Poemas neste tema
Flores e Jardins
Luís Vianna
DIA LINDO
Hoje estou feliz,
Por isto escrevo às flores.
Às flores que ofereço
Aos meus amores.
05/12/1995
Por isto escrevo às flores.
Às flores que ofereço
Aos meus amores.
05/12/1995
1 001
Marina Colasanti
Inquebrantada linhagem
Por onde vou, no jardim,
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
cato gravetos.
Antigo destino me leva a escolher
entre verdes
aquilo que está seco, ossos mortos
sem seiva
que a árvore abandona.
Nenhuma panela espera a magra chama
nenhum frio me obriga a essa colheita.
Vou de cabeça baixa
garimpando
e faço feixes que levarei às costas
ou nos braços
até lugar nenhum
apenas para juntar-me à fila interminável,
inquebrantada linhagem de fêmeas que
como formigas colhem
e levam
e colhem e levam
e colhem
porque esse é o seu lote.
963
Charles Bukowski
O Amante da Flor
nas Montanhas Valquíria
entre os pavões garbosos
encontrei uma flor
tão grande quanto minha
cabeça
e quando a apanhei para cheirá-la
perdi um lóbulo
parte do meu nariz
um olho
e meio maço de
cigarros.
retornei no
dia seguinte
para arrancar a maldita
mas
achei-a tão bonita
que resolvi
matar um
pavão
em seu lugar.
entre os pavões garbosos
encontrei uma flor
tão grande quanto minha
cabeça
e quando a apanhei para cheirá-la
perdi um lóbulo
parte do meu nariz
um olho
e meio maço de
cigarros.
retornei no
dia seguinte
para arrancar a maldita
mas
achei-a tão bonita
que resolvi
matar um
pavão
em seu lugar.
1 053
Alfonsina Storni
Vou dormir
Dentes de flores, cofia de sereno,
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...
3 438
Zoraida Díaz
Desejos
Onde estás alma minha
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?
Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.
Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.
Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?
Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.
Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.
Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!
430
Manuel Bandeira
Voz de Fora
Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...
Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!
A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.
Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...
Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.
Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...
Teresópolis, 1906
1 394
Marina Colasanti
JASMIM E JARRO CHINÊS
Ramos cortados de jasmim
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre o chão de pedra.
Ponho os ramos no jarro
de paisagem pintada
estrelas brancas
coroando a montanha
indigo blue.
E acendo a luz.
Cem watts de falso sol
aquecem o perfume.
verdes tranças de moça decepadas
e o perfume
o perfume no ar
como se altas acima
estivessem as flores
e não deitadas sobre o chão de pedra.
Ponho os ramos no jarro
de paisagem pintada
estrelas brancas
coroando a montanha
indigo blue.
E acendo a luz.
Cem watts de falso sol
aquecem o perfume.
1 008
Marina Colasanti
RED POPPY
Na testa do meu amado
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
924
Manuel Bandeira
Paráfrase de Ronsard
Foi para vós que ontem colhi, senhora,
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.
Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.
Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...
Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
Este ramo de flores que ora envio.
Não no houvesse colhido e o vento e o frio
Tê-las-iam crestado antes da aurora.
Meditai nesse exemplo, que se agora
Não sei mais do que o vosso outro macio
Rosto nem boca de melhor feitio,
A tudo a idade altera sem demora.
Senhora, o tempo foge... e o tempo foge...
Com pouco morreremos e amanhã
Já não seremos o que somos hoje...
Por que é que o vosso coração hesita?
O tempo foge... A vida é breve e é vã...
Por isso, amai-me... enquanto sois bonita.
1 277
Marina Colasanti
ORÁCULO E PRIMAVERA
Pessegueiros em flor, pessegueiros
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estremecendo as folhas
dos seus olhos?
Pessegueiros em flor, pessegueiros
se chover hoje à noite
sobre Delfos
a chuva terá gosto de sal
e amanhã entre as flores
cintilarão escamas.
Delfos 1988
que balançam cincerros no pescoço
entalhando a montanha
rumo ao mar.
Ou seriam as ovelhas que florescem
e balem estremecendo as folhas
dos seus olhos?
Pessegueiros em flor, pessegueiros
se chover hoje à noite
sobre Delfos
a chuva terá gosto de sal
e amanhã entre as flores
cintilarão escamas.
Delfos 1988
1 230
Pedro Xisto
uma flor de ameixa
uma flor de ameixa
amei: cheira a beatitude
(nunca o fogo a mexa)
1 370
Manuel Bandeira
Enquanto Morrem as Rosas
Morre a tarde. Erra no ar a divina fragrância.
