Poemas neste tema

Flores e Jardins

Daniel Faria

Daniel Faria

Magoa ver a magnólia cair Acredita

O relâmpago vem

sobre ela.A tempestade.

As plantas são tão frágeis como as cabanas dos homens.

Somos muito frágeis os dois neste poema

com o relâmpago,a cabana,com a magnólia aos ombros

sem nenhum terreno pulmonar intacto

para depois de nos olharmos um de nós dizer
plantêmo-la aqui-aqui

é o meu pulso,a minha boca

é a retina com que procuras,é a madeira da porta

com que te fechas em casa.Prometo-te

eu nunca vou fechar os olhos

as mãos.

de Dos Líquidos (2000)

2 199
Barroso Gomes

Barroso Gomes

Primavera

Lua. Flor. Desmaio.
No vale da noite a pálida
lua, flor de maio.

1 089
Beatriz Alcântara

Beatriz Alcântara

Tiradentes

O perfume da dama da noite apouca
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.

990
Aymar Mendonça

Aymar Mendonça

Canto de Alma e Flores

Fantasio a alma
com o canto da consciência

Há pinheiros bordados na toalha
e perfume de hortênsias no jardim

No grito estridente do grilo
vão-se as horas
e num galho seco
a cotovia canta

Mas chega a noite
a chama da lamparina oscila
e na toalha
os pinheiros deixam cair folhas mortas

Amo esse quadro
esse recanto em que me escondo

E me preparo
para colher as flores da manhã.

936
Antônio Ribeiro da Costa

Antônio Ribeiro da Costa

Soneto

Em salva de esmeralda posta a neve,
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;

estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:

se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:

só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.

581
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Calendário

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias

de Reverberações (1976)

1 299
Friedrich Hölderlin

Friedrich Hölderlin

Metade da vida

Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a Lagoa.
Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.

 

Hälfte des lebens
Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.


– Friedrich Hölderlin. “Hälfte des Lebens”/”Metade da vida”, [tradução Manuel Bandeira]. in: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

904
Angela Santos

Angela Santos

Profecias

Vêm
de longe
e trazem nas mãos
o desenho da rosa

milénios sepultada nas mãos
a eterna forma da rosa
Vêm de longe
e sabem o nome de todas as coisas,
olhos de mar sereno
repousam no fundo de um sonho
antigo.

vêm de longe
e pelos caminhos há estrelas,
profetas do sol
espalham enigmas e gravam sinais.
nos templos, nos livros,
nos olhos de lume
que perscrutam cifras
dum tempo perene

insana tarefa
perdida na busca do sentido
vago
deste tempus breve.

783
Francis Ponge

Francis Ponge

A borboleta

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.
Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,
Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.
Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega, e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, ela vagabundeia pelo jardim.


(tradução: Adalberto Müller e Carlos Loria. Publicado em: Francis Ponge O PARTIDO DAS COISAS, S. Paulo, Iluminuras, 2000.)

:

Le papillon
Francis Ponge

Lorsque le sucre élaboré dans les tiges surgit au fond des fleurs, comme des tasses mal lavées, - un grand effort se produit par terre tous les Papillons tout à coup prennent leur vol.

Mais comme chaque chenille eut la tête aveuglée et laissée noire, et le torse amaigri par la véritable explosion d'où les ailes symétriques flambèrent,
Dès lors le papillon erratique ne se pose plus qu'au hasard de sa course, ou tout comme.
Allumette volante, sa flamme n'est pas contagieuse. Et d'ailleurs, il arrive trop tard et ne peut que constater les fleurs écloses. N'importe : se conduisant en lampiste, il vérifie la provision d'huile de chacune. Il pose au sommet des fleurs la guenille atrophiée qu'il emporte et venge ainsi sa longue humiliation amorphe de chenille au pied des tiges.

Minuscule voilier des airs maltraité par le vent en pétale superfétatoire, il vagabonde au jardin.

