Poemas neste tema
Família
Gilson Nascimento
Biête do sertão
Zé, meu fi, esse biête
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
É pra mode ti contá
Que eu tive ternantonte
No nosso amado sertão
E com a boca escancarada
Numa bruta gargaiada
Tudo se ria pra mim.
As prantação bem verdinha
Viçosa, já cricidinha
Os pé de pau fulorado
Os boi, lustroso e cevado
E o pasto cuma um tapete
Ispaiado pulo chão
Tudo se ria pra mim
As nuve, baixa e cinzenta
E o ri com a água barrenta
Com aquele gargulejá
Qui faiz gosto se iscutá
Curria brabo, avexado
Cuma quem faz um mandado
Pra no má si dispejá.
E os pés de mi bunecando
E os pendão balançando
Com o vento que da lonjura
A chuva ia assoprando
Tudo se ria pra mim.
E vendo os bicho e as coisa
Com tanta sastifação
Mi ri com a cara e com a alma
Confesso, num nego não
E a nutiça da alegria
De quando in vez eu iscutava
Num baticum arrastado
Que era vê um aboiado
Do meu véio coração
Me alembrei das pescaria
Que dô! Que arrecordação!
A lua, culara, cheinha
Varava a mata todinha
E feito uma tuáia de prata
Caía em riba do rio
Briava na escuridão.
Meu fi, nesse dia eu sube
Que nóis é que nem os pau
Tem raiz grossa e cumprida
Que margúia pulo chão
Lá se interra, lá se agruda
Não há home de sustança
Que arranque elas não.
Eles vem dum pé de pranta
Que tem uma bunita fulô
Cheia de viço e de cô
Nóis chama ela de amô
E veve no coração
949
António Ramos Rosa
Até Onde Vós Estais
Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
1 007
Adrienne Rich
Instantâneos de Uma Nora
1.
Você, uma vez a bela de Shreveport,
cabelos tingidos de hena, a pele como pêssego,
ainda manda fazer vestidos como os que se usavam então,
e toca um prelúdio de Chopin
chamado por Cortot: “Deliciosas reminiscências
flutuam como perfume pela memória”.
Sua mente agora, mofando como bolo de casamento,
pesada de experiências inúteis, pródiga
em suspeitas, rumores, fantasias,
desmoronando sob o fio
do mero fato. Na primavera da vida.
Inquieta, o olhar faiscante, sua filha
limpa as colheres de chá, cresce para outro lado.
2.
Dando com a cafeteira na pia
ela escuta o reproche dos anjos, e fita
o céu desgrenhado para além de jardins impecáveis.
Não faz mais de uma semana desde que disseram:Não tenha paciência.
Da próxima foi: Seja insaciável.
E depois:Salve-se. Aos demais, não poderá salvar.
Por vezes tem deixado a água da torneira lhe escaldar o braço,
um fósforo queimar-lhe a unha do dedão,
ou posto a mão sobre a chaleira
bem na lã do vapor. São provavelmente anjos
posto que já nada a magoa, excetuando
a areia de cada manhã indo de encontro aos olhos.
3.
Uma mulher pensante dorme com monstros.
O bico que a agarra, ela se torna. E a Natureza,
este ainda cômodo, destampado baú
cheio detempora e mores
enche-se de tudo:…………… as flores de laranjeira cobertas de orvalho,
os contraceptivos, os terríveis seios
de Boadiceia sob orquídeas e cabeças chatas de raposa.
Duas belas mulheres, trancadas em discussão,
ambas orgulhosas, argutas, sutis, ouço que gritam
por sobre a maiólica e os cacos de vidro
como Fúrias encurraladas para longe de suas presas:
A discussãoad feminam, todos os velhos punhais
que enferrujaram em minhas costas, o seu adentro
ma semblable, ma soeur!
IV.
