Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Edmir Domingues
Louvado a Manuel Bandeira
À sua maneira.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo também a Manuel,
bandeira do nosso povo.
- Bandeira, Drummond já disse,
e eu digo agora, de novo.
Louvo o beco, louvo a estrela
da manhã, que ainda arde,
louvo a cinza, o carnaval,
o belo, a libertinagem,
e louvo a estrela da tarde.
Louvo o sapo cururu
que lá, no perau profundo,
derrota o sapo-tanoeiro
que mata as artes do mundo.
Louvo esses sinos que batem
bem-bem-bem e bão-bão-bão,
mas que batem de alegria
no ensejo do aniversário
do Poeta, nosso Irmão.
Louvo o busto de Bandeira
(no Recife não há, não)
que em Pasárgada se encontra
- lá tem civilização -
juro pelo mais sagrado
da Semana da Paixão,
juro que vi com meus olhos,
bem pertinho do meu busto,
quando um dia visitei
o Rei da terra em questão.
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo o poeta querido,
e louvo a vida que foi
(que graças a Deus que foi)
pois podia não ter sido.
abril, 19-1966.
677
Edmir Domingues
Galope das bruxas
Na noite mais negra do mês de novembro,
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
650
Edmir Domingues
Louvado a Tarcísio
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo Tarcísio, e a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Tarcísio, pastor de livros,
que os apascenta no amor.
Que o Livro, todos o sabem,
guarda os risos do Prazer,
guarda os suspiros da Dor.
O livro é carta de rumos,
rosa dos ventos, o mapa
de acertos e desaprumos,
dos roteiros misteriosos
dos ontens, dos amanhãs.
Das rotas das caravelas,
das órbitas parabólicas
de prateadas astronaves,
dos bergantins naufragados,
dos galeões com seus tesouros,
todos fortuna do mar,
dos olhos dos batiscafos
nas profundezas do abismo.
O livro é um mundo guardado
na menor das dimensões,
ora em verdade e crueza
ora em sonhos e ilusões,
o livro é um mundo de coisas
difíceis de descrever,
quem tiver curiosidade
compareça à Livro Sete
para ouvir, sentir e ver.
Outros mundos, muitos mundos,
todos o Livro contém,
Livro, resumo da Vida,
com todo o Mal, todo o Bem,
que guarda em si todo o Tudo,
que guarda em si todo o Sem.
Tarcísio, Pastor de Livros,
merece o nosso louvor.
Por isso louvo Tarcísio
e a luz do espírito louvo,
como também louvo a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
o Espírito Santo louvo,
louvo Tarcísio, e a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Tarcísio, pastor de livros,
que os apascenta no amor.
Que o Livro, todos o sabem,
guarda os risos do Prazer,
guarda os suspiros da Dor.
O livro é carta de rumos,
rosa dos ventos, o mapa
de acertos e desaprumos,
dos roteiros misteriosos
dos ontens, dos amanhãs.
Das rotas das caravelas,
das órbitas parabólicas
de prateadas astronaves,
dos bergantins naufragados,
dos galeões com seus tesouros,
todos fortuna do mar,
dos olhos dos batiscafos
nas profundezas do abismo.
O livro é um mundo guardado
na menor das dimensões,
ora em verdade e crueza
ora em sonhos e ilusões,
o livro é um mundo de coisas
difíceis de descrever,
quem tiver curiosidade
compareça à Livro Sete
para ouvir, sentir e ver.
Outros mundos, muitos mundos,
todos o Livro contém,
Livro, resumo da Vida,
com todo o Mal, todo o Bem,
que guarda em si todo o Tudo,
que guarda em si todo o Sem.
Tarcísio, Pastor de Livros,
merece o nosso louvor.
Por isso louvo Tarcísio
e a luz do espírito louvo,
como também louvo a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
591
Carlos Drummond de Andrade
Aos Santos de Junho
Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?
O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.
Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.
Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?
Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.
Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.
E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?
Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.
E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)
Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira
que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.
Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.
E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.
Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.
E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.
Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.
No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.
Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?
O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.
Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.
Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?
Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.
Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.
E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?
Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.
E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)
Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira
que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.
Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.
E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.
Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.
E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.
Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.
No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.
Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 025
Edmir Domingues
Soneto a Jacó
Sete anos de pastor Jacó servia
Raquel, e não seu pai, como se conta,
mas um dia, no fim, lhe desaponta
a evidência do amor, porque de Lia.
