Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Sousândrade
Canto Segundo [II
(MUXURANA, histórica:)
— Os primeiros fizeram
As escravas de nós;
Nossas filhas roubavam,
Logravam
E vendiam após.
(...)
(Coro dos Índios:)
— Mas os tempos mudaram,
Já não se anda mais nu:
Hoje o padre que folga,
Que empolga,
Vem conosco ao tatu.
(TAGUAIBANUÇU conciliador; coro em desordem:)
— Eram dias do estanco,
Das conquista da Fé
Por salvar tanto impio
Gentio...
— Maranduba, abaré!...
(...)
Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.
In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888
NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
— Os primeiros fizeram
As escravas de nós;
Nossas filhas roubavam,
Logravam
E vendiam após.
(...)
(Coro dos Índios:)
— Mas os tempos mudaram,
Já não se anda mais nu:
Hoje o padre que folga,
Que empolga,
Vem conosco ao tatu.
(TAGUAIBANUÇU conciliador; coro em desordem:)
— Eram dias do estanco,
Das conquista da Fé
Por salvar tanto impio
Gentio...
— Maranduba, abaré!...
(...)
Publicado no livro Impressos (1868/1869). Poema integrante da série Guesa Errante.
In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888
NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
2 843
Gilberto Mendonça Teles
Era um moinho sem vento
Era um moinho sem vento,
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
uma palmeira sem chão,
estrela sem firmamento,
tristeza sem solidão.
(Queria agarrar o tempo,
vê-lo na palma da mão.
Ir ao contrário volvendo-o,
fechá-lo no seu galpão.
Depois soltá-lo em silêncio,
segui-lo na direção
que a vida com seus inventos
perdeu em libertação.)
Deu o vento no moinho,
teve a palmeira seu chão,
teve a estrela o seu caminho
e a tristeza, a solidão.
(Tentou gritar que era tarde,
que a vida perdia em vão.
Veio um anjo de alvaiade,
cantou-lhe alguma canção.
Depois olhou-o espantado,
jogou as asas no chão,
tirou a rosa dos lábios
e pôs-lhe o tempo na mão.)
Publicado no livro Sintaxe invisível (1967).
In: TELES, Gilberto Mendonça. Os melhores poemas. Seleção de Luiz Busatto. São Paulo: Global, 1993. p. 54. (Os Melhores poemas, 27
1 916
En Hedu'anna
Inanna e a Essência Divina
Senhora de toda essência, luz plena,
mulher generosa vestida em radiância,
amada pelo céu e pela terra,
amiga templária de An,
tu vestes grandes ornamentos,
tu desejas a tiara da alta sacerdotisa
cujas mãos tomam as sete essências.
Oh minha Senhora, guardiã de toda essência,
tu as colheste e penduraste
nas mãos.
Tu recolheras as essências sagradas e as vestiste
tesas em teus seios.
1 055
Gerardo Mello Mourão
Naquele tempo
Naquele tempo
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.
Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.
Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.
1 296
Affonso Ávila
Cantiga de Nossa Senhora da Modéstia
do nicho elipse ontem fresta
sem coroa ou aura à sobretesta
sem louvor barroco à testa
cheia de graça em enfesta
lindeira de urbe e floresta
névoa ao olho imanifesta
oculta por imolesta
flor ou bem que se requesta
coração que se empresta
a nenhum juro infunesta
em seu sol tarde seresta
de som noite que se apresta
ao ardor deste à ânsia desta
dada mão furtiva ou presta
príncipes de brim voile em véstía
rímel pó rouge à arte honesta
na esquina de amor ou festa
ao cadente beijo da hora é esta
sua luz vertia em réstia
nossa senhora da modéstia
deCantigas do Falso Alfonso El Sábio, 2002.
923
Gerardo Mello Mourão
In illo tempore - 1549
I n illo tempore - 1549
floresciam os machos no pais dos Mourões
e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal:
"mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que todas achariam maridos,
por ser a terra larga e grossa"
nem se pecava além do equinócio:
Deus é grande, mas o mato é maior
e nas macegas altas e nos cômoros
nas capoeiras nos valos nas catingas
nos espinheiros no agreste
nas ipueiras no sertão de sol da terra larga e grossa o jesuíta
ultra equinotialem non peccatur
a natureza entregava ao vento terral
com a mesma pureza
o gemido das fêmeas possuídas e o clamor
das seriemas e das cericoias no taboleiro
e eu já te esperava
in illo tempore
e te ensaiava nas órfãs e nas mulheres erradas do Padre Manuel.
Para a alvura de teu corpo
inventei as águas limpas
não te podes banhar em teus Danúbios
teus Arnos e teus Renos e teus Senas onde boiam
catraias e cadáveres:
ao talho deste facão
para a sede de teus lábios
a linfa intata é servida
no mangará das bromélias;
e no ouro das macambiras
a água de prata pura.
floresciam os machos no pais dos Mourões
e o Padre Manuel da Nóbrega escrevia ao Rei de Portugal:
"mandassem órfãs ou mesmo mulheres erradas, que todas achariam maridos,
por ser a terra larga e grossa"
nem se pecava além do equinócio:
Deus é grande, mas o mato é maior
e nas macegas altas e nos cômoros
nas capoeiras nos valos nas catingas
nos espinheiros no agreste
nas ipueiras no sertão de sol da terra larga e grossa o jesuíta
ultra equinotialem non peccatur
a natureza entregava ao vento terral
com a mesma pureza
o gemido das fêmeas possuídas e o clamor
das seriemas e das cericoias no taboleiro
e eu já te esperava
in illo tempore
e te ensaiava nas órfãs e nas mulheres erradas do Padre Manuel.
Para a alvura de teu corpo
inventei as águas limpas
não te podes banhar em teus Danúbios
teus Arnos e teus Renos e teus Senas onde boiam
catraias e cadáveres:
ao talho deste facão
para a sede de teus lábios
a linfa intata é servida
no mangará das bromélias;
e no ouro das macambiras
a água de prata pura.
1 061
Cruz e Sousa
Monja Negra
É teu esse espaço, é teu todo o Infinito,
transcendente Visão das lágrimas nascida,
bendito o teu sentir, para sempre bendito
todo o teu divagar na Esfera indefinida!
Através de teu luto as estrelas meditam
maravilhosamente e vaporosamente;
como olhos celestiais dos Arcanjos nos fitam
lá do fundo negror do teu luto plangente.
Almas sem rumo já, corações sem destino
vão em busca de ti, por vastidões incertas...
E no teu sonho astral, mago e luciferino,
encontram para o amor grandes portas abertas.
(...)
Ó Monja soluçante! Ó Monja soluçante,
Ó Monja do Perdão, da paz e da clemência,
leva para bem longe este Desejo errante,
desta febre letal toda secreta essência.
(...)
Ah! Noite original, noite desconsolada,
Monja da solidão, espiritual e augusta,
onde fica o teu reino, a região vedada,
a região secreta, a região vetusta?!
Almas dos que não têm o Refúgio supremo
de altas contemplações, dos mais altos mistérios,
vinde sentir da Noite o Isolamento extremo,
os fluidos imortais, angelicais, etéreos.
Vinde ver como são mais castos e mais belos,
mais puros que os do dia os noturnos vapores:
por toda a parte no ar levantam-se castelos
e nos parques do céu há quermesses de amores.
(...)
Ó grande Monja negra e transfiguradora,
magia sem igual do páramos eternos,
quem assim te criou, selvagem Sonhadora,
da carícia de céus e do negror d'infernos?
Quem auréolas te deu assim miraculosas
e todo o estranho assombro e todo o estranho medo,
quem pôs na tua treva ondulações nervosas,
e mudez e silêncio e sombras e segredo?
Mas ah! quanto consolo andar errando, errando,
perdido no teu Bem, perdido nos teus braços,
nos noivados da Morte andar além sonhando,
na unção sacramental dos teus negros Espaços!
