Poemas neste tema
Família
Antonio Roberval Miketen
For Simone
These hands of yours,
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
953
Patrícia Clemente
Sensatez
Se eu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do amor, tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria.
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.
Mas a paixão não quer a sobriedade,
Nem seriedade sabe o coração,
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.
E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol, pra me afiar os dentes
Do amor, tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria.
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.
Mas a paixão não quer a sobriedade,
Nem seriedade sabe o coração,
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.
E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol, pra me afiar os dentes
1 126
Sylvia Plath
Lesbos
Safadeza na cozinha!
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel -
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha - olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir -
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.
Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.
O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico.
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.
O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.
Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.
Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."
Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar.
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras
Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.
As batatas sibilam.
Isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorescente oscila como uma enxaqueca terrível.
Nas portas, tiras de papel -
Cortinas de teatro, o cabelo crespo da viúva.
E eu, Amor, sou uma mentirosa patológica,
E minha filha - olhe só pra ela, de cara no assoalho,
Fantoche sem cordas, tremendo até sumir -
Como é esquizofrênica,
Sua cara corada e pálida, em pânico:
Você botou os gatos dela pra fora da janela
Numa caixa com areia
Onde podem vomitar e cagar e miar sem que ela possa ouvir.
Você diz que não suporta mais,
A putinha.
Você queimou suas válvulas como um rádio velho
Limpo de vozes e história, o ruído novo
Da estática.
Você diz que eu afogaria os gatinhos. Que fedor!
Você diz que eu afogaria minha filha.
Ela vai cortar a garganta aos dez se não pirar aos dois.
O sorriso do bebê, lesma obesa,
Nos losangos lustrados de linóleo laranja.
Você podia comê-lo. É um menino.
Você diz que seu marido não é bom pra você.
Sua mãe judia vigia seu sexo como jóia.
Você tem um bebê, eu tenho dois.
Eu bem podia me sentar numa rocha e me pentear.
Podia usar colã de tigresa e ter um affair.
A gente bem que podia se ver na outra vida, se ver no ar,
Só eu e você.
Porém há um cheiro de banha e cocô de bebê.
Estou dopada e enjoada depois do último sonífero.
Fumaça de cozinha, fumaça infernal
Nos sobrevoa, rivais venenosas,
Nossos ossos, nossos pêlos.
Te xingo de Órfã, órfã. Você esta doente.
O sol te dá úlcera, o vento, tuberculose.
Um dia você foi bonita.
Em Nova York, em Hollywood, os homens te diziam: "Acabou?
Gata, você é demais!".
Você servia, servia, servia pro papel.
E o marido brocha sai pra tomar um café.
Tento segurá-lo, não saio,
Relâmpago para um velho pára-raio,
Os banhos ácidos, um céu inteiro cheio de você.
Ele despenca da colina de plástico.
Trem desgovernado. Faíscas azuis se espalham,
Trincando como quartzo em milhões de pedacinhos.
O jóia! Ó valiosa!
Naquela noite a lua
Arrastou seu saco de sangue, animal
Doente
Por sobre as luzes do cais.
Então voltava ao crescente,
Dura, branca e ausente.
Na areia o brilho das escamas me matava de medo.
A gente as apanhava aos montes, curtindo,
Modelando-as como massa, um corpo mulato,
Grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cachorro. E se mandou.
Agora estou quieta, ódio
Até o pescoço,
Grosso, grosso
Não falo nisso.
Empacoto batatas como roupas finas,
Empacoto os bebês,
Empacoto os gatos doentes.
Oh, ampola de ácido,
É de amor que você esta cheia. Você sabe quem você odeia.
Ele ruge e arrasta as correntes pelo portão
Que se abre pro mar
Onde ele invade, preto e branco,
E o vomita de volta.
Você o enche com seus papos profundos, como um jarro.
Você está um trapo.
Sua voz, meu brinco,
Voa e suga, morcego que ama sangue.
Isso é isso. Aquilo é aquilo.
Você escuta atrás da porta,
Bruxa triste. "Toda mulher é uma puta.
Não consigo dialogar."
Vejo seu fino décor
Te fechando como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, esse mar.
Meu bem, cleptomaníaco.
Ainda estou crua.
Quem sabe um dia eu vou voltar.
Você sabe pra que servem as mentiras
Nem no seu paraíso Zen a gente vai se cruzar.
1 763
Lêdo Ivo
Os Morcegos
Os morcegos se escondem entre as cornijas
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?
A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.
Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?
No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.
Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oitoirmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.
The Bats Poema em Inglês
da alfândega. Mas onde se escondem os homens,
que contudo voam a vida inteiro no escuro,
chocando-se contra as paredes brancas do amor?
A casa de nosso pai era cheia de morcegos
pendentes, como luminárias, dos velhos caibros
que sustentavam o telhado ameaçado pelas chuvas.
"Estes filhos chupam o nosso sangue", suspirava meu pai.
Que homem jogará a primeira pedra nesse mamífero
que, como ele, se nutre do sangue dos outros bichos
(meu irmão! meu irmão!) e, comunitário, exige
o suor do semelhante mesmo na escuridão?
No halo de um seio jovem como a noite
esconde-se o homem; na paina de seu travesseiro, na luz
do farol
o homem guarda as moedas douradas de seu amor.
Mas o morcego, dormindo como um pêndulo, só guarda
o dia ofendido.
Ao morrer, nosso pai nos deixou (a mim e a meus oitoirmãos)
a sua casa onde à noite chovia pelas telhas quebradas.
Levantamos a hipoteca e conservamos os morcegos.
E entre os nossas paredes eles se debatem: cegos como nós.