Outros sete anos serve, e não tem conta
a conta que ele conta, cada dia,
porque, se era Raquel que pretendia,
não reclama Jacó, do tempo, a monta.
Não diz, no entanto, a história sem sabença,
quanto lhe deu Raquel de indiferença,
que o fez renunciar a todo o encanto.
Que amor é negação do entendimento
pois se nutre de fome, tanto quanto
se nutre de presença e de alimento.
Raquel, e não seu pai, como se conta,
mas um dia, no fim, lhe desaponta
a evidência do amor, porque de Lia.
Outros sete anos serve, e não tem conta
a conta que ele conta, cada dia,
porque, se era Raquel que pretendia,
não reclama Jacó, do tempo, a monta.
Não diz, no entanto, a história sem sabença,
quanto lhe deu Raquel de indiferença,
que o fez renunciar a todo o encanto.
Que amor é negação do entendimento
pois se nutre de fome, tanto quanto
se nutre de presença e de alimento.
962
Carlos Drummond de Andrade
Conversa Informal Com o Menino
Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.
Como posso, pergunto, o ano
inteiro, viver sem Cristo
(por sinal,
na santa paz do gusano)
e agora embalar-te: isto
é Natal?
Os outros fazem? Paciência,
todos precisam de vale…
Afinal,
em sua reta inocência,
diz-me o burro que me cale,
natural.
E o boi me segreda: Acaso
careço de alexandrino
ou jornal
para celebrar o caso
humano quanto divino,
hein, jogral?
Perdoa, Infante, a vaidade,
a fraqueza, o mau costume
tão geral:
fazer da Natividade
um pretexto, não um lume
celestial.
Por isso andou bem o velho
do Cosme Velho, indagando,
marginal,
no seu soneto-cimélio,
o que mudou, como, quando,
no Natal.
Mudei, piorei? Reconheço
que não penetro o mistério
sem igual.
Não sei, Natal, o teu preço,
e te contemplo, cimério,
a-pascal.
Vou de novo para a escola,
vou, pequenino, anular-me,
grão de sal
que se adoça ao som da viola,
a ver se desperto um carme
bem natal.
Não será canto rimado,
verso concretista, branco
ou labial;
antes mudo, leve, agrado
de vento em flor no barranco,
diagonal.
Não venho à tua lapinha
pedir lua, amor ou prenda
material.
Nem trago qualquer coisinha
de ouro subtraído à renda
nacional.
Nossa conversa, Menino,
será toda silenciosa,
informal.
Não se toca no destino
e em duros trechos de prosa
lacrimal.
Não vou queixar-me da vida
ou falar (mal) do governo
brasilial.
Nem cicatrizar ferida
resultante do meu ser-no-
-mundo atual.
Deixa-me estar longamente
junto ao berço, num enleio
colegial.
(Àquele que é menos crente,
um anjo leva a passeio:
é Natal.)
Prosterno-me, e teu sorriso
sugere, menino astuto
e cordial:
careço de ter mais siso
e vislumbrar o Absoluto
neste umbral.
Sim, pouco enxergo. Releva
ao que lhe falta a poesia,
e por al.
Gravura em branco, na treva:
a treva se aclara em dia
de Natal.
23/12/1956
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.
Como posso, pergunto, o ano
inteiro, viver sem Cristo
(por sinal,
na santa paz do gusano)
e agora embalar-te: isto
é Natal?
Os outros fazem? Paciência,
todos precisam de vale…
Afinal,
em sua reta inocência,
diz-me o burro que me cale,
natural.
E o boi me segreda: Acaso
careço de alexandrino
ou jornal
para celebrar o caso
humano quanto divino,
hein, jogral?
Perdoa, Infante, a vaidade,
a fraqueza, o mau costume
tão geral:
fazer da Natividade
um pretexto, não um lume
celestial.
Por isso andou bem o velho
do Cosme Velho, indagando,
marginal,
no seu soneto-cimélio,
o que mudou, como, quando,
no Natal.
Mudei, piorei? Reconheço
que não penetro o mistério
sem igual.
Não sei, Natal, o teu preço,
e te contemplo, cimério,
a-pascal.
Vou de novo para a escola,
vou, pequenino, anular-me,
grão de sal
que se adoça ao som da viola,
a ver se desperto um carme
bem natal.
Não será canto rimado,
verso concretista, branco
ou labial;
antes mudo, leve, agrado
de vento em flor no barranco,
diagonal.
