Poemas neste tema
Família
Domingos Pellegrini
Morte de mãe
.1.
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)
Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)
E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava
e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza
Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza
Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:
agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade
.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó
Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga
Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo
Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra
.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe
E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda
Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos
Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
Cercando a cama a gente esperava
escorregar daquele corpo a vida
para chorar (como se a morte
não vivesse sempre impressentida)
Matronas em pé com velhas varizes
machos curtidos em pinga úmidos
na penumbra: escuridão arrependida
(todos pendendo para aquele útero)
E devagar a vida escorregava
daquela boneca vestida de mãe
que abria os olhos e que chorava
e que dizia sempre sim sim sim
e esquecemos num canto qualquer e
para sempre fechou os olhos enfim
.2.
A carne quando nova, que beleza
mas vem o tempo com rugas varizes
cascas cansaço calos cicatrizes
careca corcunda cegueira surdeza
Olhar sem brilho e gesto sem leveza
tarde saudosa dos dias felizes
noite de acessos, tosses e crises
um dia a menos, única certeza
Vale a pena viver para isso?
E valerá a pena viver mais?
Mas a carne resiste, eis a verdade:
agarra-se às sopas e ao suspiro
dorme com medo de não acordar
e quando dorme enfim, que dignidade
.3.
E nossa mãe morreu, morreu avó
e tia prima cunhada sobrinha
empregada da casa e da rotina
e então nos móveis descansou o pó
Não teve tempo de ter uma amiga
entre campo e cidade em seu quintal
vassoura pia fogão e varal
e tanta planta da rosa à urtiga
Morreu – mas não desabou o mundo
também não despencaram as estrelas
só apagou-se a luz no criado-mudo
Não morreu de velha mas de canseira
e ainda queria dar algum conselho
quando lhe enchemos a boca de terra
.4.
Muito sol sem discursos e sem bronze
– chegamos, abrimos o caixão e
olhamos e olhamos como se
fosse uma foto para mandar longe
E soluçavam as pedras
por onde a gente tropeçava – tanto que
irmão até abraçava irmão e
o banguelo não ria do corcunda
Então irmanamente depusemos
os beijos de café que ela coou
na face enruguecida que bebemos
Choveu remorso até nas crianças
o silêncio afinal nos abençoou
mas em casa já falamos de herança
671
Charles Bukowski
Pai, Que Estais No Céu –
meu pai era um homem prático.
ele tinha uma ideia.
veja bem, meu filho, ele disse,
posso pagar esta casa ao longo de minha vida,
então ela será minha.
quando eu morrer eu a passo para você.
agora durante a sua vida você adquire uma casa
e assim você terá duas casas
e passará essas duas casas ao seu
filho, e durante a vida dele mais uma casa será adquirida,
então ele morre, e o filho dele –
entendi, eu disse.
meu pai morreu enquanto tentava beber um
copo d’água. eu o enterrei.
caixão de sólido mogno. depois do funeral
fui ao hipódromo, conheci uma japa alta.
depois das corridas fomos ao apartamento dela
para jantar e fazer coisas boas.
vendi sua casa depois de um mês.
vendi seu carro e seus móveis
e me livrei de todos os seus quadros exceto de um
e de todos os seus potes de geleia
(cheios de frutas fervidas no calor do verão)
e coloquei seu cachorro num canil
tive dois encontros com sua namorada
mas não indo a nenhum lugar
desisti.
bebi e queimei no jogo o dinheiro.
agora vivo num pátio frontal e barato em Hollywood
e levo o lixo para fora para
economizar no aluguel.
meu pai era um homem prático.
ele se engasgou com aquele copo d’água
e economizou nas contas do
hospital.
ele tinha uma ideia.
veja bem, meu filho, ele disse,
posso pagar esta casa ao longo de minha vida,
então ela será minha.
quando eu morrer eu a passo para você.
agora durante a sua vida você adquire uma casa
e assim você terá duas casas
e passará essas duas casas ao seu
filho, e durante a vida dele mais uma casa será adquirida,
então ele morre, e o filho dele –
entendi, eu disse.
meu pai morreu enquanto tentava beber um
copo d’água. eu o enterrei.
caixão de sólido mogno. depois do funeral
fui ao hipódromo, conheci uma japa alta.
depois das corridas fomos ao apartamento dela
para jantar e fazer coisas boas.
vendi sua casa depois de um mês.
vendi seu carro e seus móveis
e me livrei de todos os seus quadros exceto de um
e de todos os seus potes de geleia
(cheios de frutas fervidas no calor do verão)
e coloquei seu cachorro num canil
tive dois encontros com sua namorada
mas não indo a nenhum lugar
desisti.
bebi e queimei no jogo o dinheiro.
agora vivo num pátio frontal e barato em Hollywood
e levo o lixo para fora para
economizar no aluguel.
meu pai era um homem prático.
ele se engasgou com aquele copo d’água
e economizou nas contas do
hospital.
