Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Valter Hugo Mãe

Valter Hugo Mãe

se o vento é a ignição

se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
1 052
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sorrow sits by my side

Sorrow sits by my side
Fondling my careless hair.
She is the lady of golden
Gestures to silence beholden.
Only she does not deride
My dreams and what makes them fair.

Now she doth cease and whisper
The use of dreams to my soul.
She tells me they mean God's blessing
The spirit's shining releasing
From the world's weight and sister
To life's unchanging whole.
1 173
Vespasiano Ramos

Vespasiano Ramos

Samaritana

Piedosa gentil Samaritana:
Venho, de longe, trêmulo, bater
À vossa humilde e plácida cabana,
Pedindo alívio para o meu viver!

Sou perseguido pela sede insana
Do amor que anima e que nos faz sofrer:
Tenho sede demais, Samaritana
Tenho sede demais: quero beber!

Fugis, então, ao mísero que implora
o saciar da sede que o consome,
o saciar da sede que o devora?

Pecais, assim, Samaritana! Vede:
— Filhos, dai de comer a quem tem fome,
Filhos, dai de beber a quem tem sede.

2 017
Venúsia Neiva

Venúsia Neiva

O Cemitério

cruzes.
guirlandas.
flores.
ciprestes.
tudo se confunde num funéreo lamento de loucura.
podridão de estátuas que já foram vivas,
que sorriam,
que choravam,
que gritavam ao mundo a inutilidade das coisas mortas.
eu sinto o vento a gemer na solidão e no tempo.
eu vejo os anjos de mármore incendiarem-se no luar
que povoa a cidade deserta.
madrugadas gélidas.
dentro de noites gélidas.
corujas piando sobre cruzes eretas.
coroas de rosas desbotadas.
vôos agoureiros de morcegos negros.
tudo pede luz. tudo pede vida!
alvas sombras entrechocam-se ao ritmo macabro
das convulsões do pavor.
a morte mora ali.
ela vigia seus súditos acorrentados sob lápides marmóreas.
nunca mais os deixará sair.
para sempre escravizados.
até à eternidade, até ao fim dos tempos!
até que a ressurreição se processe
em suas cinzas esquecidas.

703
Valeria Braga

Valeria Braga

Maçã

Maçã

A maçã perdura o gosto ácido
nas células do corpo e na saliva.
Na cesta de frutas, a maçã sobressai
um vermelho visível e indelével à lembrança.
O gosto da maçã é perpétuo na mastigação dos anos
e na solidão de uma viagem interior.
Na mesa, a maçã cortada numa mordida inesquecível
ao tato e ao olhar - dentro de si
a semente da imortalidade.
A maçã mordida sangra a realidade
do ciclo de nutrir e nutrir-se
a cada realimentar.
O sumo e o suco da polpa,
da carne. Pele de maçã.
Carne e cerne de maçã.
O perfume da fruta impregnando
lentamente cada movimento
e cada gesto.
A maçã oferecida,
fruto de um pecado originalíssimo.
Criatividade cria atividades.
Morde e alimenta
alimenta e morde
até sangrar e frutificar.
Até multiplicar.

1 202
Ruy Belo

Ruy Belo

Sexta-feira sol dourado

Sexta-feira sol dourado
esperança de solução de todos os problemas
não por à sexta-feira ter morrido cristo
que o poeta aliás comemora a comer bacalhau
ou outro peixe trocado pelos pescadores
que morreram ou morrerão no mar
esse peixe que antes nos chegava directamente
e agora passa pelas mãos do almirante henrique tenreiro
sexta-feira sol dourado
não por à sexta-feira ter morrido cristo
mas por se dispor da semana americana
Agora é que vamos ser felizes
A sexta-feira chega enche-se o peito de ar
a eternidade é não haver papéis
a vida muda vamos contestar
talvez assim se consiga aumentar
a duração média da vida humana
Sexta-feira sol dourado
que alegria ser poeta português
Portugal fica em frente


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 e 145 | Editorial Presença Lda., 1984
1 452
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

48 - A SUMMER ECSTASY

Beside a summer's day
        I lay me down and dreamed.
The light from far away
        In my withinned self gleamed,
An unreal true glow,
Spiritually somehow.

I saw the inner side
        Of summer, earth and morn.
I heard the rivers glide
        From Within. l was borne
To see, through mysteries,
How God everything is.

The motes of sun that dance
        Are audibly whispered.
All is an utterance.
        The sight may hear. I shed
Vision of things as things.
My thoughts are angels' wings.

The corpses of known hours
        In barks unsteered and left
Float, covered with mute flowers,
        Down my dream that is cleft
In banks of mystery ­-
This summer day and I.