The Bats Poema em Inglês
2 155
Sosigenes Costa
A Chuva Vem Cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 232
Juscelino Vieira Mendes
Pais Escolhidos
(para Lucas e Laura)
Madrugamos no desconhecido
Por ímpetos de felicidade
Em mundo hostil
Sem herdade
Inópia de tudo
Às escâncaras chegamos
Em busca de amor, inconscientemente
Sonhamos
Conheceríamos os verbos,
No imperativo
Por ato de amor, conhecemo-los
No futuro do subjuntivo
Amor
Não apenas amizade
Sem "ímpeto"
De sincera felicidade
De pais,
que no dizer de sumidade,
‘Trazem na retina
A alma da hospitalidade’
Pais escolhidos
Escolhidos por Deus
Com eterna candura
Dos filhos teus...
Madrugamos no desconhecido
Por ímpetos de felicidade
Em mundo hostil
Sem herdade
Inópia de tudo
Às escâncaras chegamos
Em busca de amor, inconscientemente
Sonhamos
Conheceríamos os verbos,
No imperativo
Por ato de amor, conhecemo-los
No futuro do subjuntivo
Amor
Não apenas amizade
Sem "ímpeto"
De sincera felicidade
De pais,
que no dizer de sumidade,
‘Trazem na retina
A alma da hospitalidade’
Pais escolhidos
Escolhidos por Deus
Com eterna candura
Dos filhos teus...
992
Lêdo Ivo
The Bats
Bats hide in the eaves of the customs house.
But where do the men hide who also fly
Their whole lives in the dark,
Bumping against white walls of love?
Our fathers house was full of bats
hanging like lanterns from the old rafters
that supported the roof threatened by the rains.
"These children suck our blood," my father would sigh.
What man will throw the first stone at that mammal
who, like himself, is nourished by the blood of other beasts
(my brother! my brother!) and, banded together, demands
the sweat of his like even in the dark?
Man hides on the halo of a breast as young as the night;
on the fabric of his pillow, in the lantern light
man hoards the golden coins of his love.
But the bat, sleeping like a pendulum, only hoards the
offended day.
When he died, our father left us (myself and my eight
brothers)
his house where, at night, it rained through the broken
tiles.
We redeemed the loan and saved the bats.
Between our walls they wrangle, blind as we.
Os morcegos Poema em Português
But where do the men hide who also fly
Their whole lives in the dark,
Bumping against white walls of love?
Our fathers house was full of bats
hanging like lanterns from the old rafters
that supported the roof threatened by the rains.
"These children suck our blood," my father would sigh.
What man will throw the first stone at that mammal
who, like himself, is nourished by the blood of other beasts
(my brother! my brother!) and, banded together, demands
the sweat of his like even in the dark?
Man hides on the halo of a breast as young as the night;
on the fabric of his pillow, in the lantern light
man hoards the golden coins of his love.
But the bat, sleeping like a pendulum, only hoards the
offended day.
When he died, our father left us (myself and my eight
brothers)
his house where, at night, it rained through the broken
tiles.
We redeemed the loan and saved the bats.
Between our walls they wrangle, blind as we.
Os morcegos Poema em Português
1 349
Vladimir Maiakovski
GAROTO
Fui agraciado com o amor sem limites.
Mas, quando garoto,
a gente preocupada trabalhava
e eu escapava para as margens do rio Rion
e vagava sem fazer nada.
Aborrecia-se minha mãe:
"Garoto danado!"
Meu pai me ameaçava com o cinturão.
Mas eu, com três rublos falsos,
jogava com os soldados sob os muros.
Sem o peso da camisa,
sem o peso das botas,
de costas ou de barriga no chão,
torrava-me ao sol de Kutaís
até sentir pontadas no coração.
O sol assombrava:
"Daquele tamainho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?"
Mas, quando garoto,
a gente preocupada trabalhava
e eu escapava para as margens do rio Rion
e vagava sem fazer nada.
Aborrecia-se minha mãe:
"Garoto danado!"
Meu pai me ameaçava com o cinturão.
Mas eu, com três rublos falsos,
jogava com os soldados sob os muros.
Sem o peso da camisa,
sem o peso das botas,
de costas ou de barriga no chão,
torrava-me ao sol de Kutaís
até sentir pontadas no coração.
O sol assombrava:
"Daquele tamainho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?"
2 121
Ana Paula Ribeiro Tavares
Rapariga
Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho
Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -
Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...
Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.
Luanda, 84
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho
Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -
Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...
Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.
Luanda, 84
3 687
Manuel Bandeira
Palinódia
Quem te chamara prima
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais
Naquele inverno
Tomaste banhos de mar
Visitaste as igrejas
(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)
Tiraste retratos enormes
Telefonavas telefonavas...
Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
— Primeva.
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais
Naquele inverno
Tomaste banhos de mar
Visitaste as igrejas
(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)
Tiraste retratos enormes
Telefonavas telefonavas...
Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
— Primeva.
5 069
José Sarney
Carta do Anti-Santo José
aos seus tristes
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
EU, de nome José,
rasguei os olhos da vida
em cinza manhã de abril.
Chorei e o campo chovia
onde a cidade pedia
tempos, clemência e amor.
BENDITO sejais chão Pinheiro
com o canto dos bois
e os patos selvagens
que deixam as nuvens
e os ventos gigantes
que lhe guiaram as asas
cruzando oceanos
e pousaram
à beira dos Defuntos
onde sacodem a viagem
e fazem ninhos
na folha das plantas aquáticas
que flutuam como anjos deitados
na mansidão dos lagos.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo abandono dessa sombra
que prometeu entregar-me o corpo
de pelúcias de carne para que eu o amasse
com a força de todas as tempestades
e eu nunca o amei.
