Poemas neste tema

Felicidade e Alegria

Adélia Prado

Adélia Prado

Nossa Senhora Dos Prazeres

No que se pode chamar de rua,
em cores vivas, casas geminadas,
um esgoto de cozinha a céu aberto,
a água de sabão meio azulada,
muitas galinhas
e um galo formoso arreliando.
Se soubesse pintar informaria
de um verde quebradiço, as hortaliças
e pequenas coisas douradas esvoaçantes,
luz entre ramagens.
A igreja está fechada.
Não tendo mais o que fazer
a não ser esperar
que uma certa galinha vire meu almoço,
minha reza é deitar na pedra quente,
satisfeita e feliz como lagartixa no sol.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Do Verbo Divino

Três aves juntas limpam-se as penas
e param imóveis
no mesmo instante em que intento dizer-me
da perfeita alegria.
Ninguém acreditará,
me empenho em fechar os termos
desta escritura difícil
e estão lá as três,
estáticas como a Trindade Santíssima.
Faz tempo que estou aqui
com medo de levantar-me
e descosturar o inconsútil.
Mudam de galho as três,
uma licença pra eu também me mover
e escapar como as rolas
da perfeição de ser.
1 186
Adélia Prado

Adélia Prado

O Pai

Deus não fala comigo
nem uma palavrinha das que sussurra aos santos.
Sabe que tenho medo e, se o fizesse,
como um aborígine coberto de amuletos
sacrificaria aos estalidos da mata;
não me tirasse a vida um tal terror.
A seus afagos não sei como agradecer,
beija-flor que entra na tenda,
flor que sob meus olhos desabrocha,
três rolinhas imóveis sobre o muro
e uma alegria súbita,
gozo no espírito estremecendo a carne.
Mesmo depois de velha me trata como filhinha.
De tempestades, só mostra o começo e o fim.
2 045
Adélia Prado

Adélia Prado

Neurolinguística

Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.
1 519
Adélia Prado

Adélia Prado

Filhinha

Deus não é severo mais,
suas rugas, sua boca vincada
são marcas de expressão
de tanto sorrir pra mim.
Me chama a audiências privadas,
me trata por Lucilinda,
só me proíbe coisas
visando meu próprio bem.
Quando o passeio
é à borda de precipícios,
me dá sua mão enorme.
Eu não sou órfã mais não.
1 671
Emídia Felipe

Emídia Felipe

Felicidade

Tudo
parece estar tranqüilo
as coisas estão tão calmas
até o céu se mostra mais amigo
deve ser por isso
Que as pessoas procuram o amor
Quando se é vazio
solitário e se vive com a dor
a felicidade se torna um sonho distante
onde se está é cinza e necessita ter cor
Olhando ao redor
uma dúvida a cada instante
Mas não é só isso
Ainda existem canções
e sonhos bons
Aparecem corações
que também procuram um rumo
Surgem horizontes
que fazem aumentar o tamanho do mundo
e ele passa a ser seu
Os olhos começam a ver tudo diferente
sem querer ou só por isso
esquece tudo que aconteceu
de repente
Até o ar parece ser mais puro
e o que de mais existe ainda fica
perto,
mas do outro lado do muro.

792
Eliana Mora

Eliana Mora

Poeminha viscoso

em meio a teu visgo
me sinto emplastrada
feliz e cansada

919
Ana Margarida Setti Rosa

Ana Margarida Setti Rosa

Sonho

Você me beijou
como pássaro
a bicar
a flor mais linda
do jardim
buscou
os recônditos perfumados,
embebeu-se um pouco
de mim
e extasiado
jogou a cabeça para trás,
exibindo um sorriso
feliz.

357
Janis Joplin

Janis Joplin

Um Dia, Uma Dúvida

Hoje
foi um dia bom
Eu estava feliz
Feliz porque eu sei que você estava pensando em mim
Hoje foi um dia bom
Nem frio nem calor, apenas aquela brisa de saudade.
Hoje foi um dia bom
Senti você perto de mim, mesmo sem você estar
Hoje foi um dia bom
O vento trazia um beijo seu, tão doce e tão...
É, hoje foi um dia bom
Minha alma estava calma, parece até q encontrou a outra metade.