(...)
Faz descer sobre mim os brandos véus da calma,
sinfonia da Dor, ó Sinfonia muda,
voz de todo o meu Sonho, ó noiva da minh'alma,
fantasma inspirador das Religiões de Buda.
Ó negra Monja triste, ó grande Soberana,
tentadora Visão que me seduzes tanto,
abençoa meu ser no teu doce Nirvana,
no teu Sepulcro ideal de desolado encanto!
Hóstia negra e feral da comunhão dos mortos,
noite criadora, mãe dos gnomos, dos vampiros,
passageira senil dos encantados portos,
ó cego sem bordão da torre dos suspiros...
Abençoa meu ser, unge-o dos óleos castos,
enche-o de turbilhões de sonâmbulas aves,
para eu me difundir nos teus Sacrários vastos,
para me consolar com os teus Silêncios graves.
Imagem - 00140001
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
transcendente Visão das lágrimas nascida,
bendito o teu sentir, para sempre bendito
todo o teu divagar na Esfera indefinida!
Através de teu luto as estrelas meditam
maravilhosamente e vaporosamente;
como olhos celestiais dos Arcanjos nos fitam
lá do fundo negror do teu luto plangente.
Almas sem rumo já, corações sem destino
vão em busca de ti, por vastidões incertas...
E no teu sonho astral, mago e luciferino,
encontram para o amor grandes portas abertas.
(...)
Ó Monja soluçante! Ó Monja soluçante,
Ó Monja do Perdão, da paz e da clemência,
leva para bem longe este Desejo errante,
desta febre letal toda secreta essência.
(...)
Ah! Noite original, noite desconsolada,
Monja da solidão, espiritual e augusta,
onde fica o teu reino, a região vedada,
a região secreta, a região vetusta?!
Almas dos que não têm o Refúgio supremo
de altas contemplações, dos mais altos mistérios,
vinde sentir da Noite o Isolamento extremo,
os fluidos imortais, angelicais, etéreos.
Vinde ver como são mais castos e mais belos,
mais puros que os do dia os noturnos vapores:
por toda a parte no ar levantam-se castelos
e nos parques do céu há quermesses de amores.
(...)
Ó grande Monja negra e transfiguradora,
magia sem igual do páramos eternos,
quem assim te criou, selvagem Sonhadora,
da carícia de céus e do negror d'infernos?
Quem auréolas te deu assim miraculosas
e todo o estranho assombro e todo o estranho medo,
quem pôs na tua treva ondulações nervosas,
e mudez e silêncio e sombras e segredo?
Mas ah! quanto consolo andar errando, errando,
perdido no teu Bem, perdido nos teus braços,
nos noivados da Morte andar além sonhando,
na unção sacramental dos teus negros Espaços!
(...)
Faz descer sobre mim os brandos véus da calma,
sinfonia da Dor, ó Sinfonia muda,
voz de todo o meu Sonho, ó noiva da minh'alma,
fantasma inspirador das Religiões de Buda.
Ó negra Monja triste, ó grande Soberana,
tentadora Visão que me seduzes tanto,
abençoa meu ser no teu doce Nirvana,
no teu Sepulcro ideal de desolado encanto!
Hóstia negra e feral da comunhão dos mortos,
noite criadora, mãe dos gnomos, dos vampiros,
passageira senil dos encantados portos,
ó cego sem bordão da torre dos suspiros...
Abençoa meu ser, unge-o dos óleos castos,
enche-o de turbilhões de sonâmbulas aves,
para eu me difundir nos teus Sacrários vastos,
para me consolar com os teus Silêncios graves.
Imagem - 00140001
Publicado no livro Faróis (1900).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
3 823
Cruz e Sousa
Satã
Capro e revel, com os fabulosos cornos
na fronte real de rei dos reis vetustos,
com bizarros e lúbricos contornos,
ei-lo Satã dentre Satãs augustos.
Por verdes e por báquicos adornos
vai c'roado de pâmpanos venustos
o deus pagão dos Vinhos acres, mornos,
Deus triunfador dos triunfadores justos.
Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,
à púrpura das glórias flamejantes,
alarga as asas de relevos bravos...
O Sonho agita-lhe a imortal cabeça...
E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa
Canta-lhe a juba dos cabelos flavos!
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
na fronte real de rei dos reis vetustos,
com bizarros e lúbricos contornos,
ei-lo Satã dentre Satãs augustos.
Por verdes e por báquicos adornos
vai c'roado de pâmpanos venustos
o deus pagão dos Vinhos acres, mornos,
Deus triunfador dos triunfadores justos.
Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,
à púrpura das glórias flamejantes,
alarga as asas de relevos bravos...
O Sonho agita-lhe a imortal cabeça...
E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa
Canta-lhe a juba dos cabelos flavos!
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
3 919
Raimundo Correia
Beijos do Céu
Sonhei-te assim, ó minha amante, um dia:
— Vi-te no céu; e, anamoradamente,
De beijos, a falange resplendente
Dos serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via
Beijavam todos o teu lábio ardente;
E, beijando-te, o próprio Onipotente,
O próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o ciúme — fera que eu não domo —
Despertou-me do sonho, repentino
Vi-te a dormir tão plácida a meu lado...
E beijei-te também, beijei-te... e, ai! como
Achei doce o teu lábio purpurino.
Tantas vezes assim no céu beijado!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.6
— Vi-te no céu; e, anamoradamente,
De beijos, a falange resplendente
Dos serafins, teu corpo inteiro ungia...
Santos e anjos beijavam-te... Eu bem via
Beijavam todos o teu lábio ardente;
E, beijando-te, o próprio Onipotente,
O próprio Deus nos braços te cingia!
Nisto, o ciúme — fera que eu não domo —
Despertou-me do sonho, repentino
Vi-te a dormir tão plácida a meu lado...
E beijei-te também, beijei-te... e, ai! como
Achei doce o teu lábio purpurino.
Tantas vezes assim no céu beijado!
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.6
2 565
Raimundo Correia
Fetichismo
Homem, da vida as sombras inclementes
Interrogas em vão: — Que céus habita
Deus? Onde essa região de luz bendita,
Paraíso dos justos e dos crentes?...
Em vão tateiam tuas mãos trementes
As entranhas da noite erma, infinita,
Onde a dúvida atroz blasfema e grita,
E onde há só queixas e ranger de dentes...
A essa abóbada escura, em vão elevas
Os braços para o Deus sonhado, e lutas
Por abarcá-lo; é tudo em torno trevas...
Somente o vácuo estreitas em teus braços;
E apenas, pávido, um ruído escutas,
Que é o ruído dos teus próprios passos!...
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.22
Interrogas em vão: — Que céus habita
Deus? Onde essa região de luz bendita,
Paraíso dos justos e dos crentes?...
Em vão tateiam tuas mãos trementes
As entranhas da noite erma, infinita,
Onde a dúvida atroz blasfema e grita,
E onde há só queixas e ranger de dentes...
A essa abóbada escura, em vão elevas
Os braços para o Deus sonhado, e lutas
Por abarcá-lo; é tudo em torno trevas...
Somente o vácuo estreitas em teus braços;
E apenas, pávido, um ruído escutas,
Que é o ruído dos teus próprios passos!...
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.1, p.22
2 835
Gerardo Mello Mourão
Coronel, estou vendo neste momento
Coronel, estou vendo neste momento os
cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas,
no Maranhão"
e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram
os filhos dos Mourões
e caiu com os olhos fulgurantes;
o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro
e encher de água da serra a borracha de sola
no arção da sela o terçado de cabo de ouro
na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos
cinqüenta contos de réis
o rifle na lua da sela
a matolagem e os capangas fiéis
quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho
diante da sepultura do Padre Mourão:
de duzentas léguas o sangue esguichara sobre
os olhos da vidente que lhe dera o seio
e os cabras no caminho de volta retiravam
sob o suadouro das cangalhas a manta
de carne de sol e enquanto
mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das
bodegas da estrada
ruminavam a morte;
e as veredas se enchiam de cruzes
e ao sacrifício dos padres inocentes
a bravura dos Mourões se celebrava
in illo tempore
e ungidos de Deus vamos morrendo
e flagelos de Deus vamos matando.
