Poemas neste tema
Família
Orlando Neves
1943
Que mortos chegam como sinos
a dobrar a silêncio na praia?
Que meigo cão morde meus olhos
e os cega ao sol?
Ouço a guerra lá fora despedaçar o som
ouço meu tio gemendo de raiva de ficar
ouço a morte nas câmaras dentro de casa
ouço meu avô gritando com as mãos.
Que amoras colho em Viseu
sangrentas como coxas de mulher?
Que tempo cria meu tempo
na juventude de estar velho?
Vejo aquilino dar-me a mão grossa
vejo minha avó mordendo saudades
vejo a noite como uma farda
vejo as unhas sujas de sardinhas.
Que tenho eu a ver comigo
se sou pêssego e meus pais sofrem?
Que fogo queima este lixo
asa de cadáver?
a dobrar a silêncio na praia?
Que meigo cão morde meus olhos
e os cega ao sol?
Ouço a guerra lá fora despedaçar o som
ouço meu tio gemendo de raiva de ficar
ouço a morte nas câmaras dentro de casa
ouço meu avô gritando com as mãos.
Que amoras colho em Viseu
sangrentas como coxas de mulher?
Que tempo cria meu tempo
na juventude de estar velho?
Vejo aquilino dar-me a mão grossa
vejo minha avó mordendo saudades
vejo a noite como uma farda
vejo as unhas sujas de sardinhas.
Que tenho eu a ver comigo
se sou pêssego e meus pais sofrem?
Que fogo queima este lixo
asa de cadáver?
1 041
Hermes Vieira
Trovador da Roça
Eu sou fio do alto do sertão
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.
Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquistei.
Muitos tigre valente, na floresta,
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.
Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.
Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquistei.
Muitos tigre valente, na floresta,
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.
Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.
1 049
Pablo Neruda
Manhã - XXIX
Vens da pobreza das casas do Sul,
das regiões duras com frio e terremoto
que quando até seus deuses rodaram à morte
nos deram a lição da vida na greda.
És um cavalinho de greda negra, um beijo
de barro escuro, amor, papoula de greda,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
alcanzia com lágrimas de nossa pobre infância.
Moça, conservaste teu coração de pobre,
teus pés de pobre acostumados às pedras,
tua boca que nem sempre teve pão ou delícia.
És do pobre Sul, de onde vem minha alma:
em seu céu tua mãe segue lavando roupa
com minha mãe. Por isso te escolhi, companheira.
das regiões duras com frio e terremoto
que quando até seus deuses rodaram à morte
nos deram a lição da vida na greda.
És um cavalinho de greda negra, um beijo
de barro escuro, amor, papoula de greda,
pomba do crepúsculo que voou nos caminhos,
alcanzia com lágrimas de nossa pobre infância.
Moça, conservaste teu coração de pobre,
teus pés de pobre acostumados às pedras,
tua boca que nem sempre teve pão ou delícia.
És do pobre Sul, de onde vem minha alma:
em seu céu tua mãe segue lavando roupa
com minha mãe. Por isso te escolhi, companheira.
1 445
Madi
Espelho
Espelho
Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível
Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível
920
José Castello
Nordeste se reencontra com Ascenso Ferreira
Obras do mais importante poeta modernista da região são relançadas pela Nordestal Editora.
O Nordeste se reencontra com seu maior poeta modernista. "Feliz de quem achou sua maneira de expressão", escreveu certa vez Tristan Tzara, um dos pilotos da vanguarda literária européia na primeira metade do século. A frase cabe como uma luva em Ascenso Ferreira, que Luís da Câmara Cascudo descreveu, na primeira vez que o encontrou, ainda no pátio da Faculdade de Direito do Recife, como um homem "que olha a vida do alto de um metro e noventa e pisa com cem quilos as ruas velhas do Recife".
Mas a descoberta da identidade, muitas vezes, tem um duro preço. Nascido em 1895 em Palmares, interior de Pernambuco, Ascenso - sempre encoberto por seu infalível chapelão - morreu quatro dias antes de completar 70 anos, em 1965, e sua obra se perdeu, a partir daí, no mais terrível silêncio, que mais parecia uma maldição. Seus únicos três livros de poemas - Catimbó, de 1927, Cana Caiana, de 1939, e Xenhenhém, de 1951 - tiveram sua edição comercial mais recente em 1963, sob o selo da José Olympio. Dezoito anos depois, graças à teimosia do crítico e poeta pernambucano Juhareiz Correya, eles foram republicados em primorosa, mas restrita, edição artesanal.
