Poemas neste tema

Felicidade e Alegria

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cada dia sem gozo não foi teu

Cada dia sem gozo não foi teu
(Dia em que não gozaste não foi teu):
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!


14/03/1933
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Vitorino Nemésio

Vitorino Nemésio

De Rembrandt a Van Gogh a tinta és tu

Em rosa de bateira e sol de vinho.

O tempo fez-se-me fome,

Mas levantas os braços-e é o moinho.

Como a corça na Haia plo rebento

E a ponte levadiça,

Vais em maneira,amor e movimento,

Vela da tarde,dique do meu sangue:

Afinal só um pouco de mulher

Que a palavra detém e´águas cultivam.

Graça do vento em céus inesperados,

Gaivota és para mim que nasci delas;

No milagre de sermos encontrados

Já de Amesterdão são nossas as janelas.

Taça a taça trocámos anéis áureos

De vinho português sobre holandilha:

Quem via-como saber

Se era braço de noivo ou mão de filha?

Mas sempre tinta à tarde!Eras a Lua

Que em foice adestra os calmos céus dos pólderes:

Eu ceifava a manhã nos teus cabelos,

Contava-os um a um,canal abaixo,

E,deitado nos verbos que te evocam,

Feliz com um pintor que vende pouco,

Era holandês por ti...

Que,bem pensando,

O que eu cá sou,céus de Van gogh,é louco!

de O Andamento
Holandês

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Renier Dias Pereira

Renier Dias Pereira

Néctar

Néctar

Escrevo mas sei que essaspalavras não conseguirão traduzira felicidade que sinto agora

uma alegria tão grande, quenão se imagina o tamanho.

um batuque, um olhar, um sorrisozilhões de gestos cristalizamum prazer sem igual.

a cada encontro uma poesia únicaa chama da missão cumpridacontinua acesa esperando aspróximas conquistas

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Langston Hughes

Langston Hughes

ASPIRAÇÃO

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
E até que morra o dia
Dançar, pular, cantar!
Depois sob uma árvore,
Quando já entardeceu,
Enquanto a noite vem
- Negra como eu -
Descansar... É o que quero!

Estirar os braços
Ao sol nalgum lugar,
Cantar, pular, dançar
Até que a tarde caia!
E dormir sob uma árvore
- Este o desejo meu -
Quando a noite baixar
Negra como eu.

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Nuno Júdice

Nuno Júdice

Chegar antes de ti

Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar:
com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa.
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.
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João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Meu Álcool

Marques Rabelo garantia
que bêbado era quem bebia
por se inventar duplo motivo:
sentir-se invivo ou sobrevivo.

Querer-se lúcido, acordar,
ser todo o agudo que nele há,
ser quando está de todo aceso,
tem o ser na ponta dos dedos.

Ou estar num ser tão extreme
que ser é insuportavelmente,
que ser é estar-se num incêndio
e sentir-se esse incêndio sendo.

Por isso, é que o bêbado bebe:
porque triste quer ser alegre,
e bebe porque chega a demais
a alegria de que ele é capaz.

2

Um pôde achar álcool melhor,
não tóxico, sem qualquer depois,
um álcool que não tem veneno
nem contém amanhãs de inferno.

Que, se é preciso, apaga o incêndio
e se é preciso, vem e acende-o;
um álcool que possui duas pontas,
que age a favor como age contra,

nem precisa que alguém lhe diga
quando dar mais ou menos vida
(como lâmpada do escritor russo,
põe o quarto aceso ou escuro).

Mais: que não se bebe, contempla;
é um álcool para a convivência,
álcool que dá a chama e o sopro
com tê-lo ao alcance do corpo.

3

Esse álcool não é de vender:
ninguém engarrafou um ser.
É álcool sem quandos, sem ondes,
de perto, ou pelo telefone.

Vê-lo e usá-lo foi de imediato:
depois de álcoois mais variados,
da familiar cana de cana
de suas várzeas pernambucanas,

viajou por outros tão diversos
(os de Appolinaire, o dos versos)
que até empregou como bebida
o fluido ambíguo de Sevilha.

E de nenhum deles renega:
nem das úlceras que eles legam
nem da intestina homorragia
em hospitais ao fio da vida.

3

Se a um novo álcool se entregou,
se o vê como álcool superior,
não foi por causa de conselho,
prescrição de médico, ou medo.