1 072
Adélia Prado
Resumo
Gerou os filhos, os netos,
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.
deu à casa o ar de sua graça
e vai morrer de câncer.
O modo como pousa a cabeça para um retrato
é o da que, afinal, aceitou ser dispensável.
Espera, sem uivos, a campa, a tampa, a inscrição:
1906-1970
SAUDADE DOS SEUS, LEONORA.
1 279
Charles Bukowski
Não Posso Ficar No Mesmo Quarto Com Essa Mulher Por Cinco Minutos
dias atrás fui
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
pegar minha filha.
a mãe dela apareceu com um macacão
de trabalho.
alcancei a ela o dinheiro da pensão
e ela me deitou um maço de poemas de um
Manfred Anderson.
eu os li
ele é ótimo, ela disse.
ele despacha esta merda? perguntei.
ah, não, ela disse, Manfred não faria isso.
por quê?
bem, não sei ao certo a razão.
escute, eu disse, você conhece todos os poetas que
não despacham suas merdas.
as revistas não estão prontas para eles, ela disse,
eles estão muito à frente das publicações.
ah, pelo amor de deus, eu disse, você realmente
acredita nisso?
sim, sim, acredito nisso, ela
respondeu.
veja, eu disse, você não foi capaz nem de deixar a menina
pronta. ela está descalça. será que não pode
calçar os sapatos nela?
sua filha tem 8 anos, ela disse,
já pode calçar os próprios sapatos.
escute, eu disse a minha filha, você pode pelo amor
de deus calçar os sapatos?
Manfred nunca grita, disse a mãe.
PELO AMOR DE DEUS! gritei
está vendo, está vendo? ela disse, você não mudou nada.
que horas são? perguntei.
4:30. uma vez Manfred enviou alguns poemas, ela disse,
mas eles mandaram de volta e ele ficou terrivelmente
chateado.
você já calçou os sapatos, eu disse a minha filha,
vamos.
a mãe dela nos acompanhou até a porta.
tenham um bom dia, ela disse.
foda-se, eu disse.
quando ela fechou a porta havia uma plaqueta presa no
lado de fora. dizia:
SORRIA.
não sorri.
em nosso caminho seguimos pela Pico.
parei em frente ao Red Ox.
já volto, eu disse a minha filha.
entrei, me sentei, e pedi um uísque e
uma água. no outro lado do bar havia um nanico entrando e
saindo de uma porta segurando um pênis curvo e bastante vermelho
na mão.
você não pode
não pode mandar ele parar? perguntei ao atendente.
você não pode fechar essa porra?
qual é o seu problema, meu chapa? ele perguntou.
eu envio meus poemas para as revistas, eu disse.
você envia seus poemas para as revistas? ele perguntou.
pode ter certeza de que mando, eu disse.
terminei minha bebida e voltei para o carro.
segui por Pico Boulevard.
o resto do dia estava condenado a ser melhor.
1 132
Adélia Prado
Poema Esquisito
Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.
1 475
Estêvão da Guarda
Em Tal Perfia Qual Eu Nunca Vi
Em tal perfia qual eu nunca vi,
vi eu Dom Foam com sa madr'estar;
e, porque os vi ambos perfiar,
cheguei-m'a el e dixi-lhi log'i:
- Vencede-vos a quanto vos disser,
ca perfiardes nom vos é mester
com vossa madr'- e perfiar assi!
E disse-m'el: - Sempr'esto houvemos d'uso,
eu e mia madre, em nosso solaz,
de perfiarmos eno que nos praz;
e quando m'eu de perfiar escuso,
assanha-se e diz-m'o que vos direi:
- Se nom perfias eu te maldirei
que sejas sempre maldito e confuso.
E dix'eu: - Senhor, nom vos está bem
de perfiardes, mais está-vos mal
com vossa madr'. E diss'el: - Nem mi cal,
poilo ela por sa prol assi tem;
ca se lh'eu dig': - Al tenho de fazer -
por bem ou mal tanto m'há-de dizer
que, na cima, perfiar me convém.
E parávoas nom ham de falecer;
mais tanto havemos de noite a seer
que é meiada ou mui preto en.
vi eu Dom Foam com sa madr'estar;
e, porque os vi ambos perfiar,
cheguei-m'a el e dixi-lhi log'i:
- Vencede-vos a quanto vos disser,
ca perfiardes nom vos é mester
com vossa madr'- e perfiar assi!
E disse-m'el: - Sempr'esto houvemos d'uso,
eu e mia madre, em nosso solaz,
de perfiarmos eno que nos praz;
e quando m'eu de perfiar escuso,
assanha-se e diz-m'o que vos direi:
- Se nom perfias eu te maldirei
que sejas sempre maldito e confuso.