Nos últimos dias de 1995, por fim, 32 anos depois da edição comercial mais recente, os poemas de Ascenso Ferreira foram finalmente relançados em cuidadoso trabalho da Nordestal Editora, dirigida pelo mesmo Correya, em co-edição com a Fundação de Arte de Pernambuco - Fundarte, presidida pelo romancista Raimundo Carrero. Rompe-se, assim, uma tela de mutismo e inoperância que, por anos a fio, cercou a obra do poeta.
Descaso
- O falso argumento, exibido durante todo esse tempo por desmemoriados e preguiçosos, era o de que a família de Ascenso Ferreira proibia a republicação de sua obra. Juhareiz Correya chegou a publicar no Jornal da Cidade, do Recife, no início dos anos 80, um irado artigo em que acusava a família do poeta de amordaçá-lo depois de morto. O próprio Correya ouviu da viúva, alguns dias depois, o mais enfático desmentido. Houve apenas descaso e desprezo.
A nova edição dos poemas modernistas de Ascenso Ferreira, que chegou em janeiro às livrarias do Nordeste em um só volume, reproduz ilustrações de Carybé, Cícero Dias, Joaquim Cardozo e Luís Jardim, entre outros, e é aberta com belos textos introdutórios, que já se tornaram clássicos do gênero, assinados por Manuel Bandeira e Sérgio Milliet. Catimbó, o primeiro dos três livros, é prefaciado por Ritmo Novo, um pequeno ensaio de Mário de Andrade. "Nesse livro, ele eleva ao máximo possível a tendência rapsódica da poesia brasileira", Mário escreve. Cana Caiana tem um texto de apresentação assinado por Luís da Câmara Cascudo. "Ninguém o imitará, mas Ascenso criou, como ninguém fez, sua maneira", escreve Cascudo. Xenhénhém é apresentado por um artigo assinado por Roger Bastide, para quem "aliando a intuição à ciência, Ascenso realizou algo muito difícil: a poesia popular".
Toda essa pompa é mais do que justa. Ascenso Ferreira é, afinal, o mais expressivo nome do movimento modernista no Nordeste. Nem o esquecimento, nem a fama injusta de folclórico e exótico, embaçam o brilho de seus versos. Ascenso se chamava, na verdade, Aníbal Torres. Era magro, desengonçado e escrevia sonetos decadentes que reuniu em um pequeno livro, Eu Voltarei ao Sol da Primavera, obra que merece ser sumariamente esquecida. Seu primeiro soneto, Flor Fenecida, foi publicado em A Notícia, em 1911. Perdeu o pai aos 7 anos, em acidente brutal, ferida de que jamais se recuperou por completo. Aos 13, já trabalhava no comércio e escrevia seus primeiros sonetos, baladas e madrigais, na pior tradição parnasiana. Em 1917, aos 22 anos, em ruptura radical, o poeta muda o nome de registro para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, com que se insere em uma linhagem eminentemente matriarcal. Com o Ascenso, ele repete o nome do avô materno, com o Ferreira reverencia o sobrenome da mãe. Engorda, passa dos 100 quilos, ml distribuídos nos 1,89 metro de altura. Sua marca, a partir daí, é o vozeirão forte, mas encantador. Torna-se uma espécie de ator em tempo integral, camuflado pelo nome falso e pelo imenso chapéu de palha, uma espécie nordestina de bufão.
No ano-símbolo de 1922, Ascenso se torna amigo de Joaquim Cardozo, Gilberto Freire e Luís da Câmara Cascudo. A princípio, apesar das amizades, o poeta é uma das vozes a se erguer contra o modernismo de 1922, que chega ao Nordeste pelas mãos de Joaquim Inojosa. Mas logo se aproxima da Revista do Norte, porta-voz dos modernistas na região, e em 1926, publica seu primeiro poema modernista, Lusco Fusco, que, no primeiro livro da nova fase, Catimbó, datado de 1927, aparece com o título de Boca da Noite. No ano seguinte, reforçando os laços modernistas, Ascenso se torna amigo de Mário de Andrade. Em 1929, faz sua primeira viagem ao sul do País e realiza um recital consagrador no Teatro dos Brinquedos, em São Paulo. Intelectuais influentes como Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade se aproximam, então, do poeta.
