Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Ruy Belo
Escatologia
Grande diálogo será esse contigo
quando de todo recolheres
a linha dos meus dias
e eu for varar na tua face
com o meu cumprido olho de peixe
Aceita eu ser uma só palavra
e nela todo dizer-me
Talvez então eu sinta
no compromisso do olhar
que já te conhecia c nenhuma outra praia
para o meu coração via
Mas eras ou não eras pescador
grande demais para dois olhos
que só a tua ausência enchia?
Recebe no teu mar senhor
meu íntimo destino de algas e de escamas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 38 | Editorial Presença Lda., 1984
quando de todo recolheres
a linha dos meus dias
e eu for varar na tua face
com o meu cumprido olho de peixe
Aceita eu ser uma só palavra
e nela todo dizer-me
Talvez então eu sinta
no compromisso do olhar
que já te conhecia c nenhuma outra praia
para o meu coração via
Mas eras ou não eras pescador
grande demais para dois olhos
que só a tua ausência enchia?
Recebe no teu mar senhor
meu íntimo destino de algas e de escamas
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 38 | Editorial Presença Lda., 1984
1 377
Ruy Belo
Cerimonial
Eu vou colhendo com unção os dias
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 305
Glauco Mattoso
Rifoneiro, 1977
O ventre em jejum, não ouve a nenhum.
Vontade de rei, não conhece lei.
Não faz por nenhum, quem faz por comum.
Deus diz: faze TU, que eu te ajudarei.
A mau falador, discreto ouvidor.
Faze pé atrás, melhor saltarás.
Deseja o melhor, espera o pior.
Madruga e verás, trabalha e terás.
A quem Deus quer bem, ao rosto lhe vem.
A quem medo hão, o seu logo dão.
Além ou aquém, ver sempre com quem.
Dois lobos a um cão, bem o comerão.
Comer e coçar, é só começar.
Faz bem jejuar, depois de jantar.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
Vontade de rei, não conhece lei.
Não faz por nenhum, quem faz por comum.
Deus diz: faze TU, que eu te ajudarei.
A mau falador, discreto ouvidor.
Faze pé atrás, melhor saltarás.
Deseja o melhor, espera o pior.
Madruga e verás, trabalha e terás.
A quem Deus quer bem, ao rosto lhe vem.
A quem medo hão, o seu logo dão.
Além ou aquém, ver sempre com quem.
Dois lobos a um cão, bem o comerão.
Comer e coçar, é só começar.
Faz bem jejuar, depois de jantar.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 481
Glauco Mattoso
Credo Progressista, 1977
para Murilo Mendes & Chico Buarque
Creio em Deus Pátria,
plenipotenciário,
criador do espaço aéreo
e das águas territoriais,
do Mal e do Bem,
do Visível e do Invisível.
E em Creso Justo,
Seu único Filho,
nosso Senhor feudal,
Que é filho procedente de Pai,
Peixinho de Peixe,
Nadador de Natação,
Sangue do Húmus.
O Qual foi concebido do 'Espírito das Leis';
nasceu da Mata Virgem;
padeceu sob o Poder Moderador;
foi seviciado, chacinado
e Seu cadáver abandonado em local ermo;
desceu ao proletariado,
ao terceiro Dia do Trabalho ressurgiu dos pobres,
segundo as Escrituras Definitivas
de Compra e Venda
devidamente inscritas no Cartório
de Registro de Imóveis da Capital;
subiu ao Planalto,
está sentado à mão direitista de Deus Pátria,
donde há de vir e julgar os ricos e os pobres;
e o Seu império não terá fim.
Creio no 'Espírito das Leis';
na Santa Aliança, no Santo Ofício,
na Família, na Propriedade
e na Traição, digo, na Tradição;
na mancomunação, perdão,
na comunhão dos santos cassados;
na cassação dos mandatos;
na ressurreição da carne de primeira;
na puxa vida eterna,
Amém.
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
Creio em Deus Pátria,
plenipotenciário,
criador do espaço aéreo
e das águas territoriais,
do Mal e do Bem,
do Visível e do Invisível.
E em Creso Justo,
Seu único Filho,
nosso Senhor feudal,
Que é filho procedente de Pai,
Peixinho de Peixe,
Nadador de Natação,
Sangue do Húmus.