O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant
e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado
do Império e doutor de Roma:
"os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima,
aprendem é a mandar matar"
os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos
cum Christo erant
e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão,
toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato
e veio a carta pedindo perdão:
"nunca li, Monsenhor, latim tão puro"
e uma nova edição explicava:
o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr.
Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim:
Tobias fuit cum Christo: causa mortis — raiva apoplética contra
Monsenhor Mourão — testemunha Cynobelino.
Sabedora da morte, soberana da vida
a raça dos Mourões preparava o chão
e duro e puro
o espaço do cristal se construía
na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios
in illo tempore.
cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas,
no Maranhão"
e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram
os filhos dos Mourões
e caiu com os olhos fulgurantes;
o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro
e encher de água da serra a borracha de sola
no arção da sela o terçado de cabo de ouro
na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos
cinqüenta contos de réis
o rifle na lua da sela
a matolagem e os capangas fiéis
quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho
diante da sepultura do Padre Mourão:
de duzentas léguas o sangue esguichara sobre
os olhos da vidente que lhe dera o seio
e os cabras no caminho de volta retiravam
sob o suadouro das cangalhas a manta
de carne de sol e enquanto
mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das
bodegas da estrada
ruminavam a morte;
e as veredas se enchiam de cruzes
e ao sacrifício dos padres inocentes
a bravura dos Mourões se celebrava
in illo tempore
e ungidos de Deus vamos morrendo
e flagelos de Deus vamos matando.
O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant
e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado
do Império e doutor de Roma:
"os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima,
aprendem é a mandar matar"
os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos
cum Christo erant
e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão,
toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato
e veio a carta pedindo perdão:
"nunca li, Monsenhor, latim tão puro"
e uma nova edição explicava:
o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr.
Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim:
Tobias fuit cum Christo: causa mortis — raiva apoplética contra
Monsenhor Mourão — testemunha Cynobelino.
Sabedora da morte, soberana da vida
a raça dos Mourões preparava o chão
e duro e puro
o espaço do cristal se construía
na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios
in illo tempore.
707
Gerardo Mello Mourão
Tu me pediste notícias da Grécia:
Tu me pediste notícias da Grécia:
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.
E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?
Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.
E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:
respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —
‘E AEYOEPÍA
e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:
de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.
Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.
Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.
Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.
pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.
E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?
Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.
E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:
respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —
‘E AEYOEPÍA
e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:
de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.
Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.
Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.
Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.
pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
1 117
Gerardo Mello Mourão
Não precisa rezar pelo Padre Inácio:
Não precisa rezar pelo Padre Inácio:
é um mártir de Deus e está no céu
minha bisavó calejou os dedos nas contas do rosário
pela alma do irmão padre:
emboscado pelos inimigos foi amarrado ao tronco de um joazeiro no caminho da Paraíba
castrado à faca de ponta e um cabra
com a ponta de um punhal
tirou-lhe do couro da cabeça a rodela da coroa de padre
"engula agora esta hóstia":
sobre a terra ardente fervia o sangue
do único fálus que poupara as fêmeas
na raça dos Mourões
e a única boca da raça
que de sangue só bebera o do Cristo na Missa
comungava o pedaço de sua carne sangrenta
e desde aquele tempo
os Mourões imolados
ao próprio chão e ao próprio ser se imolam
e sobre a terra plantada de sagrados testículos
nutridos de seu corpo e de seu sangue
existem para a vida e para a morte.
é um mártir de Deus e está no céu
minha bisavó calejou os dedos nas contas do rosário
pela alma do irmão padre:
emboscado pelos inimigos foi amarrado ao tronco de um joazeiro no caminho da Paraíba
castrado à faca de ponta e um cabra
com a ponta de um punhal
tirou-lhe do couro da cabeça a rodela da coroa de padre
"engula agora esta hóstia":
sobre a terra ardente fervia o sangue
do único fálus que poupara as fêmeas
na raça dos Mourões
e a única boca da raça
que de sangue só bebera o do Cristo na Missa
comungava o pedaço de sua carne sangrenta
e desde aquele tempo
os Mourões imolados
ao próprio chão e ao próprio ser se imolam
e sobre a terra plantada de sagrados testículos
nutridos de seu corpo e de seu sangue
existem para a vida e para a morte.
1 016
Manuel Bandeira
Duas Marias
Duas Marias: Cristina
E sua gêmea Isabel.
A ambas saúda e se assina
Servo e admirador Manuel.
Pincel que pintar Cristina
Tem que pintar Isabel.
Se o pintor for o Candinho,
Então é a sopa no mel.
Dorme sem susto, Cristina,
Dorme sem medo, Isabel:
Nossa Senhora vos nina,
Ao pé está o Anjo Gabriel.
E sua gêmea Isabel.
A ambas saúda e se assina
Servo e admirador Manuel.
Pincel que pintar Cristina
Tem que pintar Isabel.
Se o pintor for o Candinho,
Então é a sopa no mel.
Dorme sem susto, Cristina,
Dorme sem medo, Isabel:
Nossa Senhora vos nina,
Ao pé está o Anjo Gabriel.
1 049
Gerardo Mello Mourão
No caminho de Aretusa
No caminho de Aretusa
Hellas
elas
me iniciaram na língua e no alfabeto da língua:
sabem agora os engenheiros e os empreiteiros:
fui eu o ausente na torre de Babel
guardo a letra o dissílabo o fonema
e as chaves da sintaxe:
— enquanto
os povos se desentendiam em torno
da areia e da argamassa
e esqueciam o verbo e o advérbio
nosotros recusamos
a vã alvenaria
ficamos de serviço, Efraín, com as nove meninas
trabalhando na boca as promessas de amor
em que sois mestre, Apolo:
na sesmaria de violetas e girassóis por onde
o ditongo maiêutico e a vogal eólia
nominam nome e nume
a Euterpe e às outras
ao gavião e à pomba e à brisa
e ao pêssego e à mulher
e ao arco à flecha ao trigo ao vinho à abelha à fava ao favo
e Artemis e Afrodite
e Eleu
theria.
Quem se esqueceu pode lembrar-se
e a semente da letra em sua leiva Linos
faz florescer em Lambda e lírio
— "Do you speak english"?
— "No, darling",
não estive na torre de Babel
lambda loquor et lillia convallium
e entendo a água o ar o fogo o azul
e Lúcia e Laura e Léa
e Luciléa e Lauriléa
e Lucilauriléa
e os cavalos e as éguas relinchando
na madrugada de Pajeú das Flores
e o motim de amor
dos gatos no telhado de Iolanda
Não estive em Babel — estive
em Delfos e em Pentecostes
e a Musa e a Virgem-mãe
Mariamusa — Maria Leto Letícia
repartiram comigo a língua de fogo
e só ela conheço e tenho
o dom da língua
e me entendem o hebreu e o gentío
e seus dialetos voltam
à fonte e à flor
et fons et flos
dos tempos aurorais e a silaba da aurora
posou-me sobre a sílaba dos lábios
beijou-me a boca e neste beijo
lateja o paladar de um deus
e os outros deuses
massacram meu coração e as moiras
me plantam a demência na cabeça:
invejado dos deuses
"invejado a invejar os invejosos" — João —
testemunho a beleza e canto
a possessão de seu corpo
e adúltero da adúltera
choro a noite infiel
Afrodite Helena Eleu
theria
trina teu nome trino
pelas montanhas
do país de Apoio onde pisaste
as amoras maduras
Cobrem- me o palitó as borboletas e as libélulas
e aos lábios sábios de teu nome os beija-flores
chegam e digo
Mel
po
len
me
ne
e é
de mel
a nossa lua
desde
já
neiro
a janeiro
es
cravo
desse tufo de cravinas
na virilha em flor por onde a sílaba
da rosa pestaneja a pálpebra
e balbucio
o cio
verbo gerúndio e gerundivo
das intatas auroras
videndus videnda videndum videndi
video videmus videtur videbam
visionem
visa visione
ablativo absoluto
declino a Musa
Musae
Musaram
Musis
e o Musageta.
