Poemas neste tema

Flores e Jardins

Marcelo Perrone

Marcelo Perrone

Serás feliz

Far-te-ei muito feliz.Te darei tudo o que precisares.

Aguçarei meu faro para saciar tuas necessidades.antes que tu possas notá-las.

Saciarei tua fome com frutosda minha horta de amor que regasdiariamente com teu olhar.

Encherei nosso quarto de flores todas as noitesSó para ver-te saindo do banheiro de camisolaE quando fores deitar-te tomarás cuidado para não amarrotar as rosas.

Não morrerei por ti...Morrerei contigo.Assim abraçadinho.Pois não deixareinem a morte machucar-te.

Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-

1 011
Alfred Starr Hamilton

Alfred Starr Hamilton

Lençóis

Quão maravilhosamente a lua deveria ter sido engomada noite passada
E cuidadosamente mantida em seu lugar
E noite passada eu engomei a lua
E levantei o narciso de volta sobre o topo da margarida
E dobrei o narciso de volta sobre o topo da lua
E cuidadosamente levei a lua escada acima
E mantive a lua no armário de narcisos
A última vez que eu engomei a lua
:
Sheets
How wonderfully the moon was to have been ironed last night
And carefully kept the moon in its place
And last night I ironed the moon
And lifted the daffodil back on top of the daisy
And folded the daffodil back on top of the moon
And carefully carried the moon upstairs
And kept the moon in the daffodil closet
Last time I ironed the moon
636
Alfred Starr Hamilton

Alfred Starr Hamilton

Uma Cenoura

Eu queria encontrar um pouco de luz de vela no jardim
:
A Carrot
I wanted to find a little yellow candlelight in the garden.
1 069
Mirella Márcia

Mirella Márcia

Quarto Soneto

Os lírios que me vêem te olhar
Não sabem quando é noite ou quando é dia,
Nem sabem se é do sol ou do luar
A luz que os meus olhos extasia.

Os campos que me ouvem te chamar
Não lembram se é pranto ou melodia
Os sons que eu componho nesse mar
Remoto lá em minha fantasia.

De que valem todos esses campos?
De que vale no vale qualquer lírio,
Se não fia nem tece o teu rosto

Embuçado com os panos do delírio?
De que vale toda a natureza
Se eu já trago em mim tua beleza?

845
Manuel António Pina

Manuel António Pina

A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.
1 928
Vitor Casimiro

Vitor Casimiro

Um Dia Rosa, no Outro Pétala

PétalaVem ao chão.Do Chão não volta maisJamais esquece,A pétala,A chance valiosaDe ter sido,Um dia,Rosa.

941
Tânia Regina

Tânia Regina

Momentos

Flores esvoaçando,
Refratando meu olhar
Durante um momento efêmero
Decerto parecia perene até acabar

O meu coração
batia cada vez mais forte
E toda esse emoção
eu expressava chorando
sorrindo, pulando, cantando.
Pois já te avistava
Ao longo dessa noite
tão quente.

As estrelas irradiavam
Um brilho intenso
que apaziguavam minha alma
Naquele efêmero momento

Em minha mente
Cenas com você
Passavam como filmes
Filmes de eterno amor
Imenso amor.

Tão logo você se aproximou
Me envolvendo em seus braços
Justamente naquele momento efêmero
Que a pouco tinha sonhado.

815
Chico Noronha

Chico Noronha

Jacumã

antes que o orvalho lave teu rosto
colherei
flores do campo
e com elas prenderei
a rebeldia
de teus cabelos

913
Pat Lowther

Pat Lowther

Antes que chegue o demolidor

Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
Marque sua caixa: X
Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
297
Clicie Pontes

Clicie Pontes

Verão

Vestida de azul
Desaparece a menina...
Um jardim de hortênsias

1 070
Renato Rezende

Renato Rezende

O Anjo Na Calçada

Douradas, rosas, azuis

na calçada
duas pétalas de flor
como asas,

borboleta
crucificada
Boston, setembro 1990
1 044
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

ABC da Flor

Flor-abelha
Flor-alegria
Flor-alimento
Flor-amor
Flor-beleza
Flor-borboleta
Flor-colibri
Flor-orvalho
Flor-perfume
Flor-silêncio
Flor-sonho
Flor-vida,
Vida de flor.