E dix'eu: - Senhor, nom vos está bem
de perfiardes, mais está-vos mal
com vossa madr'. E diss'el: - Nem mi cal,
poilo ela por sa prol assi tem;
ca se lh'eu dig': - Al tenho de fazer -
por bem ou mal tanto m'há-de dizer
que, na cima, perfiar me convém.
E parávoas nom ham de falecer;
mais tanto havemos de noite a seer
que é meiada ou mui preto en.
675
Adélia Prado
Duas Maneiras
De dentro da geometria
Deus me olha e me causa terror.
Faz descer sobre mim o íncubo hemiplégico.
Eu chamo por minha mãe,
me escondo atrás da porta,
onde meu pai pendura sua camisa suja,
bebo água doce e falo as palavras das rezas.
Mas há outro modo:
se vejo que Ele me espreita,
penso em marca de cigarros,
penso num homem saindo de madrugada pra adorar o
[Santíssimo,
penso em fumo de rolo, em apito, em mulher da roça
com o balaio de pequi, fruta feita de cheiro e amarelo.
Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele,
pego Sua barba branca,
Ele joga pra mim a bola do mundo,
eu jogo pra Ele.
Deus me olha e me causa terror.
Faz descer sobre mim o íncubo hemiplégico.
Eu chamo por minha mãe,
me escondo atrás da porta,
onde meu pai pendura sua camisa suja,
bebo água doce e falo as palavras das rezas.
Mas há outro modo:
se vejo que Ele me espreita,
penso em marca de cigarros,
penso num homem saindo de madrugada pra adorar o
[Santíssimo,
penso em fumo de rolo, em apito, em mulher da roça
com o balaio de pequi, fruta feita de cheiro e amarelo.
Quando Ele dá fé, já estou no colo d’Ele,
pego Sua barba branca,
Ele joga pra mim a bola do mundo,
eu jogo pra Ele.
1 652
1
Adélia Prado
Rebrinco
As primas vinham ensaboar as de missa.
Enchiam a bacia de espuma, Tialzi cuspia dentro,
ai que nojo. Mesmo assim, tão bonito!
As calcinhas de Tialzi amarelavam no fundo,
dois, três dias na grama, marronzavam.
Eu andava em círculos, escutava conversa,
interrogava com apertada atenção.
Quando de tão calada me notavam, eram as pragas.
Tão boas, tão como devem ser que eu desinteressava,
ia chamar Letícia pra brincar.
Medo que eu tinha era não ter mistério.
Enchiam a bacia de espuma, Tialzi cuspia dentro,
ai que nojo. Mesmo assim, tão bonito!
As calcinhas de Tialzi amarelavam no fundo,
dois, três dias na grama, marronzavam.
Eu andava em círculos, escutava conversa,
interrogava com apertada atenção.
Quando de tão calada me notavam, eram as pragas.
Tão boas, tão como devem ser que eu desinteressava,
ia chamar Letícia pra brincar.
Medo que eu tinha era não ter mistério.
785
Adélia Prado
A Menina do Olfato Delicado
Quero comer não, mãe
(no canto do fogão o caldeirão esmaltado)
quero comer não, mãe
(arroz com feijão, macarrão grosso)
quero comer não, mãe
(sem massa de tomate)
quero comer não, mãe
(com gosto de serragem)
quero comer não, mãe
(com cheiro de carbureto)
quero comer não,
(vi um gato no caminho, fervendo de bicho)
quero comer não, mãe
(quando inaugurar a luz elétrica e o pai
consumir com o gasômetro, eu como).
Vamos ficar no escuro, mãe. Põe lamparina,
põe gasômetro não, o azul dele tem cheiro,
o cheiro entra na pele, na comida, no pensamento,
toma a forma das coisas. Quando a senhora tem
raiva sem xingar é igual a ruindade do gasômetro,
a azuleza dele. Vomito mãe. Vou comer agora não.
Vou esperar a luz elétrica.
(no canto do fogão o caldeirão esmaltado)
quero comer não, mãe
(arroz com feijão, macarrão grosso)
quero comer não, mãe
(sem massa de tomate)
quero comer não, mãe
(com gosto de serragem)
quero comer não, mãe
(com cheiro de carbureto)
quero comer não,
(vi um gato no caminho, fervendo de bicho)
quero comer não, mãe
(quando inaugurar a luz elétrica e o pai
consumir com o gasômetro, eu como).
Vamos ficar no escuro, mãe. Põe lamparina,
põe gasômetro não, o azul dele tem cheiro,
o cheiro entra na pele, na comida, no pensamento,
toma a forma das coisas. Quando a senhora tem
raiva sem xingar é igual a ruindade do gasômetro,
a azuleza dele. Vomito mãe. Vou comer agora não.
Vou esperar a luz elétrica.