Conhecendo-se bem demais uma na outra
seus dons sem puro desfrute, mas espinhos
a agulha afiada contra uma ponta de escárnio…
Lendo enquanto espera
aquecer o ferro,
escrevendo,Minha vida – encostada pelos cantos
naquela despensa em Amherst enquanto as geleias fervem e escumam,
ou, com maior frequência,
de olhos fitos e embicada e obstinada como uma ave,
tirando poeira a todo o triquetraque da vida cotidiana.
5.
Dulce ridens, dulce loquens
ela depila as pernas até brilharem
como petrificadas presas de mamute.
6.
Quando canta Corina a seu alaúde
não são dela nem letra nem música;
somente os longos cabelos descaindo-se
sobre a bochecha, somente a canção
da seda contra os joelhos,
e mesmo estes
ajustam-se nos reflexos de um olho.
Empertigada, trêmula e insatisfeita, ante
uma porta destrancada, a jaula das jaulas,
diga-nos, sua ave, sua trágica máquina –
será istofertilisante douleur? Esmagada
pelo amor, para ti a única reação natural,
estarás acirrada a ponto
de arrombar os segredos do cofre? a Natureza,
nora, mostrou-te enfim os livros de contabilidade
que seu próprio filho sempre ignorou?
7.
Ter neste incerto mundo alguma posição
inabalável é
da maior importância.
…………………………………….Assim escreveu
uma mulher, em parte boa e em parte audaz,
que lutou com o que não compreendia de todo.
Poucos homens a seu redor teriam feito mais,
portanto a rotularam puta, megera, engodo.
8.
“Morreis todos aos quinze anos”, disse Diderot,
mudando-se metade em lenda, metade em convenção.
No entanto, olhos sonham equivocamente
por detrás de janelas fechadas, empastadas de vapor.
Deliciosamente, tudo o que poderíamos ter sido,
tudo o que fomos – fogo, lágrimas,
espírito, gosto, ambição martirizada –
agita-se como a lembrança do adultério recusado
o seio murcho e esvaziado de nossa “meia idade”.
9.
Não que se faça bem, mas
que se faça e ponto? Pois bem, pense
nas possibilidades! ou ignore-as para sempre.
Estes luxos da criança precoce,
a querida inválida do Tempo –
abdicaríamos, minhas caras, se nos fosse dado?
Nossa praga foi também nossa sinecura:
mero talento nos bastava –
brilho em rascunhos e fragmentos.
Não mais suspirem, minhas senhoras.
………………………………………………………..O tempo é macho
e em suas taças bebe ao belo.
Divertidas pelo galanteio, ouvimos
enquanto nos louvam as mediocridades,
indolência lida como abnegação,
desleixo lido como intuição refinada,
cada deslize perdoado, o único crime sendo
estampar uma sombra demasiado notável
ou sumariamente destruir o molde.
Para isso, a solitária,
o gás lacrimogênio, os estilhaços.
Poucas pleiteam este tipo de honra.
13.
……………………………………………………….Bom,
ela posterga sua chegada, que lhe deve parecer
tão pouco clemente quanto a própria história.
A mente cheia ao vento, vejo-a mergulhar
de seios e relanceando pelas correntezas,
tomando a luz sobre si,
pelo menos tão bela quanto qualquer menino
ou helicóptero,
…………………………………………..empertigada, chegando ainda,
suas finas hélices fazendo o ar recuar
mas sua carga
já nenhuma promessa:
entregue
palpável
nossa.
1958 – 1960
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
1 106
Vasco Graça Moura
Para uma canção de embalar
embalo a minha filha joana que acordou num berreiro.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.
levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.
oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras,
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.
oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.
lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada,
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme,
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos»,
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo
e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá,
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida,
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez.
a casa está às escuras, vou passando com cuidado
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar,
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto.
levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha,
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis.
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio,
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir.
oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras,
e possam ir na vida serenamente como os rios correm,
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram
em cadências regulares neste silêncio táctil.
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas.
oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa,
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem,
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento,
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada,
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo.
lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada,
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme,
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos»,
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo
e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá,
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida,
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez.
2 585
Orpingalik
Meu fôlego
Esta é minha canção: canção poderosa.
