Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Paulo Gomide

- À poesia é o teu vôo
Repletando a tua alma de alegrias,
Maravilhamentos e espantos.
Atrás de ti caminha um anjo
— “Todo anjo é terrível!” —
E este te vai guiando para Deus
Pelo caminho mais difícil.
1 266
Antonio Porcchia

Antonio Porcchia

Prelúdio

Que nos assusta tanto do silêncio?
Por que chamar em nosso auxílio o ruído?
(Sons harmoniosos, rudes ou violentos,
porém ruídos ao fim. Ao fim sons).

Tememos do silêncio a eloqüência?
Encontraremos ao fim nós mesmos,
responder a pergunta que a ciência
não pode responder em seu silêncio?

Quem sou, por que estou neste mundo,
qual é a razão de minha existência?
Vale o chorar silencioso, vale o rir alegre?
Valem, enfim, a luta e a violência?

Deixemos que o silêncio nos inunde
para que Deus responda no silêncio,
no vértice mesmo em si fundem
o empenho divino e nosso empenho.

Assim conhecerá a alma sua resposta
e a dirá a mente, sem palavras,
celebrando do culto a grande festa
que com a chave do silêncio se abra.

748
César Vallejo

César Vallejo

O pão nosso

Bebe-se o café da manhã...úmida terra
de cemitério cheira a sangue amado.
Cidade de inverno...A mordaz cruzada
de uma carreta que arrastar parece
uma emoção de jejum encadeada!

Quisera-se bater em todas as portas,
e perguntar por não sei quem, e logo
ver aos pobres, e, chorando quietos
dar pedacinhos de pão fresco a todos.
E saquear aos ricos seus vinhedos
com as duas mãos santas
que a um golpe de luz
voaram desencravadas da Cruz!

Pestana matinal, não vos levanteis!
O pão nosso de cada dia dá-nos,
Senhor...!

Todos os meus ossos são alheios
eu talvez os roubei!
Eu vim a dar-me o que acaso esteve
destinado para outro;
e penso que, se não houvesse nascido,
outro pobre tomasse este café!
Eu sou um mau ladrão...Aonde irei!

E nesta hora fria, em que a terra
transcende ao pó humano e é tão triste,
quisesse eu bater em todas as portas,
e suplicar a não sei quem, perdão,
e fazer-lhe pedacinhos de pão fresco
aqui, no forno de meu coração...!

1 378
Felipe Vianna

Felipe Vianna

DEUS

Deus a pedra criou.
Para cortá-la,
A chuva e o vento
Formou.

24/10/2000

815
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SONG OF THE LEPER

He was a nauseous leper
Who in the ruins was;
There ever and anon
The hollow wind did pass,
And wild and feeble and yellow all
        Was the grass.

And the leper sang this song:

«The leper is excluded from his race,
        The leper is driven out,
        The leper is thrust out
        From hall and street and way;
        He must not show his face
        Where human beings may.
        For him there are whips and stones;
        He cannot even stay
        Where mongrels fight for bones
        And are allowed to play.

«No beast as the poor leper is
Worms and snakes have greater bliss.
        But the leper is accurst
        And he knows that well accurst
Is he because a nauseous leper,
Of evil things the worst.

«The toad, the newt, the viper
        Are tolerate and borne,
        But the vile and nauseous leper
        Makes vomit in deep scorn;
        Repugnance is for him
        Inevitably born

«Sometimes he hears the laughter
Of human feast to come,
And music followed, after
By sounds of peace and of home.
        Upon the wind they stray,
        The wind bears them away,
And the nauseous leper, he remains,
        Through night, through day,
Alone with his sores, with his pains.

And bands of strollers pass,
Taking the road afar,
For in the ruins they know well
The leper's sores there are.
And if perchance they see
The leper from their way,
He sees their finger point
And he knows that they say:

«He is the nauseous leper
Who in the ruins doth sit;
He is viler than the plague,
More loathsome far than it;
If near to him we dared do come
Upon him we would spit.»

«Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being's ban,
Whose torture's chain unearned
No pity comes to rive.

«A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred's bliss.
        But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
        Of all things the most curst.
1 594
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SONG OF DIRT

Come, let us speak of dirt!
        God's curse is on our head.
Let our lips irreverence blurt!
We are sufferers all; let us, instead
Of prayer, offer God the sacrifice
Of our minds that he curst with crime and vice,
Of our frames that diseases make dread!