1 270
Herberto Helder
Enigmas Maias
Filho, quais são as bocas tristes por onde as canas se lamentam?
Os buracos da flauta.
Filho, viste acaso duas pedras verdes com uma cruz ao meio?
Os olhos do homem.
Filho, e o papagaio que levanta a saia, e tira a capa, e a camisa, e o
chapéu, e os sapatos? Filho, passou acaso por ti? Talvez tivesses passado
tu por ele, pela alta pedra que se levanta à entrada do céu, e está na
porta da muralha. Quando por lá passaste, viste porventura avançarem para
ti homens como touros inclinados?
A pupila e o par de olhos.
Filho, viste as velhas que traziam ao colo os enteados e outras crianças?
Pai, estão aqui enquanto como, e não os posso deixar. O polegar e os
outros dedos.
Filho, por onde passaste há um riacho.
Pai, esse riacho está em mim. É o sulco ao meio das minhas costas.
Filho, vai buscar uma mulher de Jalisco que tenha os cabelos em desordem
e seja muito bela e virgem. Que lhe dispo o vestido e o saiote, e ficarei
feliz de vê-la assim. O seu perfume será de terra, e um turbilhão será a
sua bela cabeça.
É a tenra espiga de milho verde cozida debaixo da terra.
Ele ganha e, contente, leva consigo a pedra vermelha com que sonhou. O
orvalho do céu com que sonhou.
Os buracos da flauta.
Filho, viste acaso duas pedras verdes com uma cruz ao meio?
Os olhos do homem.
Filho, e o papagaio que levanta a saia, e tira a capa, e a camisa, e o
chapéu, e os sapatos? Filho, passou acaso por ti? Talvez tivesses passado
tu por ele, pela alta pedra que se levanta à entrada do céu, e está na
porta da muralha. Quando por lá passaste, viste porventura avançarem para
ti homens como touros inclinados?
A pupila e o par de olhos.
Filho, viste as velhas que traziam ao colo os enteados e outras crianças?
Pai, estão aqui enquanto como, e não os posso deixar. O polegar e os
outros dedos.
Filho, por onde passaste há um riacho.
Pai, esse riacho está em mim. É o sulco ao meio das minhas costas.
Filho, vai buscar uma mulher de Jalisco que tenha os cabelos em desordem
e seja muito bela e virgem. Que lhe dispo o vestido e o saiote, e ficarei
feliz de vê-la assim. O seu perfume será de terra, e um turbilhão será a
sua bela cabeça.
É a tenra espiga de milho verde cozida debaixo da terra.
Ele ganha e, contente, leva consigo a pedra vermelha com que sonhou. O
orvalho do céu com que sonhou.
945
Adélia Prado
O Retrato
Eu quero a fotografia,
os olhos cheios d’água sob as lentes,
caminhando de terno e gravata,
o braço dado com a filha.
Eu quero a cada vez olhar e dizer:
estava chorando. E chorar.
Eu quero a dor do homem na festa de casamento,
seu passo guardado, quando pensou:
a vida é amarga e doce?
Eu quero o que ele viu e aceitou corajoso,
os olhos cheios d’água sob as lentes.
os olhos cheios d’água sob as lentes,
caminhando de terno e gravata,
o braço dado com a filha.
Eu quero a cada vez olhar e dizer:
estava chorando. E chorar.
Eu quero a dor do homem na festa de casamento,
seu passo guardado, quando pensou:
a vida é amarga e doce?
Eu quero o que ele viu e aceitou corajoso,
os olhos cheios d’água sob as lentes.
1 706
João Airas de Santiago
Par Deus, Mia Madr', o Que Mi Gram Bem Quer
Par Deus, mia madr', o que mi gram bem quer
diz que deseja comig'a falar
mais doutra rem que homem pod'osmar;
e ũa vez, se a vós aprouguer,
fale migo, pois end'há tal prazer,
e saberemo'lo que quer dizer.
De falar migo nom perç'eu bom prez,
ca de sa prol i rem nom falarei,
e el dirá e eu ascuitarei;
e ante que moira, já ũa vez
fale migo, pois end'há tal prazer,
e saberemo'lo que quer dizer.
Se vos prouguer, venha falar aqui
conmig', ai madre, pois en sabor há,
e direi-vos pois quanto m'el dirá;
e ũa vez, ante que moira 'ssi,
fale migo, pois end'há tal prazer,
e saberemo'lo que quer dizer.
Quiçá quer-mi ora tal cousa dizer
que lha poss'eu sem meu dano fazer.
diz que deseja comig'a falar
mais doutra rem que homem pod'osmar;
e ũa vez, se a vós aprouguer,
fale migo, pois end'há tal prazer,
e saberemo'lo que quer dizer.