Hoje foi um dia diferente
Nao sei o q deu em mim, mas uma felicidade enorme me invadiu...
Hoje foi um dia assim...
Eu estava que nem boba, sorrindo à toa...
Hoje foi pleno...
Fui ao outro lado e voltei, e voltei feliz assim, sabe!?
Hoje foi sonho ou realidade?!...
Acho q foi os dois juntos, misturados com fantasias, imaginações..

Hoje o dia foi pra você...
Pensei, pensei , e eu só pensava em você.
Hoje, só de pensar que o Hoje esta pra acabar...
AH! Se todos os dias fossem como Hoje...
"O hoje não é mais hoje, hoje foi ontem"
Afinal, q dia é hoje?
É, acho que foi ontem, "e eu queria que o tempo pudesse voltar
dessa vez"
Hoje foi um dia de libertação, de conquista...
Libertei minha alma, deixei-a calma, soltei-a do passado...
Me reconquistei novamente, enfim, nasci de novo...
Hoje foi o dia da serpente...
"Serpente, nem sente, que me envenenou"...
Hoje foi "O Dia"...
O dia que eu senti,
O dia que eu chorei,
O dia de ser feliz,
O dia que eu descobri,
O dia que me libertou,
O dia que me ensinou,
O dia seu
O dia meu
O dia das almas...
O dia de calma,
Enfim, hoje foi "O Dia"...

1 031
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Pintando Emoções

Ao
som das doces cascatas
Pintas castelos cintilantes
Abraças íntimos desejos
E absorves calores adormecidos
Dentro de sonhos distantes.

Flutuam seduções na doce brisa do luar
Invadindo as sombras da humildade.
Desvanecem-se os segredos da noite estrelada
Indefinidamente subtis
Na corrente azulada do interior da felicidade.

Brilhos mágicos seduzem eternas ilusões,
Os sentidos deslizam delicadamente acordados,
Abertamente apaixonados,
Incendiando aveludados mistérios
Plantados nos jardins dos mitos.

Multiplicam-se melodias encantadas,
Recordações sem limites emergentes
Puras verdades inteligentes
No império das virtudes imperceptíveis.

Ao som das doces cascatas
Pintas castelos cintilantes
Dentro de sonhos distantes...

1 377
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Magia

Quando pela manhã se abrem as janelas
E entra a brisa da felicidade, isto é magia.
Quando se cheira uma rosa encantada
E se sente o perfume de um beijo ardente, isto é magia.
Quando os raios escaldantes do sol
Se transformam em fonte eterna, isto é magia.
Quando se mergulha nas gotas da chuva
E navegamos pela imensidão, isto é magia.
Quando se toca na cores quentes do por do sol
E descobrimos cânticos dourados, isto é magia.
Quando se vê no reflexo do brilho do luar
Os contornos íntimos da sua beleza,
Se sente o perfume ardente do teu beijo,
O calor penetrante da tua ternura,
A imensidão absorvente do teu carinho,
Isto é AMOR.

1 899
Adélia Prado

Adélia Prado

Dádivas

Como boas senhoras brincam as marrecas,
falsas mofinas debicando nos filhos.
Ruflares, respingos, grasnares,
que bom estar no mundo
a esta hora do dia!
De maneira perfeita tudo é bom,
até mulheres boçais amam gerânios,
não se tem certeza de que vamos morrer,
velhas se consentem em suas vulvas,
agradecendo a Deus por seus maridos.
Até eu, pudica, arrisco: Ei, baby!
Meu corpo me ama e quer reciprocidade.
São os relógios
o mais obsoleto dos inventos.
1 093
Isabel Machado

Isabel Machado

Seios

O branco
todo alvo
realça na pele bronze

No alvo, círculo rosado
ao centro um olho
pedinte, esbugalhado

Todo ele na palma da mão
na tua mão encaixado
faminto se enrijece
sedento pede tua língua
afoito geme ao contato
feito coito alucinado

Os dois são felicidade
nas tuas mãos e cuidados
bichos presos, enjaulados
não querendo liberdade

1 104
Silvio Cruz

Silvio Cruz

Contar

Conta
os teus dias pelas horas felizes vividas,
as nuvens escuras apenas evitam
que o brilho do sol chegue aos teus olhos,
ele continua a existir, a brilhar...
a aquecer o mundo!
Conta as tuas noites pelas estrelas
que vês no firmamento,
esqueça a escuridão, a sombra,
elas apenas separam um dia do outro,
separam o brilho e a claridade
de estarem em todos os lugares!
Conta tua vida pelos sorrisos,
nunca pelas lágrimas derramadas,
elas são eternos ensinamentos,
te ajudam a crescer!
Enfim, conta tua felicidade pelas pessoas
em quem fizeste renascer a esperança,
pelo amor verdadeiro que deste...
recebeste e viveste!!!