        Let us offer the tyrant of all,
To hang in the hall of his palace of pain,
                A funeral pall,
And a bride's white dress with a stain,
And a widow's weeds, and the crumpled sheets
                From the bed of the wife.
Let them be symbols of human strife!
Give we God the dirt of the streets
Of our spirit, made mud with our tears,
The dust of our joys, the mire of our fears,
                And the rot of our life!
1 440
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Morte de Pã

Quando aquele que o beijo infiel traíra no Horto,
Desfaleceu na cruz, das montanhas ao mar
Gemeu, com grande pranto e feio soluçar,
Uma voz que dizia: — "O Grande Pã é morto!...

"Aquele deleitoso, almo viver absorto
"No amor da natureza augusta e familiar,
"O ledo rito antigo, outrem veio mudar
"Em doutrina de amargo e rudo desconforto.

"Faunos, morrei! Morrei, Dríades e Napéias!
"Oréades gentis que a flauta do Egipã
"Congraçava na relva em rondas e coréias,

"Morrei! Apague o vento os tenuíssimos laivos
"Dos ágeis pés sutis... Bosques, desencantai-vos...
"Fontes do ermo, chorai que é morto o grande Pã!...
970
Felipe Vianna

Felipe Vianna

SÉCULO XXI, O SÉCULO AS BOA ESPERANÇA

Ainda que não havemos vista
Sabemos que lá está
Pois as gaivotas nos guiam
E,
Da terra firme não vão arredar.

Nas tormentas deste século,
Terra firme o século XXI será.
E quando este nos for dado,
Em festejos, um champanhe derramar-se-á.

As luzes que esta terra levará ao céu
Em fogos de artifícios,
Pólvora bem gasta será.
Pois,
São as Índias que Deus nos passa.

O sal das lágrimas
Que salgou o mar,
Não mais salgará.

E que o bom Deus
Proteja nossos passos
E proveja-nos de água fresca,
Comida e terrenos fartos.

21/12/2000

706
Felipe Vianna

Felipe Vianna

MAR

Mar, ó mar.
És mais que a terra
És mais que o ar,
És mar.

És tudo da vida,
Da vida já ida
Que não volta mais.

Ó mar!

Pudera dera
Um mar de esfera,
Uma esfera,
Amar!

Ame o mar.
Pois quem o ama,
A deus também, é amar.

Ó Mar!

26/01/01

866
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

(após as canções da tarde)

Com o súbito frio do crepúsculo
Entra em minh'alma um frio mais subtil
Corporeamente entra o mistério em mim
E eu comungo a presença ausente sua.
Sua presença (...) se volve eucaristia
De sombra. Sua carne e o seu sangue
De universo e além me tornam seu.

Terras, céus
A irrealidade do mundo
A realidade de Deus,
Tudo sorvo em meu mistério
Tudo é irreal ante mim,
Ó infinitos!
Transcendo o que não tem fim.
1 334
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Toante

...wie ein stilles Nachtgebet.
Lenau

Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
Molha-as. Assim eu as quero levar à boca,
Em espírito de humildade, como um cálice
De penitência em que a minh'alma se faz boa...
Foi assim que Teresa de Jesus amou...
Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
O espasmo é como um êxtase religioso...
E o teu amor tem o sabor das tuas lágrimas...
1 355
Felipe Vianna

Felipe Vianna

VIDA E DEUS


A melhor maneira de ver a vida é
Fechar os olhos.
A melhor maneira de ver Deus é
Fazendo algo.

24/10/2000

586
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Ruído longínquo e próximo não sei porquê

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não ha luar sobre as indecisões...

Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.

Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.

Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...

Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
(Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...
1 059
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Alumbramento

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vio mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...

Eu via estrela do pastor...
Via licorne alvinitente!...
Vi... vio rastro do Senhor...

E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...

Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

— Eu vi-a nua... toda nua!

Clavadel, 1913
2 281
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Se eu tirar com urna pancada

Se eu tirar com urna pancada
O bolo barato da boca da criança pobre
Onde encontrarei justiça no mundo,
Onde me esconderei dos olhos do Vulto
Invisível que espreita pelas estrelas
Quando o coração vê pelos olhos o mistério olhar o universo?
Minha emoção concreta, ó brinquedo de crianças,
Ó pequenas alegrias legítimas da gente obscura,
Ó pobre riqueza exígua dos que não são ninguém...

Os móveis comprados com tanto sacrifício,
As toalhas remendadas com tanto cuidado,
As pequenas coisas de casa tão ajustadas e postas no lugar
E a roda de um dos mil carros do rei vencedor
Parte tudo, e todos perderam tudo.