De falar migo nom perç'eu bom prez,
ca de sa prol i rem nom falarei,
e el dirá e eu ascuitarei;
e ante que moira, já ũa vez
fale migo, pois end'há tal prazer,
e saberemo'lo que quer dizer.
Se vos prouguer, venha falar aqui
conmig', ai madre, pois en sabor há,
e direi-vos pois quanto m'el dirá;
e ũa vez, ante que moira 'ssi,
fale migo, pois end'há tal prazer,
e saberemo'lo que quer dizer.
Quiçá quer-mi ora tal cousa dizer
que lha poss'eu sem meu dano fazer.
523
Charles Bukowski
Ligação Telefônica da Minha Filha de Cinco Anos Em Garden Grove
oi, Hank!
ainda estou subindo na árvore e não
caí, então acho que nunca vou cair
agora...
terça de noite! mamãe, mamãe, o Hank vem nos visitar
terça de noite! podemos dormir juntos, Hank?
que bom. e podemos brincar na caixa de areia antes
do jantar.
sabe, a gente limpou a caixa, vovó e mamãe e eu,
tiramos um monte de aranhas com a mangueira e
limpamos o toldo. só tem um lugar em que ela tá
toda fodida... falei o quê?, “só tem um lugar
em que ela tá toda fodida”
é embaixo no canto
e você e eu podemos cavar
pra tirar a gosma
de lá...
ainda estou subindo na árvore e não
caí, então acho que nunca vou cair
agora...
terça de noite! mamãe, mamãe, o Hank vem nos visitar
terça de noite! podemos dormir juntos, Hank?
que bom. e podemos brincar na caixa de areia antes
do jantar.
sabe, a gente limpou a caixa, vovó e mamãe e eu,
tiramos um monte de aranhas com a mangueira e
limpamos o toldo. só tem um lugar em que ela tá
toda fodida... falei o quê?, “só tem um lugar
em que ela tá toda fodida”
é embaixo no canto
e você e eu podemos cavar
pra tirar a gosma
de lá...
1 064
Reynaldo Jardim
Não somos um
Não lhe direi o impossível,
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
a verdade alastrou-me:
o seu valor equivale
à densidade dos outros.
Não somos um. Que outrora
éramos um, ou pensamos
sermos eu, você, o outro,
três elementos distintos.
Cada movimento teu
altera, sem restrição,
o passo próximo dado
pelo seu pai ou amigo.
A função é coligada,
contínua, una, solúvel,
se arrebentarmos todos,
você se dissolverá.
Calarei o impossível
a multidão alastrou-me.
O meu valor equivale
à conjunta redenção.
707
Adélia Prado
Figurativa
O pai cavando o chão mostrou pra nós,
com o olho da enxada, o bicho bobo,
a cobra de duas cabeças.
Saía dele o cheiro de óleo e graxa,
cheiro-suor de oficina, o brabo cheiro bom.
Nós tínhamos comido a janta quente
de pimenta e fumaça, angu e mostarda.
Pisando a terra que ele desbarrancava aos socavões,
catava tanajuras voando baixo,
na poeira de ouro das cinco horas.
A mãe falou pra mim: ‘vai na sua avó buscar polvilho,
vou fritar é uns biscoitos pra nós’.
A voz dela era sem acidez. ‘Arreda, arreda’,
o pai falava com amor.
As tanajuras no sol, a beira da linha,
o verde do capim espirrando entre os tijolos
da beirada da casa descascada, a menina embaraçada
com a opressão da alegria, o coração doendo,
como se triste fosse.
com o olho da enxada, o bicho bobo,
a cobra de duas cabeças.
Saía dele o cheiro de óleo e graxa,
cheiro-suor de oficina, o brabo cheiro bom.
Nós tínhamos comido a janta quente
de pimenta e fumaça, angu e mostarda.
Pisando a terra que ele desbarrancava aos socavões,
catava tanajuras voando baixo,
na poeira de ouro das cinco horas.
A mãe falou pra mim: ‘vai na sua avó buscar polvilho,
vou fritar é uns biscoitos pra nós’.
A voz dela era sem acidez. ‘Arreda, arreda’,
o pai falava com amor.
As tanajuras no sol, a beira da linha,
o verde do capim espirrando entre os tijolos
da beirada da casa descascada, a menina embaraçada
com a opressão da alegria, o coração doendo,
como se triste fosse.