O Qual foi concebido do 'Espírito das Leis';
nasceu da Mata Virgem;
padeceu sob o Poder Moderador;
foi seviciado, chacinado
e Seu cadáver abandonado em local ermo;
desceu ao proletariado,
ao terceiro Dia do Trabalho ressurgiu dos pobres,
segundo as Escrituras Definitivas
de Compra e Venda
devidamente inscritas no Cartório
de Registro de Imóveis da Capital;
subiu ao Planalto,
está sentado à mão direitista de Deus Pátria,
donde há de vir e julgar os ricos e os pobres;
e o Seu império não terá fim.
Creio no 'Espírito das Leis';
na Santa Aliança, no Santo Ofício,
na Família, na Propriedade
e na Traição, digo, na Tradição;
na mancomunação, perdão,
na comunhão dos santos cassados;
na cassação dos mandatos;
na ressurreição da carne de primeira;
na puxa vida eterna,
Amém.
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 558
Maria Helena Nery Garcez
Quarteto
Camões, grande Camões, quão concertados
estamos,
no desconcerto da Babilônia em que vivemos!
(Sabei que segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento do universo!)
Jerusalém é cidade bem edificada,
porém Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
têm do confuso mundo o regimento.
Se é tudo quanto vejo um desconcerto,
se d'alma um grito me sai,
da vista um rio,
o melhor seria,
quando há bruma,
esperar por Dom Sebastião?
Quer ele venha ou não.
Camões, grande Camões, quão concordados
estamos,
em que o melhor é ter muito visto,
mas o melhor de tudo
é crer em Cristo!
(que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...)
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
estamos,
no desconcerto da Babilônia em que vivemos!
(Sabei que segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento do universo!)
Jerusalém é cidade bem edificada,
porém Fortuna, Caso, Tempo e Sorte
têm do confuso mundo o regimento.
Se é tudo quanto vejo um desconcerto,
se d'alma um grito me sai,
da vista um rio,
o melhor seria,
quando há bruma,
esperar por Dom Sebastião?
Quer ele venha ou não.
Camões, grande Camões, quão concordados
estamos,
em que o melhor é ter muito visto,
mas o melhor de tudo
é crer em Cristo!
(que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...)
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
974
Stella Leonardos
Do Aprendiz de Escultor
Existe uma voz na pedra?
Lá no alto daquela pedra
mora um colomi de pedra
chamado Itacolomi.
O colomi, lá da pedra
me fala: — Não queiras ouro.
Menino, teu ouro é outro.
Escuta, Antônio Francisco,
tuas mãos querem lavrar.
Procura tornar mais que ouro
a pedra que te encontrar.
Existe voz na madeira?
Lá do alto daquela igreja
vive uma cruz de madeira,
a mais alta que já vi.
A cruz, lá do alto, me fala:
— Escuta, Antônio Francisco,
não te coube em Vila-Rica
muita lenha. Coube lenho
e mãos que querem talhar.
Procura tornar madeiro
a madeira que te achar.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
Lá no alto daquela pedra
mora um colomi de pedra
chamado Itacolomi.
O colomi, lá da pedra
me fala: — Não queiras ouro.
Menino, teu ouro é outro.
Escuta, Antônio Francisco,
tuas mãos querem lavrar.
Procura tornar mais que ouro
a pedra que te encontrar.
Existe voz na madeira?
Lá do alto daquela igreja
vive uma cruz de madeira,
a mais alta que já vi.
A cruz, lá do alto, me fala:
— Escuta, Antônio Francisco,
não te coube em Vila-Rica
muita lenha. Coube lenho
e mãos que querem talhar.
Procura tornar madeiro
a madeira que te achar.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 060
Ribeiro Couto
Festa na Bahia
Andorinha cantou é dia.
(Motivo popular.)
Cristo nasceu na Bahia.
(Motivo popular.)
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Aqueles sábios das Escrituras
Já não gostavam de nós, eu sei.
Era o preconceito contra as misturas.
Índios e negros, raças impuras,
Que era aquilo, com portugueses de lei?
Andorinha passou contando
Que o Filho de Deus estava chegando.
Teve sempre de tudo na Bahia.
A gente querendo acha: acha porque ainda tem.
Mulheres, então, nem posso dizer as que havia!
Umas de pé descalço, outras com colar de pedraria,
Iaiá, cafuné, berenguendém.
No céu de coqueiros cantou a andorinha.
