Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Suum Cuique Tribuere

O vigário decreta a lei do domingo
válida por toda a semana:
— Dai a César o que é de César.
Zé Xanela afundado no banco
vem à tona d’água
ardente
acrescenta o parágrafo:
— Se não encontrar César, pode dar a Sá Cota Borges, que é mãe dele.
1 251
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ei, Bexiga!

Os chocolates em túnica de prata,
justa, recendem. A hortelã
das balas pincela um frio verdoendo
na boca.
Tudo vem de longe, de São Paulo,
para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.

E um homem desses vai morrer de varíola?

A Idade-média enrola a cidade
em cobertor de pânico.
Sete dias se fecham as portas
se acendem velas
sem leite sem pão sem saúde pública
joelhos em terra exortam a sagrada ira
a poupar os que não são italianos e fundaram
este chão de Deus sem bexigas.
Pereça, coitado, Seu Foscarini,
mas as velhas famílias se salvem.

Levam Seu Foscarini para o lazareto,
que não é lazareto, é um casebre desbeiçado
no campo onde a cobra pasta
vírgulas de tédio.

Nunca mais chocolates, licorinos
caramelos, magia de São Paulo?
Rezo por Seu Foscarini,
que milagrosamente se salva
e fecha a confeitaria.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Visita À Casa de Tatá

A casa de Tatá é um silêncio perto da igreja.
Silêncio de lençóis engomados
para sua única pessoa.
A viuvez tão antiga que virou de nascença
derrama brancura em tudo.
O presépio de Tatá emerge de Belém como flor
cheirando a cânfora e alfazema.
Na ordem dos anjos e animais, a ordem estrita
de Deus.
O melhor da casa é a arca,
o melhor da arca, suspiros
feitos da brancura mesma de Tatá,
brancura surda.
1 326
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Alfredo Duval

Meu santeiro anarquista na varanda
da casinha do Bongue, maquinando
revoluções ao tempo em que modelas
o Menino Jesus, a Santa Virgem
e burrinhos de todas as lapinhas;
aventureiro em roupa de operário,
que me levas à Ponte dos Suspiros
e ao Pátio dos Milagres, no farrancho
de Michel Zevaco, dos Pardaillan,
Buridan, Triboulet (e de Nick Carter),
ouço-te a rouca voz chamar Eurico
de nazarena barba caprichada
e retê-lo a posar horas e horas
para a imagem de Cristo em que se afirme
tua ânsia artesanal de perdurar.
Perdura, no frontispício do Teatro,
a águia que lá fixaste sobre o globo
azul da fama, no total desmaio
do teu, do nosso tempo itabirano?
Quem sabe de teus santos e teus bichos,
de tua capa e espada imaginária,
quando vagões e caminhões desterram
mais que nosso minério, nossa alma?
Eu menino, tu homem: uma aliança
faz-se, no tempo, à custa de gravuras
de semanais fascículos românticos…
1 603
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Realidade

Macedônio botou o dinheiro na mesa, comprou a velha Fazenda do Ribeirão.
Nunca fui lá, mas sentia a terra pertinho de mim,
a água mineira borbulhando com vontade de ser rio,
refletindo a criação.

Macedônio é de mandar.
Seu primeiro ato de proprietário foi um decreto:
“Dagora em diante esta é a Fazenda da Palestina”.

Tudo se desmancha a essa voz:
a água corre para a Bíblia,
a terra foge no tempo-espaço,
a fazenda vira presépio.
1 192
Daniel Faria

Daniel Faria

Há muitos metros

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um para-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nuvem
Como se fosse um homem
Que levita


1 545
Daniel Faria

Daniel Faria

Ando um pouco acima do chão

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe

2 662
Bárbara Heliodora

Bárbara Heliodora

Conselhos a Meus Filhos [2

VII.

Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto,
Pé de banco de um bilhar,
Que seja sábio piloto
Nas regras de calcular.

VIII.

Se vos mandarem chamar
Para ver uma função,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar;
Assim se entende o rifão:
Quem está bem deixa-se estar.

IX.

Deveis-vos acautelar,
Em jogos de paro e topo
Prontos em passar o copo
Nas angolinhas do azar;
Tais as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.

X.

Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr vírgulas nos pontos,
E pode quem conta os contos,
Mil pontos acrescentar:
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.

XI.

Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer,
Mas temer por muito amar,
Santo temor de ofender
A quem se deve adorar!