.
.
.
1 417
Miriam Paglia Costa

Miriam Paglia Costa

Coagulação do Instante

devo
ir, preciso ir, mas
a caminho
a flor do cacto
estrela presa em moitas do jardim

distraída planta
esquece o rabo fora da toca
e neva este verão
um floco
um floco só
na haste da escuridão

a flor e eu
a serena e a irritável
a que se cumpre e a que deseja
face a face
com grade de permeio
a do zoológico mira a do botânico
uma é estática
na outra, fluir repele o êxtase

a flor e eu, que
bicho hirsuto
porco-espinho
capivara
queixada perdida de seu bando
abrando
e, branda
doce
cega pelo branco
(estátua de osso
esquecido do esqueleto)
calço a alma da flor
e ando
729
Xue Tao

Xue Tao

Canção contemplando a primavera

(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
768
Barbara Guest

Barbara Guest

Uma razão

É por isso que estou aqui
não entre os íbis. Por que
a perene sombrinha da cidade
cobre até a mim.

Foram as chuvas
na estação oculta. Foram as neves
nas escarpas inferiores. Foi água
e neve na minha boca.

Uma falta de sapatos
sobre o que pareciam ser pedrinhas
que eram ainda antiguidade

Bom brava brava qualquer coisa
em bruto mais silente azul

o vaso prende os caules
pétalas caem o crisântemo escurece

Por vezes esta sensação mostarda
apanha a mim também. Meu sono se calcula
aos canudos

Contudo acordo
e me seguem pela rua.

:

A reason (in The Blue Stairs, 1968)

That is why I am here
not among the ibises. Why
the permanent city parasol
covers even me.

It was the rains
in the occult season. It was the snows
on the lower slopes. It was water
and cold in my mouth.

A lack of shoes
on what appeared to be cobbles
which were still antique

Well wild wild whatever
in wild more silent blue

the vase grips the stems
petals fall the chrysanthemum darkens

Sometimes this mustard feeling
clutches me also. My sleep is reckoned
in straws

Yet I wake up
and am followed into the street.

689
Barbara Guest

Barbara Guest

Lírios vermelhos

Alguém lembrou-se de secar a louça;
retiraram o acidente do fogão.
Depois, lírios para a janta; ali
as linhas diante da janela
esfregam-se à mesa de pedra

O papel alça voo
e aterrissa à medida que o vento
repete, repete seu canto de ave.

Aqueles braços sob o travesseiro
os braços que escavam que clivam na noite
enquanto o rebocador dá molde à água
chamando-se a si próprios de galhos

É você a árvore
a manta é o que a aquece
neve irrompe do cardo;
a neve derrama de você.

Uma mão fria sobre os pratos
colocando um pires dentro

dela que se despiu para a janta
flutuando aquele cabelo rumo à neve

apagou-se a luz-piloto
do fogão

O papel dobrou-se como um guardanapo
outras asas colidiram com a pedra.

:

Red lillies (in Moscow Mansions, 1973)

Someone has remembered to dry the dishes;
they have taken the accident out of the stove.
Afterwards lilies for supper; there
the lines in front of the window
are rubbed on the table of stone

The paper flies up
then down as the wind
repeats, repeats its birdsong.

Those arms under the pillow
the burrowing arms they cleave
at night as the tug kneads water
calling themselves branches

The tree is you
the blanked is what warms it
snow erupts from thistle;
the snow pours out of you.

A cold hand on the dishes
placing a saucer inside

her who undressed for supper
gliding that hair to the snow

The pilot light
went out of the stove

The paper folded like a napkin
other wings flew into the stone.


.
.
.


652
Ronald de Carvalho

Ronald de Carvalho

Écloga Tropical

Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,

Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.

O ar cheira a mel de abelhas...

E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).

In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
2 339
Manuel Alegre

Manuel Alegre

Flores para Coimbra

Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.

5 585
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Elegia de Taormina

A dupla profundidade do azul
Sonda o limite dos jardins
E descendo até à terra o transpõe.
Ao horizonte da mão ter o Etna
Considerado das ruínas do templo grego,
Descansa.

Ninguém recebe conscientemente
O carisma do azul.
Ninguém esgota o azul e seus enigmas.

