Poemas neste tema
Filhos
Affonso Romano de Sant'Anna
Austin, 1976
E como caminhássemos à beira-rio no entardecer
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
e a filha menor nos perguntasse
se antes de nascer
já nos amávamos à beira-rio
minha mulher
se adiantou
– Sim, filha, a gente se amou
à beira desse e de outros rios
antes
e depois de você
e, sobretudo, sem rio.
1 150
Charles Bukowski
Pobre Noite
acho que estou no primeiro
período a seco da minha vida.
chegando aos 62
a gente teme a senilidade e
um fim
para a sorte.
bebo devagar
dois grandes copos de vinho
e encaro
a página em branco.
sempre veio com tamanha
facilidade.
sempre dei risada dos
escritores que proclamavam que
a criação era
dolorosa.
mudo de estação
no rádio, sirvo-me de
mais vinho.
"papai", ela abre a
porta, "você tem
fósforos?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uns
livros.
ela sai.
Henry Miller está morto.
Saroyan. Jeffers.
Nelson Algren.
Todos eles já estão mortos
há um bom tempo.
"papai", ela volta,
"esta caneta que estou usando é
horrível. você tem alguma
outra caneta?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uma caneta
boa.
"há fumaça demais
nesta sala!"
ela abre a janela.
"você devia deixar um pouco
dessa fumaça sair!"
"você tem razão",
eu digo.
ela sai
e eu gosto da sua
preocupação.
mas então eu estou só
com minha página em branco
outra vez.
a) então
escrevi tudo isso para
preencher o espaço
em branco.
b) então chegou a decisão
de rasgar tudo ou
guardar.
c) será que
fiz
a coisa certa?
período a seco da minha vida.
chegando aos 62
a gente teme a senilidade e
um fim
para a sorte.
bebo devagar
dois grandes copos de vinho
e encaro
a página em branco.
sempre veio com tamanha
facilidade.
sempre dei risada dos
escritores que proclamavam que
a criação era
dolorosa.
mudo de estação
no rádio, sirvo-me de
mais vinho.
"papai", ela abre a
porta, "você tem
fósforos?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uns
livros.
ela sai.
Henry Miller está morto.
Saroyan. Jeffers.
Nelson Algren.
Todos eles já estão mortos
há um bom tempo.
"papai", ela volta,
"esta caneta que estou usando é
horrível. você tem alguma
outra caneta?"
"com certeza", eu digo e
lhe passo uma caneta
boa.
"há fumaça demais
nesta sala!"
ela abre a janela.
"você devia deixar um pouco
dessa fumaça sair!"
"você tem razão",
eu digo.
ela sai
e eu gosto da sua
preocupação.
mas então eu estou só
com minha página em branco
outra vez.
a) então
escrevi tudo isso para
preencher o espaço
em branco.
b) então chegou a decisão
de rasgar tudo ou
guardar.
c) será que
fiz
a coisa certa?
1 049
Charles Bukowski
4 Quarteirões
levei minha filha de carro até o auditório da escola
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
onde sua mãe deveria encontrá-la
as 5 da tarde.
eu a deixei descer do carro
e ela enfiou a cabeça pela janela
e me beijou
como sempre fazia.
ela estava com 8 anos. eu com 52.
duas mulheres gordas ficaram nos observando.
eu acenei até logo para minha filha
e enquanto ela caminhava até a entrada
uma das mulheres gordas perguntou-lhe,
"espere um minuto, quem era esse homem?"
e ela respondeu, "esse é meu pai".
então uma das gordas correu na minha direção:
"espere um minuto, pode me dar uma carona, só 4
quarteirões?"
"meu carro é muito sujo", eu disse.
"não quero me intrometer", ela disse,
entrando.
"é só seguir pela rodovia. não é longe."
segui pela rodovia.
"Marina", ela disse, "é uma menina muito boa, nós
todas gostamos de Marina."
"sim", eu disse, "ela é uma garota muito quieta e
educada."
"sim," ela respondeu, "sim, ela é."
