Poemas neste tema
Felicidade e Alegria
António Ramos Rosa
Onde É Aqui
Onde é aqui,
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
Onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.
o centro,
onde se respira,
a cama limpa
ao corpo inteiro e nu.
Onde é a fome e o braço toca
o esplendor.
Respira o ventre,
a vela incha
ao sol e ao mar sem fim.
Onde é aqui,
a fome nua,
a árvore exacta
no centro
da alegria,
a luz e o olhar
aberto ao mar.
Onde é onde
a mão sabe
a carícia da anca
e a língua fabrica
o seu sabor a sol.
Onde o fogo acende
o pulso do poema.
1 140
Asta Vonzodas
O ato
Nossos corpos se abraçam,
as mãos se entrelaçam.
Nos olhos o desejo,
nas bocas que se unem
a ânsia dos beijos.
A respiração se entrecorta.
Minhas mãos acariciam seu corpo,
que responde ao meu
em busca da posse.
Meus seios, nas suas mãos,
duas taças que transbordam
o vinho do prazer.
Suas mãos, as minhas..
caminham entre nossas pernas,
buscando passagens secretas.
A fenda que umedece, se abre,
recebe o falo ereto
que penetra, mete, arremete,
se inunda de louco prazer...
Minha voz num sussurro,
tenta eliminar seu cansaço...
Sua fronte no meu colo pousa,
serena, em descaso...
Minhas mãos,
Qual plumas,
passeiam ávidas pelo teu corpo...
Minha boca te acaricia
e no mais profundo
do teu ser... Vem amparar teu gozo.
Sempre e mais, nos debatemos
nesse desejo louco,
que cresce, entumece, alaga e
despe nossas almas
e nos faz feliz, por ora...
Com tão pouco!
as mãos se entrelaçam.
Nos olhos o desejo,
nas bocas que se unem
a ânsia dos beijos.
A respiração se entrecorta.
Minhas mãos acariciam seu corpo,
que responde ao meu
em busca da posse.
Meus seios, nas suas mãos,
duas taças que transbordam
o vinho do prazer.
Suas mãos, as minhas..
caminham entre nossas pernas,
buscando passagens secretas.
A fenda que umedece, se abre,
recebe o falo ereto
que penetra, mete, arremete,
se inunda de louco prazer...
Minha voz num sussurro,
tenta eliminar seu cansaço...
Sua fronte no meu colo pousa,
serena, em descaso...
Minhas mãos,
Qual plumas,
passeiam ávidas pelo teu corpo...
Minha boca te acaricia
e no mais profundo
do teu ser... Vem amparar teu gozo.
Sempre e mais, nos debatemos
nesse desejo louco,
que cresce, entumece, alaga e
despe nossas almas
e nos faz feliz, por ora...
Com tão pouco!
1 077
Pablo Neruda
IV - Tudo É Tão Simples
De manhã na aldeia
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!
Vem comigo à aldeia!
Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.
Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!
Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.
Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.
Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.
Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
os meninos e a luz me receberam.
Os camponeses me mostraram todas
suas terras conquistadas,
a colheita comum,
os celeiros, as casas
do proprietário antigo.
Mostraram-me o lugar
em que as mães pobres
despenteavam suas filhas,
ou as vendiam, não faz tanto tempo,
ai! não faz tanto tempo. Agora parece
um sonho mau,
a peste, a fome,
os norte-americanos,
os japoneses, os banqueiros
de Londres e da França,
todos vinham civilizar
a China arrancando-lhe as entranhas,
vendendo-a
nas Bolsas do Mundo,
prostituindo-a em Shanghai.
Queriam fazer dela
um vasto cabaré para as tropas
de desembarque, um lugar
de seda e fome.
Iam os esqueletos
junto ao rio
amontoando-se,
as aldeias choravam
fumaça negra
e pestilência.
“Aai!, como cabem
na morte
tantos mortos da China”,
exclamava
a senhora elegante
lendo os jornais.
Junto ao rio os mortos
eram montanhas de cinza, a fome
caminhava nas rotas da China
e em Nova York, Chiang Kai Chek
adquiria edifícios
em sociedade com Truman e Eisenhower.
Cheirava a esterco e ópio
a antiga cidadela da melancolia.
Os cárceres
se enchiam
também de mortos.