Não venho à tua lapinha
pedir lua, amor ou prenda
material.
Nem trago qualquer coisinha
de ouro subtraído à renda
nacional.
Nossa conversa, Menino,
será toda silenciosa,
informal.
Não se toca no destino
e em duros trechos de prosa
lacrimal.
Não vou queixar-me da vida
ou falar (mal) do governo
brasilial.
Nem cicatrizar ferida
resultante do meu ser-no-
-mundo atual.
Deixa-me estar longamente
junto ao berço, num enleio
colegial.
(Àquele que é menos crente,
um anjo leva a passeio:
é Natal.)
Prosterno-me, e teu sorriso
sugere, menino astuto
e cordial:
careço de ter mais siso
e vislumbrar o Absoluto
neste umbral.
Sim, pouco enxergo. Releva
ao que lhe falta a poesia,
e por al.
Gravura em branco, na treva:
a treva se aclara em dia
de Natal.
23/12/1956
1 303
Edmir Domingues
Coroa dos sete pecados ou virtudes capitais
I - ORGULHO
Desse prazer que é apenas natureza
pode advir o orgulho da conquista.
Se orgulho é impulsão, essa imprevista
força que leva à frente. Que se preza
de ser o que constrói, deixada a reza
de lado, que apesar de ser benquista
por uns, é para outros a imprevista
petição recebida com frieza.
Quase sempre constrói um vago orgulho
que vem do fundo da alma, num marulho
de mar cansado, esfeito em verdes ondas.
Nascido, muita vez, de uma ansiedade,
(o novelo de antigas anacondas)
o orgulho de ser bom já é bondade.
II- INVEJA
O orgulho de ser bom já é bondade
que muita vez atrai despeito e inveja.
Mas inveja é virtude e há quem veja
que é impulso normal da humanidade.
Também constrói a inveja, desagrade
aos que só vêem pecado, os de alma aneja
que não possuam senso que preveja
que pode vir de ignota enfermidade.
Mas inveja até pode ser proveito
aquele a quem acaso endereçada
que sentiu que seu passo foi perfeito,
que a inveja que causou não foi nociva.
O invejoso invejou mas não foi nada.
Só é pecado a inveja corrosiva.
III - IRA
Só é pecado a inveja corrosiwa
que esta provoca a ira e o desconforto,
faz naufragar o barco já no porto,
faz nascer a vontade negativa.
No dia a dia deste mundo torto
onde vale talvez a tentativa
mais do que o resultado da saliva
das pregações, nos montes ou no horto,
não vale ver na ira o absoluto
mal, inda mesmo quando fere e assusta
no afã diário, o ritmo dissoluto.
Não é bom que esqueçamos a baraça
de Quem se viu tomado de ira justa
quando expulsou os vendilhões da Praça.
IV- PREGUIÇA
Quando expulsou os vendilhões da Praça
do Templo, Ele calmou-se, descansando,
pois fizera correr o triste bando
e a sua cupidez, sua desgraça.
Descansou, sem preguiça, se a arruaça
acabara, e era a paz. Novo comando
imperava. Mas se sentisse um brando
enfaro de preguiça, essa mordaça
interior, não seria nada estranho.
O “doce não fazer"pode ser justo
“ócio com dignidade”, justo ganho,
depois de afã contínuo, grande luta
em que se quis vencer a todo o custo,
preguiça na vitória após disputa.
V - AVAREZA
Preguiça na vitória após disputa
não é então pecado mas virtude.
A prodigalidade nunca ilude,
essa que é tão ruim quanto a cicuta.
Poupar é sempre bom, uma atitude
que o profeta do templo e o da gruta,
o primeiro aconselha, em resoluta
lição, e o outro exerce em mansuetude.
Quem trabalha, e o seu ganho muito custa
sabe emprestar valor a quanto ganha,
e o medo de perdê-lo sempre o assusta.
Se ao avaro uma perda mortifica
e ao pródigo o espalhar é sempre sanha,
o guardar ou gastar não significa.
VI - GULA
O guardar ou gastar não significa
nem a vida gulosa é condenada
sem um motivo forte. A terra arada
dá presentes ao homem, que o enrica.
As primícias da terra (a Terra amada,
um presente do Céu, que mortifica
o frugal que depende da botica
para ter a saúde desejada),
não podem ser pecado. O vinho doce
que nos desperta a fome dos sentidos
que o Criador nos deu, como se fosse
o seu sinal de amor à sua igreja
que ensina os apetites permitidos.