"costumo ser muito quieto e atencioso também",
eu disse.
"bem", ela respondeu, "acho que se você não se
elogiar, então ninguém vai fazer isso, hahaha!"
"está ventando muito hoje", eu disse.
"agora", ela disse, "vá dois quarteirões para o norte, então vire
à direita."
"tudo certo", eu disse, "vou fazer."
"espero", ela disse, "que não o esteja levando para muito longe
do seu caminho. espero não estar me
intrometendo.
"a senhora conheceu a mãe de Marina?", eu perguntei.
"ah, sim", ela disse, "é uma pessoa adorável, mesmo,
uma pessoa adorável."
"tem certeza de que mais ninguém vai?" eu perguntei.
"vai o quê?", ela perguntou.
"elogiar você se você não se elogiar a si mesmo", eu
respondi.
"bem", ela disse, "são mais 3 quarteirões,
então o senhor dobra à direita."
eu subi 3 quarteirões e dobrei à
direita.
"agora", ela disse, "está vendo esse caminhão com a porta
bem aberta?"
"estou vendo", eu disse.
"é só o senhor parar bem ao lado do caminhão e eu
desço do carro."
estacionei ali e ela desceu
do carro.
"com certeza quero lhe agradecer", ela disse,
"e espero não me haver
intrometido."
"eu a vejo por aí", eu disse.
"cuide-se bem."
eu segui em frente e entrei de novo à direita
em uma rua de mão única. o oceano estava
lá. não havia nenhum veleiro
à vista. vagamente eu pensei em
peixes voadores
e os dispensei como um mito.
fiz o balão
na primeira oportunidade
e segui de volta
para Los Angeles.
1 018
Charles Bukowski
Outra das Minhas Críticas
não escrevo um bom poema
há semanas. ela tem 15
e entra.
"seu filho da mãe, quando é que você vai
sair da cama?"
são dez para o meio-dia
então eu me levanto e vou até a máquina de escrever.
ela entra com um boné de beisebol dos Yankees e
me encara.
"NÃO ME ENCHE?", eu grito. "EU ESTOU ESCREVENDO!"
"imbecil", ela diz e sai da sala.
olhando para aquela página de papel em branco
começo a achar que alguns dos meus críticos têm
razão.
ela entra de novo na sala e olha para
mim.
"babaca", ela diz, "olá, babaca."
eu a ignoro.
ela chega perto e puxa a minha barba.
"ei, quando é que você vai tirar essa máscara?
estou cheia dessa máscara."
em seguida ela vai ao banheiro
e com a porta aberta ela caga na privada.
ela se esforça: "urrg, urrg, urrg..."
dou uma olhada.
"ouça, você supostamente deveria
fechar a porta do banheiro quando você faz isso."
"bem, então feche, panaca", ela diz.
levanto e fecho a porta.
conheço um escritor que gastou 2 mil dólares
para ter um quarto revestido de cortiça para
ele mas isso não adiantou nada para melhorar seu
trabalho. acho que vou tentar a sorte
desse jeito.
há semanas. ela tem 15
e entra.
"seu filho da mãe, quando é que você vai
sair da cama?"
são dez para o meio-dia
então eu me levanto e vou até a máquina de escrever.
ela entra com um boné de beisebol dos Yankees e
me encara.
"NÃO ME ENCHE?", eu grito. "EU ESTOU ESCREVENDO!"
"imbecil", ela diz e sai da sala.
olhando para aquela página de papel em branco
começo a achar que alguns dos meus críticos têm
razão.
ela entra de novo na sala e olha para
mim.
"babaca", ela diz, "olá, babaca."
eu a ignoro.
ela chega perto e puxa a minha barba.
"ei, quando é que você vai tirar essa máscara?
estou cheia dessa máscara."
em seguida ela vai ao banheiro
e com a porta aberta ela caga na privada.
ela se esforça: "urrg, urrg, urrg..."
dou uma olhada.
"ouça, você supostamente deveria
fechar a porta do banheiro quando você faz isso."