Unaija-unaija.
Desde o outono deito-me aqui,
desamparado e doente,
como se fosse filho de mim mesmo.
Em angústia, desejaria que minha mulher
tivesse outra cabana,
outro homem por refúgio,
firme e seguro como o gelo do inverno.
Unaija-unaija.
E desejaria que minha mulher
encontrasse protetor melhor,
agora que me faltam as forças
para erguer-me da cama.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Estirado e débil sobre meu banco,
minha única força está em minha memória.
Unaija-unaija.
Caça! Grande caça,
correndo adiante de mim,
permita-me reviver aquilo.
Deixe-me esquecer minha fraqueza
remembrando o passado.
Unaija-unaija.
Eu trago à memória aquele grande branco,
o urso polar,
aproximando-se com patas erguidas,
seu focinho na neve -
convencido, enquanto me atacava,
que entre nós dois
ele era o único macho.
Unaija-unaija.
Lançou-me ao solo repetidamente:
mas exausto por fim,
sentou-se sobre um banco de gelo,
e lá descansaria
insciente de que eu o terminaria.
Ele pensava ser o único macho em redor.
Mas eu estava ali,
Unaija-unaija.
Nem hei de esquecer o grande oleoso,
o leão-marinho que matei
em uma placa de gelo antes da aurora,
enquanto meus amigos em casa
deitavam-se como com os mortos,
frágeis com a fome,
famintos na má sorte.
Apressei-me para casa,
carregado de carne e óleo,
como se estivesse correndo sobre o gelo
em busca de uma fenda para respirar.
Era porém leão-marinho experiente
que me cheirara imediatamente -
mas antes que pudesse fugir
minha lança enterrava-se
em sua garganta.
É como foi.
Agora deito-me em meu banco,
doente demais para sequer
conseguir óleo para a lâmpada de minha mulher.
O tempo, o tempo mal parece passar,
mesmo que aurora siga aurora,
e a primavera aproxime-se da vila.
Unaija-unaija.
Quanto tempo mais devo deitar-me aqui?
Quanto tempo? Quanto tempo ela terá
que implorar por óleo para sua lâmpada,
peles de rena para seu corpo,
e carne para sua comida?
Eu, desastre débil:
ela, mulher indefesa.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Aurora segue aurora,
e a primavera aproxima-se da vila.
Unaija-unaija.
.
.
.
810
Castro Alves
Quando eu Morrer
Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, março de 1869.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
JUNQUEIRA FREIRE
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.
Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.
Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...
Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...
Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...
Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."
Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, março de 1869.
Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).
In: ALVES, Castro. Obra completa. Org. e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198
3 526
Lya Luft
Tão sutilmente em tantos breves anos
do livro Mulher no Palco
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
1 343
Geraldo Lyra
Perdão para Meu Pai!
Meu pai pagou bem caro uma aventura
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
com jovem que não tinha virgindade,
pois, quando a "conheceu", toda a cidade
sabia que não era mulher pura ...
O genitor da tal, por crueldade,
contratou pistoleiros de alma dura:
— pegado de surpresa, um que o segura
e outro que o esfaqueia sem piedade ...
Pelo resto da vida deformado,
sofreu motejos e os filhos, também,
mesmo sem terem culpa do pecado...
Mas, quem de uma moiçola enjeita as graças?
— E eu, agora, respondo que — ninguém,
apesar das piores das desgraças!!!
327
Luiz Guimarães
Visita a Casa Paterna
Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.
Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.
Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.
1 063
Luiz Carlos Freitas
Linda Mãe
Se entendesse tudo, e porque existe,
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Alegre como a alma de alguém que insiste,
Em viver, setenta anos, para eu crer,
Consciente de que nem sempre te mereci,
Ter MÃE, é minha LINDA ainda viver !
A cansei, quando ainda pequenino,
Tive sorte ! Não tivestes só as meninas.
Teu sorriso, quando veio um , masculino,
Dependi tanto dessa, LINDA , heroína ,
Que ao impor seu instinto feminino,
Sem preferir, me fez, seu primeiro menino.
