
Perdendo todas as folhas,
Fez-se uma flor só.
In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
1 762
Sousa Caldas
Ode II [Oh! quanto és bela
Oh! quanto és bela
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Vermelha rosa,
Tu me retratas
Nise formosa.
Lindo botão
Vejo a teu lado,
Qual junto a Vênus
O Filho alado.
Ele de Nise
Me pinta a cor,
E o seu amável
Terno pudor.
Verdes espinhos,
Para defesa,
Te pôs em torno
A Natureza.
Tal a Razão,
Sempre adorável,
De Nise cerca
O peito afável:
Nele se enlaça,
Bem como a hera,
E seus desejos
Rege severa.
Quando no meigo
Seio de Flora
o orvalho atrais
Da roxa Aurora,
Sobre as mais flores
Beleza ostentas:
Delas o cetro
Ter representas.
Ah! quantas vezes
Da espécie humana
Julguei ser Nise
A Soberana.
Tão gentil rosto
Jamais a Terra
Viu; nele a força
D'Amor se encerra.
Ó Flor mimosa,
Quero colher-te,
E no meu peito
Sempre trazer-te.
Mas ah! depressa
Tu murcharás,
E imagens tristes
Me lembrarás.
Já de horror sinto
Torvar-se o spr'ito,
E o coração
Bater-me aflito.
A minha Nise
Também da Morte
Há de sentir
O duro Corte!
Fazei-a, ó Céus,
Ou menos bela,
Ou nunca a Morte
Possa vencê-la!
Poema integrante da série Odes Anacreônticas.
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
1 062
Sousa Caldas
Soneto VII - Aos Anos de uma Menina
Não creias, gentil Márcia, na pintura,
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armaram
Da cruenta, implacável, foice dura.
Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores, o pintaram;
E nem ser ele, ao menos acenaram,
Quem desenvolve as graças da figura.
Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:
Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.401. (Textos, 2)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
Com que malignos Gênios figuraram
O veloz Tempo, quando a mão lhe armaram
Da cruenta, implacável, foice dura.
Inimigo fatal da formosura,
Com fantásticas cores, o pintaram;
E nem ser ele, ao menos acenaram,
Quem desenvolve as graças da figura.
Qual cerrado botão de fresca rosa,
Que o ligeiro volver de um novo dia
Abre, e transforma em flor a mais mimosa:
Tal, a infantil beleza, inerte e fria,
De ano em ano se torna mais formosa,
E novo brilho, novas graças cria.
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.401. (Textos, 2)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
1 025
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nardo
Nardo
Pesado e denso,
Opaco e branco,
Feito
De obscura respiração
E de nocturno embalo.
Pesado e denso,
Opaco e branco,
Feito
De obscura respiração
E de nocturno embalo.
1 931
Jorge Luis Borges
Jardín
Zanjones,
sierras ásperas,
médanos,
sitiados por jadeantes singladuras
y por las leguas de temporal y de arena
que desde el fondo del desierto se agolpan.
En un declive está el jardín.
Cada arbolito es una selva de hojas.
Lo asedian vanamente
los estériles cerros silenciosos
que apresuran la noche con su sombra
y el triste mar de inútiles verdores.
Todo el jardín es una luz apacible
que ilumina la tarde.
El jardincito es como un día de fiesta
en la pobreza de la tierra.
Yacimientos del Chubut, 1922
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 36 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
sierras ásperas,
médanos,
sitiados por jadeantes singladuras
y por las leguas de temporal y de arena
que desde el fondo del desierto se agolpan.
En un declive está el jardín.
Cada arbolito es una selva de hojas.
Lo asedian vanamente
los estériles cerros silenciosos
que apresuran la noche con su sombra
y el triste mar de inútiles verdores.
Todo el jardín es una luz apacible
que ilumina la tarde.
El jardincito es como un día de fiesta
en la pobreza de la tierra.
Yacimientos del Chubut, 1922
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 36 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 843
Jorge Luis Borges
Barrio recuperado
Nadie vio la hermosura de las calles
hasta que pavoroso en clamor
se derrumbó el cielo verdoso
en abatimiento de agua y de sombra.
El temporal fue unánime
y aborrecible a las miradas fue el mundo,
pero cuando un arco bendijo
con los colores del perdón la tarde,
y un olor a tierra mojada
alentó los jardines,
nos echamos a caminar por las calles
como por una recuperada heredad,
y en los cristales hubo generosidades de sol
y en las hojas lucientes
dijo su trémula inmortalidad el estío.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 28 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
hasta que pavoroso en clamor
se derrumbó el cielo verdoso
en abatimiento de agua y de sombra.
