Poemas neste tema

Felicidade e Alegria

Maria do Socorro Ribeiro

Maria do Socorro Ribeiro

Quando eu tinha você

Quando a vida era nós dois,
O nosso mundo era festa...
Cantavam as coisas naturais,
Nossos canteiros eram floridos,
Nossa mansão - um gorgeio,
Tínhamos o nosso Irapuru...

Quando a vida era nós dois,
Multiplicavam-se os afetos,
Cresciam as afeições...
O nosso endereço era convite,
Chama de cartões dourados...

Quando a vida era nós dois,
As manifestações sociais
Enchiam nossa sombra
e cantavam "parabéns prá você"..
O nosso balão subia
Como uma afirmação de fé
Para as bençãos de Deus...

833
Marina Colasanti

Marina Colasanti

CIRCO DE SOL

Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.

Viena 1995
1 201
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Bela

Bela, Bela, ritornelo
Seja em tua vida, espero :
Belo, belo, belo, belo,
Tenho tudo quanto quero!
1 223
Torquato Neto

Torquato Neto

Geléia Geral

um poeta desfolha a bandeira
e a manhã tropical se inicia
resplandente cadente fagueira
num calor girassol com alegria
na geléia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

"a alegria é a prova dos nove"
e a tristeza é teu porto seguro
minha terra é onde o sol é mais limpo
e mangueira é onde o samba é mais puro
tumbadora na selva-selvagem
pindorama, país do futuro

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mê que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

é a mesma dança na sala
no canecão na TV
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê da sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela

carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

plurialva contente e brejeira
miss linda brasil diz bom dia
e outra moça também carolina
da janela examina a folia
salve o lindo pendão dos seus olhos
e a saúde que o olhar irradia

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança, meu boi

um poeta desfolha a bandeira
e eu me sinto melhor colorido
pego um jato viajo arrebento
como roteiro do sexto sentido
foz do morro, pilão de concreto
tropicália, bananas ao vento

ê bumba iê, iê boi
ano que vem mês que foi
ê bumba iê, iê iê
é a mesma dança meu boi

Imagem - 00360001


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
2 263
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Tristeza de Momo

Pela primeira vez, ímpias risadas
Susta em prantos o deus da zombaria;
Chora, e vingam-se dele, nesse dia,
Os silvanos e as ninfas ultrajadas;

Trovejam bocas mil escancaradas,
Rindo; arrombam-se os diques da alegria,
E estoira descomposta vozeria
Por toda a selva, e apupos e pedradas.

Fauno o indigita; a Náiade o caçoa;
Sátiros vis, da mais indigna laia,
Zombam. Não há quem dele se condoa!

E Eco propaga a formidável vaia,
Que além, por fundos boqueirões reboa,
E, como um largo mar, rola e se espraia...


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.8
3 421
Juan Gelman

Juan Gelman

Chega

chega
não quero mais morte
não quero mais dor ou sombras chega
meu coração é esplêndido como uma palavra

meu coração tornou-se belo como o sol
que sai voa canta meu coração
é cedo um passarinho
e depois teu nome

teu nome sobe todas as manhãs
aquece o mundo e se põe
só em meu coração
sol em meu coração

(Tradução de Ricardo Domeneck)



Basta

basta
no quiero más de muerte
no quiero más de dolor o sombras basta
mi corazón es espléndido como una palabra

mi corazón se há vuelto bello como el sol
que sale vuela canta mi corazón
es de temprano un pajarito
y después es tu nombre

tu nombre sube todas las mañanas
calienta el mundo y se pone
solo en mi corazón
sol en mi corazón.

.
.
.
1 400
Carlos Soulié do Amaral

Carlos Soulié do Amaral

Soneto da Alegria

De nada, ou quase nada, uma alegria
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.

Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.

E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,

Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
791
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sacha e o Poeta

Quando o poeta aparece,
Sacha levanta os olhos claros,
Onde a surpresa é o sol que vai nascer.
O poeta a seguir diz coisas incríveis,
Desce ao fogo central da Terra,
Sobe na ponta mais alta das nuvens,
Faz gurugutu pif paf,
Dança de velho,
Vira Exu.
Sacha sorri como o primeiro arco-íris.

O poeta estende os braços, Sacha vem com ele.

A serenidade voltou de muito longe.
Que se passou do outro lado?
Sacha mediunizada
— Ah — pa — papapá — papá —
Transmite em Morse ao poeta
A última mensagem dos Anjos.

1931
618
Morais Filho

Morais Filho

A mulata

Eu sou mulata vaidosa,
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.

Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.

Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!

Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.

Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...

Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.

Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.

Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.

Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.

Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.

Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...

Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!

Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.

1 512
Carlos Soulié do Amaral

Carlos Soulié do Amaral

O livre na paisagem

Um gaturamo é mais nada
do que pássaro num ramo
de arbusto, de árvore, um
pássaro solto em plano
de ar, planando, voando
dono de si e suas asas.

Canta porque quer, pousa
onde quer e em sua pausa
toda liberdade é inverdade
porque ele a usa
sem sentido de ser
livre ou de querer.