NÃO me julgueis por haver
começado o meu caminho
naquela canoa de toldos
e ramos que cantavam,
"bendito é o santo nome".
EU fui ferido pelos vampiros gigantes
que esmagaram a sunga de chita colegial
feita de flores pequenas e alças de rendas
onde ficou sepultado para sempre
o seu sexo pequenino
e o meu primeiro olhar
que eu carregava nas mãos
como o cálice
daquele vinho
do corpo de Deus que eu não bebi
para embriagar-me
na fome de amar a pronta carne,
o pão, o fruto, a vida e
os peixes que habitavam os lagos desse campo
que me abriu os olhos numa manhã de abril.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo que fui
e jamais fui e sempre serei,
pois de não ser vou sendo
esta noite que não teve pôr de sol.
EU juro que a cadela que latia
junto de tuas mãos e eu dizia que era raiva
devia ter morrido
para que hoje eu não a lembrasse
para matar o meu ódio e ressuscitar o meu nojo
de pensar que eu fui capaz de amar
e os ventos da minha vida
não têm mais velas a empurrar
nem barcos para sair do Rio Pericumã e chegar
ao mar alto da Ponta de Itacolomi
e ali afundar
como afundaram
nas pedras eternas de moluscos
tantas navegações e tantos monstros.
IRMÃOS:
Eu habitei a Rua da Madre de Deus
onde os teares funcionavam dia e noite, no número 127.
Dona Sérgia! eu te beijo cerzideira
que me carregou de amor quando os outros me cuspiam
e as estátuas de porcelana branca que vieram de Portugal
guardavam vigilantes as cumeeiras largas do casario da Fábrica
onde batiam algodão branco e doce
da velha indústria Santa Amélia
e as operárias furtavam
os casulos
para higiene do ciclo menstrual
naquele mundo de louças
fusos, caldeiras e fardos.
A Fonte das Pedras
que de pedras tinha a água que escorria como sangue
das carrancas que jamais aceitaram o suor dos escravos
que Dona Ana Jansen fazia atirar nos poços de lanças
para serem espetados e se transformarem em fantasmas que
enchiam de gemidos todos os becos desta cidade que
nasceu para ser possuída em coitos de agonia e pecado
e em virgindades com cheiro de alfazema
entre o amor e as picadas de arraia.
IRMÃOS:
NÃO me julgueis pelo bonde de minha infância que matei
porque eu o amava e o matei,
como se não mata o amor, mas
pelo indesejo da morte.
ELE não corre e foram minhas mãos
que o trucidaram e trucidaram com ele
as moças todas que estavam na janela
e eu desejava casar para fazer filhos que
de novo pegassem o bonde
e fossem até o fim dos caminhos
e de novo fizessem outros filhos e outros mais
para que o bonde fosse o trilho eterno
e não o fim do filho.
..............................................
IRMÃOS:
NÃO me julguei por não haver fugido
com a trapezista do circo mambembe,
com que todos os meninos
das cidades de cavalos e cabeças-de-cuia
pensam fugir para viver em
acrobacias e picadeiros.
Eu a reencontrei em Brooklin, num janeiro de neve
nessa cidade de Nova Iorque que eu também amei
como se ama a prostituta pintada
que nos acena com uma noite de orgia.
O táxi amarelo parou. De repente ao meu lado
a trapezista que eu tinha amado
e ali repousava de sandálias e tranças.
Ao meu espanto apenas disse:
José!
De repente o mundo voltou ao princípio e eu senti
que os passarinhos podem cantar em Manhatan como
na mangueira velha do quintal da casa do velho José Costa,
meu avô,
que me disse um dia:
Guarda a tua alma e o teu corpo em vinha-dalho,
porque a vida é feita de postas azedas
em que os figos e as melancias não têm nem gosto nem cor.
IRMÃOS:
EU, José,
vos digo que a vida é um bando de itãs
que gritam histéricas
na beira do lago de Viana à espera
da terra parar de repente
e de repente a canarana ter flores eternas
as mangueiras terem galhos de meia légua e
debaixo de sua sombra
os índios pedirem amor com os anjos,
plantando rosas de capim de marreca
e o homem Senhor do destino
possa descansar os seus lábios vermelhos
nos seios das deusas jovens,
adormecidas nas aguadas de ventos,
novilhas de todos os mundos.
IRMÃOS:
PERDOAI-ME de dizer a Deus
que ele não pode pisar meus caminhos
com os pés de cardos
que romperam de sangue a coroa fria e sem glória
desses dias que ele me deu e eu esmaguei.
IRMÃOS:
perdoai-me.
o sonho da morte é uma nuvem
que não cobre as eternas noites da vida.
(Os Maribondos de Fogo / 1978)
1 619
Dan Pagis
Escrito a lápis em um vagão de trem lacrado
Aqui neste vagão
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu
("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)
eu Eva
com meu filho Abel
se virem meu primogênito
Caim filho de Adão
digam-lhe que eu
("tradução" perpetrada por Ricardo Domeneck a partir das versões inglesa, espanhola e alemã.)
1 416
Francisco José Tenreiro
Ciclo do álcool
1
Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
Bebeu metade...
E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.
2
A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
È o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!
3
Mãe Negra contou:
"eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!..."
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
"Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele..."
Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.
"Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!.
Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
Bebeu metade...
E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.
2
A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
È o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!
3
Mãe Negra contou:
"eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!..."
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
"Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele..."
Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.
"Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!.