1 008
Rose M. Martins

Rose M. Martins

Fases da Lua

Morri...
Até então não percebia, mas eu morria a cada dia, gota a gota a sangrar...

Percebi...
Desesperei-me, não sabendo para onde caminhar...

Desisti...
Por um momento, por não me encontrar...

Perdi...
a mim mesma, e de repente estava numa sala a buscar...

Vi...
Alguém chegar, tornando-se cada vez mais importante a me apoiar...

Senti...
Tanta alegria, tanta solidariedade, tudo nada familiar...

Envolvi...
E fui envolvida, num sentimento puro, era só felicidade a brotar...

Vivi...
Tudo intensamente, querendo tocar, saborear, voar...

Venci...
As amarras, tirei a venda dos olhos, e vi um mundo colorido a me esperar...

Sorri...
Você estava de braços abertos, carinhosamente a me amparar...

Corri...
Até o arco-íris dos teus olhos, sentindo o calor de teu sorriso a me
animar...

Retribuí...
Esse abraço maravilhoso, com ânsia, feliz por finalmente te encontrar...

Aprendi...
Que com você é divino conjugar o verbo adorar.

402
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Chuveiro

gostamos de um banho depois da função
(gosto da água mais quente do que ela)
e seu rosto está sempre suave e pacífico
e ela me lavará primeiro
espalhará sabonete sobre minhas bolas
erguerá as bolas
as esfregará
depois lavará meu pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pegará nos pelos lá embaixo –
na barriga, nas costas, no pescoço, nas pernas,
eu sorrio, sorrio, sorrio,
e então eu a lavarei...
primeiro a buceta
ficarei atrás dela, meu pau entre sua bunda
ensaboarei com gentileza seus pentelhos,
lavarei tudo ali com movimentos sutis,
uma demora talvez mais longa que o necessário,
então a parte de trás das suas coxas, seu rabo,
as costas, o pescoço, para depois virá-la, beijá-la,
ensaboar os seios, tomando-os e depois a barriga, o pescoço,
a parte da frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a buceta, mais uma vez, para a boa sorte...
mais um beijo, e ela sairá primeiro,
enxugando-se, algumas vezes cantando enquanto eu permaneço lá dentro
abrindo ainda mais a torneira quente
sentindo a bonança do milagre do amor
para só depois sair...
isto ocorre normalmente no meio da tarde e tudo está tranquilo,
e ao nos vestirmos falamos sobre o que ainda há
para ser feito
mas por estarmos juntos quase tudo está resolvido,
de fato, tudo está resolvido,
e pelo tempo em que essas coisas estiverem resolvidas
na história da mulher e
do homem, será diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, é esplêndido o suficiente para lembrar
superando os exércitos que marcham
os cavalos que cruzam as ruas lá fora
superando as memórias da dor e da derrota e da infelicidade:
Linda, você trouxe isso pra mim,
quando me for tirá-lo
faça-o bem devagar e de mansinho
faça-o como se eu estivesse morrendo entre sonhos e não de
olhos abertos, amém.