Em 1945, Ascenso abandona a mulher, com quem se casara em 1921, para viver em companhia de uma adolescente, Maria de Lurdes Medeiros, abrindo um novo divisor de águas em sua vida. A essa altura, ele já é um fenômeno de cuja presença todos desejam privar. Em 1951, o poeta faz sua quarta viagem ao Sudeste para o lançamento de seus poemas reunidos em edição de luxo. Em 1955, quando participa ativamente da campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência da República, a dupla identidade de Ascenso Ferreira já está inteiramente à mostra. Apesar da experiência modernista e de toda a consagração que mereceu, ele ainda é visto, essencialmente, como um "poeta foclórico", pecha preconceituosa de que jamais se livrará.
Colorido
- Ascenso Ferreira é um rapsodo de perfil clássico, uma cópia solar e primitiva dos cantadores ambulantes que perambulavam pela Grécia antiga. O folclore é, a rigor, coisa bem diferente. Seus poemas ganham colorido e ritmo especiais quando lidos, em particular por ele mesmo, tanto que chegou a gravá-los em disco. Ascenso foi, de fato, o primeiro poeta brasileiro a registrar, de própria voz, seus versos.
Manuel Bandeira, em análise precisa, escreveu certa vez: "Quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas." São poemas sobre os mangues, o massapê e a caatinga, destilados no ritmo dos reisados, dos maracatus e das vaquejadas. Apesar da presença impregnada do mundo nordestino, não se pode incorrer no erro de classificar Ascenso Ferreira como um poeta regionalista. "Ele não fez reportagens de fatos étnicos, nem lambiscou o exotismo dos costumes bárbaros do Brasil", escreveu Sérgio Milliet, em momento de absoluta lucidez.
Também Manuel Bandeira soube detectar, com precisão, essa ponte que Ascenso ergueu entre o natural e o artificial. "Costuma se falar de verso metrificado e verso livre, como se algum abismo os separasse", escreveu Bandeira. "Ascenso é o melhor exemplo com que se possa provar que não existe tal abismo." É de Bandeira, ainda, a sentença: "Ascenso continuou a ser deliciosamente provinciano, sem nenhum ranço regionalista." É bom recordar, aqui, de Roger astide quando esse diz, em ensaio sobre a obra de Ascenso, que a poesia popular, enquanto expressão estética do povo, a rigor não existe. "O povo não faz poesia popular, ou faz uma cópia má da poesia dos burgueses", escreve. Ascenso é uma prova disso.
Paradoxo
- Há, apesar de tudo, muito paradoxo nessa admiração. A afeição que Manuel Bandeira e Mário de Andrade nutriram por Ascenso Ferreira esteve quase sempre pontuada por um tipo disfarçado - e envergonhado - de desprezo. Essa atitude ambígua que o sul civilizado nutriu em relação ao grande rapsodo nordestino de
O Nordeste se reencontra com seu maior poeta modernista. "Feliz de quem achou sua maneira de expressão", escreveu certa vez Tristan Tzara, um dos pilotos da vanguarda literária européia na primeira metade do século. A frase cabe como uma luva em Ascenso Ferreira, que Luís da Câmara Cascudo descreveu, na primeira vez que o encontrou, ainda no pátio da Faculdade de Direito do Recife, como um homem "que olha a vida do alto de um metro e noventa e pisa com cem quilos as ruas velhas do Recife".
Mas a descoberta da identidade, muitas vezes, tem um duro preço. Nascido em 1895 em Palmares, interior de Pernambuco, Ascenso - sempre encoberto por seu infalível chapelão - morreu quatro dias antes de completar 70 anos, em 1965, e sua obra se perdeu, a partir daí, no mais terrível silêncio, que mais parecia uma maldição. Seus únicos três livros de poemas - Catimbó, de 1927, Cana Caiana, de 1939, e Xenhenhém, de 1951 - tiveram sua edição comercial mais recente em 1963, sob o selo da José Olympio. Dezoito anos depois, graças à teimosia do crítico e poeta pernambucano Juhareiz Correya, eles foram republicados em primorosa, mas restrita, edição artesanal.
