Poemas neste tema
Flores e Jardins
Angela Santos
Jardim das Delícias
Convido-te
a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea , perfeitos amores
Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.
Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida
Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas
Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.
a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea , perfeitos amores
Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.
Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida
Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas
Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.
1 049
Angela Santos
Cardos e Rosas
De
rosas e cardos se adornam os dias
na alegria exaltante, na duvida nascente
no querer desmedido, no desejo sem limite
na lúcida consciência de um amanhã
que não sabemos se vem…
De rosas e cardos se faz este amor
que dói com razão por se saber ser
tão perto e tão longe
tão tudo e tão nada
quando a mão estende para tocar
e sente que o longe lá está.......
De rosas e cardos são feitos meus dedos
buscando tocar com leveza de rendas
ou a fúria do bicho em seu cio aceso
um corpo amado num lugar que é lá.....
A alma se enche e esvazia assim....
o longe cansa-me, canso–me de mim
e desse grito aflito,
da busca incessante com que bordo meus dias,
dor de filigrana fina…. entrelaçada,
noites que desfio numa longa espera.
Ah! Cansa-me esse longe….quero repousar!
rosas e cardos se adornam os dias
na alegria exaltante, na duvida nascente
no querer desmedido, no desejo sem limite
na lúcida consciência de um amanhã
que não sabemos se vem…
De rosas e cardos se faz este amor
que dói com razão por se saber ser
tão perto e tão longe
tão tudo e tão nada
quando a mão estende para tocar
e sente que o longe lá está.......
De rosas e cardos são feitos meus dedos
buscando tocar com leveza de rendas
ou a fúria do bicho em seu cio aceso
um corpo amado num lugar que é lá.....
A alma se enche e esvazia assim....
o longe cansa-me, canso–me de mim
e desse grito aflito,
da busca incessante com que bordo meus dias,
dor de filigrana fina…. entrelaçada,
noites que desfio numa longa espera.
Ah! Cansa-me esse longe….quero repousar!
1 153
Angela Santos
Nuances
Sacudo
o sono dos meus olhos
a manhã aparece iluminada
e sinto-me inusitadamente serena.
Este sentir-me assim, está preso a outra razão
estar aqui e ser noutro lugar
o longe que não é longe
se perto do coração
E é tão perto que o sinto
que parece ter vivido aqui sempre ao meu lado
e um dia de repente
eu tivesse acordado, e sobre ele pousasse
aquele olhar de menino
que olha todas coisas com o seu primeiro olhar
É uma coisa bonita que cresce
e eu quero cuidar
como o jardineiro trata e cuida de uma flor.
E lindo mesmo é olhar, sentir e deixar brotar
nas suas subtis formas,
tons e nuances de cor
sem perguntar.. sem querer saber
como nasce, porque nasce
e cuidar apenas de a ver crescer.
o sono dos meus olhos
a manhã aparece iluminada
e sinto-me inusitadamente serena.
Este sentir-me assim, está preso a outra razão
estar aqui e ser noutro lugar
o longe que não é longe
se perto do coração
E é tão perto que o sinto
que parece ter vivido aqui sempre ao meu lado
e um dia de repente
eu tivesse acordado, e sobre ele pousasse
aquele olhar de menino
que olha todas coisas com o seu primeiro olhar
É uma coisa bonita que cresce
e eu quero cuidar
como o jardineiro trata e cuida de uma flor.
E lindo mesmo é olhar, sentir e deixar brotar
nas suas subtis formas,
tons e nuances de cor
sem perguntar.. sem querer saber
como nasce, porque nasce
e cuidar apenas de a ver crescer.