Se entendesse tudo, e porque existe,
Mesmo pequeno, não a faria, tanto sofrer,
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Escolhido tendo de ti o que persiste,
Heroína prá setenta anos servir,
Sem nunca, um dos filhos preferir,
Te agradeço, LINDA, por nascer !
Luiz Carlos Freitas , 26 / 10 / 96
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Alegre como a alma de alguém que insiste,
Em viver, setenta anos, para eu crer,
Consciente de que nem sempre te mereci,
Ter MÃE, é minha LINDA ainda viver !
A cansei, quando ainda pequenino,
Tive sorte ! Não tivestes só as meninas.
Teu sorriso, quando veio um , masculino,
Dependi tanto dessa, LINDA , heroína ,
Que ao impor seu instinto feminino,
Sem preferir, me fez, seu primeiro menino.
Se entendesse tudo, e porque existe,
Mesmo pequeno, não a faria, tanto sofrer,
Teria, quem sabe, o dom de ser,
Escolhido tendo de ti o que persiste,
Heroína prá setenta anos servir,
Sem nunca, um dos filhos preferir,
Te agradeço, LINDA, por nascer !
Luiz Carlos Freitas , 26 / 10 / 96
1 007
Luciano Matheus Tamiozzo
Anjinho
Uma fraca luminosidade
Adentra à porta
Então sorrateiramente
Da cama se aproxima.
Mamãe ao ver pergunta
Em um tom terno e afetivo:
Ainda não dormiu, meu anjinho?
Adentra à porta
Então sorrateiramente
Da cama se aproxima.
Mamãe ao ver pergunta
Em um tom terno e afetivo:
Ainda não dormiu, meu anjinho?
953
Armando Silva Carvalho
34
com mãos, olfacto, dentes, boca
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
que procuro o cheiro dos animais à mesa,
da roupa amarrotada duma antiga
posse viva e de criança,
da comida espessa na sua longa espera,
a mais reconfortante,
o rumor entontecido dos pássaros,
os amigos seguros, a ternura dos tios, a pancada cega,
sempre repetida,
e pelo amor da mãe desmoronada.
1 151
Luís Quintais
MÁQUINA
Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
1 202
Nelly Sachs
MÃOS
Dos jardineiros da morte,
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
Que da camomila do berço,
Que nas duras pastagens viceja
Ou na encosta,
Criastes a morte, o monstro de estufa do vosso ofício,
Mãos,
Arrombando o tabernáculo do corpo,
Agarrando como dentes de tigre os sinais dos mistérios –
Mãos,
Que fazíeis vós
Quando éreis as mãos de crianças pequenas?
Seguráveis uma gaita, a crina
De um cavalinho de balanço, agarráveis a saia da mãe no escuro,
Apontáveis para uma palavra no livro de leitura? –
Era Deus talvez, ou homem?
Vós, mãos que estrangulais,
Estaria morta Vossa mãe,
Vossa esposa, vosso filho?
Para que nas mãos tão somente a morte tivésseis,
Nas mãos estranguladoras?
833
Nelly Sachs
CORO DOS ÓRFÃOS
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Deceparam nosso ramo
E lançaram-no ao fogo –
Transformaram em lenha quem nos protegia –
Nós, órfãos, jazemos nos campos da solidão.
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Na noite nossos pais brincam conosco de esconde-esconde –
Por detrás das negras dobras da noite
Fitam-nos seus rostos,
Falam suas bocas:
Fomos lenha seca na mão de um lenhador –
Mas nossos olhos tornaram-se olhos de anjos
E olham para vós,
Por entre as negras dobras da noite
Eles olham –
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Pedras tornaram-se nosso brinquedo,
Pedras têm rostos, rostos de pai e mãe,
Não murcham como flores, não mordem como bichos –
E não ardem como lenha seca quando lançadas no forno –
Nós, órfãos, queixamo-nos do mundo:
Mundo por que nos tiraste as ternas mães
E os pais que dizem: Tu te pareces comigo!
Nós, órfãos, não nos parecemos com ninguém mais no mundo!