Amar não é luxúria, assim se veja.
VII - LUXÚRIA
Amar não é luxúria, assim se veja,
na grande intensidade que lhe marca
em toda a vida, até que venha a Barca
de Caronte, e nos leve, benfazeja.
Amar com força viva, na peleja
do edredom, do lençol que o duplo abarca,
é seguir todo o ensino do Nomarca
que mandou construir a sua igreja
e fazê-la crescer, multiplicá-la
a base de atrações e convivências
que podem ser um luxo, com certeza.
(Que não são acidentes mas essências
do natural preparo na ante-sala
desse prazer que é apenas natureza.
Desse prazer que é apenas natureza
pode advir o orgulho da conquista.
Se orgulho é impulsão, essa imprevista
força que leva à frente. Que se preza
de ser o que constrói, deixada a reza
de lado, que apesar de ser benquista
por uns, é para outros a imprevista
petição recebida com frieza.
Quase sempre constrói um vago orgulho
que vem do fundo da alma, num marulho
de mar cansado, esfeito em verdes ondas.
Nascido, muita vez, de uma ansiedade,
(o novelo de antigas anacondas)
o orgulho de ser bom já é bondade.
II- INVEJA
O orgulho de ser bom já é bondade
que muita vez atrai despeito e inveja.
Mas inveja é virtude e há quem veja
que é impulso normal da humanidade.
Também constrói a inveja, desagrade
aos que só vêem pecado, os de alma aneja
que não possuam senso que preveja
que pode vir de ignota enfermidade.
Mas inveja até pode ser proveito
aquele a quem acaso endereçada
que sentiu que seu passo foi perfeito,
que a inveja que causou não foi nociva.
O invejoso invejou mas não foi nada.
Só é pecado a inveja corrosiva.
III - IRA
Só é pecado a inveja corrosiwa
que esta provoca a ira e o desconforto,
faz naufragar o barco já no porto,
faz nascer a vontade negativa.
No dia a dia deste mundo torto
onde vale talvez a tentativa
mais do que o resultado da saliva
das pregações, nos montes ou no horto,
não vale ver na ira o absoluto
mal, inda mesmo quando fere e assusta
no afã diário, o ritmo dissoluto.
Não é bom que esqueçamos a baraça
de Quem se viu tomado de ira justa
quando expulsou os vendilhões da Praça.
IV- PREGUIÇA
Quando expulsou os vendilhões da Praça
do Templo, Ele calmou-se, descansando,
pois fizera correr o triste bando
e a sua cupidez, sua desgraça.
Descansou, sem preguiça, se a arruaça
acabara, e era a paz. Novo comando
imperava. Mas se sentisse um brando
enfaro de preguiça, essa mordaça
interior, não seria nada estranho.
O “doce não fazer"pode ser justo
“ócio com dignidade”, justo ganho,
depois de afã contínuo, grande luta
em que se quis vencer a todo o custo,
preguiça na vitória após disputa.
V - AVAREZA
Preguiça na vitória após disputa
não é então pecado mas virtude.
A prodigalidade nunca ilude,
essa que é tão ruim quanto a cicuta.
Poupar é sempre bom, uma atitude
que o profeta do templo e o da gruta,
o primeiro aconselha, em resoluta
lição, e o outro exerce em mansuetude.
Quem trabalha, e o seu ganho muito custa
sabe emprestar valor a quanto ganha,
e o medo de perdê-lo sempre o assusta.
Se ao avaro uma perda mortifica
e ao pródigo o espalhar é sempre sanha,
o guardar ou gastar não significa.
VI - GULA
O guardar ou gastar não significa
nem a vida gulosa é condenada
sem um motivo forte. A terra arada
dá presentes ao homem, que o enrica.
As primícias da terra (a Terra amada,
um presente do Céu, que mortifica
o frugal que depende da botica
para ter a saúde desejada),
não podem ser pecado. O vinho doce
que nos desperta a fome dos sentidos
que o Criador nos deu, como se fosse
o seu sinal de amor à sua igreja
que ensina os apetites permitidos.
Amar não é luxúria, assim se veja.
VII - LUXÚRIA
Amar não é luxúria, assim se veja,
na grande intensidade que lhe marca
em toda a vida, até que venha a Barca
de Caronte, e nos leve, benfazeja.