Nos últimos dias de 1995, por fim, 32 anos depois da edição comercial mais recente, os poemas de Ascenso Ferreira foram finalmente relançados em cuidadoso trabalho da Nordestal Editora, dirigida pelo mesmo Correya, em co-edição com a Fundação de Arte de Pernambuco - Fundarte, presidida pelo romancista Raimundo Carrero. Rompe-se, assim, uma tela de mutismo e inoperância que, por anos a fio, cercou a obra do poeta.
Descaso
- O falso argumento, exibido durante todo esse tempo por desmemoriados e preguiçosos, era o de que a família de Ascenso Ferreira proibia a republicação de sua obra. Juhareiz Correya chegou a publicar no Jornal da Cidade, do Recife, no início dos anos 80, um irado artigo em que acusava a família do poeta de amordaçá-lo depois de morto. O próprio Correya ouviu da viúva, alguns dias depois, o mais enfático desmentido. Houve apenas descaso e desprezo.
A nova edição dos poemas modernistas de Ascenso Ferreira, que chegou em janeiro às livrarias do Nordeste em um só volume, reproduz ilustrações de Carybé, Cícero Dias, Joaquim Cardozo e Luís Jardim, entre outros, e é aberta com belos textos introdutórios, que já se tornaram clássicos do gênero, assinados por Manuel Bandeira e Sérgio Milliet. Catimbó, o primeiro dos três livros, é prefaciado por Ritmo Novo, um pequeno ensaio de Mário de Andrade. "Nesse livro, ele eleva ao máximo possível a tendência rapsódica da poesia brasileira", Mário escreve. Cana Caiana tem um texto de apresentação assinado por Luís da Câmara Cascudo. "Ninguém o imitará, mas Ascenso criou, como ninguém fez, sua maneira", escreve Cascudo. Xenhénhém é apresentado por um artigo assinado por Roger Bastide, para quem "aliando a intuição à ciência, Ascenso realizou algo muito difícil: a poesia popular".
Toda essa pompa é mais do que justa. Ascenso Ferreira é, afinal, o mais expressivo nome do movimento modernista no Nordeste. Nem o esquecimento, nem a fama injusta de folclórico e exótico, embaçam o brilho de seus versos. Ascenso se chamava, na verdade, Aníbal Torres. Era magro, desengonçado e escrevia sonetos decadentes que reuniu em um pequeno livro, Eu Voltarei ao Sol da Primavera, obra que merece ser sumariamente esquecida. Seu primeiro soneto, Flor Fenecida, foi publicado em A Notícia, em 1911. Perdeu o pai aos 7 anos, em acidente brutal, ferida de que jamais se recuperou por completo. Aos 13, já trabalhava no comércio e escrevia seus primeiros sonetos, baladas e madrigais, na pior tradição parnasiana. Em 1917, aos 22 anos, em ruptura radical, o poeta muda o nome de registro para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira, com que se insere em uma linhagem eminentemente matriarcal. Com o Ascenso, ele repete o nome do avô materno, com o Ferreira reverencia o sobrenome da mãe. Engorda, passa dos 100 quilos, ml distribuídos nos 1,89 metro de altura. Sua marca, a partir daí, é o vozeirão forte, mas encantador. Torna-se uma espécie de ator em tempo integral, camuflado pelo nome falso e pelo imenso chapéu de palha, uma espécie nordestina de bufão.
No ano-símbolo de 1922, Ascenso se torna amigo de Joaquim Cardozo, Gilberto Freire e Luís da Câmara Cascudo. A princípio, apesar das amizades, o poeta é uma das vozes a se erguer contra o modernismo de 1922, que chega ao Nordeste pelas mãos de Joaquim Inojosa. Mas logo se aproxima da Revista do Norte, porta-voz dos modernistas na região, e em 1926, publica seu primeiro poema modernista, Lusco Fusco, que, no primeiro livro da nova fase, Catimbó, datado de 1927, aparece com o título de Boca da Noite. No ano seguinte, reforçando os laços modernistas, Ascenso se torna amigo de Mário de Andrade. Em 1929, faz sua primeira viagem ao sul do País e realiza um recital consagrador no Teatro dos Brinquedos, em São Paulo. Intelectuais influentes como Cassiano Ricardo, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade se aproximam, então, do poeta.