2 332
Charles Olson
Maximus para Gloucester, Carta 27 [retida]
Eu retorno a tal geografia,
a terra descendo à esquerda
onde meu pai atirava seu golfe ronhoso
e o resto de nós jogava beisebol
noite de verão adentro até haver mosca
nenhuma à vista e voltávamos para casa
em nossas várias piazzas onde mulheres
sibilavam
À esquerda a terra descia até a cidade,
à direita descia até o mar
Eu era tão jovem minha primeira memória
é de uma tenda armada para alimentar com lagostas
membros de uma convenção da Rexall, e meu pai,
piadista, saía da tenda rugindo
com uma faca de pão entre os dentes para cuidar
do farmacêutico que lhe disseram havia cantado
minha mãe, ela gargalhando, tão segura, redonda
como seu rosto, Hines rosácea e maçã,
sob um chapéu armado das mulheres de então
Isto não é adição nua
de novidade em forma abstrata, isto
não é tumulto ou as formas
de tais eventos, isto,
Gregos, é o término
da batalha
....................É a imposição
de todas aquelas ascendências passadas, os antepassados
meus, a geração daqueles fatos
que são minhas palavras, provêm
de tudo o que não sou mais, contudo sou,
o movimento lento de leste a oeste
de mais do que eu sou
Não há ordem estritamente pessoal
para a minha herança.
....................Grego nenhum será capaz
de discriminar meu corpo.
....................Um americano
é um complexo de ocasiões,
elas mesmas uma geometria
de natureza espacial.
....................Eu tenho esta noção
de que sou um
com minha pele
Mais isto - mais isto:
que eternamente a geografia
que sobre mim se debruça
eu ponho-me a coagir
retroativo a coagir Gloucester
a render-se, a
mudar
....................Pólis
é isto
tradução de Ricardo Domeneck
Maximus to Gloucester, Letter 27 [withheld]
I come back to the geography of it,
the land falling off to the left
where my father shot his scabby golf
and the rest of us played baseball
into the summer darkness until no flies
could be seen and we came home
to our various piazzas where the women
buzzed
To the left the land fell to the city,
to the right, it fell to the sea
I was so young my first memory
is of a tent spread to feed lobsters
to Rexall conventioneers, and my father,
a man for kicks, came out of the tent roaring
with a bread-knife in his teeth to take care of
the druggist they"d told him had made a pass at
my mother, she laughing, so sure, as round
as her face, Hines pink and apple,
under one of those frame hats women then
This, is no bare incoming
of novel abstract form, this
is no welter or the forms
of those events, this,
Greeks, is the stopping
of the battle
....................It is the imposing
of all those antecedent predecessions, the precessions
of me, the generation of those facts
which are my words, it is coming
from all that I no longer am, yet am,
the slow westward motion of
more than I am
There is no strict personal order
for my inheritance.
........................No Greek will be able
to discriminate my body.
....................An American
is a complex of occasions,
themselves a geometry
of spatial nature.
....................I have this sense,
that I am one
with my skin
....................Plus this-plus this:
that forever the geography
which leans in
on me I compell
backwards I compell Gloucester
to yield, to
change
....................Polis
is this
a terra descendo à esquerda
onde meu pai atirava seu golfe ronhoso
e o resto de nós jogava beisebol
noite de verão adentro até haver mosca
nenhuma à vista e voltávamos para casa
em nossas várias piazzas onde mulheres
sibilavam
À esquerda a terra descia até a cidade,
à direita descia até o mar
Eu era tão jovem minha primeira memória
é de uma tenda armada para alimentar com lagostas
membros de uma convenção da Rexall, e meu pai,
piadista, saía da tenda rugindo
com uma faca de pão entre os dentes para cuidar
do farmacêutico que lhe disseram havia cantado
minha mãe, ela gargalhando, tão segura, redonda
como seu rosto, Hines rosácea e maçã,
sob um chapéu armado das mulheres de então
Isto não é adição nua
de novidade em forma abstrata, isto
não é tumulto ou as formas
de tais eventos, isto,
Gregos, é o término
da batalha
....................É a imposição
de todas aquelas ascendências passadas, os antepassados
meus, a geração daqueles fatos
que são minhas palavras, provêm
de tudo o que não sou mais, contudo sou,
o movimento lento de leste a oeste
de mais do que eu sou
Não há ordem estritamente pessoal
para a minha herança.
....................Grego nenhum será capaz
de discriminar meu corpo.
....................Um americano
é um complexo de ocasiões,
elas mesmas uma geometria
de natureza espacial.
....................Eu tenho esta noção
de que sou um
com minha pele
Mais isto - mais isto:
que eternamente a geografia
que sobre mim se debruça
eu ponho-me a coagir
retroativo a coagir Gloucester
a render-se, a
mudar
....................Pólis
é isto
tradução de Ricardo Domeneck
Maximus to Gloucester, Letter 27 [withheld]
I come back to the geography of it,
the land falling off to the left
where my father shot his scabby golf
and the rest of us played baseball
into the summer darkness until no flies
could be seen and we came home
to our various piazzas where the women
buzzed
To the left the land fell to the city,
to the right, it fell to the sea
I was so young my first memory
is of a tent spread to feed lobsters
to Rexall conventioneers, and my father,
a man for kicks, came out of the tent roaring
with a bread-knife in his teeth to take care of
the druggist they"d told him had made a pass at
my mother, she laughing, so sure, as round
as her face, Hines pink and apple,
under one of those frame hats women then
This, is no bare incoming
of novel abstract form, this
is no welter or the forms
of those events, this,
Greeks, is the stopping
of the battle
....................It is the imposing
of all those antecedent predecessions, the precessions
of me, the generation of those facts
which are my words, it is coming
from all that I no longer am, yet am,
the slow westward motion of
more than I am
There is no strict personal order
for my inheritance.