El temporal fue unánime
y aborrecible a las miradas fue el mundo,
pero cuando un arco bendijo
con los colores del perdón la tarde,
y un olor a tierra mojada
alentó los jardines,
nos echamos a caminar por las calles
como por una recuperada heredad,
y en los cristales hubo generosidades de sol
y en las hojas lucientes
dijo su trémula inmortalidad el estío.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 28 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 584
Iacyr Anderson Freitas
Elegia
o inverno quer ficar contigo
neste jardim,
onde um velho dorme.
ainda não são seis horas
e a nuvem
que outrora te acusava
some no azul, desfeita
por teu brilho
que envelhece,
é certo,
sem o alarde
dos ventos mesmos
de outrora.
o que procura estar contigo
não te envolve:
espera, agudo, neste jardim
inaugural
entre formigas,
jornais
e o que resta de setembro.
vives uma infância transitória
e teus cabelos cingem,
na cintura, o esboço
de um adeus
que a tua própria ausência configura.
neste jardim,
onde um velho dorme.
ainda não são seis horas
e a nuvem
que outrora te acusava
some no azul, desfeita
por teu brilho
que envelhece,
é certo,
sem o alarde
dos ventos mesmos
de outrora.
o que procura estar contigo
não te envolve:
espera, agudo, neste jardim
inaugural
entre formigas,
jornais
e o que resta de setembro.
vives uma infância transitória
e teus cabelos cingem,
na cintura, o esboço
de um adeus
que a tua própria ausência configura.
820
Pereira da Silva
Uma Parábola
Esqueceu-me jamais essa Roseira.
Deu rosas brancas a existência inteira
E viveu, para nós, as alegrias
Das nossas noites e dos nossos dias.
Essa Roseira teve sempre rosas
Para as festas gentis ou religiosas
E nunca se esqueceu dos namorados
Ou de dar flores para os seus noivados.
Eu quero crer também que nunca houvesse
Enterramento humilde a que não desse,
Essa Roseira, a régia compostura
De suas rosas de imortal brancura.
Posso, entanto, afirmar que essa Roseira,
Porque deu flores a existência inteira,
Passou despercebida aos homens brutos
Como aos ladrões as árvores sem frutos...
Deu rosas brancas a existência inteira
E viveu, para nós, as alegrias
Das nossas noites e dos nossos dias.
Essa Roseira teve sempre rosas
Para as festas gentis ou religiosas
E nunca se esqueceu dos namorados
Ou de dar flores para os seus noivados.
Eu quero crer também que nunca houvesse
Enterramento humilde a que não desse,
Essa Roseira, a régia compostura
De suas rosas de imortal brancura.
Posso, entanto, afirmar que essa Roseira,
Porque deu flores a existência inteira,
Passou despercebida aos homens brutos
Como aos ladrões as árvores sem frutos...
893
Henrique Castriciano
Febre
Por toda a parte rosas brancas vejo...
Rosas na fímbria loira dos Altares,
Coroadas de amor e de desejo...
Rosas no céu e rosas nos pomares.
Uma roseira o mês de Maio. Aos pares
Surgem, da brisa ao tremulante arpejo,
Estrelas que recordam, sobre os mares,
Rosas envoltas num cerúleo beijo.
E quando Rosa, em cujo nome chora
Esta febre cruel que me devora,
De si me fala, em gargalhadas francas,
Muda-se em rosa a flor de meus martírios,
O som de sua voz, a luz dos círios...
O próprio Azul desfaz-se em rosas brancas.
Rosas na fímbria loira dos Altares,
Coroadas de amor e de desejo...
Rosas no céu e rosas nos pomares.
Uma roseira o mês de Maio. Aos pares
Surgem, da brisa ao tremulante arpejo,
Estrelas que recordam, sobre os mares,
Rosas envoltas num cerúleo beijo.
E quando Rosa, em cujo nome chora
Esta febre cruel que me devora,
De si me fala, em gargalhadas francas,
Muda-se em rosa a flor de meus martírios,
O som de sua voz, a luz dos círios...
O próprio Azul desfaz-se em rosas brancas.
1 838
J.Cardia
Bailarinos
Bailarinos
rodopiam
nus,
à brisa do lago
Nenúfares
rodopiam
nus,
à brisa do lago
Nenúfares
959
Jorge Luis Borges
Curso de los recuerdos
Recuerdo mío del jardín de casa:
vida benigna de las plantas,
vida cortés de misteriosa
y lisonjeada por los hombres.
Palmera la más alta de aquel cielo
y conventillo de gorriones;
parra firmamental de uva negra,
los días del verano dormían a tu sombra.