XII.

Até aqui pode bastar,
Mais havia o que dizer;
Mas eu tenho que fazer,
Não me posso demorar
E quem sabe discorrer,
Pode o resto adivinhar.


In: PARNASO brasileiro; ou, Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Org. Cônego Januário da Cunha Barbosa. Rio de Janeiro: Tip. Imperial e Nacional, 1830. v.1, caderno 4, p.74-76

NOTAS: Poema composto de 12 sextilha
1 742
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando te vais a deitar

Quando te vais a deitar
Não sei se rezas se não.
Devias sempre rezar
E sempre a pedir perdão.
1 282
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

34 - THE SUNFLOWER

I

All things that shine are God's eyes.
        All things that move are God's speech.
        Every thing has all to teach
To our awakening surmise.

Green are God's thoughts when they are leaves,
        Yellow when sunflowers they are.
        Yet they shine separate and far
From the hands wherewith God weaves.

Light are my steps on the ground
        Yet they do echo through space,
        Through terrible abysses that face
God at the side never found.

II

My dreams are angels' kisses.
Lightly they touch my heart,
Tip‑toe shadow caresses.
They are my Godder part.

There is a flower in my hand.
It is not found in fields.
God looks and can understand,
For He is the dreamer who builds.

He knows how dreams are set up,
He knows how flowers are made glad.
Look: I hold up my cup
And God gives me wine to be mad.
1 455
Francisco Galvão

Francisco Galvão

À Paixão

Porque a tamanhas penas se oferece
pelo pecado alheio e erro insano
o terno Deus? Porque sujeito humano
não pode com o castigo que merece?

Quem padecera as penas que padece,
quem sofrera desonra e tanto dano,
ninguém senão somente o Soberano
que reina, serve, manda e obedece?

Foi a força do homem tão pequena,
que não pode sofrer tanta aspereza,
que não sustém a lei que Deus ordena:

Sofreu aquela imensa fortaleza
por puro amor à nossa vil franqueza;
para o erro foi só, e não p’ra pena.

774
Jogral Lourenço

Jogral Lourenço

Ua moça namorada

Ua moça namorada 
dizia un cantar d'amor. 
E diss'ela: "Nostro Senhor, 
hoj'eu foss'aventurada 
que oíss'o meu amigo 
com'eu este cantar digo!" 
A moça ben parecia, 
e en sa voz manselia " 
cantou e diss'a menia: 
"Prouguess'a Santa Maria 
que oíss'o meu amigo 
com'eu este cantar digo!" 
Cantava mui de coraçon 
e mui fremosa estava. 
E disse, quando cantava: 
"Peç'eu a Deus por pediçon 
qu'oíss'o meu amigo 
com'eu este cantar digo!
687
Tasso da Silveira

Tasso da Silveira

Poema 17

Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.

Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...

Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,

foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...

1 054
Severiano de Resende

Severiano de Resende

Bellua

Como, neste lagoal surdo, surde elétrica e lesta
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?

(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)

Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.

Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"

Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.

E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.

MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.

662
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XXIII - Even as upon a low and cloud-domed day,

Even as upon a low and cloud-domed day,
When clouds are one cloud till the horizon.
Our thinking senses deem the sun away
And say «'tis sunless» and «there is no sun»;
And yet the very day they wrong truth by
Is of the unseen sun's effluent essence,
The very words do give themselves the lie,
The very thought of absence comes from presence:
Even so deem we through Good of what is evil.
He speaks of light that speaks of absent light,
And absent god, becoming present devil,
Is still the absent god by essence' right.
The withdrawn cause by being withdrawn doth get
(Being thereby cause still) the denied effect.
1 035
Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 15

Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
583
Herberto Helder

Herberto Helder

De Antemão 1

Tocaram-me na cabeça comum dedo terrificamente
doce, Sopraram-me,
Eu era límpido pela boca dentro: límpido
engolfamento,
O sorvo do coração a cara
devorada,
O sangue nos lençóis tremia ainda:
metia medo,
Se um cometa pudesse ser chamado como um animal:
ou uma braçada de perfume
tão agudo
que entrasse pela carne: se fizesse unânime
na carne
como um clarão,
Um anel vivo num dedo que vai morrer:
tocando ainda
a cabeça o rítmico pavor
do nome,
O leite circulava dentro delas,
E assim que as mães se alumiam
e trazem para si o espaço todo
como
se dançassem,
São em si mesmas uma lenta
matéria ordenada, Ou uma
crispação: uma ressaca,
E quando me tocaram na cabeça com um dedo baptismal:
eu já tinha uma ferida
um nome,
E o meu nome mantinha as coisas do mundo
todas
levantadas
1 056
Herberto Helder