Que imperador tem o direito
De partir a boneca à filha do operário?
Que César com suas legiões tem justiça
Para partir a máquina de costura da velha
Se eu for pela rua
E arrancar a fita suja na mão da garota
E a fizer chorar, onde encontrar qualquer Cristo?
1 283
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Soneca E a Paz do Sossego

se você é um homem, Los Angeles é onde você deixa de sê-lo e
luta; ou se você é uma mulher, e tem pernas o bastante e também
o resto, você as veleja até uma encosta de morro para
quando os cabelos ficarem grisalhos você se esconder em Beverly Hills
numa mansão em que ninguém poderá ver como você decaiu.
então nos mudamos para cá – e com o que deparamos
senão um maníaco religioso no muquifo ao lado que
bebe vinho barato e tem visões e liga seu rádio
o mais alto possível, meu deus!
já conheço agora todos os hinos!
já sei o quanto pequei e percebo que haverei de morrer
e que tenho de estar preparado...
mas antes eu bem podia tirar um cochilo
apenas uma soneca e a paz do silêncio.
abro a janela e lá está ele
no gramado
dançando um hino
um cântico
um seja lá o que for.
ele usa uma bermuda vermelha
ele é bem bronzeado e está bêbado de vinho
mas seus movimentos são duros e canhestros –
ele é muito gordo
um homem-noz, deformado e disforme aos
55.
e ele balança seus braços ao sol e os pássaros revoam
assustados
e então ele faz um giro em direção à porta de casa.
mas a vista da rua aqui é boa –
há japoneses e velhas senhoras e jovens garotas e
pedintes.
temos grandes palmeiras
cheias de pássaros
e o estacionamento não é dos piores...
mas nosso maníaco religioso não trabalha
ele é esperto demais para trabalhar
então nós dois ficamos por aqui de bobeira
escutamos rádio
bebemos
e eu me pergunto qual de nós chegará primeiro ao inferno –
ele com sua bíblia ou eu com os Programas do Jóquei
mas se eu tiver de ouvi-lo lá em baixo eu sei que terei de contar
com alguma ajuda, e que a próxima dança será minha.
agora mesmo queria ter algo para vender para poder me esconder num
lugar
com muros de quatro metros
com fossos
e potentes cadeiras elétricas.
mas isso parece estar a longos dias e longas noites,
como sempre.
por ora só posso desejar no mínimo o enfraquecimento da
válvula do rádio,
e no máximo sua morte,
pela qual ambos rezamos e
já fizemos nossas disposições.
1 046
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Oração a Nossa Senhora da Boa Morte

Fiz tantos versos a Teresinha...
Versos tão tristes, nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
Era tão pouco! Não era glória...
Nem era amores... Nem foi dinheiro...
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!

Para outras santas voltei os olhos.
Porém as santas são impassíveis
Como as mulheres que me enganaram.
Desenganei-me das outras santas
(Pedi a muitas, rezei a tantas)
Até que um dia me apresentaram
A Santa Rita dos Impossíveis.

Fui despachado de mãos vazias!
Dei volta ao mundo, tentei a sorte.
Nem alegrias mais peço agora,
Que eu sei o avesso das alegrias.
Tudo que viesse, viria tarde!
O que na vida procurei sempre,
— Meus impossíveis de Santa Rita —
Dar-me-eis um dia, não é verdade?
Nossa Senhora da Boa Morte!

1931
902
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Boca de Forno

Cara de cobra,
Cobra!
Olhos de louco
Louca!

Testa insensata
Nariz Capeto
Cós do Capeta
Donzela rouca
Porta-estandarte
Jóia boneca
De maracatu!
Pelo teu retrato
Pela tua cinta
Pela tua carta
Ah tôtô meu santo
Eh Abaluaêé
Iansã boneca
De maracatu!

No fundo do mar
Há tanto tesouro!
No fundo do céu
Há tanto suspiro!
No meu coração
Tanto desespero!

Ah tôtô meu pai
Quero me rasgar
Quero me perder!

Cara de cobra.
Cobra!
Olhos de louco,
Louca!
Cussaruim boneca
De maracatu!
1 359
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Cosmogonia

Nem treva nem caos. A treva
Requer olhos que vêem, como o som.
E o silêncio requer o ouvido,
O espelho, a forma que o povoa.
Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer
Uma divindade que premedita
O silêncio anterior à primeira
Noite do tempo, que será infinita.
O grande rio de Heráclito o Escuro
Seu irrevogável curso não há empreendido,
Que do passado flui para o futuro,
Que do esquecimento flui para o esquecimento.
Algo que já padece. Algo que implora.
Depois a história universal. Agora.