1 061
Angela Santos
Cama Lavada
Estendo-te
uma cama de orquídeas
e rosas
perfumo meu corpo com lavanda e jasmim
Estendo-te meus braços,
enlaças meu corpo de mulher e nos deitamos na cama
perfumada de aromas
o nosso e o das flores
Nessa cama lavada
lavaremos as feridas, do corpo e da alma
esqueceremos o tempo e o longe que faz doer
na celebração do amor
que quisemos e esperamos acontecer
Mergulhar no fundo do mar dos sentidos
esquecer o mundo que oprime a razão
e no enlace único
seremos raízes que se agarram firmes
a um mesmo chão.
uma cama de orquídeas
e rosas
perfumo meu corpo com lavanda e jasmim
Estendo-te meus braços,
enlaças meu corpo de mulher e nos deitamos na cama
perfumada de aromas
o nosso e o das flores
Nessa cama lavada
lavaremos as feridas, do corpo e da alma
esqueceremos o tempo e o longe que faz doer
na celebração do amor
que quisemos e esperamos acontecer
Mergulhar no fundo do mar dos sentidos
esquecer o mundo que oprime a razão
e no enlace único
seremos raízes que se agarram firmes
a um mesmo chão.
1 038
Angela Santos
Pedras Raras
Se
cuidarmos desse amor
com o cuidado que colocamos
nas flores delicadas e frágeis
ele vai florir
Se cuidarmos desse amor
e nele pomos o brilho de pedras raras
ele vai devolver aos olhos e ao coração
a luz que em nós se acendeu
Se esse amor foi plantado
por mão que não conhecemos
se tem brilho de safiras, opalas e ametistas
ele vai crescer e vai brilhar,
Deus sabe
se pelo resto das nossas vidas.
cuidarmos desse amor
com o cuidado que colocamos
nas flores delicadas e frágeis
ele vai florir
Se cuidarmos desse amor
e nele pomos o brilho de pedras raras
ele vai devolver aos olhos e ao coração
a luz que em nós se acendeu
Se esse amor foi plantado
por mão que não conhecemos
se tem brilho de safiras, opalas e ametistas
ele vai crescer e vai brilhar,
Deus sabe
se pelo resto das nossas vidas.
1 052
Angela Santos
Pêndulo
Se
o coração ensaia o movimento pendular
como o deter?
Se um coração se abre como se abre
Por que abre?
Como porta que se escancara
depois de fechada estar
ou flor desabrochando
à luz de um claro raiar..
assim é o amor
quando ao coração ordena
que viva seu compasso pendular
Coração pendular.. alma leve
olhos atentos às esquinas do tempo
onde imprevisível uma razão
vive a espreitar
E é de repente que desenhado surge
o sinuoso caminho,
o imprevisível gesto do desocultar,
trazendo à luz a razão maior
da pendular cadencia estancar.
o coração ensaia o movimento pendular
como o deter?
Se um coração se abre como se abre
Por que abre?
Como porta que se escancara
depois de fechada estar
ou flor desabrochando
à luz de um claro raiar..
assim é o amor
quando ao coração ordena
que viva seu compasso pendular
Coração pendular.. alma leve
olhos atentos às esquinas do tempo
onde imprevisível uma razão
vive a espreitar
E é de repente que desenhado surge
o sinuoso caminho,
o imprevisível gesto do desocultar,
trazendo à luz a razão maior
da pendular cadencia estancar.
1 400
António Lobo Antunes
Décimas para Gabriela
MOTE
A tua cor de canela
Me traz impressionado,
São os teus lindos cabelos
Em que me trago amarrado.
GLOSA
Tu és uma flor galante
Do reino de Alexandria,
Esta tua simpatia
É um jardim elegante.
Estes teus olhos brilhantes
É uma flor das mais belas.
Minha querida donzela,
Consagro meu coração
À tua linda feição,
À tua cor de canela.
Tu és uma linda rosa,
Um lírio bem cacheado,
Parece um cravo encarnado
A tua boca mimosa.
Tua face cor-de-rosa
Parece um reino encantado.
Há muitos dias passados,
Que sofro tamanha dor,
Porque este tão grande amor
Me traz impressionado.
