Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,

Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?

Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?

Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.

Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?

Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
1 105
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Eu cantarei,

I

Eu cantarei,
Quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
Eu cantarei,
Quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
Eu cantarei,
Quando o crepúsculo limar as arestas,
Eu cantarei,
Quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
Eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio.
Eu cantarei
E nas estradas ladeadas por abetos,
Nas áleas dos jardins emaranhados,
Nas esquinas das ruas, nos pátios
Das casas-de-guarda,
A Tua Vitória entrará como um som de clarim
E o meu Desígnio espera-la-á sem segundo pensamento.


                II

Perto da minha porta
Onde brincam as crianças dos outros,
Rompe um canto infantil, disciplinado e cómodo,
E eu sou a quinta criança ali, se houver só quatro,
E ninguém me abandonar embora eu não esteja lá
Canto também, dormindo transparente e calado.
989
Bernardino Lopes

Bernardino Lopes

XXXVIII [O casebre esburacado

O casebre esburacado
É pobre como senzala;
Tem mesmo o fogo na sala
E a picumã no telhado.

Habita-o o casal de pretos...
Vê-se no canto metido
Um oratório encardido
E atrás da porta uns gravetos.

Reina o silêncio. Anoitece.
Reza a mulher, de mãos postas
O dia a um santo oferece...

Entre as ingás bem dispostas
O proletário aparece
Com a ferramenta nas costas.


Publicado no livro Cromos (1881).

In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 092
José de Anchieta

José de Anchieta

A Santa Inês

I

Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!

Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
Vossa santa vinda
o diabo espanta

Por isso vos canta,
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.

Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.

Virginal cabeça
pola fé cortada
com vossa chegada,
já ninguém pereça.

Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.

Vós sois, cordeirinha,
de Iesu formoso,
mas o voso esposo
já vos fez rainha,

Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa vinda,
lhe dais lume novo.

II

Não é d'Alentejo
este vosso trigo,
mas Jesus amigo
é vosso desejo.

Morro porque vejo
que este nosso povo
não anda faminto
deste trigo novo.

Santa padeirinha,
morta com cutelo,
sem nenhum farelo
é vossa farinha.

Ela é mezinha
com que sara o povo,
que, com vossa vinda,
terá trigo novo.

O pão que amassastes
dentro em vosso peito,
é o amor perfeito
com que a Deus amastes.

Deste vos fartastes,
deste dais ao povo,
porque deixe o velho
polo trigo novo.

Não se vende em praça
este pão de vida,
porque é comida
que se dá de graça.

Ó preciosa massa!
Ó que pão tão novo
que, com vossa vinda,
quer Deus dar ao povo!

Ó que doce bolo,
que se chama graça!
Quem sem ele passa
é mui grande tolo.

Homem sem miolo,
qualquer deste povo,
que não é faminto
deste pão tão novo!

Imagem - 00570008


In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
2 500
José de Anchieta

José de Anchieta

Quando, no Esp Sto

Diabo

Temos embargos, donzela,
a serdes deste lugar.
Não me queirais agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.

Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.

Não tenho contradição
em toda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.

Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal
de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.
(Aqui dispara um arcabuz.)

Anjo

Ó peçonhento dragão
e pai de toda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!

Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.

Diabo

Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir!...
Mal me podem resistir
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair!

Anjo

Se caem, logo se levantam,
e outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com eles é.

Que com execessivo amor
lhes manda suas esposas
— onze mil virgens formosas —,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.

E para te dar maior pena,
a tua soberba inchada
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.

Diabo

Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.

Anjo

Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.

Diabo

Ai de mim, desventurado!
(Acolhe-se Satanás.)

Imagem - 00570009


In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
2 490
José Lino Grünewald

José Lino Grünewald

As Alienações, 1964-1985

1

nos conventos fala-se em marx
nas casernas fala-se em deus

entre a cruz e a espada paira deus
entre farda e batina paira marx

a deus o que é de deus
a marx o que é de marx

deus ex marxina

2

pingue pongue
pingue pongue
sábado domingo

pingue pongue
pingue pongue
puteiro missa

pingue pongue
pingue pongue
vagina hóstia

pinguepongue
sabadomingo
pumisseteiro
vaginóstia

3 (haikais/1964)

oh, "paus d'arco em flor"
bashô! 1o. de abril
pau-brasil em dor

faunos verde-oliva
desfilam na linha dura
os phalos falidos

marcha da família
com deus pela liberdade
masturbam-se hienas

desemprego em minas
porta-aviões bebe bilhões
oh, minas gerais!

filhas de maria
cardeal contra o monoquíni
filhas de biquíni

família unida
reza & rouba sempre unida
oh, tempos de paz!

reformas de base
a grama já amarelece
bashô, nada muda

castelo de cartas
castelo mal-assombrado
brasil branco, branco


Poema integrante da série 1a. Parte: Língua.