........................No Greek will be able
to discriminate my body.
....................An American
is a complex of occasions,
themselves a geometry
of spatial nature.
....................I have this sense,
that I am one
with my skin
....................Plus this-plus this:
that forever the geography
which leans in
on me I compell
backwards I compell Gloucester
to yield, to
change
....................Polis
is this
1 081
Tite de Lemos
Irmandade
O meu irmão habita os pântanos e os bosques
ermos, os fundos dos quintais onde não vai
ninguém. Eu tive a mesma mãe e o mesmo pai
mas gosto mais das aquarelas dos pomares,
dos lugares aéreos, de coisas assim.
Eu toco címbalo e marimba, ele mergulha
nas oceânicas igrejas, conchas, símbolos
significando nada além dos seus barulhos
e é um devorador de ostras e escraviza
toda mulher que ama, todos os dragões
que doma; e o meu esporte é cavalgar a brisa
passageira. Seremos para sempre dois
— como o chá e o limão, a coca-cola e o rum —
até que o acaso nos convide a ser só um
In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. Pref. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis)
ermos, os fundos dos quintais onde não vai
ninguém. Eu tive a mesma mãe e o mesmo pai
mas gosto mais das aquarelas dos pomares,
dos lugares aéreos, de coisas assim.
Eu toco címbalo e marimba, ele mergulha
nas oceânicas igrejas, conchas, símbolos
significando nada além dos seus barulhos
e é um devorador de ostras e escraviza
toda mulher que ama, todos os dragões
que doma; e o meu esporte é cavalgar a brisa
passageira. Seremos para sempre dois
— como o chá e o limão, a coca-cola e o rum —
até que o acaso nos convide a ser só um
In: LEMOS, Tite de. Marcas do Zorro. Pref. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. (Poiesis)
1 288
Carlos Drummond de Andrade
A Separação Das Casas
Os deste lado brigaram
com os do lado de lá.
Não foi briga de xingar,
não foi rixa de bater
nem de sacar o revólver.
É briga de não falar
e de cerrar a janela
devagar e sem ranger,
se passa alguém do outro lado.
Briga de não conhecer
quem antes se conhecia,
se estimava, se tratava
com a maior civilidade,
quem antes se convidava
pra festa de batizado
e primeira comunhão,
casamento, aniversário
ou pra simples assustado,
a quem, se acaso surgisse
gente demais no jantar,
emprestado se pedia
meia dúzia de cadeiras
e meia dúzia de copos,
e que também recorria
com toda sem-cerimônia
à vizinhança amistosa
em noite de dor na perna
e de farmácia fechada
com vistas ao milagroso
vidrinho de Pronto Alívio
ou em outro qualquer aperto
que costuma suceder
nos lares mais bem providos.
Troca-troca se fazia
de doces, frutas, temperos,
receitas de forno e bilro,
mimos de mil qualidades
no vai e volta de cestas,
terrinas e tabuleiros.
Crianças das duas casas
unidas num só brinquedo
de chicotinho queimado,
carniça, gata-parida
e manja, roda, cantigas
lusamente brasileiras,
ou melhor, universais.
Té se faz de mentirinha
casamento de meninos
que talvez se torne um dia
matrimônio de verdade
em gorda concentração
de fortunas e de afetos.
(O mundo, calmo, autoriza
esperar dez, quinze anos.)
Eis de súbito alterado
o panorama gentil
de tão grata convivência.
Não se tira mais chapéu
nem mais se exibem risonhos
dentes de cordialidade,
já se finge não haver,
dos dois lados desta rua,
ninguém morando por perto.
Há um vazio de cem léguas
na estreiteza das calçadas.
Pequenos brinquem no quarto,
o velocípede novo
rode da sala à cozinha,
muito embora atropelando
grandes de todo respeito,
e quem fizer um aceno
para vulto de outro lado
entra feio na chinela
de ramagem verde hostil.
No grupo escolar, cuidado:
ninguém vá se misturar.
Que foi que houve, que não
houve, se nada sabemos?
Quem por acaso decifra
o que pode haver no ar
ou na cabeça dos grandes
reticentes, sigilosos?
Do lado de lá não sabem;
do lado de cá, também.
Não se filtra explicação.
Cala a boca! é a resposta
a quem demais especule.
E todo o mundo virou
cofre estranho de mistério
exemplarmente fechado
a mãos, olhares, perguntas…
Mas a velha cozinheira,
peça antiga da família,
que tudo sabe e resmunga
seu misto de língua longe
e de estalar de panela,
cospe de lado e define:
— Candonga, gente. Candonga.
com os do lado de lá.
Não foi briga de xingar,
não foi rixa de bater
nem de sacar o revólver.
É briga de não falar
e de cerrar a janela
devagar e sem ranger,
se passa alguém do outro lado.
Briga de não conhecer
quem antes se conhecia,
se estimava, se tratava
com a maior civilidade,
quem antes se convidava
pra festa de batizado
e primeira comunhão,
casamento, aniversário
ou pra simples assustado,
a quem, se acaso surgisse
gente demais no jantar,
emprestado se pedia
meia dúzia de cadeiras
e meia dúzia de copos,
e que também recorria
com toda sem-cerimônia
à vizinhança amistosa
em noite de dor na perna
e de farmácia fechada
com vistas ao milagroso
vidrinho de Pronto Alívio
ou em outro qualquer aperto
que costuma suceder
nos lares mais bem providos.
Troca-troca se fazia
de doces, frutas, temperos,
receitas de forno e bilro,
mimos de mil qualidades
no vai e volta de cestas,
terrinas e tabuleiros.