A cidade ficou sabendo: Nosso Senhor do Bonfim já vinha.
Houve de tudo na Bahia e de todas as cores,
Houve tudo que é bom e ainda há.
Risos de todos os dentes, braços de todos os odores,
Mulatas enfeitiçando padres e governadores,
Azeite-de-dendê, moqueca de peixe, vatapá.
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Domingo eu vou lá.
Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.27
(Motivo popular.)
Cristo nasceu na Bahia.
(Motivo popular.)
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Aqueles sábios das Escrituras
Já não gostavam de nós, eu sei.
Era o preconceito contra as misturas.
Índios e negros, raças impuras,
Que era aquilo, com portugueses de lei?
Andorinha passou contando
Que o Filho de Deus estava chegando.
Teve sempre de tudo na Bahia.
A gente querendo acha: acha porque ainda tem.
Mulheres, então, nem posso dizer as que havia!
Umas de pé descalço, outras com colar de pedraria,
Iaiá, cafuné, berenguendém.
No céu de coqueiros cantou a andorinha.
A cidade ficou sabendo: Nosso Senhor do Bonfim já vinha.
Houve de tudo na Bahia e de todas as cores,
Houve tudo que é bom e ainda há.
Risos de todos os dentes, braços de todos os odores,
Mulatas enfeitiçando padres e governadores,
Azeite-de-dendê, moqueca de peixe, vatapá.
Andorinha cantou é dia,
Cristo nasceu na Bahia.
Domingo eu vou lá.
Publicado no livro Cancioneiro de Dom Afonso (1939).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.27
1 199
Stella Leonardos
O Mulato
"Na busca exata, Ataíde, Vermelho e Azul —
como o cônego o apelidara, em total respeito ao
talento explodido"...
João Felício dos Santos
Sol vermelho sutilíssimo
rompe sol nos lás de azul.
Alvora em mestre Ataíde
cântico vermelho-azul?
A paleta se ilumina
neovermelha, noviazul.
Vermelhos toques sublimes.
Tocante música azul.
E os Passos do Cristo brilham
nos laivos vermelhoazuis.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
como o cônego o apelidara, em total respeito ao
talento explodido"...
João Felício dos Santos
Sol vermelho sutilíssimo
rompe sol nos lás de azul.
Alvora em mestre Ataíde
cântico vermelho-azul?
A paleta se ilumina
neovermelha, noviazul.
Vermelhos toques sublimes.
Tocante música azul.
E os Passos do Cristo brilham
nos laivos vermelhoazuis.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro do Aleijadinho. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984. (Poetas de sempre, 4)
1 427
Teófilo Dias
Aspiração
No espaço, em cada ser, que um centro atraia e prenda,
Há sempre o despontar de uma asa, que o suspenda.
Ascender! Ascender! — dizem todas as cousas,
As estrelas nos céus, os vermes sobre as lousas.
É o hino, que tudo, em sôfregos suspiros,
Canta: — férvida a fonte, em sinuosos giros,
Sobre pedras quebrando o trépido carinho,
A ave, inquieta e meiga, em volta do seu ninho,
O ninho sob o ramo, o ramo sob as flores,
As flores no perfume, — e a gruta nos vapores
Que em frouxas espirais às amplidões alteia.
A vida não se esgota, e vai perpetuamente
Do esboço às perfeições, harmônica, ascendente.
O imóvel não existe. A floresta pompeia
O luxo exuberante, a gala festival,
A verdura febril, do mundo vegetal.
Fixo? Não. Ei-lo em flor; — e em êxtases secretos
Dispersa-se em aroma, e voa nos insetos.
Enfim, por toda parte há íntimos palpites,
Ímpetos de romper barreiras e limites.
Fatal gravitação tolha-me embora os pés.
Hei de também subir dos mundos através,
Hei de também transpor os tempos e os espaços,
Na esperança de além colher-te nos meus braços,
A ti, que és para mim a força ascensional,
Oh Glória! — A aspiração! O porvir! O ideal!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
Há sempre o despontar de uma asa, que o suspenda.
Ascender! Ascender! — dizem todas as cousas,
As estrelas nos céus, os vermes sobre as lousas.
É o hino, que tudo, em sôfregos suspiros,
Canta: — férvida a fonte, em sinuosos giros,
Sobre pedras quebrando o trépido carinho,
A ave, inquieta e meiga, em volta do seu ninho,
O ninho sob o ramo, o ramo sob as flores,
As flores no perfume, — e a gruta nos vapores
Que em frouxas espirais às amplidões alteia.