Tu és um belo jasmin,
Uma açucena doirada,
Uma lapela bordada,
Tu és um verde alecrim,
Cravo branco do jardim,
Tens a cor que mais desejo.
De perder-te tenho medo,
Porque és um amor sem fim
E o que mais te prende a mim
São os teus lindos cabelos.
De ti não posso esquecer,
Em ti penso noite e dia,
Minha maior alegria
É estar contigo ao meu lado,
Em nosso leito, deitado,
Te acariciando com amor,
Cheirando a ti como à flor,
Matando assim meus desejos,
Enroscado em teus cabelos
Em que me trago amarrado.
(Lavras - Ceará, 1959)
A tua cor de canela
Me traz impressionado,
São os teus lindos cabelos
Em que me trago amarrado.
GLOSA
Tu és uma flor galante
Do reino de Alexandria,
Esta tua simpatia
É um jardim elegante.
Estes teus olhos brilhantes
É uma flor das mais belas.
Minha querida donzela,
Consagro meu coração
À tua linda feição,
À tua cor de canela.
Tu és uma linda rosa,
Um lírio bem cacheado,
Parece um cravo encarnado
A tua boca mimosa.
Tua face cor-de-rosa
Parece um reino encantado.
Há muitos dias passados,
Que sofro tamanha dor,
Porque este tão grande amor
Me traz impressionado.
Tu és um belo jasmin,
Uma açucena doirada,
Uma lapela bordada,
Tu és um verde alecrim,
Cravo branco do jardim,
Tens a cor que mais desejo.
De perder-te tenho medo,
Porque és um amor sem fim
E o que mais te prende a mim
São os teus lindos cabelos.
De ti não posso esquecer,
Em ti penso noite e dia,
Minha maior alegria
É estar contigo ao meu lado,
Em nosso leito, deitado,
Te acariciando com amor,
Cheirando a ti como à flor,
Matando assim meus desejos,
Enroscado em teus cabelos
Em que me trago amarrado.
(Lavras - Ceará, 1959)
1 180
Lígia Diniz
O que foi amor (não é mais)
Hoje preciso me lembrar de mim para penar em ti
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
1 030
Amadeu Fontana
Haicai
Despetala a rosa
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
o vento... Que desalento
na tarde chuvosa
Rosa, a rosa flor,
caída ao chão, esquecida,
lembra um pobre amor
933
Ricardo Akira Kokado
Verão
Dama-da-noite
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
sob o céu sem lume
argh, que perfume!
Mariposa entra
pousa perto da candeia
triângulo gris.
1 117
Jaumir Valença da Silveira
O papagaio
Não queres mais que me alisar as penas,
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
sabendo que de nada vale as ter.
Porquanto que em meu corpo são mais belas
e só o suave tacto é o que te espera.
De sensações esparsas me ofereço.
Do mundo que aprendi a olhar de lado
levanto as asas plenas da preguiça,
multicolor no abraço inconseqüente.
E oculto sério, na aridez do bico,
a força que o momento se consente.
Quem sabe, se tiveres muita sorte,
ou a perseverança de quem ama,
ou a vaidade que não tem remédio,
ouvirás de mim, após muito esforço,
um "meu amor" com um olhar que em si se perde.
Pois tudo é indiferente. O que me apraz
é a chuva que me chama e que me molha,
é o sol que me consola quando eu tremo,
e os frágeis girassóis bajuladores
que trazem, a cada dia, meu sustento.
838
Sosigenes Costa
Chuva de Ouro
As begônias estão chovendo ouro,
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
suspendidas dos galhos da oiticica.
O chão, de pólen, vai fincando louro
e o bosque inteiro redourado fica.
Dir-se-á que se dilui todo um tesouro.
Nunca a floresta amanheceu tão rica.
As begônias estão chovendo ouro,
penduradas dos galhos da oiticica.
