Poemas neste tema

Felicidade e Alegria

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sob o Céu Todo Estrelado

As estrelas, no céu muito límpido, brilhavam, divinamente distantes.
Vinha da caniçada o aroma amolecente dos jasmins.
E havia também, num canteiro perto, rosas que cheiravam a jambo.
Um vaga-lume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente.
À parte as águas de um córrego contavam a eterna história sem começo nem fim.
Havia uma paz em tudo isso...
(Era de resto o que dizia lá dentro o meigo adágio de Haydn.)
Tudo isso era tão tranquilo... tão simples...
E deverias dizer que foi o teu momento mais feliz.

Petrópolis, 1921
1 766
Renato Russo

Renato Russo

Teorema

Não vá embora
Fique um pouco mais
Ninguém sabe fazer
O que você me faz
É exagero
E pode até não ser
O que você consegue
Ninguém sabe fazer

Parece energia mas é só distorção
E não sabemos se isso é problema
Ou se é a solução

Não tenha medo
Não preste atenção
Não dê conselhos
Não peça permissão
É só você quem deve decidir o que fazer
Prá tentar ser feliz

Parece um teorema sem ter demonstração
E parece que sempre termina
Mas não tem fim

1 035
Renato Russo

Renato Russo

Música Ambiente

Se um dia fores embora
Te amarei bem mais do que esta hora
Me lembrarei de tudo que eu não disse
E de quando havia tudo que existe
Quando choramos abraçados
E caminhamos lado a lado
Por favor amor me acredite
Não há palavras para explicar o que eu sinto
Mesmo que tenhamos planejado
Um caminho diferente
Tenho mais do que eu preciso
Estar contigo é o bastante.
Certas coisas de todo dia
Nos trazem a alegria
De caminharmos juntos lado a lado por amor.
E quando eu for embora
Não, não chore por mim.

1 295
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

Visita da Solidão

Eis que a solidão me visita.
Recebo-a feliz.
Ficamos a sós.
Um brinde a nós!

Há uma perfeita simbiose
entre mim e a solidão.
Sempre que chega,
saúdo-a alegre,
feliz assim...

A sensação é inexplicável!
Algo parecido com voar, soltar, libertar...
Um indescritível bem-estar,
satisfação plena.
Um clima de pureza,
paz,
algo mais...

Vivo-a intensamente.
Convivemos de forma salutar,
sobretudo quando junto ao mar,
perto do céu,
sol,
sal,
crepúsculo,
luar...
Respiro o ar despoluído da simplicidade,
simplesmente,
como sou.

( in, POEIRA DA ESTRADA)
Fortaleza - Ce, 1984

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Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

Encontro com a Solidão

Eis que me deparo com a solidão
de estar só comigo.
Ninguém ao redor.
Apenas a noite, escassas estrelas
e o mar a murmurar...

A música envolve o ar,
ocupa o espaço,
preenche a lacuna
- lacuna?
Neste momento basto-me.

Solitária e distante,
brindando o estar sozinha,
canto a alegria
de nada ter a lamentar,
assim sorrindo
Por não ter o que chorar.

760
Adélia Prado

Adélia Prado

Cinzas

No dia do meu casamento eu fiquei muito aflita.
Tomamos cerveja quente com empadas de capa grossa.
Tive filhos com dores.
Ontem, imprecisamente às nove e meia da noite,
eu tirava da bolsa um quilo de feijão.
Não luto mais daquele modo histérico,
entendi que tudo é pó que sobre tudo pousa e recobre
e a seu modo pacifica.
As laranjas freudianamente me remetem a uma fatia de
[sonho.
Meu apetite se aguça, estralo as juntas de boa impaciência.
Quem somos nós entre o laxante e o sonífero?
Haverá sempre uma nesga de poeira sob as camas,
um copo mal lavado. Mas que importa?
Que importam as cinzas,
se há convertidos em sua matéria ingrata,
até olhos que sobre mim estremeceram de amor?
Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei.
Hoje parece maio, um dia esplêndido,
os que vamos morrer iremos aos mercados.
O que há neste exílio que nos move?
Digam-no os legumes sobraçados
e esta elegia.
O que escrevi, escrevi
porque estava alegre.
1 416
Herberto Helder