A vida não se esgota, e vai perpetuamente
Do esboço às perfeições, harmônica, ascendente.
O imóvel não existe. A floresta pompeia
O luxo exuberante, a gala festival,
A verdura febril, do mundo vegetal.
Fixo? Não. Ei-lo em flor; — e em êxtases secretos
Dispersa-se em aroma, e voa nos insetos.
Enfim, por toda parte há íntimos palpites,
Ímpetos de romper barreiras e limites.
Fatal gravitação tolha-me embora os pés.
Hei de também subir dos mundos através,
Hei de também transpor os tempos e os espaços,
Na esperança de além colher-te nos meus braços,
A ti, que és para mim a força ascensional,
Oh Glória! — A aspiração! O porvir! O ideal!
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
2 327
Fernando Pessoa
II - Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
II
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...
1 343
Adélia Prado
Homilia
Quem dentre vós
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
— aqueles simples —,
morreram os conquistadores,
os reis,
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
A vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a Deus e reparti a côdea,
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel.
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
— aqueles simples —,
morreram os conquistadores,
os reis,
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
A vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a Deus e reparti a côdea,
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel.
3 151
Sophia de Mello Breyner Andresen
Deus É No Dia
Deus é no dia uma palavra calma
Um sopro de amplidão e de lisura.
Um sopro de amplidão e de lisura.
1 354
Charles Bukowski
Rabos Quentes
na sexta à noite
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
as garotas mexicanas na quermesse católica
ficam especialmente atraentes
seus maridos estão nos bares
e as garotas mexicanas parecem jovens
os narizes aquilinos e os olhos fortes e cruéis
rabos quentes em jeans apertados
de algum modo tinham sido apanhadas,
seus maridos estão cansados de seus rabos quentes
e as jovens garotas mexicanas caminham com seus filhos,
há sofrimento verdadeiro em seus olhos fortes e cruéis,
enquanto elas se lembram das noites em que seus belos homens –
agora já há muito nada belos –
diziam-lhes coisas tão bonitas
coisas tão bonitas que elas jamais voltarão a ouvir,
e sob a lua e sob os lampejos das
luzes da quermesse
vejo tudo e me mantenho calado em luto por elas.
elas me veem olhar –
o bode velho está olhando para a gente
ele nos olha nos olhos;
elas riem umas para as outras, falam, se afastam juntas,
gargalham, me olham por sobre os ombros.
caminho até uma tenda
coloco uma moeda no número onze e ganho um bolo de chocolate
com 13 chupetas coloridas enfiadas na
cobertura.
isto é justo o bastante para um ex-católico
e um admirador dos quentes rabos mexicanos
e jovens e dignos de luto
e há tanto tempo abandonados.
1 009
Charles Bukowski
Sim Sim
quando Deus criou o amor Ele não ajudou a maioria
quando Deus criou os cães Ele não ajudou os cães
quando Deus criou as plantas isto não foi nada de mais
quando Deus criou o ódio nós recebemos uma utilidade básica
quando Deus criou a mim Ele criou a mim
quando Deus criou o macaco Ele estava dormindo
quando Deus criou a girafa Ele estava bêbado
quando Deus criou os narcóticos Ele estava viajando
e quando Deus criou o suicídio Ele estava deprimido
quando Ele criou você deitada na cama
Ele sabia o que estava fazendo
Ele estava bêbado e Ele estava viajando
e Ele criou as montanhas e o mar e o fogo
ao mesmo tempo
Ele cometeu alguns erros
mas quando Ele a criou deitada na cama
Ele gozou por sobre todo o Seu Universo Abençoado.
quando Deus criou os cães Ele não ajudou os cães
quando Deus criou as plantas isto não foi nada de mais
quando Deus criou o ódio nós recebemos uma utilidade básica
quando Deus criou a mim Ele criou a mim
quando Deus criou o macaco Ele estava dormindo
quando Deus criou a girafa Ele estava bêbado
quando Deus criou os narcóticos Ele estava viajando
e quando Deus criou o suicídio Ele estava deprimido
quando Ele criou você deitada na cama
Ele sabia o que estava fazendo
Ele estava bêbado e Ele estava viajando
e Ele criou as montanhas e o mar e o fogo
ao mesmo tempo
Ele cometeu alguns erros
mas quando Ele a criou deitada na cama
Ele gozou por sobre todo o Seu Universo Abençoado.