Hellas
elas
me iniciaram na língua e no alfabeto da língua:
sabem agora os engenheiros e os empreiteiros:
fui eu o ausente na torre de Babel
guardo a letra o dissílabo o fonema
e as chaves da sintaxe:
— enquanto
os povos se desentendiam em torno
da areia e da argamassa
e esqueciam o verbo e o advérbio
nosotros recusamos
a vã alvenaria
ficamos de serviço, Efraín, com as nove meninas
trabalhando na boca as promessas de amor
em que sois mestre, Apolo:
na sesmaria de violetas e girassóis por onde
o ditongo maiêutico e a vogal eólia
nominam nome e nume
a Euterpe e às outras
ao gavião e à pomba e à brisa
e ao pêssego e à mulher
e ao arco à flecha ao trigo ao vinho à abelha à fava ao favo
e Artemis e Afrodite
e Eleu
theria.
Quem se esqueceu pode lembrar-se
e a semente da letra em sua leiva Linos
faz florescer em Lambda e lírio
— "Do you speak english"?
— "No, darling",
não estive na torre de Babel
lambda loquor et lillia convallium
e entendo a água o ar o fogo o azul
e Lúcia e Laura e Léa
e Luciléa e Lauriléa
e Lucilauriléa
e os cavalos e as éguas relinchando
na madrugada de Pajeú das Flores
e o motim de amor
dos gatos no telhado de Iolanda
Não estive em Babel — estive
em Delfos e em Pentecostes
e a Musa e a Virgem-mãe
Mariamusa — Maria Leto Letícia
repartiram comigo a língua de fogo
e só ela conheço e tenho
o dom da língua
e me entendem o hebreu e o gentío
e seus dialetos voltam
à fonte e à flor
et fons et flos
dos tempos aurorais e a silaba da aurora
posou-me sobre a sílaba dos lábios
beijou-me a boca e neste beijo
lateja o paladar de um deus
e os outros deuses
massacram meu coração e as moiras
me plantam a demência na cabeça:
invejado dos deuses
"invejado a invejar os invejosos" — João —
testemunho a beleza e canto
a possessão de seu corpo
e adúltero da adúltera
choro a noite infiel
Afrodite Helena Eleu
theria
trina teu nome trino
pelas montanhas
do país de Apoio onde pisaste
as amoras maduras
Cobrem- me o palitó as borboletas e as libélulas
e aos lábios sábios de teu nome os beija-flores
chegam e digo
Mel
po
len
me
ne
e é
de mel
a nossa lua
desde
já
neiro
a janeiro
es
cravo
desse tufo de cravinas
na virilha em flor por onde a sílaba
da rosa pestaneja a pálpebra
e balbucio
o cio
verbo gerúndio e gerundivo
das intatas auroras
videndus videnda videndum videndi
video videmus videtur videbam
visionem
visa visione
ablativo absoluto
declino a Musa
Musae
Musaram
Musis
e o Musageta.
1 024
Fernando Pessoa
Crucificado, / Não como Cristo numa mera cruz,
Crucificado,
Não como Cristo numa mera cruz,
Mas no mistério do universo. (Sempre
Me foi a alma, ao ver a exterior
Vaidade monótona do mundo
Para ver em cada cousa e abstracto objecto
No seu misterioso ali-local de ser,
Sempre os meus pensamentos supervistos
Como coisas alheias me eram pontes
Donde eu partia para perguntar-me
Generalidades.)
Não como Cristo numa mera cruz,
Mas no mistério do universo. (Sempre
Me foi a alma, ao ver a exterior
Vaidade monótona do mundo
Para ver em cada cousa e abstracto objecto
No seu misterioso ali-local de ser,
Sempre os meus pensamentos supervistos
Como coisas alheias me eram pontes
Donde eu partia para perguntar-me
Generalidades.)
1 240
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Erram todos – judeus, cristãos,
Erram todos – judeus, cristãos,
muçulmanos e masdeístas:
A humanidade segue duas seitas:
Uma: pensadores sem religião,
Outra: religiosos sem cabeça.
716
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Abandona a mesquita e evita louvor
Abandona a mesquita e evita louvor,
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
715
Fernando Pessoa
Ah que nunca a verdade definida
Ah que nunca a verdade definida
Mate a alma, que vive de não tê-la!
Talvez que nunca, ó negra sperança linda!,
A alma encontre o horror definitivo
Da verdade absoluta, onde se acabe
Que ser, que ter, que procurar.
Cada Deus seja falso e, onde é, supremo;
Sol centro dum sistema de verdades
E sistemas solares de ilusão
No espaço da verdade sem limite
E sem definição — inexistente
Para quanto é o sujeito.
Mate a alma, que vive de não tê-la!
Talvez que nunca, ó negra sperança linda!,
A alma encontre o horror definitivo
Da verdade absoluta, onde se acabe
Que ser, que ter, que procurar.
Cada Deus seja falso e, onde é, supremo;
Sol centro dum sistema de verdades
E sistemas solares de ilusão
No espaço da verdade sem limite
E sem definição — inexistente
Para quanto é o sujeito.
824
Gerardo Mello Mourão
Nasci tocando viola
Nasci tocando viola
sou Mourão das Ipueiras,
dos Mello do pé-da-serra
reinador destas ribeiras
tanto canto em minha terra
como em terras estrangeiras
As cordas desta viola
são meus pés e minha mão:
no galope a beira-mar
nos oito pés em quadrão;
em martelo e gemedeira
em gabinete e mourão.
Devoto fiel de Apolo
cantador de profissão,
vou cantar o deus da lira
de minha religião
quero contar sua vida
fazer sua louvação.
E tanto o canto em sextilhas
como em versos espondeus,
que era Apoio sobre a terra
Deus e homem e homem-deus
pois a fêmea que o pariu
pariu do sêmen de Zeus
Quando Jesus veio ao mundo
nessa noite do Natal,
Maria, pra dar a luz
só encontrou um curral —
me ajoelho e peço a bênção
e faço o pelo-sinal.
Pois canto a história de Apolo
falho de Zeus e de Leto,
foi seu berço uma palmeira
e o céu de Delos seu teto:
mamou nos peitos de Temis
nectar puro e mel do Himeto.
Só Delos teve coragem
de oferecer o seu chão,
pois Hera, mulher de Zeus,
prometia maldição
a quem ajudasse o parto
na terrível solidão
Foi ali aos nove dias
que o Deus Apolo nasceu
Artemis, sua irmã gêmea,
antes dele apareceu,
vestido de linho e ouro
a doce lira tangeu
Pela folhinha dos gregos
faço a conta e não me engano,
foi dia sete de Bysios
que nasceu o deus humano:
fevereiro — entre oito e nove —
do calendário romano.
Até então era Delos
uma ilha flutuante,
quando nela um deus nasceu,
Poseidon, no mesmo instante,
firmou-a no chão com quatro
colunas de diamante.
Apenas nascido Apolo
os cisnes em revoada
sete vezes deram volta
sobre a ilha abençoada
e cantaram glória aos deuses
e paz à terra sagrada.
