Poemas neste tema

Flores e Jardins

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora Negra Iii

Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
1 015
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Acima da verdade estão os deuses.

Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.


16/10/1914
2 032
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Só o ter flores pela vista fora

16/06/1914

Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve.

De todo o esforço seguremos quedas
As mãos, brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim.

Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas,

Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas carícias
Dos instantes volúveis.

Pouco tão pouco pesará nos braços
Com que, exilados das supernas luzes,
Escolhermos do que fomos
O melhor pra lembrar.

Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes de repente antigos,
E cada vez mais sombras,
Ao encontro fatal

Do barco escuro no soturno rio,
E os nove abraços do horror estígio,
E o regaço insaciável
Da pátria de Plutão.


16/06/1914
2 183
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Matisse em flor

O gerânio que
nesse quadro
está parado e cresce
é o mesmo que floresce em minha casa
nas casas todas
em que vivo
e vivi.
É o mesmo que pintei
e que a amiga levou para um país cinzento
o mesmo que Pavese nos deixou
comido pelo sol
e entregue ao vento.
Gerânio
mais que flor
cor plantada no vaso
na terra
na beira da janela
onde o sol bate
e a noite se enovela.

Teu gerânio, Matisse
eu o planto
e replanto
vida afora
tempo adentro
tirando as mudas
dos seus próprios caules
gerando nova planta onde outra morre
flor que se acende e apaga
como chama
e que se lança
seixo rolado
abrindo em meu olhar
giros concêntricos.
1 140
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - As rosas amo dos jardins de Adónis

As rosas amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Que em o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol, e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.


11/07/1914 (Athena, nº1, Outubro de 1924)
2 558
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Dama Melancólica

ela fica ali sentada
bebendo vinho
enquanto seu marido
está no trabalho.
ela considera
de suma importância
que seus poemas sejam
publicados
nas pequenas
revistas.
possui dois
ou três de pequenos
volumes de sua poesia
mimeografados.
tem dois ou
três filhos
com idades que vão
de 6 a 15.
já não é mais
a linda mulher que
costumava ser. manda
fotos em que aparece
sentada sobre uma pedra
junto ao oceano
sozinha e condenada.
podia ter estado com ela
uma vez. me pergunto
se ela acha que eu
poderia
salvá-la?

em todos os seus poemas
seu marido jamais
é mencionado.
mas costuma
falar sobre seu
jardim
assim sabemos que está
lá, de alguma maneira,
e que talvez ela
trepe com os botões de rosa
e os tentilhões
antes de escrever
seus poemas.
1 163
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Casa di campo nei tropici

Se una volta non vengo
se ne va tutto in fumo
il giardino
il prato
e l’ordine curato.
Dietro al profumo
c’è la selva
in agguato.
1 043
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Mais que o pólen

Olho as abelhas
empenhadas nas flores.
Que gosto sentem elas
me pergunto.
Talvez não seja gosto
o que as atrai
talvez nas asas
nas patinhas
nos infinitos pelos
do seu corpo
estejam
mais que pólen
armazenando o perfume.
1 072
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Variação sobre rosas

Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.




Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 15 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 543
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Centro da Aparência

Repousa no espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.

Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?

Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
989
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
1 277
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Círculo Cego

Uma linha expressa a cor e o som
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.

O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.

Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
1 106
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flor que não dura

Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.


1924
3 916
Ai Qing

Ai Qing

Mensagem do Sol

Janelas, abri-vos!
Portas, abri-vos!
Deixai-me entrar, deixai-me entrar,
Deixai-me pôr os pés na vossa casa humilde.
Entro com ramos de flores douradas,
Entro com a fragrância fresca da floresta,
Entro com a luz e o calor,
Entro com o corpo molhado de orvalho.
Levantai-vos, depressa!
Erguei as cabeças da almofada,
Abri os olhos estremunhados,
Para presenciar a minha chegada.
Abre-me os corações, casa humilde, construída de tábuas.
Abre-me as janelas de há muito fechadas,
Deixa-me encher os teus corações de flores, fragrância, luz,
[calor e orvalho.
14 de Junho de 1942
.
.
.
1 137
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A mão invisível do vento

A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.

Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.


30/01/1921
4 328
João Apolinário

João Apolinário

ecologia lírica

A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor

até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____

O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____

Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____

A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____

Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca

Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser

o que já é
____

O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____

Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce

1 208
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flores amo, não busco. Se aparecem

Flores amo, não busco. Se aparecem
Me agrado ledo, que há em buscar prazeres
        O desprazer da busca.
A vida seja como o sol, que é dado,
Nem arranquemos flores, que, arrancadas
        Não são nossas, mas mortas.
1 320
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Junto ao retrato

era vermelha a rosa
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.

"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia 
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.

uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar, 
junto ao retrato. 
2 256
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Borges e as rosas

sonhou as rosas, rosas de ninguém
de substâncias de sombras evanescentes,
e na roda das pétalas ausentes
ficou o olhar perdido, no vaivém
 
das brisas no jardim do esquecimento.
tinham carne de noite e de perfume
e tacteou-as devagar, o gume
afiou-se num macio desalento
 
de lhes ter dado o nome: rosas, rosas
factícias alastrando o seu vermelho
de golfadas de sangue ao vão do espelho
das águas e das luas ardilosas.
 
e soube que o real era essa imagem
devolvida no espelho, de passagem.
2 153
Áurea de Arruda Féres

Áurea de Arruda Féres

Verão

Parece tarrafa
o teto do pescador
com a chuva de pedra!

Num vaso solitário
perfuma toda a sala
um único jasmin.

1 049
Áurea de Arruda Féres

Áurea de Arruda Féres

Outono

Plena floração.
Paineira ondula faceira
rosada de emoção!

911
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nova Rua São José

Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.

Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.

De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.

É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.

Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.

A flor, em flor, na rua — que convite
ao passante angustiado: “Para um pouco.
Dez ou quinze minutos de far niente
e voltarás depois ao mundo louco.

Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.

Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.

Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei”.

Assim murmura a flor, e corre a brisa,
“Apoiado”, ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar

(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.

11/08/1973
1 148
Cláudio Ferro

Cláudio Ferro

O Vento Leve

O vento breve,
assim tão leve,
carregou a flor.
Ai! Que dor!
Sem detê-lo,
ou tê-la ao zelo,
penso:
O amor é grande besteira.
De todas, a maior asneira,
que os meus olhos vêem.
Que os meus olhos vêem?
Que será aquilo?
Que doce cor!
Que belo perfume!
Que Flor!
E se for?
Será o fim deste azedume?
05 de Junho de 1997 01:36

888
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Roseiral que não dás rosas

Roseiral que não dás rosas
Senão quando as rosas vêm,
Há muitas que são formosas
Sem que o amor lhes vá bem.
1 548