1 819
Renato Rezende

Renato Rezende

Fin Du Siècle

Estamos na Europa, em la campagne.
E somos dois homens num bosque.
Caminhamos.

Na clareira perto de um riacho
encontramos
as flores mais lindas
(minúsculas, amarelinhas!)

O quê fazer?

a) colhê-las para um bouquet
b) fotografá-las como um japonês
c) deixá-las em paz (o meio ambiente!)

None of the above:
Passamos por cima, normal
silenciosamente.


França, verão 1988 -- Nova York, 7 de março 1996
724
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

No Jardim

De um em um
vou colhendo
os balõezinhos dos beijos.
Parecem cápsulas
estufadinhas
e ploc... plec ... ploc...
vão estalando,
como se fizessem
uma revolução
dentro da minha mão.

Tão pequeninas,
as sementes
são como pontinhos
e se espalham
tantas, tantas,
mais de um milhão.

— Sossega, Seu Balãozinho!
— Fiquem quietinhas!—
digo às sementinhas,
pois, no quintal
de meu vizinho
elas vão formar
um novo beijal.

849
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Eva

Quando Eva andava nua pelo paraíso,
disfarçava o tédio à sombra das árvores,
colhendo as flores, cheirando o seu perfume,
e pensando como seria bom ter um céu
para espreitar.
Um dia, uma dessas flores transformou-se
em fruto; e Eva levou-o à boca,
trincou-o, provou a sua polpa.
Por um estranho efeito
de causa e consequência, o sabor da maçã
obrigou Eva a cobrir a sua nudez
com folhas e flores, que passaram
a ser uma metáfora do corpo
que escondem.
Então, o pecado tornou-se uma simples
figura de retórica, e o sexo um exercício
de interpretação.
1 643
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

O Banho do Beija-Flor

De manhãzinha,
com o jardineiro
e sua mangueira,
vem o beija-flor.
Baila nos galhos,
baila, oscila e voa
em volta da roseira.

Brilha a alegria
em seus olhinhos.
Ergue as asas,
abre o bico,
engolindo pingos
e respingos
na delícia da água.

O peito sobe e desce
no côncavo de uma folha
— sua banheirinha.

Até que o sol vem
formando arco-íris
em sua plumagem
e ele flutua, fulgura,
beijando a luz.

884
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Poesia e Flor

Uma rosa de alegria
não pode durar um dia.

Um lírio de haste frágil
precisa de um braço ágil.

Margarida branca ou amarela
— exemplo de vida singela.

Um cravo não nos embala
só pelo perfume que exala.

Amor-perfeito, nome e flor
lembram um bem superior.

Nem tudo uma flor nos diz
apenas pelo seu matiz.

Cai a tarde, a noite vem
e a flor repousa também.

Veja a flor como é feliz
quando alimenta os colibris.

Anjos sobrevoaram a natureza
trazendo às flores beleza.

E nesse momento de amor
Deus uniu Poesia e Flor.

1 082
Cláudio Aguiar

Cláudio Aguiar

Três Sonetos Metafísicos

A José Bonifácio Câmara

I
Por que gostamos tanto do passado?
A interrogante leva-me a pensar
no segredo que fica em si guardado,
que não sei se algum dia vou achar.

Perdido na palavra ou termo dado,
sempre o presente vive a deslizar
em busca do impossível já pensado
ou do que não se pode desvendar:

os três instantes num sopro da vida,
que poderia até vê-la esquecida,
no que será ou já foi existente.

O melhor é não mais perder o tempo,
ainda que eu resuma num momento
o passado e o futuro no presente.