Mas Hera, mulher de Zeus,
contra a mãe de Apolo
irada ferida pelo ciúme
pela paixão desvairada:
contratou uma serpente
traiçoeira e envenenada:
Era a serpente Python
com cabeça de dragão:
contra Leto, mãe de Apolo,
sem a menor compaixão,
dia e noite ela movia
terrível perseguição.
Era Apolo deus e homem
em todo o seu esplendor,
e como homem — valente,
e como Deus — vingador:
pela honra da mãe armou-se
com seu ódio e seu amor.
Atrás da serpente pérfida
percorreu terras sem conta,
disposto a lavar em sangue
a miserável afronta,
nas cordas do arco de prata
a flecha certeira pronta.
Pelas bandas do Parnaso
foi a serpente ferida,
levou três flechas no lombo
mais inda saíu com vida,
no lugar santo de Delfos
escondeu-se espavorida.
E alí ao lado do oráculo,
da gruta sagrada à porta,
um rugido pavoroso
racha a terra e os ares corta:
com sua flecha certeira,
Apolo deixou-a morta.
É três, é quatro, é cinco, é seis,
é sete, é oito, é nove, é dez,
pegou o couro da cobra
cortou de frente e viés
e com ele fez o assento
da cadeira de três pés.
Era a trípode sagrada
o trono da profetisa,
no umbigo do mundo o céu
e a terra fazem divisa,
e a voz dos deuses se escuta
na boca da Pythonisa.
Pois o deus tomou à cobra
pele e nome por botim:
Apoio Pythio o chamaram
e eu também o chamo assim:
da história do mundo sabe
o começo, o meio e o fim.
E para purificar-se
do sangue dessa serpente,
com Artemis foi a Creta
lavou-se nágua corrente,
Karmanor lhe aspergiu
o corpo e a alma inocente.
Montou um delfim no mar,
veio a Delfos no outro dia,
arrebatou ao deus Pã
a arte da profecia
e pela boca da Pythia
seus oráculos dizia.
Afoito, ao bosque dos deuses
veio um gigante malvado,
quis violar sua mãe
e Apolo ficou irado:
chamou Artemis, a irmã,
e o pacto foi combinado.
Saíram os dois divinos
no arco a flecha certeira,
alvejaram o bandido
oculto numa touceira
e o corpo com duas flechas
rolou pela ribanceira.
Um dia o sileno Mársias
desconheceu seu lugar
e a pura lira de Apolo
pretendia superar
soprando a flauta de Atena
que o ensinara a soprar.
Os deuses e as musas foram
o tribunal julgador
do desafio insensato
feito ao divino cantor
e decretaram a Apolo
a palma de vencedor.
Para glória da poesia,
para dar uma lição,
Febo Apolo esfolou Mársias
e arrancou-lhe o coração,
que o desrespeito a um poeta
nunca pode ter perdão.
De outra feita ele tocava
contra Pã numa função,
Midas prefere o pastor,
e ao dar esta opinião,
duas orelhas de burro
lhe crescem por punição.
Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri,
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracatí,
há Romano de Mãe dÁgua,
Sinfrônio do Jabotí,
Azulão em Pernambuco
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da lpueira.
Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor.
A todos os que ofenderem
o poeta e sua glória,
sejam reis ou coronéis,
dos potentados a escória,
deixaremos pendurados
nos postes podres da história.
Mas canto é Apolo formoso
suas batalhas de amor,
com musas, ninfas e deusas
e raparigas em flor,
nem escaparam mancebos
de seu leito sedutor.
Passou nos peitos Cirene,
Coronis, Ária e Thalía,
Naiades, Graças, Driopes
e a mãe de Dorus, Phytía,
Urânia, Clítia e Kimene
e as nove Musas que havia.
Recusou-lhe a pura Dafne
seu lírio de castidade,
transformada num loureiro
Pasifae — na flor da idade,
as verdes folhas consagra
na doce dor da saudade.
Jacyntho, o belo mancebo
era seu lúdico amor,
quando morto cai na relva
pelo Zéfiro traidor,
inconsolável Apolo
o transforma numa flor,
Pois o amor, a flor e a morte
são obra de sua mão,
são água do mesmo rio,
são fonte do coração,
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.
Seu espírito divino,
mais sábio que Salomão,
sabia a ferida e o bálsamo,
a doçura da canção,
pois era senhor da vida,
da morte e ressurreição.
Para remédio das almas,
fundou a Pythia divina,
para remédio do corpo
inventou a medicina,
foi o pai de Asclépio, médico,
mestre em sua disciplina.
E quando o raio de Zeus
fulminou este seu filho,
na corda tensa do arco
mostrou das setas o brilho,
matou todos os Ciclopes
como quem mata um novilho.
Expulso por Zeus do Olimpo,
foi ser pastor de carneiros,
pastoreava cantando
os rebanhos campineiros
e era o cordeiro de Deus
entre fontes e loureiros.
Exilado sobre a terra,
filho de Deus humanado,
sua canção governava
o bosque, as flores, o prado,
o mar, as fontes, os rios,
por todo o povo estimado.
Os deuses então sentiram
de seu prestígio temor,
voltou por isso ao Olimpo,
sou Mourão das Ipueiras,
dos Mello do pé-da-serra
reinador destas ribeiras
tanto canto em minha terra
como em terras estrangeiras
As cordas desta viola
são meus pés e minha mão:
no galope a beira-mar
nos oito pés em quadrão;
em martelo e gemedeira
em gabinete e mourão.
Devoto fiel de Apolo
cantador de profissão,
vou cantar o deus da lira
de minha religião
quero contar sua vida
fazer sua louvação.
E tanto o canto em sextilhas
como em versos espondeus,
que era Apoio sobre a terra
Deus e homem e homem-deus
pois a fêmea que o pariu
pariu do sêmen de Zeus
Quando Jesus veio ao mundo
nessa noite do Natal,
Maria, pra dar a luz
só encontrou um curral —
me ajoelho e peço a bênção
e faço o pelo-sinal.
Pois canto a história de Apolo
falho de Zeus e de Leto,
foi seu berço uma palmeira
e o céu de Delos seu teto:
mamou nos peitos de Temis
nectar puro e mel do Himeto.
Só Delos teve coragem
de oferecer o seu chão,
pois Hera, mulher de Zeus,
prometia maldição
a quem ajudasse o parto
na terrível solidão
Foi ali aos nove dias
que o Deus Apolo nasceu
Artemis, sua irmã gêmea,
antes dele apareceu,
vestido de linho e ouro
a doce lira tangeu
Pela folhinha dos gregos
faço a conta e não me engano,
foi dia sete de Bysios
que nasceu o deus humano:
fevereiro — entre oito e nove —
do calendário romano.
Até então era Delos
uma ilha flutuante,
quando nela um deus nasceu,
Poseidon, no mesmo instante,
firmou-a no chão com quatro
colunas de diamante.
Apenas nascido Apolo
os cisnes em revoada
sete vezes deram volta
sobre a ilha abençoada
e cantaram glória aos deuses
e paz à terra sagrada.
Mas Hera, mulher de Zeus,
contra a mãe de Apolo
irada ferida pelo ciúme
pela paixão desvairada:
contratou uma serpente
traiçoeira e envenenada:
Era a serpente Python
com cabeça de dragão:
contra Leto, mãe de Apolo,
sem a menor compaixão,
dia e noite ela movia
terrível perseguição.
Era Apolo deus e homem
em todo o seu esplendor,
e como homem — valente,
e como Deus — vingador:
pela honra da mãe armou-se
com seu ódio e seu amor.
Atrás da serpente pérfida
percorreu terras sem conta,
disposto a lavar em sangue
a miserável afronta,
nas cordas do arco de prata
a flecha certeira pronta.
Pelas bandas do Parnaso
foi a serpente ferida,
levou três flechas no lombo
mais inda saíu com vida,
no lugar santo de Delfos
escondeu-se espavorida.