And something like a greed
        And yet unlike a wish,
The power to have a need
        Which doth not needing reach,
But is dissolved again
Ere its sad joy reach pain,

A shadowy lightness woven
        Of the day and of me,
Like sparkling water driven
        Never but where we see,
A gap, a pause, a dim
Looking over things' rim,

Starts like a sudden flute
        Pastoral with tuneless notes
Out of the unseen root
        Of all my being denotes,
Spreads, till I feel it not,
O'er my lost sense of thought.

And lo! I am another.
        My senses taste not‑mine.
A hand my sight doth smother
        To a blind sight divine.
I am a lost tune, a mood
Of the finger‑tips of God.

So, like a child‑king crowned,
        I feel new with fear‑pride.
I am robed with sky and ground.
        My inmost soul's outside
Is sunlit seas and lands.
My dreams are seraphs' hands.
1 651
Ruy Belo

Ruy Belo

Rua do Sol a Sant'Ana

Entretanto, num ano, na cidade em construção
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante

Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]

Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra

E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr

Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre

Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte

Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia

Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
1 936
Ruy Belo

Ruy Belo

Figura jacente

Meu rosto nasce desta condição horizontal
de quem tem a cobri-lo todo o seu cansaço
Deus teve para mim morte mais rasa
do que a morte que o sol encontra entre as águas
Desfez-se a curva última da estrada
nada ficou após meus gastos passos

Ninguém morrera ainda tanto como eu
só tive de estender um pouco mais o corpo
Sobre o meu rosto passam uma a uma as gerações
e vem lavar-me a água os velhos pés
E diz-me Deus, tão acessível como o mar nas praias:
-- Tu és cada vez mais aquilo que tu és

Há entre as oliveiras sítio para o sol
e a brisa da infância canta rindo nos ramos
entre o cheiro do giz e as canções da escola

Deus é perto de mim como uma árvore



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 94 | Editorial Presença Lda., 1984
1 427
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

49 - MOOD

My thoughts are something my soul fears.
        I tremble at my very glee.
        Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
        A lust‑like spirituality.

It makes me one with all the grass.
        My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
        Shakes off red petals from my hours
        And my heart sulters without showers.

Then God becomes a vice of mine
        And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
        And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.

My thoughts and feelings mingle and form
        A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
        A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.

My parched thoughts mix and occupy
        Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
        Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.

I am a drunkard of my thoughts.
        My feelings' juice o'erruns my soul.
        My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
        To beauty in my verses' dole.
1 531
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

47 - FIAT LUX

Into a vision before me the world
Flowered, and it as when a flag, unfurled,
Suddenly shows unknown colours and signs.
        Into an unknown meaning, evident
And unknown ever, it outspread its lines
        Of meaning to my passive wonderment.
The outward and the inward became one.
Feelings and thoughts were visible in shapes,
And flowers and trees as feelings, thoughts. Great capes
Stood out of Soul, thrust into conscious seas,
And on all this a man‑sky spoke its breeze.

Each thing was linked into each other thing
By links of being past imagining,
But visible, as if the skeleton
Were visible and the flesh round it, each one
As if a separate thing visibly alone.

There was no difference between a tree
And an idea. Seeing a river be
And the exterior river were one thing.
The bird's soul and the motion of its wing
Were an inextricable oneness made.
And all this I saw, seeing not, dismayed
With the New God this vision told me of;
For this was aught I could not speak nor love
But a new sentiment not like all others,
Nought like the human feelings, men are brothers
In feeling, woke on my astonished spirit.
With a great suddenness did this disinherit
That thought that looks through mine eyes of the pelf
Of ordered seeing that maketh it itself.

O horror set with mad joy to appal!
O self‑transcendency of all!
O inner infinity of each thing, that now
Suddenly was made visible and local, though
No manner of speech to speak these things in words

Followed that vision! Sight whose sense absurds
Likeness of like, and makes disparity
Contiguous innerly to unity!

How to express what, seen, is not expressed
To the struck sight that sees it? How to know
What comes to senses' threshold to bestow
A visible ignorance upon the knowing?
How to obey the analogy‑behest,
Community in unity to prove
The intellectual meaning of to love,
Shipwrecking difference upon the sight
Renewed from God to Inwards infinite?

Nothing: the exterior world inner expressed,
The flower of the whole vision of the world
        Into its colour of absolutely meaning
In the night unfurled,
And therefore nought unfurling, abstract, that,
        Vision self‑screening,
Patent invisible fact.

Nothing: all,
And I centre of to recall,
        As if Seeing were a god.
The rest the presence of to see,
Hollow self‑sensed infinity,
        And all my being‑not‑souled‑to‑oneness trod
To fragments in my sight‑dishevelled sight.