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
Fora, a mortiça luz do crepúsculo arde.
Nas árvores, no oceano e no azul da distância
Morre a tarde...
Morrem as rosas. Minhas pálpebras se molham
No pranto das desesperanças dolorosas.
Sobre a mesa, pétala a pétala, se esfolham,
Morrem as rosas...
Morre o teu sonho?... Neste instante o pensamento
Acabrunha o meu ser como um pesar medonho.
Ah, por que temo assim? Dize: neste momento
Morre o teu sonho...
1 527
Marina Colasanti
DO MAIS VIRGEM
No vaso quadrado de vidro verde
quase negro
vaso que eu quis vaso
porque antes garrafa de azeite
do mais verde e virgem azeite da Toscana
e que depois vaso porque
se não o azeite de denso perfume
só flores podia conter
jasmim
mimosa
madressilva
no vaso de verde vidro negro, pois,
um ramo.
E a luz do abajur sobre os dois.
Arestas de mel contra o escuro
recorte de folhas no ar
pousada no nada
a asa
da flor.
quase negro
vaso que eu quis vaso
porque antes garrafa de azeite
do mais verde e virgem azeite da Toscana
e que depois vaso porque
se não o azeite de denso perfume
só flores podia conter
jasmim
mimosa
madressilva
no vaso de verde vidro negro, pois,
um ramo.
E a luz do abajur sobre os dois.
Arestas de mel contra o escuro
recorte de folhas no ar
pousada no nada
a asa
da flor.
1 103
Marcelo Reis
O Jardim
O Jardim
Um jardim tu procuras
Para repousar teus calos,
Teus sofrimentos.
Queres desaparecer pelas frestas da terra,
e alimentar uma flor
já que cansaste de nutrir o mundo.
E cansaste de forma tão trágica,
repentina.
Assim tu me esquartejas, poeta!
Ainda por cima quer um jardim
Um jardim em teu refúgio, em teu exílio.
Exílio que fizeste, pois nós te amávamos.
Teu jardim é quase impossível
Nessa cidade de mar imenso,
mas tão estranha a ti e a teus pares.
Volta para casa, cara.
Tu cantaste a tua vila,
não as ondas bravias do mar.
Aqui terá muitos jardins para escolher.
Os seres mágicos da relva
poderão te levar de jardim em jardim.
Aqui ainda são permitidos os pequenos obreiros.
Poderás cantar esta simplicidade.
Teu filho e teus órfãos hão de cantar junto.
Apesar do meu apelo, faça como quiseres.
Passarei sobre o gramado e as flores,
Onde quer que estejam,
no mar, na terra, no infinito céu,
o jardim cantará minha vida,
escalarei a tua "montanha mágica",
conterei o "vento no litoral",
e deixarei o sol bater em cheio na janela do meu quarto.
(para Renato Russo)
Um jardim tu procuras
Para repousar teus calos,
Teus sofrimentos.
Queres desaparecer pelas frestas da terra,
e alimentar uma flor
já que cansaste de nutrir o mundo.
E cansaste de forma tão trágica,
repentina.
Assim tu me esquartejas, poeta!
Ainda por cima quer um jardim
Um jardim em teu refúgio, em teu exílio.
Exílio que fizeste, pois nós te amávamos.
Teu jardim é quase impossível
Nessa cidade de mar imenso,
mas tão estranha a ti e a teus pares.
Volta para casa, cara.
Tu cantaste a tua vila,
não as ondas bravias do mar.
Aqui terá muitos jardins para escolher.
Os seres mágicos da relva
poderão te levar de jardim em jardim.
Aqui ainda são permitidos os pequenos obreiros.
Poderás cantar esta simplicidade.
Teu filho e teus órfãos hão de cantar junto.
Apesar do meu apelo, faça como quiseres.
Passarei sobre o gramado e as flores,
Onde quer que estejam,
no mar, na terra, no infinito céu,
o jardim cantará minha vida,
escalarei a tua "montanha mágica",
conterei o "vento no litoral",
e deixarei o sol bater em cheio na janela do meu quarto.
(para Renato Russo)
1 154
Marina Colasanti
CLARO ESCURO
São as folhas da gardênia
mais escuras que outras folhas?
Ou mais escuras parecem
porque à escura folha escura
se sobrepõe como um grito
o branco
da branca flor?
mais escuras que outras folhas?