Crianças das duas casas
unidas num só brinquedo
de chicotinho queimado,
carniça, gata-parida
e manja, roda, cantigas
lusamente brasileiras,
ou melhor, universais.
Té se faz de mentirinha
casamento de meninos
que talvez se torne um dia
matrimônio de verdade
em gorda concentração
de fortunas e de afetos.
(O mundo, calmo, autoriza
esperar dez, quinze anos.)
Eis de súbito alterado
o panorama gentil
de tão grata convivência.
Não se tira mais chapéu
nem mais se exibem risonhos
dentes de cordialidade,
já se finge não haver,
dos dois lados desta rua,
ninguém morando por perto.
Há um vazio de cem léguas
na estreiteza das calçadas.
Pequenos brinquem no quarto,
o velocípede novo
rode da sala à cozinha,
muito embora atropelando
grandes de todo respeito,
e quem fizer um aceno
para vulto de outro lado
entra feio na chinela
de ramagem verde hostil.
No grupo escolar, cuidado:
ninguém vá se misturar.
Que foi que houve, que não
houve, se nada sabemos?
Quem por acaso decifra
o que pode haver no ar
ou na cabeça dos grandes
reticentes, sigilosos?
Do lado de lá não sabem;
do lado de cá, também.
Não se filtra explicação.
Cala a boca! é a resposta
a quem demais especule.
E todo o mundo virou
cofre estranho de mistério
exemplarmente fechado
a mãos, olhares, perguntas…
Mas a velha cozinheira,
peça antiga da família,
que tudo sabe e resmunga
seu misto de língua longe
e de estalar de panela,
cospe de lado e define:
— Candonga, gente. Candonga.
988
Marta Gonçalves
O Retrato
(Em memória de Teresinha, minha irmã, em seu aniversário).
Na tarde o perfume da gardênia
os sóis entrando na vidraça.
O retrato navega no oceano
com olhos de tempestade.
Nasce uma rosa em março
nascem passos de ausência
na alma.
Na cristaleira o licor
o licor guardado
na interminável partida.
Vieste alimentar os pássaros
no alpendre
vieste guarnecer de lágrima os olhos.
Há dias preparo as paredes
preparo a cadeira marrom
preparo a carcaça.
Tua figura traz uma mensagem
que se desfaz no espaço
no vento.
O afeto o afeto
devassa os elementos do ser.
Resta o verão o jardim os violinos
o desespero do rosto
que jamais veremos.
Na tarde o perfume da gardênia
os sóis entrando na vidraça.
O retrato navega no oceano
com olhos de tempestade.
Nasce uma rosa em março
nascem passos de ausência
na alma.
Na cristaleira o licor
o licor guardado
na interminável partida.
Vieste alimentar os pássaros
no alpendre
vieste guarnecer de lágrima os olhos.
Há dias preparo as paredes
preparo a cadeira marrom
preparo a carcaça.
Tua figura traz uma mensagem
que se desfaz no espaço
no vento.
O afeto o afeto
devassa os elementos do ser.
Resta o verão o jardim os violinos
o desespero do rosto
que jamais veremos.
1 027
Carlos Drummond de Andrade
História Trágica
— Esta ponte está podre,
não passa de janeiro.
Ou cai agora ou não me chamo
Flordualdo.
— Esta ponte cair? Meu avô foi quem fez.
Ninguém vivo, atual, dura mais do que ela.
Esta ponte é de Deus,
é Deus quem toma conta
da madeira e dos ferros,
eterno, tudo eterno.
— Pois eu digo que sim.
Repare nos buracos.
Você passa e ela treme
de velhice. O caruncho
alastrado nas vigas.
Esta ponte é o diabo,
ela está condenada
só você que não sabe.
— Alto lá.
Esta ponte é sagrada.
É ponte de família
que meu pai ajudou
a tirar da cabeça
e a dominar as águas.
Ela há de viver
nos séculos dos séculos
contra caruncho e raio,
dinamite e praga.
E, pra encurtar conversa,
eu Mateus te afianço:
antes que a ponte caia,
você cairá da ponte
com esta bala certeira:
toma.
não passa de janeiro.
Ou cai agora ou não me chamo
Flordualdo.
— Esta ponte cair? Meu avô foi quem fez.
Ninguém vivo, atual, dura mais do que ela.
Esta ponte é de Deus,
é Deus quem toma conta
da madeira e dos ferros,
eterno, tudo eterno.
— Pois eu digo que sim.
Repare nos buracos.
Você passa e ela treme
de velhice. O caruncho
alastrado nas vigas.
Esta ponte é o diabo,
ela está condenada
só você que não sabe.
— Alto lá.
Esta ponte é sagrada.
É ponte de família
que meu pai ajudou
a tirar da cabeça
e a dominar as águas.
Ela há de viver
nos séculos dos séculos
contra caruncho e raio,
dinamite e praga.
E, pra encurtar conversa,
eu Mateus te afianço:
antes que a ponte caia,
você cairá da ponte
com esta bala certeira:
toma.