Em 1945, Ascenso abandona a mulher, com quem se casara em 1921, para viver em companhia de uma adolescente, Maria de Lurdes Medeiros, abrindo um novo divisor de águas em sua vida. A essa altura, ele já é um fenômeno de cuja presença todos desejam privar. Em 1951, o poeta faz sua quarta viagem ao Sudeste para o lançamento de seus poemas reunidos em edição de luxo. Em 1955, quando participa ativamente da campanha de Juscelino Kubitschek para a presidência da República, a dupla identidade de Ascenso Ferreira já está inteiramente à mostra. Apesar da experiência modernista e de toda a consagração que mereceu, ele ainda é visto, essencialmente, como um "poeta foclórico", pecha preconceituosa de que jamais se livrará.
Colorido
- Ascenso Ferreira é um rapsodo de perfil clássico, uma cópia solar e primitiva dos cantadores ambulantes que perambulavam pela Grécia antiga. O folclore é, a rigor, coisa bem diferente. Seus poemas ganham colorido e ritmo especiais quando lidos, em particular por ele mesmo, tanto que chegou a gravá-los em disco. Ascenso foi, de fato, o primeiro poeta brasileiro a registrar, de própria voz, seus versos.
Manuel Bandeira, em análise precisa, escreveu certa vez: "Quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas." São poemas sobre os mangues, o massapê e a caatinga, destilados no ritmo dos reisados, dos maracatus e das vaquejadas. Apesar da presença impregnada do mundo nordestino, não se pode incorrer no erro de classificar Ascenso Ferreira como um poeta regionalista. "Ele não fez reportagens de fatos étnicos, nem lambiscou o exotismo dos costumes bárbaros do Brasil", escreveu Sérgio Milliet, em momento de absoluta lucidez.
Também Manuel Bandeira soube detectar, com precisão, essa ponte que Ascenso ergueu entre o natural e o artificial. "Costuma se falar de verso metrificado e verso livre, como se algum abismo os separasse", escreveu Bandeira. "Ascenso é o melhor exemplo com que se possa provar que não existe tal abismo." É de Bandeira, ainda, a sentença: "Ascenso continuou a ser deliciosamente provinciano, sem nenhum ranço regionalista." É bom recordar, aqui, de Roger astide quando esse diz, em ensaio sobre a obra de Ascenso, que a poesia popular, enquanto expressão estética do povo, a rigor não existe. "O povo não faz poesia popular, ou faz uma cópia má da poesia dos burgueses", escreve. Ascenso é uma prova disso.
Paradoxo
- Há, apesar de tudo, muito paradoxo nessa admiração. A afeição que Manuel Bandeira e Mário de Andrade nutriram por Ascenso Ferreira esteve quase sempre pontuada por um tipo disfarçado - e envergonhado - de desprezo. Essa atitude ambígua que o sul civilizado nutriu em relação ao grande rapsodo nordestino de
1 687
Ribamar Feitosa
Cantiga de Ninar Mamãe
Dorme, mamãe,
do meu coração,
o bicho papão
não vem te comer.
Dorme, mamãe,
que eu vou vigiar
e a cuca
maluca
não vem te pegar.
Dorme, mamãe,
não tenhas mais medo
de tudo e de nada,
de bruxa malvada
que faz a careta,
de bois perigosos
de cara bem preta.
Dorme, mamãe,
é tão bom ver você
nesta cama deitada.
Eu sou pequenina,
mas posso ficar
um instante acordada.
Dorme, mamãe,
um anjo chegou
e, devagar,
nos beijou.
E você, mamãezinha,
mais bonita ficou.
do meu coração,
o bicho papão
não vem te comer.
Dorme, mamãe,
que eu vou vigiar
e a cuca
maluca
não vem te pegar.
Dorme, mamãe,
não tenhas mais medo
de tudo e de nada,
de bruxa malvada
que faz a careta,
de bois perigosos
de cara bem preta.
Dorme, mamãe,
é tão bom ver você
nesta cama deitada.
Eu sou pequenina,
mas posso ficar
um instante acordada.
Dorme, mamãe,
um anjo chegou
e, devagar,
nos beijou.
E você, mamãezinha,
mais bonita ficou.
682
Sembula Peyaneerar
O que ele disse
O que significaria minha mãe
para a tua? Que parentesco tem meu pai
com o teu, afinal? E como
Tu e eu pudemos enfim nos encontrar?
Mas no amor
nossos corações são como a terra rubra
e a chuva torrencial:
mesclados
além da divisão.