1 393
Jeremias Brasileiro
NZAMBIAMÍ!
Depois dos Orins e Adurás
Névoa Amarela toda Ebla e Alápéré
sentada em banco de praça
conversa com Òtólúbájés
tão segura de si que desestrutura Ekwensús.
Notas: NZambIamí! = Meu Deus!
Orins e Adurás = Cânticos e Rezas
Ebla e Alápéré = Graça e Bondade
Òtólúbájés = Pessoas que gostam das negatividades
Ekwensús = Espíritos Malígnos
Névoa Amarela toda Ebla e Alápéré
sentada em banco de praça
conversa com Òtólúbájés
tão segura de si que desestrutura Ekwensús.
Notas: NZambIamí! = Meu Deus!
Orins e Adurás = Cânticos e Rezas
Ebla e Alápéré = Graça e Bondade
Òtólúbájés = Pessoas que gostam das negatividades
Ekwensús = Espíritos Malígnos
979
João Cardoso de Meneses e Silva
A Serra de Paranapiacaba
Dorme; repousa em teu sono,
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
Da força pujante emblema,
Que tens o oceano por trono
E as nuvens por diadema!
Imóvel, muda, imponente,
Entestas com a excelsa frente
Das águias o azul império;
E em vastíssimo cenário
Da tormenta o quadro vário
Contemplas do espaço etéreo.
Salve, soberbo gigante,
Altivo Titã do mar,
Que aos pés contínuo descante
Ouves a vaga entoar!
Em teu manto de esmeraldas
Envolves as vastas faldas
E as empinadas cimeiras;
E a brisa te agita os cachos
E os verdejantes penachos
Da coroa de palmeiras.
Teus troncos, gravados do selo do tempo,
Meneiam aos ventos as soltas madeixas;
Quais harpas eólias, sussurram nos ares
Canções jubilosas, ou ternas endeixas.
És berço do raio; troantes estrofes
Entoa em teus bosques a voz dos trovões
E os ecos das grotas fiéis, repercutem
O tom fragoroso de roucos tufões.
Do raio ao fuzil horrendo,
E ao crebro trovão, que estruge,
De pavor estremecendo,
A feroz pantera ruge
A sinfonia assombrosa
Une-se nota estrondosa,
Que do fundo abismo sai:
É o som da catarata,
Que em alvos flocos de prata
Num leito de pedras cai.
Que majestade sublime,
Que poesia inefável
O belo ideal se imprime
Nesse quadro incomparável.
Essa cascata da serra
Parece um hino, que a terra,
Espontânea, aos céus eleva!
Então, nossa alma se humilha,
E, ante tanta maravilha,
Em santo arroubo se enleva.
Metais preciosos e gemas em cópia
Ocultas, ó serra, nas lúgubres furnas;
Retalham teu solo torrentes sem conto,
Que o velho granito despeja das urnas.
Povoam-te as selvas e negras gargantas
Inúmeras feras e enormes reptis;
Aí cantam aves, que as cores do íris
Desdobram nas asas de vário matiz.
Escuros despenhadeiros,
Se escuta o surdo ribombo,
Que vai ressoando, a espaços;
É despegado rochedo,
Pelo eriçado fraguedo
A fazer-se em mil pedaços.
Ali, que azul dilatado
Se vai prender ao dos céus?
É o mar que, encapelado,
Ergue os móveis escarcéus.
Então a vista desmaia,
Na amplidão, que além se espraia,
A perder-se no infinito.
E esse imenso panorama
De Deus o nome proclama,
Da face da terra escrito.
Desenham-se, às vezes, arfando nas ondas,
As velas de um barco, do vento enfunadas,
Quais alvas gaivotas, que à flor do oceano,
Brincando, resvalam com as asas nevadas.
Dos topes aéreos, estreitos e golfos
Semelham regatos, talhando as campinas;
Quais pontos esparsos, desdobram-se aos olhos
As casas e torres, ilhéus e colinas.
De teu cimo, a luz vibrando,
O sol na esfera flutua,
E o clarão pálido e brando
Merencória, verte a lua.
Outro céu de anil cintila
Na superfície tranqüila
Do mar, ardendo em fulgor;
E a onda, que não vanzeia,
Vem morrer na branca areia,
Orlando-a de espuma em flor.