Amar com força viva, na peleja
do edredom, do lençol que o duplo abarca,
é seguir todo o ensino do Nomarca
que mandou construir a sua igreja
e fazê-la crescer, multiplicá-la
a base de atrações e convivências
que podem ser um luxo, com certeza.
(Que não são acidentes mas essências
do natural preparo na ante-sala
desse prazer que é apenas natureza.
643
Edmir Domingues
Ichitus
O peixe, o abismo, o mar das incertezas.
A forma hidrodinâmica desliza
nos limites do susto. À forma escura
nos países da sombra. À forma clara
nos domínios da luz. O mimetismo
é o seguro da vida.
Pensa o peixe
o conteúdo aético existente
na lei do mais dotado? A injusta regra -
seleção natural - esse o seu nome.
E o direito do fraco? Imune à culpa
de ser fraco, onde fica esse direito?
Desliza o peixe em mares de perigos
aproveitando o instante, até que chegue
o do monstro voraz que vive a espreita.
Noutro mar, outros seres também sabem
a incerteza da vida, a grande rede
das traições, e procuram pelo peixe
sinal do bom caminho, nas estradas.
Entanto seja o forte o irmão do fraco.
Posta de lado a crença no milagre
difícil de aceitar frente à razão,
sem conteúdo mágico, sem ritos,
mas tão só pela luz do Ensinamento:
Iesous CHristos, THeou, Uios, Soter.
A forma hidrodinâmica desliza
nos limites do susto. À forma escura
nos países da sombra. À forma clara
nos domínios da luz. O mimetismo
é o seguro da vida.
Pensa o peixe
o conteúdo aético existente
na lei do mais dotado? A injusta regra -
seleção natural - esse o seu nome.
E o direito do fraco? Imune à culpa
de ser fraco, onde fica esse direito?
Desliza o peixe em mares de perigos
aproveitando o instante, até que chegue
o do monstro voraz que vive a espreita.
Noutro mar, outros seres também sabem
a incerteza da vida, a grande rede
das traições, e procuram pelo peixe
sinal do bom caminho, nas estradas.
Entanto seja o forte o irmão do fraco.
Posta de lado a crença no milagre
difícil de aceitar frente à razão,
sem conteúdo mágico, sem ritos,
mas tão só pela luz do Ensinamento:
Iesous CHristos, THeou, Uios, Soter.
857
Charles Bukowski
Hoje Os Melros São Brutais
solitário como um velho e usado pomar
que se espalha por toda a Terra
para ser usado e rendido.
abatido como um ex-pugilista vendendo
na esquina o jornal do dia.
assolado por lágrimas como
uma corista envelhecida
cujo último cheque acaba de ser descontado.
um lencinho está à mão seu senhor sua
adoração.
os melros hoje são brutais
como
unhas encravadas
numa noite passada na
cadeia –
o vinho enche de vinho o lamento,
os melros voam por toda parte e
voam em círculos
dedilhando
melodias espanholas e castanholas.
e todo lugar é
nenhum lugar –
o sonho é tão ruim quanto
panquecas e pneus vazios:
por que a gente segue
com nossas mentes e
bolsos cheios de
pó
como um valentão recém-saído da
escola –
me diga
você,
você que foi um herói de alguma
revolução
você que ensina as crianças
você que bebe com toda calma
você que possui belas casas
e caminha pelos jardins
você que matou um homem e é dono de uma
bela mulher
me diga você
por que estou em chamas como lixo velho e
seco.
poderíamos certamente manter uma correspondência
muito interessante.
manteríamos o carteiro ocupado.
e as borboletas e as formigas e as pontes e os
cemitérios
e os construtores de foguetes e os cachorros e os mecânicos de garagem
seguiriam em frente por um
momento
até que ficássemos sem selos
e/ou
ideias.
não sinta vergonha de
nada; acho que Deus sabe o que faz
como
as trancas nas
portas.
que se espalha por toda a Terra
para ser usado e rendido.
abatido como um ex-pugilista vendendo
na esquina o jornal do dia.
assolado por lágrimas como
uma corista envelhecida
cujo último cheque acaba de ser descontado.
um lencinho está à mão seu senhor sua
adoração.
os melros hoje são brutais
como
unhas encravadas
numa noite passada na
cadeia –
o vinho enche de vinho o lamento,
os melros voam por toda parte e
voam em círculos
dedilhando
melodias espanholas e castanholas.