(paráfrase de Ricardo Domeneck)
What He Said
What could my mother be
to yours? What kin is my father
to yours anyway? And how
Did you and I meet ever?
But in love
our hearts are as red earth
and pouring rain:
mingled
beyond parting.
-- Cempulappeyanirar, translated by A.K. Ramanujan
700
Sousa Caldas
Soneto I [Oito anos apenas eu contava
Oito anos apenas eu contava,
Quando a fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da Pátria me ausentava.
Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando
Em lágrimas o Pai, e a Mãe deixava.
Entre ferros, pobreza, enfermidade
Eu vejo, ó Céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.
A velhice cruel, (ó dura Morte!)
Que faz temer tão triste mocidade,
Para poupar-me, descarrega o corte.
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.2, p.124. (Coleção Afrânio Peixoto, 5)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
Quando a fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da Pátria me ausentava.
Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando
Em lágrimas o Pai, e a Mãe deixava.
Entre ferros, pobreza, enfermidade
Eu vejo, ó Céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.
A velhice cruel, (ó dura Morte!)
Que faz temer tão triste mocidade,
Para poupar-me, descarrega o corte.
Publicado no livro Obras Poéticas: Poesias Sacras e Profanas (1821).
In: VARNHAGEN, F.A. Florilégio da poesia brasileira. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1987. t.2, p.124. (Coleção Afrânio Peixoto, 5)
NOTA: Texto corrigido conforme a 1.ed. das OBRAS POÉTICAS, 182
981
Otaviano Hudson
O Operário
(Fragmentos)
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
519
Jorge Luis Borges
Singladura
El mar es una espada innumerable y una plenitud de pobreza.
La llamarada es traducible en ira, el manantial en tiempo, y la cisterna en clara aceptación.
El mar es solitario como un ciego.
El mar es un antiguo lenguaje que ya no alcanzo a descifrar.
En su hondura, el alba es una humilde tapia encalada.
De su confín surge el claror, igual que una humareda.
Impenetrable como la piedra labrada persiste el mar ante los muchos días.
Cada tarde es un puerto.
Nuestra mirada flagelada de mar camina por su cielo: Última playa blanda, celeste arcilla de las tardes.
¡Qué dulce intimidad la del ocaso en el huraño mar! Claras como una feria brillan las nubes.
La luna nueva se ha enredado a un mástil.
La misma luna que dejamos bajo un arco de piedra y cuya luz agraciará los sauzales.
En la cubierta, quietamente, yo comparto la tarde con mi hermana, como un trozo de pan.
"Luna de enfrente" (1925)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 73 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
La llamarada es traducible en ira, el manantial en tiempo, y la cisterna en clara aceptación.
El mar es solitario como un ciego.
El mar es un antiguo lenguaje que ya no alcanzo a descifrar.
En su hondura, el alba es una humilde tapia encalada.
De su confín surge el claror, igual que una humareda.
Impenetrable como la piedra labrada persiste el mar ante los muchos días.
Cada tarde es un puerto.
Nuestra mirada flagelada de mar camina por su cielo: Última playa blanda, celeste arcilla de las tardes.
¡Qué dulce intimidad la del ocaso en el huraño mar! Claras como una feria brillan las nubes.
La luna nueva se ha enredado a un mástil.
La misma luna que dejamos bajo un arco de piedra y cuya luz agraciará los sauzales.
En la cubierta, quietamente, yo comparto la tarde con mi hermana, como un trozo de pan.
"Luna de enfrente" (1925)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 73 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 513
Cida Jappe
Poeminha de Raíssa
O meu primeiro dentinho caiu
você colocou lá na plantinha
Bem-vindo dentinho novo
ao castelihno dos dentes
você colocou lá na plantinha
Bem-vindo dentinho novo
ao castelihno dos dentes
765
Ana Martins Marques
cozinha
nostálgicas de um tempo de intermináveis almoços
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
banha de porco alho pão açúcar sujeira
dias que vertiam leite vinhos fortes azeite mel
rituais sangrentos de morte carne sangue e fogo
alvoroço de primos cozinheiras e restos aos cachorros
as panelas de seu desuso observam
a mulher sozinha o jornal do dia o café solúvel
e duas xícaras irônicas no aparador
Da série “Arquitetura de interiores”
1 410
Fernando Pessoa
Com as malas feitas e tudo a bordo
Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
1 634
Edigar de Alencar
Balada do Cearense
— Mamãe, eu vou pro Amazonas,
não quero ficar aqui,
já estou cansado de tudo,
não suporto essa leseira.