Quem sabe se o cataclismo,
Que puniu a humanidade,
Não te fez surgir do abismo
Das ondas na imensidade?
Quem sabe, altaneira serra,
Se és coetânea da terra,
E do berço oriental?
Quem sabe de quanta vida
Foste a suprema guarida
No dilúvio universal?
Plantou-te nos mares o braço divino,
Ingente montanha — barreira das ondas! —
Quem dera perder-me contigo nas nuvens,
Também devassando mistérios, que sondas!
Prodígios, que encerras, são cordas sonoras
De uma harpa celeste de excelsa harmonia,
Que os hinos, que exala, perene descansam
A glória do Eterno, de noite e de dia.
1 583
Jeremias Brasileiro
HORA DÍ BAI
Calemas silenciam-se ao sentir
Iansã Kéró deslizando em pleno ar
Òxúmaré surge no Órun
Névoa Amarela está no mar
Mabubas dos meus Ójos caem...
Notas: Hora dí Bai = Hora da despedida
Calemas = Ondas agitadas
Iansã kéró = Orixá dos ventos e tempestades
Kéró = Suavemente
Òxúmaré = Orixá do arco-íris
Órun = Céu
Mabubas = Cascatas
Ójos = Olhos
Iansã Kéró deslizando em pleno ar
Òxúmaré surge no Órun
Névoa Amarela está no mar
Mabubas dos meus Ójos caem...
Notas: Hora dí Bai = Hora da despedida
Calemas = Ondas agitadas
Iansã kéró = Orixá dos ventos e tempestades
Kéró = Suavemente
Òxúmaré = Orixá do arco-íris
Órun = Céu
Mabubas = Cascatas
Ójos = Olhos
858
Hilda Hilst
Venho de Tempos Antigos
Deus
pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante
sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst… eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante
sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst… eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
1 461
Armindo Trevisan
Elogio da Nudez
Quando
me vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que me não orna, nem me afaga
Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando me vejo nu
ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma
Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar
Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe o vestido
É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele
Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua
Que o terror é esquecido
Por um instante florido!
Só um homem todo nu
Pode acreditar em algo,
Num pássaro azul, em deus
Numa coisa irreversível....
me vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que me não orna, nem me afaga
Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando me vejo nu
ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma
Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar
Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe o vestido
É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele
Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua
Que o terror é esquecido
Por um instante florido!
Só um homem todo nu
Pode acreditar em algo,
Num pássaro azul, em deus
Numa coisa irreversível....
977
Carlos Nejar
Os Meus Sentidos
Um dia
vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.
E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.
Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,
a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.
vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.
E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.
Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,
a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.
1 494
Armindo Trevisan
A Difusão
De Deus
só quero
a infinitude,
que me destrói
(me preservando).
De Deus não quero
a omnipotência,
que é muito grande
para este mundo.
De Deus só quero
o seu excesso
que desabrocha
em criatura
só quero
a infinitude,
que me destrói
(me preservando).
De Deus não quero
a omnipotência,
que é muito grande
para este mundo.
De Deus só quero
o seu excesso
que desabrocha
em criatura
1 161
Hilda Hilst
X
Como se
fosse verdade encantações, poemas
Como se Aquele ouvisse arrebatado
Teus cantares de louca, as cantigas da pena.
Como se a cada noite de ti se despedisse
Com colibris na boca.
E candeias e frutos, como se fosses amante
E estivesses de luto, e Ele, o Pai
Te fizesse porisso adormecer...
(Como se se apiedasse porque humana
És apenas poeira,
E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).
Como se
fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.
E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? ISSO...
O amor
e sua fome.
fosse verdade encantações, poemas
Como se Aquele ouvisse arrebatado
Teus cantares de louca, as cantigas da pena.
Como se a cada noite de ti se despedisse
Com colibris na boca.
E candeias e frutos, como se fosses amante
E estivesses de luto, e Ele, o Pai
Te fizesse porisso adormecer...
(Como se se apiedasse porque humana
És apenas poeira,
E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).
Como se
fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.
E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? ISSO...
O amor
e sua fome.
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Cruz e Sousa
Visionários
Amam batalhas
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
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Cruz e Sousa
Humilde Secreta
Fico parado,
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.
Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.
De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.
Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.
Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.
De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.
Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.
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