É que no novo álccol de agora
pode alcançar mais alta quota
de álcool na vida, e é mais contínua
a vida que acende, e seu clima:

um clima mais claro, e tão limpo
como toalha ou lençol de linho,
e ao mesmo tempo tão intenso
de um ser vivo vivendo pleno.

(E isso, só, com a convivência
de mulher, com a nua presença
de mulher, que como Sevilha
é interna-externa, é noitedia.)
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Dora Ferreira da Silva

Dora Ferreira da Silva

Valsas de Esquina de Mignone

Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

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José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Às escondidas

Os primeiros chuviscos restituem-nos
o incrível cheiro da terra
mas nós estaremos quem sabe longe
do que tem significado

Preenchemos a inscriçõa numa piscina municipal
não sabemos bem o motivo ou não dizemos a ninguém
como os dias nos pedem a dureza
ofegante,instintiva
que têm para os nadadores as braçadas

Uma sombra nos acalma

Uma claridade nos dói

Cedo receamos a felicidade daquelas imagens
que reeencontramos dentro de nós
e não se ligam a nada

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Angelo Augusto Ferreira

Angelo Augusto Ferreira

Alento de Vida

Olha moço ...
Não tenho sua vida, não!
Vivo no campo
Embrenhado
No cheiro do mato agreste
Em meio dos mosquitos
Pássaros
Bois e vacas
Sem ser ofendido!

Todos os dias
No cheiro da terra
Batendo palmas para o trovão
Bendizendo a chuva,
O bem maior da plantação.
Orando. Ajoelhado.
Agradecendo à Criação.

Do rio, tiro o sustento
O peixe, o alimento
Dádiva, milagre da procriação.
E vou respirando
A vida bonita
Caminhante tempos afora
Envolto no ar puro
Protegido
No alento do Criador!

Moço...
A vida é como cipó
Se enrosca com muito amor
Na cintura da árvore
Não muito diferente
Sou cipó de gente
Grudado na vida.

Nasci puro, forte
Menino
Homem
Na ginga da dança
Invisível aos olhos
Contida na melodia da vida
Que a floresta pura cheia de energia
Toda hora dá prazer, ensina
O viver isolado
Sem castigo
Abençoado.

Vida Minha!
Igual cipó da árvore gigante
Agarrado
No mato, campo, floresta
Com fala
Sem grito
Na paz
Feliz com teto azul
Do céu onde os anjos habitam
Todos os dias me cobre
Com perfeição.

Olha moço...
Não tenho sua vida, não
Vivo no campo
No mato
Não tenho sua vibração
Tenho a energia
Pura divina
Do índio
Nosso Irmão! ! !

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Manuel António Pina

Manuel António Pina

O que me vale

O que me vale aos fins de semana
é o teu amor provinciano e bom
para ele compro bombons
para ele compro bananas
para o teu amor teu amon
tu tankamon meu amor
para o teu amor tu te flamas
tu te frutti tu te inflamas
oh o teu amor não tem complicações
viva aragon
morram as repartições.


Manuel António Pina | "Todas as palavras - Poesia reunida" | Ed. Assírio & Alvim, 2012

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Rui Knopfli

Rui Knopfli

O ladrão de versos

Uma gargalhada do meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingénuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.



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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XI - Hang with festoons and wreaths and coronals

Hang with festoons and wreaths and coronals
The corridors and halls!
Be there all round the sound of gay bells ringing!
Let there be echoing singing!
Pour out like a libation all your joy!
Shout, even ye children, little maid and boy
Whose belly yet unfurred yet whitely decks
A sexless thing of sex!
Shout out as if ye knew what joy this is
You clap at in such bliss!
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Ruy Belo

Ruy Belo

Soneto superdesenvolvido

É tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem

Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada

E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu

gozo acrescido ao muito que se gozou
Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 145 e 146 | Editorial Presença Lda., 1984
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se sou alegre ou sou triste?...

Se sou alegre ou sou triste?...
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?

Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sei que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sinto o que Deus fadou.

Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...