Armados pela história, pelo século,
Aguardando o desenlace do azul, o desfecho da
[bomba,

Nunca mais distinguiremos
Beleza e morte limítrofes.
Nem mesmo debruçados sobre o mar de Taormina.

Ó intolerável beleza,
Ó pérfido diamante,
Ninguém, depois da iniciação, dura
No teu centro de luzes contrárias.

Sob o signo trágico vivemos,
Mesmo quando na alegria
O pão e o vinho se levantam.
Ó intolerável beleza
Que sem a morte se oculta.


Poema integrante da série Siciliana, 1954/1955.

In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 952
Márcia Fasciotti

Márcia Fasciotti

Beija-flor

Flor...
Flor que beija
Flor que deseja
O beijo do beija-flor
Que não a beija...
Ele voa
Desaparece, reaparece
E pousa em outra flor
Saudade - dor!!
Esperança perdida nos jardins,
Cravos, rosas
Margaridas e jasmins.
Voe e pouse em outra flor.
Sinta o perfume dela.
Leve seu pólen prá florir outra janela.
Traia todas as flores,
Com beijos de todas as cores...
Mas cumpra com seu dever...
Resgate o que cativou.
Faça renascer,
Desejo - beijo - flor,
Eu, você e o amor...
Beija!!! Flor...

1 189
Raquel Naveira

Raquel Naveira

Jasmim-do-Cabo

Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
aquela flor que perfuma,
embalsama,
derrama óleo grosso
nos pés da noite.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
o dia transcorreria em agonia,
mas a lua viria
desatar os laços da magia
e nos tiraria o fôlego.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
absorveríamos no pulmäo
uma torrente de pétalas brancas
e voaríamos como anjos
tocando banjos na noite.
(1994)

1 423
Gabriela Mistral

Gabriela Mistral

A flor do ar

Eu a encontrei por meu destino,
de pé a metade da pradaria,
governadora do que passe,
do que lhe fale e que a veja.

E ela me disse: "Sobe ao monte".
Eu nunca deixo a pradaria,
e me cortas as flores brancas
como neves, duras e delicadas".

Subi à acida montanha,
busquei as flores onde alvejam,
entre as rochas existindo
meio dormidas e despertas.

Quando desci com minha carga,
a encontrei a metade da pradaria.
e fui cubrindo-a frenética
com uma torrente de açucenas

e sem olhar-se a brancura,
ela me disse: "Tu carregas
agora só flores vermelhas.
Eu não posso passar a pradaria".

Subi as penas com o veado
e busquei flores de demência,
as que avermelham e parecem
que de vermelho vivam e morram

1 916
Rosani Abou Adal

Rosani Abou Adal

Semifusa de Pétalas

Se as rosas expressassem meus sentimentos,
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?

913
Maria Ângela Alvim

Maria Ângela Alvim

Há uma rosa caída

Há uma rosa caída
Morta
há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa

4 149
Afonso Duarte

Afonso Duarte

Canção de El-Rei Dinis

Maria: anda o gadinho a trabalhar
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.

Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".

El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",

Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.

A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?

1 498
Maria Teresa M. Carrilho

Maria Teresa M. Carrilho

Como uma flor vermelha, a abrir

Na noite pálida
e na madrugada
anunciada
sobressais tu,
meu amor

O riso e as lágrimas
envolventes
misturam-se
em catadupas quentes
e no meio do riso cheio
insolente até,
sobressais tu,
meu amor

Apologia, para quê?
tudo está concentrado
vivido
consumado
por causa de ti
e em ti,
meu amor

Contigo
o leito do rio distancia-se
e no meio
sobressais tu
no teu esplendor
como uma flor
plena e vermelha
a abrir...

789
Lenilde Freitas

Lenilde Freitas

A Sylvia Plath



Ouve os pombos, S...
o arrulho que eles fazem.
São sempre tão delicadas
as margaridas
e imprensada entre ladrilhos
cresce a grama.
Ouve os pombos, S...
se o tédio te aprisiona
entre estas asas úmidas
que não chegam às estrelas
nem vêem seu brilho.
Ouve, S... o arrulho que eles fazem.
Viver é doce. Cada dia tem seu som
cada som, sua gama.

974