Molino colorado:
remota rueda laboriosa en el viento,
honor de nuestra casa, porque a las otras
iba el río bajo la campanita del aguatero.
Sótano circular de la base
que hacías vertiginoso el jardín,
daba miedo entrever por una hendija
tu calabozo de agua sutil.
Jardín, frente a la verja cumplieron
sus caminos los sufridos carreros
y el charro carnaval aturdió
con insolentes murgas.
El almacén, padrino del malevo,
dominaba la esquina;
pero tenía cañaverales para hacer lanzas
y gorriones para la oración.
El sueño de tus árboles y el mío
todavía en la noche se confunden
y la devastación de la urraca
dejó un antiguo miedo en mi sangre.
Tus contadas varas de fondo
se nos volvieron geografía;
un alto era «la montaña de tierra»
y una temeridad su declive.
Jardín, yo cortaré mi oración
para seguir siempre acordándome:
voluntad o azar de dar sombra
fueron tus árboles.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 91 e 92 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
vida benigna de las plantas,
vida cortés de misteriosa
y lisonjeada por los hombres.
Palmera la más alta de aquel cielo
y conventillo de gorriones;
parra firmamental de uva negra,
los días del verano dormían a tu sombra.
Molino colorado:
remota rueda laboriosa en el viento,
honor de nuestra casa, porque a las otras
iba el río bajo la campanita del aguatero.
Sótano circular de la base
que hacías vertiginoso el jardín,
daba miedo entrever por una hendija
tu calabozo de agua sutil.
Jardín, frente a la verja cumplieron
sus caminos los sufridos carreros
y el charro carnaval aturdió
con insolentes murgas.
El almacén, padrino del malevo,
dominaba la esquina;
pero tenía cañaverales para hacer lanzas
y gorriones para la oración.
El sueño de tus árboles y el mío
todavía en la noche se confunden
y la devastación de la urraca
dejó un antiguo miedo en mi sangre.
Tus contadas varas de fondo
se nos volvieron geografía;
un alto era «la montaña de tierra»
y una temeridad su declive.
Jardín, yo cortaré mi oración
para seguir siempre acordándome:
voluntad o azar de dar sombra
fueron tus árboles.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 91 e 92 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 668
Edgar Allan Poe
To
Sleep on, sleep on, another hour —
I would not break so calm a sleep,
To wake to sunshine and to show'r,
To smile and weep.
Sleep on, sleep on, like sculptured thing,
Majestic, beautiful art thou;
Sure seraph shields thee with his wing
And fans thy brow —
We would not deem thee child of earth,
For, O, angelic, is thy form!
But, that in heav'n thou had'st thy birth,
Where comes no storm
To mar the bright, the perfect flow'r,
But all is beautiful and still —
And golden sands proclaim the hour
Which brings no ill.
Sleep on, sleep on, some fairy dream
Perchance is woven in thy sleep —
But, O, thy spirit, calm, serene,
Must wake to weep.
Tamerlane
1833
I would not break so calm a sleep,
To wake to sunshine and to show'r,
To smile and weep.
Sleep on, sleep on, like sculptured thing,
Majestic, beautiful art thou;
Sure seraph shields thee with his wing
And fans thy brow —
We would not deem thee child of earth,
For, O, angelic, is thy form!
But, that in heav'n thou had'st thy birth,
Where comes no storm
To mar the bright, the perfect flow'r,
But all is beautiful and still —
And golden sands proclaim the hour
Which brings no ill.
Sleep on, sleep on, some fairy dream
Perchance is woven in thy sleep —
But, O, thy spirit, calm, serene,
Must wake to weep.
Tamerlane
1833
1 096
Ana Martins Marques
jardim
a mesa de lata
a cobra verde da mangueira
os canteiros bobos de manjericão
e mato
as rosas enrugadas como tias
atraindo formigas como xícaras mal lavadas
os brinquedos esquecidos
estragando-se de espaço
servidos todos de seu alimento
de sol e nuvem
Da série “Arquitetura de interiores”
a cobra verde da mangueira
os canteiros bobos de manjericão
e mato
as rosas enrugadas como tias
atraindo formigas como xícaras mal lavadas
os brinquedos esquecidos
estragando-se de espaço
servidos todos de seu alimento
de sol e nuvem
Da série “Arquitetura de interiores”
684
Edgar Allan Poe
To Helen [Sarah Helen Whitman
I saw thee once— once only — years ago:
I must not say how many — but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturned faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.
Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd— alas, in sorrow!
Was it not Fate, that, on this July midnight—
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven!— oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused— I looked—
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)
The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,
Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All— all expired save thee— save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes—
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them— they were the world to me!