Bando de abelhas através do pólen
zinindo num brilhante fervedouro,
as curvas asas transparentes bolem.
E, enquanto giram num bailado belo,
as begônias estão chovendo ouro.
Formosa apoteose do amarelo!
(1928)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 707
Jaumir Valença da Silveira
Late Spring
Amor de floração tardia
colhido ao chão das follhas secas.
Achado casulo de mim mesmo, seco,
fui ficando.
Eu já me despedia de meus anos.
Que já não há rubor nas entressafras,
veias, vias de memórias fracas.
Por que me permito?
Não das manhãs,
que o calor chega atrasado,
mas das tardes talvez,
que vai esfriando, mas fica morno,
morno - terno - e fica,
e fixa, dá calma
e alegria, doce, fragrante.
Destas horas fiz todos os meus dias.
E já não sei se vou, se vôo,
se parto.
Aparto as circunstâncias, ânsias
no meu em-torno.
Suspenso no que sinto e que repenso,
terçãs que desvanescem,
as horas crescem.
Nem todo amor negado às horas pena.
Açucenas. Lírios.
Não vale à alma o vale dos suplícios.
Deixa o aroma enevoar,
emudecer, entreabrir,
que eu sou todo a sombra da sombra,
senão luz própria sem fundo,
imagem que não existe
mas é tudo.
Há muito basta o gesto de sorrir.
Dá-me teus frutos...
é mais que eu merecia.
Amor de floração tardia.
colhido ao chão das follhas secas.
Achado casulo de mim mesmo, seco,
fui ficando.
Eu já me despedia de meus anos.
Que já não há rubor nas entressafras,
veias, vias de memórias fracas.
Por que me permito?
Não das manhãs,
que o calor chega atrasado,
mas das tardes talvez,
que vai esfriando, mas fica morno,
morno - terno - e fica,
e fixa, dá calma
e alegria, doce, fragrante.
Destas horas fiz todos os meus dias.
E já não sei se vou, se vôo,
se parto.
Aparto as circunstâncias, ânsias
no meu em-torno.
Suspenso no que sinto e que repenso,
terçãs que desvanescem,
as horas crescem.
Nem todo amor negado às horas pena.
Açucenas. Lírios.
Não vale à alma o vale dos suplícios.
Deixa o aroma enevoar,
emudecer, entreabrir,
que eu sou todo a sombra da sombra,
senão luz própria sem fundo,
imagem que não existe
mas é tudo.
Há muito basta o gesto de sorrir.
Dá-me teus frutos...
é mais que eu merecia.
Amor de floração tardia.
887
Jaumir Valença da Silveira
Matinal
Madrugada dada
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
ao firmamento.
O sol
vem trazido ao vento,
rosando o céu
e o roseiral.
Um tom maior
se eleva.
E leva, no colo,
o sonho dormido.
Manhã de novo,
o dia vem vindo.
Passa
o passaredo.
E o meu enredo
é passar
o passado
entre os dedos.
Dura a aurora
duradoura.
Doura
meu olhar.
Lacrimeja
o que a alma almeja.
Pois seja
o que Deus
desejar,
se é verdade
que Deus
deseja.
E apesar
de pesar
tanto a vida,
o meu canto
hoje eu vim
pra cantar.
1 058
Olga Savary
Gazel
De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 968
Florbela Espanca
Primavera
É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!
Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!
Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...
Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...
6 171
Florbela Espanca
Chopin
Não se acende hoje a luz... Todo o luar
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar,
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala...
Fique lá fora. Bem aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!
Entram falenas meio entontecidas...
Lusco-fusco... Um morcego, a palpitar,
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...
Mansinho... Roça os dedos p’lo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado!
E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira,
Vem para mim da escuridão da sala...
1 959
Raimundo Bento Sotero
Além do mal
Não levo em conta o mal que me fizeste,
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
1 062
Florbela Espanca
A Flor do Sonho
A Flor do Sonho alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou talvez, sina...