In: GRUNEWALD, José Lino. Escreviver. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. (Poesia brasileira)
1 608
Tite de Lemos

Tite de Lemos

Marcas do Zorro

Tu és o cavaleiro eu sou a montaria
às vezes me castigas e outras vezes não
vou cegamente aonde a Tua mão me guia
mas em segredo me pergunto aonde vão
essas desconhecidas Tuas rotas minhas
eu preferia ser apenas o cantor
o jardineiro um leopardo uma florzinha
capaz de em cada outono sucumbir de amor
dizem que és um vingador Te chamam Zorro
uns outros Te nomeiam Christian Rosenkreutz
me humilhas sei e me maltratas mas eu morro
da Tua ausência mais do que quando me açoitas
ah eu desejaria uivar gemer e calo
por ser dos duros deuses todos o cavalo


In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. Pref. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis)
1 385
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

EPITAPH OF THE CATHOLIC CHURCH

Friends, tread in peace, here lies the devil;
The world hath now but little evil.
1 337
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Anunciação

O anjo, embuçado
Num raio X,
Curvou-se e disse:
— Chico de Assis,
Senhora Eunice,
Queríeis filho?
Pois, Deus louvado,
Me maravilho,
Que ouvidos sois:
Dar-vos-á dois!
1 063
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Trazes uma cruz no peito.

Trazes uma cruz no peito.
Não sei se é por devoção.
Antes tivesse o jeito
De ter lá um coração.
947
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Rezas a Deus ao deitar-te

Rezas a Deus ao deitar-te
Pedindo não sei o quê.
Se rezasses ao demónio,
Eu saberia o que é.
1 306
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Out of a great nebula of Night and Storm

Out of a great nebula of Night and Storm
Borne upon a great void within our Space,
My soul was formed and stares God in the face
Out of that silence where there is no Form.

The empty carcase of Place
The silent ecstasy of Hours,
Life, like abandoned flowers,
Thought, like a forlorn grace.
1 294
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Isaías

Deus dê a este novo Isaías
Não visões, não profecias:
Dê o que falta a tanta gente
— Pureza d'alma, semente
Das celestiais alegrias.
1 140
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

22 - RIVERS

Many rivers run
        Down to many seas.
All my cares are one:
         On what river of these
        Could my heart have peace?

Two banks to each river.
        None where I may stray
Hearing the rushes shiver
        And seeing the river ever
        Pass, yet seem to stay.

Maybe there is another
         River, but far from Me.
There l may meet the Brother
        Of my eternity.
        In what God will this be?
1 276
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Zezé-arnaldo

Meus caros primos, na data
De hoje, a Jesus Cristo Rei
Alquimista pedirei
Transforme em ouro essa prata,
Ainda que é prata de lei.
1 067
Jacinto Freire de Andrade

Jacinto Freire de Andrade

A um Mosquito

Invencível mosquito,
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.

As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.

Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.

Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.

Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.

Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.

Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.

Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.

Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.

Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.

Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.

Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.

E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.

545
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

André

André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
1 055
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Ubiquidade

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

Petrópolis, 11.3.1943
1 279
João Nepomuceno Kubitschek

João Nepomuceno Kubitschek

Eurico

Hermengarda! ousei amá-la
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!

Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.

O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!

Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.

Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!

Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!

Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.

E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.

Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.

Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.

Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.

Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.

Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.

E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?

Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?

Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.

Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.

E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!

Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!

Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...

1 110
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A liberdade, sim, a liberdade!

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança...
Sorriso da velha bondosa...
Apertar da mão do amigo [sério?]...
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
Da casa do campo da minha velha infância...
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?
1 179
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Odylo-nazareth

Vai a bênção que pediste.
Mas a maior bênção é
Ganhar em Natal tão triste
Maria de Nazareth.

Janeiro de 1942
583
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Maria da Glória

Maria dá glória a menina,
Mas esta dá glória a Maria.
Então viva muito a menina
Para glória maior de Maria.
1 359
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Voam débeis e enganadas

Voam débeis e enganadas
As folhas que o vento toma.
Bem sei: deitamos os dados
Mas Deus é que deita a soma.
1 323
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

«Thy will be done» (with a capital T)

«Thy will be done» (with a capital T)
Though ever on earth and on sea
There be the shadow of thy curse
Daily more terrible and worse
        Thy will be done!

«Thy Will be done» (with a capital W)
O Man, though many a woe doth trouble you,
Still you pray on, and beat your heart,
And thank the Tyrant in his nest:
        «Thy w[ill] be done».

«Thy will Be done» (with a capital B).
Though more than horrid misery
Break the whole earth and wreck the nations
Man cries on, in vile resignations:
        «Thy will be done!»

«Thy will be Done» (with a capital D)
All are (...) and all unfree,
And yet from cottage and from hall
The groaning and the dying call
        «Thy will be done!»

«Thy W[ill] Be Done» (all with capital letters),
Although God (...) our mind and fetters,
We roll our eyes and groan uncheerly
We join our hands and half-sincerely
Exclaim from life we pay too dearly:
        «Thy will be done!»
1 357