Os estudantes eram degolados
por um decreto norte-americano
na praça do povo,
e enquanto isso a revista Life
publicava a foto
de Mme. Chiang Kai Chek, cada vez
mais elegante.
Afasta-te, mal sonho!
Afasta-te da China!
Afasta-te do mundo!
Vem comigo à aldeia!
Entro
e vejo os celeiros,
o sorriso
da China
libertada:
os camponeses
repartiram a terra.
Desde Yennan
desceu a liberdade
com pés descalços ou sapatos rotos
de campônio e soldado.
Oh liberdade da China,
és minha musa,
vais vestida de azul
num caminho
poeirento.
Não pudeste lavar-te
nem secar-te do sangue, mas marchas e marchas
e contigo
a terra escura marcha,
marcha a Bolívia esquecida
pela liberdade, marcha o Chile,
virá o Irã contigo,
entram contigo na aldeia,
com minha musa.
Mocinha vestida
de azul guerreiro,
musa do vento,
das terras livres,
a ti canto:
ao cinturão de couro e a teu rifle,
a tua boca seca,
eu canto.
Musa minha,
entra com fogo e pólvora
em todas as ruas do mundo,
entra com suor e sangue,
já terás tempo
de lavar-te, agora
avança, avança, avança!
Tudo vi na aldeia
da China libertada.
Nada a mim disseram.
Os meninos derramados
não me deixavam transitar.
Comi seu arroz, suas frutas,
bebi seu vinho de arroz pálido.
Tudo me mostraram
com um orgulho
que conheci na Romênia,
que conheci na Polônia,
que conheci na Hungria.
E o orgulho novo
do camponês que à luz do mundo
de manhã,
pela primeira vez vê a farinha,
pela primeira vez olha as frutas,
pela vez primeira vê crescer o trigo,
e então
ainda que seja mais velho que o mundo
te mostra o arroz e as uvas,
os ovos de galinha,
e não sabe que dizer.
Tudo é seu
pela vez primeira.
Todo o arroz,
toda a terra,
toda a vida.
Que fácil é quando se conseguiu
a felicidade, que simples
é tudo.
Quando tu e eu, amor meu, nos beijamos,
que simpleza é ser felizes.
Mas esqueces
quanto andaste
sem encontrar-me
e quantas vezes
te desviaste
até cair cansada.
E pois,
tu não sabias
que eu andava buscando-te
e que meu coração se ia desviando
à amargura
ou ao vazio.
Não sabíamos
que se marchássemos
adiante, adiante,
reto, reto,
sempre, sempre,
tu me encontradas
e eu te encontraria.
Vês, assim aos povos
lhes sucede:
não sabem,
não compreendem,
podem equivocar-se,
mas andam sempre
e se encontram,
se encontram a si mesmos,
como me encontraste,
e então
tudo parece simples,
mas não foi simples
andar às cegas.
Havia que aprender da vida,
do inimigo, da escuridão,
com seus textos,
e ali estava Mao ensinando
e ali estava o Partido
com sua severidade e sua ternura,
e agora rapazes chineses,
dos campos,
musa jovem,
não esqueçamos:
tudo parece simples
como a água.
Não é verdade.
A luta não é a água,
é o sangue.
Vem de longe.
Há mortos:
nossos irmãos caídos.
Todo o caminho
está cheio de mortos
Que não esqueceremos.
E a aldeia
não é simples,
o ar não é simples,
traz palavras,
traz canções,
traz rostos,
traz dias passados,
traz cárceres,
traz muros
salpicados de sangue e agora
doce é a aldeia,
doce é a vitória.
Levantemos a taça
pela musa,
pelos que não esquecemos
e os que reconstroem,
pelos que caíram
e continuam vivendo
em toda parte,
porque largo é o mundo
e em toda parte sempre
caiu o sangue,
o mesmo:
nosso sangue.
Agora
entro na aldeia
do campo libertado
e doce é o ar
como nenhum
e respiro a vida,
a terra,
a vitória.
A terra, se estendemos
sobre sua pele as mãos,
é a mesma,
aqui ou em Patagônia
ou nas ilhas do mar.
A terra é sempre
a mesma,
e agora
entrando em tua aldeia,
olor de pão,
olor de fumo,
olor de trigo,
cheiro de água e vinho,
é minha terra,
é toda a terra.