Dee Dee tinha uma casa em Hollywood Hills. Dividia o lugar com uma amiga, também uma executiva, chamada Bianca. Bianca morava no andar de cima, Dee Dee, no de baixo. Toquei a campainha. Eram oito e meia quando ela abriu a porta. Dee Dee tinha uns quarenta anos, cabelo preto, batido, era judia, descolada, estranha. Estava voltada para Nova York, conhecia todos os nomes: os bons editores, os melhores poetas, os cartunistas mais talentosos, os grandes revolucionários, qualquer um, todo mundo. Fumava maconha sem parar e agia como se estivesse no início dos anos 1960 e em plena vigência do Paz e Amor, quando ela fora razoavelmente famosa e muito mais bonita.
Uma longa série de complicados casos amorosos liquidou-a. Agora, lá estava eu à sua porta. Seu corpo ainda dava para o gasto. Ela era pequena, mas tinha um aspecto saudável e muitas garotas gostariam de ter o seu físico.
Entrei atrás dela.
– Então a Lydia se mandou? – perguntou Dee Dee.
– Acho que ela foi para Utah. O baile do Quatro de Julho em Muleshead está chegando. Ela nunca perde.
Sentei junto à mesa da cozinha enquanto Dee Dee abria uma garrafa de vinho tinto.
– Está com saudades dela?
– Claro que sim. Tenho vontade de chorar. Estou com um nó aqui dentro. Acho que não vou me recuperar.
– Vai sim. Vamos dar um jeito de superar Lydia. Tudo passa.
– Então você sabe como estou me sentindo?
– Já aconteceu com todos nós algumas vezes.
– A cadela nunca ligou a mínima para mim.
– Bobagem. Ela ainda liga sim.
Decidi que era melhor estar ali, no casarão de Dee Dee em Hollywood Hills, do que sozinho em meu apartamento ruminando.
– Deve ser porque eu não sou bom para as mulheres – eu disse.
– Você é bom o bastante com as mulheres – disse Dee Dee. – Além de ser um puta escritor.
– Preferia me dar bem com as mulheres.
Dee Dee estava acendendo um cigarro. Esperei-a terminar, me inclinei sobre a mesa e lhe dei um beijo.
– Você me faz sentir bem. Lydia estava sempre na ofensiva.
– Isso não significa o que você acha que significa.
– Mas pode se tornar bastante desagradável.
– Certamente, um inferno.
– Você já encontrou um namorado?
– Ainda não.
– Gosto desse lugar. Mas como consegue manter tudo tão limpo e arrumado?
– Temos uma empregada.
– Ah, é?
– Você vai gostar dela. Ela é uma negra bem grande e trabalha a toda velocidade assim que eu saio, para acabar logo o serviço. Então vai para a minha cama e fica vendo tevê e comendo biscoito. Todas as noites encontro farelo de biscoito na cama. Vou pedir pra ela preparar um café da manhã pra você, antes de eu sair amanhã de manhã.
– Beleza.
– Não, espere. Amanhã é domingo. Não trabalho aos domingos. Vamos comer fora. Conheço um lugar. Você vai gostar.
– Beleza.
– Sabe, acho que sempre fui apaixonada por você.
– O que?
– Há anos. Sabe, quando eu costumava visitar você, primeiro com Bernie, depois com Jack, eu já o desejava. Mas você nunca me notou. Estava sempre mamando numa lata de cerveja, ou então obcecado por alguma coisa.
– Demência – eu acho –, demência total. Chamam de demência do serviço postal. Desculpe eu não ter notado você.
– Pode começar a se recuperar agora.
Dee Dee serviu mais uma taça de vinho. Coisa fina. Eu gostava dela. Era bom ter um lugar para onde ir quando tudo mais dava errado. Me lembrei de antigamente, quando as coisas ficavam feias e eu não tinha para onde ir. Talvez isso até tenha sido bom para mim. Naquela época. Mas agora não queria saber do que tinha sido bom ou mau. Importava o momento, o que estava sentindo e o que fazer para parar de me sentir mal quando as coisas dessem errado. Como voltar a me sentir bem.
– Não quero jogar com seus sentimentos, Dee Dee – eu disse. – Nem sempre sou bom para as mulheres.
– Já disse que te amo.
– Não faça isso. Não me ame.
– Está bem – ela disse –, não vou te amar. Vai ser um quase amor. Que tal?
– É uma proposta muito melhor que a anterior.
Acabamos nosso vinho e fomos para cama...
– Mulheres
1 386
Sylvio Persivo

Sylvio Persivo

Resquícios

Só me lembro de teus olhos brilhantes
Me dizendo coisas impossíveis de dizer
E de teu sorriso imenso, radiante
Se alimentando de todo o meu prazer.

Depois ...Lembrar ficou tão difícil
Na confusão de beijos e de abraços.
Tomei teu corpo, o que tornou-se vício,
E perdi os sentidos no gozo de teus braços.