Em verdade um gaturamo
só é pássaro num ramo
quando canta ou pia.
Então, mostra não ter amo
que não seja a alegria.
Tudo o mais nele é paisagem.
Folha ao ramo incorporada,
folha de árvore flanando,
folha no chão, semi-alada,
folha quieta entre folhagem,
no mais esta ave paisagem
é um gaturamo, mais nada.
769
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Bonheur Lyrique

Coeur de phtisique
O mon ceeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Um bonheur qui soit comme le piteux lustucru en chiffon d'une enfant pauvre
— Fait par elle-même.
1 462
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Oração a Teresinha do Menino Jesus

Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!...
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
1 207
Simone Brantes

Simone Brantes

O sol na cama

O dedo na rama e o sol na cama:
quanto vale o dia de quem ama?,
quanto? passá-lo em sua faina de
amor lado a lado, moita, mão, e
o sol derramado?
820
João Mello

João Mello

Esta é a Cidade

Esta é a cidade. Quem caminha
sorvendo seus odores coloridos?

Caleidóscopicos sons
inebriam os músculos
como doces agulhas

Quem sente o calor do chão
luz de vidro e água
intensa e rumorosa como
um afago?

As crianças percorrema cidade
atrás do tiroteiro
como aves barulhentas. A rota
desta guerra
elas sempre a conheceram

Há uma farra em cada esquina
onde tambores renovados
fazem explodir toda alegria antiga

A liberdade é uma visível linha
de fogo nos olhos dos homens.

1 173
Cludia Nobre de Oliveira

Cludia Nobre de Oliveira

Amor

Meu corpo incendiado por um mal que penso ser
adentrando pela minha cabeça e ressurgindo nas
veias fortalecendo meu peito para suportar essa força
máxima, forte
me parece insuportável, reago a esse mal, mais uma vez
não?!
Deixo-o viver, sobreviver renascer dentro de mim pois
esse mal não é tão mal assim é bem para o meu corpo
minha alma meu coração, é o mal bem querer que é mais
uma vez o mal de amar e ser amado e plenamente feliz
de, sede de vida.

867
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

A voz do louco II

Não sou louco não,
mas assumo
o gosto amargo da vida.

Não sou louco não,
mas do dia a dia
construo versos,
venço a fadiga,
e faço do cais
sempre um porto
seguro,
um ponto de partida
para galgar muros.

Não sou louco não,
ou melhor,
sou louco pela vida.

887
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Carrossel

Upa, meu cavalinho,
deixemos os patos pra trás.
Carrinhos, podem parar.
Upa, meu cavalinho,
nosso círculo não pode fechar.
Com a crina vermelha ao vento,
galopa no espaço, comendo ar.
Seu eixo é nosso desejo,
suas patas livres a alegria
dos meninos do parque
que, no seu dorso liso,
galopando, galopando
sobre a terra e o mar,
o mundo querem ganhar.

1 076
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Na Praia

Meus pés na areia
os olhos no ar.

Vasto e imenso,
lindo e livre,
mar-espaço
— uma paisagem só.

Marulho das ondas,
voz do mar,
azul da manhã,
alegria do céu.
No meu coração
— um canto só.

968
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Aula de Português

Na lição de substantivos,
cansada de concretos,
começo a pensar abstrato
e me faz bem.

Alegria de brincar,
nesta branca manhã,
com anjinhos nus,
na pureza do céu.

Olhar de piedade,
gestos de amor
vão colar as asas
do passarinho caído.

Vida e graça Deus dá,
mas a gratidão é um dom.

O bem muita gente não faz
e é tão fácil de fazer.

Doença e dor não, não,
nem quero saber.

1 035
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

O Sorvete

Colorido, gostoso
este meu sorvete!
Seguro a casquinha
e bebo a doçura
que desce de leve
para dentro de mim.

Meu estômago está alegre
como meu coração:
— dois lindos morangos.

1 215
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Eu e a Maçã

A maçã é redonda,
vermelha,
lisinha
e na haste seca
tem uma folhinha.

É tão linda
que nem quero comê-la
e vou guardá-la,
enquanto puder,
pois, ao vê-la,
fico alegre
e sinto meu rosto
parecido com ela.

1 302
Cleonice Rainho

Cleonice Rainho

Passarinhos

No fio grosso,
um molho de fios,
passarinhos pousam
e cantam de manhãzinha.

São fios do telefone,
vão levar recados pra alguém,
trazer recados pra mim.

Mas o canto fica,
— trinados de alegria
que vêm com o sol do dia.

1 065
Renato Rezende

Renato Rezende

Espera

Uma conversa que hoje escutei
me fez refletir
se sou realmente feliz.
Um moço disse à outro:
Eu realmente, realmente, realmente
quero....
Quando foi a última vez
que eu quis?
Deito-me dentro de mim mesmo
e espero.


Nova York, 8 de março 1996
1 102
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,

Na casa defronte de mim e dos meus sonhos,
Que felicidade há sempre!

Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi.
São felizes, porque não são eu.

As crianças, que brincam às sacadas altas,
Vivem entre vasos de flores,
Sem dúvida, eternamente.

As vozes, que sobem do interior do doméstico,
Cantam sempre, sem dúvida.
Sim, devem cantar.

Quando há festa cá fora, há festa lá dentro.
Assim tem que ser onde tudo se ajusta –
O homem à Natureza, porque a cidade é Natureza.

Que grande felicidade não ser eu!

Mas os outros não sentirão assim também?
Quais outros? Não há outros.
O que os outros sentem é uma casa com a janela fechada,
Ou, quando se abre,
É para os crianças brincarem na varanda de grades,
Entre os vasos de flores que nunca vi quais eram.

Os outros nunca sentem.
Quem sente somos nós,
Sim, todos nós,
Até eu, que neste momento já não estou sentindo nada.

Nada? não sei...
Um nada que dói...


16/06/1934
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