E então
saudei com respeito
o território antigo,
sua beleza,
sua agricultura unânime,
seu rosto e pó e orvalho,
a liberdade brilhando
no sorriso,
e pensei em minhas margens,
em minha bandeira,
em minha areia, em minha espuma,
em todas as minhas estrelas.
E assim nessa manhã
da aldeia da China
entrei cantando,
porque meu coração
se transformou em guitarra
e todas as cordas ressoaram
recordando minha terra,
cantaram
recordando a minha pátria,
além, na América.
Quando alguma vez eu chegar
à casa do povo
em terra livre,
tudo
parecerá tão simples,
tão singelo,
como o beijo que agora
nos damos, amor meu.
1 232
Giovanna Santos
Madrugada
Era madrugada,
quando ainda dormia...
Era madrugada,
quando sonhei com você...
Era madrugada,
quando acordei nos teus braços,
Era madrugada
quando senti o calor do teu corpo...
Era madrugada,
quando parecia que o dia não ia chegar.
Era madrugada,
quando conheci mais uma página da Vida.
Era madrugada,
quando descobri que a Vida
é boa de viver,
enquanto existir você.
quando ainda dormia...
Era madrugada,
quando sonhei com você...
Era madrugada,
quando acordei nos teus braços,
Era madrugada
quando senti o calor do teu corpo...
Era madrugada,
quando parecia que o dia não ia chegar.
Era madrugada,
quando conheci mais uma página da Vida.
Era madrugada,
quando descobri que a Vida
é boa de viver,
enquanto existir você.
807
Eliane Stoducto
Pororocas
Os prazeres do corpo
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os
desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...
293
Pablo Neruda
Solo de Sol
Hoje, este momento, este hoje destapado, aqui fora,
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
2 182
Fernando Pessoa
Não creio ainda no que sinto -
Não creio ainda no que sinto -
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
1 362
Adélia Prado
O Corpo Humano
Quem me socorre é Deus e toda a corte celeste
com seus anjos e santos.
Uma sensação que tive esfumou-se, ia causar espanto,
tão insolitamente poética afigurava-se.
Tudo é por causa da morte, a mágica,
a forma provençal el corazón,
a mão desobturando o peito de seus ossos
e pinçando o que em mim é pura dor,
coração.
Ninguém entenderá bem o que digo
e é bom que seja assim pra que os poemas não
[desapareçam
e se façam necessários como o ar.
A danação seduz,
chegam a favos de mel os seus apelos.
Desminto quem disser: ah, os quintais de Minas, tão
[pacíficos!
porque neles sofri coisas que, com o auxílio de Deus,
nunca direi.
Livra-me, Senhor, da memória do pecado em meu
[espírito.
Lava-me com o hissopo e ficarei mais pura do que a neve.
Embora ainda não seja santa de levitar
achei no escuro a bolsa de água quente,
pode dormir confortado o meu doente querido.
Pra quando o mundo acabar, espero a vida feliz,
o corpo desta esperança, rosa pra sempre orvalhada.
Me dá alegria, Pai, eu só quero a alegria,
os olhos do moço em mim.
Me cansarei, redonda, casável,
capitulada entre massas e molhos,
sentirei fome e prazer,
ficarei velha e feliz
“porque meu auxílio está no nome do Senhor
que fez o céu e a terra”.
com seus anjos e santos.
Uma sensação que tive esfumou-se, ia causar espanto,
tão insolitamente poética afigurava-se.
Tudo é por causa da morte, a mágica,
a forma provençal el corazón,
a mão desobturando o peito de seus ossos
e pinçando o que em mim é pura dor,
coração.
Ninguém entenderá bem o que digo
e é bom que seja assim pra que os poemas não
[desapareçam
e se façam necessários como o ar.
A danação seduz,
chegam a favos de mel os seus apelos.
Desminto quem disser: ah, os quintais de Minas, tão
[pacíficos!
porque neles sofri coisas que, com o auxílio de Deus,
nunca direi.
Livra-me, Senhor, da memória do pecado em meu
[espírito.
Lava-me com o hissopo e ficarei mais pura do que a neve.