Ó Mundo,
Nós te acusamos!
Queixamo-nos do mundo:
Deceparam nosso ramo
E lançaram-no ao fogo –
Transformaram em lenha quem nos protegia –
Nós, órfãos, jazemos nos campos da solidão.
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Na noite nossos pais brincam conosco de esconde-esconde –
Por detrás das negras dobras da noite
Fitam-nos seus rostos,
Falam suas bocas:
Fomos lenha seca na mão de um lenhador –
Mas nossos olhos tornaram-se olhos de anjos
E olham para vós,
Por entre as negras dobras da noite
Eles olham –
Nós, órfãos,
Queixamo-nos do mundo:
Pedras tornaram-se nosso brinquedo,
Pedras têm rostos, rostos de pai e mãe,
Não murcham como flores, não mordem como bichos –
E não ardem como lenha seca quando lançadas no forno –
Nós, órfãos, queixamo-nos do mundo:
Mundo por que nos tiraste as ternas mães
E os pais que dizem: Tu te pareces comigo!
Nós, órfãos, não nos parecemos com ninguém mais no mundo!
Ó Mundo,
Nós te acusamos!
702
Yi Sáng
Poema n. 2
Quan do o meu pai dor mi ta ao meu la do eu me tor no o pai do
meu pai e tam bém me tor no o pai do pai do meu pai mas se o
meu pai na con di ção de meu pai é a in da meu pai en tão por
que mo ti vo eu me tor no o pai do pai….. do pai do pai do meu
pai por que mo ti vo eu de vo sal tar por ci ma do meu pai e fi
nal men te por que mo ti vo eu te nho de vi ver fa zen do o pa
pel de mim do meu pai e do pai do meu pai e do pai do pai do
meu pai?
meu pai e tam bém me tor no o pai do pai do meu pai mas se o
meu pai na con di ção de meu pai é a in da meu pai en tão por
que mo ti vo eu me tor no o pai do pai….. do pai do pai do meu
pai por que mo ti vo eu de vo sal tar por ci ma do meu pai e fi
nal men te por que mo ti vo eu te nho de vi ver fa zen do o pa
pel de mim do meu pai e do pai do meu pai e do pai do pai do
meu pai?
687
Luiza Neto Jorge
A casa do mundo
Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.
Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.
Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.
Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.
Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida:
1 925
Luiza Neto Jorge
Do Medo I
Do Medo I
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
1 879
Pablo Neruda
Vamos Ver, Chamei a Minha Tribo
Vamos ver, chamei a minha tribo e disse:
vamos ver, quem somos, que fazemos, que
[pensamos.
O mais pálido deles, de nós,
me respondeu com outros olhos,
com outra sem-razão, com sua bandeira.
Esse era o pavilhão do inimigo.
Aquele homem, talvez, tinha direito
a matar minha verdade, assim aconteceu
comigo e com meu pai,
e assim acontece.
Mas sofri como se me mordessem.
vamos ver, quem somos, que fazemos, que
[pensamos.
O mais pálido deles, de nós,
me respondeu com outros olhos,
com outra sem-razão, com sua bandeira.
Esse era o pavilhão do inimigo.
Aquele homem, talvez, tinha direito
a matar minha verdade, assim aconteceu
comigo e com meu pai,
e assim acontece.
Mas sofri como se me mordessem.
1 218
Quirino dos Santos
O saci
"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
1 009
Noel Rosa
Cansei de Implorar
Já cansei de implorar
Pra você desguiar
Dizendo que a minha filha
Ainda é muito moça pra namorar
Meu Deus, que teimosia
Desista de insistir
Na delegacia você vai residir
Casar sem exibir credenciais
E sem dizer o nome dos seus pais
Não pode ser conversa para mim que sou doutor
Vá-se embora, por favor
Quem casa sem ter casa não se cria
Amor sem nota não tem mais valia
Você me diz que é advogado de valor
Mas eu também sou doutor.