e todo lugar é
nenhum lugar –
o sonho é tão ruim quanto
panquecas e pneus vazios:
por que a gente segue
com nossas mentes e
bolsos cheios de
pó
como um valentão recém-saído da
escola –
me diga
você,
você que foi um herói de alguma
revolução
você que ensina as crianças
você que bebe com toda calma
você que possui belas casas
e caminha pelos jardins
você que matou um homem e é dono de uma
bela mulher
me diga você
por que estou em chamas como lixo velho e
seco.
poderíamos certamente manter uma correspondência
muito interessante.
manteríamos o carteiro ocupado.
e as borboletas e as formigas e as pontes e os
cemitérios
e os construtores de foguetes e os cachorros e os mecânicos de garagem
seguiriam em frente por um
momento
até que ficássemos sem selos
e/ou
ideias.
não sinta vergonha de
nada; acho que Deus sabe o que faz
como
as trancas nas
portas.
1 044
Fernando Pessoa
EPITAPHS
A.S. (Alex[ander] Search)
Here lies a poet who was mad and young
The two things may go together
As to the songs he sung
They were found in winter weather.
EPITAPHS FOR THE FUTURE
Monarchy
Here lies a part of hell that on earth was
(It took it long to pass,
Riddled by way of Justice
[…]
Here lies the other part.
Religion
Here lies the beautiful assassin cold
who smiled upon his victim and singing
Murdering sweet songs to his imagining
Till by his each a (...) he sells
It died because it was old.
Here lies a poet who was mad and young
The two things may go together
As to the songs he sung
They were found in winter weather.
EPITAPHS FOR THE FUTURE
Monarchy
Here lies a part of hell that on earth was
(It took it long to pass,
Riddled by way of Justice
[…]
Here lies the other part.
Religion
Here lies the beautiful assassin cold
who smiled upon his victim and singing
Murdering sweet songs to his imagining
Till by his each a (...) he sells
It died because it was old.
1 134
Fernando Pessoa
Monólogo nas Trevas
A qualquer modo todo escuridão
Eu sou supremo. Sou o Cristo negro.
O que não crê, nem ama — o que só sabe
O mistério tornado carne —.
Há um orgulho atro que me diz
Que sou Deus inconscienciando-se
Para humano; sou mais real que o mundo.
Por isso odeio-lhe a existência enorme,
O seu amontoar de coisas vistas.
Como um santo devoto
Odeio o mundo, porque o que eu sou
E que não sei sentir que sou, conhece-o
Por não real e não ali.
Por isso odeio-o —
Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira!
Eu sou supremo. Sou o Cristo negro.
O que não crê, nem ama — o que só sabe
O mistério tornado carne —.
Há um orgulho atro que me diz
Que sou Deus inconscienciando-se
Para humano; sou mais real que o mundo.
Por isso odeio-lhe a existência enorme,
O seu amontoar de coisas vistas.
Como um santo devoto
Odeio o mundo, porque o que eu sou
E que não sei sentir que sou, conhece-o
Por não real e não ali.
Por isso odeio-o —
Seja eu o destruidor! Seja eu Deus ira!
1 662
Mário-Henrique Leiria
Quando fez a primeira comunhão
Quando fez a primeira comunhão
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
450
Fernando Pessoa
O segredo da Busca é que não se acha.
O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses,
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e deuses vai a luz incerta
Da suprema verdade.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses,
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso, e sempre adiante
De [Deus] e deuses vai a luz incerta
Da suprema verdade.
1 456
Fernando Pessoa
ORIGEM METAFÍSICA DO PADRE MATTOS
(Intuicionado depois da leitura dum artigo de «A Palavra»)
O nome vão que há tempo nos intruja,
O sujo Deus da humanidade suja,
Esse hiperindivíduo ora estagnado
Para além do céu plácido e estrelado
Ora biblicamente doido e vário,
Fazendo tudo mal e ao contrário…
Pois bem, essa figura de destaque
Um dia (triste dia!) deu um traque.
… E o triste efeito dos divinos flatos
Caindo em terra onde mijavam gatos,
Brotou dali espontaneamente o padre Mattos.
O nome vão que há tempo nos intruja,
O sujo Deus da humanidade suja,
Esse hiperindivíduo ora estagnado
Para além do céu plácido e estrelado
Ora biblicamente doido e vário,
Fazendo tudo mal e ao contrário…
Pois bem, essa figura de destaque
Um dia (triste dia!) deu um traque.