Embora ainda não seja santa de levitar
achei no escuro a bolsa de água quente,
pode dormir confortado o meu doente querido.
Pra quando o mundo acabar, espero a vida feliz,
o corpo desta esperança, rosa pra sempre orvalhada.
Me dá alegria, Pai, eu só quero a alegria,
os olhos do moço em mim.
Me cansarei, redonda, casável,
capitulada entre massas e molhos,
sentirei fome e prazer,
ficarei velha e feliz
“porque meu auxílio está no nome do Senhor
que fez o céu e a terra”.
1 816
Adélia Prado
A Bela Adormecida
Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja,
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.
1 602
João Filho
Quase Gregas - Quarta
Nossos pequenos tesouros terrenos,
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
raiz sem razão,
inomináveis alguns,
na penumbra do quarto,
agradecem pelo respiro do instante,
por esse repouso em comum –
luz irmanada sem preço.
Teu corpo cósmico,
eixo de amor e sentido
– noite aberta no tempo –,
reacende ao redor de si os elementos, as coisas,
e, solar,
compartilha surpresas,
que os sentidos festejam.
Fala do pouco sabido,
daquilo por fresta avistado,
mas nítido;
acolhe e oferece,
presente sem par,
páginas, gozos, outros de lágrimas,
canta e somos dueto na dissonância.
Ao pairar pesadelo,
o gesto Állex em minha sede insone.
Serenidade de lume depois do percurso,
do inventário da jornada.
Silêncio
irradiado do seu centro –
aceitando essa dádiva.
646
João Filho
Quase Gregas - Terceira
A mesa posta, cadeiras,
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
o branco do linho da toalha,
festa da luz,
claridade sem fugas no espaço da copa,
o copo d’água, em pureza complexa,
equilibra e concentra
cada conviva em torno da mesa.
Conversas de oferta,
sal e silêncio,
o portento do pão aceitado,
a prece simples das coisas,
concretude de sede sincera,
da fome rústica,
do gesto que reparte a beleza comum:
a de tez aquiescente,
servindo a porção necessária;
esse de rosto vincado, mas amplo,
do merecido, contempla sem fel;
apesar das agulhas incandescentes de perda e paixão,
sua dor acrescenta.
O azul arejando.
Daquele o olhar amoroso,
condição de um lúcido total: o deleite feroz.
À mesa todos comungam
alegres.
Os nascimentos compensam ausências,
o aceite inconsútil da vida
em seu curso terrestre
de escureza e fulgor.
653
Fernando Batinga de Mendonça
Tempo
é difícil
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
960
Charles Bukowski
Começando Rápido
cada um de nós
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
às vezes
deveria
lembrar
o mais
alto
e
afortunado
momento
de
nossas
vidas.
para
mim
foi
ser
um
cara
muito jovem
e
dormir
sem nenhum centavo
e
sem nenhum amigo
sobre um
banco
de parque
numa
cidade
estranha
o que
não diz
grande coisa
de todas
as
várias
décadas
que se
seguiram.
1 176
Alice Ruiz
Quem ri quando goza
quem ri quando goza
é poesia
até quando é prosa
é poesia
até quando é prosa
2 473
Charles Bukowski
Milagre
acabei de ouvir uma
sinfonia que Mozart rabiscou
num único dia
e ela tinha uma dose de júbilo
louco e selvagem
capaz de durar
para sempre,
seja lá o que para sempre
for
Mozart chegou o mais próximo
possível
disso.
sinfonia que Mozart rabiscou
num único dia
e ela tinha uma dose de júbilo
louco e selvagem
capaz de durar
para sempre,
seja lá o que para sempre
for
Mozart chegou o mais próximo
possível
disso.
1 166
António Ramos Rosa
Feliz Fusão de Sol Parede E Água, Sol…
Feliz fusão de sol parede e água, sol — mancha entre lábios e olhos, sol de água, pedra que toco no ar, no princípio do ar.
1 544
Charles Bukowski
Estar Aqui
quando chega o pior, não há nada a se
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
986
Carlos Alberto Pessoa Rosa
Gozo
silencioso...
solto
disperso
aberto
delicioso...
desprendido
desatado
desobrigado
viver...
sem rumo
sem nada
sem ter
em regozijo
num gozo intenso
solto
disperso
aberto
delicioso...
desprendido
desatado
desobrigado
viver...
sem rumo
sem nada
sem ter
em regozijo
num gozo intenso
944
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 119
Adélia Prado
Olhos
A muda de olhos azuis
que morava com as freiras
dava equilíbrio ao mundo,
porque era muda e eu não.