"bem, então feche, panaca", ela diz.
levanto e fecho a porta.
conheço um escritor que gastou 2 mil dólares
para ter um quarto revestido de cortiça para
ele mas isso não adiantou nada para melhorar seu
trabalho. acho que vou tentar a sorte
desse jeito.
1 034
Charles Bukowski
Embaçado
fui ver minha filha.
ela está com 11 anos e havia acabado de
tomar banho e estava se
vestindo no banheiro de modo que eu não
a visse, e sua
mãe disse, "você sabe, você gosta
de fazer um enorme drama sobre
essa coisa das suas mulheres,
você adora isso, você adora que elas
briguem e berrem por
você, você acha isso engraçado,
não é?"
"ora, querida...", eu disse.
"algum dia uma mulher vai
enfiar uma faca em seu coração,
você vai ser morto e
enquanto estiver morrendo você vai
dizer, "você enfiou essa coisa
em mim depressa demais!"
minha filha saiu, toda
vestida, e eu disse à mãe dela
que a traria de volta em
3 horas.
a umas 4 milhas de distância achamos
um lugar para comer.
minha filha pediu um hambúrguer
e leite.
eu pedi camarão frito com
sopa, fritas, mais café.
comemos, dei gorjeta para a garçonete,
paguei no caixa, depois
saímos e entramos em meu
carro. era um dia escuro, com nuvens
baixas, não dava para ver nenhum
sol. "sua mãe", eu lhe disse
enquanto íamos embora, "não passa
de uma sabe-tudo."
ela está com 11 anos e havia acabado de
tomar banho e estava se
vestindo no banheiro de modo que eu não
a visse, e sua
mãe disse, "você sabe, você gosta
de fazer um enorme drama sobre
essa coisa das suas mulheres,
você adora isso, você adora que elas
briguem e berrem por
você, você acha isso engraçado,
não é?"
"ora, querida...", eu disse.
"algum dia uma mulher vai
enfiar uma faca em seu coração,
você vai ser morto e
enquanto estiver morrendo você vai
dizer, "você enfiou essa coisa
em mim depressa demais!"
minha filha saiu, toda
vestida, e eu disse à mãe dela
que a traria de volta em
3 horas.
a umas 4 milhas de distância achamos
um lugar para comer.
minha filha pediu um hambúrguer
e leite.
eu pedi camarão frito com
sopa, fritas, mais café.
comemos, dei gorjeta para a garçonete,
paguei no caixa, depois
saímos e entramos em meu
carro. era um dia escuro, com nuvens
baixas, não dava para ver nenhum
sol. "sua mãe", eu lhe disse
enquanto íamos embora, "não passa
de uma sabe-tudo."
733
Luiza Neto Jorge
A Divisibilidade: a Invisibilidade a Dois
A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
1 404
Vasco Graça Moura
Para uma canção de embalar
embalo a minha filha joana que acordou num berreiro.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.
levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.
oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras,
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.
oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.
lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada,
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme,
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos»,
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo
e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá,
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida,
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.
levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.
oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras,
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.
oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.
lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada,
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme,
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos»,
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo
e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá,
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida,
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez.
2 582
Fernando Assis Pacheco
Chula das fogueiras
Amor amor meu big amor
eu dizia shazam e tu não me ligavas
pus Mandrake a seguir-te hábil nos truques
e tu não me ligavas
em qualquer planeta verde e avançadíssimo
tu não me ligavas
estendi o meu braço Homem de Borracha até S. Martinho do Bispo
e tu não me ligavas ponta nenhuma
tu querias era casar na Sé Nova
branquingénua abusar do meu livre alvedrio
fiz-te pois um manguito do tamanho dum choupo
e cá estou pai de filhos um bocado estragado
mas não por tua causa que já não existes
ó sombra de sombra à esquina da farmácia
1 372
Luciano Matheus Tamiozzo
Anjinho
Uma fraca luminosidade
Adentra à porta
Então sorrateiramente
Da cama se aproxima.
Mamãe ao ver pergunta
Em um tom terno e afetivo:
Ainda não dormiu, meu anjinho?