… E o triste efeito dos divinos flatos
Caindo em terra onde mijavam gatos,
Brotou dali espontaneamente o padre Mattos.
1 394
Mário-Henrique Leiria
Aviso Urgente
Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
451
Fernando Pessoa
Sim, talvez tenham razão.
Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
1 598
Manuel Bandeira
Brigadeiro Praticante
O Brigadeiro é católico:
Vai à igreja, ajoelha e reza.
Mas quando bate no peito,
Bate em rocha de certeza;
— É direito!
Brigadeiro praticante,
Comunga, e quando comunga,
Incorpora um Deus ativo:
Não o Deus, inútil calunga,
Sim o Deus vivo!
O Deus que acende nos homens
A chama da caridade,
Do dever sem recompensa:
Deus que a força da humildade
Faz imensa!
Comunga, mas não comunga
Com os impostores ateus
e os ricos do Estado Novo:
Comunga só com o seu Deus
E com o povo!
Vai à igreja, ajoelha e reza.
Mas quando bate no peito,
Bate em rocha de certeza;
— É direito!
Brigadeiro praticante,
Comunga, e quando comunga,
Incorpora um Deus ativo:
Não o Deus, inútil calunga,
Sim o Deus vivo!
O Deus que acende nos homens
A chama da caridade,
Do dever sem recompensa:
Deus que a força da humildade
Faz imensa!
Comunga, mas não comunga
Com os impostores ateus
e os ricos do Estado Novo:
Comunga só com o seu Deus
E com o povo!
764
Paio Gomes Charinho
Senhor Fremosa, Por Nostro Senhor
Senhor fremosa, por Nostro Senhor,
e por mesura, e porque nom há
em mim senom mort' (e cedo será),
e porque sõo vosso servidor,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por mercêe que vos venho pedir,
e porque sõo vosso, e porque nom
cato por al (nem seria razom),
e porque sempre vos hei a servir,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Porque vós nunca podedes perder
em haver dóo de mim, e por qual
vos fezo Nostro Senhor, e por al
- porque soub'eu, qual sodes, conhocer –
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por quam mansa, e por quam de bom prez,
e por quam aposto vos fez falar
Nostro Senhor, e porque vos catar
fez mais fremoso de quantas El fez,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
e por mesura, e porque nom há
em mim senom mort' (e cedo será),
e porque sõo vosso servidor,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por mercêe que vos venho pedir,
e porque sõo vosso, e porque nom
cato por al (nem seria razom),
e porque sempre vos hei a servir,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Porque vós nunca podedes perder
em haver dóo de mim, e por qual
vos fezo Nostro Senhor, e por al
- porque soub'eu, qual sodes, conhocer –
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
Por quam mansa, e por quam de bom prez,
e por quam aposto vos fez falar
Nostro Senhor, e porque vos catar
fez mais fremoso de quantas El fez,
e polo bem que vos quer'outrossi,
ai, meu lume, doede-vos de mim!
744
Mário-Henrique Leiria
ÚLTIMA TENTAÇÃO
E então ela quis tentá-lo definitivamente. Olhou bem em volta, com extrema atenção. Mas só conseguiu encontrar uma pêra pequenina e pálida.
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
Ficaram os dois numa desesperante frustação.
Não há dúvida que o Paraíso está a tornar-se cada vez mais chato!
551
Manuel Bandeira
Oração a Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
926
Fernando Pessoa
X - Aconteceu-me do alto do infinito
X
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
807
Paio Gomes Charinho
Par Deus, Senhor, de Grado Queria
Par Deus, senhor, de grado queria
se Deus quisesse, de vós ũa rem:
que nom desejass'eu o vosso bem
como desej'a noit'e o dia,
por muit'afã que eu sofr'e sofri
por vós, senhor; e oimais des aqui
poss'entender que faç'i folia.
E pois nom quer a ventura mia
que vos doades do mal que mi avém
por vós, senhor, e maravilh'é-m'en
como nom moir'e morrer devia;
por en rog'a Deus que me valha i,
que sab'a coita que por vós sofr'i,
senom, mia morte mais me valria.
se Deus quisesse, de vós ũa rem:
que nom desejass'eu o vosso bem
como desej'a noit'e o dia,
por muit'afã que eu sofr'e sofri
por vós, senhor; e oimais des aqui
poss'entender que faç'i folia.