Ou mais escuras parecem
porque à escura folha escura
se sobrepõe como um grito
o branco
da branca flor?
1 178
Sonia Mori
Outono
Ao longo da estrada
pinceladas rosas no verde
quaresmas... quaresmas...
pinceladas rosas no verde
quaresmas... quaresmas...
717
Machado de Assis
O Verme
Existe uma flor que encerra
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.52. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Celeste orvalho e perfume.
Plantou-a em fecunda terra
Mão benéfica de um nume.
Um verme asqueroso e feio,
Gerado em lodo mortal,
Busca esta flor virginal
E vai dormir-lhe no seio.
Morde, sangra, rasga e mina,
Suga-lhe a vida e o alento;
A flor o cálix inclina;
As folhas, leva-as o vento,
Depois, nem resta o perfume
Nos ares da solidão...
Esta flor é o coração,
Aquele verme o ciúme.
Publicado no livro Falenas: Vária, Lira Chinesa, Uma Ode a Anacreonte, Pálida Elvira (1870). Poema integrante da série Vária.
In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v.3, p.52. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
7 587
Manuel Bandeira
Sílvia Amélia
Tudo quanto é puro e cheira:
— Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Sílvia Amélia!
— Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Sílvia Amélia!
1 680
Marina Colasanti
DEPOIS, A ATERRISSAGEM
À noite
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
em terras de Amsterdam
brilham acesas
as estufas de flores,
Piscinas de luz
recortadas no negro
fundas águas de vidro,
eu as vejo do alto
desse avião que desliza
como um fuso
trazendo a madrugada.
Flutuam lá embaixo
pálidos crisântemos
pétalas
e o lento desdobrar das brotações.
Navegamos acima
desfeitos rostos
olheiras
o sono confrontado
com a noturna bandeja
do breakfast.
A manhã chegará em silêncio
quando tivermos sacudido migalhas.
E então veremos o mar
atrás dos diques
escuro
à espreita.
918
Manuel Bandeira
Rosa Francisca Adelaide
Francisca, Francisca,
Ai Rosa Francisca,
Francisca Adelaide!
Não queres ser Rosa,
Pois então, Francisca,
Me dá essa rosa:
À rosa mais limpa,
Mais escondidinha
— Rosa bonitinha —,
A única rosa
Em que para sempre,
À todo o momento,
De dia ou de noite,
Feliz, infeliz,
Ai Rosa Francisca,
Tenho o pensamento.
Ai Rosa Francisca!
Ai Rosa
Francisca
Adelaide!
Ai Rosa Francisca,
Francisca Adelaide!
Não queres ser Rosa,
Pois então, Francisca,
Me dá essa rosa:
À rosa mais limpa,
Mais escondidinha
— Rosa bonitinha —,
A única rosa
Em que para sempre,
À todo o momento,
De dia ou de noite,
Feliz, infeliz,
Ai Rosa Francisca,
Tenho o pensamento.
Ai Rosa Francisca!
Ai Rosa
Francisca
Adelaide!
795
Gerardo Mello Mourão
Olho com olho
Olho com olho
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas
Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro
Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim
caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias
Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio
E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas
Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro
Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim
caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias
Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio
E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.
1 194
Manuel Bandeira
Rosalina
Rosalina,
Rosa ou Lina?
Lina ou Linda?
Flor ainda!
Flor purpúrea,
Mais singela
Que Adozinda:
Rosalina!
Rosalinda!
Rosa ou Lina?
Lina ou Linda?
Flor ainda!
Flor purpúrea,
Mais singela
Que Adozinda:
Rosalina!
Rosalinda!
861
Marcelo Penido Silva
Na jardineira
Na jardineira, sepultadas flores
colhem o frio
da fachada.
E sustentados
pelos ares de varanda
os perfumes fluem
ao dique
das vidraças.
Dentro,
ante os olhares dos porta-retratos,
estão sem vida
as coloridas
sempre-vivas,
embalsamadas num reflexo
da mobília
encerada.
colhem o frio
da fachada.
E sustentados
pelos ares de varanda
os perfumes fluem
ao dique
das vidraças.
Dentro,
ante os olhares dos porta-retratos,
estão sem vida
as coloridas
sempre-vivas,
embalsamadas num reflexo
da mobília
encerada.
797
Mário Pederneiras
Trecho Final
Meia tinta de cor dos ocasos do Outono
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.
Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.
Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.
1 437