E alí ao lado do oráculo,
da gruta sagrada à porta,
um rugido pavoroso
racha a terra e os ares corta:
com sua flecha certeira,
Apolo deixou-a morta.
É três, é quatro, é cinco, é seis,
é sete, é oito, é nove, é dez,
pegou o couro da cobra
cortou de frente e viés
e com ele fez o assento
da cadeira de três pés.
Era a trípode sagrada
o trono da profetisa,
no umbigo do mundo o céu
e a terra fazem divisa,
e a voz dos deuses se escuta
na boca da Pythonisa.
Pois o deus tomou à cobra
pele e nome por botim:
Apoio Pythio o chamaram
e eu também o chamo assim:
da história do mundo sabe
o começo, o meio e o fim.
E para purificar-se
do sangue dessa serpente,
com Artemis foi a Creta
lavou-se nágua corrente,
Karmanor lhe aspergiu
o corpo e a alma inocente.
Montou um delfim no mar,
veio a Delfos no outro dia,
arrebatou ao deus Pã
a arte da profecia
e pela boca da Pythia
seus oráculos dizia.
Afoito, ao bosque dos deuses
veio um gigante malvado,
quis violar sua mãe
e Apolo ficou irado:
chamou Artemis, a irmã,
e o pacto foi combinado.
Saíram os dois divinos
no arco a flecha certeira,
alvejaram o bandido
oculto numa touceira
e o corpo com duas flechas
rolou pela ribanceira.
Um dia o sileno Mársias
desconheceu seu lugar
e a pura lira de Apolo
pretendia superar
soprando a flauta de Atena
que o ensinara a soprar.
Os deuses e as musas foram
o tribunal julgador
do desafio insensato
feito ao divino cantor
e decretaram a Apolo
a palma de vencedor.
Para glória da poesia,
para dar uma lição,
Febo Apolo esfolou Mársias
e arrancou-lhe o coração,
que o desrespeito a um poeta
nunca pode ter perdão.
De outra feita ele tocava
contra Pã numa função,
Midas prefere o pastor,
e ao dar esta opinião,
duas orelhas de burro
lhe crescem por punição.
Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri,
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracatí,
há Romano de Mãe dÁgua,
Sinfrônio do Jabotí,
Azulão em Pernambuco
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da lpueira.
Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor.
A todos os que ofenderem
o poeta e sua glória,
sejam reis ou coronéis,
dos potentados a escória,
deixaremos pendurados
nos postes podres da história.
Mas canto é Apolo formoso
suas batalhas de amor,
com musas, ninfas e deusas
e raparigas em flor,
nem escaparam mancebos
de seu leito sedutor.
Passou nos peitos Cirene,
Coronis, Ária e Thalía,
Naiades, Graças, Driopes
e a mãe de Dorus, Phytía,
Urânia, Clítia e Kimene
e as nove Musas que havia.
Recusou-lhe a pura Dafne
seu lírio de castidade,
transformada num loureiro
Pasifae — na flor da idade,
as verdes folhas consagra
na doce dor da saudade.
Jacyntho, o belo mancebo
era seu lúdico amor,
quando morto cai na relva
pelo Zéfiro traidor,
inconsolável Apolo
o transforma numa flor,
Pois o amor, a flor e a morte
são obra de sua mão,
são água do mesmo rio,
são fonte do coração,
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.
Seu espírito divino,
mais sábio que Salomão,
sabia a ferida e o bálsamo,
a doçura da canção,
pois era senhor da vida,
da morte e ressurreição.
Para remédio das almas,
fundou a Pythia divina,
para remédio do corpo
inventou a medicina,
foi o pai de Asclépio, médico,
mestre em sua disciplina.
E quando o raio de Zeus
fulminou este seu filho,
na corda tensa do arco
mostrou das setas o brilho,
matou todos os Ciclopes
como quem mata um novilho.
Expulso por Zeus do Olimpo,
foi ser pastor de carneiros,
pastoreava cantando
os rebanhos campineiros
e era o cordeiro de Deus
entre fontes e loureiros.
Exilado sobre a terra,
filho de Deus humanado,
sua canção governava
o bosque, as flores, o prado,
o mar, as fontes, os rios,
por todo o povo estimado.
Os deuses então sentiram
de seu prestígio temor,
voltou por isso ao Olimpo,
1 225
Gerardo Mello Mourão
Pois José Cupertino cantava na praça
Pois José Cupertino cantava na praça de
São Luís do Maranhão
já não entravam os deuses em seu negro
corpo — e as mãos
imploravam sobre a cabeça branca: — "um Deus
é um sopro" — e José Cupertino
soprava na praça à tarde de São Luís
— "sem o sopro eu sou um pneu vazio
já não me ouvem os deuses não me querem"
e requebrava e chorava e cantava:
—"Eu trepei na ponte
a ponte quebrou
sou moço bonito
desembargador" — e se embargava
a voz — e os deuses
não olhavam sua beleza
nas calçadas de São Luís:
— "sou moço bonito
desembargador" —
Canta o concrís canta a gamarra canta
o galo-de-campina ao céu
de Campina Grande — e ali
bêbada e bela pereceu Clarice
os cabelos de ouro numa poça de sangue:
resta uma cruz na estrada e esse aroma
de jasmins e maracujá na tarde
de Campina Grande
e a tua lira, Apolo, resta
onde canto o aroma a flor a morte ensangüentada
e adorno a morte
com flores e seus frutos
o jambo o dáctilo o espondeu
e os verdes anapestos
Pois vejo o anjo a verbena o verso o verbo
transitivo
florescido nas vozes e nos tempos e nos modos
finitos e infinitos — e Apolo
ensina a fonte de jorrar
o infinitivo dos intransitivos.
O amante de si mesmo beija as águas — mas Apolo
ergue das ondas deusas calipígias e onde
era espuma onde água verde brotam
em suas mãos
as cabeças castanhas
e as avelãs
as tuas avelãs
amada
de cintura fina e de redondo seio.
Nascido em minhas mãos um nome busco
para teu seio — Mirabelos —
um nome-próprio
para a touceira
de madressilvas
de tuas coxas — Delta-Delphulvia
Aqui, Apolo, venho
fundar o nome das partes de seu corpo
onde fundaste
teu tempo e teu país
e aqui
em tua data e em teu sítio
queimado o calendário se lerão nas cinzas
minha data e meu solo
pois sou datado e minha data
é a data da Sibila dos profetas hebreus
no chão do Apocalipse, Patmos,
entranhas de Capricórnio — e ali
arúspice de si mesmo
o poeta se lê — e a decifrada vítima
imola o imolador e entre
os outros deuses
ocupa o seu lugar:
pois somos, Dionísios,
Apolo, somos
as ovelhas de Deus e o deus que tange
os cordeiros nos montes da Tessália:
e em mar e, monte
e em ribeira e rio
vou profetizando a profecia
pois inventei o verbo depoente
e seu modo e seu tempo
e é este o depoimento:
profissão
— Inventor da palavra — Edi —
a voz ativa a voz passiva
reflexa perifrástica
Afrodite
germ
herm
afro
ditirambo
A flor a profecia
do fruto na corola
aos ventos inclementes
despetalada —
Pois posso a aurora e a noite
arconte epônimo da lua e das estrelas
Posso o azul posso o verde
posso as vogais e as consoantes
a cana-rosa
o cabrito montês o touro a égua
a ipecacuanha o cravo
a peroba a canela a cascavel o acônito:
— mas quem pode deter pupila e pálpebra?
pois meus olhos não posso
e neles vai crescendo a morte sua planta
florescido no talhe de meus filhos
já altos entre outros rapazes.