I saw but them— saw only them for hours,
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten
Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a woe, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition; yet how deep—
How fathomless a capacity for love!
But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained;
They would not go— they never yet have gone;
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since;
They follow me— they lead me through the years.
They are my ministers — yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle —
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven — the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still — two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!
1850
I must not say how many — but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturned faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death —
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.
Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd— alas, in sorrow!
Was it not Fate, that, on this July midnight—
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven!— oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused— I looked—
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)
The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,
Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All— all expired save thee— save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes—
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them— they were the world to me!
I saw but them— saw only them for hours,
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten
Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a woe, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition; yet how deep—
How fathomless a capacity for love!
But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained;
They would not go— they never yet have gone;
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since;
They follow me— they lead me through the years.
They are my ministers — yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle —
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven — the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still — two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!
1850
1 838
Edgar Allan Poe
The Valley of Unrest
Once it smiled a silent dell
Where the people did not dwell;
They had gone unto the wars,
Trusting to the mild-eyed stars,
Nightly, from their azure towers,
To keep watch above the flowers,
In the midst of which all day
The red sunlight lazily lay.
Now each visitor shall confess
The sad valley's restlessness.
Nothing there is motionless-
Nothing save the airs that brood
Over the magic solitude.
Ah, by no wind are stirred those trees
That palpitate like the chill seas
Around the misty Hebrides!
Ah, by no wind those clouds are driven
That rustle through the unquiet Heaven
Uneasily, from morn till even,
Over the violets there that lie
In myriad types of the human eye-
Over the lilies there that wave
And weep above a nameless grave!
They wave: — from out their fragrant tops
Eternal dews come down in drops.
They weep: — from off their delicate stems
Perennial tears descend in gems.
1845
Where the people did not dwell;
They had gone unto the wars,
Trusting to the mild-eyed stars,
Nightly, from their azure towers,
To keep watch above the flowers,
In the midst of which all day
The red sunlight lazily lay.
Now each visitor shall confess
The sad valley's restlessness.
Nothing there is motionless-
Nothing save the airs that brood
Over the magic solitude.
Ah, by no wind are stirred those trees
That palpitate like the chill seas
Around the misty Hebrides!
Ah, by no wind those clouds are driven
That rustle through the unquiet Heaven
Uneasily, from morn till even,
Over the violets there that lie
In myriad types of the human eye-
Over the lilies there that wave
And weep above a nameless grave!
They wave: — from out their fragrant tops
Eternal dews come down in drops.
They weep: — from off their delicate stems
Perennial tears descend in gems.
1845
1 235
Edgar Allan Poe
To One in Paradise
Thou wast all that to me, love,
For which my soul did pine-
A green isle in the sea, love,
A fountain and a shrine,
All wreathed with fairy fruits and flowers,
And all the flowers were mine.
Ah, dream too bright to last!
Ah, starry Hope! that didst arise
But to be overcast!
A voice from out the Future cries,
"Onward!"- but o'er the Past
(Dim gulf!) my spirit hovering lies
Mute, motionless, aghast!
For, alas! alas! with me
The light of life is o'er!
"No more-- no more-- no more,"
(Such language holds the solemn sea
To the sands upon the shore)
Shall bloom the thunder-blasted tree
Or the stricken eagle soar!
And all my hours are trances,
And all my nightly dreams
Are where thy dark eye glances,
And where thy footstep gleams-
In what ethereal dances,
By what Italian streams.
Alas! for that accursed time
They bore thee o'er the billow,
From Love to titled age and crime,
And an unholy pillow!--
From me, and from our misty clime,
Where weeps the silver willow!
1834
For which my soul did pine-
A green isle in the sea, love,
A fountain and a shrine,
All wreathed with fairy fruits and flowers,
And all the flowers were mine.
Ah, dream too bright to last!
Ah, starry Hope! that didst arise
But to be overcast!
A voice from out the Future cries,
"Onward!"- but o'er the Past
(Dim gulf!) my spirit hovering lies
Mute, motionless, aghast!
For, alas! alas! with me
The light of life is o'er!
"No more-- no more-- no more,"
(Such language holds the solemn sea
To the sands upon the shore)
Shall bloom the thunder-blasted tree
Or the stricken eagle soar!
And all my hours are trances,
And all my nightly dreams
Are where thy dark eye glances,
And where thy footstep gleams-
In what ethereal dances,
By what Italian streams.
Alas! for that accursed time
They bore thee o'er the billow,
From Love to titled age and crime,
And an unholy pillow!--
From me, and from our misty clime,
Where weeps the silver willow!
1834
1 314