This Night is Light.
1 731
Ruy Belo

Ruy Belo

O jogador do pião

Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja

E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 117 | Editorial Presença Lda., 1984
1 461
Ruy Belo

Ruy Belo

Imóvel viagem

Coisas gloriosas se têm dito de ti
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos
E só para ti senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço

Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recusa roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação

Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto
Não há nenhuma outra paisagem
mais do que a tua cruz simplificada



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 27 | Editorial Presença Lda., 1984
914
Ruy Belo

Ruy Belo

Nós os vencidos do catolicismo

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana

Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos e jogamos
"Meu deus meu deus porque me abandonaste?"




Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 147 | Editorial Presença Lda., 1984
1 864
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

51 - INVERSION

Here in this wilderness
        Each tree and stone fills me
        With the sadness of a great glee.
God in His altogetherness
        Is whole‑part of each stone and tree.

An inner outward seeingness
        Makes my clear self unknown.
        (O Godfully alone!)
God in His overbeingness
        Survives His death each tree and every stone

Ay, in the barkness and clodfulness
        Of tree and sand and stone
        God is only His Own,
God in all His godfulness,
        Whose concrete soul's each thing's abstraction.
1 431
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

52 - SUMMERLAND

One day, Time having ceased,
        Our lives shall meet again,
From Place and Name released.
        Only that shall remain
Of each of us that may
Seem natural to that Day.

There we will newly love,
        Wondering at the old mood
With which love did us move,
        When pain and solitude
Were what each soul had got
For its contingent lot.

There, heaven being between us
        And touch a real thing,
The texture luminous
        Of our true lives will bring
God into our love like breath.
Nowhere will there be death.

The need to suffer and sigh,
        The inevitable cares,
The awaiting and the cry
        That goes from joy to tears -
These have no need to be
In love's eternity.

The hours shall make our love
        Grow younger, not more old.
Some trick of time shall move
        Wont even to truer gold,
Regret shall not be aught
Possible there to thought.

That region light‑suspended
        Under truer blue skies
Shall let our souls feel blended,
        Yet be true unities.
Nought shall have power to fret
Our hearts to tire of it.

A golden land where God
        Stayed a Day of His Time,
Not as the world, where not
        A moment did he abide,
And where His passing left
The sense of aught bereft.

My heart, that thinks of this,
        Pines, for it is nowhere,
And she that meets my bliss
        With her new old love there -
She is unreal as all
That to this verse I call.

Yet who knows? Perhaps this
        Is not wishing, but seeing.
Perhaps this love, this bliss,
        This conscious glad not‑being
Is some reality
Through fancy seen by me.

Perhaps it casts a spell
        From where it can be found.
What is impossible?
        Where is God's bourne and bound?
Why, if I dream this, may
Not this be mine one day?

Who knows what our dreams are?
        Who knows all that God makes?
Perhaps life doth but mar
        The immediate truth that takes
Its beauty from being dreamed.
Nothing eter merely seemed.

Somewhere where God is nearer
        These things are een now true.
Oh, let me be no fearer
        That this may not be so!
All is more strange than that
Small glimpse of it we get.

Mine eyes are wild with joy
        Because I have these thoughts.
They cannot tire nor cloy
        Because God ever allots
To each high thing the power
To weigh not on its hour.

My flower garden is
        Full of new flowers now.
My lips are kissed by bliss
        Because I know not how.
My heart fails and I swim
Within a luminous rim.

A halo of hope comes round
        My soul. I am that child
That cries: Lo! I have found
        This flower strange and wild.
The unknown flower I have
Grew on my dead dreams' grave.

A trembling sense of being
        More than my sense can hold,
A bird of feeling seeing
        The great, earth‑hidden gold
Of the approaching dawn,
A breath, a light, a swoon,

A presence interwoven
        With rays of other light,
A spell, a power untroven
        Of my more clear delight,
I faint, I fade, I seem
Myself to be my dream.

And if this be not so,
        Oh, God, make it now be!
Let me not find more woe
        Because I so dreamed Thee!
Let aught for which I pine
Merit being divine.

Let this resemble heaven
        And be my home for e'er,
Even if for e'er mean living
        But this hour really fair.
An hour in God shall be
Enough eternity.
1 462
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

53 - THE END

God knows. Lie we to sleep
        Contentedly somehow,
Smiling that we did weep,
        As at an overthrow
Of kingdoms the stars, deep
        In silence, smile nor know.