Herberto Helder

Ii L

Leia-se esta paisagem da direita para a esquerda e vice-versa
e de baixo para cima.
Saltem-se as linhas alvoroçadas sob os olhos.
Quem leia, se ler, aprenda:
alguém anda sobre as águas,
alguém branco, nu, pedra de ouro na boca, braços abertos.
As águas atravessam os espelhos.
Leia-se à luz que vem das águas.
A espuma é a pressa das águas que atravessam.
Aprenda à força da luz da espuma:
esta ciência é ver com o corpo o corpo iluminado.
E enquanto atravessa, andando sobre as águas
que o iluminam,
a membrana de si próprio, espelho até ao cabelo
frio, que entre,
lendo-se,
através, para o escuro, largo nos braços,
a pancada a fogo instantâneo no meio dos olhos.
E então a luz une-se a toda a volta e cai
no abismo dos espelhos.
1 207
Herberto Helder

Herberto Helder

Mão: a Mão

O coração em cheio
no corpo, Um sopro
no coração,
E a carne reflui toda,
Uma braçada alta,
Reflui
ao sorvedouro a água áspera,
Árdua meada de sangue
de mão a mão no escuro, Sob
a roupa que a lua
exalta,
Escafandrista
que defendesse o remoinho de ar
nos pulmões
do remoinho do abismo,
Ou defendesse
a insónia da surda invasão do medo,
Abraçado a essa bolha,
Toque
leveza baptismal
centro,
Oh sombria natação com um relâmpago,
Camisa molhada
até às entranhas: secando à lua entre
água e pesadelo,
Visto
essa camisa brilhando sobre
um buraco um
escurecimento,
A transfusão das imagens,
Fendido
ao meio dos olhos, Por onde penetra a agudeza
do mundo:
e me
transforma, Quem
enterra um diamante e não sabe
que o enterra
em si, E fosse: pela costura
elementar: uma pálpebra
por cima de um
aparelho da alucinação um
organismo do sonho,
Alguém que se deitasse
com um grito
dentro: e acordasse com esse grito
pela boca fora,
Que fosse
uma cana encontrada
no vento: quando é de alguém
que o vento se levanta,
E os dedos atassem
e desatassem o som
nos orifícios — música
ferramenta
a paixão,
Que fosse
de fôlego a fôlego, Qualidade
da coisa que se nomeia,
E tudo me abala
— O nome a encher uma pessoa
como a luz enche o vento,
Ou a ferida enche a lembrança,
Mantenho
os objectos
as chamas:
à força
de respiração: de carne amarga,
Pensa-se que a cabeça é toda
brusca:
a beleza rudemente
pela brancura,
Com uma vara de sal
é que tocaram fundo
e me floriram,
E eu estremeço
desse dardo: dessa pancada na cabeça
cheia de sangue e sopro:
e desse
florescimento,
É uma arte em pé ardendo à vista,
Que se infunda na matéria
acerba
o lume, Um ofício:
a sua maravilha:
apavoram-me,
E na madeira
se lavrem a pulso os genitais: os membros:
o umbigo
e a garganta,
Da carnagem das gramáticas
arranco a música
o nome
o número,
Trabalho à raiz do ouro
frio, Tão agudo tão agudo,
Se toda a peça de carne é varada
por uma veia inocente:
vara-me
a iluminação vocabular
da memória,
Mexida por lunações como na fêmea
a massa lêveda,
Ou no poema
a parte fêmea instrumentada pela
magnificência,
O que nele se talha
em som escrito: órgão,
Mão que revolves a substância primordial,
Barro
fundamento, Que o hausto atenda à força
respirada
pela carne em poder,
O nó
coronário de uma estrela,
Peso e melancolia
da riqueza
e do medo, E que me assome Deus às partes
graves: com sua luva súbita
no abismo,
É ao meu nome que regresso: à ameaça,
A limpidez
atravessa-me pelos furos naturais
ardidos,
Entra um astro
por mim dentro:
faz-me potência e dança,
Que toda a noite do mundo te torne humana:
obra
1 309
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

12 - If I could carve my poems in wood

If I could carve my poems in wood,
By children they would be understood,

So near to the sense things have in God
Are both my poems and children's thought.