1 387
Diamond
Casca de ovo
Lembro bem lá da fazenda
Inaugurava a manha, no retiro
A canção dos latões ávidos de leite
Bezerrada apartada, um mugido de saudade
Cheiro forte de café, assando broa de milho
Queijo de coalho Estrela do Sul, estrela dalva já se foi
A dança das cozinheira, os psiu, psiu...silencio
Crianças ainda dormem, mas devem estudar
Mamãe toda zelosa comanda um pelotão
Chinelo não faz barulho, sete horas acordar
Arde no nariz, a fumaça do carro que nos vai levar
Os meninos para a escola, preparando seu futuro
E o boi vai pra degola, nem pensar em chorar
O cachorro preguiçoso se estica na varanda
Se ajeita pra esperar a gurizada voltar
Ai que saudade eu tenho, deste cantinho celeste
Do amor do meu cachorro, da varanda de chão frio
Da curva da estradinha, por onde eu via chegar
Meu Pai levantando poeira, na guia do Chevrolet
Bolso cheio de balas para a molecada agradar
O café, o cavalo e o boi, personagens do lugar
Pena que o tempo passou, que ausências tão doidas
Dos chinelos da mamãe, da canção do luar
Da cozinheira assustada, os quitutes e empadinhas
Que só o forno de lenha sabia formar. As mangueiras do pomar
Para doer e maltratar, por vezes esqueço como o rosto do Pai
Das fogueiras de São João, do domingo lá na missa.
Incenso, sol e sininho da capela branquinha
Restou-me a saudade, num prédio em frente ao mar
Daqueles a quem mais amei, daquele singelo lugar
Bem perto da porteira que ainda vai pro cafezal,
três cruzes resumem tudo
Guardam estórias, amores e cuidados. Não perdi tudo porem
Divina Generosidade, entendendo a minha dor
Me restaram três porta retratos e o direito de sonhar
Inaugurava a manha, no retiro
A canção dos latões ávidos de leite
Bezerrada apartada, um mugido de saudade
Cheiro forte de café, assando broa de milho
Queijo de coalho Estrela do Sul, estrela dalva já se foi
A dança das cozinheira, os psiu, psiu...silencio
Crianças ainda dormem, mas devem estudar
Mamãe toda zelosa comanda um pelotão
Chinelo não faz barulho, sete horas acordar
Arde no nariz, a fumaça do carro que nos vai levar
Os meninos para a escola, preparando seu futuro
E o boi vai pra degola, nem pensar em chorar
O cachorro preguiçoso se estica na varanda
Se ajeita pra esperar a gurizada voltar
Ai que saudade eu tenho, deste cantinho celeste
Do amor do meu cachorro, da varanda de chão frio
Da curva da estradinha, por onde eu via chegar
Meu Pai levantando poeira, na guia do Chevrolet
Bolso cheio de balas para a molecada agradar
O café, o cavalo e o boi, personagens do lugar
Pena que o tempo passou, que ausências tão doidas
Dos chinelos da mamãe, da canção do luar
Da cozinheira assustada, os quitutes e empadinhas
Que só o forno de lenha sabia formar. As mangueiras do pomar
Para doer e maltratar, por vezes esqueço como o rosto do Pai
Das fogueiras de São João, do domingo lá na missa.
Incenso, sol e sininho da capela branquinha
Restou-me a saudade, num prédio em frente ao mar
Daqueles a quem mais amei, daquele singelo lugar
Bem perto da porteira que ainda vai pro cafezal,
três cruzes resumem tudo
Guardam estórias, amores e cuidados. Não perdi tudo porem
Divina Generosidade, entendendo a minha dor
Me restaram três porta retratos e o direito de sonhar
910
Vinicius de Moraes
Três Respostas Em Face de Deus
Familles, je vous hais! foyers clos; portes refermées; possessions jalouses
du bonheur.
A. Gide
C'est l'ami ni ardent ni faible. L'ami.
Rimbaud
…ô Femme, monceau d'entrailles, pitié douce Tu n'est jamais la soeur de
charité, jamais
Rimbaud
Sim, vós sois... (eu deveria ajoelhar dizendo os vossos nomes!)
E sem vós quem se mataria no presságio de alguma madrugada?
À vossa mesa irei murchando para que o vosso vinho vá bebendo
De minha poesia farei música para que não mais vos firam os seus acentos
dolorosos
Livres as mãos e serei Tântalo — mas o suplício da sede vós o vereis
apenas nos meus olhos
Que adormeceram nas visões das auroras geladas onde o sol de sangue não
caminha...
E vós!... (Oh, o fervor de dizer os vossos nomes angustiados!)
Deixai correr o vosso sangue eterno sobre as minhas lágrimas de ouro!
Vós sois o espírito, a alma, a inteligência das coisas criadas
E a vós eu não rirei — rir é atormentar a tragédia interior que ama o
silêncio
Convosco e contra vós eu vagarei em todos os desertos
E a mesma águia se alimentará das nossas entranhas tormentosas.
E vós, serenos anjos... (eu deveria morrer dizendo os vossos nomes!)
Vós cujos pequenos seios se iluminavam misteriosamente à minha presença
silenciosa!
V ossa lembrança é como a vida que não abandona o espírito no sono
Vós fostes para mim o grande encontro...
E vós também, ó árvores de desejo! Vós, a jetatura de Deus enlouquecido
Vós sereis o demônio em todas as idades.
du bonheur.