2 296
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,

Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.

Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.

Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!
Vi que (...)
1 330
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Canção de Maria

Que é de ti, melancolia?...
Onde estais, cuidados meus?...
Sabei que a minha alegria
É toda vinda de Deus...

Deitei-me triste e sombria,
E amanheci como estou...
Tão contente! Todavia
Minha vida não mudou.
Acaso enquanto dormia
Esquecida de meus ais,

Um sonho bom me envolvia?
Se foi, não me lembro mais...
Mas se foi sonho, devia
Ser bom demais para mim...
Senão, não me sentiria
Tão maravilhada assim.

Ó minha linda alegria,
Trégua dos cuidados meus,
Por que não vens todo dia,
Se és toda vinda de Deus?

Clavadel, 1913
1 369
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

O Suplício

A febre se parece com Deus
A loucura: a última oração.
Longo tempo bebi em um estranho cálice
cheio de álcool e fezes
vi na maré da taça os peixes
atrozmente pálidos do sonho.
E ao erguer o brinde, disse
à Deus, ofereço este suplício
esta hóstia nascida do sangue
que de todos os olhos mana
como ordenando-me a beber, ordenando-me a morrer
para que ao fim seja ninguém
seja igual a Deus.
:
EL SUPLICIO
La fiebre se parece a Dios
La locura: la última oración.
Largo tiempo he bebido de un extraño cáliz
hecho de alcohol y heces
y vi en la marea de la copa los peces
atrozmente blancos del sueño.
Y al levantar la copa, digo
a Dios, te ofrezco este suplicio
y esta hostia nacida de la sangre
que de todos ojos mana
como ordenándome beber, como ordenándome morir
para que cuando al fin sea nadie
sea igual a Dios.
788
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Já estão em mim exaustas,

Já estão em mim exaustas,
Deixando-me transido de horror,
Todas as formas de pensar (...)
O enigma do universo. Já cheguei
A conceber como requinte extremo
Da exausta inteligência que esse Deus,
Que ensinam as igrejas com aqueles
Seus atributos       [...]
        [...]        — existir realmente
Realmente existir e que houvesse
Mas fosse sonho, e não sonho nosso...
Sim cheguei a aceitar como verdade
O que nos dão por ela, e a admitir
Uma realidade não real
Mas sim sonhada como esse Deus cristão.
Mas isto, cuja ideia formidável
Cheia de horríveis possibilidades
Negra e profunda me  (...)
A mente, abandonei, não sem tremer,
No caos do meu ser, onde jazem
Juntamente com ela espectros negros
De soluções passageiras, apavoradoras,
Momentâneas, momentâneos
Sistemas horrorosos, pavorosos,
Repletos de infinito. Formidáveis
Não só por isto mas também por serem
Falhados pensamentos e sistemas
Que por falharem só mais negro fazem
O poder horroroso que os transcende
A todos, infinitamente a todos.
Oh horror! Oh mistério! Oh existência!
Para que lado não me virarei
Onde abrirei os olhos — olhos d'alma —
Que o mistério não me atormente, e eu
Não avance tremendo para ele?
E... Para que falar? O que dizer?
Tudo é horror e o horror é tudo!
879
Leopoldo María Panero

Leopoldo María Panero

Ora et labora, I

Senhor, longo tempo levo teus restos no pescoço
e ainda
minha boca solitária, me ajoelho ante as tardes
e orando evaporo,
como habitasse as cinzas.
É
como se não existisse, como se a oração
pedira aos deuses a esmola do meu nome
pela tarde inteira.
Nunca soube o que era o céu:
talvez a tarde, talvez
amar mais que tudo
minha mãe, as cinzas.
Oh, contemple!
Afaste teu olhar de mim, fiz um voto
torne secreta minha morte.
:
ORA ET LABORA, I
Señor, largo tiempo llevo tus restos en el cuello
y aún
mi boca sola, y me arrodillo ante las tardes
y en el rezo me evaporo,
como si fuera mi casa la ceniza.
Es
como si no existo, como si el rezo
pidiera a los dioses la limosna de mi nombre
ante la tarde entera.
Nunca supe lo que el cielo era:
quizá la tarde, tal vez
amar más que ninguno
a mi madre, la ceniza.
! Oh, espía!
De mí aparta tu ojo, hice un voto
haz secreta mi muerte.
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