Herberto Helder

27

retira-se alguém um pouco atrás na noite
para fazer uma escola da leveza,
sentar-se sobre si mesmo devorando uma laranja,
pronta,
colhida ao caos, que ela sim ilumina quem a usa,
e é isto: a laranja faz rodar os dedos, torna
leve, pelos dedos,
aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua,
tão transbordante,
dói no fino do frio açúcar,
e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa
com a ferida na boca, o gosto
magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma,
golpe a golpe,
como em estrangeiro brutal,
ou inexpugnável,
que faz ele? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau virgem e folha de
ouro,
mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se,
que escola de laranja terrestre não se pode mais que esta leveza
1 029
D. Dinis

D. Dinis

O Gram Viç'e o Gram Sabor

O gram viç'e o gram sabor
e o gram conforto que hei
é porque bem entender sei
que o gram bem da mia senhor
nom querrá Deus que err'em mi,
que a sempr'amei e servi
e lhi quero ca mim melhor.

Esto me faz alegr'andar
e mi dá confort'e prazer,
cuidand'em como poss'haver
bem daquela que nom há par;
e Deus, que lhi fez tanto bem,
nom querrá que o seu bom sem
err'em mim, quant'é meu cuidar.

E por end'hei no coraçom
mui gram prazer; ca tal a fez
Deus, que lhi deu sem, com bom prez,
sobre quantas no mundo som,
que nom querrá que o bom sem
err'em mim, mais dar-mi-á, cuid'en,
dela bem e bom galardom.
651
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

METEMPSICOSE

Quando a vi o outro dia longe passeando,
Formosa como nunca, a sua formosura
Traduziu-se em minh'alma em mística ternura,
Tirou da minha mente o que era vil, nefando.

Eu senti que m'estava logo dominando
Aquel' celeste olhar de suprema candura
E que d'esta minh'alma a noite sempre escura
Se tomou como o dia com o sol brilhando!

Aquele olhar tirou as ideias fatais
Da pobre minha mente que agora fremita
Sob impulsos mais puros, ardentes, leais;

E se só pelo bem meu coração palpita,
Se sonha minha mente sonhos ideais,
É a sua alma pura que em minha alma habita!!
942
Herberto Helder

Herberto Helder

3D

Uma golfada de ar que me acorda numa imagem larga.
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
1 108
Herberto Helder

Herberto Helder

35

pêras plenas na luz subida para colhê-las
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
507
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Paisagem No Limite

Este mundo não existente
existe, sim, hoje fundado
por Maria Teresa Vieira:
uma proposta de alegria,
de comunhão em cores altas,
de vida atenta à vibração
de cristalinos sinos mágicos.
Suas paisagens são províncias
esperando nossa visita:
florescentes longe do tédio,
da violência e do desamor,
no limite pairam do sonho,
onde novo real se inaugura
no coração mesmo da cor.
732
Adélia Prado

Adélia Prado

A Face de Deus É Vespas

Queremos ser felizes.
Felizes como os flagelados da cheia,
que perderam tudo
e dizem-se uns aos outros nos alojamentos:
‘Graças a Deus, podia ser pior!’
Ó Deus, podemos gemer sem culpa?
Desde toda a vida a tristeza me acena,
o pecado contra Vosso Espírito
que é espírito de alegria e coragem.
Acho bela a vida e choro
porque a vida é triste,
incruenta paixão servida de seringas,
comprimidos minúsculos e dietas.
Eu não sei quem sou.
Sem me sentir banida experimento degredo.
Mas não recuso os marimbondos armando suas caixas
porque são alegres como posso ser,
são dádivas,
mistérios cuja resposta agora é só uma luz,
a pacífica luz das coisas instintivas.
1 005
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Alegria, Entre Cinzas

Manhã de quarta-feira.
Santa Luzia e São José chamam as cinzas
em suas igrejas libertas de carnaval.
“Quando jejuardes
— naquele tempo disse Jesus a seus discípulos —
não vos entristeçais como os hipócritas…”
Por isso, das cinzas ainda quentes
do carnaval levantam-se os carnavalescos
e voltam ao trivial pressaboreando
a festa do ano próximo — alaúza!