Sobre cigarras sabe-se:
seu desespero cíclico é esperança.
Que vida estranha a minha,
me fingindo de pobre na abundância,
me fingindo de muda entre falantes,
imitando cigarra às escondidas,
as que quando morrem
viram fóssil de ar,
lâminas de cristal nos troncos,
desidratadas de excessos.
Eu não sabia que era objeto de amor,
a vida toda renegando minha herança,
pensando agradar a Deus não sendo abrupta.
O sapato é novo
ou são meus pés recriados que latejam?
Como o grunhido da muda
esta fala é bruta,
estou feliz e dói.
que morava com as freiras
dava equilíbrio ao mundo,
porque era muda e eu não.
Sobre cigarras sabe-se:
seu desespero cíclico é esperança.
Que vida estranha a minha,
me fingindo de pobre na abundância,
me fingindo de muda entre falantes,
imitando cigarra às escondidas,
as que quando morrem
viram fóssil de ar,
lâminas de cristal nos troncos,
desidratadas de excessos.
Eu não sabia que era objeto de amor,
a vida toda renegando minha herança,
pensando agradar a Deus não sendo abrupta.
O sapato é novo
ou são meus pés recriados que latejam?
Como o grunhido da muda
esta fala é bruta,
estou feliz e dói.
1 303
Adélia Prado
O Holocausto
Uns calores no corpo inauguraram-se,
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
há avisos de que um ciclo se fecha
sobre o que em mim nunca mais
será rosa ou cetim.
No entanto, entre flores dessecadas
e fotografias — hoje tornadas risíveis —
perduram inalterados
cardumezinhos, corolas,
hastes dançando à viração da tarde.
Como é possível peixes tão pequeninos
e este amarelo, o amarelo?
Os peixinhos ficam na água e não se afogam!
Tomai minha vida, ainda direi a Deus
pra lhe provar minha alegria.
Hoje quero rir desta invenção engraçada:
“uma carroça cheia de diabos”.
Carroças são pacíficas
e a tais diabos gritos afugentam.
Na raiz da tristeza este anticorpo:
o que quer que seja o amarelo,
dele é feita minha alma e sua felicidade,
a beleza do mundo e a alma de Cristo.
1 239
Charles Bukowski
O Porco na Cerca
você sabe, dirigindo através desta cidade ou de qualquer cidade
caminhando através desta cidade ou de qualquer cidade vejo
gente com narinas, dedos, pés,
olhos, boca, ouvido, queixo, sobrancelhas e assim por diante.
entro em uma lanchonete e peço o desjejum,
olho ao redor e estou consciente de crânios e esquele-
tos enquanto observo um homem enfiar
um pedaço de bacon em sua boca e morrer um pouco
e não gosto de contemplar a morte porque
pode haver algum outro lugar aonde tenhamos que ir depois
e já encarei confusões o bastante só por estar bem aqui
mas
talvez seja a culpa de todas as cobras em viveiros de vidro,
elas não podem mover-se, respirar ou matar e eles
deveriam soltá-las e eles deveriam esvaziar as
prisões também assim que eu arrumar minha Luger[1] e
soltar meus cachorros.
os prédios são todos pobremente construídos e o corpo
humano também; às vezes assisto a dançarinas dando pulos
por aí e penso, isso é feio e desajeitado,
o corpo humano foi construído de modo errado, é desengonçado e
estúpido... comparado a quê? comparado ao cacto
e ao leopardo. bem,
minhas mulheres sempre me disseram, "você é tão negativo!"
e eu olhava para elas e respondia, "eu acho que a reali-
dade é negativa". comparada a quê? irrealidade.