Mas posso a flor e a profecia
do fruto na corola
— Scardanelli —
pois tenho, Apolo, o prumo
da flor sobre seu fruto.
e José Cupertino cantava na praça de São Luís do
Maranhão e às vezes
por sua boca por seus ouvidos por seus poros
pelos buracos de seu corpo
entrava um deus em seu corpo — e ali
aprendi sua visita nas entranhas
e o possesso possui a possessão de um deus
e à chama de sua língua na boca acesa
arde o clarão de teu nome
e em Lambda e Léa
digo amor
nos lábios crepitares
Venho de um deus e
só do que me esqueci me vou lembrando
e só o que perdi procuro e acho
na touceira de relva e de cidreira
cidra
romã
respondem de teu corpo
aromas formas formaromas
assim chamados:
pois comedor de deuses
Abol
Apfel
Apple
Apolón
e um dia, Apolo,
os deuses serão fêmeas e na praça
de São Luís do Maranhão
o sopro e o sumo e a polpa
fruta à fruta o coração se nutra
da cidra e da romã:
pois
Apfel
Apple
Apolo e Apoléa —
seio por seio.
São Luís do Maranhão
já não entravam os deuses em seu negro
corpo — e as mãos
imploravam sobre a cabeça branca: — "um Deus
é um sopro" — e José Cupertino
soprava na praça à tarde de São Luís
— "sem o sopro eu sou um pneu vazio
já não me ouvem os deuses não me querem"
e requebrava e chorava e cantava:
—"Eu trepei na ponte
a ponte quebrou
sou moço bonito
desembargador" — e se embargava
a voz — e os deuses
não olhavam sua beleza
nas calçadas de São Luís:
— "sou moço bonito
desembargador" —
Canta o concrís canta a gamarra canta
o galo-de-campina ao céu
de Campina Grande — e ali
bêbada e bela pereceu Clarice
os cabelos de ouro numa poça de sangue:
resta uma cruz na estrada e esse aroma
de jasmins e maracujá na tarde
de Campina Grande
e a tua lira, Apolo, resta
onde canto o aroma a flor a morte ensangüentada
e adorno a morte
com flores e seus frutos
o jambo o dáctilo o espondeu
e os verdes anapestos
Pois vejo o anjo a verbena o verso o verbo
transitivo
florescido nas vozes e nos tempos e nos modos
finitos e infinitos — e Apolo
ensina a fonte de jorrar
o infinitivo dos intransitivos.
O amante de si mesmo beija as águas — mas Apolo
ergue das ondas deusas calipígias e onde
era espuma onde água verde brotam
em suas mãos
as cabeças castanhas
e as avelãs
as tuas avelãs
amada
de cintura fina e de redondo seio.
Nascido em minhas mãos um nome busco
para teu seio — Mirabelos —
um nome-próprio
para a touceira
de madressilvas
de tuas coxas — Delta-Delphulvia
Aqui, Apolo, venho
fundar o nome das partes de seu corpo
onde fundaste
teu tempo e teu país
e aqui
em tua data e em teu sítio
queimado o calendário se lerão nas cinzas
minha data e meu solo
pois sou datado e minha data
é a data da Sibila dos profetas hebreus
no chão do Apocalipse, Patmos,
entranhas de Capricórnio — e ali
arúspice de si mesmo
o poeta se lê — e a decifrada vítima
imola o imolador e entre
os outros deuses
ocupa o seu lugar:
pois somos, Dionísios,
Apolo, somos
as ovelhas de Deus e o deus que tange
os cordeiros nos montes da Tessália:
e em mar e, monte
e em ribeira e rio
vou profetizando a profecia
pois inventei o verbo depoente
e seu modo e seu tempo
e é este o depoimento:
profissão
— Inventor da palavra — Edi —
a voz ativa a voz passiva
reflexa perifrástica
Afrodite
germ
herm
afro
ditirambo
A flor a profecia
do fruto na corola
aos ventos inclementes
despetalada —
Pois posso a aurora e a noite
arconte epônimo da lua e das estrelas
Posso o azul posso o verde
posso as vogais e as consoantes
a cana-rosa
o cabrito montês o touro a égua
a ipecacuanha o cravo
a peroba a canela a cascavel o acônito:
— mas quem pode deter pupila e pálpebra?
pois meus olhos não posso
e neles vai crescendo a morte sua planta
florescido no talhe de meus filhos
já altos entre outros rapazes.
Mas posso a flor e a profecia
do fruto na corola
— Scardanelli —
pois tenho, Apolo, o prumo
da flor sobre seu fruto.
e José Cupertino cantava na praça de São Luís do
Maranhão e às vezes
por sua boca por seus ouvidos por seus poros
pelos buracos de seu corpo
entrava um deus em seu corpo — e ali
aprendi sua visita nas entranhas
e o possesso possui a possessão de um deus
e à chama de sua língua na boca acesa
arde o clarão de teu nome
e em Lambda e Léa
digo amor
nos lábios crepitares
Venho de um deus e
só do que me esqueci me vou lembrando
e só o que perdi procuro e acho
na touceira de relva e de cidreira
cidra
romã
respondem de teu corpo
aromas formas formaromas
assim chamados:
pois comedor de deuses
Abol
Apfel
Apple
Apolón
e um dia, Apolo,
os deuses serão fêmeas e na praça
de São Luís do Maranhão
o sopro e o sumo e a polpa
fruta à fruta o coração se nutra
da cidra e da romã:
pois
Apfel
Apple
Apolo e Apoléa —
seio por seio.
1 151
Gerardo Mello Mourão
Pange língua gloriosi
Pange língua gloriosi
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.
Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor
Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias
As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo
E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno
no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"
escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome
In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde
no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope
a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.
Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor
Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias
As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo
E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno
no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"
escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome
In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde
no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope
a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até
1 208
Gerardo Mello Mourão
Divididos os idos in dimidio dierum meorum
Divididos os idos in dimidio dierum meorum
vadam ad portas inferi
in dimidio dierum midnight
she knocked at the door in Chelsea à porta
do coração — nos assombrados olhos
tacebit pupfila in oculo meo
e bato à porta do inferno e bato
ad portam paradisi
e aos surdos anjos e aos demônios surdos
emudece no olho a pupila — a minha —
e de olho a olho
sidera
considera:
considerei os astros, Musa,
Musa, Palatini referamus Apollinis aedem:
ali sob o reinado de Hilarius Bogbinder
entre os lençóis de linho e os limões verdes
floresciam as sardas ao redor de teus seios
tua beleza ferruginosa suplicava
os ruivos travesseiros:
chegava Jéssica lavada pelos sumos da lua
chegava por Santa Clara
Ariston
in dimidio dierum meorum:
pois me refiro a Jéssica ao buscar Afrodite
per talos
me Veneram quaerente:
e era uma vez a Infanta do crepúsculo
seus cabelos pesavam nove libras de ouro — e era uma vez
o céu de Coritiba e o vestido escocês
e era sempre Isabella
e o vento vindo de novembro pelo Paraná
me Venerem quaerente
pois quérulo me vou pelas veredas
buscando Vênus:
e onde tornozelos
— ancas
onde ancas
— tua cintura fina
onde tua cintura
— a dança
onde a dança
— Afrodite
e por ali
rastro de Apolo
poetae Venerem quaerenti — Apolo
no inventado rosto
inventa o coração
Chegávamos de junho e julho e agosto
vínhamos às vezes do mar da aurora e às vezes
cavalgávamos serras de saudades — outras
partíamos da noite enluarada
e os tropeiros na estrada tiravam o chapéu
na saudação ao poeta:
palmilhado o silêncio
no rumo da palavra
e onde sua sílaba
por alí Apolo
ludum ludendum ludens
e quando a madrugada explica a rosa
se explica o coração na pálpebra explicada:
mas ai de ti, Louis,
Louis Alphonse Donatien
na boca encarcerada morde
o cerrado botão da rosa muda — e queima
nos olhos moribundos queima a antífona
do próprio requiem —
mas Apolo
desabrocha à lira
a louvação da flor:
a corola celebra teus cabelos
a virilha celebra nome e nume
e este é o ludus do amor
a delta digo ao teu ouvido D e fundo
o alfabeto
em Lambda Delta Beta Kappa:
e assim te chama a língua sábia
o lábio o seio o umbigo a orquídea
a curva pígia
— por isso
uma noite me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos dividiram entre si o pênis ceifado
e à negra relva o milagre de teu sopro
o ergueu de novo
e cem vezes mil vezes me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos comiam as rodelas decepadas
mas és mágica e cem vezes
mil vezes
traziam das entranhas e entre antúrios
em seu pendão de cana florescia de novo
a cabeça do príncipe perene
no júbilo do orvalho entre os antúrios
E muita noite
quebrada a flauta
não cessava a melodia — tenho lábios
viciosos de música e de sopro
entre os dedos
teu corpo no ar
e de horizonte a horizonte
modulada canção se desferia
da fonte do desejo — pois ali
nessa clave de lua era soprada a rosa:
E sopro a flauta a rosa súplice
e a canção te compõe e decompõe
de seio a seio
Tanjo a ovelha da letra ovelha à ovelha
toureio o touro da palavra
picador banderilheiro
no trapézio dos chifres perde o solo a sílaba
do coração — e os olhos
guardam gota a gota
a espada matadora
pois tourovelha toureirotouro
arrebanha rebanho vivo
rebanho à morte —
e um dia
há de restar de mim o pranto de Erifânia.