Adentra à porta
Então sorrateiramente
Da cama se aproxima.
Mamãe ao ver pergunta
Em um tom terno e afetivo:
Ainda não dormiu, meu anjinho?
952
António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
705
1
Nelly Sachs
CINGIDA JÁ PELO BRAÇO DO CONSOLO CELESTE
Eis a mãe enlouquecida,
Com os farrapos de sua razão estraçalhada,
Com o rastilho de sua razão incinerada,
Deitando no caixão sua criança morta,
Deitando no caixão sua luz perdida,
Curvando as mãos em cântaros,
Enchendo-os de ar com o corpo de sua criança,
Enchendo-os de ar com seus olhos, seus cabelos,
E seu coração esvoaçante –
Depois, beija o que nasceu do ar
E morre!
Com os farrapos de sua razão estraçalhada,
Com o rastilho de sua razão incinerada,
Deitando no caixão sua criança morta,
Deitando no caixão sua luz perdida,
Curvando as mãos em cântaros,
Enchendo-os de ar com o corpo de sua criança,
Enchendo-os de ar com seus olhos, seus cabelos,
E seu coração esvoaçante –
Depois, beija o que nasceu do ar
E morre!
698
Aldir Blanc
Hefesto
Um dia inteiro
para
em queda livre
beijar o solo.
No tempo mitológico
o dia é a vida.
Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.
para
em queda livre
beijar o solo.
No tempo mitológico
o dia é a vida.
Os filhos que ficam
grudados na mãe
passam toda a vida
caindo.
1 617
Fernando Pessoa
VIII - Scarce five years passed ere I passed too.
Scarce five years passed ere I passed too.
Death came and took the child he found.
No god spared, or fate smiled at, so
Small hands, clutching so little round.
Death came and took the child he found.
No god spared, or fate smiled at, so
Small hands, clutching so little round.
3 644
Luiza Neto Jorge
As Revoluções da Matéria
A divisibilidade: A visibilidade a dois
A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também.Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos.Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também.Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos.Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
de O Seu Tempo a Seu Tempo
1 823
Renato Castelo Branco
O Esperado
para meu neto Rodrigo
Só agora você chegou
de uma espera de milênios.
Só agora você chegou
de regiões ignotas
perdido em mundos misteriosos.
Só agora você chegou
do fundo da História
para preencher seu lugar
entre nós.
Mas eu lhe esperava
desde o começo da vida,
elo a ser preenchido
em infinita cadeia
de ancestrais.
Agora você está aqui
conosco
parte de nossa vida
e de nossa eternidade.
Só agora você chegou
de uma espera de milênios.
Só agora você chegou
de regiões ignotas
perdido em mundos misteriosos.
Só agora você chegou
do fundo da História
para preencher seu lugar
entre nós.
Mas eu lhe esperava
desde o começo da vida,
elo a ser preenchido
em infinita cadeia
de ancestrais.
Agora você está aqui
conosco
parte de nossa vida
e de nossa eternidade.
912
Hermes Vieira
Trovador da Roça
Eu sou fio do alto do sertão
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.
Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquistei.
Muitos tigre valente, na floresta,
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.
Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.
Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquistei.
Muitos tigre valente, na floresta,
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.
Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.