no entanto mesmo assim tive mais alegrias que qualquer um
deles, eles foram positivos e deprimidos, e eu sou negativo
e feliz. bem,
tudo isso pode ser culpa de bombeiros parados esperando
por um incêndio. pode ser culpa de algum cara em Moscou
estuprando uma menina de
6 anos, ou pode ser porque a neblina não é
mais a neblina do jeito como costumava ser - fresca, molhada,
refrescante,
mas tudo está machucando agora. eles acharam algum cara jogando
futebol na U.C.L.A. que nem sabia ler ou escrever
mas por Cristo como ele tinha força, que corpo, ele podia ter se dado
bem mas ele se aborreceu e matou seu fornecedor
de drogas e depois descobriram que ao final das contas ele nem era
muito um universitário, só uma espécie de peixinho dourado criado
o que me lembra
dificilmente mais alguém cria peixes dourados: você sabe quando eu
era criança, um domicílio em cada 3 tinha peixes dourados.
o que aconteceu com eles? alguns tinham até
laguinhos de peixes dourados no quintal com um fino musgo e
dúzias de peixes dourados, pequenos, médios, grandes,
viviam de migalhas de pão e alguns desses fodões se tornaram
tão gordos e estúpidos que simplesmente subiram até a superfície e se
deitaram
de lado, um olho para o sol, largados, como uma má mensagem
de Deus, mas as pessoas também desistem quando não deviam.
certa vez
houve um campeão, recebeu 5 milhões por uma disputa de campeonato,
o Macho Man, nunca havia sido derrotado mas deu de cara com
um sujeito que podia enfrentá-lo e depois de uns rounds ele
deu as costas e disse,
"no más".
imagine só, por 5 milhões um homem poderia aguentar alguma
dor, eu vi homens com suas vidas inteiras destruídas por
55 centavos a hora ou menos.
bem,
talvez seja a alvenaria ou talvez seja a bomba d'água, ou talvez seja o
porco na cerca, ou talvez seja o fim da sorte. anjos estão voando
baixo hoje com asas em chamas, sua mãe é a vítima de
seus pesadelos ordinários enquanto 40 torneiras gotejam, o gato está com
leucemia, faltam só 245 dias até o Natal e meu
protético me odeia.
assim agora
eu acordo com o pescoço duro em vez do pau
duro e
você
sempre poderá me achar aqui
em East Hollywood mas
por favor por favor por favor
não
tente.
caminhando através desta cidade ou de qualquer cidade vejo
gente com narinas, dedos, pés,
olhos, boca, ouvido, queixo, sobrancelhas e assim por diante.
entro em uma lanchonete e peço o desjejum,
olho ao redor e estou consciente de crânios e esquele-
tos enquanto observo um homem enfiar
um pedaço de bacon em sua boca e morrer um pouco
e não gosto de contemplar a morte porque
pode haver algum outro lugar aonde tenhamos que ir depois
e já encarei confusões o bastante só por estar bem aqui
mas
talvez seja a culpa de todas as cobras em viveiros de vidro,
elas não podem mover-se, respirar ou matar e eles
deveriam soltá-las e eles deveriam esvaziar as
prisões também assim que eu arrumar minha Luger[1] e
soltar meus cachorros.
os prédios são todos pobremente construídos e o corpo
humano também; às vezes assisto a dançarinas dando pulos
por aí e penso, isso é feio e desajeitado,
o corpo humano foi construído de modo errado, é desengonçado e
estúpido... comparado a quê? comparado ao cacto
e ao leopardo. bem,
minhas mulheres sempre me disseram, "você é tão negativo!"
e eu olhava para elas e respondia, "eu acho que a reali-
dade é negativa". comparada a quê? irrealidade.
no entanto mesmo assim tive mais alegrias que qualquer um
deles, eles foram positivos e deprimidos, e eu sou negativo
e feliz. bem,
tudo isso pode ser culpa de bombeiros parados esperando
por um incêndio. pode ser culpa de algum cara em Moscou
estuprando uma menina de
6 anos, ou pode ser porque a neblina não é
mais a neblina do jeito como costumava ser - fresca, molhada,
refrescante,
mas tudo está machucando agora. eles acharam algum cara jogando
futebol na U.C.L.A. que nem sabia ler ou escrever
mas por Cristo como ele tinha força, que corpo, ele podia ter se dado
bem mas ele se aborreceu e matou seu fornecedor
de drogas e depois descobriram que ao final das contas ele nem era
muito um universitário, só uma espécie de peixinho dourado criado
o que me lembra
dificilmente mais alguém cria peixes dourados: você sabe quando eu
era criança, um domicílio em cada 3 tinha peixes dourados.