1 071
Raul Seixas
Sacrilégio
Eu acordo de madrugada
Eu acordo com quase nada
Areei meus dentes
Penteei os cabelos
Enxagüei meu rosto inchado
Me armei da 007
Me meti no paletó
Quase me enforquei no nó
Da minha gravata
Um beijo na minha mulher
E dezessete beijos e meio
Um em cada filho meu
Meninada que eu tenho estima e afeição
Eu sou bancário
Meu banco é de sangue
Eu sou bancário
Eu jorro meu sangue
Eu sou bancário
Os olhos de Drácula
Pousam sobre mim
Firme, na escuta do PBX
Eu acordo com quase nada
Areei meus dentes
Penteei os cabelos
Enxagüei meu rosto inchado
Me armei da 007
Me meti no paletó
Quase me enforquei no nó
Da minha gravata
Um beijo na minha mulher
E dezessete beijos e meio
Um em cada filho meu
Meninada que eu tenho estima e afeição
Eu sou bancário
Meu banco é de sangue
Eu sou bancário
Eu jorro meu sangue
Eu sou bancário
Os olhos de Drácula
Pousam sobre mim
Firme, na escuta do PBX
1 081
Carlos Drummond de Andrade
Fim da Casa Paterna
I
E chega a hora negra de estudar.
Hora de viajar
rumo à sabedoria do colégio.
Além, muito além de mato e serra,
fica o internato sem doçura.
Risos perguntando, maliciosos
no pátio de recreio, imprevisível.
O colchão diferente.
O despertar em série (nunca mais
acordo individualmente, soberano).
A fisionomia indecifrável
dos padres professores.
Até o céu diferente: céu de exílio.
Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.
Vou dobrar-me
à regra nova de viver.
Ser outro que não eu, até agora
musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado
no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser — talvez isso — apenas eu
unicamente eu, a revelar-me
na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu, prefiro continuar
objeto de família.
II
A “condução” me espera:
o cavalo arreado, o alforje
da matalotagem,
o burrinho de carga,
o camarada-escudeiro, que irá
na retaguarda,
meu pai-imperador, o Abre-Caminho.
Os olhos se despedem da paisagem
que não me retribui.
A casa, a própria casa me ignora.
Nenhuma xícara ou porta me deseja
boa viagem.
Só o lenço de minha mãe fala comigo
e já se recolheu.
III
São oito léguas compridas
no universo sem estradas.
São morros de não acaba
e trilhas de tropa lenta
a nos barrar a passagem.
Pequenos rios de barro
sem iaras, sem canoas
e uns solitários coqueiros
vigiando mortas casas
de falecidas fazendas.
Ou são mergulhos na lama
de patas que não têm pressa
de chegar a Santa Bárbara.
Quando termina a viagem,
se por acaso termina,
pois vai sempre se adiando
o pouso que o pai promete
a consolar o menino?
Que imenso país é este
das Minas fora do mapa
contido no meu caderno?
Que Minas sem fim nem traço
de resmungo entre raríssimos
roceiros que apenas roçam
mão na aba do chapéu
em saudação de passante?
O cavalgar inexperto
martiriza o corpo exausto.
Se bem que macia a seda,
deixa o traseiro esfolado.
Até que afinal, hosana!
apeando em São Gonçalo
diante da suspirada
venda de Augusto Pessoa,
meu pai, descansando, estende-me
o copo quente e divino
de uma cerveja Fidalga.
Bebi. Bebemos. Avante.
IV
Tenho que assimilar a singularidade
do trem de ferro.
Sua bufante locomotiva, seus estertores,
seus rangidos, a angustiante
ou festiva mensagem do seu apito.
Ah, seus assentos conjugados de palhinha
sobre o estofo.
Nunca viajei em bloco, a vida
começa a complicar-se.
Novidade intrigante, o sabonete
preso na corrente.
Minha terra era livre, e meu quarto infinito.
E chega a hora negra de estudar.
Hora de viajar
rumo à sabedoria do colégio.
Além, muito além de mato e serra,
fica o internato sem doçura.
Risos perguntando, maliciosos
no pátio de recreio, imprevisível.
O colchão diferente.
O despertar em série (nunca mais
acordo individualmente, soberano).
A fisionomia indecifrável
dos padres professores.
Até o céu diferente: céu de exílio.
Eu sei, que nunca vi, e tenho medo.
Vou dobrar-me
à regra nova de viver.
Ser outro que não eu, até agora
musicalmente agasalhado
na voz de minha mãe, que cura doenças,
escorado
no bronze de meu pai, que afasta os raios.
Ou vou ser — talvez isso — apenas eu
unicamente eu, a revelar-me
na sozinha aventura em terra estranha?
Agora me retalha
o canivete desta descoberta:
eu não quero ser eu, prefiro continuar
objeto de família.
II
A “condução” me espera:
o cavalo arreado, o alforje
da matalotagem,
o burrinho de carga,
o camarada-escudeiro, que irá
na retaguarda,
meu pai-imperador, o Abre-Caminho.
Os olhos se despedem da paisagem
que não me retribui.
A casa, a própria casa me ignora.
Nenhuma xícara ou porta me deseja
boa viagem.
Só o lenço de minha mãe fala comigo
e já se recolheu.
III
São oito léguas compridas
no universo sem estradas.
São morros de não acaba
e trilhas de tropa lenta
a nos barrar a passagem.
Pequenos rios de barro
sem iaras, sem canoas
e uns solitários coqueiros
vigiando mortas casas
de falecidas fazendas.
Ou são mergulhos na lama
de patas que não têm pressa
de chegar a Santa Bárbara.
Quando termina a viagem,
se por acaso termina,
pois vai sempre se adiando
o pouso que o pai promete
a consolar o menino?
Que imenso país é este
das Minas fora do mapa
contido no meu caderno?
Que Minas sem fim nem traço
de resmungo entre raríssimos
roceiros que apenas roçam
mão na aba do chapéu
em saudação de passante?
O cavalgar inexperto
martiriza o corpo exausto.
Se bem que macia a seda,
deixa o traseiro esfolado.
Até que afinal, hosana!
apeando em São Gonçalo
diante da suspirada
venda de Augusto Pessoa,
meu pai, descansando, estende-me
o copo quente e divino
de uma cerveja Fidalga.