Ó Flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou talvez, sina...
Ó Flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh’alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
3 499
Carlos Drummond de Andrade
Poder do Perfume
Popular, a água florida.
O seu nome-roseira
já é flor e trescala
só de o ouvirmos na sala.
A excelsa brilhantina
em potes de Paris
embalsama noivados
no sofá dos sobrados.
Jiqui, perfume nobre,
há de estar bem à vista
entre jarro e bacia
da rural burguesia.
As botas onde o estrume
deixa visível marca,
em chegando à cidade,
cedem à amenidade
que os moços fazendeiros
sabem criar em volta
de um sólido namoro
de perfumes em coro.
Qual mais recendente
a sândalo e jasmim,
ele e ela, abraçados
em cheiros conjugados,
sem se tocarem (nada
autoriza a licença
do beijo corporal)
praticam sem detença
— ai! — o sexo aromal.
O seu nome-roseira
já é flor e trescala
só de o ouvirmos na sala.
A excelsa brilhantina
em potes de Paris
embalsama noivados
no sofá dos sobrados.
Jiqui, perfume nobre,
há de estar bem à vista
entre jarro e bacia
da rural burguesia.
As botas onde o estrume
deixa visível marca,
em chegando à cidade,
cedem à amenidade
que os moços fazendeiros
sabem criar em volta
de um sólido namoro
de perfumes em coro.
Qual mais recendente
a sândalo e jasmim,
ele e ela, abraçados
em cheiros conjugados,
sem se tocarem (nada
autoriza a licença
do beijo corporal)
praticam sem detença
— ai! — o sexo aromal.
668
Marta Gonçalves
Imagem
Vestida de branco, olho borboletas
voando flores vermelhas do jardim:
lagarta na folha do antúrio.
Há alguém na nuvem despertando o cansaço
das mãos.
voando flores vermelhas do jardim:
lagarta na folha do antúrio.
Há alguém na nuvem despertando o cansaço
das mãos.
1 080
Marta Gonçalves
Seis Cantos Para Zobeide
I
Na ilha, agapantos lilases partiam o corpo dormido no linear da manhã. A água batia nas pedras. Papagaios povoavam nuvens. Rostos idos com círios levavam louros. A videira esperava o fim da procissão.
II
Vestia de anjo em azul opaco. Pastilhas Valda no timbre da voz. A grinalda em Maria, rostos no altar. Balas de amêndoas. Balas de amêndoas.
III
Matizes da terra no linho formando flores. Flores bordadas no jogo sutil das mãos. Na mesa, a toalha, o ciclo, o desafio à vida. Cavalos de ferrugem arrastavam o corpo. Brancas as paredes e havia portas e janelas.
IV
O assobio chegava quando as nuvens desenhavam o céu. Dinossauros soterrados. Melodia é riso no lábio. Bicicletas vermelhas desciani a rua. A música de um tempo sem tempo. A canção de Zobeide ficou nos pés. No cisco do olho. A embarcação, a vela branca, levaram o azinhavre do piano. Faz silêncio na rua à direita.
V
As flores se vão sem sofrimentos. Fenecem ao oxigênio. O pássaro dorme no relâmpago. Foram calendários, a lágrima na face. O corvo espiava na cumeeira, escondia a luz da tarde. Na Matriz, gritavam teu nome. Era maio. Eram dálias amarelas. Tua roupa azul opaco. A grinalda. Maria. Amêndoas.
VI
Marinheiros vieram de Aldebarã, ungiram os olhos. Douraram o pente nos cabelos. Banharam as pálpebras com malva e fecharam o sol nas mãos. A quilha de açafrão esperava o óleo dos ossos. A cal da tarde marcou a eternidade. Vieram gralhas, o sino. Uma chuva de mariscos nos olhos. Escutei na pedra a voz de teus cantores dormindo o sono. Havia sementes de gergelim. Havia pergaminho nos olhos. O pássaro levando o adeus de maio.