— Meu filho, não diz besteira!
— Mamãe, eu quero embarcar,
vou pro Acre, vou pro diabo,
aqui eu não fico mais,
não posso viver assim,
sem dinheiro, maltrapilho,
isso aqui parece o inferno,
quero ir pro paraíso.
— Meu filho, toma juízo!
— Mamãe, tenha paciência,
vou-me embora pro Amazonas,
que me importa com sezões,
com maleita, com febrões,
aqui eu morro de fome,
não posso mais vender bicho
que a policia prende a gente.
Mamãe, não me dê conselho
que fala pra banda mouca.
— Meu filho, cala essa boca!
— Mamãe, é hoje o meu dia,
preparei minha tipóia,
vou ganhar muito dinheiro,
vou comprar um seringal,
um dia eu volto, mamãe,
e trago a felicidade!
— Nossa Senhora te ajude,
São José seja teu pai!
Vai com Deus, meu filho, vai...
não quero ficar aqui,
já estou cansado de tudo,
não suporto essa leseira.
— Meu filho, não diz besteira!
— Mamãe, eu quero embarcar,
vou pro Acre, vou pro diabo,
aqui eu não fico mais,
não posso viver assim,
sem dinheiro, maltrapilho,
isso aqui parece o inferno,
quero ir pro paraíso.
— Meu filho, toma juízo!
— Mamãe, tenha paciência,
vou-me embora pro Amazonas,
que me importa com sezões,
com maleita, com febrões,
aqui eu morro de fome,
não posso mais vender bicho
que a policia prende a gente.
Mamãe, não me dê conselho
que fala pra banda mouca.
— Meu filho, cala essa boca!
— Mamãe, é hoje o meu dia,
preparei minha tipóia,
vou ganhar muito dinheiro,
vou comprar um seringal,
um dia eu volto, mamãe,
e trago a felicidade!
— Nossa Senhora te ajude,
São José seja teu pai!
Vai com Deus, meu filho, vai...
934
Tomás Antônio Gonzaga
Lira XV
Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro,
fui honrado Pastor da tua Aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.
(...)
Propunha-me dormir no teu regaço
as quentes horas da comprida sesta,
escrever teus louvores nos olmeiros,
toucar-te de papoilas na floresta.
Julgou o justo Céu que não convinha
que a tanto grau subisse a glória minha.
Ah! minha bela, se a fortuna volta,
se o bem, que já perdi, alcanço e provo,
por essas brancas mãos, por essas faces
te juro renascer um homem novo,
romper a nuvem que os meus olhos cerra,
amar no céu a Jove e a ti na terra!
Fiadas comprarei as ovelhinhas,
que pagarei dos poucos do meu ganho;
e dentro em pouco tempo nos veremos
senhores outra vez de um bom rebanho.
Para o contágio lhe não dar, sobeja
que as afague Marília, ou só que as veja.
Se não tivermos lãs e peles finas,
podem mui bem cobrir as carnes nossas
as peles dos cordeiros mal curtidas,
e os panos feitos com as lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
por mãos de amor, por minhas mãos cosido.
Nós iremos pescar na quente sesta
com canas e com cestos os peixinhos;
nós iremos caçar nas manhãs frias
com a vara enviscada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
reputa o varão sábio, honesto e santo.
Nas noites de serão nos sentaremos
c'os filhos, se os tivermos, à fogueira:
entre as falsas histórias, que contares,
lhes contarás a minha, verdadeira:
Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
ainda o rosto banharei de pranto.
Quando passarmos juntos pela rua,
nos mostrarão c'o dedo os mais Pastores,
dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
exemplos da desgraça e sãos amores.
Contentes viveremos desta sorte,
até que chegue a um dos dois a morte.
Imagem - 00170003
Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
fui honrado Pastor da tua Aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho, a que me encoste, um só cajado.
Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande Trono.
Agora que te oferte já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.
(...)
Propunha-me dormir no teu regaço
as quentes horas da comprida sesta,
escrever teus louvores nos olmeiros,
toucar-te de papoilas na floresta.
Julgou o justo Céu que não convinha
que a tanto grau subisse a glória minha.