20/08/1930
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tempo de Ipê

Não quero saber de IPM, quero saber de IP.
O M que se acrescentar não será militar,
será de Maravilha.
Estou abençoando a terra pela alegria do ipê.
Mesmo roxo, o ipê me transporta ao círculo da alegria,
onde encontro, dadivoso, o ipê-amarelo.
Este me dá as boas-vindas e apresenta:
— Aqui é o ipê-rosa.
Mais adiante, seu irmão, o ipê-branco.
Entre os ipês de agosto que deveriam ser de outubro,
mas tiveram pena de nós e se anteciparam
para que o Rio não sofresse de desamor, tumulto, inflação,
mortes.
Sou um homem dissolvido na natureza.
Estou florescendo em todos os ipês.
Estou bêbado de cores de ipê, estou alcançando
a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
Não me façam voltar ao chão,
não me chamem, não me telefonem, não me deem
dinheiro,
quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
Este é tempo de ipê. Tempo de glória.

11/08/1981
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Sim

Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e que brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
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Abu Nuwas

Abu Nuwas

Com vinho, dizendo que é vinho, enche-me a taça,

Com vinho, dizendo que é vinho, enche-me a taça,
Pois beber furtivamente não há quem me faça.
Pobre e maldito é o tempo em que sóbrio fico,
Mas quando trôpego pelo vinho torno-me rico.
Não escondas por temor o nome do bem-amado;
O prazer verdadeiro nunca deve ser ocultado.
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Hilda Hilst

Hilda Hilst

Porque há desejo em mim

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sweet Home

A Ribeiro Couto
Quebra-luz, aconchego.
Teu braço morno me envolvendo.
A fumaça de meu cachimbo subindo.

Como estou bem nesta poltrona de humorista inglês.

O jornal conta histórias, mentiras. . .

Ora afinal a vida é um bruto romance
e nós vivemos folhetins sem o saber.

Mas surge o imenso chá com torradas,
chá de minha burguesia contente.
Ó gozo de minha poltrona!
Ó doçura de folhetim!
Ó bocejo de felicidade!
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Martha Medeiros

Martha Medeiros

Depois

Convencemo-nos que a vida será melhor depois...
depois de acabar os estudos,
depois de arranjar trabalho,
depois de casarmos,
depois de termos um filho,
depois de termos outro filho.

Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são
suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixarem de ser crianças.

Depois, desesperamos porque são adolescentes,insuportáveis.

Pensamos: "Seremos mais felizes quando esta fase acabar!".

Então, decidimos que a nossa vida estará completa quando o nosso
companheiro ou companheira estiver realizado...

Quando tivermos um carro melhor...
Quando pudermos ir de férias...
Quando conseguirmos uma promoção...
Quando nos reformarmos...

A verdade é que NÃO HÁ MELHOR MOMENTO PARA SER FELIZ DO QUE AGORA!
Se não for agora, então quando será?

A vida está cheia de depois...
É melhor admiti-lo e decidir ser feliz agora, de todas as formas. Não há
um depois, nem um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho e é AGORA!
Deixa de esperar até que acabes os estudos...
até que te apaixones...
até que encontres trabalho...
até que te cases...
até que tenhas filhos...
até que eles saiam de casa...
até que te divorcies...
até que percas esses 10kg...
até sexta-feira à noite ou Domingo de manhã...
até à Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, ou até que morras...

para decidires então que não há melhor momento do que justamente ESTE para seres feliz!
A felicidade é um trajecto, não um destino.

Trabalha como se não precisasses de dinheiro...
Ama como se nunca te tivessem magoado e dança como se ninguém estivesse ver!
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Renato Russo

Renato Russo

Um dia perfeito

Quase morri
Há menos de trinta e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito com as crianças

São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples: um dia perfeito

Corre corre corre
Que vai chover
Olha a chuva !

Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Coroai-me de rosas. [2]

Coroai-me de rosas.
Coroai-me em verdade
        De rosas.
Quero ter a hora
Nas mãos pagãmente
        E leve,

Mal sentir a vida,
Mal sentir o sol
        Sob ramos.

Coroai-me de rosas
E de folhas de hera
        E basta.
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Renato Russo

Renato Russo

O mundo anda tão complicado

Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperta o passo, por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez

Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você

Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
A mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som

Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com o meu jeito
Agora que temos nossa casa
É a chave que sempre esqueço

Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro:
- Estou com sono, vamos dormir !

Vem cá meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você

Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança do seu mundo
Por amor
Por amor

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Herberto Helder

Herberto Helder

Tríptico - Iii

Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
—Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casas e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos — meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.

E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.

Ela explica tudo, e o vir para mim —
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
— é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.

Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias dentro.
Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
— E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.
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