Erifânia!. Erifânia!
Pois busco ovelha por ovelha
e touro a touro enfrento
y me aúlla la perra
Maira la perra
um morto um vivo um touro —
e salto
picador de ditongos e tritongos
sou o amante das Fúrias Eríneas
Eumênidas
Eumênidas
pica —
dor
me castraram de novo
e me busco no ventre das Eríneas
e encontro ao ladrido da perra
Erígona
e Erifânia —
— Erifânia
canta a dor adorada — picador do touro
pica as fúrias amadas
entre as doces ovelhas ao ladrido
de la perra Maira farejando
dissílabos trissílabos tetrassílabos
e chego ao pentassílabo per talos
a brisa violeteira violava
os irados cabelos dessa Moira
e ela ao vento favônio
— Musae, favete —
lavava o favo das pupilas de mel:
mas quem se esqueceria de teus olhos
Isabela Isavela
quem desse verde navegado pelas
borboletas em cio?
Pela perra Maira
a língua varada pela lança
por Maira e Moira
por Erígena e Erifânia e as Eumênídas
Pelas Fúrias Eríneas pela Musa pelas léguas
vou lendo o chão.
vadam ad portas inferi
in dimidio dierum midnight
she knocked at the door in Chelsea à porta
do coração — nos assombrados olhos
tacebit pupfila in oculo meo
e bato à porta do inferno e bato
ad portam paradisi
e aos surdos anjos e aos demônios surdos
emudece no olho a pupila — a minha —
e de olho a olho
sidera
considera:
considerei os astros, Musa,
Musa, Palatini referamus Apollinis aedem:
ali sob o reinado de Hilarius Bogbinder
entre os lençóis de linho e os limões verdes
floresciam as sardas ao redor de teus seios
tua beleza ferruginosa suplicava
os ruivos travesseiros:
chegava Jéssica lavada pelos sumos da lua
chegava por Santa Clara
Ariston
in dimidio dierum meorum:
pois me refiro a Jéssica ao buscar Afrodite
per talos
me Veneram quaerente:
e era uma vez a Infanta do crepúsculo
seus cabelos pesavam nove libras de ouro — e era uma vez
o céu de Coritiba e o vestido escocês
e era sempre Isabella
e o vento vindo de novembro pelo Paraná
me Venerem quaerente
pois quérulo me vou pelas veredas
buscando Vênus:
e onde tornozelos
— ancas
onde ancas
— tua cintura fina
onde tua cintura
— a dança
onde a dança
— Afrodite
e por ali
rastro de Apolo
poetae Venerem quaerenti — Apolo
no inventado rosto
inventa o coração
Chegávamos de junho e julho e agosto
vínhamos às vezes do mar da aurora e às vezes
cavalgávamos serras de saudades — outras
partíamos da noite enluarada
e os tropeiros na estrada tiravam o chapéu
na saudação ao poeta:
palmilhado o silêncio
no rumo da palavra
e onde sua sílaba
por alí Apolo
ludum ludendum ludens
e quando a madrugada explica a rosa
se explica o coração na pálpebra explicada:
mas ai de ti, Louis,
Louis Alphonse Donatien
na boca encarcerada morde
o cerrado botão da rosa muda — e queima
nos olhos moribundos queima a antífona
do próprio requiem —
mas Apolo
desabrocha à lira
a louvação da flor:
a corola celebra teus cabelos
a virilha celebra nome e nume
e este é o ludus do amor
a delta digo ao teu ouvido D e fundo
o alfabeto
em Lambda Delta Beta Kappa:
e assim te chama a língua sábia
o lábio o seio o umbigo a orquídea
a curva pígia
— por isso
uma noite me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos dividiram entre si o pênis ceifado
e à negra relva o milagre de teu sopro
o ergueu de novo
e cem vezes mil vezes me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos comiam as rodelas decepadas
mas és mágica e cem vezes
mil vezes
traziam das entranhas e entre antúrios
em seu pendão de cana florescia de novo
a cabeça do príncipe perene
no júbilo do orvalho entre os antúrios
E muita noite
quebrada a flauta
não cessava a melodia — tenho lábios
viciosos de música e de sopro
entre os dedos
teu corpo no ar
e de horizonte a horizonte
modulada canção se desferia
da fonte do desejo — pois ali
nessa clave de lua era soprada a rosa:
E sopro a flauta a rosa súplice
e a canção te compõe e decompõe
de seio a seio
Tanjo a ovelha da letra ovelha à ovelha
toureio o touro da palavra
picador banderilheiro
no trapézio dos chifres perde o solo a sílaba
do coração — e os olhos
guardam gota a gota
a espada matadora
pois tourovelha toureirotouro
arrebanha rebanho vivo
rebanho à morte —
e um dia
há de restar de mim o pranto de Erifânia.
Erifânia!. Erifânia!
Pois busco ovelha por ovelha
e touro a touro enfrento
y me aúlla la perra
Maira la perra
um morto um vivo um touro —
e salto
picador de ditongos e tritongos
sou o amante das Fúrias Eríneas
Eumênidas
Eumênidas
pica —
dor
me castraram de novo
e me busco no ventre das Eríneas
e encontro ao ladrido da perra
Erígona
e Erifânia —
— Erifânia
canta a dor adorada — picador do touro
pica as fúrias amadas
entre as doces ovelhas ao ladrido
de la perra Maira farejando
dissílabos trissílabos tetrassílabos
e chego ao pentassílabo per talos
a brisa violeteira violava
os irados cabelos dessa Moira
e ela ao vento favônio
— Musae, favete —
lavava o favo das pupilas de mel:
mas quem se esqueceria de teus olhos
Isabela Isavela
quem desse verde navegado pelas
borboletas em cio?
Pela perra Maira
a língua varada pela lança
por Maira e Moira
por Erígena e Erifânia e as Eumênídas
Pelas Fúrias Eríneas pela Musa pelas léguas
vou lendo o chão.
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Fernando Pessoa
SUSPIRO DO MUNDO: Tremo de medo:
Tremo de medo:
Eis o segredo aberto.
Além de ti
Nada há, decerto
Nem pode haver:
Além de ti
Que não tens essência
Nem tens existência
E te chamas só SER.
Oh
Nada pode haver!
Eis o segredo aberto.
Além de ti
Nada há, decerto
Nem pode haver:
Além de ti
Que não tens essência
Nem tens existência
E te chamas só SER.
Oh
Nada pode haver!
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