God knows. And an He knew not
        And were not, what of it?
No matter that we do not
        Our life with living fit.
Glad to have sleep and tears,
        Lullaby to our fears!
1 581
Ruy Belo

Ruy Belo

Efeitos secundários

É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
o outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes

Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono. Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?

Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento

E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reúna-nos um dia o toque da trombeta



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 106 e 107 | Editorial Presença Lda., 1984
1 545
Adélia Prado

Adélia Prado

Os Tiranos

Joaquim meu tio foi imperturbável ditador.
Só uma de minhas primas se atreveu a casar-se.
As outras ficaram pra lhe honrar a memória
com azedumes e pequenos delírios.
Produzem crochê e hilaridade contando-se anedotas,
virtude e paciência que desperdiçam
por equivocado orgulho, irado catolicismo.
Em bordados e haveres gastam a amargura recíproca:
o galinheiro é de Alvina,
o canteiro é de Rosa,
o guaraná é de Marta
na geladeira de Aurora.
Não pisaram na igreja no casamento da irmã.
Tia Zilá dá sinais de cansaço,
breve estará na Glória.
Não tendo a quem mais servir,
as primas vão brigar empunhando
rosários, agulhas, maçanetas.
Mas, se baterem à porta, servirão biscoitos
e a anedota do rato equilibrista, que solicito sempre:
‘Um dia papai estava dormindo no quartinho da sala,
acordou com um barulhinho tin-tin, tin-tin-tão...’
Me comovem as primas, os tios emoldurados na parede,
os ratos na batalha campal daquela casa
caçando pra roer os restos
do que, apesar de tudo, foi amor.
828
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Na Luz

De soluço em soluço a alma gravita,
De soluço em soluço a alma estremece,
Anseia, sonha, se recorda, esquece
E no centro da Luz dorme contrita.

Dorme na paz sacramental, bendita,
Onde tudo mais puro resplandece,
Onde a Imortalidade refloresce
Em tudo, e tudo em cânticos palpita.

Sereia celestial entre as sereias,
Ela só quer despedaçar cadeias,
De soluço em soluço, a alma nervosa.

Ela só quer despedaçar algemas
E respirar nas amplidões supremas,
Respirar, respirar na Luz radiosa.


Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).

In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 72
1 994
Adélia Prado

Adélia Prado

A Carpideira

Que destino o das flores
que recobriram a morta em seu caixão.
Mais difícil entender que o miriágono!
A marreca se deita sobre os ovos,
puxa para o ninho as folhas secas, cumpre-se.
Enquanto eu tenho medo.
Mesmo assim não desejo senão ficar olhando
os remetentes mistérios.
São tão maus os congressos, as escolas,
tão cheios de café velho e açúcar
que o pensamento divaga:
são elementares Deus e sua obra,
é macho e fêmea
sete cores
três reinos
um mandamento só: amai-vos.
Tinha tanto medo de casar com moço
que não fosse da Rede Ferroviária,
queria trastes de ferro
pra nunca mais se acabarem.
Pensava assim:
se a cama for de ferro e as panelas,
o resto Deus provê:
é nuvem, sonho, lembranças.
Ainda mais que não ia morrer, e ainda não vou,
porque sou doida e escapo como as boninas.
Em todo enterro choro com um olho só.
Com o outro rego a tira de terra
onde suspiros, saudades e perpétuas
hão de nascer e suportar insetos,
ciclo após ciclo de sol, de chuva,
calor de velas, frio de esquecimento.
Porque a vida é de ferro
e não se acaba nunca.
1 056
Adélia Prado

Adélia Prado

Lapinha

Quando éramos pobres e eu menina
era assim o Natal em nossa casa:
quatro semanas antes
a palavra ADVENTO sitiava-nos,
domingo após domingo.
Comeríamos melhor naquele dia,
seríamos pouco usuais:
vinho, doces, paciência.
Porque o MENINO estremecia no feno
e nos compadecíamos de Deus até as lágrimas.
Olhando a manjedoura, o que eu sentia
— sem arrimo de palavras —
era o que sinto ainda:
‘O desejo de esbeltez será concretizado.’
À luz que não tolera excessos,
o musgo, a areia, a palha cintilavam,
a pedra. Eu cintilava.
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Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Sexta-Feira Santa

Lua absíntica, verde, feiticeira,
Pasmada como um vício monstruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaço fabuloso.

É esta a negra e santa Sexta-Feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.

A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.

Mas da sagrada Redenção do Cristo,
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!


Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).

In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 85
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Adélia Prado

Adélia Prado

Lembrança de Maio

Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergônteas, virgens,
tépidos músculos
que sob as roupas rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco,
incensado ar de velas.
Santa sobre os abismos,
à voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.
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