For a child knows that logic and meaning
Are only nothing nothing screening,

And a child is one divinely aware
That all things are toys and all things are fair,

That a thimble, a stone and a cotton‑reel
Are things we can quite divinely feel,

And that, if we make men out of those things,
They are really men, not imaginings.

I would therefore l could take my verse
Out of mere ideas and better it worse

To visible carving or drawing or what
My verses could be resembling that.

Then would I be the children's poet,
And, though perhaps I might never know it

With the outer sense that makes life sadder,
In every innocent face made gladder

God would be giving my soul the sense,
Lost back of knowledge, of recompense ­-

The sense of children more children still
When, acting my poems at their glad will,

They, playing with toys, with legs incurled,
Lightly err the visible world.
1 844
Herberto Helder

Herberto Helder

Todos Os Dedos da Mão 4

O sangue que treme na cama: a cama
que treme na casa: a casa
que treme, A paisagem arrancada
ao chão,
Furos de lume, Os tecidos do corpo,
Não é doce esta bolsa
de sangue, Que te adiantes: cabeça
estelar de tigre, O dia empurra as suas massas,
Máquina planetária: Deus: uma faísca
em cheio, Ou um dedo apenas direito
estendido:
com a unha veemente entrando,
Que a obra espacial da luz se acomode
à tua plumagem, Em que poça de ouro
se implanta
soberbamente a mão?,
Às vezes és uma vara calcinada,
Arrebatas a claridade dos mortos: a sua
estrela aberta por todos os lados,
Não sabes dormir: com a força das entranhas,
Apenas um nervo alto
te sustenha, O poder devia encher-te
de tendões: o implacável
prodígio do mundo devia
encher-te de ossos — pôr-te estacas,
Que raiz de espinho na testa por dentro se embrenhasse
— através
de soluços: medo: carne
estrangulada — até à leveza: à qualidade
diáfana
do sopro, Onde te concentras: tão
trémulo e translúcido:
tão
levantado como a chama que brota: flor
na candeia,
Afundas-te iluminadamente na riqueza
violenta, A noite bate em branco,
Que ardas,
Arde tudo, Fora dentro
dos buracos,
As labaredas atravessam as membranas
1 090
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Lá vem o homem da capa

Lá vem o homem da capa
Que ninguém sabe quem é...
Se o lenço os olhos te tapa
Vejo os teus olhos por fé.
2 618
Herberto Helder

Herberto Helder

Todos Os Dedos da Mão 5

Estremece-se às vezes desde o chão,
Por se ter uma navalha no bolso:
por o sexo ser sumptuoso:
por causa dos buracos luminosos na camisa,
Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:
o modo de fazer rodar o quarto:
o barulho que se ouve nos canos onde
a água vive — tudo
sob a ameaça de uma riqueza
brusca
em nós, Quando um raio se desencadeia
pela coluna vertebral
abaixo, O golpe entre as madeixas
frias, Toca-se na cama:
e nunca mais se dorme, Toca-se
onde os pulmões se cosem à boca para gritar,
Às vezes tem-se o dom de fincar os pés na paisagem
em massa, Um feixe
desenfeixa-se no avesso — estala
fora, Com que vozes se encontra a gente
quando
o pavor se faz música
ordem
exercício nominal?,
Arrancamo-nos a tudo como
se arranca a unha
a um dedo: ou o dedo à mão: ou a mão
ao gesto
amansando a terra como se penteia,
Pente que reabre a chaga e a alastra,
Que a aprofunda
como o sangue aprofunda a claridade
pequena
de um lenço, Se o lenço
se molha na costura que sangra
perpetuamente, A coroa irrompe da cabeça
pelo ímpeto
da realeza animal, O choque de um astro
calcinaria tudo
— o ceptro que nos crava no mundo
o manto
o escudo
os anéis como nós de dedos,
Morre-se de alta tensão,
É o relâmpago de um troço avistado,
As voragens à força de janelas,
Ou é Deus que nos olha em cheio: dentro
1 057
Gentil Braga

Gentil Braga

O Orvalho

Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.

Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.

A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.

E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.

Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?

Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.

Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.

E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.

E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.

E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.

Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.

E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.

E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.

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