Pra você desguiar
Dizendo que a minha filha
Ainda é muito moça pra namorar
Meu Deus, que teimosia
Desista de insistir
Na delegacia você vai residir
Casar sem exibir credenciais
E sem dizer o nome dos seus pais
Não pode ser conversa para mim que sou doutor
Vá-se embora, por favor
Quem casa sem ter casa não se cria
Amor sem nota não tem mais valia
Você me diz que é advogado de valor
Mas eu também sou doutor.
879
Glícia Rodrigues
Jantar
A mesa farta
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
864
Eucanaã Ferraz
FOI-SE A VONTADE DE IR AO EGITO
Todos foram unânimes: precisava parar de fumar.
Foi o que fez.
Com isso parou também de amar o próximo
como a si mesmo e passou a duvidar
de que um dia tenha amado a si mesmo.
Nunca se viu outra vez com sua mãe
e seu pai na fotografia em que parecia amar
e ser amado muito antes de haver fumado
mas quem sabe pressentisse com a pureza
do sorriso o fumante que seria.
Em parar de fumar seu cabelo perdeu
a graça e suas piadas perderam o brilho.
Perdeu amigos sem sentir pena. Perdeu
esboços de poemas e o pudor de dizer não.
Disse adeus ao prazer físico e místico de olhar
as nuvens pela janela do avião como anéis
de fumaça. Arruinou-se sobretudo certo dom
de estar feliz que não excedia a simplicidade
necessária para que o bem gratuito
não se quebrasse — mas agora as horas
parecem porcelanas raras estilhaçando
num daqueles espetáculos em que o mal
abarista equilibra pratos no alto de uma vara
que ele pousa na ponta do queixo
ao som de uma música chim, algo assim.
Foi-se a vontade de ir ao Egito.
Perdeu o gosto das aves e da companhia dos cães.
Mas, sobretudo, passou a sonhar insistentemente
com rãs que invadem seus pulmões sua casa.
Foi o que fez.
Com isso parou também de amar o próximo
como a si mesmo e passou a duvidar
de que um dia tenha amado a si mesmo.
Nunca se viu outra vez com sua mãe
e seu pai na fotografia em que parecia amar
e ser amado muito antes de haver fumado
mas quem sabe pressentisse com a pureza
do sorriso o fumante que seria.
Em parar de fumar seu cabelo perdeu
a graça e suas piadas perderam o brilho.
Perdeu amigos sem sentir pena. Perdeu
esboços de poemas e o pudor de dizer não.
Disse adeus ao prazer físico e místico de olhar
as nuvens pela janela do avião como anéis
de fumaça. Arruinou-se sobretudo certo dom
de estar feliz que não excedia a simplicidade
necessária para que o bem gratuito
não se quebrasse — mas agora as horas
parecem porcelanas raras estilhaçando
num daqueles espetáculos em que o mal
abarista equilibra pratos no alto de uma vara
que ele pousa na ponta do queixo
ao som de uma música chim, algo assim.
Foi-se a vontade de ir ao Egito.
Perdeu o gosto das aves e da companhia dos cães.
Mas, sobretudo, passou a sonhar insistentemente
com rãs que invadem seus pulmões sua casa.
661
Renato Castelo Branco
O Esperado
para meu neto Rodrigo
Só agora você chegou
de uma espera de milênios.
Só agora você chegou
de regiões ignotas
perdido em mundos misteriosos.
Só agora você chegou
do fundo da História
para preencher seu lugar
entre nós.
Mas eu lhe esperava
desde o começo da vida,
elo a ser preenchido
em infinita cadeia
de ancestrais.
Agora você está aqui
conosco
parte de nossa vida
e de nossa eternidade.
Só agora você chegou
de uma espera de milênios.
Só agora você chegou
de regiões ignotas
perdido em mundos misteriosos.
Só agora você chegou
do fundo da História
para preencher seu lugar
entre nós.
Mas eu lhe esperava
desde o começo da vida,
elo a ser preenchido
em infinita cadeia
de ancestrais.
Agora você está aqui
conosco
parte de nossa vida
e de nossa eternidade.
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