Zobeide Gonçalves de Castro
08/06/1932 - 12/05/1996
O carínho de tua írmã poeta.
Na ilha, agapantos lilases partiam o corpo dormido no linear da manhã. A água batia nas pedras. Papagaios povoavam nuvens. Rostos idos com círios levavam louros. A videira esperava o fim da procissão.
II
Vestia de anjo em azul opaco. Pastilhas Valda no timbre da voz. A grinalda em Maria, rostos no altar. Balas de amêndoas. Balas de amêndoas.
III
Matizes da terra no linho formando flores. Flores bordadas no jogo sutil das mãos. Na mesa, a toalha, o ciclo, o desafio à vida. Cavalos de ferrugem arrastavam o corpo. Brancas as paredes e havia portas e janelas.
IV
O assobio chegava quando as nuvens desenhavam o céu. Dinossauros soterrados. Melodia é riso no lábio. Bicicletas vermelhas desciani a rua. A música de um tempo sem tempo. A canção de Zobeide ficou nos pés. No cisco do olho. A embarcação, a vela branca, levaram o azinhavre do piano. Faz silêncio na rua à direita.
V
As flores se vão sem sofrimentos. Fenecem ao oxigênio. O pássaro dorme no relâmpago. Foram calendários, a lágrima na face. O corvo espiava na cumeeira, escondia a luz da tarde. Na Matriz, gritavam teu nome. Era maio. Eram dálias amarelas. Tua roupa azul opaco. A grinalda. Maria. Amêndoas.
VI
Marinheiros vieram de Aldebarã, ungiram os olhos. Douraram o pente nos cabelos. Banharam as pálpebras com malva e fecharam o sol nas mãos. A quilha de açafrão esperava o óleo dos ossos. A cal da tarde marcou a eternidade. Vieram gralhas, o sino. Uma chuva de mariscos nos olhos. Escutei na pedra a voz de teus cantores dormindo o sono. Havia sementes de gergelim. Havia pergaminho nos olhos. O pássaro levando o adeus de maio.
Zobeide Gonçalves de Castro
08/06/1932 - 12/05/1996
O carínho de tua írmã poeta.
895
Sophia de Mello Breyner Andresen
Jardim Verde E Em Flor, Jardim de Buxo
Jardim verde e em flor, jardim de buxo
Onde o poente interminável arde
Enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
Voz onde o silêncio se embala,
Canta, murmura e fala
Dos paraísos desejados,
Cuja lembrança enche de bailados
A clara solidão das tuas ruas.
Onde o poente interminável arde
Enquanto bailam lentas as horas da tarde.
Os narcisos ondulam e o repuxo,
Voz onde o silêncio se embala,
Canta, murmura e fala
Dos paraísos desejados,
Cuja lembrança enche de bailados
A clara solidão das tuas ruas.
2 128
Maurício Batarce
Sonhador
Heis o sonhador...
O Sonhador imagina o céu
E navega na bruma;
O Sonhador vive no ar
E pensa saber amar.
Heis o Sonhador...
Heis o Sonhador
Que pensa nas flores frágeis e formosas;
Heis o Sonhador
Que caminha pelo campo em sorrisos;
Heis o Sonhador
Que confia em seus grandes amigos;
Heis o sonhador...
Heis o sonhador
Que insiste em sonhar;
Heis o sonhador
Que procura o momento de acordar...
O Sonhador imagina o céu
E navega na bruma;
O Sonhador vive no ar
E pensa saber amar.
Heis o Sonhador...
Heis o Sonhador
Que pensa nas flores frágeis e formosas;
Heis o Sonhador
Que caminha pelo campo em sorrisos;
Heis o Sonhador
Que confia em seus grandes amigos;
Heis o sonhador...
Heis o sonhador
Que insiste em sonhar;
Heis o sonhador
Que procura o momento de acordar...
1 022