A. Gide
C'est l'ami ni ardent ni faible. L'ami.
Rimbaud
…ô Femme, monceau d'entrailles, pitié douce Tu n'est jamais la soeur de
charité, jamais
Rimbaud
Sim, vós sois... (eu deveria ajoelhar dizendo os vossos nomes!)
E sem vós quem se mataria no presságio de alguma madrugada?
À vossa mesa irei murchando para que o vosso vinho vá bebendo
De minha poesia farei música para que não mais vos firam os seus acentos
dolorosos
Livres as mãos e serei Tântalo — mas o suplício da sede vós o vereis
apenas nos meus olhos
Que adormeceram nas visões das auroras geladas onde o sol de sangue não
caminha...
E vós!... (Oh, o fervor de dizer os vossos nomes angustiados!)
Deixai correr o vosso sangue eterno sobre as minhas lágrimas de ouro!
Vós sois o espírito, a alma, a inteligência das coisas criadas
E a vós eu não rirei — rir é atormentar a tragédia interior que ama o
silêncio
Convosco e contra vós eu vagarei em todos os desertos
E a mesma águia se alimentará das nossas entranhas tormentosas.
E vós, serenos anjos... (eu deveria morrer dizendo os vossos nomes!)
Vós cujos pequenos seios se iluminavam misteriosamente à minha presença
silenciosa!
V ossa lembrança é como a vida que não abandona o espírito no sono
Vós fostes para mim o grande encontro...
E vós também, ó árvores de desejo! Vós, a jetatura de Deus enlouquecido
Vós sereis o demônio em todas as idades.
1 037
João Airas de Santiago
Ai Mia Filha, Por Deus, Guisade Vós
Ai mia filha, por Deus, guisade vós
que vos veja [e]sse fustam trager
voss'amig'e, tod'a vosso poder,
veja-vos bem com el estar em cós;
ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
por vós, filha, ca mui bem vos está.
Se vo'lo fustam estevesse mal,
nom vos mandaria ir ant'os seus
olhos, mais guisade cedo, por Deus,
que vos veja, nom façades end'al;
ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
por vós, filha, ca mui bem vos está.
E como quer que vos el[e] seja
sanhudo, pois que vo'lo fustam vir,
haverá gram sabor de vos cousir,
e guisade vós como vos veja;
ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
por vós, filha, ca mui bem vos está.
que vos veja [e]sse fustam trager
voss'amig'e, tod'a vosso poder,
veja-vos bem com el estar em cós;
ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
por vós, filha, ca mui bem vos está.
Se vo'lo fustam estevesse mal,
nom vos mandaria ir ant'os seus
olhos, mais guisade cedo, por Deus,
que vos veja, nom façades end'al;
ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
por vós, filha, ca mui bem vos está.
E como quer que vos el[e] seja
sanhudo, pois que vo'lo fustam vir,
haverá gram sabor de vos cousir,
e guisade vós como vos veja;
ca, se vos vir, sei eu ca morrerá
por vós, filha, ca mui bem vos está.
677
Adélia Prado
As Mortes Sucessivas
Quando minha irmã morreu eu chorei muito
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
‘deixa, tá bom assim’.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.
e me consolei depressa. Tinha um vestido novo
e moitas no quintal onde eu ia existir.
Quando minha mãe morreu, me consolei mais lento.
Tinha uma perturbação recém-achada:
meus seios conformavam dois montículos
e eu fiquei muito nua,
cruzando os braços sobre eles é que eu chorava.
Quando meu pai morreu, nunca mais me consolei.
Busquei retratos antigos, procurei conhecidos,
parentes, que me lembrassem sua fala,
seu modo de apertar os lábios e ter certeza.
Reproduzi o encolhido do seu corpo
em seu último sono e repeti as palavras
que ele disse quando toquei seus pés:
‘deixa, tá bom assim’.
Quem me consolará desta lembrança?
Meus seios se cumpriram
e as moitas onde existo
são pura sarça ardente de memória.
1 885
Adélia Prado
Linhagem
Minha árvore ginecológica
me transmitiu fidalguias,
gestos marmorizáveis:
meu pai, no dia do seu próprio casamento,
largou minha mãe sozinha e foi pro baile.
Minha mãe tinha um vestido só, mas
que porte, que pernas, que meias de seda mereceu!
Meu avô paterno negociava com tomates verdes,
não deu certo. Derrubou mato pra fazer carvão,
até o fim de sua vida, os poros pretos de cinza:
‘Não me enterrem na Jaguara. Na Jaguara, não.’
Meu avô materno teve um pequeno armazém,
uma pedra no rim,
sentiu cólica e frio em demasia,
no cofre de pau guardava queijo e moedas.
Jamais pensaram em escrever um livro.