1 048
Madi
Espelho
Espelho
Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível
Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível
920
Mafalda Veiga
Dança da terra
Ai esta terra arde
É uma fogueira
Não há quem a salve
De ruir inteira
Ai o sonho morre
Amordaçado
Já nem parece
Ter-se sonhado
Ai esta terra lembra
Cada madrugada
Em que o desalento
Tem sabor a nada
Ai o sonho morre
Desencantado
Já nem parece
Ter-se guardado
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
Ai esta terra queima
É uma ferida aberta
Rasgada no peito
Onde a dor aperta
Ai o meu filho chora
E eu não chego ao mar
Só nos seus olhos
Posso naufragar
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
É uma fogueira
Não há quem a salve
De ruir inteira
Ai o sonho morre
Amordaçado
Já nem parece
Ter-se sonhado
Ai esta terra lembra
Cada madrugada
Em que o desalento
Tem sabor a nada
Ai o sonho morre
Desencantado
Já nem parece
Ter-se guardado
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
Ai esta terra queima
É uma ferida aberta
Rasgada no peito
Onde a dor aperta
Ai o meu filho chora
E eu não chego ao mar
Só nos seus olhos
Posso naufragar
Mas no vento morno
Que vem do mar
A lua ainda chama
Prá gente dançar
A lua ainda dança
Prá gente cantar
1 234
Pedro Magussi
Anjo Meu
Anjo Meu
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
911
Helena Ortiz
Arrumando o Quarto
hoje mexi em tuas coisas
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe
em tuas mínimas coisas
em teus pequenos vestidos
tuas sandalinhas
em pedaços de coisas
que ganhavam vida em tuas mãos
ouvi teus passos curtos
te reencontrei em gavetas fechadas
armários intocados
brinquedos mudos
chorei entre tuas roupas
e precisei me dizer
para não naufragar
não mexe aí, mamãe
1 024
José da Cunha Cardoso
Soneto
Essa nobre matrona, que impelida
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
De um generoso amor, fez a memória
Do seu ilustre nome tão notória,
Quanto no mundo todo esclarecida,
Os golpes não temeu do matricida
(Exemplo digno de imortal história)
Antes ambicionou do filho a glória
Dando por preço dela a própria vida.
Agripina, que a vida assim despreza,
Segura as adoções da eternidade
Nesta de amor materno alta fineza.
Que é duas vezes mãe nos persuade;
Porque lhe dá no sangue a natureza,
E com sangue lhe compra a majestade.
910
Carlyle Martins
A Loucura do Nosso Amor
"Áurea! Vamos andar pelos caminhos,
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
por entre o matagal aberto em flor,
escutando as canções dos passarinhos
e entoando os madrigais do nosso amor.
Vamos ouvir a música dos ninhos,
diante de um céu de vívido esplendor,
Sempre a evitar as serpes dos espinhos
na doçura de um sonho encantador
Ainda que um dia fuja, seguiremos,
unificados dos grilhões supremos,
sob as bençãos do céu, todo em clarão.
E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,
de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos
dirão que enlouquecemos de paixão."
848
Fernando Pessoa
XV - Este, seu escasso campo ora lavrando, [1]
Este, seu escasso campo ora lavrando,
Ora, solene, olhando-o com a vista
De quem a um filho olha, goza incerto
A não-pensada vida.
Das fingidas fronteiras a mudança
O arado lhe não tolhe, nem o empece
Per que concílios se o destino rege
Dos povos pacientes.
Pouco mais no presente do futuro
Que as ervas que arrancou, seguro vive
A antiga vida que não torna, e fica,
Filhos, diversa e sua.
Ora, solene, olhando-o com a vista
De quem a um filho olha, goza incerto
A não-pensada vida.
Das fingidas fronteiras a mudança
O arado lhe não tolhe, nem o empece
Per que concílios se o destino rege
Dos povos pacientes.
Pouco mais no presente do futuro
Que as ervas que arrancou, seguro vive
A antiga vida que não torna, e fica,
Filhos, diversa e sua.
897
Castro Alves
A Canção do Africano
Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr'a não o escutar!
"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...
"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
Recife, 1863.
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986
Sentado na estreita sala,
Junto o braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...
De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E à meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez, pr'a não o escutar!
"Minha terra é lá bem longe,
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
"O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
"Aquelas terras tão grandes,
Tão compridas como o mar,
Com suas poucas palmeiras
Dão vontade de pensar...
"Lá todos vivem felizes,
Todos dançam no terreiro;
A gente lá não se vende
Como aqui, só por dinheiro".
O escravo calou a fala,
Porque na úmida sala
O fogo estava a apagar;
E a escrava acabou seu canto,
P'ra não acordar com o pranto
O seu filhinho a sonhar!
.............................
O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.
E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!
Recife, 1863.
Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986
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