Bebi. Bebemos. Avante.
IV
Tenho que assimilar a singularidade
do trem de ferro.
Sua bufante locomotiva, seus estertores,
seus rangidos, a angustiante
ou festiva mensagem do seu apito.
Ah, seus assentos conjugados de palhinha
sobre o estofo.
Nunca viajei em bloco, a vida
começa a complicar-se.
Novidade intrigante, o sabonete
preso na corrente.
Minha terra era livre, e meu quarto infinito.
1 642
Carlos Drummond de Andrade
Programa
Que vais fazer no dia de saída?
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
1 077
Carlos Nejar
Testamento
Testamento
não fiz.
E toda a consistência
De a tempo procedê-lo
É ser ou não feliz.
Testamento não fiz.
A minha amada
Saberá prosseguir.
Um documento
não tem bens de raiz
é como o vento.
A meus filhos deixo
uma espécie de tempo
capaz de transcorrer
sem passamento.
Estou lúcido, embora
não haja remos
no meu pensamento.
Testamento não fiz
mas minha competência
é estar na vida
mesmo não estando,
é ser por excelência
o muito que ela ensina
e o pouco que ela aceita.
Não deixo testamento.
favores desdenhei
nem fiz por merecê-los.
Os bens de uso vão-se;
um bocado conosco
e outro, com os herdeiros.
O passado, o presente
é sempre o mesmo prêmio:
viver é ser constante.
Competência não tenho,
salvo a de transporte
dos meus e dos teus dotes.
Todos os passaportes
e cartas de viagem
passaram na embaixada.
Mas por ser estrangeiro
de corpo e de mar alto,
testamento não fiz
e nem posso fazê-lo.
não fiz.
E toda a consistência
De a tempo procedê-lo
É ser ou não feliz.
Testamento não fiz.
A minha amada
Saberá prosseguir.
Um documento
não tem bens de raiz
é como o vento.
A meus filhos deixo
uma espécie de tempo
capaz de transcorrer
sem passamento.
Estou lúcido, embora
não haja remos
no meu pensamento.
Testamento não fiz
mas minha competência
é estar na vida
mesmo não estando,
é ser por excelência
o muito que ela ensina
e o pouco que ela aceita.
Não deixo testamento.
favores desdenhei
nem fiz por merecê-los.
Os bens de uso vão-se;
um bocado conosco
e outro, com os herdeiros.
O passado, o presente
é sempre o mesmo prêmio:
viver é ser constante.
Competência não tenho,
salvo a de transporte
dos meus e dos teus dotes.
Todos os passaportes
e cartas de viagem
passaram na embaixada.
Mas por ser estrangeiro
de corpo e de mar alto,
testamento não fiz
e nem posso fazê-lo.
1 101
Roberto Pontes
Ode à Cama
Então pode-se ouvir certo ruído
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
O doce farfalhar feito e desfeito
O cálido fluir do ser que é
Fundado sobre o cê e o verbo ama
A lânguida canção. Lida do leito.
Cama em que os filhos fiz
E onde virá baixar a morte
Lugar de amor, viagem, transe.
Oh! entre madeira, verniz e pano
Vai selada nossa vida e nossa sorte.
1 145
Rodrigues de Abreu
Mar Desconhecido
A Batista Pereira
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
Se eu tivesse tido saúde, rapazes,
não estaria aqui fazendo versos.
Já teria percorrido todo o mundo.
A estas horas, talvez os meus pés estivessem quebrando
o último bloco de gelo
da última ilha conhecida de um dos pólos.
Descobriria um mundo desconhecido,
para onde fossem os japoneses
que teimam em vir para o Brasil...
Porque em minha alma se concentrou
toda a ânsia aventureira
que semeou nos cinco oceanos deste mundo
buques de Espanha e naus de Portugal!
Rapazes, eu sou um marinheiro!
Por isso em dia vindouro, nevoento,
porque há de ser sempre de névoa esse dia supremo,
eu partirei numa galera frágil
pelo Mar Desconhecido.
Como em redor dos meus antepassados
que partiram de Sagres e de Palos,
o choro estalará em derredor de mim.
Será agudo e longo como um uivo,
o choro de minha tia e minha irmã.
Meu irmão chorará, castigando, entre as mãos, o pobre
rosto apavorado.
E até meu pai, esse homem triste e estranho,
que eu jamais compreendi, estará soluçando,
numa angústia quase igual à que lhe veio,
quando mamãe se foi numa tarde comprida...
Mas nos meus olhos brilhará uma chama inquieta.
Não pensem que será a febre.
Será o Sant Elmo que brilhou nos mastros altos
das naves tontas que se foram à Aventura.
Saltarei na galera apodrecida,
que me espera no meu porto de Sagres,
no mais áspero cais da vida.
Saltarei um pouco feliz, um pouco contente,
porque não ouvirei o choro de minha mãe.
O choro das mães é lento e cansado.
E é o único choro capaz de chumbar à terra firme
o mais ousado mareante.
Com um golpe rijo cortarei as amarras.
Entrarei, um sorriso nos lábios pálidos,
pelo imenso Mar Desconhecido.
Mas, rapazes, não gritarei JAMAIS!
não gritarei NUNCA! não gritarei ATÉ A OUTRA VIDA!
Porque eu posso muito bem voltar do Mar Desconhecido,
para contar a vocês as maravilhas de um país estranho.
Quero que vocês, à moda antiga, me bradem BOA VIAGEM!,
e tenham a certeza de que serei mais feliz.
Eu gritarei ATÉ BREVE!, e me sumirei na névoa espessa,
fazendo um gesto carinhoso de despedida.
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