Milhares e milhares e milhares
de passistas sambistas bateristas,
servidores de um rei que pula e não castiga,
tiram a pestana suficiente
para emendar a festa com o batente.
Pequeno Luís Rei de França do Salgueiro
despe a magnificência, pede a bênção
ao pai, bombeiro hidráulico, na oficina.
Meio-dia.
Clóvis Bornay bate o ponto no Museu.
Volta ao circo o elefante imperial
que transportava Dona Santa do Maracatu.
Volta o Municipal amarfanhado
ao seu silêncio de ópera sem partitura.
Volta a grama a crescer, ou custa um pouco
nos jardins massacrados? Por milagre
voltam os galhos verdes decepados,
para junto dos troncos, ou não mais
estes oitis serão como eram antes?

Que mortes vegetais o grão desfile
foi lavrando no corpo da cidade?
Que atropelos, atrasos, prejuízos
dançaram de ciranda-confusão,
para que açafatas e marqueses
surrealistas de uma noite
deslumbrassem turistas-privilégio
em arquibancadas equipadas
com sanitários fiberglass
que em lugar nenhum outro aos joões-brandões
atendem no momento de aflição?

Cinzas,
pó de penitência. Será mesmo?
penitência de quê — do não brincado
ou de folgança programada
a que falta a cedilha do espontâneo?
Dói a cabeça, a dor circula
o corpo inteiro, doendo em parafuso,
em looping, xadrez, diagonal.
Mas a última célula da memória
registra ainda o ranger de babilônias
em rouco marulhar de som e selva:
cataratas humanas de Iguaçu,
pavões, califas de Bagdá e Realengo
desfilam entre rainhas gaditanas
com torres de marfim no cocuruto,
pescadores portam jacarés
personalizados como cheques,
homens de Neandertal voltam à origem
e, emergindo do mar de plástico e sarrafos,
Iemanjá Dandalunda Janaína
crioula cor de prata
rabeia com tiques de sereia
perto do cartorial Palácio da Justiça.
Ou foi tudo pesadelo
de três-quatro noites mal curtidas?

Cinza, cinza redentora
de todos os pecados contra o gosto
cometidos e a cometer em nome da alegria
(essa senhora tão ausente
dos programas alegres).
Ainda de pareôs, sarongs, camisetas
suados de pular, hoje caídos
no chão cinza do quarto
ressonam meus irmãos.
Que bocejo de festa cansadeira
no bustiê de lenço drapejado.
Lamê enlameado na sarjeta.
Strass.
Stress.
Liza Minelli passou entre passistas?
Frank Sinatra não veio, como sempre.
O mundo-melhor de Pixinguinha
e o mundo-melhor dos utopistas
dissolvem-se na mesma inconclusão.
De qualquer modo, irmãos, amigos meus,
ouçamos a palavra que em Mateus
(VI-16) está gravada:
“Não vos entristeçais como os hipócritas…”
Há sempre uma promessa de alegria.
1 232
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Seis Poemas da Terra

Ó verde caminho de ouro,
pequeno na memória
de duas lágrimas.

Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.

Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.

Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.

Enlaço troncos
e o mundo é meu.

Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.

Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
1 140
Fernando Fitas

Fernando Fitas

Havia um barco

Havia um barco
(ou um poema)
em cada Primavera
que inventávamos.

O sol inundava
os lábios
de cada sorriso
acordando
as crianças
que habitavam em nós
e uma flauta de vento
pendurou cerejas
nos dedos da manhã

Lindas as cores
suculentos os frutos
dos corpos e das bocas
627
Afonso Lopes de Baião

Afonso Lopes de Baião

Disserom-Mi Uas Novas de Que M'é Mui Gram Bem

Disserom-mi ũas novas de que m'é mui gram bem:
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
       a Santa Maria das Leiras irei, velida,
       se i vem meu amigo.

Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
       a Santa Maria das Leiras irei, velida,
       se i vem meu amigo.

Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
       a Santa Maria das Leiras irei velida,
       se i vem meu amigo.

Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
       a Santa Maria das Leiras irei, velida,
       se i vem meu amigo.
633
D. Dinis

D. Dinis

Amiga, Bom Grad'haja Deus

Amiga, bom grad'haja Deus
do meu amigo que a mi vem,
mais podedes creer mui bem,
quando o vir dos olhos meus,
       que possa aquel dia veer
       que nunca vi maior prazer.

Haja Deus ende bom grado
porque o faz viir aqui,
mais podedes creer per mim,
quand'eu vir o namorado,
       que possa aquel dia veer
       que nunca vi maior prazer.
787
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fala de Chico-Rei

Rei,
duas vezes, Rei, Rei para sempre,
Rei africano, rei em Vila Rica,
Rei de meu povo exilado e de sua esperança,
Rei eu sou, e este reino em meu sangue se inscreve.
Arranquei-o do fundo da mina da Encardideira,
partícula por partícula, sofrimento por sofrimento,
com paciência, com astúcia, com determinação.
Era um Reino que ansiava por seu Rei.
Tinha a cor do Sol faiscando depois de sombria navegação,
a cor de ouro da liberdade.
Hoje formamos uma só Realeza, uma só Realidade
neste alto suave de colina mineira.
Aqui edifiquei a minha, a nossa Igreja
e coloquei-a nas mãos da virgem etíope,
nossa princesa santa e sábia: Efigênia,
sob as bênçãos da rainha Celeste do Rosário.
Meus súditos me são fiéis até o sacrifício,
por lei de fraternidade, não de medo ou tirania.
São livres e alegres depois de tanta amargura.
A alegria de meu povo explode
em charamelas, trombetas e gaitas,
rouqueiras de estrondo e júbilo,
canções e danças pelas ruas.
A alegria de meu povo esparrama-se
no trabalho, no sonho, na celebração
dos mistérios de Deus e das lutas do Homem.
Nossa pátria já não está longe nem perdida.
Nossa pátria está em nós, em solo novo e antiga certeza.
Amanhã, quem sabe? os tempos outra vez serão funestos,
nossa força cairá em cinza enxovalhada.
(Sou o Rei, e o destino da minha gente
habita, prenunciador, o meu destino.)
Mas este momento é prenda nossa e renascerá
de nossos ossos como de si mesmo.
Em liberdade, justiça e paz,
num futuro que a vista não alcança,
homens de todo horizonte e raça extrairão de outra mina mais funda e inesgotável
o ouro eterno, gratuito, da vida.
1 705
Renato Russo

Renato Russo

Soul Parsifal

Ninguém pode dizer o que sentir
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim

1 413
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Na Toalha de Mesa de R.c.

Nunca lhe falte a esta toalha
O que ainda a fará mais bela,
E é: flores, fina baixela,
Bons vinhos, farta vitualha.
970
Adélia Prado

Adélia Prado

Choro a Capela

O poder que eu quisera é dominar meu medo.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.
1 193
Herberto Helder

Herberto Helder

75

se alguém respirasse e cantasse uma palavra,
e súbito fosse respirado por ela, fosse
cantado assim
de puro júbilo ou, quem sabe? de medo puro,
poria no termo o selo de si mesmo?
quem é que sabe onde fica o mundo?
e de quê e de quem e de como é composto e dito,
de como uma palavra, uma só, regula
ininterruptamente tudo, e alguém a põe em uso,
oh glória idiomática,
e é posto e disposto até que abuso de que espécie de infuso espírito
das profundezas dessa palavra
666
Adélia Prado

Adélia Prado

Graça

O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã,
a dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado
[gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens tem um rei, um reino,
um bobo com seus berloques, um príncipe. Eu passeio
[nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos
[e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
1 211