o que aconteceu com eles? alguns tinham até
laguinhos de peixes dourados no quintal com um fino musgo e
dúzias de peixes dourados, pequenos, médios, grandes,
viviam de migalhas de pão e alguns desses fodões se tornaram
tão gordos e estúpidos que simplesmente subiram até a superfície e se
deitaram
de lado, um olho para o sol, largados, como uma má mensagem
de Deus, mas as pessoas também desistem quando não deviam.
certa vez
houve um campeão, recebeu 5 milhões por uma disputa de campeonato,
o Macho Man, nunca havia sido derrotado mas deu de cara com
um sujeito que podia enfrentá-lo e depois de uns rounds ele
deu as costas e disse,
"no más".
imagine só, por 5 milhões um homem poderia aguentar alguma
dor, eu vi homens com suas vidas inteiras destruídas por
55 centavos a hora ou menos.
bem,
talvez seja a alvenaria ou talvez seja a bomba d'água, ou talvez seja o
porco na cerca, ou talvez seja o fim da sorte. anjos estão voando
baixo hoje com asas em chamas, sua mãe é a vítima de
seus pesadelos ordinários enquanto 40 torneiras gotejam, o gato está com
leucemia, faltam só 245 dias até o Natal e meu
protético me odeia.
assim agora
eu acordo com o pescoço duro em vez do pau
duro e
você
sempre poderá me achar aqui
em East Hollywood mas
por favor por favor por favor
não
tente.
658
Charles Bukowski
Pague Seu Aluguel Ou Saia
em algum lugar a princesa morta
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
dorme com um novo amante;
só tenho alguns pacotes vazios de tocos
de cigarro que sobraram
pescados de volta pelas redes de anseios
mas tudo está bem
exceto a cor e a conduta
da abelha,
a cera demasiado vermelha
e um bilhete da mulher
na colina
que compra meus quadros:
"preocupada com você. ligue-
-me. amor. R.",
e outro bilhete sob a
porta:
"pague seu aluguel ou saia".
o aquecedor está ligado e
há um pote de pura pimenta
em pó a encarar-me,
e papel para datilografar
para preencher com poemas;
tudo está bem,
calçadas ecoam os cliques dos
saltos,
motores dão partida,
e eu tenho que lavar essas malditas
xícaras rachadas de café;
e eu me pergunto: como vai você hoje, meu
amigo?
como você está? desapontado?
infeliz?
eu? é duro. duro como um
bom poema.
mas eu me sinto muito bem,
e realmente,
essencialmente, daqui a pouco eu
vou comer
ou picadinho ou ensopado, qualquer coisa
de dentro de uma lata.
eu também poderei fazer levantamento de pesos e
espero
continuar me sentindo legal, embora meu
rádio esteja chiando
e fale de besteiras como
bons serviços de jatos;
agora são 7:30, e esse é
o jeito de homens
viverem e morrerem: não o jeito de Eliot
mas
meu jeito, nosso jeito,
quietos como uma asa fechada,
ódio queimado como em uma chaminé;
os lençóis baixando
rasgados pelo tempo
e à minha direita há uma faca que
não cortaria nem mesmo uma cebola
mas eu não tenho nenhuma cebola para
cortar, e
eu espero que você também
esteja se sentindo bem.
1 092
António Ramos Rosa
44. Permanecer Aqui (E Quando?)
44
Permanecer aqui (e quando?)
iniciará o quando que não se sabe
e adoraremos o sol do corpo breve.
No percurso ou no aspecto da sombra
abriremos um veio de felicidade límpida
e seremos os que não sabem e salvam
a brevidade do não viver sem sol.
Animais e barcos cintilações e sombras
pureza das pernas sem adornos nobres
pedra da permanência e do percurso límpido.
Permanecer aqui (e quando?)
iniciará o quando que não se sabe
e adoraremos o sol do corpo breve.
No percurso ou no aspecto da sombra
abriremos um veio de felicidade límpida
e seremos os que não sabem e salvam
a brevidade do não viver sem sol.
Animais e barcos cintilações e sombras
pureza das pernas sem adornos nobres
pedra da permanência e do percurso límpido.
906