Todos extremamente pecadores, arrependidos
até a pública confissão de seus pecados
que um deles pronunciou como se fosse todos:
‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu
porque eu. Todo homem erra.
Quem não errou vai errar.’
Esta sentença não lapidar, porque eivada
dos soluços próprios da hora em que foi chorada,
permaneceu inédita, até que eu,
cuja mãe e avós morreram cedo,
de parto, sem discursar,
a transmitisse a meus futuros,
enormemente admirada
de uma dor tão alta,
de uma dor tão funda,
de uma dor tão bela,
entre tomates verdes e carvão,
bolor de queijo e cólica.
me transmitiu fidalguias,
gestos marmorizáveis:
meu pai, no dia do seu próprio casamento,
largou minha mãe sozinha e foi pro baile.
Minha mãe tinha um vestido só, mas
que porte, que pernas, que meias de seda mereceu!
Meu avô paterno negociava com tomates verdes,
não deu certo. Derrubou mato pra fazer carvão,
até o fim de sua vida, os poros pretos de cinza:
‘Não me enterrem na Jaguara. Na Jaguara, não.’
Meu avô materno teve um pequeno armazém,
uma pedra no rim,
sentiu cólica e frio em demasia,
no cofre de pau guardava queijo e moedas.
Jamais pensaram em escrever um livro.
Todos extremamente pecadores, arrependidos
até a pública confissão de seus pecados
que um deles pronunciou como se fosse todos:
‘Todo homem erra. Não adianta dizer eu
porque eu. Todo homem erra.
Quem não errou vai errar.’
Esta sentença não lapidar, porque eivada
dos soluços próprios da hora em que foi chorada,
permaneceu inédita, até que eu,
cuja mãe e avós morreram cedo,
de parto, sem discursar,
a transmitisse a meus futuros,
enormemente admirada
de uma dor tão alta,
de uma dor tão funda,
de uma dor tão bela,
entre tomates verdes e carvão,
bolor de queijo e cólica.
1 149
Ricardo Aleixo
ÁLBUM DE FAMÍLIA
Meu pai viu Casablanca três vezes (duas
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
no cinema e uma na TV). Meu avô
trabalhou na boca da mina. Meu bisavô
foi, no mínimo, escravo de confiança.
724
Herberto Helder
Canção Escocesa
«Porque escorre o sangue pela tua espada,
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
555
João Airas de Santiago
Ai Mia Filha, de Vós Saber Quer'eu
- Ai mia filha, de vós saber quer'eu
porque fezestes quanto vos mandou
voss'amigo, que vos nom ar falou.
- Par Deus, mia madre, direi-vo-lo eu:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos dê bem,
filha, quanto vos el vẽo rogar?
Ca des entom nom vos ar quis falar.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi dê bem:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos perdom,
filha, quanto vos el vẽo dizer?
Ca des entom nom vos ar quis veer.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi perdom:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
[E] bom dia naceu, com'eu oí,
que[m] se doutro castiga e nom de si.
porque fezestes quanto vos mandou
voss'amigo, que vos nom ar falou.
- Par Deus, mia madre, direi-vo-lo eu:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos dê bem,
filha, quanto vos el vẽo rogar?
Ca des entom nom vos ar quis falar.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi dê bem:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
- Por que fezestes, se Deus vos perdom,
filha, quanto vos el vẽo dizer?
Ca des entom nom vos ar quis veer.
- Direi-vo-l[o] eu, se Deus mi perdom:
cuid[ava-m]'eu melhor haver per i
e semelha-mi que nom est assi.
[E] bom dia naceu, com'eu oí,
que[m] se doutro castiga e nom de si.
692
Charles Bukowski
Verrugas
eu me lembro melhor da minha vó
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
por causa de todas as verrugas dela
ela tinha 80 anos e as verrugas eram
enormes
eu não conseguia tirar os olhos de suas
verrugas
ela vinha para Los Angeles todos os domingos
de ônibus e bonde desde Pasadena
sua conversa era sempre a mesma
“eu vou enterrar todos vocês”
“você não vai me enterrar”,
meu pai dizia
“você não vai me enterrar”,
minha mãe dizia
então sentávamos para um jantar
dominical
depois da despedida minha mãe dizia
“eu acho terrível o jeito como ela fala
que vai enterrar todo mundo.”
mas eu até que gostava
dela sentada ali
coberta de verrugas
e ameaçando enterrar todos
nós
e quando ela comia o jantar
eu observava a comida entrando em sua boca
e olhava suas
verrugas
eu a imaginava indo ao banheiro
e limpando o traseiro
e pensando,
eu vou enterrar todo mundo
o fato de que ela não enterrou
foi até meio triste para
mim
certo domingo ela simplesmente não estava
lá, e foi um
domingo bem mais chato
outra pessoa teria que
nos enterrar
a comida mal tinha gosto
também
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