II

Quanto mistério tem a flor guardado,
pois, desde sempre, desafia a mente
dos que desejam descobrir o dado
oculto no desvão duma semente.

E como o pólen nela está cravado,
dele o áspide mau tira somente
o venenoso, enquanto o mel levado
por uma abelha logo se pressente.

Quem tudo sabe pouco talvez veja.
Quem nada sabe afronta sua verdade
ou seu direito de bem percebê-la.

Que o mistério segredo sempre seja
para que nunca o mal vença a bondade,
impondo a morte à vida sem querê-la.

III

Algo há nas flores que acalentam feras,
chamando abelhas vivas do sereno
para as tocarem, há perdidas eras,
nunca alterando forma nem aceno.

É preciso viver as primaveras
para sentir o gestual e ameno,
esforço feito, sol florindo esperas,
elaborando o bom mel e o veneno.

Há nelas algo que esconde o mistério,
fazendo com que a abelha encontre o mel
no mesmo pólen que o áspide tira

o veneno letal, momento sério,
grito de morte, do holocausto ao fel,
que cega os olhos, apagando a pira.

825
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

24 - O que nós vemos das coisas são as coisas.

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.


(Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
2 687
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

40 - Passa uma borboleta por diante de mim

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta.
No movimento da borboleta o movimento é que se move.
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.


07/05/1914 (Athena, nº 4, Janeiro de 1925)
2 994
José Bento

José Bento

Quem não sabe de amor

Quem não sabe de amor e seus efeitos·
não se intrometa e cale o que vier,
pois aqui só falamos com discretos.
Qualquer que o seja, ou sê-lo quiser,
terá licença de olhar minhas flores
e delas escolher as que quiser.
Mas os escrupulosos grunhidores
não quero nem consinto que as vejam,
pois não são para néscios os amores.
As damas e donzelas que desejam,
bem que não sendo belas, ser amadas,
sempre este livro leiam e revejam.
E as que de formosura são dotadas,
porque não basta só a formosura,
aqui verão mil graças derramadas.
Aqui não há enigmas nem figura,
rodeios, circunlóquios, indirectas,
mas claridade inteligente e pura.
Espero contentar mesmo as discretas;
e se alguma fugir de minhas flores,
é uma das mofinas indiscretas.
Se não, mostre-nos ela outras melhores,
ou, ao menos, confesse se na cama
contente ficaria com piores.
Termino com dizer que eu é que chamo
Jardim de Vénus a este meu livrinho,
no qual não acharão nem um só ramo
que não tenha de gozo algum pouquinho.
1 073
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ah querem uma luz melhor que a do sol!

Ah! querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!


12/04/1919
2 811
E. E. Cummings

E. E. Cummings

somewhere i have never travelled, gladly beyond

somewhere i have never travelled, gladly beyond

any experience,your eyes have their silence:

in your most frail gesture are things which enclose me,

or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me

though i have closed myself as fingers,

you open always petal by petal myself as Spring opens

(touching skilfully,mysteriously)her first rose

or if your wish be to close me, i and

my life will shut very beautifully ,suddenly,

as when the heart of this flower imagines

the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals

the power of your intense fragility:whose texture

compels me with the color of its countries,

rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes

and opens;only something in me understands

the voice of your eyes is deeper than all roses)

nobody,not even the rain,has such small hands

1 211
Renato Rezende

Renato Rezende

Perto, Na Suiça

Passeio pelo jardim florido
com um carrinho de criança, e a criança dorme.
Agora sou uma mãe de seios rosas
e isto é a Suíça.
Sento-me e medito
no mar infinito, nas águas
de um tempo esquisito
como se fora um passado
ainda a ser vivido.
A criança dorme, o céu está azul, azul
por trás de alguns pinheiros.
O dia está ameno, mas o coração humano
(mesmo o desta mãe que medita,
mesmo o desta criança tão bonita)
é sempre brasa e abismo.


Teresópolis, 8 de março 1998
930