E pois nom quer a ventura mia
que vos doades do mal que mi avém
por vós, senhor, e maravilh'é-m'en
como nom moir'e morrer devia;
por en rog'a Deus que me valha i,
que sab'a coita que por vós sofr'i,
senom, mia morte mais me valria.
556
Manuel Bandeira
Homero Icaza
En el día 10 de Enero
Del anio de 62.
Ruego a la Fortuna, a la vida,
A todas las Santas — y a Dios —
Concedan a Homero de Homero
La cosa más apetecida...
En el día 10 de Enero
Del afio de 62
Del anio de 62.
Ruego a la Fortuna, a la vida,
A todas las Santas — y a Dios —
Concedan a Homero de Homero
La cosa más apetecida...
En el día 10 de Enero
Del afio de 62
1 062
Vinicius de Moraes
A Santa de Sabará
À gravadora chilena Graciela Fuenzalida
que trocou o mundo por Sabará
A um grito da Ponte Velha
Existe a "Pensão das Gordas"
(Cantou-as Mário de Andrade!)
Em Sabará. Na alpendrada
Sobre o rio que escorrega
A pensão mira a cidade
Ladeira acima. Na Páscoa
As quaresmeiras da serra
São manchas roxas de mágoa
E de manhã bem cedinho
A névoa pousa na terra
Como uma anágua de linho.
A cidade se espreguiça
Nas cores do casario
Que vive a pular carniça
Nas rampas de beira-rio.
E é doce vê-la sorrindo
Aos anjos do Aleijadinho
Que na portada do Carmo
Com bochechas inchadas
Assopram, de tanto frio.
Há paz na velha cidade
Uma paz de fazer longe...
A não ser na identidade
De certa dona chilena
Uma de rosto de monja
Corpo seco, tez serena
E que, na "Pensão das Gordas"
Onde há seis anos assiste
Desde o momento em que acorda
Vive, e nem sabe que existe
Entalhando na madeira
As horas mais dolorosas
Da Paixão de Jesus Cristo.
Atende por Graciela
Mas não atende a ninguém
Que não tenha como ela
A grande paixão do bem.
Sempre fechada em seu quarto
Mesmo à feição de uma freira
As suas dores do parto
Doem na carne de madeira
Onde ela entalha o fervor
De tudo o que há de mais casto
O rebanho e o bom pastor
O burrinho no seu pasto.
E às vezes, na nostalgia
Quem sabe, do mundo fora
Grava com luzes de aurora
Com milagres da poesia.
O viajante que passa
Itinerante por lá
Não se espante se, na aurora
Ou à luz crepuscular
Vir o vulto iluminado
De um belo arcanjo pousado
Guardando a casa onde mora
A santa de Sabará.
que trocou o mundo por Sabará
A um grito da Ponte Velha
Existe a "Pensão das Gordas"
(Cantou-as Mário de Andrade!)
Em Sabará. Na alpendrada
Sobre o rio que escorrega
A pensão mira a cidade
Ladeira acima. Na Páscoa
As quaresmeiras da serra
São manchas roxas de mágoa
E de manhã bem cedinho
A névoa pousa na terra
Como uma anágua de linho.
A cidade se espreguiça
Nas cores do casario
Que vive a pular carniça
Nas rampas de beira-rio.
E é doce vê-la sorrindo
Aos anjos do Aleijadinho
Que na portada do Carmo
Com bochechas inchadas
Assopram, de tanto frio.
Há paz na velha cidade
Uma paz de fazer longe...
A não ser na identidade
De certa dona chilena
Uma de rosto de monja
Corpo seco, tez serena
E que, na "Pensão das Gordas"
Onde há seis anos assiste
Desde o momento em que acorda
Vive, e nem sabe que existe
Entalhando na madeira
As horas mais dolorosas
Da Paixão de Jesus Cristo.
Atende por Graciela
Mas não atende a ninguém
Que não tenha como ela
A grande paixão do bem.
Sempre fechada em seu quarto
Mesmo à feição de uma freira
As suas dores do parto
Doem na carne de madeira
Onde ela entalha o fervor
De tudo o que há de mais casto
O rebanho e o bom pastor
O burrinho no seu pasto.
E às vezes, na nostalgia
Quem sabe, do mundo fora
Grava com luzes de aurora
Com milagres da poesia.
O viajante que passa
Itinerante por lá
Não se espante se, na aurora
Ou à luz crepuscular
Vir o vulto iluminado
De um belo arcanjo pousado
Guardando a casa onde mora
A santa de Sabará.
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