Ah! minha bela, se a fortuna volta,
se o bem, que já perdi, alcanço e provo,
por essas brancas mãos, por essas faces
te juro renascer um homem novo,
romper a nuvem que os meus olhos cerra,
amar no céu a Jove e a ti na terra!
Fiadas comprarei as ovelhinhas,
que pagarei dos poucos do meu ganho;
e dentro em pouco tempo nos veremos
senhores outra vez de um bom rebanho.
Para o contágio lhe não dar, sobeja
que as afague Marília, ou só que as veja.
Se não tivermos lãs e peles finas,
podem mui bem cobrir as carnes nossas
as peles dos cordeiros mal curtidas,
e os panos feitos com as lãs mais grossas.
Mas ao menos será o teu vestido
por mãos de amor, por minhas mãos cosido.
Nós iremos pescar na quente sesta
com canas e com cestos os peixinhos;
nós iremos caçar nas manhãs frias
com a vara enviscada os passarinhos.
Para nos divertir faremos quanto
reputa o varão sábio, honesto e santo.
Nas noites de serão nos sentaremos
c'os filhos, se os tivermos, à fogueira:
entre as falsas histórias, que contares,
lhes contarás a minha, verdadeira:
Pasmados te ouvirão; eu, entretanto,
ainda o rosto banharei de pranto.
Quando passarmos juntos pela rua,
nos mostrarão c'o dedo os mais Pastores,
dizendo uns para os outros: — Olha os nossos
exemplos da desgraça e sãos amores.
Contentes viveremos desta sorte,
até que chegue a um dos dois a morte.
Imagem - 00170003
Publicado no livro Marília de Dirceu: Segunda Parte (1799).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
6 522
Vicente de Carvalho
A Partida da Monção
VI
Ei-las, as toscas naus de borda rastejante
À flor das águas, naus de estreitos rios quietos;
Ei-las, prestes a abrir para o sertão distante,
Para assombros de glória, o seu vôo de insetos.
Apinhem-se na praia os velhos, derramando
De encarquilhadas mãos inúteis para mais
A bênção dos que já se sentem bruxoleando
Aos que lhes vão tornar os nomes imortais.
(...)
Noivas, com os corações envoltos na penumbra
Indecisa do amor que se orgulha e se dói,
Vinde trazer-lhes vosso olhar de que ressumbra
Saudade pelo amante e enlevo pelo herói...
Ao largo, enfim! Clarins e buzinas atroam.
E as canoas, na luz da manhã cor-de-rosa,
Pairam por um momento em pleno rio; aproam
Para o sertão. E rompe a marcha vagarosa.
Nos barrancos, até rente d'água investidos
De filhos a sorrir e de mães a chorar,
Lancem as frouxas mãos e os olhos comovidos
O derradeiro adeus e o derradeiro olhar...
VII
Longe, na solidão do campo undoso e verde,
O rio serpenteia. Em cada contorção
Mais se afasta. E a fugir, pouco a pouco se perde
No majestoso, vago, infinito sertão...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
Ei-las, as toscas naus de borda rastejante
À flor das águas, naus de estreitos rios quietos;
Ei-las, prestes a abrir para o sertão distante,
Para assombros de glória, o seu vôo de insetos.
Apinhem-se na praia os velhos, derramando
De encarquilhadas mãos inúteis para mais
A bênção dos que já se sentem bruxoleando
Aos que lhes vão tornar os nomes imortais.
(...)
Noivas, com os corações envoltos na penumbra
Indecisa do amor que se orgulha e se dói,
Vinde trazer-lhes vosso olhar de que ressumbra
Saudade pelo amante e enlevo pelo herói...
Ao largo, enfim! Clarins e buzinas atroam.
E as canoas, na luz da manhã cor-de-rosa,
Pairam por um momento em pleno rio; aproam
Para o sertão. E rompe a marcha vagarosa.
Nos barrancos, até rente d'água investidos
De filhos a sorrir e de mães a chorar,
Lancem as frouxas mãos e os olhos comovidos
O derradeiro adeus e o derradeiro olhar...
VII
Longe, na solidão do campo undoso e verde,
O rio serpenteia. Em cada contorção
Mais se afasta. E a fugir, pouco a pouco se perde
No majestoso, vago, infinito sertão...
Publicado no livro Poemas e Canções (1908).
In: CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. 17.ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 065
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