E fui feliz, deus, louco e criança
Tanto que, sem música, criei a dança
Irreal que chamei de felicidade

E quando, enfim o real nos despertou,
Apesar da dor valeu, pois só quem amou
Teve, na vida, um pouco de Verdade!

850
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Interlúdio

Partículas
de silêncio
Superficialmente emocionado
Florescem na noite das constelações

Ritmos inalteráveis
De fragmentos de luz
Resistem à reconciliação do vazio.

A cor dos significados
Irrompe deliciosamente
Pela fronteira do silêncio

A sede eterna
Venerável e temperamental
Invade a alegria transparente

No infinito lago azul celestial
Emergem gotas ofuscantes
Criando a luz do tempo apagado

Tu dentro de mim
Criaste o vermelho flamejante
Onde as emoções navegam triunfantes

1 058
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Os invulneráveis

Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?

Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.

Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.

É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
1 020
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Silenciosa Felicidade

Acordam
as sombras floridas
Flutuando alegremente
Pela intensidade do intimo desejo.

Brincam os sentidos
Seguindo o voo colorido das aves
E ouvindo o murmúrio azul dos riachos.

Dançam pensamentos cristalinos
Sobre a suavidade deslizante
Das gotas brilhantes das cascatas.

Vibram comovidos carinhos
Aquecendo ardentes fontes seculares
Da alquimia sensual do beijo.

Resplandecem nuvens de sensibilidade
Espalhando misteriosas ternuras
Pelos perfumes infinitos da felicidade
E no emaranhado das lianas espirituais
Abraçamos majestosos segredos da luz da vida
Criando a magia absorvente do amor.

1 181
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Preguiça

Não trabalhei em Domingo,
ainda que nunca fui Deus.
Nem de Segunda a Sábado
porque sou criatura preguiçosa,
contentei-me com olhar as ruas
onde trabalham chorando
pedreiros, magistrados, homens
com ferramentas ou com ministérios.

Fechei todos meus olhos de uma vez
para não cumprir com meus deveres,
essa é a coisa
sussurrava-me a mim mesmo
com todas minhas gargantas,
e com todas minhas mãos
acariciei sonhando
as pernas femininas que passavam voando.

Depois bebi vinho tinto do Chile
durante vinte dias e dez noites.
Bebi esse vinho cor de amaranto
que nos palpita e que desaparece
em tua garganta como um peixe fluvial.
Devo agregar a este testemunho
que mais tarde dormi, dormi, dormi,

sem renegar de minha má conduta
e sem remordimento,
dormi tão bem como se chovesse
interminavelmente
sobre todas as ilhas
deste mundo
furando com água celeste
a caixa dos sonhos.
1 380
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não consentem os deuses mais que a vida. [2]

Não consentem os deuses mais que a vida.
Por isso, Lídia, duradouramente
        Façamos-lhe a vontade
        Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
        Por cor da nossa vida,
        Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
        Só mornos ao sol quente,
        E reflectindo um pouco.
1 116
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Volante Branco

Percorro as ruas contra o sol
numa dança fácil.
As pedras são de praia entre árvores.
O meu volante branco.
Este grande pé de terra, eira do vento.
Sóbrio bêbedo de nua fronte aérea.
Aterro entre casas altas caixas.
Verde leve brincos trémulos verde.
Alegre de fogachos.
812
Pablo Neruda

Pablo Neruda

I - Os Regressos

No sul da Itália, na ilha,
recém-chegado
da Hungria deslumbrante, da abrupta
Mongólia,
o sol sobre o inverno,
o sol sobre o mar do inverno.
Outra vez,
outra vez comecemos,
amor, de novo façamos
um círculo na estrela.
Seja a luz,
seja a transparência.
Façamos
um círculo no pão.
Seja entre todos os homens
a partilha de todos os bens.
Faça-se a justiça,
faremos.

Vida,
me deste
tudo.
Afastaste de mim a solidão,
a solitária lâmpada
e o muro.
Deste-me
amor a mãos-cheias,
batalhas,
alegrias,
tudo.
E a ela me entregaste
apesar de mim.
Fechei os olhos.
Eu não queria vê-la.
Vieste
apesar disso, completa,
completa com todos os dons
e com a ferida que eu mesmo pus
dentro de ti com uma flor sangrenta
que me fez cambalear sem derrubar-me.
1 144